Quarta-feira

  • Ano-Novo

    Ano-Novo. 2026 está aí. Caminho em direção à casa de meus pais, solitário. Como moro a cerca de duas quadras, resolvi ir a pé. O sapato esquerdo aperta, por conta do joanete, que quase expõe o osso para fora. Caminho devagar, para amenizar a dor. Penso: por que não fiquei em casa? Não gosto de réveillon. Poucas festas me agradam. Não acredito que alguma simpatia vai mudar o nosso fado. Preciso ver os meus pais, então continuo olhando para o chão. Esbarro num morador de rua. Ele estava em pé ao meu lado, embriagado. Pediu cigarro e dinheiro, para comprar cachaça. Gostei da sua sinceridade. Dei dois contos e dois cigarros que tinha no bolso da camisa amarela enferrujada. O homem falava embolado, mas percebi que me abençoava: “Deus… Deus… Deus”. No segundo quarteirão encontro a cachorrinha de dona Ermínia. Como ela veio parar aqui? Bem fugiu de casa, num descuido da velhinha. Coloquei-a no braço. Teria de levar a bendita cachorrinha para a passagem de ano. Que sina essa minha; esse tipo de “aventuras” parece que só acontece comigo. Num instante, as luzes se apagaram. Poucos carros circulavam. Dois minutos de pleno apagão. Parei um pouco a caminhada, para não me atrapalhar. Fiquei com medo de assalto ou algo do tipo. E o pior, só tinha o meu celular no bolso, o qual, eventualmente, usaria para mostrar a minha identidade à polícia ou fazer algum pix. Logo voltou a iluminação pública, embora meio capenga. Faltar energia na virada de ano não é bom presságio, diria Ronaldo, meu amigo, se estivesse vivo. Caminho ainda mais devagar. Meu pé parece estar em carne viva – é como eu o sinto. Avisto a casinha de meus pais. Adianto o passo para chegar na hora combinada, às 22h45min. Pego a chave no bolso. Abro a porta e entro. Ligo as luzes. Espero, na cadeira empoeirada, a presença de meus pais. Eles chegam radiantes. São dois anjos, vislumbrei, afinal foram e são almas puras. Minha mãe se senta ao meu lado. Pergunta sobre as minhas dores. Diz que vai interceder a Deus para melhorar. Meu pai fica em pé, admirando a nossa conversa. Ele ainda me recrimina por ter vindo passar o Ano-Novo com eles e não com a minha família, com meus filhos. “Papai, foram todos para lugares diferentes, não tem como juntar aqueles capetinhas”. Minha mãe me recriminou por ter chamado seus netos de capetinhas. Já se escutam os fogos. O ano vira. Fico quieto com meus pais. Abraço-os de um jeito infantil, como se pedisse colo, como se fosse o pequeno Nando, como sempre me chamaram quando menino. Minha mãe diz que tem de ir, e meu pai a acompanha. Marina, minha ex-esposa, pergunta por que não vendo a casa, depois da morte de meus pais. Ela não tem ideia do que acontece aqui. Só eu sei o poder que esse lugar mágico tem.

  • Inferno

    Numa terça qualquer, à tarde, sol a pino, estavam todas as roupas estendidas no varal. Salete tirou tudo o que já enxuto, para que, quando o marido chegasse do trabalho, estivesse tudo arrumado. Jonas não gosta de bagunça. Salete sabia desde o dia em que se casou. Mudança brusca de comportamento. E eles ainda foram morar em outra cidade, longe dos familiares e dos amigos. Salete conheceu quem era o Jonas de verdade, o abusador. Ameaças e pequenos bofetes passaram a ser corriqueiros. Elementos para o emprego da submissão. Estupro era o que Jonas praticava todas as vezes em que Salete dizia “Não!” – e todas as vezes ela dizia não, e isso parece que servia somente para amadurecer a fúria do carrasco. Daí, Jonas aplicava os mesmos métodos às suas filhas, Julia e Ana. Não saiam de casa, a não ser para ir à escola. Para Salete, o alerta era expresso: “Sair só para o supermercado, porque odeio fazer compras… Ir num pé e voltar noutro!”. Salete estava exaurida da vida que levava, só para servir ao seu carrasco. Muito mais quando via o sofrimento das filhas, apavoradas com medo de serem mortas numa investida radical do mal. Salete alimentava dia sim, dia também, a coragem para livrar principalmente as pequenas indefesas. Juntas, desenharam a vingança; queriam se libertar e acabar com Jonas, literalmente. Passaram a oferecer-lhe sopa todas as noites, tudo do bom e do melhor, com pitadas de veneno (água sanitária), para que sofresse e morresse aos poucos. Jonas não resistiu: no terceiro mês, morreu de infarto, já com graves problemas nos intestinos. O corpo estava em frangalhos de tanto vomitar e sentir dores. Evacuava sem cessar. Já não conseguia trabalhar. Salete, Julia e Ana se regozijavam do resultado do plano. O homem foi enganado pela falsa docilidade das mulheres, que, nesse período, passaram a fazer tudo o que ele mandava. Mas Jonas não tinha forças para mandar. Era um fantoche, agora, nas mãos da redentora. Ela nunca imaginou que isso seria possível. Contudo, para a desesperança geral, uma autópsia detectou a causa mortis. Salete foi presa, e as filhas menores passaram a ser tuteladas pelo Estado. No primeiro encontro, depois da prisão de Salete, abriram sorrisos largos e se congratularam, com o olhar, pela liberdade de que agora podiam disfrutar, que já era demais, ainda que Salete estivesse sob as grades. Após o julgamento, no tribunal do júri, Salete foi inocentada, por justamente ter defendido a dignidade e a sobrevivência de sua família diante de um grande criminoso, que por anos praticou as mais absurdas brutalidades. Somente então puderam curtir uma verdadeira vida familiar e descartaram, eternamente, a ideia de qualquer homem passar os seus muros. Homem era sinônimo de desventura. Salete batia na boca quando tinha de falar o nome do falecido. Desejavam que ele ardesse no inferno – o que supostamente era crível.

  • A dor do outro

    Almir não tinha escrúpulos. Abusava de nossa mãe de todo jeito. Quase a deixou na falência e a induziu à morte. Sempre foi um cara problemático. Quando nosso pai era vivo, aí, sim, ele tinha certo respeito. Nessa época, não vilipendiava o lar sagrado. Papai impunha moral, colocando-o rente ao chão, se preciso fosse, para entender o sentido de ter uma família. Se chegava bêbado, dormia na varanda, enrolado em trapos, para aprender. E não foram poucas as vezes que aconteceu isso. Papai sofria, silencioso, para não demonstrar fraqueza, mas no seu íntimo se doía de tamanha irresponsabilidade do único filho homem. Perguntou a mim, chorando, o que teria feito para Almir desandar na vida; pagara os melhores colégios… – teve, de fato, uma educação exemplar, mas, quando se tornou adolescente, começaram os problemas na escola, inclusive com a vizinhança, que reclamava de pequenos malfeitos. Papai morreu de desgosto, decerto, com o coração dilacerado; sofreu um ataque fulminante, que não houve tempo sequer de tentar uma reanimação. Nessa hora, como em todas as outras problemáticas, Almir não estava presente para ajudar. Tentamos de tudo, para que se livrasse das drogas, mas ele dizia que era algo resistente, entranhado, que nunca conseguiria abandonar o vício. O grande mal é que roubava as coisinhas de mamãe, que juntou com tanto sacrifício, para vender ou trocar por droga. A casa de mamãe estava totalmente desabitada de coisas; era um vão oco e infernal. Eu mesma não me sentia bem em visitá-la; o ambiente era catastrófico, que humano nenhum poderia resistir, exceto mamãe, que não queria sair. Almir, em seus acessos de loucura ou de abstinência, já chegou a agredi-la. Tenho pena de mamãe, que não quis de jeito nenhum largar a casa, alegando que, se saísse, o filho tomaria de conta com os comparsas da vagabundagem. E é verdade, Almir já tentou expulsá-la para ocupar o lugar com seus “amigos”. Como sou cristã, ao mesmo tempo tenho pena do Almir; ele estava endemoniado. Já conversei com ele sobre Jesus e ele me mandou para “aquele lugar”. Tenho a esperança de que alguma palavra tenha semeado o bem em seu coração, e que ele tenha se arrependido dos malfeitos. No final de semana, Almir foi morto da pior forma, encontrado numa viela perto de casa. Corpo estendido no chão. Tinha inúmeras escoriações, resultado de brigas ou coisa do tipo; ou mesmo morto a pauladas. Havia um rombo enorme na cabeça. Poderia estar devendo aos traficantes. Nunca saberemos. Que dó! Nessa hora cheguei a pensar em quantas oportunidades meu irmão teve na vida, mas preferiu recusá-las; ou não foi forte o bastante para recusar. Pelo menos, parou de sofrer e de trazer dor de cabeça à mamãe. Pena, muita pena, do pobre Almir, que viveu para sofrer.

  • Peregrinação

    Nikita mandou o recado por Leozinho. Disse que queria me ver morto. Leozinho pediu para eu tomar cuidado, porque o velho Nikita é brabo e vive ameaçando o povo. Mas não sei o porquê dessa desavença toda. Nikita mal me conhece, exceto pelas andanças no bairro. E olhe que mal ando no bairro, a não ser para ir ao trabalho e comprar alguma coisa na bodega do senhor Assis. Evito passear com os meus filhos, porque a pracinha, à tarde ou à noite, é ambiente escuro e arriscado; há bastante consumo de droga e malfeitos, como pequenos furtos. Melhor não dar sorte para o azar. Tenho evitado visitar a minha mãe, que mora num bairro próximo, porque ambos os lados não estão para brincadeira. Antes de comprar o imóvel, conversei com uma porrada de amigos, e eles foram unânimes em dizer que não era uma boa; que, para chegar num bairro assim, do nada, deveria ter contato com alguns moradores, para ser protegido. Pequei, como sempre peco, com a minha ansiedade, com a minha vontade acaçapante. Sou um cara impulsivo, devo admitir. Já entrei em algumas roubadas, fazendo negócios escusos, não por minha culpa (achava que tudo isso era normal), mas porque era influenciado para ganhar dinheiro fácil vendendo motos adulteradas. Felizmente nunca fui pego pela polícia. Saí do ramo quando Roberval foi preso, por receptação de moto roubada. O pobre do meu amigo comeu o pato sozinho, e senti uma sensação forte de me entregar, mas não consegui pela covardia, e porque pensei nos meus filhos e na minha esposa. Voltando à nova morada, quando cheguei aqui, Nikita só me olhava atravessado, botando a mão no cós das calças, dando a “sugesta” de estar armado. Ele me colocava no outro extremo do bairro, como se me enxotasse só no olhar; sentia ódio a mim. Sei que Nikita é um velho policial, com fama de matador – Leozinho me informou com detalhes, e eu fiquei cabreiro por dias, sem dormir direito, porque o cara é, além de mau, frio. Depois da pandemia e da aposentadoria, o dito cujo montou uma bodega, mas nunca pisei lá, claro – e nem pisaria nas minhas piores necessidades. Sei que o sujeito não gosta de mim, não quero afrontar. Ainda fico matutando pra saber o que eu fiz para ser perseguido. Leozinho, meu vizinho, diz que “eu tenho as coisas”, carro, moto, e o velho é invejoso. Além do mais, o que me dá medo, é que parece ser metido em milícia e quer ser o dono do bairro. Segundo Leozinho, volta e meia ele cobra uma cota de “segurança” do bairro – ainda não fui atingido. Vou me adiantar e pegar o beco, antes que seja tarde demais. Terei de vender a casa, que ainda estou pagando. Era meu sonho ter uma casinha como a minha. Não posso botar a vida da minha família em risco. Devia ter averiguado essas coisas antes, mas não conhecia ninguém aqui. O fracasso é a pior das sensações. Estou sendo, veladamente, mandado embora, sob o risco de perder a vida. Melhor sair e viver em paz.

  • Beleza

    Naiana não me deixa em paz. Quer que eu mude de vida. Mesmo sabendo que ando muito sedentário, não tenho o menor interesse de ir à academia. Ela chegou a me levar três vezes. Para mim, que tenho autismo, nível de suporte um, é algo arrasador ter de lidar com aquela multidão de gente descolada, revezar máquina, ter de escutar músicas horríveis – levei um fone tapa-ruído, mas não teve o menor efeito ante a descarga de som eletrônico. Bati o pé e disse, novamente, que não iria mais. “Mas você já tem quarenta e três anos, Alberto!”, vem ela com a sua repetida argumentação. Não sou obrigado a fazer academia, mas, me exercitar, sim. Botei na cabeça de comprar uma bicicleta ergométrica, para fazer exercícios em casa, e me matricular no Pilates. A verdade é que ainda não tive tempo de ir ao Pilates. Sempre as prioridades me atulham, tanto do trabalho quanto da minha vida acadêmica, de pesquisador. Não tenho muito tempo. Ainda dou atenção, de muito bom grado, ao meu filho Albertinho, que agora completou seis anos. Estou consciente de que devo mudar, a “catatonia” tem me colocado cada vez mais no buraco da depressão. Compreendo, agora, que o corpo foi feito para se movimentar, como faziam os nossos antepassados Neandertais, em suas caçadas para se alimentarem. Mas ruim, ruim mesmo, é ter de ouvir as queixas de Naiana, que, segundo ela, dentro de vinte quatro horas sempre há tempo para “treinar”. Não minto quando digo que Naiana é um exemplo. Por ser mãe e trabalhar dois expedientes, é uma guerreira, de quem eu me orgulho bastante. Mas esta semana ela me veio com outra ideia singular, para tirar a minha cara dos livros. Naiana me impôs sete dias de beleza. O que isso significa? Contemplação. Olhar os mínimos recursos naturais e encontrar graça mesmo numa caixinha de fósforo, que Naiana pega para transformar em arte – de fato, uma bela arte, que ela junta para dar ao nosso filho, e assim também o orienta a fazer. Naiana é inventiva, e coloca nosso filho para pensar, o que é grande coisa. Eu mesmo, ocupado com as minhas atividades, tenho feito o trivial para Albertinho, e isso me pesa, pois desejo ser lembrado, mais lá na frente, como um pai participativo e brincalhão. Não quero que meu filho reclame da minha ausência. Por ele tenho percebido o mundo, em suas minúcias, como tem, também, me norteado Naiana… Por último, ela veio com a novidade de pedir que eu olhe o mundo com olhos de criança. Talvez pelo fato de eu reclamar muito da dureza do dia a dia. Falou-me de Manoel de Barros e suas delicadezas. Tenho visto coisas fascinantes. Já não sou mais o mesmo, felizmente. Pequenos gestos me fazem chorar. Naiana tem razão. E agora tenho para mim que serei um simpático ermitão.

  • A tragédia dos pitbulls: o que ainda podemos fazer?

    Durante muito tempo, sempre que a mídia destacava um ataque envolvendo pitbulls, sobretudo quando havia feridos graves ou mortes, eu me via quase instintivamente na defesa da raça, devolvendo a responsabilidade aos donos. Essa convicção, de fato, não se alterou. No entanto, diante da sucessão de episódios recentes, muitos deles de extrema gravidade, incluindo o ataque mais recente a uma criança de quatro anos que perdeu a vida, sinto-me obrigado a revisar e aprofundar o meu posicionamento.

    Não deposito culpa no cão, jamais. Mas é inegável que a raça entrou num estágio crítico provocado pela irresponsabilidade de alguns donos. Eu não gostaria que tivéssemos chegado a este ponto; era para termos mais controle sobre tantas tragédias. A realidade, contudo, se impõe. E ela exige que abandonemos certas ilusões regulatórias: não adianta criar novas leis quando não existe fiscalização capaz de sustentá-las.

    É verdade que qualquer apaixonado pela raça pode desejar ter um pitbull. Mas desejar não é o mesmo que estar preparado. A raça demanda conhecimento, equilíbrio emocional, senso de responsabilidade e humildade para aprender. Como treinador, reafirmo o que sempre disse: um cão só se torna perigoso quando cai nas mãos de pessoas despreparadas, muitas delas movidas por vaidade, impulso ou fantasia de poder.

    Sempre defendi que todo interessado em ter um cão da raça deveria obrigatoriamente passar por um treinamento sério, capaz de oferecer compreensão real sobre o temperamento, as necessidades e os riscos envolvidos. Hoje, reconheço que isso não basta. É preciso algo mais: leis mais rigorosas, fiscalização presente, punições claras e multas severas para quem desrespeitar as normas.

    O problema — e aqui se revela uma ferida antiga — é que a fiscalização raramente alcança os criadores clandestinos. É nesse subterrâneo que a raiz do desastre se instala. Ali, multiplicam-se cães sem critério, sem ética, sem qualquer responsabilidade. Enquanto isso, os criadores sérios, que trabalham com transparência e compromisso, acabam carregando um peso que não lhes pertence. No Brasil, infelizmente, a lógica costuma ser essa: pune-se quem faz certo, ignora-se quem faz errado.

    E quem perde com isso? Perde o cão, que não tem voz para se defender. Perde a raça, marcada injustamente por estigmas que não nasceu para carregar. Perde a sociedade, que desperdiça a chance de aprender com as tragédias e impedir que se repitam. Perdem também aqueles que sempre amaram o pitbull com consciência, respeito e responsabilidade. Se existe algo a salvar, começa por admitir o óbvio: o problema não é o pitbull. O problema é o caminho torto que alguns humanos insistem em trilhar.

    É por isso que deixo aqui um alerta que não nasce de teorias, nem de exageros, tampouco de histeria coletiva. É constatação dolorosa de quem convive com cães todos os dias: estamos colocando o pitbull à beira de um abismo que ele não cavou. Se continuarmos tratando a raça como vilã, permitindo que criadores clandestinos se multipliquem impunemente, entregando cães potentes a pessoas despreparadas e fingindo que leis sem fiscalização resolvem alguma coisa, teremos um fim irreversível.

    O pitbull precisa de nós agora. Não de capas de jornal inflamadas, nem de discursos vazios, muito menos de ondas de ódio ou de um sensacionalismo que o confunda com qualquer outro cão de cabeça larga e focinho profundo. Isso, sim, é injusto. O que ele precisa é de responsabilidade, educação, vigilância e coragem pública para enfrentar o problema onde ele realmente nasce.

    Se nada for feito, poderemos ter mais mortes. Ou perderemos a chance de corrigir um erro que não é deles. Este texto é, ao mesmo tempo, um alerta e um pedido de socorro. Salvemos a raça antes que a ignorância a condene definitivamente.

    Menino de quatro anos morre após ser atacado por pitbull na zona norte do Rio
  • De(i)vaga(R)ções sobre o surgimento de um novo líder no Morro(?) do Pau(?) da Bandeira – Sobre falar o óbvio(?)

    Brevíssimas considerações iniciais: Antes de iniciar esse texto, eu peço licença a você (leitor) para que possa fazer uma breve diferenciação semântica entre dois temos. Sei que a pressa dos dias atuais torna essa introdução chata, mas considero que esse movimento inicial pode enriquecer sua leitura. Dito isso, segundo o Dicio, o termo devagar significa: “De maneira lenta; que não possui nem apresenta pressa; vagarosamente”. Já divagar: “Vagar; caminhar sem destino certo: divagava pelas ruas vazias”. Esses não são os únicos significados destes termos, mas, para o intuito desse texto, são os necessários. Dito isso, vamos ao que interessa (?!).

    Na última semana do mês de outubro do ano de 2025, o Brasil teve um grande acontecimento. Para quem está achando que se trata do jogador Vinicius Junior assumindo a influencer Virginia como nova namorada, sinto dizer que você está errado.

    Na verdade, o que realmente causou polêmica, e ajudou a dividir ainda mais o país, foi a chamada megaoperação nos Complexos do Alemão e da Penha na cidade do Rio de Janeiro. Como alguém que gosta de acompanhar a reação das pessoas nas redes sociais, tenho percebido que existem defensores e críticos da operação. Não entrarei nesse detalhe, mas queria chamar atenção para um outro ponto, o aumento astronômico da popularidade do secretário de Polícia Civil Felipe Cury. Será que estamos diante do surgimento de um novo líder?

    Quando penso sobre essa pergunta, minha mente musical leva logo a canção “Zé do Caroço”, composição da incrível Leci Brandão. Quem conhece a letra sabe que nela a compositora se refere ao surgimento de um novo líder. Curiosamente, a primeira lembrança visual que tenho deste samba é do filme “Tropa de Elite 2”. Para quem não se lembra, no filme, quando o líder da milícia em uma comunidade vai receber políticosn para fazer campanha eleitoral, essa é a música que é tocada. Enquanto ela toca, o “dono da localidade” dança com uma pistola em punho escancarando todo o seu poder.

    Agora, precisamos voltar a falar sobre Felipe Cury. Um homem que, na última semana deu declarações como: “O traficante não é vítima da sociedade”, “o traficante outro dia passou a ser vítima do usuário” (Em clara alusão a uma fala recente do presidente Lula), “o policial está sendo tratado como vilão”, dentre muitas outras. Ele chegou até mesmo a levantar a hipótese de que corpos apareceram decapitados por obra dos próprios moradores. No entanto, o que mais assusta é o uso do termo “adolescentes apreendidos” e “bandidos neutralizados”. Assustador, não? (!?!) As falas têm um objetivo claro de desumanizar pessoas. Quando isso acontece, é fácil justificar mortes. A pergunta é, quem serão os próximos a sofrerem desumanização? A lógica do inimigo não possui limites. É ai que mora o grande perigo.

    Todo o ocorrido a que me referi anteriormente, obriga ao exercício esquisito de explicar o óbvio (?). Aliás, em tempos de pós-verdade, eu nem sei mais se é possível falar que essa palavra existe. Infelizmente, o Brasil é um país em que as pessoas não foram preparadas por meio de uma educação crítica, isso gera uma série de problemas facilmente visíveis e perceptíveis hoje em dia. Não ficarei falando sobre esse assunto, mas aproveitarei para comentar sobre outro que é tema deste texto. Antes disso, é preciso deixar algo bem claro.

    Imagino que, depois de falar tudo o que disse até agora, já posso ser rotulado, por alguns, como “defensor de bandidos”. Por isso, quero deixar claro que considero que o combate ao crime organizado deve ser uma das principais prioridades do governo brasileiro atualmente. Também que eu não acho que um traficante seja totalmente uma vítima da sociedade (embora ache que o tráfico nas favelas é diretamente derivado de problemas sociais. Para essa conversa vocês já estão preparados?). Não acho também que o policial é um vilão. Acho a polícia, embora tenha hoje muitos problemas, fundamental para a garantia da segurança. Enfim, são muitas coisas que, apesar de obvias, precisam ser faladas. Apesar de saber que esse exercício é inútil, pois quem quer rotular o fará por puro ato de má-fé.

    Dito isso, precisamos falar sobre Direitos humanos (Tá defendendo? Então leva um bandido pra morar na sua casa!). É muito interessante que, ao contrário dos mortos nos conflitos, essa palavra foi “humanizada”. Quem nunca ouviu alguém dizer: “Daqui a pouco vem o Direitos Humanos aqui pra defender“. Ou seja, além de humanizado, o conceito se tornou uma espécie de Geni que, tal qual a da música, foi feito para apanhar e para se cuspir. A pergunta é, qual o intuito de humanizar ou desumanizar algo? Na prática, pedras são jogadas ou tiros são dados sem que ao menos se dê chance de defesa.

    Aliás, quando se fala em direito de defesa, estamos falando na condição que difere (ou pelo menos deveria diferir) o Estado do poder paralelo. O tráfico não respeita as leis, ele executa por possuir poder. Esse poder, certamente, leva a uma série de injustiças. É por conta dessas injustiças que o Estado Democrático criou um mecanismo que permite a todo mundo se defender antes de sofrer uma pena. Mesmo que alguém seja culpado, é importante que responda dentro dos limites da lei. Se não, o que garante que, no futuro você (cidadão de bem) não pode ser vítima de uma injustiça do estado? Infelizmente, ninguém está alheio a isso.

    É por esse motivo que, às vezes, por mais absurdo que seja, precisamos defender as leis e o Estado Democrático de Direito. Da mesma forma que precisamos combater o crime e valorizar nossos policiais, médicos, enfermeiros, professores e tantas outras profissões dignas. Essa defesa é inegociável e não podemos renunciar a ela.

    Quanto ao personagem inspirador desse texto, vou esperar para ver se ele realmente se tornará uma nova figura política desse país. Agora, recorrendo mais uma vez a um mestre da música brasileira e, especialmente, do samba, acho que é preciso divagar devagarinho (com o perdão da alteração na letra) para que não voltemos a alçar ao posto de heróis figuras que o Brasil (e principalmente os cariocas) já estão cansados de conhecer.

    *As ideias expressas pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não refletem necessariamente o posicionamento do portal Crônicas Cariocas, que preza pela liberdade de expressão e não interfere no conteúdo de seus colaboradores.

  • Apocalipticamente

    “Subverter a ordem, apocalipticamente!”. Foi assim que Luan nos apresentou, numa conversa desleixada, “o projeto”. Devíamos chocar, como os Mutantes e Secos e Molhados – indicou-nos, inclusive, as referências, que eu nem conhecia. Não vou mentir: tive medo. Agarrei-me a certos exageros para continuar. Já tocava e queria tocar mais. Era o baterista do colégio e tinha, inclusive, o meu fã-clube. O sonho era viver de música, “da minha arte”, e esse era o medo de meu pai, que queria me afastar da vida mundana, me colocando, forçosamente, na trilha dos estudos: “Ou estuda, ou nada!”.

    Luan era nosso líder e queria uma banda de rock subversiva, “apocalíptica”. O nome da banda, obviamente, já estava dado, era “Apocalipse Now”. A divisão de tarefas foi feita no ato da primeira reunião, no parquinho, enquanto espantávamos as crianças que queriam se divertir. A única certeza era a de que eu ficaria na bateria, pela lógica. Luan queria ser vocalista e guitarrista, como Max Cavalera, mas, infelizmente, não tinha a voz rouca – e falava que, para ser igual ao seu ídolo, teria de “esfarrapar” as cordas vocais, com muito cigarro. Só que ele não conseguia fumar; tossia e ficava doente, ficava doente e tossia. Junior foi para o baixo, e Marcos para a guitarra solo. Os nossos ensaios eram, no começo, no salão de festas. Alguns seres sobrenaturais apareciam para bagunçar a cabeça com o nosso rock incompreensível e diabólico. Lembro de um namoradinho de uma amiga, peruano, que sabia cantar em inglês e fazia os vocais mais pesados de Nirvana. Quase entrou para o grupo, se não tivesse acabado o namoro.

    Deixamos de falar com a menina, porque teria arruinado o nosso sonho. Por conta da zoada e da impregnação de alguns moradores, invadimos o que era uma sauna desativada, para colocar os nossos instrumentos e caixas de som. Tocávamos moídos e suados, no verdadeiro caminho do rock. Com pouco tempo, já atacávamos em festinhas de colégio e de bairro. Era o auge dos Titãs (Cabeça Dinossauro) e do Nirvana.

    Sabíamos tudo. Ensaiávamos como loucos – inclusive em horários escolares, porque faltávamos às aulas de inglês e o caralho. Ainda assim, na sauna hermeticamente fechada, éramos motivo de reclamação. Arranjamos um novo lugar, num estúdio que ficava na casa de um amigo de um amigo. Para compensar os ensaios, emprestávamos nossa aparelhagem de som. O que aconteceu no primeiro mês: o bandido, dono do estúdio, vendeu os nossos bens. Ficamos sem nada. Não podíamos mais tocar. Bateu a depressão e a impotência. Mas roqueiro não podia se abater. Prometemos explodir o espaço, e assim o fizemos. Numa noite, fomos lá na casa do bandido e soltamos bombas preparadas por nós. Já sabíamos que não seríamos presos, porque éramos menores de idade. Os pais do bandido pensavam que o mundo estava acabando. Ríamos, histéricos, vencedores. Nunca mais vimos nosso som, mas não deixamos de tocar o terror.

  • Desaprendizagem!

    O filósofo Sócrates nos disse para ter cuidado com o vazio de uma vida ocupada. E para isso recomendou que você não deva se preocupar com os outros, porque o mundo está cheio de outros.

    Na Internet podemos comprovar facilmente isso, através do gigantesco volume de gente navegando por lá, ao menos é o que dizem ser uma verdade. Porém, até 2026, o tráfego de robôs irá ultrapassar o de humanos, e a luta contra o envenenamento de resultados em mecanismos de busca e a manipulação da IA, será sem limites para alterar dados ou obter informações confidenciais alimentadas nos modelos de linguagem que estão entre as principais cautelas tecnológicas. Não sei se é necessário nos preocuparmos com isso se nossa composição básica é o contato com outro humano e não com outra máquina.

    Somos fruto de um laço entre pessoas, nossas peculiaridades promovem e dificultam novas vidas, objetivadas pela opressão da introversão.

    Pense, ou sofra pelos dias que lhe restam ao lado dos que ama, ou daquele que amou por muitos dias, que lhe fizeram o que és, e que talvez não sejas mais nada sem eles.

    Meus criadores, que tanto se esforçaram para me deixar nesse ponto, me construíram no que sou e sigo a partir desse novo marco. Cruel e findável, com aquele limite que não desejamos acolher em pensamento, apenas de en passam, e quase sem valor para tentar ofuscar a realidade.

    Como a metáfora da condição humana provoca a busca por criar significados para cada um de nós, expõe a fragilidade das percepções de todos.

    Estar disposto a mudar é uma condição de pessoas inteligentes, e para isso devemos vasculhar nosso inconsciente, governar nossas vidas, e assim formar nossas crenças, muitas das quais falsas, embora as temos por verdadeiras. Possuir uma atitude de abertura acima de tudo e todos, nos coloca em melhores condições para continuar crescendo. 

    Como lembrou o economista britânico John Maynard Keynes, “a coisa mais difícil do mundo não é que as pessoas aceitem novas ideias, mas sim que esqueçam as antigas”

    Algo muito parecido com o perigo de conviver com o que se aprende, porque podes não esquecer jamais. 

    E nesse tempero vital, a desaprendizagem é absolutamente imprescindível para que a verdadeira aprendizagem ocorra. 

    Muitas vezes, o que pensamos conhecer é o que realmente nos impede de aprender.


  • Alienígenas do futuro

    A precisão temporal inexiste, mas quando perceberam já não havia mais tempo. Dentre os estudos publicados, podemos destacar uma corrente pregando o retorno às origens, que não angariou grandes esperanças na virada de prumo. Nesse período, confiaram em Deus, retocaram ensinamentos, refizeram passos, adoraram falsos Messias, mataram inocentes, morreram por déspotas, fizeram e foram feitos de bobos.

    O valor moral do trabalho decaiu quando tudo, ou praticamente tudo, foi abarcado pela tecnologia. Eles a veneraram como uma Deusa, entregaram-se abertamente, aprimorando ferramentas, construindo máquinas, trabalhando, um tanto inocentes, em utensílios facilitadores. Acreditamos que o marco principal dessa derrocada foi quando suprimiram a distinção entre o trabalho braçal e o digital. Na
    próxima imagem ficará mais claro.

    Como podem ver, houve uma naturalização da tecnologia e de uma espécie de conceito civilizatório global a ponto de acharem-se homogêneos. Banhados em hipocrisia, lutavam por uma justiça rasa enquanto fingiam desconhecer as colônias de trabalho escravo em cantos obscuros do planeta. Esses locais, em particular, realizavam o serviço pesado, sujo e desumano, enquanto os demais habitavam uma verdadeira realidade paralela.

    Na próxima animação é possível observar como cada conquista tecnológica foi comemorada, sobretudo por quem desconhecia o seu funcionamento. Nem tão de repente, notaram-se escravizados, dependentes de um prazer insosso e previsível, num processo semelhante ao que faziam com ratos em laboratórios, quando mapeavam os seus reflexos e depois os condicionavam. Não impressiona, entretanto, terem liberado seus instintos primitivos, simulando relações sexuais despudoradas em quaisquer manifestações culturais, numa aversão crescente à inteligência, que, não muito antes, parecia estimada.

    A teoria, até o momento, sugere ter sido a dopamina diária em níveis elevados mais devastadora do que qualquer outro entorpecente. Os poucos a preverem essas consequências foram tratados com desdém, acabaram esquecidos e subjugados, ou cometeram suicídio. Vocês terão mais detalhes nos relatórios completos.

    A animação seguinte desenha um panorama geral da vida estudantil. Em resumo, as novas gerações foram mostrando cada vez mais dificuldades de compreensão, até o momento em que passaram a depender totalmente da tecnologia para sobreviver. Rapidamente as inteligências artificiais tomaram conta do conhecimento de todo e qualquer assunto. Alguns, cínicos, duvidaram da catástrofe. O quociente de inteligência que esteve sempre em lento crescimento, decaiu bastante e jamais tornou a subir, como visto neste gráfico. O fim da história todos conhecemos.

    Resgatamos um pequeno grupo, mas ninguém sobreviveu. A princípio nos trataram como salvadores. Estavam debilitados e delirantes. Um deles deu indícios de recuperação; porém, morreu no dia seguinte. O seu corpo foi trazido para estudos genéticos mais aprofundados. Quando finalizarmos as pesquisas, faremos uma nova incursão até o local. Queremos entender a proliferação e superpopulação de insetos e
    galinhas. Além disso, pretendemos encontrar mais exemplares dos discos do Rush e do romance Moby Dick, talvez as únicas produções humanas a justificar tal esforço. Na sequência, vocês terão a apresentação de um estudo sobre a geologia vulcânica pré-colapso. Muito obrigado.


  • A fronteira entre pena e amor por um cão

    Entre sentir pena e amar um cão há uma tênue linha que define a profundidade da relação que temos com eles. Sentir pena muitas vezes nasce da percepção de vulnerabilidade do animal — o olhar triste, a situação de abandono ou a incapacidade física. É uma emoção que nos impulsiona a agir para aliviar o sofrimento, mas que, sozinha, não fortalece a confiança mútua.

    A pena excessiva por um cão é como colocar um véu sobre os olhos: faz-nos enxergar a fraqueza antes da força, a dependência antes da capacidade e a carência antes da autonomia. É um sentimento que brota da compaixão, da vontade visceral de zelar, de amparar quem parece não ter como se defender. Porém, essa piedade, por mais nobre que aparenta ser, carrega em si uma armadilha silenciosa: transforma o amor em condescendência e o cuidado em servidão. Ou seja, a pena, em sua forma, é um sentimento exclusivamente humano, reflexo de nossas fragilidades projetadas no outro.

    Amar é diferente. É permitir que o cão enfrente desafios, explore e descubra suas próprias capacidades enquanto trilha o mundo ao seu redor. É compreender que, por trás de cada obstáculo, está uma oportunidade de desenvolvimento, reafirmação de instintos e fortalecimento de sua natureza como um ser pleno, capaz de agir com confiança e liberdade. Amar um cão é respeitar e valorizar sua natureza — suas necessidades biológicas e comportamentais —, sem importar a ele o peso de nossas próprias dores e ansiedades.

    Quando deixamos a pena guiar nossas ações, tendemos a superproteger o cão, ver nele o símbolo do abandono ou do sofrimento que imaginamos, carregando um peso emocional que não é dele, mas nosso. Refletir sobre essa fronteira é essencial, pois, muitas vezes, o ato de sentir pena pode ser confundido com amor. Enquanto a pena pode levar a uma relação paternalista ou mesmo temporária, o amor verdadeiro promove harmonia, sem previsões de inferioridade ou necessidade.

    Isso nos leva a acreditar que temos o poder de eliminar riscos e desconfortos, confundindo proteção com limitações. Mas será que, ao agir assim, estamos realmente amando? Os cães precisam treinar seus instintos de sobrevivência para se sentirem conectados ao ambiente em que vivem. Explorar, errar, sentir o chão áspero sob as patas ou se sujar são partes fundamentais de sua experiência. Privá-los disso é negar-lhes a oportunidade de crescer.

    Amar um cão é permitir que ele sinta o desafio de algo novo. É confiar que ele tem dentro de si as ferramentas para lidar com pequenas adversidades. É um ato de fé em sua natureza. Claro, o cuidado é essencial — assim como os humanos, os cães precisam de ar fresco e proteção contra o asfalto quente. Mas o limite entre cuidado e superproteção está na intenção: ajudamos o cão a crescer ou apenas tentamos preencher nossos próprios medos? É crucial afastar-se de nossas percepções humanas para compreender a mente de um cão.

    Excessos de pena, mesmo bem-intencionados, podem gerar confusão. Para o cão, atos exagerados de carinho podem parecer sinais de instabilidade, de incertezas e até de fraqueza. Isso não significa que devamos deixar de ser afetuosos, mas que precisamos ser conscientes. Cães prosperam em ambientes equilibrados, onde regras e cuidados caminham lado a lado. Liderança equilibrada, baseada na confiança e segurança é o que realmente fortalece o vínculo humano-canino.

    O convite é simples: observe seu cão. Diante de uma dificuldade, antes de intervir, pergunte-se: ele pode resolver isso sozinho? Se a resposta for sim, dê-lhe o espaço para tentar. Esteja presente, pronto para agir apenas se realmente for necessário — essa é a essência de uma relação de verdade. Assim, o amor que oferecemos não apenas protege, mas também expande.

    Sentir pena é uma ocorrência natural humana, mas amar é uma decisão consciente. Escolha amar. Não apenas pelo bem do seu cão, mas pelo vínculo único que vocês irão construir juntos.


  • Cães e o Poder de Curar a Depressão

    Quantas pessoas acordam todas as manhãs sem grande propósito? Permanecem deitadas, sem forças para romper a gravidade invisível que as prende ao abismo da depressão. Pare essas pessoas, a cama se torna uma prisão, como se a vida estivesse suspensa e elas impedidas de viver.

    Nesse cenário devastador, onde a dependência de medicamentos é uma realidade frequente, a chegada de um cão pode ser transformadora. Diferente dos humanos, os cães não compreendem o que é depressão, mas percebem quando algo não vai bem. Eles possuem uma sensibilidade extraordinária, capaz de refletir o que muitas vezes escondemos até de nós mesmos.

    O simples toque de uma pata, um olhar atento que convida a sair ou o abanar de um rabo podem quebrar o ciclo de apatia. Eles nos lembram, sem palavras, que há um mundo lá fora, repleto de brilho e possibilidades. É um convite sutil, mas poderoso, para explorar, respirar, viver.

    Muitas pessoas encontram em seus cães a motivação para se levantar. Uma pequena caminhada pela rua deixa de ser um fardo e se torna um momento de prazer. É nesse ato quase mágico que os cães se entreguem por inteiros. Com sua companhia serena e amor incondicional, se oferecem para nos animar a seguir em frente, a redescobrir o milagre que é estar vivo.

    Cuidar de um cão nos faz olhar mais para o presente, e nos conectarmos ao aqui e agora. Eles nos mostram que, mesmo nos dias mais sombrios, há sempre uma chance de escapar da tristeza profunda. Talvez a maior cura que os cães oferecem seja a de nos ensinar a reencontrar a simplicidade da vida.

    No final, não são apenas os cães que nos salvam, mas também o amor que cultivamos ao lado deles. Eles não precisam de palavras para transformar vidas. Enquanto farejam, correm ou se deitam calmamente ao lado de quem precisa, passam uma lição simples: felicidade não é algo distante, mas algo que pode ser encontrado em pequenos instantes.

    O vínculo entre cães e pessoas vai além da companhia; é uma troca silenciosa de cuidado e afeto. Para quem enfrenta a depressão, um cão pode ser um guia que o conduz de volta à luz, mesmo quando tudo lhe parece cinza e sem propósito.


  • Sobre as angústias de um pé-frio

    Tenho muito medo da morte. Um medo estranho, próximo, escuro, paralisante por vezes, e por vezes aterrador. Isso não me obriga a amar demais a vida. Não acho tudo maravilhoso, não faço parte da galera do gratiluz nem gosto de acordar cedo. Geralmente, estimo a vida nas sextas após o expediente e nos sábados à tarde. Mesmo assim, ante o bafo azedo do óbito, até a semana corrida me apetece. Um dos motivos de preocupação e temor quando penso nesse assunto, em particular, é a provável impossibilidade de seguir acompanhando as ocorrências terrenas. Sendo sincero, meu receio, por idiota que pareça, é não saber do Grêmio no pós-morte.

    Sei que há coisas mais importantes, você não precisa me explicar o quanto isso é mesquinho, mas é a mais crua verdade. O fato é que me apavora a ideia de estarmos (ou estarem, no caso) em 2158 sem saber quantos Estaduais, Brasileiros e Libertadores o Grêmio ganhou nesse período. Me apavora não saber quem surpreendeu e quem decepcionou. Me apavora desconhecer a quantidade de Grenais vencidos com facilidade até lá. Espero que todos, naturalmente.

    Tudo isso é uma grande bobagem. Eu sei. No fundo, odeio gostar de futebol. No entanto, sou daqueles que fazem compras nos patrocinadores do time, que evitam usar qualquer item na cor vermelha, que pagam quinhentos reais numa camisa, que tomam calmantes antes das partidas importantes e que choram escondidos quando dalgum revés. Só não perco o apetite porque não misturo as coisas, afinal, futebol e comida são categorias diferentes. Além disso, ainda há o maior problema, o que me causa mais
    desgosto: sou um baita pé-frio.

    Aqui estacionamos num paradoxo complicado. Quero acompanhar o Grêmio mesmo após a morte, mas nunca presenciei sequer uma vitória no estádio, mesmo com inúmeras tentativas. No máximo, assisti uns empates suados jogando feio. Nos últimos anos, o complexo pé-frio se estendeu aos jogos que assisto pela televisão. Meio a contragosto, fico longe dela simulando ocupações, para só depois descobrir o resultado. Mais tarde vejo os melhores momentos, as entrevistas, as análises de cada lance e acompanho as especulações na imprensa especializada, longe da taquicardia, do desespero e do abraço irreparável do azar. Parece que estou sempre ouvindo atrás da porta.

    O Grêmio e eu vivemos numa espécie de gangorra. Sempre que o time ganha eu estou em outro lugar, atribulado com algum compromisso. Jamais permanecemos na mesma linha por muito tempo. Talvez seja coisa do acaso.

    A principal conquista dos últimos anos foi a Libertadores, em 2017. É claro que assisti aos jogos, o estranho foi que durante uma das partidas mais difíceis, contra o Botafogo, nas quartas de final, caiu a luz no meu bairro e só depois do apito final, já no meio da madrugada, retornou. O Grêmio venceu, mas eu não vi.

    Na semifinal, contra o Barcelona de Guayaquil, tive uma crise hipertensiva após aquela defesa histórica do Marcelo Grohe no início do segundo tempo. Jogo tenso, ansiedade incontrolável. Fui parar no hospital. Outra vitória sem mim. E tem mais.

    No primeiro duelo da final eu voltava de viagem. O trabalho também apita nesses acasos. No ônibus, aflito e inquieto, mal conseguia conectar a transmissão. Soube do resultado numas falas entrecortadas do Pedro Ernesto Denardin, da Rádio Gaúcha, em algum lugar entre União da Vitória e Palmas. A partida já havia acabado.

    Durante o segundo jogo eu participava de um Congresso de Literatura, em Pato Branco, sobre a obra de Nelson Rodrigues. O palestrante era o professor Luís Augusto Fischer. Eu realmente precisava daqueles créditos. Na saída ouvi um foguetório e parei no primeiro bar em que encontrei alguns torcedores do Grêmio. Lá assisti aos replays dos gols enquanto bebia canecas e mais canecas de chope. A palestra foi muito interessante, mas o professor Luís Augusto Fischer é colorado fanático. O Grêmio ganhando a sua terceira Libertadores e eu assistindo um colorado palestrar. Às vezes a
    vida é cruel.

    Esse paradoxo tem me angustiado. Meu pé-frio é evidente e comprovado, os amigos sabem disso. Me excluem dos churrascos durante os jogos para garantir mais chances de vitória do tricolor. Ultimamente, por conta dos sites de apostas, eles só falam em probabilidades. Isso nos distanciou ainda mais. Não sei se a morte resolverá o problema e também não estou disposto a descobrir. No entanto, se no pós-morte o meu pé-frio acabasse, talvez a temesse um pouco menos. Orgulhoso, então diria:

    —  Não dá, hoje tem jogo do Grêmio.


  • O Luto na Visão dos Cães

    O luto, no olhar humano, é o vazio que se instala após uma perda. Uma ausência que ecoa e se faz presente em cada instante de saudade. Mas, se o luto é tão humano, como explicar que o cão também sofra quando seu dono se vai?

    Talvez isso se deva ao mistério do vínculo que une nossas almas às deles. Diferente de nós, os cães não filosofam sobre o que foi ou sobre o que virá, nem se perdem em pensamentos sobre a ausência. E, ainda assim, quando seu dono parte, algo neles se transforma para sempre. Como Hachiko, o cão que esperou incansável pelo dono que nunca retornaria, os cães têm seu próprio e singular jeito de viver a perda.

    Eles refletem nossas emoções, espelham nossos sentimentos, sentem a nossa dor e também vibram com nossas alegrias. Na ausência, os cães absorvem o vazio, percebem a mudança no ar, o silêncio dos passos que não se repetem mais, e o cheiro que gradualmente desaparece. Mesmo sem palavras ou cerimônias, são tocados pela presença que se foi.

    Um cão enlutado pode ficar apático, quieto, perder o interesse pelo que antes o alegrava. Sua conexão com o dono é uma cumplicidade que ultrapassa o toque e a presença física, algo que, de certa forma, transcende. Como uma alma pura, ele sente a perda sem as complexidades culturais ou emocionais que nós temos. É como se o cão soubesse, em sua simplicidade, que algo essencial se perdeu..

    No entanto, assim como nós, os cães possuem uma força de renovação surpreendente. O segredo está em manter a rotina, respeitar seu tempo, e, acima de tudo, não projetar sobre eles as nossas próprias tristezas. Eles não se apegam à dor; para eles, apenas o presente é real, e talvez por isso, gradualmente, eles sigam em frente. Eles não entendem a nossa pena, não precisam de lamentações.

    Diz-se que, para o cão, só existe o momento presente. E talvez isso explique porque, aos poucos, eles reencontram o caminho para a alegria. O luto dos cães não é uma prisão; é uma travessia silenciosa que nos lembra que a dor pode ser abraçada, mas não deve ser eterna.

    Talvez, de vez em quando, ao sentir um cheiro familiar ou uma brisa que traz algo do passado, ele erga o focinho e, em seu íntimo, sorria, sentindo que, de algum modo, ainda estamos presentes. Porque o amor de um cão não se apaga com o tempo ou a ausência; ele persiste, eterno e fiel, como uma chama que nunca se extingue.

    E assim, quando a noite cai e o silêncio domina, ele dorme em paz, com o coração ainda aquecido por aqueles que um dia amou. E nós, de algum lugar, talvez sintamos o mesmo: uma saudade doce, acompanhada da certeza de que um vínculo assim, entre cão e humano, nunca se rompe de verdade. Nessa complexidade de se fazer evoluir, para os cães, cada instante importa, o passado se dissolve na simplicidade do presente. Eles nos ensinam, assim, que amar também é saber soltar. Um novo lar, uma nova rotina, um novo amor… tudo no cão é levado a ser simples.


  • Os signos da crítica

    Costumo ler em voz alta quando estou em casa. Peguei esse hábito da minha mãe, que todo sábado à tarde distribuía na mesa da sala uma penca de cadernos e livros para corrigir trabalhos, ler e reler textos, planejar as aulas da semana seguinte, tudo em alto e bom tom. Uma resma de folhas em branco e o mimeógrafo aguardavam na estante, ali ao lado. Eu podia destruir a casa desde que não relasse naquela mesa.

    Trinta anos depois, não temos um mimeógrafo e nem uma resma de papel por perto, mas mantenho a cultura familiar da leitura em voz alta que, por acaso, tem dado o que falar. Lia há alguns dias uma crítica literária no sofá enquanto minha esposa fuçava numa das gavetas da cômoda. Em algum ponto da argumentação, ela parou para ouvir, prestando uma atenção quase intimidatória; fiquei inclusive receoso com possíveis tropeços ou gaguejos. Quando cheguei ao fim do texto, ela me perguntou quem era o autor e, logo após a resposta, completou: — É taurino. Encerrou o papo saindo para a cozinha. Dois ou três dias depois, em outra leitura, veio a sentença: — É aquariano. Novamente, assunto encerrado sem mais delongas

    Aquilo não fazia sentido. Sugerir o signo do crítico a partir de uma opinião era bobagem, além disso, desmentia a independência intelectual, reduzia as perspectivas, presumia o futuro, mapeava as questões fundamentais da vida. Impossível, apenas impossível.

    Com certa malícia, busquei, sem ela saber a data de nascimento do crítico alvo do último palpite e, para minha surpresa, estava certa. Sorte de principiante, óbvio. Nada mais que isso. Provaria com facilidade se tratar de um chute bem dado e jamais voltaria a refletir sobre o assunto. Naturalmente, não revelei o acerto para não criar uma polêmica conjugal.

    Passei então a ler textos sortidos de diferentes críticos, querendo pôr à prova essa tal sabedoria mística. Tudo iria se mostrar uma baita coincidência, uma eventualidade, afinal, as questões do Zodíaco são achismos, todos sabemos disso. Mas, como em tudo na vida, há quem diga o contrário — uns românticos, alienados. O estranho é que desde então são seis críticos e nenhum erro.

    Wilson Martins foi decretado pisciano trinta segundos após o fim da leitura, mesmo signo de Otto Maria Carpeaux, decifrado sem hesitações. Álvaro Lins foi revelado sagitariano antes do ponto final, faltavam ainda uns dois ou três parágrafos. O aquariano Augusto Meyer também não demorou a ser descoberto, tampouco o leonino Antonio Cândido. Harold Bloom, por fim, não teve chances porque tinha o mesmo signo da Senhora Leidens.

    Eu não sei se há alguma relação esotérica entre as opiniões e os signos dos críticos. O fato é que agora leio crítica literária aguardando ansioso a sentença do outro lado da sala. Talvez ela esteja trapaceando e tenha até buscado os aniversários dos autores perfilados na estante, talvez eu deva esquecer o assunto antes que me contamine. Por certo, não ficaria bem como um jovem místico tardio, ou como um tardio jovem místico, como queiram. Visto melhor o cinismo com calça jeans e tênis.

    Não quero suprimir as opiniões das pessoas, também não quero tabelá-las com base em gnoses obscuras, mas, como uma experiência sociológico-literária, sugiro ao amigo leitor que balize minha dúvida e participe de um experimento científico de descomprovação: se quiseres, me encaminha tua opinião sobre este texto, seguida da data do teu nascimento. Apenas se quiseres, claro, sem obrigações nem mentiras. A ciência depende da tua sinceridade. Me comprometo a fazer uma leitura em voz alta do teu parecer com o intuito de desmistificar o esoterismo literário que me aflige ou, dependendo do resultado, iniciar uma pesquisa mais aprofundada sobre os signos e a crítica. Espero não chegar nesse ponto. Sei que também não acreditas nessas coisas. Que tal, topas?


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