por Bia Mies

  • Fluxo e pulso das horas

    “A gente jamais esquece o primeiro relógio.”¹

    “ […]

    As últimas datas, descobertas, invenções,
    sociedades, autores antigos e novos,
    Meu jantar, roupas, amigos, olhares, cumprimentos, dívidas,
    A indiferença real ou fantasiosa de um homem
    ou mulher que eu amo,
    A doença de alguém de minha gente ou de mim
    mesmo, ou ato doentio, ou perda ou falta de
    dinheiro, depressões ou exaltações,
    Batalhas, os horrores da guerra fratricida, a febre
    de notícias duvidosas, os terríveis eventos;
    Essas imagens vêm a mim dia e noite, e partem
    de mim outra vez,
    Mas não são o meu verdadeiro Ser

    […]”²

    Diz se lembrar da pulseira plástica preta que não saía do punho direito. Custou a acostumar com o braço corriqueiro — o esquerdo, socialmente aceito como adequado. À época, ambidestra, ficara encantada com o presente de Natal que uma tia trouxera dos Estados Unidos. À prova d’água. Mostrador digital. Luz azul que possibilitava ver as horas no escuro. Alguns botões, que aprendeu a manusear rapidamente. O apetrecho não saía por nada do seu braço direito. Não se recorda por quanto tempo o tomou por fiel escudeiro — mas sim do quanto o usara. Quando deu por si, já crescera e atingira a adolescência. Pareceu-lhe, então, infantil e um tanto unissex demais. Sonhava com um relógio um pouco mais feminino. Ganhou de aniversário um cássio: pulseira prata com detalhes dourados; mostrador de vidro com fundo branco, números metálicos de ouro e ponteiros que brilhavam no escuro. A caixa prata, internamente acolchoada por um tecido imaculadamente acetinado lhe vem instantaneamente à memória. Tornou-se mulher, por fim.

    Lembra-se de todos os seus relógios de pulso. Assumira desde muito miúda a importância em usá-los. Descolado. Adulto. Detentora do mundo: da altura do pulso, controlava as horas. Era a senhora do tempo.

    [— fato curioso é que nenhum de seus progenitores tinha o costume de portar tais acessórios. Sua memória primeira é de um único relógio de parede creme que encimava a entrada da cozinha de sua casa].

    Nunca gostou de dormir. O escorrer das horas perdia velocidade durante as madrugadas. O pai não dormia cedo; parecia elegante não deixá-lo acordado sozinho. Punha-se a ler, escrever, inventar moda. Ter um relógio de pulso atrelava seu ritmo cardíaco ao ritmo do mundo, no mesmo compasso que o seu. Continha todo o mundo no testemunhar dos batimentos e do passar dos segundos, sob a forma de ponteiros ou de números metamorfósicos a partir de sete tracinhos deitados e em pé.

    E então vieram os amores.

    Cartinhas em envelopes, flores, chocolates, bilhetinhos; recados através de amigos, atravessando salas, corredores, intervalos.

    Ligações de orelhão — obstáculos no meio das calçadas — com cartões comprados em bancas de jornal — outros trambolhos no mesmo plano das ruas. A duração das chamadas era breve. Estar ao telefone era coisa planejada. Precisava-se do cartão. Ou saber ligar a cobrar. O conjunto se números que identificavam um telefone fixo de alguém especial, sabia-se de cor. Para os demais, agendas telefônicas, em papel, depois eletrônicas, com botões e visores iluminados. Internet?

    Tentou fazer um paralelo entre seus amados e os devidos relógios de pulso.

    Seu primeiro namorado usava um modelo preto, não se lembra qual o tipo de mostrador. O relógio não foi primordial, e sim a ligação pelo orelhão poucos dias depois do primeiro beijo no cinema. Ligação via orelhão, se desculpando sem pressa por não ter ligado antes e o convite para sua festa de aniversário, no dia seguinte.

    Naquele tempo, festas de aniversário se davam nas salas das casas: bolo e docinhos granulados, salgadinhos e presentes embrulhados com laçarotes e cartõezinhos.

    Lembra-se de ter contado o tempo antes de bater à porta — não a dele, mas a da vizinha, sua amiga, onde se escondeu por alguns minutos, tremendo da cabeça aos pés. Os ponteiros de seu cássio não refletiam seus batimentos cardíacos: o primeiro descompasso que presenciou nas veias.

    O relacionamento durou o tempo em contagem regressiva iniciada pelo primeiro pedaço de bolo, entregue a ela e a mãe dele. A quase sogra a fuzilou com o fundo do coração. Ela debutou seus quinze anos um mês e meio depois; ele foi seu príncipe por essa noite, apenas. Não usou relógio.

    Depois, o primeiro amor, de fato. Relógio de pulseira metálica no punho esquerdo, como tem que ser. Ligações via celular e telefone fixo, SMS, cartinhas, livros de poesia. Ambos entrelaçavam seus braços automatizados pelos palcos de rua da vida.

    Guarda, em uma caixa, tantas recordações: o spray desodorante dele, que já nem se encontra no mercado — o cheiro que ainda lhe vem às narinas; papéis de bala, chiclete, passagens de ônibus, recibos de pedágio. A aliança de compromisso. O primeiro relógio dele, sem bateria e sem pulseira.

    Ele se foi desse mundo. Seu pulsar, também.

    Ela guarda o esqueleto do que um dia testemunhou o passar de seu tempo em uníssono na Terra.

    Depois dele, passou a usar o cássio no pulso esquerdo.

    Depois dele, um outro — homem de horários móveis. Surgiu de um hiato da infância, primeiro em uma rede social incipiente, depois ao seu lado em um assento de ônibus intermunicipal.

    Passaram a se ver em cronômetros engraçados: falavam-se diariamente; depois semanalmente.

    Mensalmente, após certo tempo. Ele tornou-se caixeiro viajante, numa época em que isso já era demodê.

    Não deixou cartas — um único e-mail, que ela decorou por completo. Ali, agora percebe, decorou o coração com as promessas do e-mail e abriu uma fenda na própria vida: abriu mão das cartas para entrar na era digital; abandonou o cássio de ponteiros e comprou um relógio cujo mostrador apagava-se para poupar bateria.

    Poupou o que, para ela, era importante.

    Dali para frente, foi ladeira abaixo com o tempo e as caligrafias.

    Casou-se com um tipo que portava relógios, mas não pelas horas. Era apenas status. O tempo, ali, não pulsava. Divorciou-se.

    Chegou a reconfigurar seus batimentos com os ponteiros do caixeiro, que deixara de ser viajante e assumira um relógio de pulso, herança de família. O tempo mostrou-se insustentável.

    Hoje, entre redes sociais, agendas repletas de tudo e nada, trabalho que se sobrepõe à vida social real, usa um smartwatch, como deve ser, no punho esquerdo. Pode escolher mostradores com ponteiros, números digitais, fusos horários — e o cacete a quatro.

    Criou um bloqueio com ponteiros. Leva segundos para responder, para si mesma e para quem lhe pergunta as horas, o tempo real daquelas agitadas três espadinhas inquietas. Do mesmo modo que se perde entre direita e esquerda se não move discretamente a mão com que escreve, pois perdeu a habilidade de escrever com ambas.

    Também mandou para as cucuias seus amores.

    Ainda assim, sonha com alguém que faça o tempo desacelerar. Como se ponteiros voltassem a fazer sentido. Como se direita e esquerda deixassem de ser um bicho de sete cabeças, mesmo que com sete pauzinhos dançantes formadores de todas as horas. O relógio — agora inteligente — não se vincula mais aos batimentos , embora literalmente os meça. Ela tira o relógio à prova d’água para entrar no mar.

    Continua senhora do próprio tempo. Nunca mais escreveu ou recebeu cartas.

    Passou a conter as multidões nos pulsos. Os batimentos que o relógio mede

    Tum tum
    Tum
    | dois
    Tum | três
    […]

    As mensagens que chegam
    [“Você tem novas notificações de mensagens”]

    , os ponteiros e os metamorfósicos números malabaristas de sete traços passaram a segundo plano; as cartinhas passaram a um plano outro, qualquer.

    Ainda assim, jamais esqueceu seus primeiros relógios.

    Na lembrança – ou no objeto, em si – tudo parece mais nosso:

    Mais palpável.
    Mais pulso.
    Mais real…

    Menos ‘digi-`
    Menos nomes descompassados pela metad.
    Menos fulano-de ‘-tal’.


    Notas de rodapé
    ¹ A outra História, romance da escritora franco-britânica Tatiana de Rosnay, publicado originalmente em francês sob o título Boomerang.
    ² Canção de mim mesmo, (Song of Myself), considerado marco da poesia moderna, escrito por Walt Whitman, publicado pela primeira vez em 1855 como parte da coletânea Leaves of Grass.

  • Reintegração das águas em si: páscoa

    — Onde estamos?
    — Não muito longe do seu destino.
    — Parece faltar muito… Essa viagem é infinita,mamãe…
    — Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, em relação ao universo, ainda não tenho certeza absoluta.
    — Você é muito filosófica, mãe.
    — Eu não inventei isso. Foi o Einstein. Albert Einstein.
    — Ele é bom de…
    — Bond. James Bond.

    Dez a doze músculos da face contraíam-se antes de terminar a frase. Sempre antes. O puxar dos cantos da boca que seguem as contrações ao redor dos olhos. Como se soubesse o fim e ainda assim quisesse brincar de caminho. Os sorrisos iam dos olhos à boca, atravessando os rostos, por inteiro. Como a chuva fazia no vidro do automóvel em movimento.


    As chuvas a atravessam sem pedir licença. Transportam-na — não de todo, nunca de todo — para cenas de sua infância: viagens de carro, a voz da mãe inventando mundos no meio da estrada, pequenos jogos de linguagem que não tinham regra fixa, só as duas e seus sorrisos desanuviados. A aurora de dias que não mais retornam, mas teimosos, não se vão completamente.

    A chuva não passa impune em sua vida. Nunca passou.

    A coisa mais impressionante sobre as gotas d’água é que elas sempre buscam o caminho mais facil.

    ” — Nós, seres humanos, não”.

    De quando em quando, nada melhor do que degustar uma chuva – se houver possibilidade de ser por uma varanda, melhor ainda. As gotas parecem maiores quando mudamos a perspectiva e olhamos por baixo delas.

    Caem com força nos olhos.
    nos cabelos
    na pele

    escorrem…

    Sentimos o impacto. Fechamos
    instantaneamente os olhos.

    respingam os pingos que batem no parapeito de
    pedra e ricocheteiam em nós

    Marise, debruçada em sua varanda no sétimo andar, vê o correr das pessoas para debaixo das marquises, ou armadas com seus guarda-chuvas apontados para o céu e… pump! Mais uma mancha arredondada escondendo pessoas, sacolas, crianças, pets e quaisquer tipos de sortilégios… Guardam-se, todos, da chuva. Não guardam a preciosidade do momento.

    As folhas das árvores balançam com o gotejar celeste. Marise ouve, talvez não se atentem os passantes, sequer os que se abrigam, os pássaros cantando, bem perto de todos. No topo das copas mais altas que o seu prédio, vislumbra espécimes solitários tentando proteger as penas sob diminutas aglomerações de folhagens esparsas. Cantam para avisar aos outros da revoada que ali ainda não é abrigo. Um repete o
    canto, em outra copa. E outro. E outro…

    As gotas caem.

    Sempre caem pelo caminho mais fácil.
    Se deixam abraçar pelas forças gravitacionais.
    Não hesitam: nada há de complexo nas chuvas.

    Talvez por ser da serra, e por faltar o mar e a vista do mar, Marise cultive um fascínio imenso pelas tormentas. Deixa-se molhar pelas tempestades; é seu ritual de fora para dentro. Respira ouvindo apenas o rumor alto tecido por gotas tão pequenas.

    Paz.

    É, para ela, quase a exata sensação de mergulhar no mar. A diferença é que é um movimento mais seu estancar-se à chuva, braços e coluna relaxados, rosto virado para o céu. Mais familiar. Menos salgado.

    Combina com as lágrimas que jorram de quando em quando. Quando chove, Marise não chora. Poupa suas águas, que já sabem o menor caminho dentro de si.

    Deixa-se banhar, um pouco mais, pelas lágrimas dos deuses…

    Há um certo privilégio em tomar um banho de chuva num pequeno pedaço de seu próprio abrigo.

  • curvas, exclamações tesas e duplos olhos castanhos

    Pela primeira vez percebo as curvas orgânicas da fechadura que sustenta a chave da porta mais usada do meu armário, enquanto uma música conhecida reverbera pela caixa de som. A cortina de linho, fina, balança em câmera lenta, descortinando aos vizinhos — imersos em suas rotinas — a intimidade do meu corpo quase nu sobre a cama. Sinto olhares sobre mim, mas não vêm de fora; repousam baixos, quietos, sem pressa.

    Entre pensamentos, me perco, até que os acordes me trazem de volta.

    Quase desconhecidos, de uma canção que me é tão íntima.

    Insinuam-se instrumentos distintos, me puxando à pergunta: será mesmo essa música? ou eis que se desmancha, trocando a profundidade dos baixos e das guitarras por um pulso leve, desses que desconcertam as pálpebras, quase um chamado de xilofone para ninar?

    “sempre em frente…” — minha voz interna ensaia acompanhar o som — doce, familiar e, ao mesmo tempo, tão estranho — de algo que já não sei nomear. A melodia segue, e não. Algo em mim a suspende, feito estátua, por um instante. O cômodo parece recusá-la, e ela, a música, oportunista, se infiltra nesse hiato intangível, fazendo-se materialidade no vazio que me envolve.

    — Um quarto — meu por anos, alugado, com mobílias fixas que nunca escolhi. Mobílias castanhas, como a cor dos olhos que a música traz às minhas retinas.

    Tempo estancado, suspenso, quase palpável no espaço inexistente por onde minha respiração desfila seu ensimesmamento. Numa quinta-feira qualquer, em pleno horário comercial, sigo com os olhos, ainda deitada, o caminho desenhado por diminutas formigas.

    Desfazem as rotas que elas mesmas tecem, antes tão precisas sobre o corpo inerte de uma libélula. Há uma vigília silenciosa embaixo da minha cama.

    Peso morto no limite da minha esquadria — entre o de fora (minha varanda, o canto dos pássaros, o frenesi dos pneus) e o interno (a poeira da casa casada aos pelos brancos, a lâmina desbotada do piso; culpa da luz do sol, insistente, independente do humor celeste).

    Inerte, numa última postura de elegância, um ponto de exclamação ao revés. Asas indecifráveis — como o motivo de sua morada final, meu canto.

    Asas translúcidas, perfuradas. Linhas pretas, tão orgânicas quanto a chave suspensa na fechadura, há pouco mais de um metro acima do corpo do inseto — antes manjar de formigas; agora… procissão respeitosa?

    !

    Ritual orgânico, suspenso, leve. Já não respira — e ainda assim, persiste.

    Assim como o castanho do armário, o castanho daquele que habita minhas retinas — e que, por reflexo e extensão, também se fazem castanhas.

    A tempestade que chega é da cor desses olhos — quentes, atentos — que me observam do chão, em silêncio, entre os pelos que rolam por sobre o piso, como se guardassem o mundo para além do que o faro pode traduzir.

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