Sábado

  • Todo mundo conhece uma Odete

    Na última aula de Pilates, o assunto que movimentou os ânimos foi: quem matou Odete Roitman?

    Quando Beth trouxe a questão à baila, imediatamente, Tatiana revirou os olhos, fechou o sorriso e lançou:

    — Acho essa novela um lixo. Nem de longe se parece com a original. Não assisto. Me recuso.

    O clima pesou mais do que os halteres. Deu para perceber o mal-estar de Beth ao se dar conta de que puxou uma conversa que não despertou interesse, ou pior, causou nítido desagrado.

    Sabe aquele gosto amargoso da rejeição? Pela carinha dela, ela sentiu.

    Nilce, mais simpática e mais compreensiva com os pecados do cotidiano, amenizou o clima:

    — Também prefiro a novela original, mas tô gostando de Vale Tudo. Pra mim, quem matou foi a Celina. Ela sempre invejou a Odete.

    Beth, aliviada por encontrar eco para o seu interesse, mas ainda receosa de tomar outro golpe, disse quase sussurrando:

    — Eu desconfio da Maria de Fátima. Aquela é má de verdade.

    Tatiana, decidida a inundar o ambiente com seu mau humor ou apenas se aproveitando do disfarce da sinceridade para trucidar a colega do Pilates, soltou:

    — Essa novela é tão ruim que eu acho que a Odete se suicidou. — Um risinho debochado acompanhou a afirmativa.

    Eu, que até ali estava calada, resolvi me meter. Aquela gosma de superioridade já estava me incomodando. Mandei na lata:

    — Com um marido maravilhoso daquele, acho difícil ser suicídio.

    — Nunca achei o Cauã bonito.

    — Ah, Tatiana, aí já é um problema de mau gosto seu.

    A gargalhada da amiguinha oprimida rasgou a atmosfera da sala.

    Continuei:

    — Concordo com você, Tatiana, que a novela é fraca mesmo, mas adoro. Não perco um capítulo. A vida é assim, tem coisas que não prestam, mas a gente gosta.

    — O corpo dele é bonito, mas a cara é feia — confessou Tatiana, de forma menos árida.

    — Então, deixa ele para mim.

    Rimos todas juntas.

    Moral da história:

    1. A amargura tem poder de contágio, mas o humor é um antídoto potente.

    2. Algumas pessoas saem de casa dispostas a nublar o tempo de quem encontrar. Sejamos solares!

    3. Gente que gosta de se gabar do que é, ou tem, ou se acha dona da verdade, é desagradável, desinteressante e solitária. Se tiver que conviver, emane energia positiva, humor e criatividade. O bem precisa vencer.

    4. Convivência é lugar de troca, não de exibição. Podemos discordar, não se identificar, se opor, mas com responsabilidade emocional e respeito. Para palavras-espinhos, revide com palavras-pétalas.

    Só há treva se não houver luz.

  • Incomodada ficava a sua avó

    Há pouco tempo assisti a uma entrevista do ator Wagner Moura onde ele dizia que vivemos uma crise da verdade. Não há mais certeza ou garantia de que aquilo que se vê, lê, ouve ou se experiencia é real. Tudo pode não ser o que parece ou se afirma. Até o que constatamos com os nossos próprios olhos pode ser falso. A inteligência artificial, com sua produção de imagens e realidades, ao gosto do freguês, atende prontamente à nossa ânsia de completude e tamponamento dos buracos existenciais. Não existe mais falta! Tudo se remenda, disfarça, customiza. Viver, agora, é a arte de forjar. Em segundos, podemos colocar um ente querido, já falecido, na nossa foto de aniversário, formatura, batizado do filho. A morte não é mais definitiva. Também é possível postar foto abraçada com o ídolo (in)acessível, compartilhar os segredos mais íntimos, ou, até mesmo, se apaixonar pelo robô vestido de pessoa. “Nem dá pra notar diferença”, dizem por aí os mais experientes… De cá, me pergunto se o amor sempre foi tão artefato assim e só eu me enganei o achando artesanato.

    É assustador pensar que o príncipe encantado/inventado nos meus delírios adolescentes, hoje, teria rosto, olhar sedutor, nome próprio e ainda me faria juras de amor com o timbre que eu escolhesse.  Subiu um calafrio de horror.

    Nada mais tem garantia ou nos pertence, nem a nossa própria imagem e voz. Não é loucura pensar que com a IA, qualquer dia, posso estar na rede falando e defendendo ideias que nunca pensei ou refuto completamente. A crise da verdade é tão bizarra que li, recentemente, e chequei a veracidade da informação (ação indispensável atualmente), que a Dinamarca avalia conceder aos cidadãos direitos sobre sua imagem e voz para combater as deepfakes.

    Isso tudo me assombra tanto que até agora não consegui nem brincar com os famosos filtros na internet ou considerei entrar na moda e fazer harmonização facial. Tenho medo de quem posso me tornar. Sim, porque passando a ser aquela que sonhei ser, mesmo que às custas de ser totalmente outra de mim, o que se construiu por dentro não vai servir de jeito nenhum. Tenho certeza de que, se eu fizer harmonização facial, preenchimento, bariátrica, abdominoplastia e uso de lente verde vou precisar de harmonização emocional e espiritual. Sim, porque para ser outra não poderei ser essa que me tornei. Ah, sei não, talvez perfeita eu me torne insuportável. Melhor deixar como está. Verdade seja dita, eu sou muito apegada a essa que eu reconheço quando me olho no espelho.

    Também não vejo jeito de namorar robô. A temperatura do corpo, os pequenos equívocos do cotidiano me conquistam demais.

    Vou ficando por aqui. Sei que verdade absoluta não existe, mas ilusão tecnológica não me convence. Deve ser porque não acredito em perfeição ou porque, quando a esmola é demais, eu me belisco.

  • Festa ao Entardecer

    Daqui a poucos dias faço aniversário… O que vou pedir de presente? Alguma lembrancinha, mais para atender aos filhos e netos que me olham atentamente, tentando adivinhar meus sentimentos, ou meu estado de espírito, nesse dia que me leva cada vez mais ao entardecer da vida.

    Eu os conheço bem: cada um, à sua maneira, vai me sondar, tentar “me ler” nas entrelinhas.

    Não os condeno, pois por longos anos também passei pelo estranho papel de me sentir mãe, em vez de filha.

    Sendo assim, sei bem dos subterfúgios, das desculpas e disfarces para não preocupar os nossos.

    Minha mãe, aos 93 anos, ainda pedia vestido novo para ir às consultas médicas.

    Não saía sem passar o seu batonzinho rosa e não perdia nenhum evento familiar: aniversários, batizados, colações de grau. 

    Tanto podia ser do jardim de infância ou de graduação das suas três dezenas de netos. Ah, festejou também nascimentos e batizados de bisnetos e até uma tataraneta! 

    Eu penso que ela de fato tinha o espírito festeiro do povo latino. 

    Tenho a descendência e as lembranças do convívio  e costumes da minha grande família de origem. Festas, rezas, procissões… sentimentos externados… eu diria até exagerados. Bonitos e barulhentos, que acalentam as minhas memórias afetivas.

    O problema está nessa minha predileção em conversar com os meus pensamentos.

    Sinto que, nesta fase da vida, a calmaria tomou o trono, a paciência encontrou o seu espaço, os hormônios impetuosos se aplacaram, e tudo o que antes demandava tempo e urgência passou a ter a placidez que pode ser resumida com apenas uma expressão: E daí?

    E daí?

    Daí que, apesar de gostar da minha solitude, vou passar o meu aniversário com filhos e netos, sorrindo feliz com as demonstrações de carinho, festejando a vida.

    Tenho a convicção de que fui e sou importante na dinâmica familiar. Meus filhos e netos me reverenciam e agem de forma a me fazer crer na grandeza dos inúmeros papéis que desempenhei, mesmo quando eu mesma ainda estava perdida na ignorância e falta de prática. 

    Sendo assim, pegando carona no amor e carinho amealhado em meus anos de vida, vou me alegrar com a alegria deles.

    Afinal, viver é uma dádiva, em todas as fases, em várias nuances. Buscar e distribuir sorrisos, amar e ser amado, ser a presença amiga na caminhada e no repouso. 

    Aqui onde minha alma encontrou abrigo e serenidade, vou festejar com alegria e emoção dizendo: 

    Feliz aniversário para mim!

  • As voltas que o mundo dá

    Cada dia mais me convenço de que o universo se comunica com a humanidade por sinais sutis e precisos. Essa linguagem delicada costuma ser nomeada, por muitos de nós, como coincidência ou intuição. Eu, de minha parte, acredito tratar-se de um idioma ancestral, com o qual perdemos o contato, há muito tempo, mas permanece cifrado no nosso íntimo. Vez por outra, algo reconecta a sintonia perdida e decodifica a mensagem. Exemplo disso aconteceu hoje: estava me preparando para escrever essa crônica, cujo tema seria a importância de se estabelecer limites na relação eu/outro para preservação da saúde mental, quando me deparei com a notícia de que a terra ultrapassou 7 dos 9 limites planetários necessários à manutenção do equilíbrio ambiental no planeta. Coincidência? Com certeza, não! Certamente, foi um sinal do universo para quem precisa refletir. Vou fazer uma tradução livre da situação do planeta e vamos ver quem de nós se identifica:

    Por mais que oferte o meu melhor com empenho, me desdobre para atender às necessidades e expectativas dos que me cercam, trabalhe exaustivamente para garantir amparo e proteção aos que amo, sem reclamar vantagens ou prioridade, cedendo quase sempre a minha vez, sem deixar faltar nada para ninguém, no final do dia, me sinto só. Sem cuidado, afago ou reconhecimento. 

    Eu preciso aprender a dar limites aos outros e valor a mim.

  • QUARENTENA

    Com um sobressalto, fui arrancado da cama por um sonho apocalíptico. Ainda grogue e alarmado, abri as cortinas e meu humor logo mudou. Lá fora, me acenava um maravilhoso céu azul. Era sábado de aleluia. Aleluia! Que lindo sol! Um dia claro com temperatura amena, típico do início de outono. Perfeito para uma caminhadinha ao ar livre.

    Os gerânios do jardim do vizinho pareciam mais vivazes do que nunca. Um par de borboletas azuis bailava graciosamente a seu redor. Era a vida que pulsava mais forte ou meu bom humor que fazia tudo parecer belo? Até o ar parecia mais leve hoje, com menor presença de gases tóxicos produzidos por automóveis. Nem mesmo consigo perceber o azucrinante ruído rotineiro do ronco de motores, buzinas e motos turbinadas.

    Falando nisso, cadê os carros? Só vislumbro alguns estacionados a meio fio, como se tivessem sido abandonados há séculos por seus donos como peças de um museu a céu aberto. Suas pálidas cores metálicas contrastam com o verde vívido emanado pelas imponentes seringueiras que protegem o passeio com sua centenária serenidade vegetal.

    Andei até o final da quadra. Nenhuma alma viva. Um silêncio austero, quebrado apenas pelo alegre gorjeio dos passarinhos que pareciam mais felizes hoje, cantarolando com maior vigor do que o habitual. Aquela quietude (na verdade, apenas a ausência dos irritantes ruídos urbanos) deveria ser celebrada mas, nas circunstâncias, tornou-se perturbadora.

    10h15min. A esse horário, o vai-e-vem costuma ser intenso. Ok, sábado o movimento é menor. Uns 20% menos gente. Mas… ninguém na rua! Muito esquisito!

    O mais estranho é o comércio fechado. A loja de armarinhos da esquina. Fechada. O pet shop que aos sábados fervilha de cães latindo e donos tagarelando. Fechada também. Será que emendaram o feriado de sexta-feira da Paixão com o domingo de Páscoa?  E a vendinha do ‘seu’ Josué? Abre até mesmo aos domingos e feriados no período da manhã. Fechada também. Não! Definitivamente, há alguma coisa muito errada por aqui.

    Veio-me à memória um daqueles episódios sinistros da antiga série Além da Imaginação (“Onde estão Todos?” era o título), em que o personagem principal se vê vagando pelas ruas de uma cidade com casas e estabelecimentos comerciais perfeitamente conservados mas não encontra nenhum habitante. E baixa o desespero. O mesmo que começo a experimentar agora.

    Teríamos sido vitimados durante a noite por uma maciça invasão de naves extraterrestres que, em pouco tempo, dizimaram a população com seus artefatos de destruição em massa? Isso explicaria o pesadelo tenebroso dessa noite…

    Enquanto meu cérebro maquinava elucubrações cada vez mais catastróficas, vislumbrei, ao longe, adiante, alguém caminhando. Ufa! Não estou só no mundo. O vulto do que parecia ser um solitário homem se desloca, com uma aparência suspeita, em minha direção com passadas rápidas e estridentes que reverberavam tetricamente na calada daquela inusitada manhã.

    Seria mesmo uma pessoa? Ou talvez um alienígena, perscrutando os meandros do planeta desabitado, em busca de terráqueos sobreviventes (eu, por exemplo) para concluir a ação de extermínio? Já o imaginei, sacando de seu arsenal intergaláctico, uma arma letal e me abatendo impiedosamente.

    Ele continua se aproximando ameaçador. Pensei em furtivamente atravessar a rua para evitar que nossos caminhos se cruzassem, o que parecia, em função das trajetórias em curso, inexorável. Mas abandonei essa estratégia ingênua de fuga pois o expediente não seria capaz de afastar o perigo eminente nem me manteria fora do alcance de seus braços de plasma dilatável. Sua visão de raio X e sua arma mortífera me convertiam em presa fácil.  

    Ao chegar mais próximo, uma constatação terrível aumentou ainda mais meu pânico. Ele vestia no rosto uma sinistra máscara negra que cobria a maior parte de seu semblante!! E luvas plásticas envolviam suas mãos (ou seriam ganchos?). Não restava dúvida. Estava eu à mercê da criatura, e nada poderia mudar meu destino. Prossegui titubeante como um boi rumo ao matadouro, resignado ante o desígnio cruel que me aguardava.

    Ao chegar a poucos metros, verifiquei com um misto de alívio e decepção, que se tratava tão-somente de um reles rapaz de carne e osso de seus 30 anos, o qual ignorava minha presença, entretido que estava com seu celular (sua única ‘arma’, ao que parecia) e ia passando indiferente, sem sequer encarar minha expressão de pavor que, aos poucos, se dissipava.

    Mais calmo mas ainda sob tensão, procurei aquietar meu coração acelerado. Quando a curiosidade superou o medo, resolvi, num ato de bravura, a ele indagar:

    – Me desculpe. Poderia me dizer por que as ruas estão vazias e está tudo fechado?

    – Ué, o senhor não está sabendo da pandemia de coronavírus?

    – Hã. Corona… o quê?

    Minha vida estava salva. Acho. Pelo menos momentaneamente. 

    Uma pandemia? O que isso significa? Devia ser algo grave pra tirar todo mundo assim de circulação naquele sábado reluzente de outono.

    Seja lá o que for, melhor voltar pra casa que, pelo visto, é o lugar mais seguro.

    Mas quem vai salvar as seringueiras, os passarinhos, os gerânios, as borboletas?

  • Enxurrada

    Quem morou em cidades do interior, em tempos idos, vai se lembrar da enxurrada. Do barulho, da intensidade, da cor, do tempo que durava.

    Hoje, talvez, poucas crianças tenham visto, ou até mesmo ouvido falar dela. Esse fenômeno da natureza não era o evento em si, mas a consequência. Ainda assim, tinha tanta força que me deixava suspensa na janela, olhando. A causa era a chuva torrencial.

    Quando amainava, virava pingos esparsos, ou garoa fininha. Só então poderíamos sair de casa. Quando a enxurrada já tivesse diminuído, até se tornar uma fina lâmina de água que seguia em busca de seu destino final.

    Do qual eu não fazia ideia. Mas sabia que levava tudo em seu roldão: gravetos, brinquedos esquecidos na porta das casas, pintinhos distraídos, caso a galinha não tivesse tempo de protegê-los.

    E toda sorte de tralhas e sujeiras que encontrava pelo caminho.

    Por que me veio essa memória?

    Pelo cuidado.

    O cuidado e a responsabilidade que devo ter ao escrever as crônicas do meu cotidiano.

    Escrever é ato solitário.

    Mas, ao soltar o texto, ele deixa de ser meu e toma vários caminhos, pode circular pelo mundo virtual, ficar estagnado em uma gaveta, virar papel de embrulhar…

    Essa é a razão que me fez pensar no cuidado… ao escrever não devo me comportar como a enxurrada: bela, intensa, mas misturada ao lixo que recolheu pelo trajeto.

    Quero ser o fio de água que desce pela rua depois da tormenta.

    Manso.

    Sob a leveza da garoa fina.

  • Eu vejo flores em você

    Não tem nesse mundo quem nunca escutou falar que as palavras têm poder, seja para tornar realidade o que estava no campo dos sonhos, seja para elevar ou destruir alguém. Eu mesma lembro de algumas palavras que, atiradas contra mim, me fizeram sangrar por um tempo, assim como guardo na memória outras que funcionaram como unguento.

    Além do poder que lhes é peculiar, acredito, que elas também possuem altura, largura e profundidade, mas nem sempre nos damos conta.

    Exemplo disso acontece quando, ditas numa conversa, são capazes de inaugurar sentidos (largura), iluminar e fomentar ideias (altura) ou promover conexões, interpretações que abrem estradas para as emoções (profundidade).

    Mesmo cientes do seu poder de cura, não devemos esquecer de que, no bolso, as palavras carregam uma lâmina de corte afiada.

    Quantas vezes usamos a navalha sem intenção? Porém, para quem escuta, a ausência de motivação para a hostilidade não diminui a gravidade do ferimento. Daí a importância de se ter cuidado ao manipular a faca afiada.

    É comum ouvirmos o álibi: “esse é o meu jeito de falar, foi sem querer, não me leve a mal.” Levamos sim! Ninguém merece arcar com o custo da falta de coragem de mudar, seja de quem for. Fala sério!

    A palavra não é o pijama velho que vestimos para dormir.  Não, ela é tecido delicado, fino, requer cuidado e manutenção. Senão, encarde e perde seu encanto e beleza.

    Toda palavra é feita de pétalas e espinhos. Prestemos atenção na forma com que entregamos cada rosa no nosso dia a dia.

  • Para mim e por mim

    Hoje eu acordei disposta a me elogiar, admirar meus feitos, reconhecer minhas lutas, relembrar todas as vezes que me levantei de tombos dolorosos e segui em frente.

    Acordei sedenta da minha essência, de abraçar com carinho minhas cicatrizes, as lágrimas escorridas por trás do muro da fortaleza. Perdoar as escolhas feitas com ingenuidade, que tanto me culpei por achar burrice. Sorri orgulhosa do meu jeito brejeiro de dar nó em pingo d’água…

    Hoje eu quero celebrar a descoberta da minha importância, significado e especificidade, independente da validação dos outros.

    Envelhecer não é só contar primaveras, atravessar invernos, gozar verões e aguardar outonos. É também um encontro com as escolhas, possibilidades, desejos e encantos que resistem a oxidação dos dias.

    Salve a minha coragem.

  • Realidade Adversa

    “Da minha infância querida, que os anos não trazem mais…”

    “Maringá, Maringá, depois que tu partiste, tudo aqui ficou tão triste que eu garrei a imaginar…”

    “Vento que balança as palhas dos coqueiros, vento que encrespa as ondas do mar…”

    Aqui, sentada na varanda, Felícia aos meus pés, o sol de setembro ainda ameno e o trinar dos passarinhos me zoando aos ouvidos, eu penso.

    Sem pressa, sem ódios, sem amor. Como trilha sonora, busco deliberadamente os sons que embalaram as minhas inquietações juvenis.

    Não, não é fuga. Não é alienação. E nem poderia ser.

    Tantas coisas acontecendo no mundo… de santos a demônios, de guerras em palavras, intenções e atos…

    De surpresas a favas contadas…

    De descaso em vida a homenagens póstumas…

    Como abstrair? Como brincar de faz de conta?

    A dicotomia permeia tudo: céus e terra, humanos e não humanos.

    Os bruxos estão soltos…

    Ou talvez sempre tenham estado.

    No ar, nas ideias, nas esquinas e nos templos. E se disseminam nas ondas invisíveis que o homem, esse ser maravilhoso, “à imagem e semelhança de Deus”, colocou à nossa disposição.

    De ondas eu entendo, pois foi nelas que me refugiei desde a idade em que meus pensamentos se tornaram perguntas e porquês.

    E sigo aqui, entre ondas…

    As que me acalentam e as que me desafiam. Ondas de mar, de rádio, de pensamento… sempre elas a me lembrar que a vida não cabe em extremos, mas se move no vai e vem do tempo.

    E, nesse movimento aonde me encontro, entre idas e vindas, sigo buscando abrigo…

    Pois mesmo que eu veja, ou só mesmo perceba do meu ponto de vista, a realidade adversa por onde a humanidade caminha, se eu me alienar, deixo de cumprir o meu lugar no mundo.

  • Não se faz omelete sem quebrar os ovos

    Para muitas pessoas, a aproximação do aniversário inaugura o inferno astral, tempo no qual tudo que poderia dar errado, dará. Não sei se acredito nisso, mas fato é que, semanas antes do glorioso dia, tem início, dentro de mim, um misto de desassossego e agonia para decidir: como, onde e quando vou comemorar? Quem vou convidar?

    Penso na roupa que vou vestir, na playlist que vai tocar. Faço, mentalmente, a lista de convidados, mas antes mesmo de resolver se será churrasco ou festa anos 70, começo a pesquisar preço de viagem, roteiros. Quando me dou conta, novamente, escolhi viajar. 

    Os amigos reclamam, eu me cobro, prometo fazer diferente no próximo ano, mas acabo não resistindo à tentação de me jogar no mundo. 

    Quem vê de fora pode pensar que não gosto de estar com os amigos; eu adoro de paixão. Podem achar que na infância não tive festinhas. Enganam-se. Uma das lembranças dessa época é a minha vó cortando quilos de batata para fazer maionese e servir com arroz, pernil e farofa na grande celebração do meu nascimento. Lembro de amar a fase dos preparativos e me divertir muito com o evento.  

    Também não tenho problema para revelar idade nem sou daquelas pessoas que considera o aniversário um dia qualquer.  Para mim, é uma data especialíssima. Me alegra ser lembrada, receber o carinho das pessoas. Só não me animo o suficiente para tocar o projeto festa. Contudo, admiro os festeiros, invejo a facilidade que eles têm de juntar diferentes grupos num mesmo lugar e dar conta de tornar divertido e harmônico.

    Eu não desisti da ideia de fazer um churrasco com pagode, um lanche com karaokê, uma festa flashback, só não será dessa vez. 

    Prometo me programar, e, daqui a três anos, fazer uma grande comemoração para inaugurar os 60 anos. 

    Ainda nem escolhi o tema da festa e já me bateu a vontade de pesquisar sobre aurora boreal. 

    Não tenho culpa, vamos combinar, aquele céu verde neon é sedutor demais…

    De todo jeito, envelhecer é poder assumir, sem muita firula, a pessoa que nos tornamos. E, pelo visto, essa versão atual de mim não curte muito fazer festa. E tudo bem!

    Por sorte, envelhecer também traz uma habilidade para descartar a culpa. Talvez por isso chamem de melhor idade.

  • Ou nada, ou tudo

    Costumo rezar sozinha.

    Não por falta de fé coletiva, mas por necessidade de compreender o sentido da prece: se é pedido, agradecimento ou louvor.

    Nas igrejas e templos , percebo a oração como um ato comunitário.

    Já em casa, no silêncio, ela se transforma em diálogo íntimo, sem medo nem pressa.

    Essa percepção nasceu dos meus intervalos de “nada a fazer”.

    Paradoxalmente, nesses vazios sempre encontrei invenção e força.

    A vida me exigiu muito cedo: de menina curiosa a mulher adulta, mãe de quatro filhos, de cuidada a cuidadora. 

    Entre tarefas e cansaços, descobri nos pensamentos e nas preces uma forma de preservar a sanidade.

    Hoje, quando paro para divagar, também observo o mundo:

    as preocupações das pessoas, a política que interfere em suas vidas, as esperanças ou frustrações, diante do futuro.

    Nesse cenário, a prece ganha nova importância.

    Não apenas individual, mas coletiva: por filhos, pela chuva, pelos desamparados, pelos que sofrem. 

    É um gesto que acalma a mente e fortalece o espírito.

    Não me envergonho de reconhecer o valor dessas pausas.

    Ao contrário: me aplaudo.

    Trago comigo amor-próprio, antídoto contra julgamentos.

    Manoel de Barros dizia que alguns aprendem a carregar “água em peneira”.

    De certo modo, também aprendi.

    Nos instantes que pareciam não servir para nada, encontrei a diferença entre rezar em coro e rezar em silêncio.

    Hoje sei: no meu nada, a oração se fez tudo.

  • Rua do Bispo

    Quando criança, costumava jogar futebol a 50m de casa, em um terreno baldio, no bairro do Paraíso. Ficava numa rua simpática e pouco movimentada que começava onde os bondes faziam um balão no início da Av. Paulista e terminava 5 quadras depois, próximo a um campo de futebol de várzea. Chamava-se Rua do Bispo. Não sei de onde surgiu esse pitoresco nome nem me importava saber, voltado que estava para questões mais importantes, como brincar e ser feliz.

    Moleques peraltas, não nos incomodávamos de jogar bola em campos improvisados sobre paralelepípedos desencontrados, nos tempos em que o leito irregular de uma rua era o bastante para que fosse transformada em arena futebolística. Os minguados automóveis passavam numa frequência risível para os padrões atuais, ao que conferíamos ao solitário usuário da via, reverenciosa deferência, interrompendo respeitosamente o jogo até o proprietário do veículo importado acabar de desfilar sua altivez motorizada.

    Todo o fim de semana reuníamo-nos ‘religiosamente’ na Rua do Bispo, para jogar uma nada pecaminosa ‘pelada’. Simpática rua. Lembra-me traquinices e bem aventuradas diabruras.

    Vivíamos no Paraíso, até revogarem a Rua do Bispo. Fosse ‘Rua Bispo Fulano de Tal’ ninguém mexeria no santo nome. Não era o caso daquele simplório epíteto, adquirido possivelmente em função de, em tempos imemoriais, ali haver residido um homem de Deus, quem sabe um indulgente benfeitor. Esse detalhe histórico foi naturalmente atropelado. Não fosse assim, o incógnito clérigo não teria sido importunado.

    O fato é que, à revelia da santa madre igreja, a rua do bispo (com minúscula mesmo já que o santo não era forte) passou a ostentar o pomposo nome de Rua Desembargador Eliseu Guilherme.

    As placas afixadas nos muros das casas, que outrora exibiam aquele prosaico letreiro de 5 caracteres, passaram a estampar a nova denominação, onde dezenas de letras se atracavam para não ficar de fora daquele nome que ninguém conseguia decorar. Os encontros futebolísticos, agendados para a rua do bispo, passaram a ser marcados ‘para a esquina’.

    Sendo, por natureza, um perseverante crédulo na boa índole da raça humana, faço força para acreditar que houvera sido o desembargador um homem honrado, de caráter ilibado, que desembargava com incansável precisão e justiça salomônica as demandas que tinha a incumbência de, por dever de ofício, apreciar.

    Pode parecer que esteja empenhado nesta insana cruzada para recuperar o título sagrado do pontífice anônimo, cometendo irreparável injustiça com o Dr. Guilherme. É possível que fosse alguém de bem, alheio às injunções espúrias que se fizeram em seu emplacado nome. A verdade é que lhe criei certa antipatia, talvez improcedente, pelo fato de ter usurpado o nome original daquela rua tão marcante de minha infância. O homem… nageado que, há décadas deixou o reino dos viventes, deve estar se remoendo no caixão por ser tratado de maneira tão vil e descortês por esse escriba fariseu mal informado. Preferiria talvez ter o desembargador esse assunto desembargado de polêmica.  O fato é que o seu nome ficou fincado na Rua do Bispo, como eu, insubordinadamente, continuo-a a chamar, indiferente aos olhares perplexos dos atuais moradores, desinformados das peculiaridades históricas daquele logradouro.

    O tempo passou, o leviatã urbano irrompeu, rendeu os paralelepípedos irregulares, os bondes, os campos de várzea e os prelados anônimos, o Paraíso virou inferno.

    Mas continuo a lembrar-me da Rua do Bispo com saudade…

  • A eternidade possível

    Morreu o meu primeiro beijo. Junto com ele foi enterrada uma fração da minha eternidade. Memórias dos medos compartilhados, dos sonhos impregnados na pele, do riso frouxo de nossa meninice. 

    Foram sepultadas as emoções que eu causei, as palavras e gestos que de mim fugiram para morar em sua recordação. 

    Diante da notícia crua, áspera, concretada na impossibilidade de um adeus, surge como um rito acessível, a crônica, corpo real da palavra sobrevivente do fim.

    É através dela que ofereço ao querido Alexandre Guimarães, menino sensível, doce e leal, um pedacinho de eternidade nesse mundo. 

    Para isso, registo aqui o pequeno poema que ele me escreveu no pulsar da nossa cumplicidade adolescente:

    “Você é o índice das coisas maravilhosas O resumo de tudo que é divino.”

    Embora tenhamos nos perdido nas vielas do destino, jamais esqueci as palavras desenhadas num pedacinho de papel amassado pelo tremor das mãos. 

    Desconheço se ele foi feliz, se aprendeu a lidar com o medo de ser quem era, se encontrou o amor que merecia viver ou o que pensou na hora de partir… tudo isso está soterrado sob o Nunca Mais.

    Vívida em mim, resta a lembrança do quanto nos apoiávamos para enfrentar a perseguição dos populares da escola (ainda não existia o conceito de bullying).

    Nosso primeiro encontro se deu diante da ameaça de uma surra dos mais velhos na saída da escola. Eu, menor que você, segurei seu braço e afirmei: vem comigo! Ninguém vai te bater. 

    Você, com seu sorriso de crença, ergueu a cabeça e aprumou-se como se recebesse um salvo-conduto. Sua fé foi tanta que me acreditei forte.

    Escapamos dos maus e nos inventamos num beijo inaugural para ambos. Feito muito mais de alívio do que de paixão. 

    Nos tornamos amigos porque precisávamos mais de colo do que de romance. 

    Agora, diante do luto, só me cabe celebrar a sorte do nosso encontro no tempo que nos precisávamos. 

    No final, o que se eterniza de qualquer um de nós é o que a palavra pode contar. 

  • Por aí

    Todo mortal que se preze já experimentou, em algum momento da existência, o desejo profundo de sumir sem deixar rastros. Não me refiro aqui a nenhum tipo de ideação suicida. No caso em questão, a pessoa deseja apenas evaporar, ela não quer morrer. Pelo contrário, intenciona viver plenamente, começar do zero, porém, longe do cenário no qual se encontra inserida seja por não suportar as pressões familiares, as cobranças sociais, as relações abusivas, as dívidas, a decepção amorosa, seja simplesmente por sentir o esgotamento psicológico que algumas relações provocam ao exigir muito e retribuir quase nada.

    Na maioria das vezes, o desejo de desaparecer nos invade e, depois, catequizados pelas circunstâncias, pelo afeto restante ou pela impossibilidade do feito, ele se esvai. Então, cientes da sazonalidade desse querer, seguimos em frente. Afinal, para que dar espaço ao que não vai acontecer? 

    Acontece que os japoneses decidiram levar isso a sério, e, pelo visto, já dispõem de empresas especializadas no desaparecimento voluntário chamado por eles de “johatsu”.

    O processo é simples: você contrata o serviço e a empresa cuida de tudo para que o sumiço seja bem-sucedido: mudança de nome, de endereço, nova documentação, tudo que for preciso para nunca mais ser localizado pelos indesejáveis.

    É fato que até para escafeder-se com estilo é preciso dinheiro. Caso contrário, o jeito é fazer umas gambiarras com o destino, simular umas saídas à francesa, quando possível, inventar umas desculpas para evitar encontros, mas sem muitas garantias de sucesso na empreitada.

    Por mais que a proposta possa parecer tentadora, confesso que não tenho esse desprendimento. Continuo acreditando que a melhor forma de resolver é ter a coragem de cortar o que não nos faz bem, treinar a arte de dar limites aos sem-noção e construir as fronteiras necessárias à saúde mental. 

    Agora já sabemos: se alguém sumir do mapa, contou com a ajuda dos japoneses.

  • Módicos Médicos

    A discussão em torno da presença de médicos cubanos no Programa Mais Médicos, alvo de retaliações do governo americano sob a alegação de que se encontrariam sob “regime escravo” e a serviço de uma ditadura, é um exemplo infeliz de como o clima de debate ideológico contamina até programas sociais que mereciam uma análise isenta e menos apaixonada.

    Para os apoiadores brasileiros de Trump, por ter sido instituído durante a gestão Dilma e por abranger profissionais originários da ‘execrável’ pátria de Fidel, o programa padece de um pecado original irreparável. Os ‘doutores’ seriam na verdade perigosos agentes infiltrados dedicados a expandir os tentáculos do comunismo internacional.

    Em meio a esse transcendente embate epistêmico-doutrinário, submeto uma banal questão: “A presença de médicos cubanos no programa está dando bons frutos?” Pelo que me informei de fontes fidedignas, os resultados têm sido bons. Se não por outra razão, uma oportunidade única de levar profissionais da saúde a regiões carentes.

    Os cubanos (que representam 10% do total dos médicos do programa), muitos portadores de cidadania brasileira, estão diligentemente cumprindo a missão de promover assistência a tais áreas, propiciando êxito ao programa. Seu objetivo não é fomentar doutrinação marxista. Os coitados emigraram ao Brasil com um objetivo bem mais despretensioso (mas não menos ‘revolucionário’): prestar auxílio clínico a pessoas necessitadas. Não prescrevem panfletos incitando a revolução, apenas receitas de medicamentos e xaropes. São ‘módicos médicos’.

    Por mais que resistamos em admitir, a medicina em Cuba é bastante avançada, e sua excelência é internacionalmente reconhecida, até pela OMS. Deveria ser um privilégio contar com pessoas com boa formação prestando auxílio suplementar a um país que conta com um médico para cada 400 habitantes.

    Considere-se ainda que tais profissionais, em troca de um salário líquido de 12 mil reais, são conduzidos aos mais longínquos rincões, aos quais os ‘filhinhos de papai’, formados nas boas (e caras) faculdades de Medicina, recusam-se a atender, preferindo cuidar de madames hipocondríacas nas regiões nobres das grandes cidades.

    Em 12 anos de vigência do programa com milhares de profissionais atuantes, não se tem notícia de um caso notório sequer envolvendo negligência ou falta grave no atendimento. Deveríamos nos preocupar isso sim com os recorrentes casos de pessoas não habilitadas praticando cirurgias plásticas mal sucedidas em dondocas narcisistas ou com as centenas de casos de pacientes esquecidos em filas de espera de hospitais públicos, à espera de médicos displicentes que não cumprem o horário.

    O programa Mais Médicos tem atendido com louvor aos propósitos dos países signatários. Serve a Cuba que tem a possibilidade de empregar profissionais formados em suas faculdades de Medicina, obtendo uma remuneração adequada para os padrões daquele país. E serve ao Brasil que consegue oferecer serviços de saúde a populações abandonadas pelo poder público. Não há qualquer razão plausível para rever esse acordo, benéfico a ambas as partes.

    Milhões de brasileiros seriam prejudicados pela saída desses médicos. São pessoas simples de comunidades afastadas que sentirão saudades dos cubanos.  Não sabem onde fica o Caribe e não entendem nada de política. Se privados do atendimento, talvez comecem a pensar a respeito.

    Talvez se fizesse melhor se, ao invés de questionar a presença desses humildes profissionais que estão exercendo uma relevante função social, empenhasse-se em nos livrar de políticos cuja ausência ninguém iria notar, a não ser pela melhora na situação das contas públicas.

    Somos vítimas de uma incurável epidemia de insensatez. Deve haver realmente algo muito doente nesse país insano que assiste impotente à evasão de milhares de cérebros privilegiados em busca de melhores condições de trabalho no exterior, enquanto discute dispensar serviços de médicos apenas por sua nacionalidade.

  • O Que Serei Quando Eu Crescer?

    Não… não vou escrever sobre os influencers… nem falar da infância usurpada… tampouco dos “responsáveis” pais… nem se o assunto da semana atende à pauta X ou Y.

    Como bem disse uma colega escritora: “tudo parece ser mais do mesmo.”

    Também não vou falar sobre coisas insanas, ou assuntos pavorosos. 

    Mas a minha inquietude em ver as letrinhas uma atrás das outras, formando palavras, enfileirando emoções, causando aflições, não é fácil de ser administrada.

    Sendo assim, fui lá em meus escritos antigos buscar algo inusitado ou diferente, um “achado”, talvez.

    Minha mente-esponja absorve muito, e dessas memórias escrevo contos: às vezes bobos, outros nem tanto.

    Portanto, a minha crônica semanal será um desses contos singelos, da idosa atual olhando a menina ingênua e curiosa do passado:

    O Menino

    Na missa, ajoelhado, mãos postas, olhos fechados, ele rezava.

    A cena se repetia todos os domingos. Roupa branquinha, cabelos pretos cacheados, olhos pintados, ele rezava.

    A garota se encantava com a sua postura e imaginava qual seria o seu pedido. Não, ela não tinha alcance para se comover com a prece em si, pois tinha uns sete ou oito anos. E, nessa idade, apesar da beleza da cena, o que mais a impressionava eram seus olhos. 

    Por sobre as pálpebras fechadas, ela via o risco preto do lápis.

    E durante a semana o esquecia.

    No domingo seguinte, lá estava ele outra vez: olhos fechados, olhos pintados.

    Com a curiosidade própria das crianças, a garota tentou saber com a irmã por que ele usava “coisas de moças”.

    Levou um pito e foi mandada calar a boca. Nenhuma resposta, nenhum crédito.

    Passaram-se os anos, e ela nunca mais o viu.

    Era meados dos anos 60, em uma cidadezinha provinciana.

    O tempo passou, e a cena foi ficando guardada em um canto chamado memória…

    Em uma cidade pequena, na única igreja local, frequentada pelos idosos de famílias tradicionais, pais e mães jovens com suas barulhentas crianças, mocinhas faceiras, beatas e solteironas, um rapazinho ia à missa de domingo, com os olhos maquiados…

    Era uma grande demonstração de coragem, numa época tão longínqua e num interior tão conservador!

    Anos depois a garota soube que o menino audacioso e corajoso se tornou um ótimo professor e diretor da escola pública do município.

    E a curiosidade da garota se transformou em respeito e admiração.

    Fim.

    Pronto! Com esse pequeno conto minhas palavras voltaram. Não sobre os modismos, as pautas repetidas, nem o que se diz nas redes sociais. 

    Foram lembranças que, ao surgirem como um “serendipity” iluminaram o presente e deram novo fôlego à minha escrita.

    Confesso, porém, que não há como apenas contar algo do passado, sem fazer um paralelo com os jovens que hoje ocupam os noticiários.

    A ousadia e a inquietude da juventude são normais, até necessárias.

    Mas entendo que a formação e os valores recebidos em família são os alicerces para formar um adulto saudável e responsável.

    O dever, a consciência moral , o respeito não são modismos dispensáveis. 

    Há muito tumulto, no que estamos vendo e vivendo, pois o ser humano parece ter se esquecido de que a dimensão da vida é muito maior do que o sucesso instantâneo e a aprovação midiática.

    Nesse papel apenas nos tornamos marionetes, ávidos por validação, a qualquer preço.

    E penso, olhando para trás e para frente, que talvez a resposta à velha pergunta “O que serei quando eu crescer?” esteja menos em escolher uma profissão e mais em perguntar: “alguém um dia contaria a história da minha vida, com admiração e carinho?”

  • Vovós tagarelas?

    Minha mãe chegou à velhice. Só pode! Anda muito pensativa e, se a gente pergunta, ela resmunga. Não quer ser interrompida em seu silêncio. Sabe por que eu sei? Porque me lembra a minha avó, a mãe dela. Ela também passou a ser econômica com as palavras.

    Poxa, ela era tão nossa amiga! Perguntava da escola, das bonecas, das colegas de sala. Contava coisas engraçadas, como quando pescou um peixe com o pai dela. Que o bicho se debatia no anzol e ela não sabia dizer como ,  mas o danado caiu em cima do seu pé. E ela falava que o peixe tinha furado o pé dela. A gente, com cara de espanto e sem acreditar, insistia: que peixe é esse, vó, que tinha bico?

    E ela ia lá dentro buscar um livro com um desenho de peixe espada, só pra dar efeito na história.

    — Olha aqui, Anita, como existe peixe com bico!

    Nisso, se passavam os dias, e era muita coisa que vovó contava. Como quando o neguinho do pastoreio salvou um menino que se perdeu em meio à boiada; 

    — O menino subiu na cerca e, depois, em cima da porteira pra ver a boiada passar.

    Ela começou:

    — Não tinha perigo, os peões passavam por ali sempre e sabiam bem dominar o gado, pra não estourar;

    — O que é estourar, vó?

    — É quando acontece alguma coisa que faz os animais se assustarem e sair daquela espécie de procissão por onde eles vão viajando. Estourar uma boiada é a pior coisa que pode acontecer! Esparramam, entram no mato, pisam em plantações, nem queira saber o quanto dá trabalho e problemas um estouro de boiada. Pois então… nesse dia não houve estouro. Mas houve um redemoinho de areia que tapou os olhos dos peões e o gado foi para o lado da cerca onde estava o menino. Quando passou essa espécie de ventania e os vaqueiros conferiram se estava tudo bem com o gado, deram falta do menino em cima da porteira. Peões são responsáveis por tudo que acontece no percurso do gado. Aí começaram os gritos pelo menino. Homens voltavam lá ao fim da boiada, outros iam para o lado da cerca, e nada do menino. O chefe da comitiva tocou o berrante, parou toda a tropa e a boiada, desceu do cavalo, ajoelhou-se no chão e pediu ao neguinho do pastoreio que mostrasse onde estava o menino. Mal terminou a oração, o gado saiu de um lado e abriu-se uma clareira. Bem ali, no mourão que segurava a grande placa de aroeira com o nome da fazenda ouviram o choro do garoto. Ele se desequilibrou e caiu de uma altura de três metros. Estava ali apavorado até que foi salvo pelo neguinho do pastoreio. Apavorados ficamos nós só de imaginar o acontecido!

    Contou também sobre existir galinhas tão felizes que botam  dois ovos por dia; e que ela aprendeu a ser costureira  fazendo à mão roupas de bonecas. 

    Nós tínhamos nela uma enciclopédia, uma contadora de histórias, uma defensora, uma amiga adulta. A diferença de idade não nos tornou estranhas.

    Com o tempo ela mudou. Ou nós mudamos. Sei que acabaram as conversas. Como um fogo vai perdendo as labaredas, depois o vermelho da brasa, até ficar tudo cinza, ela saiu de cena. 

    Agora parece que estou revendo esse filme. Um filme em que sinto minha mãe muito calada. Também não sou mais uma menina. Tenho filhas e filhos. Outra geração. Não olham ou cuidam, ou convivem com os idosos. Mas ela mora com minha irmã e temos ainda o costume antigo da família. Nos reunirmos à tarde para tomar um chimarrão e conversar.

    Como eu percebo agora, minha mãe não é mais a mesma; tornou-se coadjuvante.

    Fala pouco, como se não valesse a pena falar; como se ao calar-se ela ficasse melhor.

    Como se não houvesse nada a ser dito.

    — Que tá pensando, mãe?

    — Nada, ela responde.

    O médico nos aconselhou a estimular a conversação.

    Minha irmã Laura leva um vestido para pedir uma opinião, eu falo onde vamos no final da semana, e vamos colocando assuntos para mantê-la tagarelando com a gente.

    Eu a conheço bem. A busquei e levei ao médico  por muitos anos. E sabia quais assuntos a interessavam. Não falava de pessoas. Falava de mundo, de histórias, de imaginação. 

    Sentada na sala de costura de Laura, dando seguimento à profissão da terceira geração de mulheres da família, buscamos assuntos.

    — Mãe, já pensou as 24 horas serem só dia?

    — Eu gostava. 

    — É mesmo, mãe?

    — O dia é bonito, tem clareza, tem luz própria. Noites não me atraem. Escuro, barulhos característicos como o dos grilos, das corujas, os latidos dos cães no silêncio da escuridão. O amor dos gatos com miados, uivos, lamentos. Os desiludidos, bêbados, ou miseráveis saem mais à vontade no escuro da noite. A noite se dispõe às lembranças tristes, saudades longínquas, arrependimentos.

    Elas não têm belezas que possam tocar a alma. Quem diria da noite: “vamos ali ouvir os grilos”. Ela falava já com a voz mais baixa, como quem conta segredos.

    — Verdade, respondeu Laura, entre uma arrancada e outra nos pedais de sua máquina de costura.

    — As noites de luar são bonitas. Nos campos, então. Mas duram pouco. O dia convida a banhos de rios, passeios em jardins, pegar frutas em pomar e um mundo de coisas prazerosas. Poderia durar dias, e todos iam achar o que desfrutar. 

    E mesmo nesse dia eterno,  haveria horas certas para as pessoas dormirem. Vocês acham muito estranho? 

    Não respondemos. Era a vez dela falar. 

    — As noites, elas que me perdoem, continuou minha mãe, nunca me deram nada de bom. Só dormir, quando já não tinha mais crianças pequenas. Sem remédios, quando dormíamos o que diziam ser o sono dos justos. Ou o cansaço com a lida.

    — Até parece, digo, para provocar uma reação. 

    — Como se eu não conhecesse bem a senhora.

    — Ultimamente a senhora não quer mais nem sair. 

    Apenas ganhei um olhar gélido. Não retruco. Ela tem um gênio forte e não tenho a intenção de provocar briga.

  • Chupa que é de uva

    Ainda não me recuperei da moda do bebê reborn e já tenho que lidar com outra tendência que está bombando no momento: o uso de chupeta por adolescentes e adultos para diminuir o estresse e a ansiedade. Quanto aos adolescentes, entendo que a fase é de transição, e, por isso mesmo, sujeita a instabilidades e tentativas furtivas de não perder o trono da infância. Porém, quando penso nos adultos, o que me vem à cabeça é o tanto de manobras que as pessoas fazem para não enfrentar seus fantasmas num processo de análise. Vale todo tipo de proposta, das milagrosas às escandalosas. Tanto assim que o movimento vem ganhando adeptos no mundo todo.

    Os bebês reborn que se cuidem, pois correm o risco de perder o acalanto oral para seus pais que, em breve, serão apenas seus irmãos, tamanha a regressão.

    Sei que cada um tem o direito de fazer o que quiser, defendo a liberdade de expressão e de escolha, mas me questiono se essas novidades são apenas gozações passageiras ou se estamos diante de um pedido de socorro, de um grito coletivo a bradar que a vida adulta, tal qual temos preconizado “hiper produtiva e monetizável” é insuportavelmente chata e deprimente.

    Eu que usei chupeta até os onze anos, conheço bem a delícia apaziguadora que a danada oferece. Lembro dela com carinho e, assumo, com saudade também. Contudo, não consigo me ver usando o acessório novamente. Parece esquisito, deslocado no tempo. Será que é algum tipo de bloqueio? Não sei… talvez já seja pesado demais imaginar que, daqui a alguns anos, as fraldas estarão me rondando.

    Quero acreditar que tudo não passa de uma brincadeira. Ou quem sabe os novos tempos, com sua engenhosidade, tenham inventado as férias de fase inspirada nas crianças pequenas que se divertem usando os sapatos dos adultos. Nós nos regozijaremos pegando as chupetas delas.

    Eu só entrarei nessa se puder, além da chupeta, andar por aí carregando meu paninho encardido. Não só isso! Faço questão de uma retratação pública a respeito da existência de Papai Noel. Sua morte foi meu luto mais difícil. E, por favor, Fada do Dente, remunere melhor o dente dos aposentados.

    Volta a angústia: e se tudo isso for um sinal de que a nossa inabilidade para lidar com as frustrações, medos e fracassos está nos encarcerando no colo da infância? E se estamos todos adoecidos da modernidade ultra hightech?

    Nas férias de fase, nossos joelhos não se ralam nem têm cicatrizes; por outro lado, não desfrutaremos do riso que vem com o vento no rosto de quem aprende a correr.

    Eu preciso de ARte. 

  • Sonhos Juvenis

    Eu queria amar! Quem manda ficar lendo livros românticos? Não devo culpar os escritores. Não eram heroínas épicas, grandiosas, orgulhosas, princesas.

    Nem moças descendentes de famílias tradicionais, preparadas para encontrar namorado entre os filhos dos frequentadores das altas rodas, da elite, ou filhos de amigos poderosos como os próprios pais, também. Casamentos entre iguais, diriam as interessadas mães.

    Se minhas heroínas fossem essas, eu não teria criado falsas ilusões. Embora eu deva confessar: lia tudo que me caía às mãos!

    Tanto é que sei distinguir as grandes heroínas das moças comuns. As do meu universo, eu via, conhecia, mesmo que fosse só de passagem, e, de certa forma, eu me assemelhava a elas.

    Colegas de escola, filhas de senhoras conhecidas, de donos de lojas, de pessoas a quem se dava bom dia ou boa tarde, e diriam: passou aqui a filha de fulano, ela já é uma mocinha.

    Esse era o mundo ao qual eu pertencia. Fisicamente.

    Porque, em pensamentos, eu vivia grandes amores, conhecia novas cidades, era razão de disputa entre rapazes. E o herói sempre se apaixona pela mocinha. No caso, eu.

    Sonhava com o amor selvagem, sensual, e a imagem de quem seria o homem amado mexia com meus sentidos.

    — Onde você está com a cabeça, Anita?

    — Oi, professor, em nenhum lugar. Estou aqui.

    — Não respondeu à chamada. Podia te dar falta.

    — Desculpe, professor. Presente!

    Não respondia por estar viajando… em suas mãos, em seus braços, nos músculos da perna que se adivinhavam debaixo do linho branco de sua calça.

    “Que homem bonito”, pensava.

    Sorte tem a prof. Marta em ser casada com um homem desses.

    De onde saíam esses pensamentos? Ah, com certeza, dos hormônios em rebuliço em meu corpo de adolescente.

    Mas a principal fonte era dos livros de amor que passavam de mão em mão entre os colegas da escola.

    — Trouxe?

    — Calma, vou terminar no recreio e te dou. Não consegui ler ontem. Minha mãe estava na costura, como sempre, mas meu pai ficou em casa.

    — E eu tenho só dois dias para ler. Sábado meu pai chega da fazenda.

    — Tá bom, tá bom.

    Na verdade, a forma como despertamos para o amor, a paixão ou o que chamamos de fraquezas humanas não faz a menor diferença.

    A natureza e o homem, esses têm suas próprias ordens e leis. Quem poderá definir onde começa um ou outro?

    Bom mesmo é lembrar-me da época. Dos devaneios. Da imaginação. Oh, juventude! Como o viver era leve!

  • Oração para os fortes

    Ultimamente tenho pensado na diferença entre maturidade, alienação e libertação existencial. A reflexão surge com base nas situações em que algo nos incomoda, aborrece ou se mostra absurdo, e, por diferentes justificativas, silenciamos ou entubamos em nome do perdão. 

    Como saber se essa atitude tão altruísta tem poder digestório ou infeccioso?

    Uns dizem que amadurecer é escolher as lutas. Outros afirmam que calar para evitar desgastes é uma forma de superioridade. Há quem pense que toda evolução espiritual depende da irrestrita aceitação das falhas humanas. 

    Será que é mesmo assim? 

    E se amadurecer for se permitir não tolerar, resignar ou recomeçar? 

    E se evoluir for romper tratados que ameaçam as fronteiras da paz interior?  

    Uma coisa é certa, evoluir é jamais desistir do que nos habita no íntimo. Mesmo que isso signifique seguir em frente, aparentemente, só. 

    Atentemos para as armadilhas sórdidas da aceitação. Algumas coisas são inegociáveis. Perdoe-se quando não puder perdoar.

  • Existir ou Exibir?

    Em tempos de redes sociais, todos sabem de tudo.

    Há os que entendem mais de determinados assuntos e se tornam mentores ou especialistas disso e daquilo; os que vendem cursos, os que criam clubes de assinaturas para seguidores fiéis, os novos ricos ensinando como ser um “farialimers”, os ricos tradicionais mostrando a arte de se exibir com classe… e por aí vai.

    Essa é apenas uma das muitas faces do mundo virtual.

    No outro extremo, existe a antítese: perfis que promovem festivais de conteúdos inacreditáveis.

    Partem do ridículo ao nonsense, passando pelo bizarro, causando vexame e a famosa “vergonha alheia”

    De maneira informal utiliza-se o termo “brain rot” para designar aqueles que são contumazes e até viciados nos conteúdos dessa categoria. É como um “apodrecimento cerebral”, pois não acrescenta nada ao intelecto e este se habitua ao conteúdo repetitivo e sem esforço mental, uma vez que a intenção de quem o produz é chocar, provocar, chamar atenção com o inacreditável, com o esculacho.

    E nesse jogo de aparências, quem realmente vive? Quem apenas se exibe?”

    Nos dois exemplos, a mola propulsora é a mesma: exibir, ver, ser visto.

    Alimentar-se de views, de seguidores, de patrocínios, de fama.

    Ensinar, aprender, fazer dancinha, engolir larvas… qualquer ideia maluca serve, desde que gere cliques.

    O mundo virtual é impalpável. Inodoro. Descartável.

    Com um clique, algo ganha o mundo, acumula milhares de seguidores, fama, patrocínio, dinheiro. E, da mesma forma, some da cena. Pode ser cancelado, esquecido, substituído. Deixa de existir.

    Isso dá uma sensação de impunidade. Ou de liberdade absoluta. Ou de qualquer outra coisa que você possa imaginar.

    Porque no mundo virtual, não há limites.

    Ou há?

  • O famoso ninguém

    Andar pelas ruas de Paraty, nesses dias de FLIP, tem me feito pensar na realidade farta que o anonimato esconde ou sufoca.

    Quantas histórias caminham na gangorra dessas pedras? Quantas dúvidas, decepções e sonhos se escondem nas frestas desse chão?

    Da ponte, vejo o movimento de toda gente. Um ir e vir de esperanças, desistências e vaidades se misturam ao cheiro de pipoca, espetinhos e algodão-doce. Poetas, artistas e músicos oferecem sua arte, clamam por atenção, enquanto o povo passa pronto para reverenciar os que já estão abençoados com o sucesso, que uns saboreiam e outros já não suportam mais.

    Quantas histórias, letras e poemas são sepultados antes de ver a luz do mundo? Quem tem o poder de decidir entre os que serão salvos, batizados e conduzidos ao trono do reconhecimento e os que serão sacrificados?

    Sigo para o auditório central sem saber direito se trago comigo dois natimortos ou se meus bebês ainda estão na incubadora, esperando por quem possa salvá-los com o olhar.

  • Órfã

    Somos inseparáveis. Sabe aquela dupla que passa a maior parte do tempo colada? Pois é, somos assim – tipo queijo com goiabada –, um não pode viver sem o outro. Fazemos tudo juntinhos, uma mão lavando a outra, parceria que já vem de longa data.

    Seja de dia, seja de noite, você é meu companheiro, está ali firme sem reclamar, topando qualquer parada.

    Às vezes penso que sou dependente demais de você. Mas, depois, penso um pouco e vejo que você também não tem vida independente, está sempre esperando a hora de entrar em cena comigo. Até pensei em substituir você por outro, mas não seria a mesma coisa.

    A procura não é de sua iniciativa, e até entendo o porquê, sendo você quem é: generoso, sempre ali sem reivindicar nada para si, a não ser a minha companhia. Cá entre nós, tenho que confessar que me conforta saber que está sempre pronto, disponível, aguardando a hora em que vou te buscar.

    Enfrentamos os maiores desafios juntos; somos ágeis e rápidos nas tarefas para depois, exaustos, podermos sentir aquela água quentinha e o banho de espuma reconfortante. O perfume desse momento é inesquecível e me faz querer ficar ali relaxando por horas.

    Por isso mesmo, não consigo aceitar sua ausência nesses dias em que vim para a praia. A falta que está me fazendo é insuportável! Estou de mau-humor, reclamando de tudo, preguiçosa, e às vezes me recuso até a levantar do sofá, alegando uma dor de cabeça, para não ter que encarar o trampo sozinha.

    E o pessoal não perdoa, está fazendo a maior bagunça. A festa rolando a noite toda, o bar repondo os copos de bebida sem trégua, aperitivos, jantar e até café da manhã amontoando. Alegria total e eu aqui, sozinha, cabisbaixa, só pensando no que viria depois, se você estivesse comigo.

    Tremo ao pensar no resultado: aquele monte de copos para lavar, roupa para colocar na máquina, banheiro cheio de areia para limpar… Como posso encarar tudo isso sozinha?

    Me sinto órfã quando você não está comigo! Como pude esquecer você, meu parceiro fiel, meu par de luvas de borracha?!

  • O poder que ela tem

    Estava num salão de beleza, fazendo a unha e papeando com minha amiga e manicure, quando fui fisgada pela conversa que se desenrolava ao lado.  

    Uma senhora de 76 anos relatava que um rapaz de 38 estava lhe assediando na academia. Segundo ela, o bonitão de cavanhaque fazia questão de abraçá-la sempre que a encontrava. Além disso, ela também notava que o marombado a acompanhava com o olhar aonde quer que ela fosse. A cliente em questão se dizia indignada com a situação porque, embora o rapaz fosse muito bonito, educado e simpático, ela era casada. “O que as pessoas iriam dizer?” 

    Estava disposta a dar um fim nisso:

    — Melhor você se afastar de mim, sou casada e não quero fofoca com meu nome. 

    Quando parecia que o assunto do flerte iria morrer, ela retomava o desabafo.

    — Se eu estou na esteira, vejo ele me olhando. Quando ele chega na academia, vem logo me abraçar. Eu abraço por educação, mas isso tem que acabar. Sou casada. 

    Ao seu redor, um silêncio acompanhado de olhares duvidosos. 

    À boca miúda, os comentários davam como certo o delírio da coroa assanhada. Alguém chegou a comentar baixinho:

    — As velhinhas adoram inventar que estão sendo paqueradas, minha avó era assim também.

    A outra disse:

    — Tem muito garotão que faz isso para se dar bem. 

    Eu, de minha parte, fiquei pensando:

    “Por que é tão óbvio para todos que essa é uma história impossível?”

    Isso não seria uma confirmação clara da desvalorização que o envelhecer impõe? Uma constatação dura de que a beleza dos corpos é um fator determinante para qualquer interesse romântico? 

    Por que é impossível crer que existam homens cuja fantasia seja ser amado, cuidado por uma mulher mais velha? 

    Fato é que eu também, lá no fundo do pensamento, suspeitei que fosse uma ilusão, fruto da necessidade perene de ser desejado por alguém para sentir-se vivo.

    Sendo falso ou verdadeiro o relato, o que se evidencia é: independente da idade, sentir-se cobiçado é força que move, graça que anima, sonho que acalanta os dias do viver.

    Antes de ir embora, a ouvi dizer que pretendia dar uma volta no shopping para comprar umas roupas de academia. Precisava renovar o guarda-roupa. 

    Sorri por dentro. A face da paixão não envelhece. É sempre animada, jovial, revolucionária ainda que tenha 76 anos. 

    Daqui fica a torcida para que ela possa desfrutar um pouquinho mais dessa história, mesmo que seja somente em seu mundo fictício. A realidade, na velhice, já nos esfola o suficiente. Quem sabe essas fantasias sejam uma espécie de unguento? 

    E se for verdade? E se ela é capaz de enxergar além do nosso preconceito cego? 

    Que viva intensamente seja em que mundo for.

    Naquele dia, ela era a mulher mais feliz e reluzente do recinto. 

  • Vira-lata procura homem de raça

    Vira-lata de estirpe procura ser humano de raça. Pode ser branco, negro, amarelo, vermelho, azul, não importa. A “raça” que realmente conta para um autêntico vira-lata como eu é a fibra, o caráter e o afeto que me garantem perfeita harmonia para os próximos 15 anos. 

    Aviso que sei muito pouco de meus ancestrais. Posso ter sido gerado de um cruzamento de pastor alemão com rottweiler, de labrador com boxer ou de beagle com yorkshire. Ou, mais provavelmente, de um cachorro de raça indefinida com uma cadela de raça ignorada. Isso importa? Sim, se você se preocupar mais com a árvore genealógica do que com a índole.

    Esclareço que sou um vira-lata “raçudo”. Fiel, obediente, amoroso, posso dar minha vida para proteger meu ‘dono’, ou melhor, meu companheiro. Qualidades que você dificilmente vai achar num humano, seja de que raça for.

    Mas isso não me torna especial ou de elite. Sou apenas um cão de rua, marginalizado pela sociedade assim como os mendigos, os poetas e os que lutam por um mundo melhor para pessoas, plantas e animais. Há milhares como eu, largados à própria sorte, expostos em feiras de adoção, cedidos gratuitamente a alguma alma caridosa que possa lhe oferecer um lar. Tão iguais na condição aflitiva, mas com cores, tamanhos e aspectos bem distintos para agradar (ou desagradar) todos os gostos.

    Ignorados pelos bacanas que não vacilam em desembolsar 20 mil reais para ter um cachorro de raça pura ou “pedigree”, seja lá o que isso signifique.  Querem um bichinho de estimação para ostentar suas virtudes congênitas a vizinhos e parentes. Exibi-lo orgulhosos como um item valioso de seu patrimônio assim como seu carro importado ou sua bolsa de grife. Escolhem suas companhias como um vinho num cardápio. Criam cachorros como crianças mimadas, entulhando-os com roupas de frio, brinquedinhos caros, ração importada, spas e outras frescuras. Oferendas que o tornam um cão obeso, acomodado, egocêntrico, vaidoso. Quase como um humano padrão. Gente que não se furta a prover toda espécie de paparicos a seu pet, mas não tem “raça” suficiente para abrir mão de uma migalha de suas posses para auxiliar um semelhante necessitado, abandonado como um cão sem dono, matando cachorro a grito.

    Imaginam poder combater a monotonia de sua vida enfadonha cercando-se de cachorros customizados. Ao sentirem-se em depressão e vítimas de outras patologias da “raça humana” clamam a companhia terapêutica de um cão. Desde que “de raça”.

    Não entendo o comportamento desses humanos desumanos que se dizem com “consciência social”, revoltam-se com o flagelo dos refugiados e de crianças famintas. Ficam com olhos marejados e o coração apertado ao assistirem injúrias cometidas por seres humanos contra seres humanos ou contra animais maltratados. Indignam-se com o racismo e a discriminação. Mas na hora de escolherem um companheiro, exigem certificação de procedência genética…

    Gente assim eu dispenso, muito obrigado. Prefiro continuar livre e solto, um vagabundo sem dama, perambulando pelas vielas da periferia e das pequenas cidades, fugindo da carrocinha e da hipocrisia, junto com outros da minha “raça”.

    Animais não têm preconceitos nem cometem crueldades. Cães ‘de raiz’ como eu só querem viver e deixar viver, ser felizes e levar felicidade àqueles que os acolhem.

    Não tenho grandes exigências, sou de fácil convivência, inteligente, aprendo regras com facilidade e ajudo a proteger a casa de inimigos e de tristeza. Estou à procura de algum humano com bastante raça e com qualidades nobres como as de um vira-lata para iniciarmos uma amizade duradoura e gratificante para nós dois. Mas não estou à venda. Basta me levar para casa.

  • Calendário

    E lá vamos nós para mais um dos dias “disso” ou “daquilo”, que não conhecíamos, mas que brotam do calendário com a maior certeza.

    É dia do beijo, dia do abraço, dia do irmão, dia nacional do homem (15 de julho).

    Há dias que eu aplaudo.  Sem trocadilhos. Entendo que são mesmos necessários, que devem estar marcados nos calendários, como uma forma de lembrar a importância do que se comemora. 

    Dou como exemplo o dia 13 de novembro. Adivinhem de que é? Dia Mundial da Gentileza!

    Sim, e gentileza precisa ser comemorada, lembrada e, sobretudo, praticada.

    O bordão “gentileza gera gentileza” precisa ser real, devia mesmo circular entre as pessoas. Podia “pegar”, como se pega resfriado, bastava passar perto, estar no mesmo ambiente.

    Exagerei? Pode ser…

    Retrocedo. Serei gentil, com minhas ideias…

    De todo modo, penso que a gente devia contabilizar, anotar, conferir as demonstrações gentis. E copiar sim, imitar, fazer igual, introjetar, tornar um hábito. 

    O mundo ficaria bem mais ameno, a hostilidade seria a exceção, e quem sabe o “dane-se” entraria em extinção.

    Então, senhores, vamos proclamar mais o que é ameno ao espírito, o que nos dignifica como seres humanos e nos coloca na dimensão de pessoas afáveis e cordiais.

    Eu tenho certeza de que essa prática tem o poder de desarmar muitos gatilhos…

    Ahhh, em tempo: hoje, 26 de julho, é o Dia dos Avós.

    Sendo assim, caro leitor… receba o meu cordial bom dia!

  • A pedra do caminho pode ser um trampolim

    Hoje minha intenção era escrever sobre as mil vestes do amor. O interesse pelo tema surgiu a partir de uma conversa entre amigas. Falávamos sobre as possibilidades e particularidades das relações amorosas na fluidez da modernidade: amor livre, relações abertas, trisal, entre outros. Acontece que, como já nos alertava Drummond, no meio do caminho tinha uma pedra. De minha parte, acrescento que a pedra é estadunidense. Ao chutá-la, perdi o foco, o intento e acabei mudando o rumo da prosa. 

    Pretendia abordar o amor, mas fui atravessada pela necessidade de falar sobre exploração, chantagem e disputa de poder nas relações, sejam elas amorosas ou comerciais. É curioso e cansativo perceber que quase nunca se pode relaxar no trato com o outro. Uma espécie de vigília constante das fronteiras se faz necessário. Tudo isso porque, se o outro percebe insegurança, dependência emocional ou financeira ou amor incondicional, em geral, faz pouco caso, abusa e, muitas vezes, viola com escrotidão regras indispensáveis ao bem-viver. 

    Isso se aplica a todo tipo de relacionamento, seja entre pessoas ou nações. No final das contas, o que está em jogo é o desfile de um narcisismo estéril vestido com um casaco de pele feito de perversões.

    Basta que um tenha vantagem, recursos, armas e importância para começar o jogo covarde de quem acredita possuir as melhores cartas.

    É ali no altar dos que julgamos fortes, geniais ou insubstituíveis que o amor-próprio sucumbe, a cabeça abaixa e a morte lenta da autoestima começa. 

    O amor-próprio, a demarcação dos territórios do Eu, do que é meu por direito, é o único tratado que não podemos permitir que fraqueje.  

    A soberania da existência, a independência do ser ou de uma nação é inegociável. 

    Sem trégua, sem papo, sem chance de colocar quem quer que seja acima de nós a ponto de validar a tirania seja de quem for. 

    Lutemos por relações de respeito, colaboração, igualdade de direitos e parceria. 

    Façamos das tentativas de vigarismo, de abuso, de extorsão um trampolim para a liberdade.  

    Sinto muito, no meu EU não cabe a invasão megalomaníaca de um A. 

  • Semente, Flor e Fruto

    Nossos pais são os nossos educadores natos e a escola nos ensina a ler, ter cultura, cidadania, socializar. Esse é o pequeno mundo das crianças. 

    Já a literatura distrai, ensina e forma a pessoa que nos tornamos.

    Ler amplia o horizonte; sem sair de casa interagimos com pessoas diversas, conhecemos países e outros continentes, somos colocados frente a frente com dilemas, vivências e exemplos de vida. 

    Ao elaborar questões existenciais, vivenciar as angústias, os erros e dúvidas dos personagens, tanto dos vilões quanto dos heróis, vamos forjando a nossa própria personalidade.

    Tive a sorte de nascer em um lar improvável: um homem culto e uma mulher simples e guerreira. A noite e o dia, o sol e a chuva.

    Meu exemplo de vida era ver minha mãe em sua luta diária : muitos filhos, dificuldades, poucas perspectivas de mudança. E meu pai, na batalha para pôr o pão na mesa.

    Foi dali, daquela família, que eu saí para o mundo.

    Não pronta, mas com roteiro e bagagem.

    A mim cabia ter coragem.

    A natureza e a juventude seguiram o curso natural da vida. Tão natural que, ainda adolescente, engravidei e me casei aos 16 anos.

    Me culpei, nos castiguei…

    Casamento às pressas, desengano aos poucos.

    Cenário pronto para repetir o ciclo de vida da minha valorosa mãe. 

    Mas eu tive mais do que ela.

    Conhecia o mundo através dos livros. Sabia que heroínas não se fazem sem audácia e sem lutas.

    E eu era uma delas, pois sentia, com uma certeza febril, que era semente, flor e fruto. Mesmo que no íntimo houvesse sustos e medos ainda desconhecidos.

    O estudo e o amor pelos livros me deram conhecimento e condições para saber que meu destino podia ser melhor.

    O espírito, grávido de emoções… a vida exigindo força e vigor.

    O equilíbrio incerto e os desafios áridos. 

    Estudar, lavar roupas, quatro filhos , ajudar nas tarefas, fraldas nos varais como bandeiras brancas ao vento, vacinas, piolhos, resfriados e espinhos no pé, estudar, pesquisar, ler, cumprir prazos, apagar a luz, cair na cama e dormir. 

    Heroínas diversas, bandidas, distintas, rasteiras, rameiras, donzelas e santas. Centenas delas, madrugada adentro, à luz de um lampião.

    Onze anos.

    Planta rasteira. Flores. Frutos.

    Filhos criados, primeira infância vencida, segundo grau completo, faculdade, concurso, liberdade financeira.

    Desistir? Pensamento de momentos…muitos!

    Resiliência, teimosia, orgulho, fé… constantes, fortes, intensos. 

    Juventude, saúde, corpo jovem e forte. Determinação, “estofo moral”, vontade férrea. 

    Viver e vencer exige gritos e não admite sussurros.

    A audácia, a valentia, o movimento se sobrepõe; o sapo é engolido.

    A literatura clareia a mente e preenche o coração.

    As dúvidas e respostas norteiam a jornada.

    A vida segue…

    Sentimentos diversos, “cãs prematuras”, décadas fugazes, lembranças esmaecidas, tristezas esquecidas, alegrias conquistadas, família, amigos, filhos, netos, leitores. 

    Escrevo…As linhas retas são mestras, e nas entrelinhas a riqueza dos espantos genuínos, constatações estranhas e descobertas surpreendentes.

    Sigamos! Ainda há muito a ouvir, falar e dançar. Até que desça o pano, somos os atores deste espetáculo chamado vida! 

  • Direção Defensiva

    Uma pesquisa realizada na Universidade de Viena, com sapos comuns (Bufo-bufo), conseguiu registrar um comportamento curioso e inusitado. As sapos-fêmeas, diante da aproximação e assédio de machos indesejáveis e insistentes, se fingem de mortas. 

    A estratégia chamada tanatose é uma reação extrema a situações de estresse ou perigo. Que danadas…não julgo. Sabemos muito bem o quão estressante pode ser um homem querendo transar na hora do sono, da novela ou da leitura. Todavia, no nosso caso, talvez a tática seja menos exaustiva, porque podemos apenas alegar enxaqueca ou cólica. Já as nossas amigas batráquias precisam ser mais radicais. Quando tocadas por pretendentes rejeitados, enrijecem o corpo, deitam de barriga para cima e param de se mexer até que o insistente se afaste totalmente. Com esse comportamento evitam o acasalamento forçado. 

    Danadas…

    Muito embora possa parecer que a vida das sapos-fêmeas é mais difícil do que a nossa, já que não podem apenas alegar cansaço, nós, mulheres, além de lidarmos com uma demanda sexual de alta frequência, ainda somos cobradas a ter iniciativa, demonstrar interesse, desejo. Isso porque os homens não fazem ideia da distância que pode existir entre o apetite deles e o nosso. E mais, desconhecem a importância de um enredo, uma trama, um romance ou um suspense para fazer o motor ligar. Para a maioria deles, o esquema na estrada é dirigir em alta velocidade. Pisar no acelerador e bum! Chegou. Para nós, muitas vezes, admiramos a técnica do siga e pare. O passeio a 60 km/h de janela aberta. Mas não, eles não querem perder tempo admirando a viagem, não têm paciência com engarrafamento e ignoram os sinais.

    A desavença começa aí. Toda mulher tem uma logística de trânsito para liberar acesso a suas estradas. Mas os machos-alfa querem posar de bons motoristas só porque dirigem qualquer veículo. Acontece que nós e as sapos-fêmeas conhecemos as táticas da direção defensiva, embora os homens confundam com direção passiva. 

    Qual a mulher que nunca ouviu: “Você não tem iniciativa, nunca me procura”?

    Qual a mulher que nunca respondeu em pensamento: “Eu só procuro o que quero encontrar”?

    E que não nos acusem de frígidas. Não somos! Queremos motoristas bem treinados, conhecedores dos desafios da estrada. Cautelosos. Que saibam usar os faróis, a lanterna, os espelhos. Controlem os pedais. Carro manual não é automático.

    Aprendam de uma vez por todas que, quando a placa PARE é levantada, ela deve ser respeitada. Caso contrário, não hesitaremos em utilizar: “Cuidado, ANIMAIS NA PISTA.”

  • Frio com Memórias

    Mãos enregeladas, dedinhos roxos de frio, boca seca e gretada, olhos lacrimejando… Que frio!

    O assovio do vento, misturado ao fungar dos narizes, soma-se ao barulho das vozes tagarelas dos valentes meninos e meninas que dobram a esquina correndo, apressados para terminar o percurso ao avistar a grande escola. Entram aos atropelos!

    No inverno, a fila do pátio é dispensada. Cada um segue direto para sua sala e acomoda-se em seu lugar. Acalmado o burburinho, abrem-se os livros. Começa a aula e o tempo passa rápido, principalmente para os que venceram o caminho a pé, pois chegaram na energia do percurso.

    Esses são a maioria. Mas há também os que chegam de carro, vestidos com casacos de náilon, toucas grossas e luvas coloridas. A escola é pública, mas tem prestígio. Imagine só: há alunos que sequer precisam fazer o ano extra preparatório para a admissão ao curso ginasial!

    Nós pertencemos à classe baixa. Nossos casacos são de flanela; a mãe improvisa lenços na cabeça, ergue a gola das camisas e faz o melhor que pode dentro dos seus parcos recursos.

    Mas o melhor mesmo é a hora do recreio! Seguimos em fila, da sala até o refeitório, onde a dona Ana já nos espera com os caldeirões fumegantes. É o lanche dos menos “favorecidos, os pobres mesmo. Leite em pó, bolachas, mingau de fubá de milho.

    No recinto, noto a pilha de produtos, todos com o emblema do governo e de uma tal “LBV”. Curiosa, leio e descubro que as letras significam Legião da Boa Vontade. Sei lá o que é isso… A fila do lanche anda rápido. Recebeu seu quinhão? Pode sair para o corredor, onde bate o sol.

    Isso tudo é passado. Mas que passado glorioso! Éramos muitos irmãos. Sabe o que isso significa? Nós, treze meninos e meninas, mais os primos, os vizinhos, os afilhados, todos indo à escola, por direcionamento dos pais, sem nenhum incentivo de bolsa isso ou aquilo, sendo  alfabetizados, cumpridores de horários, respeitosos com professores e funcionários, tendo o estudo como a principal herança que nos prepararia para a vida! Havia dificuldades, com toda certeza, mas eu sempre escolhi e escolho ver o lado bom da vida! 

    Mas isso foi outro século. Outro tempo.

    Hoje, os meninos vestem moletons de marca, aquecem-se com casacos térmicos, têm lancheiras recheadas e celulares caríssimos. Chegam de carro, ouvem música nos fones e fazem selfies antes de entrar na escola. Nada contra! São as conquistas e o conforto que os pais podem proporcionar.

    Mas, às vezes, fico pensando: o que andamos perdendo no caminho?

    Não sentir frio nos pés, não pode também tirar o calor do peito. É preciso que ensinemos o olhar curioso para o mundo, o prazer de um mingau fumegante, o respeito por quem ensina e o orgulho de fazer parte da fila dos esforçados. Os valores parecem fora de moda, como se fossem coisa de outro tempo. Mas eu sei,  e você também deve saber, que foi neles que nos formamos: no respeito, na gratidão, na partilha.

    Hoje, parece que as selfies valem mais do que o ato, o fato. 

    As conversas, as brincadeiras, as interações tanto entre si mesmas, como com a família deixaram de fazer parta da rotina. O automático virou trivial. As memórias afetivas foram substituídas por sensações virtuais

    E talvez seja por isso que o inverno me leva de volta, lá onde o frio nos fazia mais humanos e a simplicidade era uma grande riqueza. 

    E aí? M’bora lá fazer um chocolate quente para a família? 

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