Resenhas

  • Um gênio e um louco

    Em 1879, o Professor James Murray candidatou-se para liderar a tarefa de elaborar o célebre Oxford Dictionary of English.

    Monstruosa empreitada que consistiu em colocar toda a língua inglesa em livros, bem como a etimologia das palavras e o sentido de cada termo.

    O filme “O Gênio e o Louco”, que foi aos cinemas em 2019, contou essa história: um grupo de sábios reuniu-se para resolver a pendência de 20 anos da Universidade de Oxford. No papel do Dr. William Chester Minor, Sean Penn atuou novamente com maestria. Encarnou o médico, militar, esquizofrênico e solitário. Mel Gibson, ator tenaz e intenso, representou o Professor James Murray, o sábio da época. A trama mostra o professor vencendo os preconceitos dos mestres de toga de Oxford para encarar a empreitada nunca antes realizada. Mesmo não sendo acadêmico de formação, mostrou sua capacidade de homem letrado, estudioso e muito dedicado aos livros, cujas habilidades o autorizaram à confecção desse dicionário. Assumindo o compromisso, que sem algum grau de loucura não levaria adiante, teve a brilhante ideia de pedir ajuda ao povo para compor sua equipe. Através do envio de milhares de cartas à população do Reino Unido, recebeu respostas com as origens das palavras, que foram parar em seu dicionário.

    Dr. William, um louco maior que James, após se tornar assassino, decidiu unir-se à busca das origens dos vocábulos e muniu o professor com milhares de palavras.

    Dr. William foi preso e diagnosticado com esquizofrenia aguda e, durante sua dedicação ao dicionário, teve melhora considerável, imaginando ser possível resolver tal doença ao se envolver com esse tema tão valioso.

    “O medo é o afeto da ordem, do egoísmo e da covardia moral” (Christian Dunker). Por isso, o medo de se manter perseguido pela doença em seus pensamentos doloridos e maldosos o fez entrar de corpo e alma nessa empreitada. Ele enviou ao professor centenas de palavras para inserção no dicionário. Recebeu dezenas de livros para suas pesquisas e, com dedicação benevolente, entregou seu precioso tempo à confecção do primeiro volume desse dicionário, que, em sua totalidade, chegou a vinte volumes.

    Nos primeiros meses de trabalhos incessantes, concentrou-se como em uma perseguição à sua própria saúde.

    E, por doce desgraça do destino, a viúva do assassinado cruza sua vida carcerária.

    O povo daquele Reino, Unido, contribuiu com sua boa vontade e conhecimentos, sendo partícipe de um evento histórico de sua terra.

    Todos envolvidos no mesmo objetivo, pensando juntos naquele mesmo tema, crescendo com o evento, que, em seu término, entregou um grandioso resultado, fruto de um tempo dedicado com prazer.

    Que força incomensurável pode um povo em conjunto surtir, causando um forte efeito na existência de todos, como, por exemplo, extirpar uma peste utilizando-se do bom senso em prol do bem e do futuro da sociedade.

    Quão belos são os esforços que se despejam resolutos na união dos povos. Famílias inteiras proporcionaram para si um novo mundo, pois os livros deram outro rumo às gerações vindouras, que passaram a ser instruídas por sábios que, de antemão, tiveram essa visão promissora, oportunizada por um gênio e um louco.

  • É preciso sagrar-se cavalheiro

    Para viver um grande amor… talvez esse seja o desejo de todos os românticos, como Vinícius de Moraes. Para uma grande parte dos casais longevos, porém, ele é como aquele café coado de manhã: tem sabor quente e intenso no início, adquire um tom meio desbotado e morno com o passar do tempo e, ao final do dia, sobra só aquele fundinho da xícara com restos de pó, frio e amargo.

    Talvez por esse motivo, mas não somente por esse, um filme que assisti recentemente me encantou – A grande Fuga, um drama dirigido por Oliver Parker e estrelado por Michael Caine. A trama se passa durante o verão de 2014 e acompanha a história real de Bernard Jordan (Caine), um veterano da Segunda Guerra Mundial que decide escapar da casa de repouso em que vive com sua esposa Irene, interpretada por Glenda Jackson, e viajar até a França para participar da celebração do 70º aniversário do Dia D nas terras da Normandia.

    A história do veterano Bernard toca em um ponto sensível e super atual, ou seja, a insanidade de uma guerra, o crime escancarado da perda de milhares de vidas de todos os lados em conflito por e para absolutamente nada.

    Nos faz também pensar no quanto um sonho é capaz de mobilizar nosso corpo e mente a ponto de nos aventurarmos muito além do bom senso e dos limites que a idade nos impõe.

    Talvez para uma grande parte da audiência desse filme, especialmente os mais jovens, esses sejam os maiores atrativos do filme, além da atuação brilhante de dois atores super consagrados como Michael Caine e Glenda Jackson, na época com 90 e 84 anos respectivamente. Glenda, inclusive, faleceu logo após o filme.

    A mim, além desses dois valores, que tornam o filme lindíssimo, a poesia existe na convivência amorosa de dois idosos que, ao final da vida, ainda conseguem manter a cumplicidade, o carinho e a delicadeza da convivência, mesmo estando em um lugar que, a princípio, evitamos até em pensamento – uma casa de repouso.

    Tudo no filme pode ter sido romanceado, obviamente, a partir da realidade de Jordan e Irene; mas a mensagem, de qualquer forma, enternece e faz pensar que é possível manter aquele café como se tivesse sido coado na hora. Mas, como cantou nosso poeta…

    Para viver um grande amor
    Primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro
    E ser de sua dama por inteiro
    Seja lá como for”
    Vinicius e Toquinho


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