Doze horas em ponto, os sinos da igreja de Santo Antônio de Pádua anunciavam. No dia em que completava 50 anos, Joel saiu apressado do escritório do advogado e, ainda dentro do elevador, passou a organizar mentalmente as tarefas da tarde. Memória privilegiada, sua melhor agenda sempre foi a própria cabeça. Era quinta-feira, e apenas no sábado uma celebração ocorreria. Reunião modesta, só para os mais íntimos, como se costuma dizer. Afinal, nunca gostou mesmo de comemorar aniversários. Ficar mais velho não é fato que mereça ser festejado, caramba. Mas a filha insistiu: data redonda, meio século, não se pode ignorar uma ocasião como essa. Em frente ao prédio do advogado, uma rua de grande movimento. Teria de atravessá-la antes de alcançar o metrô. Um pouco mais adiante, uma passarela de pedestres. Consultou o relógio e decidiu que não valia a pena utilizá-la. Perderia tempo e, além disso, jamais se sentiu confortável caminhando em cima delas. Os carros passando em alta velocidade lá embaixo causavam-lhe certa aflição, além de taquicardia, pernas bambas e suor nas mãos. Um automóvel vermelho vindo ao seu encontro é a última imagem de que se recorda. Veículo grande, desses projetados para uso em terrenos acidentados. Estendido ali, no meio da pista, julgou que talvez tivesse sido atropelado. Em torno de si, ouvia vozes, muitas; porém, não conseguia entender o que estavam dizendo. Homens e mulheres falando alto, mas era como se aqueles indivíduos se comunicassem numa língua estrangeira e pouco familiar, algo assim como basco, japonês ou turco. Pensou então na filha única e na festa que não aconteceria. Pensou também na pilha de livros a sua espera na estante do escritório, livros que não leria nunca. Pensou na esposa e se deu conta de que ela ficaria viúva. Bem, ao menos não seria mais necessário levar adiante toda aquela burocracia do divórcio. Pensou nos poucos amigos que tinha. Sempre fora um homem introvertido, reservado. Um ou outro talvez sentisse sua falta. Pensou na chefe. Pensou, sem conseguir evitar uma ponta de orgulho, que seria difícil para ela encontrar alguém capaz de substituí-lo com a mesma eficiência. Pensou nas fantasias sexuais que não teria chance de realizar. Sempre fora tão travado… Logo agora que se sentia mais solto, pronto para experimentar novas sensações… Paciência! Pensou nos pais velhinhos, companheiros de uma vida inteira, morando sozinhos no casarão de Vila Esperança. O casarão que se recusavam a abandonar, onde ele e a irmã Jane passaram a infância e a adolescência, local de descobertas e brincadeiras em companhia de primos e vizinhos, de uma vida ao ar livre que já não existe. Pensou nas galinhas, criadas com esmero e dedicação pela mãe no quintal. Nos ovos saborosos de gema escura e nos pintinhos que elas produziam. Nas brigas com a irmã pelo direito de nomeá-los. Nos castelos imponentes, construídos no jardim com terra, água, pazinhas de plástico e competência. Sua vocação para a arquitetura havia nascido ali, não tinha dúvida. Pensou ainda nas flores cultivadas pelo pai. Viçosas e coloridas, faziam os passantes pararem diante dos canteiros a fim de admirá-las. Nos pássaros de vários tipos que, sem pedir autorização, faziam morada nas árvores da propriedade. Pensou na horta atrás da casa, onde Rosalina ia buscar a salada do almoço. Por fim, pensou em Rex, bolinha de pelos preta e saltitante, companheiro fiel e amoroso. Todo esse esforço de recordação o exauriu. Por que todas essas imagens se faziam presentes justo naquele momento? Eram muitas as lembranças a tumultuar-lhe o cérebro. Elas chegavam sem que ele pudesse evitar. Simplesmente brotavam, como a água limpa brota às vezes das pedras. Tentou esvaziar a mente, não pensar em mais nada. Sim, essa era a coisa certa a fazer. Será que depois de velho estava ficando piegas? De onde todo esse sentimentalismo havia surgido? Com a morte dos pais, a casa provavelmente seria vendida pela irmã. Seu maior desejo se tornaria realidade. Não teria dificuldades em convencer a sobrinha. Obstinada, Jane sempre acabava conseguindo tudo o que queria. No local, é possível que um edifício de 49 andares, batizado com algum nome estrangeiro, despontasse. Quem sabe um prédio comercial, com lojas e escritórios… Junto com a casa, toda a história da família iria ao chão. Em torno de si, Joel continuava a ouvir vozes e barulhos diversos. Pessoas de branco pareciam tentar socorrê-lo. Ele louvava o empenho delas, embora tivesse quase certeza de que este resultaria inútil. Inútil seria também a tentativa de impedir a irmã de vender o casarão. Talvez ela nem sequer esperasse a morte dos pais. Talvez os pusesse num asilo — ou casa de repouso, lar geriátrico, pousada ou recanto para idosos, eufemismos que designam tão somente o local onde filhos desalmados abandonam os pais. Nossa, que exagero, agora estava sendo cruel demais com a única irmã. Ela não era nenhuma bruxa, ora bolas, com toda a certeza amava os pais. Só era da opinião de que eles deveriam deixar a casa, isso sempre achou mesmo e nunca escondeu de ninguém. Era tudo muito amplo, argumentava. Nada justificava que continuasse a viver ali um casal de idosos dependentes e de saúde frágil. Sentia-se cada vez mais fraco e experimentava dores terríveis pelo corpo inteiro. Com as últimas forças que lhe restavam pensou finalmente que deveria ter utilizado a passarela, que teria sido muito bom poder reunir aqueles que o amavam em sua festa de aniversário e que uma decisão irresponsável pode transformar uma existência de forma definitiva.
Sábado
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O dia do aniversário
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Habite-se!
Habitar é um estado de bem-aventurança. Nômades ou sedentários, sempre procuramos o nosso lugar. Talvez a casa seja a palavra mais valiosa do mundo, ao lado do amor.
Vai muito além de um conjunto de paredes, cômodos e teto. O corpo também é casa, a pele que habita a superfície da sua cor, sente frio e calor; a alma que habita a profundidade, sente no exílio, falta e saudade.
Polvos, moreias, tubarões, passarinhos, também têm seu ninho, sua toca. A casa é o destino da rua, para onde levamos nossas conquistas e feridas e de onde podemos sonhar.
Como num casulo, nela, abrigamos nossos ovos de ouro. Seja própria, não própria ou até mesmo imprópria.
A casa desde sempre fez parte do nosso mundo imaginário. A da infância nem se fala, fica marcada tal qual prensada por um ferrete em brasas. Perseguimos numa corrida de obstáculos, o ideal do doce lar, àquele lá de trás, perdido desde sempre, cujo endereço era a barriga de mãe.
Habitados pelo inconsciente, passamos a vida desejando retornar a este estado de puro prazer e assim emprenhamos de significantes a nossa casa edificada, como se a sua posse nos servisse como uma insígnia fálica.
De repente e por assombro, metem os pés nos nossos peitos, arrombando as portas. Escancara-se assim o nosso templo sagrado. A casa invadida, outrora pensada tão protegida, cai. Mas içada, remonta-se um novo castelo e assim deixamos a nostalgia ao relento, no sereno de um tempo que já passou.
Habite-se! Na sua própria construção, nesse lugar de afeto que poderá ser habitado com segurança. Conceder-se a propriedade do seu desejo, pode ser o maior de todos os bens. Aproprie-se do seu nome próprio, este que lhes foi dado com tantas marcas e histórias. Autorize-se das suas palavras e narrativas, essa pode ser sim, a chave tão desejada. Mas antes de destravar a engenhosa fechadura, e adentrar na casa idealizada, assegure-se que a escavação foi profunda e que a esculpiu com delicadeza. Sem esquecer de despejar os restos e as sobras. Despeje-se! Do gozo, que por natureza, carrega em si, prazer e dor. Despeje-se! Do eu cheio de si, que se desborda pela porta.
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A Despedida
Estranho ver você aí deitado, fisionomia serena. Por que você não era assim a maior parte do tempo, Samuel? Tenho a impressão de que você vai se levantar a qualquer momento e começar a falar aquelas coisas sem sentido que costumava dizer. Você não percebia que seus argumentos eram frágeis, sem coerência? Suas cenas de ciúme bobas. Samuel, aquilo era apenas meu trabalho, era tudo profissional. Sério. Nunca houve nada. Nada mesmo. Olha em volta, não veio quase ninguém. Sua mãe, seu irmão e sua cunhada mal me cumprimentaram. Nem parecem tão tristes. Ficaram surpresos com a minha presença. Não vejo nenhuma senhora Samuel Arantes. Pra falar a verdade, nunca soube se existiu alguma depois de mim. Claro que você deve ter tido seus casinhos por aí. Presta atenção, vou fazer uma coisa. Quero que você leve minha aliança com você. Sim, eu ainda guardo. Poderíamos ter sido felizes juntos, ter construído uma relação sólida. Mas você era imaturo, queria as coisas sempre do seu jeito. Acabou que não tivemos filhos. Não passamos nossa herança adiante, não deixamos na terra nossa semente. Ainda bem, nunca tive vocação pra maternidade. Acho que você também não teria sido um bom pai. Pra onde será que você foi? Tomara que para um bom lugar. Apesar de tudo, você não merece sofrer. Sua alma já está por aí, flutuando no ar, observando as pessoas de modo furtivo, será que já deu tempo pra isso? Samuel, você já sabe que morreu? A gente ouve dizer que muitas pessoas demoram a descobrir. Bem, meu lado espiritual não é tão desenvolvido, não posso falar com propriedade sobre esses assuntos. Pensei que conseguiria refazer minha vida depois da nossa separação. Não foi isso que aconteceu. Mas sempre é tempo, né? Trouxe uma coroa. É a mais bonita de todas. São apenas duas, ainda assim é a mais bonita. Fiz questão de colocar meu nome na faixa pra todo mundo saber. Ainda não tô acreditando. Nem consegui chorar, embora ache que devesse. Não, não, não. Não vou usar técnica de atriz pra isso. Ou aconteceespontaneamente ou nada feito. Samuel… Eu te perdoo. Você me perdoa?
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O coração negro do futebol
Àqueles que acompanharam a Copa do Mundo não deve ter passado despercebida a presença maciça de jogadores negros nas partidas. Não me refiro obviamente às equipes da África Subsaariana (Cabo Verde, Costa do Marfim, Congo…) que, por sinal, a cada edição vêm melhorando seu desempenho, enfrentando de igual para igual seleções consagradas do Primeiro Mundo. E sim às poderosas esquadras europeias, que, apesar do sobe/desce dos últimos anos, permanecem na linha de frente do futebol.
Em outro extremo, chama a atenção uma notável exceção: a Argentina, em cuja seleção não há sequer um único jogador negro. Resultado de uma política de ‘embranquecimento’ levada a cabo durante o século XIX, derivada do projeto colonialista praticado. O Estado portenho incentivou fortemente a imigração europeia e executou um recrutamento discricionário de negros para as frentes de batalha. Sem falar da incidência de epidemias que atingiu severamente os segmentos mais pobres. Tais fatores contribuíram em encolher drasticamente a presença da etnia no país. Esses movimentos fizeram com que a população negra fosse reduzida ao longo da história, ao que se estima, de 30% para menos de 1%, nível que se mantém até hoje. O resultado desse processo de exclusão racial é percebido dentro e fora dos estádios e ajuda a compreender as lamentáveis cenas de racismo expressas pela torcida celeste e… branca.
A situação de nosso vizinho sul-americano é intrigante. Separados apenas por uma fronteira de 1200 km, partilhamos com nossos hermanos um passado colonial marcado pela escravidão e muitos pontos em comum em nossas culturas, incluindo uma paixão quase religiosa pelo futebol. No entanto, enquanto o Brasil construiu uma sociedade miscigenada (ainda que marcada por desigualdades e racismo estrutural), no país ao lado os negros foram praticamente banidos da vida política e social.
A Europa percorreu caminho inverso. Nas últimas décadas, o continente recebeu grandes levas de imigrantes africanos que se tornaram cidadãos franceses, ingleses, holandeses, belgas, alemães. Muitos deles, claro, tornaram-se craques de bola.
Antes da virada do século, o padrão dos jogadores europeus era bem diferente: atletas brancos leitosos, quase róseos, robustos, bem nutridos, disciplinados e impecavelmente preparados que praticavam um jogo quadradinho, previsível e altamente técnico, frio como os Alpes austríacos, preciso como os relógios suíços. Conservando esses atributos, o futebol europeu acumulou admiráveis conquistas.
Até que sua hegemonia foi quebrada em 1958 por um grupo de garotos morenos franzinos, bons em driblar e improvisar, provindos de um país tropical do Hemisfério Sul. Entre eles, um ‘negrinho’ camisa 10 que aos 17 anos cativou o mundo com seu toque genial, sendo entronado ‘rei do futebol’.
A partir daí, para manter sua relevância, o futebol europeu resolveu mudar de tonalidade. Essa transformação ficou particularmente evidenciada na seleção francesa 70% black de 2026, cuja formação escancarou ao mundo um país de cidadãos com características físicas diferentes daquela que o mundo se acostumara a assistir. Alguns conferiam a esse fenômeno um tom de deboche, insinuando, numa expressão escamoteada de racismo, que a seleção da França não era integrada por autênticos franceses, como se um dos critérios necessários para definir a nacionalidade fosse a cor da pele.
Não se tratava, é bom que se ressalte, de jogadores estrangeiros naturalizados e sim, em sua maioria, filhos ou netos de imigrantes nascidos ou criados na mesma terra de Charles De Gaulle, Edith Piaf, Monet e Simone de Beauvoir. Pessoas que participaram da construção da sociedade gaulesa contemporânea, mais plural e heterogênea. Que entoavam ‘A Marselhesa’ com o mesmo fervor dos demais e que ali estavam para dar seu sangue (igualmente vermelho) pela nação que os acolheu e exaltou com pioneirismo os ideais de Liberdade, Fraternidade e Igualdade.
Nobres valores que parecem vir sendo deixados de lado nesses tempos em que os fantasmas do racismo e da xenofobia têm aflorado, ameaçando até os campos presumivelmente neutros do esporte, ambiente em que o princípio da equanimidade de condições deveria prevalecer. Derivados da mesma lógica que inspirou o mito da superioridade ariana, desmontado quando Jesse Owens cruzou a linha de chegada bem à frente dos atletas que Hitler colocou na raia para se tornarem imbatíveis.
Hoje, a presença marcante de negros no ‘rude esporte bretão’ já não causa estranheza. Se o futebol é branco de nascimento, carrega em sua face nova coloração. Parodiando Vinícius de Moraes, se hoje ele é branco na estratégia, é negro demais no coração.
E essa metamorfose foi além do futebol. Basta ver a Corrida de São Silvestre, em que a reiterada superioridade dos filhos da Mama África tornou a competição desinteressante. Não é diferente no boxe, no basquete, no atletismo e em outras categorias olímpicas em que os negros têm monopolizado as grandes conquistas. Ao contrário do que ocorre em modalidades elitistas como tênis, golfe e fórmula 1, em que o domínio de branquelos bem formados permanece.
Fenômeno semelhante acontece na música popular. Do jazz ao blues, do rock’n’roll ao soul, do mambo ao reggae, do samba ao maracatu, é difícil imaginar a trilha sonora do mundo sem a contribuição decisiva de artistas como Chuck Berry, Jimi Hendrix, Miles Davis, Duke Ellington, Louis Armstrong, Billie Holiday, Bob Marley, Stevie Wonder, Aretha Franklin, Michael Jackson, Ray Charles, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Cartola, Pixinguinha e tantos outros.
Não se trata de talento natural, inato, como se poderia erroneamente deduzir. Mas da capacidade humana que demonstraram de transmutar aflição em criação, exclusão em expressão, resistência em excelência.
A situação no campo das ciências merece reflexão. A predominância de cientistas e pensadores brancos não pode ser dissociada das condições que favoreceram acesso à educação, instituições de pesquisa e financiamento. A menor participação de negros nesses espaços está relacionada a barreiras econômicas, sociais e políticas, jamais à limitação de capacidade.
O mesmo ocorre em manifestações artísticas tradicionalmente associadas às elites. A música clássica, o balé, as artes plásticas e mesmo certos circuitos literários, continuam refletindo um padrão menos diverso. Essas expressões dependem de um capital cultural difícil de acumular: aulas precoces, instrumentos caros, escolas especializadas e acesso a instituições pouco permeáveis à segregada população negra.
Durante séculos, os padrões de valorização cultural privilegiaram referências europeias, enquanto as contribuições africanas e afrodescendentes foram sistematicamente marginalizadas. O reconhecimento de sua importância na música, no esporte e em outras manifestações culturais representa, antes de tudo, a reparação por uma injustiça histórica.
Assim, a mesma força que molda o coração negro do futebol e dita o ritmo das pistas de dança e dos palcos reluzentes precisa romper as barreiras intransponíveis das universidades e dos centros inacessíveis de poder. O talento e a resiliência que transformaram o esporte nascido inglês em espetáculo mundial de pluralidade são os mesmos que têm potencial para revolucionar a ciência e o pensamento global. Desde que as condições de largada sejam as mesmas. A história mostra que o protagonismo negro já não pede licença. Ele se impõe pelo mérito, provando que, se a tática do mundo insiste em ser monocromática, em seu peito pulsa um coração multicor.
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O que fica?
Ganhar é sempre bom?
Depende.
Pergunte a quem subiu na balança após um fim de semana prolongado:
— Ganhei dois quilos.
Nesse caso, “ganhar” não soa como vitória.
Também se perde um compromisso, a paciência, o medo, uma oportunidade ou alguns quilos. A palavra é a mesma, mas o sentido muda conforme o que vai ou fica.
As palavras têm faces.
Como moedas, pessoas e quase tudo.
Outro dia ouvi alguém dizer:
— Passou.
Passou o quê?
A Copa? A esperança da Argentina? Metade do ano?
A dor? A vontade? Uma moda? A oportunidade? A festa?
Tudo passa.
E, quase sempre, isso é bom.
O problema nem sempre está no que se foi, mas no que insiste em ficar.
As vezes, a lembrança que fica dói. A dúvida corrói.
E pior
Fica a frase incômoda: “Eu poderia ter feito diferente.”
Talvez sim. Ou não!
É fácil julgar depois. Do lado de cá, todos parecem saber mais. Analisamos gestos, palavras e silêncios como se tivéssemos todas as respostas.
Não tínhamos.
Fizemos o possível com o que éramos: consciência, experiência, medo e coragem.
Ainda assim, quando algo não sai como esperado, não nos contentamos com a frustração. Acrescentamos peso.
Não consegui.
Logo, não sou capaz.
Perdi.
Logo, não merecia.
Errei.
Logo, sou um fracasso.
Não.
Uma coisa não define a outra.
Não alcançar algo não torna ninguém incapaz. Um resultado é só um acontecimento, não uma sentença. Uma perda não mede valor. Um erro não apaga acertos.
Como se não bastasse o desconforto, ainda nos condenamos.
Eu me recuso.
Recuso a ideia de que todo ganho seja vitória.
E também a ideia de que toda perda seja derrota.
Há ganhos que pesam, e perdas libertadoras.
Há portas que não se abrem porque não eram nossas. Caminhos interrompidos que revelam outros. Conquistas que brilham por fora, mas cobram por dentro.
Toda moeda tem dois lados.
Não um bom e outro ruim.
Isso seria simples demais. Ambos pertencem à mesma moeda e têm valor. É preciso virá-la, observá-la, entender o que cada face revela.
Talvez o verdadeiro otimismo não seja acreditar que tudo dará certo.
E sim entender que, mesmo quando não dá, nem tudo está perdido.
Que não fique, depois de tudo, uma injustiça contra nós mesmos.
Passou.
Tudo passa…
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Quem falou?
Há palavras e frases que, de tanto serem repetidas, acabam se esvaziando. Ou talvez já nasçam assim: sem sustentação.
Uma delas sempre me intriga.
— Descansou.
Não falo do descanso de um fim de semana, do fim do expediente ou das férias.
Falo daquele outro.
Morreu?
Coitado… descansou.
Morreu e descansou.
Sempre me pergunto: quem decidiu isso?
Quem garante que aquela pessoa estava cansada?
Talvez ainda tivesse planos, uma viagem marcada, um livro aberto sobre a mesa, alguém para reencontrar.
É claro que pode acontecer.
Há quem enfrente uma longa doença, um sofrimento sem alívio, um corpo exausto.
Mas também pode não ser assim.
Talvez estivesse cheia de vida, de projetos e de sonhos.
Ainda assim, dizemos que descansou.
Há muitas frases assim, que circulam de boca em boca sem jamais serem interrogadas.
“Foi Deus quem quis.”
“Era a hora.”
“Tudo acontece por uma razão.”
Expressões herdadas, repetidas quase por reflexo, apenas porque nos acostumamos a elas, chegando antes mesmo do pensamento.
Diante do que não sabemos explicar, criamos atalhos.
Ao não sabermos lidar com a perda, recorremos a fórmulas prontas e entregamos frases feitas, como se pudessem preencher o espaço que a ausência deixou.
Isso pode acontecer porque estamos assustados, porque a dor do outro também nos afeta ou simplesmente porque repetir é mais fácil do que refletir.
Em momentos difíceis, buscamos apoio nas palavras.
Ainda assim, surpreende que certas expressões atravessem gerações sem que nos perguntemos se ainda fazem sentido. Ou se fizeram um dia!
Podemos adotar despedidas mais verdadeiras.
Simplesmente um abraço.
Um olhar demorado.
Ou palavras simples, mas cheias de significado.
“Vou sentir falta dele.”
“Ela fará muita falta.”
“Não sei o que dizer.”
O abraço, o olhar, a companhia, o cuidado dizem muito mais do que as palavras conseguem dizer.
Alguém que prepare um café, ofereça um copo d’água, sente-se ao lado sem a obrigação de preencher o silêncio.
Gestos simples, quase invisíveis, mas que dizem: eu estou aqui.
Talvez o desejo de encontrar uma frase para suavizar a despedida não devesse superar a disposição de cuidar de quem ficou.
Diante da morte, o que consola raramente é o que dizemos.
É o que fazemos.
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Era só uma brincadeira
Cara, na moral, foi só uma zoação. Olha o tamanho da confusão que armaram pra cima da gente, mano! Não dá pra entender esse povo fazendo essa zoeira toda. Dá um tempo! Parece que nunca tiveram 14 anos.
Era só para tirar um sarro da tia na sala de aula, meu. Essa chata que vive querendo enfiar um monte de caretice na cabeça da gente, uns papos de cidadania, respeito, sociedade, essas coisas. Uns troços nada a ver, que não dão futuro, não rolam grana, não dão engajamento nas redes.
A ideia bizarra surgiu do nada no recreio. Alguém lançou o desafio maneiro pra ver quem encarava botar os vidrinhos na garrafa de água da tia. O mais doidão assumiu a missão. Bora dar umas risadas.
A gente puxou o celular pra filmar e botar no Tik Tok. O vídeo ia bombar: sangue, gritaria, esse tipo de coisa sempre viraliza. Mais seguidores, mais visualizações, mais compartilhamentos. Os algoritmos iam pirar, kkkkk.
Pena que alguns deram pra trás e falaram pra ela que era melhor não beber da água abençoada. Arregaram bonito os traíras. A verdade é que ninguém tava nem aí no que ia dar pro lado da tia. Quando muito ela podia engasgar, sei lá, sangrava um pouco, nenhum drama. Tomava um belo susto pra ficar esperta e parar de encher o saco.
Podia dar coisa pior? Podia. Vai que a coroa empacotasse de vez. Azar dela. Fazer o quê? A gente não é coveiro.
Com o piti que a bruxa armou ao descobrir o lance, deixei cair o iPhone. Ainda bem que não detonou a filmagem. Quem ia pagar o preju, isso ninguém fala.
E ainda puseram a infeliz pra choramingar na internet, dizendo que não queria mais lecionar, ia precisar de tratamento, viajou na maionese. Esse lenga-lenga de vitimismo que a gente já tá por aqui. Vê se te enxerga, mulher! Vai cuidar de teu homem e para de bancar a coitada.
De qualquer jeito, não ia dar em nada. No máximo, um sermão sacal do diretor, uma suspensãozinha de uns dias, legal pra gente tirar uma folga em casa. E ficava por isso mesmo. No Brasil, ninguém fica na cadeia. Pra nós, menores então, a lei protege de qualquer punição.
Os otários falam como se a gente fosse bandido. Menos, né. E outra: o professor não é esse santo que vocês pintam. O cara que se mete a dar aula é um fracassado que não conseguiu trampo que dá grana, vive estressado, ganha um salário de merda e passa a sua vidinha miserável em cima de livros, achando que vai mudar o mundo. É um frustrado que só enche a gente de tarefa chata, manda guardar celular e ainda quer se meter em dar lição de moral.
O que não dá pra engolir é esse monte de trouxa fazendo discurso e caindo em cima. Do nada apareceu polícia, imprensa, quiseram envolver até nossos pais que não tão nem aí. Não tem a menor graça, meu. A gente ia lá saber que vidro cortava garganta e podia matar? Vamos dar um fim nessa tragédia, gente. Chega de mimimi!
E ainda tiraram do ar o vídeo antes de viralizar. Sacanagem…
Cadê a liberdade de expressão?
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O último dia
O dia ainda não havia amanhecido quando o rádio anunciou neve no mês de novembro pela primeira vez no Brasil. Naquela mesma noite, por volta das 7 e 30, Fubá apareceu sozinho e inquieto, ostentando uma ferida no dorso. Amália logo pensou no mau pressentimento sofrido pela manhã. Sentiu-se culpada, achou que deveria ter tentado me impedir. Denise e Isabel ainda dormiam. Me levantei às 6, tomei banho, comi uma banana e um pedaço de pão, me servi do café preparado por Amália, dei um beijo nela e saí na companhia do meu fiel companheiro. As últimas semanas estavam sendo desanimadoras. Dragas passariam a ser usadas na busca por ouro e diamantes nos trechos mais inacessíveis. O fato é que eu não vinha conseguindo achar nada realmente valioso, capaz de compensar o sacrifício de trabalhar em condições tão desfavoráveis. Alguns dos meus colegas já haviam abandonado aquela parte do rio. Outros estavam prestes a fazer o mesmo. Consumido por dívidas, Ronaldo se matou, Salustiano se afundou na cachaça e vivia vagando pelas ruas sem propósito, enquanto Jorge e Pedro decidiram perseguir a sorte numa cidade vizinha. Eu ainda insistia. Essa situação adversa está por terminar, acreditava. Por volta do meio-dia, resolvi parar para almoçar. Na bolsa, a marmita com feijão, arroz, ovo e um bife, além de pedaços de carne para Fubá. Pus-me a repousar embaixo de uma aroeira. O raciocínio remoía os acontecimentos, e o descanso não durou muito. Minhas costas doíam, a cabeça pesava… A certa distância, via Belmiro, peneira na mão, exercitando seu ofício enquanto cantarolava um samba antigo. Deixe-me ir Preciso andar Vou por aí a procurar Rir pra não chorar… Fubá começou a latir e a agitar-se em círculos. Demorou ao menos uma semana para que os fatos se esclarecessem. Meu corpo, processo de decomposição avançado, foi encontrado encoberto pelo mato por uns moleques que soltavam pipa. Eu havia sido atacado por um tamanduá. As garras do bicho golpearam-me o tórax, causando uma hemorragia fatal.
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UM DIA DE VERÃO
Eunice saiu da rede e se instalou na cadeira de palha da varanda. Cruzou as pernas e substituiu os óculos de leitura por outros com lentes escuras. Pôs de lado o livro sobre questões ligadas aos direitos das pessoas com deficiência que vinha lendo nos últimos dias e contemplou o panorama à sua frente. Sorveu dois goles de suco de limão gelado, pousando em seguida o copo sobre a mesinha de centro. Retocou o batom discreto com o auxílio de um espelhinho. Procurou uma posição confortável e começou a meditar. Aos 67 anos, ainda trabalhava como advogada. Quando ingressou na faculdade, quase meio século atrás, julgava ser aquele o caminho ideal para alguém dotado de um senso de justiça tão exacerbado quanto o seu. O exercício profissional bem cedo se encarregou de demonstrar a falácia desse raciocínio. Ao longo da carreira, foram muitas as decepções. A sensação de impotência e de inutilidade era por vezes tão palpável… Atualmente, gostava de escapar da agitação da cidade fugindo rumo ao sítio da serra. No jardim, sua neta de 5 anos, companheira eventual dessas aventuras bucólicas, brincava. Em sua pureza infantil, mexia na terra, rolava na grama viçosa, colhia flores e observava o comportamento dos insetos. A avó estreante se comovia. Em cima do muro de tijolos ao lado do portão de entrada, a menina abria os braços com convicção e gritava: Eu sou o Cristo Redentor! De tempos em tempos, olhava para trás e acenava. E sorria. O sol forte do início da tarde iluminava-lhe o rosto. Como é lindo o sorriso de uma criança. De qualquer criança. Depois que ficou viúva, Eunice passou a não ver graça no apartamento amplo de Copacabana, onde hoje vivia sozinha. Tudo muito repentino, exatamente como costumam ser as tragédias. Uma bala disparada à luz do dia, não se sabe por quem, conseguiu, com a rapidez de um instante, pôr fim à vida de um homem produtivo, competente, amoroso e responsável. Olhando Camila, Eunice se preocupava. Que mundo lhe estaria destinado? Por um momento, desejou ter o poder de congelar o tempo. Ficaria ali, eternamente a olhar a menina, desligada do resto do Universo, convencida de conseguir assim resguardar e proteger aquele ser inocente. De quê? Nem ela mesma sabia ao certo. Em diversas ocasiões, a própria Eunice se sentia abandonada e perdida, carente de um ombro aconchegante. Um beija-flor inesperado e arisco distraiu-a por alguns segundos. Em seu voo assimétrico, a ave negra e minúscula quase se chocou com uma das pilastras da varanda. As duas garrafinhas penduradas no alto representavam um convite a esses pássaros adoráveis. Solitários, em duplas, lá vinham eles. Parados no ar, batiam as asas com avidez, sugando o néctar a eles destinado. Camila circulava agora entre as estatuetas que enfeitavam o jardim, transformando-as, com sua imaginação prodigiosa, em príncipes, heróis, fadas, duendes, seres alados, bichos falantes… De repente, o tempo começou a se fechar. O sol, até então radioso, de vez em quando sumia por trás de nuvens espessas e acinzentadas, formadas sem que Eunice tivesse se dado conta. Um ambiente opaco surgiu. Um vento assobiando fino começou a ser ouvido. Balançava as folhas das árvores, levantava a poeira da estradinha de terra batida diante da casa e desalinhava os cabelos castanhos de Camila. Arrancava dos galhos mangas maduras que salpicavam o solo com um amarelo vivo e gostoso. A ameaça de chuva e as insistentes lufadas de vento fizeram Eunice convocar a neta até a varanda. Ficaram as duas ali, quietas e pensativas, concentradas apenas naquela realidade. De mãos dadas, exercitavam uma cumplicidade que deveria ser natural entre avós e netas. Meia hora depois, com a volta da claridade e de uma tranquilidade aparente, a pequena dirigiu-se de novo ao jardim. Perto de uma roseira ramosa, um marimbondo picou sua testa. Camila gritou de dor. E chorou.
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GRITO DE GOL
Um grito de gol não sai de uma superfície plano inclinada: a garganta. Ele irrompe de um outro lugar. Vem do fundo , sinuoso e labiríntico. Vem da pátria, seja verde e amarela, rubro-negra, tricolor…
Pulsional, berra com a força e velocidade maiores que da própria bola, que estremece a rede, transferindo sua energia cinética para as suas malhas, resvalando no peito e retumbando nas batidas do coração do tocedor.
Nos traçados da bola, que dribla num tempo lógico, nos projetamos nos talentos dos pés e na alma de quem chuta a bola, que sorri e chora. Transferimos para os jogadores em campo, o nosso ambicioso ideal, desejosos de sermos nós mesmos os campeões e assim teríamos uma constelação cravada nos peitos nus, com astros e estrelas formando figuras imaginárias.
Nesse jogo renovamos a aposta na improvável vitória. Damos partida no motor do desejo que se realiza quando a bola cobre o goleiro adversário. O grito de gol pula da boca, faz tremer o corpo , como a paixão . Segundos depois do “gozo catártico”,
retesamos os músculos, atentos, prendemos a respiração.Se apaixonar-se é a diminuição do Eu e a hipervalorização do Outro, o gol cai como uma luva nesta fantasia. — Gol! É do Brasil!!!A sexta estrela seria nossa, nos completaria como um álbum de figurinhas e melhor ainda, sem igual no mundo.
O gol é como o amor. Ambos têm a mesma criativa tática para preencher a falta.
Mas, se o grito se cala, deixando mais frágeis as solas dos pés, calejamos. A derrota também é nossa, carentes que somos de grandes vitórias. Do lado de fora dos estádios, nos traçados do jogo da vida real, nossas identificações entram em campo.
Qual é a sua atuação nesta área? Atacante, meio-campista, defensor ou o que espera para agarrar as bolas chutadas?
Mas as frustrações prorrogam o desejo. “Da próxima vez vai dar certo”.
A vitória destrói a ilusão ao confrontar o sujeito com o vazio. Esvazia-se a fantasia, revelando que a completude não existe. O que fazer quando os planos tão bem calculados são provocados pelas emoções?
Em choque, caímos na real: o adversário imbatível é o inesperado. A bola está com o outro e oscila sem concreta explicação.
O avião da seleção pousou numa outra América, encoberto por um grandioso arco-íris. Estreou no dia de Santo Antônio, o segundo jogo no São João, e depois São Pedro. Sinais de bom augúrio. Mas não houve santo que desse jeito!
Ciao!
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Historias antigas…
Nossa avó morava com a gente.
Aliás, morava é modo de dizer. Ela fazia parte da casa. Era como a mesa da cozinha, o quintal, o cheiro do café e aquele relógio escurecido na parede da cozinha, com o antigo passarinho saindo sem pedir licença, para dizer: cuco-cuco.
Era a nossa melhor amiga.
Minha, da Laura, dos maiores, dos pequenos, dos primos que apareciam, dos vizinhos e até do cachorro, que, se pudesse escolher, dormia só aos pés dela.
Todo dia chegava a hora das histórias.
E histórias não faltavam. A gente nunca sabia o que tinha acontecido de verdade e o que ela aumentava só para deixar o causo melhor. Mas isso pouco importava. O bom era ficar ali ouvindo, enquanto ela mudava a voz para cada personagem, imitava homem bravo, galo cantando e até o cuco do relógio.
— Vocês lembram do Neguinho do Pastoreio?
— Aquele que ajuda a encontrar coisa perdida? — alguém respondia.
— Esse mesmo. Pronto. Bastava isso. A gente se aquietava. Ela ajeitava os óculos, cruzava as mãos no colo e começava.
— Pois uma vez ele ajudou a encontrar um menino.
E lá vinha o causo.
O menino gostava de ver as comitivas passando pela estrada. Quando ouvia o berrante, largava o que estivesse fazendo e corria para a porteira da fazenda.
Naquele dia, subiu na cerca. Depois no mourão. E acabou sentado lá em cima, todo importante, como se fosse dono da estrada.
A boiada vinha bonita.
Gado que não acabava mais. Peões firmes nos cavalos. Tudo seguindo devagar, naquele passo de procissão do campo.
Até que veio um redemoinho de areia.
— E aí, vó?
— Aí quase deu o estouro da boiada.
Ela falava isso arregalando os olhos, e pronto, todo mundo já sentia que a coisa era séria.
A poeira subiu, os bois se agitaram, os peões perderam a visão por alguns instantes. Quando a ventania passou, a boiada estava ali, mais ou menos nos eixos.
Mas o menino tinha sumido.
Chamaram. Procuraram de um lado. Procuraram do outro.
Nada.
O chefe da comitiva desceu do cavalo, tirou o chapéu, ajoelhou-se no chão e fez uma oração ao Neguinho do Pastoreio.
Mal terminou o pedido, ouviu-se um choro.
O menino estava caído atrás da placa grande da fazenda, coberto de poeira, assustado, mas inteiro.
Tinha despencado do mourão durante a ventania.
— Foi o Neguinho que salvou ele, vó?
— Foi quem ajudou a achar.
E ela encerrava assim.
Sem jurar.
Sem duvidar.
Deixando a gente acreditar no tanto que quisesse.
Hoje, quando penso nisso, fico imaginando que história minha avó contaria do mundo atual.
Talvez eu chegasse aflita, com a bolsa revirada, dizendo:
— Vó, perdi meu celular.
Ela nem levantaria muito os olhos.
— Já procurou direito?
— Já.
— Na gaveta?
— Foi onde procurei primeiro.
— Debaixo da almofada?
— Também.
Aí ela suspiraria, com aquela paciência antiga que só avó tem, e diria:
— Então pede ajuda ao Neguinho do Pastoreio.
— Mas, vó, como ele vai achar celular?
E ela, muito séria:
— Minha filha, hoje em dia até santo deve usar GPS.
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O VÔ ZÉ
Quando o vô Zé estava para morrer, pediu para sair de casa. Fraquinho, não parava em pé, mas quis por força sair no pomar.
– Eu quero abraçar as minhas árvores – disse.
Mal balbuciava as palavras, mas insistia:
– Eu plantei essas árvores. Vi crescer que nem minhas filhas. Eu quero abraçar minhas filhas pela última vez.
Tive que carregá-lo nos braços. Não aguentou abraçar mais que três árvores. Fez questão de abraçar a mangueira de manga-espada, no centro do pomar, a jaqueira e uma jabuticabeira do mato, enormes.
– Agora posso morrer quase feliz – disse, com os olhos marejados de lágrimas.
Não pudera sair até o pasto, abraçar a grande figueira e as paineiras com seus espinhos.
Pequenininho nos meus braços, segurando no meu pescoço, olhou o cafezal ao longe:
– Eu plantei cada uma dessas mudinhas. Elas falam comigo, me pedem a bênção.
Enxugando as lágrimas com a manga da camisa, ergueu o braço direito.
– Um pai que é pai conhece os seus filhos – concluiu, abençoando.
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Quando Jesus encontrou os Orixás
Certas manhãs nascem diferentes. Não porque o sol brilhe mais intenso, mas porque o mundo resolve cochichar histórias para quem tem ouvidos para escutar.
Numa dessas manhãs, Jesus caminhava descalço, sozinho, por uma estrada de terra vermelha. O chão ainda guardava o frescor do orvalho, e a poeira fina subia entre seus dedos a cada passo. Carregava ele um manto simples, um sorriso sereno e o hábito de saudar árvores e animais.
Ao chegar a uma velha encruzilhada, sob a poeira suspensa, o ar pareceu subitamente mais denso. Ali sentado sobre uma pedra pontiaguda, encontrou um homem vestindo vermelho e preto e um chapéu desabado que sombreava os olhos vivos. Girava uma bengala entre os dedos e exibia um sorriso enigmático. O silêncio que os cercava era quase palpável, como se o tempo hesitasse diante do cruzamento.
— Olá, viajante. O dia amanheceu largo para quem anda sozinho — disse o homem, voz rouca, cortando o silêncio com a precisão de uma lâmina afiada.
— A paz esteja convosco — respondeu Jesus.
O homem inclinou a cabeça, o sorriso expandindo-se em desafio.
— Paz é coisa que se procura no fim. Aqui no meio, o que manda é a escolha. E toda escolha cobra seu pedágio.
Era Exu. Não o das histórias mal contadas, personagem sombrio dos malfeitos que o preconceito inventou. Era o senhor das passagens, das escolhas, da palavra que abre caminhos e revela tropeços.
— Vai para onde? — perguntou Exu, tocando levemente a bengala ao solo, testando a firmeza do andarilho.
— Para onde houver alguém precisando de uma palavra de esperança, replicou Jesus sem recuar.
— Isso é o que não falta nesse mundinho.
Ambos sorriram. A tensão desfez-se no ar
Jesus e Exu continuaram caminhando juntos.
De repente, a calmaria foi interrompida. O vento começou a dançar de um jeito diferente, soprando em rápidas lufadas que ergueram a poeira e fizeram as folhas girar como se estivessem executando uma coreografia antiga. Envolta por tecidos claros que pareciam feitos do próprio ar, surgiu uma vistosa mulher, com os olhos faiscando como relâmpagos contidos.
— Bons ventos os trazem, forasteiros — disse ela, a voz vibrando como um trovão distante.
Era Iansã.
— As pessoas temem as tormentas, mas ignoram que é o vento quem limpa o céu. E leva embora o que insiste em ficar.
Jesus, segurando firme seus longos cabelos esvoaçantes e seu manto que se rebelava no corpo, respondeu:
— Às vezes, é preciso perder o que nos prende para encontrar o que nos chama.
Iansã sorriu satisfeita e o vento amainou, transformando-se numa brisa suave.
Enquanto Exu retornava à sua morada na encruzilhada, Jesus seguia em frente.
O calor do dia começou a apertar e surgiu o rumor de água corrente.
À margem de um riacho cristalino, onde o aroma de lírios e água fresca acalmavam os sentidos, emerge a silhueta cativante de Oxum. O reflexo do sol na água criava faíscas douradas ao redor de suas mãos. Observava ela os peixes bailarem entre as pedras.
Ao ver o andarilho exausto, ela prontamente lhe ofereceu água em uma cuia reluzente.
— Toda sede merece respeito.
Jesus, sentindo-se acolhido, aceitou de bom grado e agradeceu.
O contraste entre a urgência do mundo e a calmaria daquele córrego era profundo. Oxum olhou nos olhos dele e perguntou:
— Reconheço em você um sábio. Então, me esclareça, por favor, essa questão que me tortura: por que tanta gente acredita que a força necessita de barulho?
— Porque não lhes foi ensinado escutar o silêncio.
Ela sorriu com a mesma felicidade que invade um curso da água quando os raios do sol da manhã acariciam sua superfície.
Jesus continuou sua jornada de destino incerto, deixando o vale e subindo a serra. onde o vento uivava e a gravidade parecia confrontar a pequenez e a fragilidade humanas, quando avistou Xangô.
Recolhido em seu trono de pedra bruta, observava o horizonte como quem pesa as coisas do mundo numa balança invisível.
— Justiça… — balbuciou, a voz grave reverberando no paredão de pedra, como querendo concluir um pensamento inacabado. — Todos imploram por ela.
Ele olhou para Jesus, medindo a estatura espiritual daquele homem franzino. Fez uma pausa e completou:
— Mas o que os homens desejam é apenas vencer.
Jesus assentiu, sentindo o peso daquela verdade esmagadora.
— Amar a justiça exige coragem. Amar a vitória nem tanto.
Os dois trocaram um olhar de cumplicidade. abençoando o veredicto silencioso que compartilhavam.
Jesus prosseguiu. Ao descer a montanha, a vegetação fechou-se em uma mata densa. O ar tornou-se úmido, com cheiro de musgo, resina e folhas pisadas.
Na beira da mata, um homem de porte firme e olhar certeiro observava as copas das árvores, perfeitamente camuflado na proteção das sombras. Um pequeno pássaro pousou-lhe no ombro, sem medo.
Era Oxóssi. A imensidão da floresta parecia intimidar o intruso, mas Jesus avançou com reverência e sem temor. O caçador apresentou-se com as seguintes palavras:
— A floresta nunca fala alto — disse — Mesmo assim, nada do que acontece lhe escapa.
Jesus acercou-se com mais um passo e passou a mão sobre o tronco rugoso de uma árvore centenária, sentido a vida pulsar sob a casca grossa.
— Meu Pai também costuma ensinar usando sementes.
Oxóssi abriu um sorriso cordial, transformando a tensão da mata em hospitalidade.
— Sei disso. Ele é um excelente jardineiro. Formaríamos uma ótima dupla.
Jesus deixou-o, em direção a uma praia isolada, onde as ondas vinham e iam como se o mar, através delas, respirasse. O sal grudava-lhe na pele e o som rítmico do oceano quebrava na areia branca.
Ali avistou Iemanjá.
Vestida com as cores da espuma, ela observava o oceano com a serenidade de quem reconhece todas as lágrimas que nele desaguam. O horizonte infinito trazia uma melancolia profunda, quase dolorosa.
— Os seres humanos choram muito.
Jesus aproximou-se, parando onde a água borbulhante alcançava seus pés. Respondeu:
— Porque amam muito.
Ela concordou, com o olhar medindo a ida e a vinda das marés.
— E continuam amando, mesmo depois de sofrer.
— Talvez seja essa sua maior coragem.
Por um instante, ninguém disse nada. Nem precisava. As ondas falaram por ambos, engolindo a dor do mundo no balanço das águas.
Quando o sol começou a se esconder, tingindo o céu de tons de brasa e púrpura, Exu reapareceu, na margem da estrada.
— Engraçado…, comentou, surgindo da penumbra.
— O quê? — perguntou Jesus, sentando-se a seu lado.
— Estava aqui meditando: cada povo inventa um jeito diferente de procurar o sagrado.
Jesus, com olhar perdido no horizonte, retrucou:
— Verdade. E, quase sempre, se desentendem, achando que estão do lado da razão. Como se a razão tivesse um lado.
Exu deu uma sonora gargalhada que ecoou ao longe, afugentando os últimos pássaros do dia.
— Sendo que o caminho permanece lá. Indiferente às batalhas que se fazem em seu nome.
Como velhos amigos, os dois sentaram-se na mesma encruzilhada onde tudo havia começado, ensaiando um final para o encontro.
Alguns passantes estranharam a cena. Uns viram apenas dois homens comuns conversando. Outros juravam ter presenciado uma roda de luz que os cercava. Houve quem dissesse que eram conhecidos de longa data. Também apareceu quem garantisse que a cena não passava de miragem.
O certo é que ninguém escutou o que falavam. Talvez porque certas conversas não tenham sido feitas para ser reveladas.
Quando a noite caiu de vez, cobrindo a paisagem com um manto de estrelas, cada um retomou a direção que lhe cabia.
Antes de partir, Exu, ajeitando o chapéu, perguntou com respeito:
— Então, Mestre (permita-me chamá-lo assim?). Quando nos veremos de novo?
Jesus respondeu:
— Todo encontro sincero deixa uma porta aberta.
Exu bateu a ponta da bengala no chão e um estalo seco ecoou bem longe.
— Que os caminhos então permaneçam abertos.
— Os corações também.
Se tal encontro aconteceu de verdade, ninguém sabe com certeza. Mas quem relata costuma terminar sempre do mesmo jeito: dizendo que, naquela encruzilhada, ninguém saiu com a última palavra.
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VENDE-SE
Cruzei o portão e logo avistei uma rolinha morta. A grama alta e malcuidada competia com o mato. Do lado de fora da casa, uma pintura pálida, descascada e algumas pichações que protestavam contra o governo anterior. Tive vontade de chamar por minha mãe. Quase consigo vê-la em pé diante da porta, postura altiva, robe de seda esvoaçante, cabelos compridos e levemente desalinhados, rosto maquiado… Depois de sua morte, era a primeira vez que eu retornava. Um silêncio intimidador que não combinava com a atmosfera da casa da minha infância e adolescência. Às vezes, um cachorro da vizinhança injetava um pouco de vida ao redor, assim como pássaros escondidos na folhagem das árvores do entorno. No quartinho escuro, o cheiro era muito forte. O galinheiro ficava ao lado, um ambiente que eu frequentava bastante. Era o encarregado de cuidar dos animais. Fazia de tudo e acabei estabelecendo com eles um relacionamento amistoso. Em algumas ocasiões, podíamos contar com caseiros e empregadas, o que, com o passar do tempo, foi ficando cada vez mais raro. Os bichos me esperavam e sentiam minha falta quando eu ficava um tempo maior sem aparecer. Galinhas e coelhos. Patos e marrecos no lago próximo à mangueira. Comecei ajudando meu pai. Você tem sorte, ele dizia, se criássemos porcos e cabritos, o trabalho seria muito mais pesado. Um dia ele nos deixou. Sem aviso. Minha mãe fechou-se no quarto e quase morreu. Tia Berta então veio ficar com a gente. Cuidava dela e de mim, mas não se aproximava da criação. Agora eu era o único responsável. Até que ela também foi embora. Na época, vovó ainda era viva e nos visitava de vez em quando. Minha mãe passou a me trancar no quartinho sempre que recebia algum convidado. Homens, em sua maioria. Eu os via de relance, pelas frestas, descendo de carros elegantes. Dentro do quarto ao lado do galinheiro, penumbra. A lâmpada pendurada no teto queimava e demorava a ser substituída. A janela de madeira velha estava emperrada, era praticamente impossível abri-la. Na época, eu não conseguia. Cogumelos nasciam nas partes podres, devoradas por cupins.
O doutor Frederico chegou de táxi. Desceu do carro e começou a bater palmas e Na chamar meu nome diante do portão. Fui ao seu encontro. Ainda no jardim, passou a me falar das propostas que havia recebido pela casa. Documentos pendentes e providências à espera de resolução. Burocracia enfadonha, enfim. Você não assinou os papéis que pedi? Estamos perdendo tempo. Talvez tenhamos de reduzir um pouco o preço. As pessoas se interessam, mas não têm dinheiro, são tempos de crise. Você sabe, Felipe, o local se desvalorizou depois que o restaurante e o posto de combustíveis aqui da rua deixaram de funcionar. O sistema de transportes também não é dos melhores, sejamos realistas, acho que o metrô nunca vai circular nas redondezas. Sem dúvida, essa relativa proximidade com o mar continua sendo um atrativo. Como você é o único dono, acho que…
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Despreparar
Ou preparar. Quem sabe?
A vida exige aprendizados. Será que nos preparamos para a luta diária ou aprendemos tudo enquanto ela acontece?
Em que momento soubemos nos equilibrar sobre um salto alto, tirar os sapatos para brincar no parque com os filhos, passar no mercado na volta do serviço, engolir o almoço às pressas e correr para a faculdade?
Quase sem perceber, deixamos de ser cuidados para nos tornar cuidadores. Talvez nunca tenha existido um aprendizado formal. Apenas a vida acontecendo.
Então surge uma febre repentina. Chamamos o pai. Só que ele também está aprendendo. Ontem era um rapaz sem grandes preocupações. Hoje tenta descobrir por que o bebê chora, aprende a fazê-lo arrotar, troca fraldas, anda pela casa com a criança no colo durante a madrugada. Tudo isso enquanto o pequeno tem cólicas, regurgita e volta a chorar.
Ninguém entregou um manual.
Faço essa reflexão e me vem à mente a ideia de que carregamos uma memória antiga, quase genética, exemplos silenciosos e uma rede invisível de proteção.
Há sempre os anjos da guarda da vida real: mães, tias, vizinhas, amigas, sogras, primas.
Há também as heroínas dos livros, dos filmes e das histórias. Mesmo sem perceber, somos influenciados por elas.
Talvez seja assim que sobrevivemos. Escutamos a música e, intuitivamente, sabemos dançar.
É por isso que acredito nessa sabedoria sem nome. Uma mistura de experiência, instinto, coragem e referências que vamos recolhendo ao longo da vida.
Algumas nascem conosco. Outras nos são emprestadas por quem passou antes de nós.
Depois de tantos anos sendo exigidos pela vida, atravessando fases tão diferentes, é natural que chegue o tempo de colher um pouco do que plantamos e aproveitar as benesses da terceira idade.
Também aprenderemos a envelhecer. Como aprendemos a ser adultos. Na prática.
Talvez a velhice não peça tantos aprendizados novos. Ela nos convide apenas a desaprender. Que não há culpa de pensar em nós primeiro. Nem ter a necessidade de resolver tudo.
Desaprender a acreditar que nossa felicidade deve esperar a de todos os outros.
Acredito que precisemos nos despreparar.
Deixar pelo caminho algumas exigências que fizeram sentido durante tantos anos, mas que já cumpriram sua missão.
Quero crer que envelhecer também seja isso: reconhecer que continuo responsável pela minha vida, mas que agora posso escolher um ritmo diferente.
Porque viver nunca foi uma escolha. Aprender a viver, sim.
E, depois de ajudar a sedimentar o caminho de quem um dia dependeu de nós, talvez seja chegada a hora de caminharmos com mais leveza pelo nosso próprio. Intuitivamente, mais uma vez!
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Vinte Meia Um
O ano é 2061, não se esqueça disso. Foram essas as últimas palavras do meu chefe depois de ele ter me explicado todo o projeto. Parece que a solicitação tinha partido lá de cima (ele reforçou a informação com o dedo indicador da mão direita apontado para o alto quando me passou a tarefa). O novo dono da revista cismou que queria uma matéria sobre como estaria o mundo daqui a 35 anos. Bem, eu sou o mais novo da redação (em tempo de casa) e não podia recusar um pedido do chefe. Na verdade, acho que foi mais uma ordem. Transmitida com educação, mas uma ordem. Seja como for, nunca foi do meu feitio desrespeitar algo chamado hierarquia. Mais tarde, refletindo melhor, acabei me sentindo orgulhoso de ter sido o escolhido. Afinal, se o doutor Santiago julgava aquilo tão fundamental… De qualquer forma, foi até engraçado essa incumbência ter surgido justamente nessa época. Um dia antes de receber a solicitação, eu havia lido no jornal alguma coisa a respeito de como tinham sido furadas as previsões de um filme lançado em 1991 sobre o ano de 2026. Nesse caso, o futuro já tinha se tornado presente e não era lá muito semelhante àquilo mostrado três décadas e meia antes. Quer saber? Apesar de mais conformado, continuava a achar a coisa toda meio sem graça e sem sentido, inútil até. Especialmente para o big boss, o maior interessado na brincadeirinha. Todo mundo na revista sabia muito bem que ele já tinha 75 anos (embora aparentasse menos). Nesse estágio da vida, já vai ser muita sorte se ele conseguir saber como será o mundo daqui a uma década, essa é que é a realidade. Não é só uma questão de estar vivo. É preciso também estar com saúde, enfim, no gozo de suas faculdades mentais, pra usar uma expressão cortês e um tanto clichê. Enfim… Não tinha mais tempo a desperdiçar com especulações vazias então li alguns livros, conversei com especialistas, entrei em páginas sugeridas pelo Google e fiz anotações. Nutri-me de uma dose substantiva de otimismo e decidi que o mundo futurístico seria um lugar bom pra se viver. Assistindo a todas as besteiras que o homem tem feito ultimamente, não é tão fácil ter essa esperança, mas vá lá, a imaginação (pelo menos ela) (ainda) é livre. Assim, doenças graves não seriam incuráveis em 2061. Transplantes, vacinas, tratamentos, remédios, a medicina continuaria a evoluir cada vez mais, elevando a expectativa de vida humana às alturas. Seria bastante razoável supor que alguém de 75 tivesse a chance real de conseguir mesmo saber como estaria o mundo 35 anos mais tarde. Além disso, a automação e o avanço tecnológico seguiriam seu curso em marcha acelerada, o mesmo acontecendo com a tão falada Inteligência Artificial. Também não dá pra projetar o futuro sem imaginar algo parecido com o que nos é apresentado pelo cinema de ficção científica: naves espaciais, velocidade de informação, robôs inteligentes, aparatos tecnológicos incríveis, computadores falantes, câmeras onipresentes e oniscientes. O texto tomava corpo, e eu me sentia entusiasmado. Perto do fim, um pensamento infeliz me perturbou: já estava com 58 anos e talvez não vivesse pra conferir os acertos de minhas elucubrações. Foi quando reparei no Renato, meu neto de 6 anos. Sentado no chão, ele mexia concentrado em seu tablet. Voltei os olhos à tela do notebook mais uma vez e retomei o trabalho, o prazo dado por meu chefe estava se esgotando.
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A alegria das pequenezas
— Olha o que eu achei!
— O que é isso?
— Um mixer, menina! Um mini mixer! E ainda funciona à pilha. Já pensou? Posso levar para qualquer lugar.
— Levar? Para onde?
— Para onde eu quiser!
— Você só pode estar doida. Tanta alegria por causa de um mini mixer?
— Ah, e você? Ficou quase uma semana comemorando a caça aos caramujinhos do jardim.
— Como assim? — perguntou Ana. — Que duelo de esquisitices é esse?
— Foi a Márcia quem começou — disse Tânia. — Veio com uma conversa de “alegria das pequenezas”.
— Não foi bem assim! Eu só perguntei se você já tinha reparado na quantidade de coisas pequenas que conseguem deixar a gente feliz.
— E eu respondi que não fazia a menor ideia do que você estava falando.
— Pois eu expliquei.
— Explicou demais.
As três riram.
— Ana, eu resolvi prestar mais atenção nessas pequenas alegrias. Não casa, carro, viagem ou joias. Estou falando de um cheiro, um objeto, um hábito, uma coincidência qualquer. Dessas coisas miúdas que aparecem no meio do dia e passam despercebidas.
— E o mini mixer entrou nessa lista?
— Entrou! Como não entraria? Pequenininho, leve, à pilha… achei uma graça.
— Aí ela começou a rir de mim — disse Márcia. — Só que eu lembrei dos caramujos.
— Ah, não…
— Ah, sim! Você me telefonava toda contente: “Hoje encontrei trinta!” No outro dia eram vinte. Depois dezesseis. Parecia que estava vencendo uma batalha histórica.
— Está bem… admito.
Ana balançou a cabeça.
— O que a falta de boleto, marido, filhos e preocupação faz com uma pessoa…
— Ah, faça-me o favor! — respondeu Márcia. — E o seu pijama de bolinhas?
Ana começou a rir.
— Não vale.
— Vale, sim. Você entrou aqui em casa dizendo: “É de plush! É de plush!”, como se tivesse ganhado um prêmio.
— Eu amei aquele pijama.
— Está vendo?
Ana ficou alguns segundos pensando.
— Quer saber? Acho que vocês têm razão.
— Sabia! — comemorou Márcia.
— Espera. Também tenho minhas pequenezas.
— Agora ficou interessante — disse Tânia.
— Arroz-doce.
— Não vale! — protestou Tânia. — Tem que ser uma coisa que surpreenda. Tipo gostar de cheiro de querosene.
— Você é impossível. Então vamos lá: lençol de quatrocentos fios; controle remoto com pilha nova; aproveitar os restinhos de batom e fazer um blush exclusivo; olhar a pracinha bem cedo, antes da algazarra das crianças; maçã gelada; ônibus chegando na hora; e, claro, meu pijama de bolinhas.
— Gostei do blush — disse Márcia.
— Agora é a sua vez, Tânia.
— Eu?
— Sim. Quero ver.
Tânia pensou um pouco.
— Gosto de entrar no carro e perceber que tem gasolina suficiente. Gosto do cheiro da chuva. Gosto quando minha secretária chega pontualmente.
Fez uma pequena pausa.
— E gosto muito de recolher roupa do varal.
As duas olharam para ela.
— Não riam. Acho aquilo quase filosófico. Tiro um pregador de um lado, depois do outro, dobro a roupa, coloco no cesto… não sei explicar. Aquilo me dá uma paz enorme.
Márcia sorriu.
— Logo você, que fez pouco caso do meu mini mixer…
— Está bem, está bem. Já entendi.
— Entendeu mesmo? — perguntou Márcia.
— Entendi. A partir de hoje vocês não me pegam mais.
— Quero só ver.
Dois dias depois, o celular de Márcia apitou.
Era uma mensagem de Ana:
“Meninas… descobri um sabonete que tem cheiro de infância.”
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Qual seu sonho hoje?
Talvez a melhor maneira de realizar sonhos seja reparti-los em porções diárias. Se sonhar é a realização de desejos, como disse Freud, o pai da psicanálise, até mesmo os que se disfarçam de pesadelos tentam construir novos significados para abrir nossos caminhos.
O sonho sempre está noutro lugar, ali onde não estou. Ele está no outro lado da montanha, na caída do sol, no ano seguinte, no tardar da maturidade, no horizonte do ideal e assim nosso imaginário viaja para longe do real.
O encontro marcado com o sonho já produz, por si, prazer.
O entusiasmo que nos proporciona sonhar nos inebria feito realizar, então, guardamos sonhos sempre as mãos, para que não nos escapem. Quando se realizam, se acabam, como a lua cheia que míngua tão logo atinja sua plenitude.
Assim como o desejo só se interessa por desejar, o sonho só quer sonhar. Quando mais jovens, aprendemos que adultos precisam ter a sabedoria de adiar as gratificações e a satisfação imediata, que devem plantar com esforço e esperar com paciência para colher. Difícil mesmo é suportar o angustiante tempo da espera, não é à toa que dela, da espera, nasceu a esperança e nos agarramos a ela, na aposta de um ‘Royal street flush’ e lançamos nossa bola para os céus na tentativa de um ´strike´.
Mas se para viver é preciso plantar e colher todos os dias, não deixe que a fantasia da grande safra do porvir atrapalhe seus planos. Quando “+ adultos” somos, sabedoria é perceber que nunca deixamos de ser crianças, que de maduros só temos a casca e que de imortal só mesmo o inconsciente.
A vida é uma atleta de alta performance. Corre rápido demais.
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Zé das Estrelas
E o Zé deu de olhar as estrelas. Foi subir no telhado uma vez, e não acabou mais. Tinha descoberto a América. O Zé ficou encantado com as estrelas que ele viu no céu. Como se nunca tivesse visto. E olha que eu vivo com o Zé há quase cinqüenta anos. Ele sempre foi uma pessoa normal. Até que deu de olhar as estrelas.
Não dorme mais na cama, o esquisito. “Faz tempo que eu quase não dormia, Cida”, ele diz. E é verdade: ele só dormia de dia. De noite ficava futricando, não tinha sossego na cama. Ainda bem que o Zé deu de olhar as estrelas. Fica lá em cima do telhado, de boca aberta, como se quisesse comer todas as estrelas do mundo.
Hoje eu não agüentei, peguei e fui lá com ele. A nossa casa não é muito alta, é só um chalezinho de madeira; o telhado é que é inclinado demais, mas não é difícil subir. O Zé segurou a escada, eu subi devagar, segurando bem. Fiquei toda tremendo lá em cima, enquanto o Zé subia; depois me arrastei pela beirada, até a cumeeira. Fiquei lá em cima abraçadinha com o Zé, a noite inteira, olhando as estrelas.
Sabe, eu posso cair do telhado. O Zé pode cair do telhado. Mas vai ser uma morte feliz, se a gente morrer. O Zé aponta uma estrela, só com os olhos, impossível não seguir os olhos dele. É como se o Zé fosse um santo fazendo um milagre. Eu só não estou seguindo os olhos do Zé, quando estou mergulhada neles. Tantas estrelas lá dentro. Não é à toa que o Zé ficou maravilhado.
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Na fila
– (Leitor 1) Tá grande essa fila, hein.
– (Leitor 2) Mas vale o sacrifício. Esse tipo de fila eu enfrento com prazer. Não seria muito pior se fosse uma fila de hospital? Ou pra comprar comida racionada? Minha mãe sempre falava que no tempo da guerra…
– (Leitor 3, para leitor 2) Você é fã dele há muito tempo?
– (Leitor 2) Muito… Eu sempre gostei do pai dele. Quando ele começou a escrever também, resolvi conferir. Foi paixão à primeira vista. E digo mais: ele é bem melhor do que o pai.
– (Leitora loura) Há tempos ele não fazia uma noite de autógrafos…
– (Leitor 2) Treze anos. A última vez foi daquele livro, aquele que ganhou um prêmio… Periquitos na janela, lembrei.
– (Leitor 1) Ele é tão bom como dizem? Eu não ligo muito pra esses troços de leitura. Tô levando o livro pra minha mulher, ela que gosta. Vou fazer uma surpresa.
– (Leitora loura) Ele é muito bom mesmo. Os fãs dele são de todas as idades. Ele consegue renovar o seu público. Olha aí na fila, tem desde o adolescente de quatorze anos até senhores de mais de oitenta.
– (Leitor 2, para Leitor 1) Presta atenção nesse trecho aqui, abre aí na página 25. Eu adorei essa parte: “E então ela olhou para o homem com aquela cara-de-quem-tinha-muito-amor-pra-dar…”
– (Leitor 1, interrompendo a leitura) Mas pode isso?
– (Leitor 2) Isso o quê?
– (Leitor 1) Escrever essas palavras todas juntas, com esses tracinhos separando. Não é esquisito?
– (Leitor 3) Esquisito nada, isso é moderno. É coisa de quem sabe escrever.
– (Leitora loura, mudando o rumo da conversa) Vocês estão vendo aquela senhora gordinha de pé ao lado dele?
– (Leitor 3) Aquela de óculos?
– (Leitor 1) Quem é?
– (Leitor 2) Isso, a de óculos. É a mulher dele. Tá sempre junto. Não desgruda nunca. Casamento de uma vida inteira. Tem gente até que apelidou ela de papagaio de pirata.
– (Leitor 3) Olha ali, pegando o autógrafo agora, não é aquela atriz da novela das nove, aquela que vive aprontando barraco, como é mesmo o nome dela?
– (Leitor 1) E a abusada ainda furou a fila.
– (Leitora loura) É a Marivalda Silva. Ela é VIP, meu filho. Por isso, pode furar fila. Você acha que artista de televisão enfrenta fila?
– (Leitor 1) E a gente aqui em pé há mais de uma hora…
– (Leitora loura) Então, tenho ouvido dizer que ultimamente ele anda muito preguiçoso. Não escreve uma dedicatória caprichada, pessoal, vai botando “um abraço do…” em tudo. Isso é charme dele. Artista de verdade tem dessas coisas. Eu acho que ele guarda toda a energia criativa pra usar nas obras.
– (Leitor 1) Olha lá, a caneta tá falhando. Por isso é que demora tanto.
– (Leitor 2) Eu tenho dezoito livros dele autografados. Ele sempre escreveu dedicatórias muito originais. A que eu mais gostei foi “Quem escreve um poema, um conto ou um romance salva um moribundo. Que você nunca se esqueça dessas palavras e”…
– (Leitora loura, interrompendo Leitor 2) Pior que salva mesmo, mas só se for bom. Essa questão de dedicatória é uma grande bobagem. Só estar aqui, poder vê-lo de perto, falar com ele, mesmo que rapidinho, isso pra mim já vale. Ele me passa uma energia ótima. Tem um astral maravilhoso, apesar de ser um pouco tímido.
– (Leitor 1) Finalmente trouxeram outra caneta.
– (Leitor 2, para leitora loura) Você sabia que agora ele anda pintando também? Acho até que deve fazer uma exposição no início do ano que vem.
– (Leitora loura) Claro que sabia, eu sei tudo da vida dele. Já tô até juntando dinheiro. Quero um quadro dele pra decorar a minha sala. E além disso ainda toca saxofone o danado. Esse é um artista completo mesmo.
– (Leitor 3) Gente, aquele cara de terno que tá pegando o autógrafo agora não é o… Aquele político, como é mesmo o nome dele?
– (Leitora loura) É o ex-prefeito.
– (Leitor 1) E furou fila também.
– (Leitor 3) Que nada, esse pelo menos deixou o assessor guardando lugar pra ele.
– (Leitor 2) Estranho ele ter vindo. Todo mundo sabe que o livro anterior dele, Falcatruas de um prefeito corrupto, foi baseado na vida desse político. Esse prefeito aí botou processo em cima dele e tudo.
– (Leitora loura) Mas agora é época de eleição. Aparecer aqui no lançamento dá o maior ibope. Vocês não estão vendo a quantidade de repórteres que vieram cobrir o evento?
– (Leitor 1) É mesmo. Será que a gente vai aparecer na televisão? Tomara que o meu cunhado Geraldo me veja. Ele vive me chamando de toupeira, dizendo que não me atualizo, que não consumo cultura. (Erguendo o livro acima da cabeça, como se fosse um troféu) Olha aqui, Geraldo, tô comprando o livro do escritor famoso.
– (Leitor 2) Já tá quase chegando a nossa vez.
– (Leitora loura) Que emoção! Meu coração tá até acelerado.
– (Leitor 2) O que ele escreveu pra vocês? Pra mim foi “um abraço do…”
– (Leitor 3) O mesmo pra mim. Nem colocou meu nome. E olha que eu pedi.
– (Leitora loura) A letra dele tá meio ilegível, mas acho que tá igual ao de vocês.
– (Leitor 1) Pelo menos no meu ele pôs o nome da minha mulher. “À querida Tereza, um abraço do…”. Xiiii, escreveu Teresa com “z”. Minha mulher detesta quando escrevem o nome dela errado.
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O amor de Cristo
São Paulo, cidade agraciada com o nome do mais célebre apóstolo do cristianismo, serviu de palco neste mês de junho a dois eventos de naturezas aparentemente irreconciliáveis que, no entanto, guardavam algo em comum: a capacidade de aglutinar multidões. De um lado, a Marcha para Jesus e, de outro, a Parada LGBT+.
Ao presenciar essas duas manifestações aparentemente tão díspares, uma dúvida me veio à mente: em qual delas Jesus caminharia?
A pergunta pode soar provocativa, até insolente. Afinal, de um lado, temos uma manifestação de caráter declaradamente religioso dedicada à enfatizar a fé em Jesus. De outro, um evento aparentemente pagão e depravado, com pessoas em trajes provocativos que representam o oposto do que a tradicional religiosidade cristã professa. Corpos seminus entregues ao hedonismo, música alta e danças sensuais que ferem o sagrado decoro litúrgico.
Mas se perscrutarmos além das aparências e de pré-julgamentos, a resposta não seria assim tão óbvia.
A Marcha para Jesus, embalada com música gospel e refrões de louvor ao Senhor, reuniu legiões de fiéis disciplinados, com vestes discretas e cabelos alinhados. O que me leva a imaginar que Jesus com suas sandálias de tiras, suas vestes rústicas, barbudo e cabeludo (mais próximas à estética hippie) causaria certo desconforto.
Em contraste, na Parada LGBT+, ao som de batidas eletrizantes, cada um se apresenta como melhor lhe convém. Paetês, plumas, glitter, leques e vestimentas cintilantes esparramam-se espalhafatosamente pela avenida numa explosão de cores. Reivindicam, a seu modo, reconhecimento e respeito, glorificando a diversidade e celebrando a Vida. Partindo da ideia de que Deus é Vida, não deixa de ser instigante pensar que essa manifestação pode ser lida como uma espécie de experiência espiritual psicodélica.
Apesar de Marcha para Jesus, em tese, aceitar qualquer indivíduo que queira participar, na prática, os discursos prevalecentes são as conhecidas ladainhas pentecostais. Nesse meio, não são recebidos com entusiasmo aqueles que professam outros credos, como os que idolatram imagens (católicos) ou os que acreditam em reencarnação (espíritas). São especialmente mal vistos (talvez com uma dose disfarçada de racismo) os que praticam religiões de origem africana (umbanda, candomblé) cujos deuses e mentores espirituais (orixás etc.) são comparados a demônios.
Também são segregados os que têm condutas sexuais condenáveis, como gays e travestis que, reprimidos e enquadrados, deveriam se submeter a ‘curas gay’ para se comportar como um ‘temente a Deus’.
Verdade seja dita, esse comportamento não é generalizado, havendo comunidades evangélicas ‘progressistas’ que acolhem pessoas necessitadas independentemente de sua conduta pretérita e sua orientação sexual. Mas o pensamento mainstream estimula uma atitude persecutória contra homossexuais, feministas e aquelas que praticaram aborto, ainda que sejam meninas vítimas de estupro, todos sujeitos a arder eternamente no fogo do inferno.
Já a Parada Gay aceita de bom grado todos os que queiram participar, sem exigir profissão de fé ou filiação religiosa. Nela convivem católicos, evangélicos, espíritas, umbandistas, budistas, judeus, muçulmanos e ateus. São também bem recebidas pessoas de diversas orientações sexuais: homossexuais, heterossexuais, bissexuais e transexuais. Onde alguns enxergam promiscuidade, a primeira palavra que me ocorre é inclusão.
Lendo os Evangelhos, encontramos um Jesus que se aproxima justamente daqueles que a sociedade preferia manter à margem. Devemos nos reportar às ações do Mestre que acolhia indistintamente prostitutas, leprosos, deficientes, mulheres (vistas à época como categorias inferiores), gentios que professavam outras religiões e samaritanos vindos de outras paragens. O amor divino não se destina apenas aos integrantes de um círculo fechado, reservado aos moralmente impecáveis. Como um coração de mãe, no colo de Deus Pai havia lugar a todos os que praticassem o bem.
Na marcha que se diz cristã, outra coisa que me chamou a atenção, a profusão de bandeiras de Israel. Nada de errado em celebrar os vínculos entre duas tradições com raízes históricas próximas. O que me intriga é a idealização quase religiosa de um Estado que, como qualquer outro, está sujeito a críticas. Pergunto-me por que uma manifestação dedicada a um líder espiritual que pregava a paz precisa demonstrar identificação com um país envolvido em constantes conflitos territoriais com vizinhos.
Enquanto a guerra produz milhares de vítimas civis inocentes em Gaza e gera denúncias de graves violações de direitos humanos, muitos líderes religiosos parecem demonstrar solidariedade incondicional a um dos lados do conflito, sem a mesma empatia pelas sofridas populações palestinas atingidas. Tenho dificuldade em conceber Jesus alinhado à lógica de um apoio seletivo. Consigo imaginá-lo, isso sim, ao lado das vítimas, dos refugiados, dos que perderam familiares e seus lares e não têm para onde fugir.
Fixados numa visão literal do Antigo Testamento, essa vertente evangélica encara que os hebreus têm direito bíblico à Terra de Abraão, ainda que isso implique em impor sofrimento aos ‘infiéis’ que ali residiam.
Discriminam eles os filhos de Alá, assim como os de Exu, os de Tupã. Trata-se de uma lógica perversa que hierarquiza crenças e elimina a complexidade de diferentes expressões espirituais, que a seu modo, buscam o bem, a ética e o desenvolvimento pessoal.
Também não consigo evitar uma certa estranheza diante da prosperidade dos pastores midiáticos. Jesus perambulava pelas estradas da Galileia sem patrimônio e sem qualquer sinal de ostentação além da força da sua palavra. Passados dois mil anos, vemos impérios milionários de comunicação, jatinhos particulares, e pregadores que parecem mais próximos de grandes empresários do que de humildes pescadores. Isso sem falar da insistente associação entre fé e prosperidade financeira e da recomendação para recolhimento do dízimo, transformado em requisito para contrapartida da graça divina. O que diria Jesus ao encontrar a fé transformada em produto, o púlpito convertido em plataforma de influência e a contribuição dos fiéis apresentada como caminho para bênçãos divinas?
Os ensinamentos de Jesus ressaltavam claramente a preferência pelos pobres e necessitados em versículos como “é mais difícil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus” (Mateus, 19:24). Essa profissão de amor pelos despossuídos não parece se sintonizar com os mandamentos dos pastores que ostentam vidas de luxo. Tampouco a centralidade conferida à contribuição financeira induzida dos fiéis que parece mais se afinar com o comportamento mercantilista dos vendilhões que assaltavam os templos e provocando a ira de Jesus.
Retomando a palavra do apóstolo que emprestou seu nome à metrópole que abriga tribos tão diferentes, e dizia “aceitem-se uns aos outros da mesma forma que Cristo os aceitou, a fim de que vocês glorifiquem a Deus” (Romanos 15:7), volto a indagar: qual seria a escolha de Cristo?
*Opiniões dos colunistas não representam necessariamente a visão do Crônicas Cariocas.
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Reabastecer o Amor
Há pessoas que nos ensinam sem perceber.
Ao longo da vida vamos colecionando ideias, frases, hábitos e pequenos exemplos que, por alguma razão, nos chamam a atenção. Nem sempre compreendemos imediatamente por que ficaram guardados. Mas ficam. Adormecidos em algum canto da memória, esperando o momento de reaparecer.
Lembrei-me disso recentemente ao recordar uma funcionária que trabalhou comigo há muitos anos.
Era uma mulher linda.
Casada com um homem igualmente bonito. Tinham dois filhos que poderiam ser modelos, atores e estampar páginas de revistas. Formavam aquela família que costumamos olhar e pensar: “Parece um comercial de margarina.”
Mas não foi a beleza deles que ficou registrada em minha memória.
Certa vez, numa conversa sem importância aparente, ela me contou algo que nunca esqueci.
Disse que, de vez em quando, surgiam aqueles momentos de desânimo que atacavam sem avisar. Independente de riqueza, de beleza ou dos acontecimentos. Dias em que a rotina pesava mais do que deveria. Ou as dúvidas incomodavam e apareciam sem motivos. Ou a vida parecia descolorida e sem graça.
Quando isso acontecia, ela tinha um ritual.
Pegava seu álbum de casamento.
Sentava-se sozinha e folheava as páginas lentamente.
Observava os rostos, os sorrisos, os abraços. Revivia a alegria daquele dia. Reencontrava nos olhos dos noivos a esperança, os planos, a emoção e a certeza que haviam sentido ao iniciar uma vida em comum.
Segundo ela, aquelas fotografias tinham o poder de reabastecê-la.
Não porque a vida tivesse permanecido igual àquele dia. Pelo contrário. Havia contas para pagar, filhos para criar, preocupações e cansaços. Como em qualquer casamento.
Mas as imagens a ajudavam a lembrar por que tudo havia começado.
Ela dizia que, ao fechar o álbum, sentia-se mais forte. Como se tivesse voltado a beber água numa fonte antiga que existia dentro dela mesma.
Na época achei curioso.
Hoje acho sábio.
Talvez todos nós devêssemos possuir um álbum assim.
Não necessariamente de casamento.
Pode ser uma caixa de fotografias, uma carta guardada, um bilhete antigo, uma lembrança de família ou qualquer coisa que nos reconecte ao melhor de nós mesmos.
Porque a vida, às vezes, nos afasta dos sentimentos que um dia nos construíram.
E talvez a arte de seguir em frente esteja justamente nisso: voltar de vez em quando ao lugar onde o amor começou, apenas para lembrar que ele ainda mora ali.
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Queda livre
Resolveu descer do elevador no vigésimo nono. A conversa mole do Severino, o ascensorista, o incomodava. Não estava com paciência para ouvir suas reclamações sobre a incompetência do governo e o mau desempenho do time do coração na partida da véspera. Preferiu seguir a pé até o último andar do prédio onde trabalhava. Era, além do mais, uma chance de fazer um pouco de exercício. Não que isso pudesse fazer alguma diferença naquele momento. Meio-dia em ponto, horário de almoço. Inverno, temperatura mais baixa do que o habitual, ventinho cortante, chegou ao terraço praticamente sem transpirar, apesar da jaqueta de lã batida que vestia. Fosse verão, a situação teria sido diferente. Este representava para ele um período de incômodo e desconforto. Suava demais no verão… A mãe e o terapeuta diziam que não era só em função do calor. Era principalmente por causa da ansiedade. Naquele instante, contudo, estava contente, orgulhoso de si mesmo e calmo, surpreendentemente calmo. Finalmente iria colocar em prática o plano há muito concebido. Sabia que agora não haveria recuo, que não faria o movimento contrário de descer as escadas. Era uma pessoa assim, relutante até tomar uma decisão. Depois que isso acontecia, porém, não voltava atrás. Com passos firmes, foi se encaminhando ao parapeito. Um pássaro de penas cinzentas voou para longe emitindo um som estridente ao sentir sua aproximação. Ele esticou o pescoço e olhou para baixo. Os carros minúsculos o fizeram lembrar a coleção de carrinhos de ferro da infância. Por falar nisso, onde estaria ela? Com um discreto movimento de cabeça, afastou essa lembrança inútil e subiu no parapeito. Abriu os braços à la Leonardo di Caprio em Titanic. Senhor do mundo também, por que não? Do seu mundo, pelo menos. Do seu mundinho, seria melhor dizer. Pequeno, insignificante, solitário, dispensável; enfim, o que lhe fora possível construir. Se as coisas não tivessem acontecido dessa forma, não estaria ali, vislumbrando o panorama do alto, prestes a realizar o que… Bem, prestes a realizar um ato tão definitivo. A vida, com frequência, não é justa, muito menos simples. Nem tudo depende de esforço individual. Foi esse o primeiro pensamento que lhe veio à cabeça assim que se lançou lá de cima. Numa sucessão rápida, outros pensamentos foram aflorando. Indivíduo reflexivo, seguiria dessa maneira até o fim. Apesar de já estar próximo dos quarenta, não havia conseguido conquistar nada de importante: não tinha casa (vivia de aluguel num quarto e sala de um bairro decadente), carro (dependia de ônibus e metrô; táxi, nunca), relacionamentos sólidos (nunca os teve), prestígio (mais de uma vez, no ambiente de trabalho, roubaram-lhe boas ideias). O emprego atual, assim como todos os anteriores, era medíocre, bem abaixo de suas qualificações, o que o obrigava a ainda contar com a ajuda dos pais para as despesas básicas. Na altura do trigésimo segundo andar, não conseguiu evitar um leve sorriso (tudo nele era meio contido) ao pensar que se livraria definitivamente da convivência com a chefe gorda, incompetente, de voz anasalada e monótona, mulher desagradável que tinha prazer em diminuí-lo, desqualificá-lo ou apenas ignorá-lo. Como ela havia conseguido aquele posto é algo que nunca pôde entender. Vigésimo nono andar, pensou nos pais. Certamente seria uma surpresa para eles. Uma tristeza também. Mas, afinal de contas, a vida de todos é feita de surpresas e tristezas, não é mesmo? Com o tempo, tudo voltaria ao normal. O tempo cura tudo, vivem repetindo por aí. A mãe, mulher forte, esclarecida e religiosa, acabaria por compreender as razões do filho único. Será que se sentiria culpada? Talvez, não sabia dizer com segurança. Não tinha resposta para muitas perguntas, estava consciente de suas limitações. Vigésimo terceiro andar: e a pilha de livros à espera de leitura na estante do quarto? Alguns pareciam tão interessantes. Queria tanto ter tido a chance de folhear suas páginas, de fazer anotações nas margens e de sublinhar com o lápis as passagens mais significativas. Poderia ter aprendido coisas. Poderia ter se transformado num ser humano mais forte, mais preparada para as adversidades da vida. A literatura também serve para isso, ora bolas! Vigésimo andar: não teria sido melhor um método mais fácil (comprimidos, por exemplo; o terapeuta poderia tê-lo auxiliado, sem saber de nada, é claro). Décimo sexto andar: não tinha deixado bilhete dirigido aos parentes (muito clichê, a originalidade era para ele uma meta). Décimo primeiro andar: nunca chegaria a conhecer Mariana ao vivo. Já se falavam pela internet havia quase um ano. Como o tempo passa rápido! Ela parecia compreendê-lo tão bem. Existia empatia entre eles, sem dúvida. Pena que o relacionamento houvesse ficado confinado ao âmbito virtual. Será que ela tomaria conhecimento do fato? Será que leria a respeito em algum jornal? Talvez assistisse à reportagem de algum programa sensacionalista da TV, desses que se alimentam da dor e do sangue alheios a pretexto de mostrar a “realidade da vida”, “o mundo como ele é, sem retoques ou maquiagens”. Exploração da miséria humana, isso sim. Sétimo andar: tratamento dentário inacabado, quem se importa? Para sempre livre daquele motor irritante, daquele barulho desagradável, anestesias, brocas, para sempre livre do desprazer de ser torturado e ainda pagar por isso. Terceiro andar: jamais visitaria Florença, a cidade às margens do Arno, cenário de um filme visto na TV. O curso de italiano que vinha frequentando nos últimos anos não serviria para nada. Havia feito tantos progressos… Era, sem dúvida, o melhor aluno da turma. Recebia vários elogios da professora. Pelo menos ali ele se destacava. Ma la vita non è sempre bella. Segundo andar: não teria a oportunidade de pedir perdão a Viviane, sua meia-irmã, filha de seu pai, concebida num momento de crise no casamento oficial. Tomou as dores da mãe e disse palavras terríveis à menina. Na ocasião, até ele se surpreendeu com a própria capacidade de ferir e de magoar. Hoje pensava diferente, que culpa tinha ela? Deveriam ter convivido mais, poderiam ter sido mais próximos. Poderiam… Solo: poça de sangue, dor intensa no corpo todo, justiça, esforço individual, chefe gorda e intolerante, gritos dos passantes, bilhete de despedida, parapeito, carrinhos de ferro, desespero dos transeuntes, voz anasalada e monótona, ler, livros, leitura, pessoa melhor, Mariana, Viviane, Leonardo di Caprio, Titanic, Florença, dolore, surpresas e tristezas, suor, ansiedade, inverno, inferno, internet, terapia, terapeuta, comprimidos, dentista, aluno, professora, paura, sorpresa, surpre e triste, surp e trist, sur e tri, su e tr, s e t…
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Amigos
Saí de casa por volta das 8 e meia da manhã como fazia todas as segundas, quartas e sextas, andei alguns passos e cheguei à praça. O jogo ainda não havia começado. Arnaldo, Alfredo e Ranulfo já estavam lá conversando sobre a vida alheia, um esporte praticado com afinco na nossa cidade. Aquelas reuniões com os amigos de uma vida inteira ainda eram bastante agradáveis, apesar de o carteado ter perdido um pouco da graça desde que deixamos de jogar valendo dinheiro. Foi o Alcindo, que morreu de tristeza quatro meses atrás, quem sugeriu. Essa grana faz falta pros nossos remédios, argumentou com certa razão. Afinal, somos todos aposentados e clientes preferenciais do Antônio Careca, o dono da única farmácia da região. Digo que o Alcindo morreu de tristeza porque pra ele foi um choque tremendo quando a Arlete teve um ataque cardíaco fatal enquanto via o último capítulo da novela. Convivência de 61 anos — 63 se considerarmos também o período de namoro e noivado — definitivamente não é pra qualquer um. É tempo demais vivendo junto, o que torna a coisa sempre dolorosa quando termina. Se não é pelo amor propriamente dito, é pelo hábito. Claro, costume e preguiça também são capazes de manter muito casamento por aí, mesmo nos dias hoje, marcados por tanto progresso e emancipação feminina. O fato é que exatamente 19 dias depois do enterro da patroa, coube ao Alcindo fazer a passagem, como costuma dizer o Arnaldo, frequentador convicto do centro espírita do bairro onde moramos.
— Sempre o último a chegar, hein, Hildebrando — falou Arnaldo assim que me viu.
— É o trânsito — tentei ser engraçado.
— Pois eu estava só esperando você aparecer pra dar uma notícia importante pros três — prosseguiu ele.
— Notícia? Que mistério é esse? Fala logo, homem! — impacientou-se Alfredo, o mais agitado do grupo.
— Ontem eu estive lá no centro…
— Xiiii, aí vem coisa — interrompeu Ranulfo.
— … e a dona Isaura psicografou uma mensagem do Alcindo — informou enquanto tirava um papel do bolso.
— Como é que é? O Alcindo baixou no centro ontem? — perguntei ainda sem compreender direito o que se passava.
— E pra quem é a mensagem?
— Pra nós quatro, Ranulfo. Pra mim, pra você, pro Hildebrando e pro Alfredo.
— E o que ele diz? Vai nos contar ou não? Pra que tanto suspense?
— Calma, Hildebrando. O troço tá meio em código, linguagem telegráfica, sei lá. Mas, pelo que entendi, acho que houve um erro.
— Erro, que espécie de erro?
— Parece que a hora do Alcindo ainda não tinha chegado, Alfredo. Tá escrito aqui, deixa eu ver… “mais cedo que o programado… era a vez de um amigo… amigo da praça e das cartas… falha no controle… a melancolia ia passar… Arlete ainda não tava pronta pra me receber…”. Resumindo: um de nós quatro é que devia ter morrido.
— Quem? — os três, quase ao mesmo tempo.
— Não dá pra saber, mas o fim da mensagem deixa claro que o pessoal lá de cima está disposto a corrigir essa falha de alguma maneira.
— Ressuscitando o Alcindo? — indaguei.
— Não, isso não se pode fazer. Eles pretendem vir buscar o sujeito certo.
— Quando? — continuei.
— Pelo que diz aqui “antes que o oito vire nove”, ou seja, antes que agosto termine.
— Hoje é dia 25 — anunciei consultando meu relógio de pulso.
— E agosto tem 30 ou 31? — quis saber Alfredo, ao mesmo tempo que, mais trêmulo do que o habitual, tentava obter a resposta fazendo o teste no dorso da mão.
— Calma, Alfredo, tá achando que você vai ser o premiado? — provocou Arnaldo.
Naquele dia, não houve jogo. Cabisbaixos e pensativos, fomos tomando o rumo de casa. Em frente ao portão, ouvi os latidos do Max vindos do lado de dentro. Meti a chave na fechadura com certa dificuldade. Antes de entrar, ainda olhei pra trás e pude ver, na praça, nossa mesa habitual deserta. Aliás, contrariando o costume, a praça inteira se encontrava completamente vazia naquele momento.
***
Bem, o 11 já virou 12, e hoje é véspera de Natal. Nós quatro continuamos vivos e resolvemos celebrar a data aqui em casa. A dona Isaura não dá mais expediente no centro. Há três meses foi internada numa clínica psiquiátrica de uma cidade vizinha à nossa, e, infelizmente, o caso é grave. São quase 9 horas, e eles devem estar chegando. Pelo menos hoje não vou ter de ouvir o Arnaldo dizer que estou sempre atrasado. Nosso amigo ausente não mandou mais notícias, e nunca mais tocamos no assunto. É bem provável, porém, que, na hora da ceia, a gente faça um brinde em homenagem ao Alcindo.
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O gordinho do STF
Quando Flávio Dino tomou posse como ministro do STF, o que nele se sobressaiu não foi o currículo, a trajetória política ou as ideias jurídicas. Foi o tamanho.
Julgar os indivíduos pela primeira impressão é um defeito do ser humano, especialmente do brasileiro, que, com sua índole zombeteira, adora rotular os indivíduos por alguma característica que lhe chama a atenção – careca, dentuço, narigudo, balofo, baixinho, gago, crioulo, japa, baiano, gay, geninho, coroa. O apelido vem antes da pessoa e não raro em tom desabonador. Quem se atreve a criticar essa postura corre o risco de ser tachado de ‘woke’, patrulheiro dos costumes, censor do humor alheio.
Pessoas com sobrepeso carregam um fardo que vai além da massa corporal: além de preocupações com a saúde e limitações práticas, convivem com preconceitos que lhes são impostos antes mesmo de serem devidamente conhecidos.
Quando foi indicado por Lula para uma cadeira no STF, Dino despertou desconfiança entre os adversários. Além da hostilidade da balança, pesava contra o fato de ser egresso do antigo PCdoB, partido tido como radical. Além de gordo, comunista!
Confesso que quando o vi chegar ao STF, carregava certa prevenção contra ele (e não pelos quilos a mais). Não esperava grande coisa do homem. Seria mais um político a usurpar uma das suntuosas cadeiras da Corte. Alguém cercado de ‘aspones’ e vantagens remuneratórias, onerando a nós, contribuintes, que não entendemos bem qual utilidade nos proporciona para justificar as mordomias que usufrui.
Apesar disso, havia algo nele que me inspirava simpatia. Talvez porque homens ‘corpulentos’ transmitam frequentemente um sentimento de afabilidade, alguns até chamados carinhosamente de ‘fofos’. Lembrava-me ele o Stay Puft Marshmallow Man, o gigantesco boneco de marshmallow evocado pelos Caça-Fantasmas. Um personagem improvável de aparência inofensiva e bonachona capaz de provocar tumultos monumentais em Nova York.
Dino (não vou mais citar sua condição corporal para não estigmatizar o coitado), tendo ocupado o posto de governador do Maranhão, notabilizou-se por uma gestão bem avaliada. Seu jeito professoral de se expressar ajudou. Em vez de mais um integrante do Supremo a se expressar com excesso de rebuscados malabarismos léxicos, tínhamos alguém que fala a língua que os analfabetos em ‘juridiquês’, como eu, entendem. O fato de ter sido um bem sucedido político (foi também senador e deputado), facilitou, uma vez que, para ser eleito, teve de aprender a arte de se comunicar com o cidadão comum.
O fato é que Dino tem se saído (muito) melhor do que a encomenda. Quanto a minhas objeções, fui obrigado a admitir que estava (com perdão da expressão) ‘redondamente’ enganado. Até mesmo os mais extremados opositores tiveram que se render a suas evidentes qualidades.
Dino não hesitou em mexer em vespeiros nem desafiar dogmas firmemente estabelecidos. Orçamento secreto, penduricalhos, supersalários e aposentadoria compulsória a magistrados (vista como prêmio a condutas desviadas) são alguns espinhosos temas que o homem encarou, batendo de frente com poderosos interesses corporativos. Digno Dino voltou sua atenção não apenas a malfeitores de organizações criminosas, mas aos que estão encastelados nas diversas esferas do poder, mamando nas tetas do Estado.
Protegido pela estabilidade do cargo, poderia simplesmente acomodar-se com as benesses que a função lhe assegura, cumprindo diariamente o ritual de despachar, analisar processos e proferir longos e sonolentos votos. Preferiu, no entanto, usar de suas prerrogativas para sair da mesmice e moralizar o serviço público.
Se na silhueta carrega algo de Sancho Pança, é de Don Quixote que herdou o espírito guerreiro, enfrentando os moinhos da burocracia, dos privilégios e da inércia estatal.
Lamento apenas que muitas dessas iniciativas não tenham tido a devida repercussão no polarizado debate público, incapaz de enxergar, para além de ideologias, o valor das ações em benefício da coletividade.
Por tudo isso, penitencio-me por ter começado essa crônica preso às características físicas de Dino. Perdi um tempão falando do peso do sujeito quando o que deveria importar é o peso de suas ações.
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O ocaso do macho
A onda de feminicídios e a misoginia escancarada nas redes sociais costumam ser atribuídas à ação de influenciadores da machosfera e aos algoritmos raivosos da extrema direita. A explicação procede, mas pode ser ampliada.
Numa abordagem, digamos, ‘psicossocial’, diria que se trata de uma reação de desespero do macho da espécie diante de um mundo que já não gira exclusivamente ao seu redor. Um último suspiro do velho sistema patriarcal que vem derretendo frente à crescente participação feminina na vida política e social.
Freud explica: o comportamento hostil ante o sexo oposto decorre da ferida narcísica que vitimou o rapagão magoado, que exercia o papel de provedor, centro da casa, autoridade inquestionável. Com o ego machucado pela perda dessas prerrogativas, sente-se como um reizinho destronado e se volta com agressividade contra as ex-vassalas.
Jung também daria seu pitaco: a cultura patriarcal superestimou valores associados ao masculino, como dureza e racionalidade, enquanto escondia sob o tapete dimensões ligadas à ‘anima’: intuição, sensibilidade, acolhimento. Sem saber lidar com a ‘porção feminina’ presente em si mesmo, o brutamontes partiu pra porrada.
Psicologismos à parte, o fato é que o Clube do Bolinha entrou em estado de insolvência.
As mudanças vêm em ritmo de tartaruga. Considere-se, por exemplo, o Congresso brasileiro: as mulheres ali reunidas não teriam quórum sequer para conter as bancadas da Bala, do Boi e da Bíblia (redutos amplamente masculinos). Luta desigual: Barbie x Conan o Bárbaro.
No STF, a pobre Carmen Lúcia segura as pontas do ‘bloco do eu sozinha’, no julgamento das pautas de interesse da parcela de 51% da população brasileira. Até o presidente ‘progressista’, ao tirar uma carta da manga para a nova vaga aberta na Corte, descarta a dama de copas e prefere o evangélico de confiança.
Ainda assim, já houve progresso. Afinal, não há muito tempo, a discussão girava em torno de decidir se quem veste saia e soutien poderia ter direito a voto.
Com o tempo, elas timidamente começaram a ocupar algumas cadeiras nas universidades. Depois chegaram aos escritórios, aos postos de chefia e aos concursos públicos. Quando se deram conta, estavam assinando contratos, coordenando equipes e ornamentando com plantas e objetos decorativos o ambiente cinza de trabalho.
Se o fanfarrão tem a força, a dama tem a resiliência. Suporta em silêncio a dor do parto para cumprir o indispensável desígnio de gerar a vida que biologicamente lhe cabe. Já o bebezão beberrão choraminga por parir um novo mundo, no qual tem de partilhar decisões com a parceira, antes ignorada. Reclama, tadinho, do orgulho ferido. Mas minimiza a situação opressiva de quem dá à luz sem sequer poder abortar pois seu corpo é tratado como propriedade do Estado religioso varonil.
Mas não adianta espernear, Zé Mané. Seu reino está sucumbindo em meio às garrafas de cerveja que você vira nas madrugadas de bar, falando de futebol e putaria, enquanto a patroa, sem receber um puto, rala pra não deixar desestruturar o lar e não desencaminhar os filhos que você botou no mundo ao dar vazão a seu instinto carnal.
A força bruta já teve seus dias de glória quando era necessário colocar um sujeito parrudo portando um tacape na entrada da caverna para impedir o assalto de inimigos ou de feras que espreitavam ao redor.
Mas não dá para reproduzir esse padrão paleolítico depois da invenção da vacina, da internet e do vaso sanitário. O que pode sustentar a estabilidade da sociedade do futuro não é a largura do bíceps nem o comprimento do pênis, mas a colaboração, a solidariedade, a preservação ambiental. E nesses quesitos o bicho-homem já mostrou historicamente sua inabilidade.
Não seria justo generalizar: nem todos os varões sufocaram em si os aspectos sensíveis da personalidade. Não me refiro apenas aos gays, mas aos emotivos, os suscetíveis ao martírio dos necessitados que se mobilizam para melhorar o mundo, preferencialmente sem recorrer à violência.
Na outra ponta, também há mulheres com posturas mão-de-ferro. Margaret Thatcher é o exemplo mais citado. Uma machona que tratou demandas sociais com cacetete. Modelo de mulher, segundo o manual dos homens.
Há também aquelas acomodadas que obtêm benesses por sua apropriada condição de submissão. São as que só votam em homens pois os julgam mais capacitados para tomar decisões.
Mas de uma maneira geral, recortes eleitorais comprovam diferenças de comportamento político entre os gêneros, com maior sensibilidade feminina a pautas sociais e humanitárias, enquanto o eleitorado masculino tende a se inclinar a discursos de ordem e segurança.
Computando apenas votos femininos, teríamos nos livrado do estorvo trumpista, e os EUA teriam pela primeira vez uma presidente mulher (algo que teria um impacto mais disruptivo do que a eleição de um presidente negro, trauma já superado com Obama). De fato, a sociedade americana, mais do que o racismo, escancarou seu machismo.
Escolha seu time. De um lado, os vilões que envergonham a raça humana: Nero, Calígula, Átila, Gengis Khan, Pizarro, Robespierre, Hitler, Mussolini, Stalin, Pol Pot, Mao Tsé-Tung, Franco, Salazar, Idi Amin, Pinochet, Garrastazu Médici, Kim Jong-Un, Bin Laden, Bashar Al Assad, Netanyahu, Putin. Só marmanjo.
Do outro lado: Joana d’Arc, Teresa de Calcutá, Simone de Beauvoir, Hanna Arendt, Angela Merkel, Greta Thunberg, Malala, Claudia Sheinbaum, Julia Gillard, Michelle Bachelet, Mãe Stella de Oxóssi, Sônia Guajajara, Marina Silva, Djamila Ribeiro. Aquelas que, a partir de trajetórias distintas, ajudaram a construir um mundo mais justo, equitativo… e feminino. Para homens e mulheres.
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O que sei de futebol?
De futebol mesmo, sei apenas que a bola é redonda e que, se ela entrar na trave do adversário, é gol.
Agora, de Copa do Mundo eu sei. Sei muito. E sinto saudades; quantas saudades!
A vida era coletiva, colorida, exibida, assumida e feliz. Muito feliz.
A Copa do Mundo daqueles tempos era um acontecimento inigualável. Não existia outro evento capaz de ofuscá-la.
Imagine um bairro simples, na periferia de alguma cidade do interior do país, onde nunca faltava um campinho de terra e toda a gurizada era da seleção brasileira.
Camisetas variadas, calções curtos, pés descalços, rostos vermelhos, suor misturado à poeira. Meninos jogando com a mesma paixão dos craques que, dali a poucos dias, entrariam em campo representando o Brasil.
E a data da Copa se aproximando cada vez mais.
Os locutores das rádios falavam animados, contagiando os ouvintes para a abertura do “maior espetáculo da Terra”.
Bilhões de pessoas estariam diante das televisões, onde pretos e brancos se igualavam na transmissão ainda sem cores dos primeiros campeonatos.
Outra maravilha daquele tempo era a cumplicidade. O desejo de estar junto. A casa cheia, cheiro de fritura vindo da cozinha, torresminho, cerveja, um olho no churrasco e outro na televisão.
As bandeirolas verdes e amarelas atravessando as salas, ou o vizinho com a enorme bandeira espetada num cabo de vassoura, tremulando orgulhosa na janela.
E o silêncio absoluto no instante do pênalti?
A sinceridade do choro de homens, mulheres e crianças diante da perda de um gol ou da derrota do time.
O grito único das pessoas explodindo na hora do gol. Depois, as carreatas, os buzinaços, as bandeiras se tocando pelas janelas dos automóveis.
Que maravilha foram as Copas do Mundo daquele tempo.
Que saudade tenho delas.
Eu falharia se precisasse contar tudo isso aos meus netos; tamanha emoção não cabe em palavras…
Meus amigos jogadores, não me deixem falhar.
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O Teste
— Quantos quilos você tem?
— Uns cento e dez.
— Próxima! Mais rápido, minha filha. Anda um pouco. Desfila. Imagina que tem uma plateia aqui só pra te ver. Vamos logo, meu amor, não tenho o dia todo. Chega, pode sair. A gente entra em contato. Próxima! Próóóóxima! Quantos quilos você tem?
— Cento e vinte e um.
— Próxima! Uau, acho que você vai servir. Como se chama?
— Zulmira.
— Então, Zulmira, você tem problemas com nudez? Ainda estou pensando, não é nada certo, mas talvez alguma nudez venha a ser necessária. Só peitos, não se preocupe, tudo de muito bom gosto. E vai ser rápido. Na hora devo colocar uma luz fraca em cima de você… Seria um empecilho?
— Não, tudo bem. Eu…
— Agora anda um pouco, como se estivesse desfilando. Meio Gisele, entende? Meio Gisele, eu disse! Mais disposição, atitude de mulher empoderada. Solta o cabelo. Balança a cabeça. Plínio, joga o ventilador em cima dela. Pega aquele lençol e enrola no corpo. Bem sensual, não seja tímida. Anda, Zulmira, tá esperando o quê? Não precisa ficar com vergonha. Parece bom. Quantos quilos você tem?
— Cento e trinta e sete, acho. Não fico me pesando toda hora.
— Perfeito. Você não é muito alta, né? Um metro e… Idade?
— Quarenta e nove.
— Onde você mora?
— Quintino.
— Cruzes, onde fica isso? É longe, né? Você vai conseguir chegar na hora? Eu não tolero atrasos é bom que você saiba. Plínio, mais alguma?
— Não, Daniel, essa aí é a última.
— Você tá com sorte, Zulmira, vamos fechar com você. Alguém já te disse que você tem muito potencial? Contente, querida?
— Claro. Sempre foi meu sonho. Olha, eu decoro rápido, tenho muita facilidade. E os ensaios quando começam?
— Relaxa, Zulmira. Você não tem texto, não precisa decorar nada. Também não tem que participar de nenhum ensaio. Uns dois dias antes da estreia você passa aqui, a gente conversa sobre marcação, mas é tudo muito simples. Você fica uns trinta segundos em cena e sai. Vai dar tudo certo. Os caras querem ver as garotas, as gostosonas. A sua parte é mais um alívio cômico, entende?
— Mas é só isso? E o contrato?
— Não tem contrato, é cachê. Cinquenta reais por sessão, recebe no domingo.
— Mas eu pensei que…
— O que foi, Zulmira? Não tá satisfeita eu chamo outra.
— Não é isso, é que eu pensei…
— Pensou o quê? Meu bem, você não viu o anúncio? Tá claro no anúncio.
— Eu não li o anúncio. Nem sabia que tinha um anúncio.
— Veio pela agência?
— Não, tava passando aqui na porta…
— Então é isso, minha filha, já expliquei tudo. Conversa com o Plínio se tiver dúvida, mas o negócio é esse mesmo que eu falei. Plínio, tô atrasado, preciso correr. Liga pro elenco e avisa que os ensaios começam amanhã, tudo bem?
— Pode deixar, Daniel.
— Acho que lá pelas seis tá bom. Ah, e fecha o teatro pra mim, ok?
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Meu avô, o escritor
Seguramente, este amor que nutro hoje pela Literatura se deve a meu avô Carlos, um advogado criminalista que gostava mesmo de inventar histórias. Tenho várias lembranças dele trabalhando no escritório da casa do Humaitá junto com sua inseparável Olivetti portátil. Quando não estava no escritório, podia ser visto no jardim observando as plantas, as flores e os insetos ou apenas contemplando o céu. Era a hora de se abastecer de inspiração, justificava ele, antes de se acomodar embaixo da mangueira ou de se sentar ao lado do viveiro para ler o jornal. Na sala de estar ouvindo música clássica, nos quartos meditando e olhando a paisagem ou mesmo na cozinha impregnando-se de cheiros e sabores, vivia espalhando metáforas, metonímias, sinestesias e hipérboles pelo ambiente. E sempre que estava para concluir um texto, dirigia-se ao terraço com as folhas datilografadas na mão. Então, tal qual bandeira desfraldada, estas eram sacudidas ao sabor do vento por alguns instantes. Se alguém presenciava a cena e se surpreendia com esse inusitado comportamento, ele logo explicava num tom meio professoral:
— Trata-se de uma manobra crucial, meus caros, é só neste momento que os clichês se desprendem do texto…
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O Bito
Juca abriu a janela e olhou a noite – o cheiro úmido da noite. Aspirou fundo e sorriu: tinha que ser hoje. Puxou a cadeira, montou a cavalo na janela, num instante estava do lado de fora. Foi tateando a escuridão, até acostumar a vista. Os pés descalços afundavam na terra vermelha – uns poucos passos e estava junto à cerca.
Deitou-se no chão – cuidado o arame! – e rolou para o pasto das vacas.
Agora muita atenção, uma chifrada ia estragar tudo.
Enxergava melhor – a noite até que clara, a lua um balão amarelo, manchas de fumaça, espargindo um halo de claridade, e as estrelas brilhantes, infinitas.
Devia de haver mil estrelas no céu – Juca não sabia imaginar um número tão grande: um mil, um milhão. Abre a boca pasmado – quantas!
Nenhuma luzinha na terra – o pai apagara o lampião de querosene, a última lamparina. No céu, uma festa – as estrelas, lamparinas trêmulas de alegria.
Reconheceu as Três Marias, o Cruzeiro do Sul – Por que esses nomes? Precisava de conhecer mais nomes das estrelas? E das coisas? Não; não fazia falta.
No pasto escuro, acariciando os nós do coqueiro – nem um tiquinho de medo.
Tinha as vacas, um perigo a Mimosa, mas estava acostumado. O pai ralhava – inútil, homem não tem medo. Oito anos, calcinha curta, pé no chão – um homem.
Não distinguia a copa do coqueiro, mancha balouçando lá no alto. Bom de trepar – impossível, as perninhas desajeitadas.
Um barulho – a respiração das vacas ali perto, bufando, ruminando com prazer a cana da tardezinha.
Deu uma corrida até a paineira.
Se o touro Marrão? Fica apartado das vacas, mas – quem sabe? A casca grossa da paineira, o melado do leite dela – uma árvore bonita, florida como um jardim. E os espinhos? Se o Marrão, não dava para se proteger num galho.
Também, nunca precisou correr de um boi. Estufou o peito e foi andando devagar até um outro coqueiro.
A aragem fresca da noite, o capim molhado – uma sensação agradável. Afundou o pé num monte de bosta. Não era ruim – afundou o outro também. Diz que estrume de vaca é bom para curar frieira. Juca não tinha frieira, mas era quentinho – ele gostava. Um cheiro verde, forte, saudável.
Saiu arrastando os pés, esfregando no escuro da grama, sem pressa. Abraçou o coqueiro – mais uma paradinha.
Escutava o silêncio. Muito longe, um longe muito negro, a água clara – mal se ouve – gorgoleja. Uma rãzinha – serenata, quem sabe? – e um grilo fazendo coro. Podia que a cantiga das estrelinhas.
As vacas resfolegam. É tudo uma paz, as vozes da noite modulando o silêncio. Por que não uma coruja? As corujas vivem de noite – compenetradas, todo um ar de sabedoria. Nunca uma coruja à noite – Juca viu de dia, num mourão à distância. O bichinho tão sério, dormindo, ou fechado em si, ruminando as imagens do mundo – a aparência de velhice, tão antigo, jeito de quem conhece.
Medo nenhum. Um saci, gostaria de ver um saci. Não viu nem as tranças que o moleque faz nas éguas. Diz que ele aparece, chamando. Põe a cabeça de um lado e outro do coqueiro, se escondendo, e assobia. Duas, três vezes – saci, nada. Chama: Saci, ciriri… ci, ci!
Ah, o pito do negrinho soltando estrelinha, no escuro – umas coisas que careciam de ser verdade.
A mula-sem-cabeça – sem cabeça e abanando as orelhas no vento. O lobisomem – devia de ser bem engraçado. Da varanda se avista o telhado da casa do Tio Luís – a prima Isabel perseguida por um lobisomem, em cima da porteira e o bichão mordendo o vestido. Dia seguinte o noivo Zezão tinha fiapos de pano nos dentes? Ninguém não desconfiou – os dois noivaram demais, pularam cerca, se emaranharam nos espinheiros? Juca aprende com a mãe a duvidar – que as histórias eram bonitas, eram.
Ufa, que estou perdendo tempo – dá uma corridinha. O Bito me esperando – desabala pasto a fora. Sobe na tábua na porteira, alcança a taramela grandona – mas, e se o pai escuta? Essa porteira velha ringe nos gonzos. Melhor não. Se esgueira pelo viradouro – enfim, no piquete dos bezerros.
Qual o Bito? Só chamar, ele vem. Baixinho, que o pai – lonjão, mas o pai inventa de escutar até pensamento. Bito! Bito!
Um vulto se aproxima – é o Bito? Maior, mais magro. Os bezerros, a maioria mansinhos – Juca vai passando a mão, um por um: conhecer pelo tato.
O Bito é preto – como, no escuro? A estrela branca na testa – mas, e o escuro? O Bito é preto dum preto vivo, um preto que brilha de tão preto – perceberia o brilho?
Peludão – fácil, com o tato. E eu não ia conhecer o meu Bito? Enfia o pé num buraco de tatu – que susto! Medo de tatu? Franze a testa, empina a cabeça – tenho medo, não.
Ui! Novo susto – uma lambida na cara: Oi, Bito. Abraça o bicho – Saudade, negão. Nova lambida – Juca, um beijo na orelha, em resposta. E um tapa nas ancas, de amigo.
Preocupado, Bito – a ameaça de uma lágrima, ele que nunca chorou. As mãos na cabeça do Bito, cabeça contra cabeça se esfregando. Amigão, perder você – não quero, não. Cada ideia – ouvira a mãe, que tinham que mudar para a cidade, não podiam esperar mais. E tudo por culpa dele, o Juca – Está crescendo esse menino, assim no mato, vira bugre.
O pai ria, não fazendo caso. Mas tinha mais alguma coisa no ar: o sítio não produzia como antes, outra colheita perdida – não iam agüentar.
O Juca não entendia desses assuntos – e não morar mais ali, ideia tão remota, invencionice, onde se viu?
Mas porém uma outra preocupação começa a bailar na sua cabecinha: estava crescendo, o
Bito cresce mais rápido ainda – breve, breve, ia perder o Bito. Breve, breve o Bito ia ser um garrote, um boi, um tourão. Já se viu um touro se chamar Bito? Até o nome – Bito, era uma vez.
E se matassem, carneassem o Bito? Isso não – ali um tourão, o maioral, capaz de dar conta de todas as vacas do mundo.
Mas tudo acontece. E ninguém podia impedir o Bito de crescer – cresceu, babau! Adeus, Bito. Nunca mais o seu bezerrinho.
Por isso que tinha vindo essa noite. Não carecia, as coisas não iam ser assim de uma hora pra outra – mas se viu tão agoniado, um aperto no peito, desinfeliz como a morte.
Pulou a janela do quarto – esqueceu tudo. Se sentia livre, sozinho dentro da noite, e fazendo coisa proibida, que bom.
A noite e seus mistérios – Juca nem conhecia a palavra mistério, mas era todo envolvido de seu fascínio, solto na noite. Um molequinho desenxabido, carinha de bobo – que importante, reinando com esse brinquedo encantado, diferente de tudo, a noite.
E aproveitar! Bito, amigão, você me leva? Só uma voltinha!
Se gruda no bezerro, joga a perna direita pra cima, uma, duas vezes – de bunda no chão, embaixo do Bito. Que anda, devagar – Espera, Bito, espera. Bicho inteligente! – para junto de um tronco seco. O Juca – upa! – pula na garupa do Bito. Deita pra frente, se ajeitando. Upa, cavalinho. Upa, upa!
Bito a passos bambos até a porteira – não vão sair? Volta a contragosto, depois de uma carreira – para na beirada do pasto, se encosta no pé-de-goiaba.
Quietinho, Bito. Quietinho! O Juca – no cai, não-cai – fica em pé, em cima do Bito. Segura no galho da goiabeira, procura, esse escuro – olha que uma taturana!
O Bito dá uma corcoveadinha, um passo de lado e – ai, o Juca pendurado na goiabeira.
Tenta firmar o pé no lombo do Bito, que nada – o jeito é descer pelo tronco. Ah, não queria goiaba mesmo!
O Bito procura os companheiros, o Juca atrás – Aqui, Bito, aqui. Bé – a resposta do Bito.
Um bé preguiçoso, de sono – espojando-se ao lado dos outros bezerros.
O Juca ofegando – Faz isso comigo, Bito! Cansado, deita-se também.
Você sempre será o meu bezerrinho. A lembrança – Não quero que você cresça nunca! Eu não quero crescer nunca! Nem nunca que eu quero ir embora daqui.
Aconchega-se abraçando o pescoço do bezerro – hum, tão bom!
Friozinho, o sereno da noite – abraça bem apertadinho o pescoço do Bito. Quentinho!
As estrelas lá no céu, que mundão de estrelas! Dorme, dorme, Bito.
Os vagalumes aqui na terra, um mundão de vagalumes. Abre e fecha os olhos, apalpa o capim – uma coceguinha úmida.
Gozado – como se estivesse no quarto, a janela aberta, os vagalumes sobre a cama, pousando no travesseiro. Corria fechar a janela, acender a lamparina – você aperta a bundinha do vagalume, trec! ele dá um pulo pro ar. Cinco, dez vezes – cuidado não matar o pobrezinho. Guardar numa caixa de fósforos, amanhã você brinca mais.
Às vezes era daqueles pequenininhos, molinhos, chamado de um nome dos mais feinhos: luz-cu.
Pirilampo tem-tem! Seu pai tá aqui, sua mãe também! Pirilampo tem-tem! Não, não estava com vontade de brincar. Dorme, dorme, Bito. Só nós dois, sozinhos no mundo. Já pensou – não existisse mais ninguém, só nós dois?
O Bito olhando com uns olhões deste tamanho – assopra pelas ventas, esfrega a fuça no chão, de cá pra lá, de lá pra cá.
Os vagalumes, estrelinhas – o Juca nem notara os vagalumes, custou. Foi notar – lembrou de casa. Ah, deixa a casa lá: a mãe está dormindo, o pai está dormindo – Vamos dormir também, Bito! Quentinho, que bom nós dois, a gente juntinho.
A escuridão, que preto o mundo! Monstros? Assombração? Algum bicho – onça? cobra? O Juca fecha os olhos, aperta bem o Bito, peludão. Não tenho medo, não – um homem.
Encolhe as perninhas, se aninha bem encostadinho no Bito – Não quero nunca ser um homem grande.
As estrelinhas, esse pirilampo – sentar na ponta do meu nariz? Juca enterra o nariz nos pelos do Bito – Você é tão mansinho! Você sempre que vai ser o meu bezerrinho! E espera – o sono, o sono que logo, logo vem chegando.
