— Onde estamos?
— Não muito longe do seu destino.
— Parece faltar muito… Essa viagem é infinita,mamãe…
— Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, em relação ao universo, ainda não tenho certeza absoluta.
— Você é muito filosófica, mãe.
— Eu não inventei isso. Foi o Einstein. Albert Einstein.
— Ele é bom de…
— Bond. James Bond.
Dez a doze músculos da face contraíam-se antes de terminar a frase. Sempre antes. O puxar dos cantos da boca que seguem as contrações ao redor dos olhos. Como se soubesse o fim e ainda assim quisesse brincar de caminho. Os sorrisos iam dos olhos à boca, atravessando os rostos, por inteiro. Como a chuva fazia no vidro do automóvel em movimento.
As chuvas a atravessam sem pedir licença. Transportam-na — não de todo, nunca de todo — para cenas de sua infância: viagens de carro, a voz da mãe inventando mundos no meio da estrada, pequenos jogos de linguagem que não tinham regra fixa, só as duas e seus sorrisos desanuviados. A aurora de dias que não mais retornam, mas teimosos, não se vão completamente.
A chuva não passa impune em sua vida. Nunca passou.
A coisa mais impressionante sobre as gotas d’água é que elas sempre buscam o caminho mais facil.
” — Nós, seres humanos, não”.
De quando em quando, nada melhor do que degustar uma chuva – se houver possibilidade de ser por uma varanda, melhor ainda. As gotas parecem maiores quando mudamos a perspectiva e olhamos por baixo delas.
Caem com força nos olhos.
nos cabelos
na pele
escorrem…
Sentimos o impacto. Fechamos
instantaneamente os olhos.
respingam os pingos que batem no parapeito de
pedra e ricocheteiam em nós
Marise, debruçada em sua varanda no sétimo andar, vê o correr das pessoas para debaixo das marquises, ou armadas com seus guarda-chuvas apontados para o céu e… pump! Mais uma mancha arredondada escondendo pessoas, sacolas, crianças, pets e quaisquer tipos de sortilégios… Guardam-se, todos, da chuva. Não guardam a preciosidade do momento.
As folhas das árvores balançam com o gotejar celeste. Marise ouve, talvez não se atentem os passantes, sequer os que se abrigam, os pássaros cantando, bem perto de todos. No topo das copas mais altas que o seu prédio, vislumbra espécimes solitários tentando proteger as penas sob diminutas aglomerações de folhagens esparsas. Cantam para avisar aos outros da revoada que ali ainda não é abrigo. Um repete o
canto, em outra copa. E outro. E outro…
As gotas caem.
Sempre caem pelo caminho mais fácil.
Se deixam abraçar pelas forças gravitacionais.
Não hesitam: nada há de complexo nas chuvas.
Talvez por ser da serra, e por faltar o mar e a vista do mar, Marise cultive um fascínio imenso pelas tormentas. Deixa-se molhar pelas tempestades; é seu ritual de fora para dentro. Respira ouvindo apenas o rumor alto tecido por gotas tão pequenas.
Paz.
É, para ela, quase a exata sensação de mergulhar no mar. A diferença é que é um movimento mais seu estancar-se à chuva, braços e coluna relaxados, rosto virado para o céu. Mais familiar. Menos salgado.
Combina com as lágrimas que jorram de quando em quando. Quando chove, Marise não chora. Poupa suas águas, que já sabem o menor caminho dentro de si.
Deixa-se banhar, um pouco mais, pelas lágrimas dos deuses…
Há um certo privilégio em tomar um banho de chuva num pequeno pedaço de seu próprio abrigo.