Rio de Janeiro

  • Alô, alô, seu Chacrinha – aquele abraço!

    Fevereiro começa no domingo, como quem abre as alegorias do descanso — esse mesmo que sonha com samba no pé e os zirigundús dos foliões. Janeiro já anunciava as entradas da folia, com blocos em teste espalhados pelas ruas do Rio de Janeiro

    Tive a oportunidade de presenciar um deles na feira da Glória, quando assumi a tarefa de vender artigos culinários japoneses de primeiríssima linha, na barraca do meu grande amigo Shizuto e de sua família. Vale a pena conferir as comidas de rua do Japão — barraca 71, próxima ao portão da Lapa, na Praça Paris.

    Outra ocasião foi num domingo em que me lancei à capital para celebrar o aniversário da minha afilhada Lulu, quatro aninhos. Unindo encontros familiares a agendas profissionais, estiquei meus dias no meu Rio de Janeiro. No domingo passado, encontrei a Marcela no Flamengo, onde, no Planalto, nos unimos às palmas de um parabéns com glitter, estandarte, sorrisos largos e corpos carnavalescos espalhados pelas calçadas.

    Antes de retornar à minha serra, tomei café da manhã no quiosque Ginga, na praia do Leme — um ponto aberto 24 horas por dia. Algo inacreditavelmente maravilhoso para alguém cosmopolita e do mundo como eu, que se acostumou a não encontrar nada aberto depois das dez da noite, durante a semana. Domingo, então…

    No aguardo de uma carona prevista para as nove, caminhei pelas areias de calça jeans, cruzando os limites com Copacabana. Ah, a princesinha do mar — que hoje verei novamente. E novamente a Glória, os agitos da Praça Paris, os corredores da maratona no Aterro, o bloco da Ivete no centro e a rotina dos moradores que circulam pelas redondezas: o cotidiano de quem sai cedo para montar barracas e vender até o fim da tarde.

    Em meio ao percurso ainda escurecido da partida, me espanta o amanhecer da serra: a troca de azuis, o passar espaçado dos carros, a felicidade solta na voz dos amigos no carro. Nasceres e pores do sol sempre mexeram comigo de forma arrebatadora.

    São sete da manhã. Vejo o Cristo da janela.

    Da janela do carona, sobre a ponte Rio–Niterói, fecho esta primeira crônica brindando ao Rio de Janeiro, a fevereiro e a março. Algo do Rio ainda pulsa em mim — um pulsar que antecede o retorno e já carrega a saudade. Como se o caminho não fosse uma linha, mas um estado.

    Talvez eu viva assim — é bem provável, eu diria: chegando ao que sou agora, partindo sempre de algo que me ensinou a ficar.

    Bom dia, caro leitor!

  • Moça em janela de hotel

    Olho pela janela: é o Rio de Janeiro nublado e muito frio. Oculto. Imenso. Quase irreal. Ouço em meu headphopne um dos CDs que ele me deixou. Agora, uma grupo sinfônico que toca música do Metallica. Músicas de vários estilos e artistas estão misturadas num CD que ele me deu, pois ele é viciado em montar coletâneas, mais ou menos como faz aquele personagem do livro Alta Fidelidade, do Nick Hornby. Antigamente ele fazia com fitas, agora são CDs. Agorinha mesmo entrou nos meus ouvidos Jefferson Airplane – nada a ver. Legal e nada a ver. Mas ele é assim mesmo. Daqui a pouco pode pintar um samba com Los Hermanos que só fãs da banda de rock podem conhecer. Vá saber. Suas coletâneas são incoerentes. Como o seu vestuário tosco com alguns esporádicos e inesperados toques de requinte que só no corpo magro, leve e lindamente desengonçado dele podem parecer requintados. Ele só é coerente com uma coisa: suas incoerências.

    Sei que lá fora é frio. Mas o quarto é quente e sou bela. Hoje sou a mais bela mulher do mundo, com minha camiseta branca e calcinha também branca, a me espreguiçar. A TV sem som é um pequeno papel de parede, um quadro vivo, uma caixa preta cheia de gente pequenininha se mexendo e sendo feliz. Volto pra cama e sinto mais uma vez os cheiros de deixamos no lençol e penso em como é bom ser mulher. Vontade de passar o dia nessa cama lembrando da noite que foi. Eu faria isso fácil, fácil. Mas, melhor não. Como o hotel não tem serviço de quarto é melhor eu subir logo para o restaurante e tomar o meu café, enquanto ainda é servido. Engraçado como os dois homens no elevador, que sobem também para o café, me parecem feios. Um barrigudo e com jeito de pseudo-intelectual e o outro, negro, com alguma elegância, porém sem graça. Mas não dá pra ver outros homens agora como machos. Não num dia como hoje. Só os consigo ver como seres humanos assexuados. Não os vejo com antipatia ou desagrado – até gosto de vê-los –, mas o fato é que depois da noite que passou – eu junto ao meu pequeno deus – todos os homens são pra mim seres sem sexo, com exceção dele, obviamente, que é – penso brincando com minha fantasia – o inventor do sexo.

    O café do hotel é muito bom. Muitas frutas e muitas coisas pra escolher. Estou faminta e devo comer como nunca. Na noite que passou, parte do meu corpo se perdeu em suor e demais líquidos. O alimento que ele, o re-inventor do meu sexo, me deu na cama não alimenta o corpo. Muito embora aquilo, de calibre e sustância, seja puro corpo, não sustenta o meu corpo, apenas consumindo-o. É uma pequena morte que me torna viva e com mais fome. Sinto-me leve, não posso negar. Mas é um estado meio vampiresco. O corpo dele junto ao meu e dentro do meu não me satisfaz como um alimento. Aquilo é como um sangue a meio copo. Um vinho a meio copo. Um copo d’água pela metade, que alivia um pouco a sede, mas não a sacia completamente – e isso parece deixar a água mais saborosa que qualquer outra coisa. E ele em mim é melhor que água, melhor que vinho, talvez melhor que tudo. E tudo o que ele faz comigo… Ele só não é melhor que a completude por que a completude não existe. Hoje esses meus olhos que agora olham pelas grandes janelas do restaurante para uma Guanabara cinza são capazes de transformar tudo em beleza. E é disso que eu preciso, de instrumentos que transformem coisas simples em coisas belas. Sempre as janelas. Janelas são fábricas de vida. Graças a estes olhos outrora tão habituados a ver o feio do dia-a-dia da roda semi-viva, e que agora só parecem saber ver o bom das coisas, o meu dia começou assim, agraciado com belezas, onde até um lavatório com a torneira enferrujada é belo. E quanto a ele? Ele, o mais belo dos esquisitões. Como ele estará agora? O que estará passando pela cabeça daquele que tanto me faz sorrir? Sorrir com risadas, sorrir por dentro, e até sorrir chorando…

    Desço. Ruas molhadas. Cachorro na calçada sorri pra mim. Uma velhinha que anda com muita dificuldade sorri pra mim. Policial sorri pra mim. Um lindo bebê no colo de sua mãe faz o mesmo. Bem. Vejo que o mundo sorri pra mim. Só voltarei a vê-lo à noite. Que tipo de dia terei nesta cidade tão bela e tão enigmática? Sou mais estranha no Rio do que seria em Nova York. E o Rio me é por demais estranho. Eu não entendo o Rio. No Rio eu não sei quem eu sou – e isso me aproxima de mim. É o tipo de lugar onde me sinto a todo instante pronta para uma gafe. Só que hoje não. Hoje eu sou da gema. Marisa Monte e Chico Buarque já muito me ensinaram sobre carioquices. E tenho aprendido até que ser carioca é não ser carioca. Não há, por exemplo, coisa mais boba que um carioca sair falando que é carioca. Seria como gente ter que falar que é gente. Não se diz “sou carioca”. Triste do carioca que precisa dessa afirmação. E cariocas não deveriam ser tristes.

    Well. Depois de ter andado um bocado pelas ruas, praças, museus, Metrô, acho que vou beber algo. Chope? Vinho? Chope? Vinho? Não está tão frio assim: chope. Espuma gostosa. Lembra o beijo de ontem com gosto de cerveja. Penso em como eu demorei na vida a gostar de cerveja. Nossa… Demorei a gostar de tanta coisa. Acho que demorei a gostar de homem. E veja hoje como estou… Apaixonada por um. Paixão: esse negócio que o Freud parece ter tratado como desvio comportamental. Não sou especialista em Freud, mas assim li algo a respeito. Eu, finalmente uma mulher apaixonada. Mas quem sou eu? O que posso falar de mim? Meu nome é Michele. Sou filha de mãe brasileira com pai francês. Não conheço meu pai, a não ser pelas lembranças de minha mãe, além de uma fotografia dos dois tirada com uma antiga câmera Canon automática equipada com timer, vejam só, num quarto de hotel. Seus olhos sorriam na foto. Eles se conheceram num carnaval, de onde eu fui concebida. Então ele partiu pra não mais. Não gosto de carnaval. Não que eu não goste de bagunça e de climas orgíacos. Gosto de farra. Pode ser um traumazinho básico, relacionado a meu pai, a quem um dia pretendo conhecer. Eu preciso rever esse negócio com o carnaval. Se eu nasci de um carnaval, e se eu gosto de existir, logo eu deveria gostar de carnaval. É. Mas não gosto por enquanto. Gosto de passar a noite na balada, mas não muito. Prefiro o dia. E não gosto de natal também porque acho que todos ficam hipnotizados – e outros acordados demais, o que os faz mergulhar em tristeza. Também não gosto de ano novo. No entanto, gosto sim de certas celebrações. Difícil entender, eu sei. Sou de Touro, mas isso não faz a menor diferença, pois não acredito em astrologia. Minha cor preferida é o vermelho. No entanto, não uso roupa vermelha. Se eu botar vermelho eu não fico meia hora sem ir a um espelho. Sei lá. Acho que o vermelho é sagrado. Só é bom pra vestir modelo de revista e pra propagandas de Coca-cola. Até batom vermelho na minha boca me acanha. Não acredito em Deus. Tenho muito medo da morte e da velhice. Às vezes quase me pego rezando – rezando não sei em nome de que ou de quem. É a falta que um deus faz. Mas é foda. Deus se foi como o Papai Noel. Mas eu continuo acreditando em um monte de coisas que seriam absurdas para um físico ou astrônomo. Parece uma piada até pra mim: eu costumo acreditar em metade da laranja. E pelo que tenho vivido com esse cara… Puta que pariu… somos as metades de uma laranja. Ah. Que nada. Ele é apenas alguém a quem adoro porque me faz gostar de mim como eu nunca havia gostado. Obviamente isso não é pouco. E, saiba-se, pra eu adorar algo, é porque o objeto é digno de adoração.

    “Posso me sentar aqui?”, ela pergunta. Tenho certeza: é a senhora idosa que arrastando os pés sorriu pra mim quando eu saía do hotel. “Sim, fique à vontade”, respondo. “Mas… a senhora, quem é? Nos conhecemos?” Ao que ela me responde com uma pergunta, no mínimo, estranha: “Você gosta muito de cinema, não é, querida? Gosta da ‘trilogia das cores’ do Krzysztof Kieslowski, não é mesmo?” Essa foi mesmo surpreendente: uma senhora tão velhinha falando de um assunto tão específico. Ainda que ela seja uma cinéfila, a pergunta é desconcertante. Se ela gosta de cinema, esperava-se que fosse falar sobre algum filme antigo, tipo Casablanca, sei lá. Mas Krzysztok Kieslowski foi demais. “Você já me viu antes de hoje”, ela continua. “Sou aquela que aparece nos três filmes, ‘A Liberdade é Azul’, ‘A Igualdade é Branca’, e ‘A Fraternidade é Vermelha’, tentando colocar uma garrafa numa grande lixeira, mais alta que minha estatura, somente conseguido no terceiro filme”. Então trata-se de uma atriz, que coisa legal. “Sim, é claro que me lembro das cenas. Aquelas cenas fizeram muita gente pensar em muita coisa, a senhora deve saber disso. A senhora é atriz profissional?”.

    Sei que todo tipo de estória já foi contada, e que meu caso é só mais um. Já li coisas muito estranhas, como, por exemplo, um livro em que uma menina conversava com sua vagina. Acontece que se acharmos que não falta mais nada pra se mostrar, a literatura pára, a música pára, a arte pára, a imaginação pára, o sonho pára, a vida pára. E sei também que o aconteceu comigo foi real, não é ficção, eu juro. Aconteceu comigo num momento em que eu estava inundada de sentimento. Porém sóbria – não duvidem –, como poucas vezes estive em toda a minha vida. Que coisa chata essa de pensarem que os apaixonados estão dentro de um surto psicótico. Todos tentam viver uma vida emocionante. Gostam de se emocionar com os filmes, de se excitar com as viagens, de ficarem exultantes com a apresentação teatral do filho na escola… Mas quando alguém se apaixona – é isso é a grande emoção do ser – é tratado hoje como um insensato. Apaixonar-se por dinheiro pode. Apaixonar-se por gente é tolice, como parece dizer o novo senso-comum. O dinheiro é o verdadeiro deus deste mundo. Ele passou a ser a premissa para qualquer coisa que chamem de amor ou paixão. Por ele as pessoas vivem e morrem. “Deixe-me esclarecer uma coisa, minha bela menina”, continuou a falar. “Eu jamais tive o privilégio da juventude. Sempre fui velha. Sabe por que? Porque eu não sou uma mulher como você e como as que conhece. Sou uma personagem sem nome dos filmes do Kieslowski. A pobre mulher idosa que mal consegue andar. O que não quer dizer que eu não exista, pois personagens de filmes são mais reais que o que aprendemos a chamar de gente de verdade. O que tive em minha vida? Uma rápida aparição em três filmes. Pode parecer pouco. No entanto, isso me eterniza e me faz existir, compreende? Não se preocupe, você não está ficando maluca. Você está apaixonada, é verdade, mas não louca. Eu estou aqui, pode me tocar”. Levei minhas mãos até as dela e soube que era ela real. Suas mãos enrugadas e manchadas pela idade eram quentes. Subitamente chorei. Sem barulho, chorei com minhas mãos envolvendo as dela. Ela também estava emocionada, porém sem lágrimas – o que é típico de pessoas daquela idade. “O que a senhora faz aqui? Porque me procurou?” Com a voz cansada e mais doce do mundo: “Minha querida… Nós, personagens de filmes somos, imortais e onipresentes, mas não somos oniscientes. Portanto eu não sei o que me trouxe aqui. Talvez o Grande Diretor saiba.” “Grande Diretor? A senhora está me dizendo que Deus existe?” “Todos dizem que sim, não é mesmo? Muito embora eu tenha estado em toda parte e nunca o tenha visto. Eu sou criação da mente de um cineasta. Isso me faz preferir achar que as coisas são criadas por alguém. Já pensou que neste momento você pode estar sendo dirigida, fazendo parte de um filme? Consegue se lembrar, por exemplo, como foi parar naquele quarto de hotel? Você pode me dar um cigarro?” “Sim, claro”. Acendi o cigarro para ela, que tremia. Nesse instante fumávamos juntas, e isso é puro cinema. Pensei em voz alta, com os olhos parados: “Na verdade eu não consigo me lembrar de como cheguei ao hotel. Lembro-me da minha infância até. Mas não de como cheguei ao hotel”. Ela tossiu. “Não interessa ao roteirista, meu amor, explicar como você chegou ao hotel. Eu preciso ir embora” “Não! Por favor, fique mais!” “Adeus, linda moça!”. Ela levantou-se com bastante dificuldade e foi embora vagarosamente. Não sei porque motivo eu não tive forças para me levantar da cadeira e acompanhá-la. Fade out. De repente, como aconteceu com Juliette Binoche em “A Liberdade é Azul”, o sol veio bater suavemente em meu rosto ali na mesa daquele bar. Como é lindo um raio de sol no meio de uma nublada tarde de inverno no Rio. O sol veio como música. Podia ouvir o seu calor em meu rosto. Foi numa situação mais ou menos assim que a personagem de Juliette vislumbrou a velhinha a andar na rua com enorme dificuldade, possivelmente a pensar “e quando eu ficar velha?”.

    Já no hotel, sentada no chão do box, com a água super quente batendo na minha cabeça, com os dedos indicadores tapando os ouvidos pra poder ouvir melhor o barulho da água chocando-se contra meu couro cabeludo sem a interferência do barulho da resistência elétrica do chuveiro, fiquei a pensar em tudo o que havia acontecido. Já não pensava mais no meu homem, mas apenas no que havia representado meu encontro com a velha senhora que me sorriu e me disse aquelas coisas. Engraçado: nos filmes ela não parecia ser o tipo de pessoa capaz de sorrir fácil. A personagem, sorrindo, se modificou pra mim – e como eu gostaria que alguns personagens que margeiam minha vida se modificassem pra mim. Egoísmo, eu sei. Porém seria aquela sempre a velhinha corcunda, ainda que pudesse sorrir, como não tivera a oportunidade de fazer nos filmes onde aparecera tão brevemente. E quanto a mim? Poderia eu voltar a sorrir depois de tudo o que houvera passado naquele dia. Alguém pode sorrir em meio a um turbilhão de dúvida? Alguém pode sorrir ao pensar nas desgraças do mundo, e se existe Deus, etc? Alguém pode sorrir enquanto pensa se sua vida é real ou se está dentro de um filme?

    Seco os cabelos, ainda nua, frente à janela que dá para a Baia de Guanabara. As luzes do anoitecer carioca nesta janela de hotel podem trazer tantos pensamentos que acabamos por misturá-los de tal forma que chegamos a um estado de quase-não-pensar. Tento também não fazer esforço para ter pensamentos recorrentes sobre tudo o que aconteceu. Distraio-me olhando para o meu corpo, meus pequenos seios, meus pêlos pubianos muito negros, minhas pernas finas… Meu magro e belo corpo. Mais magra do que eu gostaria, é verdade. Mas tudo bem. Afinal, quem está cem por cento em paz com seu corpo? Acho que ninguém. Tenho força. Tenho poesia. Tenho pensamentos. Tenho um apaixonado – parece que ele está apaixonado por mim. Já ia me esquecendo, ele vai chegar daqui a pouco. Neste instante gostei de pensar nele, de quem já havia me esquecido. Campainha toca. Visto-me antes de atender. Ao abrir a porta, sorrio. Sorrio finalmente. Ele entra. Pergunto se ele está bem. Nos abraçamos com calor. Sentamos na cama sem muitas palavras. Nos damos as mãos. Venha o filme.

    *

  • O mar é logo ali

    Na semana passada, fui ao Rio de Janeiro para o lançamento do livro “A reinvenção da metáfora: as bodas de Rogério Salgado”, publicado pela Ventura Editora, com organização do poeta Luiz Otávio Oliani, e que tive o orgulho de apresentar na orelha.

    Enquanto estive no Rio, uma frase não saía do meu pensamento: “Poxa vida, o mar está tão perto, é logo ali.” O carioca vive tão perto do mar que, às vezes, parece fingir que não se dá conta, fingir que não liga, fingir que desdenha. Mas é tudo aparência.

    O mar, no Rio, é uma espécie de arranjador, um maestro que comanda a música que toma conta da cidade. Onde quer que você esteja, é o mar quem dita o ritmo.

    Ao andar pelo Rio, tenho sempre a sensação de que as pessoas estão, de alguma forma, sempre prontas para pegar uma praia. Se você duvida, eu te provo.

    Basta reparar — você, que mora longe da praia — como tudo é diferente em lugares como Belo Horizonte, onde eu moro. Quem vive longe do mar passa a vida vestido, e acha que precisa escolher roupa para tudo. O carioca, não. Porque o mar está logo ali.

    Percebi isso quando fui curtir a noite numa boate de Copacabana, na Rua Raul Pompéia. Na farra, o carioca raiz não liga para roupa: se quiser ir de jeans, camiseta e pochete, ele vai; se a mulher quiser ir com um conjunto monocromático, ou com um vestido, ela vai também. Maquiada ou de cara limpa, com batom ou sem batom — tanto faz. O mar está a poucos metros dali.

    Se quiser sair de madrugada da boate e pular no mar, pula. Antes do café da manhã, pula também. Por ser uma cidade com mar, o Rio está sempre mais interessado em tirar a sua roupa do que em te ver vestido. Você me entende.

    A vida na praia é diferente da vida longe dela, e, mesmo quando não é, ainda assim você vive envolvido por essa música invisível do mar.

    Se você conhece São Paulo, sabe que, em algumas casas noturnas, você não entra de bermuda. Assim que a recepcionista percebe o turista desavisado, logo aparece um ambulante oferecendo uma calça para alugar, com maquininha de cartão e Pix.

    Se você se senta numa lanchonete usando boné, é provável que alguém peça para você tirar. No Rio, isso seria impensável.

    Sou mineiro. Moro em Belo Horizonte. Estou acostumado à calça comprida, a ficar vestido o tempo todo, a escolher a melhor roupa para cada ocasião, a combinar cores, a tentar parecer mais bonito, ou até a aparentar uma condição social melhor do que realmente tenho. Quem é mineiro sabe.

    O carioca, não. Usa bermuda para quase tudo: ir à praia, ao banco, ao mercado. Só coloca calça quando realmente precisa: museu, missa, casamento, show, concerto. De resto, roupa de calor, só se for leve.

    Um executivo carioca faz cooper em Ipanema de bermuda, tênis, e sem camisa. A mulher carioca, quando sai da praia, coloca um short por cima do biquíni e uma camiseta para entrar numa loja ou num restaurante.

    Quer reconhecer um estrangeiro em Ipanema? Olhe o Posto 9: é o cara de bermuda, camisa com a manga dobrada, e tênis. A estrangeira é a que veste uma bata por cima do biquíni, usa um chapéu Panamá, e óculos escuros.

    Tudo isso porque o mar é o maestro. Criou a música silenciosa que envolve o Rio, e a coreografia que encanta meus olhos de cronista.

    Mas eu fui mesmo para o lançamento da antologia dos melhores poemas de Rogério Salgado. Fui comemorar os 50 anos desse poeta mineiro radicado no Rio — e aproveitei para bater perna, confesso.

    No evento, na Lapa, pouca gente emperequetada além do necessário. Homens de bermuda, chapéu, camiseta floral, jeans, tênis. É impossível não notar o quanto o mar influenciava tudo aquilo: era uma música silenciosa, um poema, uma liberdade.

    Nem todo carioca gosta de mar, eu sei, mas, no fundo, eles sabem que é o mar quem manda — e nós obedecemos.

    Mesmo quem está no Rio só a passeio acaba entrando na atmosfera carioca. Ganha, sem perceber, uma pequena alminha carioca.

    Com o tempo, você passa a achar uma Havaiana mais charmosa que qualquer tênis caro; anda sem camisa; toma sol; percebe que cada corpo é único, quando está à vontade. O executivo troca o terno pela bermuda; a turista descobre que só precisa de um vestido para tudo.

    Quanto mais tempo você passa no Rio, mais carioca você fica. Gosta de mate, de biscoito Globo, de sorvete de pistache, de samba. Aprende as delícias de andar descalço, de entrar no mar, de esquecer da vida.

    Por isso, estou sempre arrumando uma desculpa para fugir para o Rio. Porque, ali, o mar está sempre por perto — e, acredite, isso faz toda a diferença.

  • A volta do boêmio

    O velho boêmio voltou. Sentiu que as coisas mudaram quando foi informado de que deveria procurar o setor de readmissões. Dirigiu-se ao responsável:

    — Aqui me tens de regresso, e suplicando eu te peço a minha nova inscrição.

    — Preencha essa ficha em três vias. É preciso também pagar uma taxa.

    — Uma taxa?

    — O pessoal aqui era muito instável, vinha e voltava quando queria. A gente tinha que se garantir, por isso criou um fundo de reserva.

    — Mas pra que essa formalidade? Voltei pra rever os amigos que um dia eu deixei a chorar de alegria… 

    — Acho você não vai mais encontrar quase nenhum. A maioria hoje dorme cedo e come comida natural. Muitos frequentam nossa academia.

    — Está brincando!? Sabendo que andei distante, vai agora ironizar? Certamente quer me punir por ter deixado a noite. Eu, que fazia serenatas…

    — Serenata? Nos dias de hoje? Você ia cantar para o prédio todo, e terminaria tendo que se explicar à polícia. Se quer paquerar alguém, deixe seu nome aqui no nosso cadastro. Coloque também endereço, profissão, além de preferências gastronômicas, artísticas e culturais. A gente compara com as fichas de outras pessoas e, se for o caso, faz a aproximação via rede social. Basta acrescentar à mensalidade uma pequena taxa.

    — Não preciso disso. Já tenho alguém que floriu meu caminho. Por sinal, estou aqui por causa dela, que aceitou me dividir com vocês. Vendo a tristeza em que eu me encontrava, ela chegou pra mim e disse: “– Meu amor você pode partir, não esqueça o seu violão.

    — Uma “Amélia”!

    — Amélia não, Otília.

    — Digo que sua mulher é uma “Amélia”, uma tola. Deixar você se divertir com os amigos enquanto fica sozinha em casa. 

    — Mas ela sabe que eu sempre voltarei. Até reconheceu, antes de me deixar partir: “– Pois me resta o consolo e alegria de saber que depois da boemia é de mim que você gosta mais”.

    — Depois da boemia?! Mulher nenhuma hoje aceita ficar em segundo plano. Por isso desenvolvemos um setor para receber também as esposas, ou assemelhadas. Trabalhamos nisso de olho na otimização dos serviços. Com o acréscimo de 30% na mensalidade, você pode inscrever Otília. Ela vai conhecer seus amigos e as mulheres deles. Depois que fizemos isso, os casais passaram a brigar menos.

    — Sabe de uma coisa? Vou embora. Pode rasgar a ficha que acabei de lhe entregar. Eu queria tudo como era antes.

    — Mas isso não é problema! Nas sextas à noite, temos uma sessão nostalgia. Os homens vêm sós e podem percorrer antigos becos de ruas estreitas, onde há casas com janelas para fazerem serenatas. Tudo em ambiente virtual, claro, por isso o preço… amarga um pouco. Mas lhe garanto que é compensado pela doçura de voltar aos velhos tempos.

  • O beijo salvador

    Vida de mãe de adolescente é dureza. Que foi, a namorada de algum deles tá tirando o seu sono ou o dele? Não, nada, nesse campo está tudo calmo. O que foi então? O meu mais velho fez 18 anos há três meses e rapidinho aprendeu a dirigir. Ai ai, agora começa a fase de fazer cara de cachorrinho e pedir “empresta um pouquinho seu carro”? Claro, rsrs, e foi isso mesmo, ele me pediu o carro para ir até a Barra. De dia? É, para ver umas coisas lá do time de volley. Ai, que ótimo quando eles se interessam por esporte né? Verdade, essa dedicação ao time, a disciplina… Fora que faz um bem danado à saúde. Verdade. Mas conta, ele pegou o carro. Sim estava ali no Humaitá quando foi parado por uma blitz. Que chatice, mas ele não tinha bebido, né? Nada, o Rafa é só no suquinho. Ai que bênção, amiga! Pois é, Oxum me guia e guarda meus filhos. E ai? Eu esqueci de pagar o bendito licenciamento. Ai, que mancada!  Acontece, você sabe, não tem nada demais. Verdade é só um papelzinho virtual e nada, nem sei para que serve. Nem eu mas o negócio é que ele foi parado por causa dessa porcariazinha. Xii, e ai? Ai que o policial não quis conversa e guincho nele. No seu filho? Não, no carro né. Ah tá, e levaram seu carro? Vai vendo, ele ligou para o pai. Ah sim, seu ex-marido. E sabe o que o bonitão respondeu? Nem imagino. Não podia sair do consultório para ajudar o próprio filho. Jura? Tô te falando. Ah tenha paciência, né? Minha mãe que tem razão quando diz que na hora de fazer todo mundo quer, mas cuidar que é bom não aparece uma alma. Verdade, mas e como ficou, rebocaram o teu carro? Vai vendo, ai menina, o Rafa na sequência me ligou contando tudo. E você, espumou de raiva? Não né, porque a culpa era minha. Verdade e o que você fez? Eu estava em Laranjeiras, naquela reunião de captação de recursos para a produção daquele filme que te falei que é baseado no livro “Extermínio”. Que livro é esse? Daquele meu amigo que te falei semana passada, lembra?. Ah sim o cara que é…Ele mesmo rsrrss. Bom, mas e aí? Ai, minha amiga, encarnei a Mulher Maravilha sai voando da reunião e praticamente me atirei em cima do primeiro táxi que apareceu. Você deu sorte porque quando a gente não precisa tem mais taxi do que gente na rua. Exato, e sabe tinha um sujeito descendo do taxi, eu peguei ele pelo braço, tirei o homem praticamente de dentro do carro e me joguei no banco de trás. Você é louca mesmo! O cara ficou na calçada com cara de besta e o motorista sentindo a situação só me perguntou: para onde, madame? Ainda tem motorista que chama a gente de madame? Tem e eu só respondi “Toca para o Humaitá como se fosse tirar o seu pai da forca!” Boa! O cara operou milagre para me levar lá. Esse trânsito da zona sul é o caos. Bom ai, pulei do taxi e já vi o Rafa em pé com a cara mais assustada do mundo. Tadinho. Eu cheguei junto do policial que estava guinchando o carro e pedi para ele reconsiderar, afinal era só o licenciamento. E ele? Acho que o time dele deve ter apanhado de algum clubinho pequeno na Copa do Brasil porque ele estava intratável. Nossa, homem fica intratável quando o time apanha. Eu ali naquela aflição toda de repente sinto uma mão no meu ombro. Quem era? Menina, lembra daquela festa a fantasia que a gente foi em Niterói no penúltimo ano do Pedro II? Sim, claro, nós fomos na barca já fantasiadas. Exato. O que é que tem? Lembra de um garoto alto fantasiado de morte, que ganhou o apelido de O Morte? Sim. Era ele. O Morte estava na blitz? O Morte comandava a blitz. Minha nossa! Pois é, fiquei espantada. E ai o que aconteceu? Ele sorriu, perguntou se eu lembrava dele, eu disse que sim, comentamos um pouco daquela festa e ai você não vai acreditar. Conta que eu acredito rsrs. Ele mandou tirar meu carro do guincho e me liberou. Jura? Juro. Assim do nada? Bem, não sei se te contei mas naquela festa eu estava brigada com o Marcus e decidi me vingar. Não creio! Exatamente, e fiquei com ele.  Ah é? É, trocamos uns beijos e tal, na parte de trás do jardim, lembra que era uma casa enorme. Ô se lembro, menina, nossa dá até calor em recordar aquela festa. Enfim, foi só isso. Como só? É, uns beijos naquela noite e nada mais. Mas deve ter sido inesquecível para ele. Ai, menos né, você acha? Claro, afinal ele te viu e, se nem pensou duas vezes, mandou tirar seu carro do guincho, é porque sua boca é poderosa, nheim amiga? Ai, abafa, por favor!

  • Viver para Contar

    Chegaram à Rua Joana Angélica com uma mala por cabeça e outra, invisível, cheia de expectativas. Um queria o mar. O outro, o cardápio — pediu antes mesmo do check-in. O terceiro viria do Méier de Uber, com o cronômetro interno calibrado no “se a gente se organizar direitinho, dá tempo”. Hospedaram-se num hostel de nome esotérico e cheiro de maresia, onde gringos debatiam futebol em francês e pediam cerveja como quem reza. Os três queriam morrer de prazer — cada um à sua maneira.

    Na primeira manhã, o anfitrião carioca apareceu de bermuda, chinelo e disposição. Levou os dois pra Ipanema. Um mar tão azul que doía nos olhos. Um sol que cobrava taxa pra sair nas fotos. Corpos esculturais — que Ipanema conhece de vista e de assobio. Entre um tibum e outro, cerveja gelada, espetinho de milho, camarão. O faminto saiu perguntando por tropeiro aos ambulantes. Os amigos riram. O vendedor, com paciência beneditina, ofereceu mate, Globo, pastel de camarão e sacolé de caipirinha. Era o que tinha — e era muito.

    Ao longo do fim de semana, o roteiro se repetia: cerveja no bar do hostel, Parque Lage, Mosteiro de São Bento, praia. À noite, mudava o tom — boate em Copa, drinks fluorescentes, drag queens em cena, fumaça nos olhos, Spice Girls na pista, azaração sem CEP. Dormiam um pouco. E de manhã, os dois boêmios puxavam o amigo pra algum passeio: “Vai ter comida, juro.” Cumpriam. Bares na Lapa, cafés na Farme, almoço na Teixeira de Melo.

    Andaram, riram, se perderam no metrô. Dormiam cada dia num horário, comiam o que queriam e quando dava na telha. Na Travessa de Ipanema, segunda-feira de sol, o cronista arrancou um guardanapo da mesa e rabiscou uma frase do Gabo: “Viver para contar.” Decidiu ali que aquilo viraria crônica. Afinal, viveram. E bem.

    O Rio sentiria falta deles. Eles, do Rio.

  • Rosa, verde e rosa

    Rosa. Apenas Rosa. Nascida e criada na Estação Primeira de Mangueira. Primeira estação do trem e do seu coração.

    Rosa ganhou esse nome por duas paixões do seu pai. O samba de Cartola e a Mangueira. Rosa nasceu em 1980, ano em que Cartola morreu e seu pai resolveu lhe prestar essa homenagem. Ele assobiava “As rosas não falam”, quando se lembrava da mulher, que havia lhe abandonado alguns anos após Rosa ter nascido. Dizem que sua mãe era uma mulher linda, sorridente, mas não tinha nascido para ser mãe. Depois de ter parido Rosa, ela estava sempre triste, pelos cantos, como se não gostasse mais de viver.

    Seu Reynaldo tentava de tudo. Fez até um canteiro de rosas para ela, inspirado por Cartola. Dizem que a letra de “As Rosa não falam” foi quase totalmente composta quando Cartola levou à Dona Zica, sua esposa, umas mudas de rosas que plantou no jardim. Dias depois, ao abrir a porta pela manhã, ela percebeu que muitos botões haviam desabrochado e ficou deslumbrada com tanta beleza e quantidade. Chamou seu amado e perguntou:

    – Cartola, venha aqui! Venha ver o jardim! Por que é que nasceu tanta rosa?

    E o sábio respondeu:

    – Não sei, Zica. As rosas não falam!

    Mas a mãe de Rosa parecia imune a qualquer beleza. Nada mais lhe interessava, lhe fazia sorrir, lhe animava. Sua última lembrança da mãe foi no desfile que consagrou a Mangueira, em 1984, na inauguração do Sambódromo. Quem puxava o samba era um tal Jamelão – puxava não, porque ele não gostava de ser chamado de puxador – um senhor mal-humorado com a voz de trovão, que assustou Rosa quando ela passou ao lado do carro de som. Ele parecia estar sempre bravo e a menina se agarrou ao pai com cara de choro, enquanto sua mãe se misturava ao mar verde e rosa da ala das passistas. Depois disso, ela nunca mais a viu. Nesse ano, aconteceu um dos feitos mais marcantes da história da escola: Depois de desfilar, a escola retornou pela Sapucaí, sendo aclamada pelo público. A comunidade toda ficou em festa, mas seu Reynaldo não conseguiu comemorar. Procurava sua amada em todos os cantos, parecia um louco a procura do nada. Só encontrava o vazio e se enfurecia gritando por ela.

    Mas será que alguém tinha perguntado para a sua mãe se era isso que ela queria? Mulher negra da favela, casou-se com o seu primeiro homem para sair de casa e da fúria do pai. Queria pôr fim ao ciclo de humilhação e violência que vivia com a mãe, que tinha um filho atrás do outro pelo simples motivo de que não apanhava enquanto estava grávida. Se tornou uma mulher fria, sem brilho. Paria como um bicho e fazia de tudo para engravidar novamente. O marido se gabava, enquanto ela só queria sobreviver.

    Nair era o contrário. Seu sorriso cativava a todos, seu brilho era natural. Mas precisava ser livre, desfilar, cantar seu amor pela vida. O casamento com Reynaldo ia muito bem até a notícia da gravidez. Apaixonados, nunca pensaram em evitar. Muito pelo contrário, Reynaldo sempre dissera que queria ter muitos filhos, um para cada ala da sua escola. Mas sua amada começou a se sentir como a mãe, presa pelo ventre, amarrada pela obrigação. Não falava sobre o bebê, não queria saber de pensar em nomes, não se importava se seria menino ou menina. Tinha pesadelos constantes e, por mais que Reynaldo lhe acalmasse e jamais tivera coragem de lhe erguer a mão, a barriga crescendo era muito mais um fardo do que um acalanto.

    Nesse dia em que ela sumiu na multidão, fazia 3 anos que ela não saia de casa. Depois de muita conversa de amigos e parentes, ela resolveu voltar para a sua escola. Seu Reynaldo imaginava que ela só precisava voltar a sorrir, voltar a brilhar. Como se todos os seus fantasmas fossem desaparecer na magia verde e rosa do Carnaval. Ela se aprontou com esmero especial. Vestiu-se como se fosse a última vez. Se despediu do marido e da filha com lágrimas nos olhos. Acharam que era a emoção. Mas era um adeus.

    Depois que a mãe de Rosa foi embora, Seu Reynaldo a criou do jeito que pode. Pedindo ajuda para a mãe e as irmãs que se revezavam enquanto ele trabalhava, fazendo bicos pela comunidade de pintor, eletricista e o que mais precisassem. Rosa cresceu cercada de amor, mas a falta da mãe parecia uma chaga aberta, um afago que nada conseguia substituir.

    Rosa foi se tornando uma bela moça e fazia vista pelas ladeiras da Mangueira. Mas enquanto todas as suas amigas sonhavam em desfilar na escola do coração, Rosa queria escrever o samba enredo. Queria cantar sua tristeza, colocar para fora a falta da mãe, as aflições do pai, o abraço que não encontrava parceria, o choro que só encontrava eco.

    Fazia versos como quem ama. Como quem padece. Mas não mostrava para ninguém, sabia que não tinha lugar no meio dos adultos, nem dos homens. Se deslumbrava quando seu pai entoava os clássicos da escola, imaginava novas rimas, corria para anotar suas ideias em um bloquinho cor de rosa estrategicamente guardado sob o seu travesseiro. Se escondia no barracão enquanto os homens bebiam e batucavam na mesa imaginando novas canções.

    Nas festas de família, todos gostavam de mostrar os seus talentos. Sua tia Ana cantava enquanto seu primo José tocava violão. A alegria era enredo fácil e as reuniões de família iam até o dia amanhecer. Era aí que o morro ficava mais bonito, com os tons de rosa inundando os becos e iluminando os corações.

    “Mangueira, teu cenário é uma beleza. Que a natureza criou…”

    Seu primo José era parte importante na vida de Rosa. Como um irmão mais velho, era ele quem a defendia dos outros meninos, fazia às vezes papel de pai quando seu Reynaldo viajava para fazer serviços em outras cidades e lhe dava sempre bons conselhos. Era mesmo um bom primo. Um dia, ao voltar da escola, deu de cara com ele deitado na sua cama com o bloquinho cor de rosa na mão. Ela deu um pulo e o arrancou da mão dele:

    O que você está fazendo aqui?

    Minha mãe mandou dar uma olhada em você, parece que seu pai vai voltar tarde. O que você escreve nesse caderno?

    Não interessa!

    Interessa sim. É lindo!

    Você acha mesmo?

    Acho sim. Para quem você escreve isso?

    Antes que José imaginasse que ela estava apaixonada por alguém, Rosa tratou de inventar algo. Ela não queria dizer da saudade da mãe, da tristeza do pai, mas também não queria fazer papel de boba dizendo que queria ser compositora de samba. Seu primo ia rir da sua cara.

    Fala, Rosa. Já sei, você está apaixonada!

    Claro que não! Só…escrevo.

    Pois eu acho que tem poesia aqui. Posso copiar algumas coisas? Vou hoje no barracão e acho que dá para fazer um samba.

    Os olhos de Rosa se iluminaram.

    Fazer um samba com as minhas letras?

    Claro. Mas, olha só. Melhor eu dizer que é meu. Você sabe, os coroas não iam aceitar uma menina na roda de samba.

    Pode fazer o que quiser. Será que eles vão gostar?

    Só podemos tentar.

    À noite, José foi se encontrar com os outros compositores já com um samba na ponta da língua.

    Vocês precisam escutar isso!

    E José foi, pouco a pouco, emendando frases, batucando aqui e acolá, falando mansinho…E as palavras foram se tornaram música e ganhando som. Seus companheiros de roda, já munidos com seus instrumentos, foram dedilhando acordes e cobrindo o silêncio. Era uma melodia triste, como todo samba deve ser.

    Rapaz, ou você está muito apaixonado ou sofrendo muito. O que, no fim, dá na mesma!

    Todos riram enquanto José não se aguentava:

    Gostaram mesmo?

    Falta um arranjo melhor, mas tem cheiro de sucesso!

    Rosa não tinha conseguido dormir. A todo momento esperava o retorno do primo que havia prometido lhe falar sobre o que acontecera no barracão. O pai, seu Reynaldo, abriu a porta da frente, cansado de mais um dia de labuta e Rosa estava lá de pé, achando que fosse José.

    O que você faz acordada, Rosa? Seu primo não lhe avisou que eu iria demorar?

    Sim, papai, mas não conseguia dormir. Estava preocupada com o senhor.

    Isso não era de todo mentira, mas Rosa queria mesmo era saber notícias do seu samba. Fingiu um bocejo, abraçou o pai e voltou para o quarto. Espiava a lua longe, se escondendo por nuvens finas que pareciam se desfazer com um sopro. De repente, um barulho na janela. Deu um pulo tão rápido que quase caiu da cama.

    Rosa…tá acordada?

    José, pelo amor de Deus! Como poderia dormir com tanta ansiedade no peito?

    Vou falar rápido para não acordar o seu pai. Eles adoraram a letra, vamos fazer os acordes e a música amanhã. Vai ser um sucesso! Agora vai dormir.

    Dormir? Como Rosa poderia dormir depois de uma notícia como aquela? Ela se revirou na cama até os primeiros raios de sol e não conseguia parar de sorrir e pensar e compor até na hora de fazer o café até chegar na escola e ainda depois. Tinha que dar um jeito de ir até o barracão naquela noite para ouvir – imaginem só! – o seu samba ser tocado, apreciado e amado pelos melhores músicos da escola. Tinha a sorte de ser sexta feira e não ter escola no dia seguinte. Seria mais fácil convencer o pai.

    O dia passou devagar, a tarde chegou preguiçosa e quando os últimos raios de sol inundaram o morro e todo o rosa que fazia a tristeza ir embora se dissipou, Rosa já estava pronta e faceira na espera do pai chegar para pedir autorização para ir ao barracão. Sorte das sortes, seu Reynaldo chegou cedo naquele dia e muito bem humorado, o que era novidade.

    Pai, que bom que chegou cedo. Preciso lhe pedir uma coisa.

    Onde você está pensando em ir tão arrumada assim? Não me diga que está namorando!

    Claro que não, pai! Só quero ir no barracão ver o meu primo tocar um samba novo.

    José voltou a compor? Essa eu quero ver. Podemos ir, mas tem certeza que não tem namorado por aí?

    Juro, papai!

    Esse comportamento da filha, ao mesmo tempo que deixava seu Reynaldo aliviado, também o deixava pensativo. Será que a menina tinha medo do amor?

    Os dois chegaram cedo no barracão e os músicos ia aparecendo aos poucos, vindos do trabalho, alguns ainda famintos, pois a vontade de chegar logo no local do samba era maior do que a de jantar em casa. Todos tinham um trabalho formal, pois viver de samba ainda não dava dinheiro. Mas eram tão apaixonados pelo que faziam, que talvez até se arriscassem.

    Uma figura diferente estava na roda naquele dia. Uma mulher sorridente, forte, com lenço colorido amarrado no cabelo. Seu pai correu para cumprimentá-la:

    Zica, quanta honra ter você aqui!

    Reynaldo, meu amigo…Como você está? E a pequena Rosa?

    Rosa não conseguia acreditar no que via. Era dona Zica, viúva de Cartola. E ainda sabia seu nome!

    De pequena ela não tem mais nada, Zica!

    Rosa foi se aproximando devagar como quem chega no fim de uma peregrinação. Como toda a sua vida se resumisse naquele momento.

    Mmmuiito pprazer, dona Zica. Sou muito sua fã!

    Reynaldo, sua filha já é uma mulher! Estamos ficando velhos! E ela sorriu, enquanto puxava Rosa para perto em um abraço com cheiro de peixe e cebola.

    Vieram para o meu vatapá? Ela era famosa pelo prato.

    Nem sabia, mas viemos também pelo samba novo do José.

    Samba novo? Essa eu quero ver.

    E no meio do preparativo para o vatapá, o barulho das latinhas de cerveja abrindo e os instrumentos se afinando, chegou José. Muito bem arrumado, penteado e perfumando, como um mestre sala à espera da sua porta bandeira.

    Caprichou, hein?

    Todos os homens fizeram questão de brincar com a aparência de José, pois era o único que havia tido o cuidado de ir em casa antes de chegar no barracão.

    Só pode estar mesmo apaixonado!

    Mas a farra durou pouco. Eles queriam era escutar o samba. Até Dona Zica saiu da cozinha e pediu para outra pessoa ficar de olho no vatapá. Rosa se sentou perto do primo, que com um aceno carinhoso, a chamou para mais perto.

    A música falava de perda, de amor, mas também de esperança. Rimava a vida com alegria e Rosa a cantava baixinho, com aquela segurança de compositora. Seu Reynaldo tentava segurar as lágrimas, pois não conseguia parar de pensar na sua amada Nair. O “Jorge da Cuíca” fingia tirar um cílio do olho esquerdo que teimava em não cair. Seu Jair, no violão, viu uma lágrima descer pelas cordas e quase desafinou. Na verdade, todos os homens tentavam segurar alguma emoção escondida – homem não chora, afinal – mas Dona Zica estava atenta aos lábios de Rosa. Ela cantou a música toda transbordando de sentimentos. Quando a última nota entoou e todos aplaudiram José, Dona Zica perguntou?

    Quem fez essa letra linda?

    Fui eu, Dona Zica. – Respondeu, cheio de orgulho, José.

    E Rosa?

    A menina, que estava ainda celebrando em silêncio o seu sucesso, foi tirada daquele torpor pelo seu nome dito daquela maneira tão certa.

    O que eu fiz, Dona Zica?

    Eu que te pergunto. O que você fez? Esse samba?

    Todos se entreolharam como se aquilo fosse uma brincadeira. Seu Reynaldo, quase envergonhado, correu para intervir.

    Imagina Dona Zica. Rosa é uma criança, onde ia arrumar imaginação para isso?

    Rosa continuava calada, sem saber onde era o seu lugar naquela situação. Mas José, consciente do talento da prima, disse:

    Foi Rosa que escreveu sim, Dona Zica. Eu só dei uma ajeitada, meus parceiros fizeram a melodia, musicamos… Mas a letra é de Rosa.

    Seu Reynaldo não sabia se abraçava a filha ou a colocava de castigo, Quanta ousadia escrever aquele samba. Mas quanta tristeza também na vida dessa menina, meu Deus!

    Os outros sambistas também não sabiam como lidar com aquela menina que, de repente, se mostrava uma grande compositora. A filha do Reynaldo, quem diria! Mas ainda era uma menina, no fim das contas.

    Parabéns Rosa. Você foi aprovada no mundo do samba! – Disse Dona Zica como para dar um fim àquela confusão de valores – É isso o que você que fazer?

    É sim, Dona Zica.

    Então tem a minha benção e de todos aqui. Concorda Reynaldo?

    Mas é claro que sim. Se é isso o que ela quer!

    Ninguém iria discordar de Dona Zica e nem mesmo José ficou chateado por ter a prima alçada quase ao estrelato do samba em uma noite. Ficou feliz em não precisar mentir mais e prometeu ajudar Rosa nas próximas composições.

    Sempre falta alguma coisa, né?

    Rosa sorriu como estivesse em um sonho. Mal sentia o seu corpo, parecia levitar por entre todos. A música recomeçou e Dona Zica pediu a vez. Queria homenagear Rosa, com o seu segundo intérprete favorito.

    Que Cartola não me ouça, onde ele estiver. Mas eu sempre fui apaixonada pelo Orlando Silva! – Todos riram e ela entoou:

    Tu és divina e graciosa
    Estátua majestosa
    Do amor, por Deus esculturada
    E formada com ardor.


    Da alma da mais linda flor
    De mais ativo olor
    Que na vida é preferida
    Pelo beija-flor.


    Se Deus me fora tão clemente
    Aqui neste ambiente
    De luz, formada numa tela
    Deslumbrante e bela…

  • Dupla do Prazer: Cairo e Denizis Trindade

    Um panorama político e filosófico da sociedade brasileira através da poesia erótica de Cairo e Denizis Trindade

    Entrevista a: Por João Pedro Roriz*

    A poesia está ganhando cada vez mais espaço na cidade do Rio de Janeiro. Hoje, é comum ver saraus lotados pela cidade, com adesão da imprensa e outros segmentos da sociedade. Nesse universo, entre os que respiram poesia, encontra-se Cairo Trindade e Denizis Trindade, poetas performáticos que, durante a ditadura militar, causaram polêmica com a arte da “Por No Poema”, retórica literária política que pretende abarcar a ecologia, a luta social e a reflexão sobre moral e sexo. Integrantes da “Gang”, grupo marginal de poesia pornô nascido na década de 70, Cairo e Denizis, hoje reconhecidos como “A Dupla do Prazer” continuam produzindo arte através da poesia lasciva. Nessa entrevista, feita no apartamento do casal, em Copacabana, Cairo e Denizis falaram um pouco sobre a ideologia da Dupla, suas apresentações mais marcantes, segredos, histórias da Gang como o show em que dividiram o palco com Sting e, claro, sobre sexo.

    A Entrevista:

    Crônicas Cariocas – Qual é a importância da poesia erótica?

    DENIZIS – A poesia erótica que a Dupla do Prazer promove vai muito além do erotismo. Usamos o palavrão e a sexualidade de nossa poesia como forma de protesto contra qualquer modo de censura autoritária.
    CAIRO – Seria muito fácil produzir literatura tão somente para dar prazer. Nossa proposta é ir além, é transmitir a importância do amor livre, a anarquia sexual. É claro que o prazer existe, afinal, com a Gang apresentávamos números ousados para a época. Sofremos muito por causa disso, desde apreensão de livros até ameaça de prisão.

    Crônicas Cariocas – Vocês viveram de perto a explosão da revolução sexual e participaram ativamente do processo. Como vocês vêem a geração atual de jovens em relação à sua própria sexualidade.

    CAIRO – É preciso dizer antes, que a juventude atual adora a nossa poesia, a ponto de eu ter sido considerado um poeta dos jovens. Quanto a essa nova geração de jovens, acredito que ela está perdida, muito por causa dos pais. A novíssima geração está sufocada com tanta psicologia, normas de conduta do que pode e o que não pode fazer. A juventude está perdida, mas a sacanagem continua rolando solta, inclusive muito promiscuamente. Deixo claro que a gente nunca propôs a promiscuidade. Sexualidade sim, mal gosto, não!
    DENIZIS – Essa geração perdeu muito do afeto. Outro dia ouvi a amiga da minha filha dizer que “ficou” com cinco em uma noite. E eu: “Como? Você deu para cinco de uma só vez?”. Daí me explicaram que ela beijou cinco em uma noite. E eu me pergunto: “onde mora o afeto”? Melhor seria ter dado para um e com afeto, com prazer. Ou, se tivesse a fim mesmo, dado logo para os cinco, pois afinal, fica uma coisa meio doentia, um esfrega-esfrega, um roça-roça de lá pra cá e não sai disso…

    Crônicas Cariocas – Cairo, Você é filho de uma geração que promovia o sexo grupal como prática sagrada. É verdade?

    CAIRO – Sim, nada mais natural… Cleópatra participava de surubas maravilhosas. A história conta que grandes rainhas davam para dez em uma noite. A rainha da Rússia Catarina morreu transando com um cavalo… O problema todo é que essa geração atual quer desfrutar da liberdade sexual sem, de fato, se permitir a isso na prática. Hipocrisia social pura.
    DENIZIS – …ou medo de pegar AIDS! Pode ser isso também.

    Crônicas Cariocas – Será que isso não acontece por causa de uma idéia de que, se a adolescente transa é considerada uma vadia?

    CAIRO – As meninas hoje querem copiar os seus modelos, as tops simbols, celebridades que vendem essa imagem. Pura hipocrisia, como as mulheres da nossa época que faziam coito anal para casar virgem.
    DENIZIS – Concordo com o Cairo.

    Crônicas Cariocas – Para a Dupla do Prazer, o que pode e o que não pode em relação ao sexo?

    DENIZIS – Pode sentir prazer, e vai a luta! O que não pode é ir pra cama obrigada. Mas com prazer, vai.
    CAIRO – …assim como não se pode ir para a mesa sem comida, ir pra a rua sem trabalho. Para nós esta tudo junto no mesmo saco.

    Crônicas Cariocas – E o que é que choca a Dupla do Prazer?

    CAIRO – “Imoral é a injustiça social. Sérias são a morte, a solidão”…
    DENIZIS – “…A corrupção e a miséria. Indecência é a violência entre seres iguais, se matando sem nexo…”
    OS DOIS (JUNTOS) – “…E nunca prazer e pecado, lado a lado, de caso, fazendo sexo!”

    Crônicas Cariocas – Vocês já fizeram poesia na cama?

    CAIRO – Claro! É só o que nós fazemos (risos).

    Crônicas Cariocas – Vocês estão trinta anos juntos, trabalhando, falando poesia e fazendo sexo… É desgastante?

    DENIZIS – Em relação a nossa vida conjugal, é preciso ter uma flexibilização para tudo. Isso em qualquer relação, mesmo entre irmão ou pai e filho etc.
    CAIRO – A Denizis diz que sou figurinha fácil nos recitais, mas eu gosto mesmo de assistir, analisar e aprender, descobrir textos e poetas novos que me inspirem alguns textos. Mas qualquer postura cartesiana, rígida e rigorosa hoje em relação a vida do outro é um entrave à liberdade e à caminhada da humanidade em busca do paraíso.
     
    Crônicas Cariocas – Um pertence ao outro?

    CAIRO – “Ninguém é de ninguém”, é uma música antiga… Mas agora falando sério, existe um pertencimento entre qualquer casal. Em cena, por exemplo, quando encenamos um espetáculo, a gente está entregue ao público, mas na nossa privacidade, um pertence ao outro.
    DENIZIS – Acho que o Cairo já disse tudo.
     
    Crônicas Cariocas – Dentro da proposta do “Por no Poema”, onde entra a parte erótica propriamente dita?

    DENIZIS – Nós temos uma seção dentro do no nosso trabalho que chamamos de “Erosão de Eros”, onde falamos poemas eróticos um para o outro. Tem uma cena bem picante que a gente só faz para públicos reservados.
    CAIRO – …isso quando rola cachê e, de preferência em locais apropriados, em boates, etc. Mas as vezes, num festival ou ocasião especial, a gente também faz. Tem um poema que nós falamos no canal Brasil, que as nossas vozes se unem… uma voz sobre a outra, como no sexo: “Navegar da foda à fonte até o orgasmo a escrever o afogamento e o naufrágio”. As palavras e os versos se amontoam, como se a gente trepasse. É uma “trepada”.
    DENIZIS -…e a “trepada” que a gente faz no palco começa na “preliminar”, na perfumaria. É tudo cenicamente. A gente encena o sexo, mas sem penetração. E chegamos a um orgasmo metafórico.

    Crônicas Cariocas – Então vocês nunca fizeram sexo no palco?

    CAIRO – Seria quase impossível. Já até dormimos no palco uma vez antes do espetáculo, mas durante a apresentação não tem como, por causa do público, o ritmo do espetáculo, a cena, os aplausos, a grana da bilheteria depois… É tudo muito profissional.
    DENIZIS – A gente deixa pra chegar em casa. Teríamos que cobrar muito caro pra voyer, assim… (risos). Brincadeira…

    Crônicas Cariocas – E nesse trabalho, no palco, vocês ficam nus?

    CAIRO – Já fizemos nus, mas depende muito do lugar. Mas sem fazer sexo, apenas denotando o ato sexual.

    Crônicas Cariocas – Se a Denizis se excitar em cena, com as palavras e com o toque, isso não fica evidente para o público, mas no seu caso, Cairo, todo mudo perceberia…

    CAIRO – Mas ai é como qualquer ator, você está ali interpretando. Já aconteceu, mas como eu disse, depois vem a próxima cena.
    DENIZIS – Claro que dá tesão, nós ficamos pelados naquela esfregação. Na época da Gangue era um grupo inteiro, éramos vários atores em cena, todos se beijavam e se agarravam, sem essa de casal. Que o publico saía do teatro para ir ao motel transar, com certeza… Muita gente começou relacionamentos durante os shows da Gangue. Resultou em alguns casamentos também.

    Crônicas Cariocas – E vocês praticavam sexo grupal fora dos palcos?

    CAIRO – No palco, a gente encenava a suruba. Fora do palco, é segredo. Nós nunca revelamos isso para jornalista nenhum. Até porque muitos integrantes do grupo já morreram e em respeito a eles é um tabu que vai ficar na história.
    DENIZIS – Nunca falamos sobre isso. Os jornalistas sempre nos perguntaram e nós nunca comentamos.

    Crônicas Cariocas – Mas na Gangue existe um companheirismo muito grande entre seus membros, não é?

    CAIRO – Total e absoluto. Cumplicidade.

    Crônicas Cariocas – E como é que está a Gangue e a Dupla do Prazer, hoje?

    DENIZIS – Temos um músico da Gangue morando em Paris e, por isso, é mais difícil reunir esse grupo. A Dupla do Prazer se apresenta muito. Quando pinta uma grana boa, a gente chama a Gangue e monta o espetáculo para uma ou outra apresentação.
    CAIRO – Na hora de viajar a Dupla é mais portátil, pois somos só nos dois. Longas viagens ficam mais fáceis. A Dupla está em plena atividade.

    Crônicas Cariocas – Qual foram as apresentações mais marcantes de vocês?

    DENIZIS – Pra mim, a mais marcante no sentido de medo e de horror foi em uma Bienal de São Paulo, quando a gente chegou com ordem de prisão. Foi na época da ditadura militar. A policia nos cercou e deu ordem de prisão e o Gabeira disse que se fossemos presos ele ia junto. Como ele era a estrela no momento, não prenderam a gente. O Gabeira e o Cláudio Riller, escritor, hoje presidente do Sindicato Escritores de São Paulo, foram nossos protetores. Outra personalidade que nos apoiou nesse momento difícil foi a escritora Cleide Veronesi que já faleceu.
    CAIRO – Já dividimos palco com o Sting. Foi interessante, para 20 mil pessoas, em um palco maravilhoso, um som ótimo. Gilberto Gil estava recolhendo assinaturas para um manifesto em prol da ecologia, meio ambiente e pelas águas do mundo. Ele produziu um grande show em 1987 na praia, com Jorge Maltner, Nelson Jacobina (na época conhecido como carneiro, por causa do cabelo hippie enroladinho que parecia um carneirinho), Pepeu Gomes, Morais Moreira, e outras feras seletíssimas. Eles abriram uma concorrência com mais trinta grupos, de rock e pop music para que uma banda se apresentasse no show, e o nosso grupo, mesmo não sendo de musica, ganhou a concorrência. Fomos convidados a participar no meio dessas estrelas. O Gil pediu para a gente ceder um espaço de tempo para o sting assinar o manifesto. Nesse momento, o Sting entra no palco, assina o manifesto e canta uma canção. A Gangue voltou em seguida. Foi como se ele fizesse o nosso intervalo (risos). Foi mágico. 
    DENIZIS – Essa do Sting foi legal, mas boa mesmo foi apresentação de aniversário do Circo Voador, com Cazuza, Lobão, Blitz, grandes bandas…
    CAIRO – Sim, me lembro. A multidão derrubou o alambrado, tinha gente pendurada nos ferros da armação do circo, no teto… Uma loucura!

    Crônicas Cariocas – Como foram as apresentações da Gang Pornô na Academia Brasileira de Letras?

    CAIRO – Foi um escândalo internacional, na época. Todos os jornais publicaram sobre o assunto. Nós ficamos nove meses em cartaz lá. Os acadêmicos sempre nos prestigiaram. Eles são sábios…
    DENIZIS – Quando o Ledo Ivo tomou posse, perguntaram para ele o que é que tinha de bom na poesia brasileira e ele falou “a poesia pornô”. No dia seguinte, foi primeira pagina no Globo e Jornal do Brasil: “Pornô na ABL”. O Ledo até recitou poema pornô para a gente.  Temos tudo isso documentado em fitas, matérias jornalísticas etc.

    Crônicas Cariocas – Como foi fazer uma encenação de sexo para 20 mil pessoas?

    CAIRO – Olha, talvez mais fácil do que para uma ou duas… a gente abstrai totalmente. Esquece do público.  O que conta somos nós nesse momento.
    DENIZIS – É uma multidão e a gente se perde, se esquece que tem gente olhando.

    Crônicas Cariocas – Segundo o ideal de vocês, a Poesia Pornô é muito mais abrangente do que a superficialidade do erotismo…

    CAIRO – Sim, pois tem conteúdo político e social. Nicolas Borges diria “amai-vos uns aos outros e o resto que se foda”, isso no bom sentido, é claro. Já eu, digo “Eu queria ser um poeta dos sem-terra e dos sem-teto, servir como a um anjo de guarda aos tristes e deserdados, ser um arauto dos sem voz, dos loucos perdidos e só, dos feios, fracos, falidos, sem porra nenhuma na vida. Eu queria ser o poeta de todos os que não deram certo, sem deixar por um instante de ser o cantor dos amantes”.
    DENIZIS – O meu é muito rápido: “Cada um faz o que quer, com homem ou com mulher”.

    Crônicas Cariocas – O que vocês acham do superficialismo do erotismo. O sexo como indústria?

    CAIRO – Superficialismo jamais! A gente tira a roupa sem medo e ao mesmo tempo com medo de tudo, mas nós somos holísticos… como nos temos visão de tudo, a gente acaba sendo íntegro, inteiro e isso nos dá coragem. As pessoas têm medo de se amar, se cuidar e ser feliz. A nossa proposta é contribuir para a mudança desse quadro. A luta continua, a gente tem uma missão, o fim de todos é o mesmo: todos querem a mesma coisa, a utopia existe apesar do “topos” ser o lugar que não existe. A gente quer fazer desse planeta um grande paraíso.
    DENIZIS – Nós falamos palavrões durante nossas apresentações, mas o utilizamos com humor, de modo positivo e dentro de uma proposta. Por exemplo, temos um poema que critica a situação ecológica do Brasil. A gente fala o nome dos animais que estão em extinção e fazemos a crítica. “Preás, ariranhas e caititus… todos tomando nos cus” e por ai vai.

    Crônicas Cariocas – Então vocês colocam o sexo em defesa de outros ideais, inclusive políticos?

    CAIROS – Sim, nós somos ambientalistas e apresentamos o sexo em defesa do meio-ambiente. Nós tínhamos uma seção chamada “eculógica”. Fala um poema ecológico para ele, Denizis…
    DENIZIS –…“A fabrica que fede fumaça, acido, lucro, plantada a forca por todos os redutos, põe a natureza de luto e a mim puto”. Esse poema é de Ulisses Tavarez. Tem um do Cairo que é assim: “O rico é com certeza quem mais destrói a natureza. Quem come mais é quem mais caga, é quem mais fede, é quem mais mata”. 

    Crônicas Cariocas – E como é o espetáculo de vocês?

    DENIZIS – Levamos o figurino e o cenário a gente usa o que tiver no local da encenação.
    CAIRO – …e o público adora! A Gangue é a nossa raiz. A dupla do prazer nasceu da Gangue e, por isso, temos tanto prestígio hoje.

    Crônicas Cariocas – Pois é, fale mais do público. Como é a reação em relação a nudez de vocês?

    DENIZIS – Ah, o público fica enlouquecido… Recebemos milhões de cantadas, todos querem nos levar para a cama. Os dois juntos, a Gangue inteira, um ao outro, uma loucura, varia muito…

    Crônicas Cariocas – E já rolou proposta financeira para levar vocês para a cama?

    CAIRO – A gente não dá margem para isso não, mas é claro que já confundiram as coisas, vêem a gente no palco sem roupa… Mas é um trabalho tão bonito, muito alem do erotismo…
    DENIZIS – Falamos de outros assuntos e não só o sexo. Temo o religioso, o político, transcendente, com uma pitada de erotismo sempre. Nós não misturamos as coisas, pois somos artistas.

    Crônicas Cariocas – A não ser que vocês quisessem?

    CAIRO – Sim, é claro… Aí seria diferente. Se nos encantar e nos seduzir, ai, não tem preço. A gente iria sem cobrar um puto.
    DENIZIS – Nenhuma proposta de um milhão de dólares ainda (risos), que nem aquele filme “Proposta Indecente”. Brincadeira…

    Crônicas Cariocas – Como é que os filhos de vocês vêem o trabalho artístico de vocês? “Pais revolucionários, filhos caretas”?

    DENIZIS – Nosso filho é ator e se apresenta com a gente desde pequeno. No show da Gangue, ele é o delírio dos gays e das mulheres. Agora, a nossa filha é totalmente contra. Ela não era, mas a gente deu uma entrevista uma vez para o Serginho Groisman e houve um problemão no jogo de vôlei dela, os colegas vieram em cima na escola dizer que os pais dela faziam suruba e tal… Desde ai ela parou de nos apoiar. Inclusive tem um poema que ela pediu para a gente não falar mais.

    Crônicas Cariocas – E como é esse poema?

    DENIZIS – Um poema do Bráulio Tavarez maravilhoso: “A boceta da minha amada tem pêlos barrocos lúdicos, profanos… é faminta como o polígamos das secas e cheias de ritmo, como o recôncavo baiano…” E por ai vai. Acaba assim: “…e só não é mais cabeluda do que as coisas que ela diz nos meus ouvidos quando a gente fode”.
    CAIRO – A cena que fazemos com o poema é bonita. Mas é forte! Por isso, sofremos essa censura em casa, após ter vencido a censura da ditadura (risos). É um hino à boceta, que é uma palavra feia, mas dentro do contexto fica lindo.

    Crônicas Cariocas – E em relação ao filho. Não tiveram problemas com o fato dele se apresentar com vocês quando era criança?

    DENIZIS – Fomos ameaçados. Quase perdemos o pátrio-poder, mas pelo fato dele ser homem, acho que ficou mais fácil resolver o problema. Se fosse menina, o problema seria maior.

    Crônicas Cariocas – E vocês viam problema dele se apresentar com vocês?

    DNIZIS – A gente via como um ato artístico.
    CAIRO – Naquela época, como hoje, a lei não permitia, mas a gente é transgressor e para nós não é crime nenhum.
    DENIZIS – Ele nasceu de quê? De um ato sexual… crime é matar!
    CAIRO – Tem pais que estupram o filho, isso é um crime bárbaro e a sociedade faz vista grossa. Nós fazíamos arte! Arte não é crime. A gente fazia um espetáculo no Teatro Rival dirigido pelo Antonio Pedro, com Grande Otelo, Ângela Leal e grandes atores. O nome da peça era “Cabaré Teatro”. E a filha do Antonio Pedro, com 15 anos, estava estreando no teatro. Aí foram em cima dele. Perdeu o pátrio-poder.
    DENIZIS – …pelo fato de ser mulher! Ator tinha carteirinha de veado e atriz, de puta. Aquela época não era fácil e esse espetáculo do Antônio Pedro era bem ousado para a época. Tanto é que a Gangue se apresentava no intervalo. 

    Crônicas Cariocas – Vocês estão com novos projetos poéticos?

    Cairo – Sim, estamos com um projeto de Sarau Poético em Botafogo. Acontecerá toda quarta-feira no Bar do Adão, na Rua Dona Mariana. Esse sarau será aberto para todas as vertentes poéticas, não só a erótica.

    A “Dupla do Prazer” se apresentará na UFRJ, no campus da Praia Vermelha, durante o Fórum de Ciência e Cultura, quinta-feira, dia 13 de junho. Qualquer informação, basta entrar em contato com a produção local. Tel 2295-1595.

  • Sal ou doce? — Biscoito Globo, quem vai?

    Foi esse o chavão que aprendi a escutar nos sinais de trânsito e nos pontos de ônibus cariocas desde que cheguei ao Rio, lá nos anos de 1990. Mas a verdade é que o Globo já caminhava pelas ruas muito antes de mim. Mais de quarenta anos de história, embalagens imutáveis, sabor cristalizado no tempo — como se fosse um pacto silencioso com a cidade.

    As rosquinhas de polvilho, crocantes e viciantes, custavam quase nada: um ou dois reais. Mas quem come uma nunca fica só nela. A segunda vem fácil, a terceira inevitável. Até o saco esvaziar e os farelos denunciarem a gula na camisa ou no banco do carro. O próprio slogan não mente: “o biscoito que você não pára de comer”.

    Na Avenida Brasil, Via Dutra ou na Linha Vermelha, madrugada ainda fresca e motores presos no engarrafamento, lá estão eles: camelôs surgindo como miragens. Carregam nos braços os saquinhos brancos com aquele bonequinho-mapa-múndi sorridente. Verde para o salgado, vermelho para o doce. E eu, invariavelmente, caio na tentação. Sempre digo a mim mesmo que vou resistir. Nunca resisto. Abro o pacote, começo a comer, e só percebo que acabou quando o vazio do saco pesa mais do que o próprio biscoito. A vontade do quero-mais é um vício que se disfarça de hábito.

    Semana passada, algo mudou. No lugar do velho Globo, um novo concorrente se impôs: o Biscoito Extra. Saquinho branco também, mas com outra estampa. Uma garotinha segurando a rosquinha no alto, o Pão de Açúcar desenhado abaixo, e atravessando tudo a palavra “extra”, azul turquesa sobre fundo amarelo. Por um instante, parece o mesmo. Mas não é.

    Gabriel, um dos donos, jura que a matéria-prima é a mesma. E talvez seja mesmo. Mas não é disso que se trata. Ao mastigar o Extra, sinto como se cometesse uma pequena traição. Globo é memória, é fidelidade, é aquilo que a gente carrega sem precisar explicar. Como quem bebe Coca-Cola e insiste que Pepsi não é igual. Pode até enganar, mas não convence.

    Não sei se o carioca vai trocar um pelo outro. Eu, pelo menos, não consigo. Talvez no fim das contas nem importe. Porque os ambulantes continuarão a impor seus produtos, e a cidade seguirá engolindo-os, distraída, como sempre foi.

    E lá se repete a pergunta, reformulada:

    — Doce ou salgado? Biscoito de polvilho Extra, quem vai?

    *Escrito originalmente em: Rio de Janeiro, 25 de fevereiro de 2006

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