Todos os meus amigos são caretas

  • Todos os meus amigos são caretas

    Todos os meus amigos são caretas. Talvez um só não seja, mas os outros, todos, são. Foi esta frase que, de repente, ao acordar — antes mesmo do café da manhã —, vim correndo aqui anotar.

    Nenhum amigo meu bebe, fuma; nenhum é notívago, folião de carnaval. Não tem, sequer, um que pense fora da caixa.

    Certa vez, uma amiga minha — que já é avó e tem filhos grandes — foi comigo a um show da Virada Cultural, na Praça 7. Tinha uma banda independente tocando blues, gente tomando cerveja, amigos, homens e mulheres paquerando.

    Até que, no meio de todo mundo, havia um casal se beijando.

    Era um beijo na boca, longo, de língua, demorado, aproveitando o embalo da canção favorita. Para mim, parecia um espetáculo belíssimo, aquele casal.

    Mas minha amiga virou pra mim e disse:

    “Que necessidade desse beijo de desentupidor de pia na frente de todo mundo?”

    Eu quis olhar pra ela e dizer:

    “Poxa, você é careta demais. Para, que tá feio.”

    Eu quis, mas não disse.

    Eu amava demais aquela querida que, além de ser uma cronista de mão cheia, inspirou as minhas primeiras. Ela tem, até hoje, crônicas manuscritas, deliciosas, que jura que um dia vai digitar e colocar num livro.

    Quando a gente marcava de se ver, há algum tempo, ela tinha uma frase que eu adorava:

    “Tô levando uma crônica aqui debaixo do sovaco.”

    Apesar de rir um pouco do jeito dela, eu sempre adorei aquela gargalhada — e a escritora que ela é.

    Outro amigo meu é músico, dá aulas de violão, tem CDs independentes e, no meu último aniversário, eu falei:

    “Você é meu cantor favorito.”

    “Depois do Agnaldo Timóteo, né?”, ele brincou.

    Ele dá tanta aula, faz tanto show, que a gente custa a se ver — mas, que cara maravilhoso, quando dá certo.

    De vez em quando, no centro, a gente marca só pra sentar e ver uma aula de capoeira, ali na Praça 7. Outras vezes, sentamos no pátio de uma igreja católica e ficamos batendo papo; já, em outras, aproveitamos shows na praça, teatro.

    Que gargalhada fascinante.

    É um cara que entende tanto de MPB que, se deixar, a conversa dura vinte e quatro horas — de tão gostosa.

    Mas é o pai da caretice.

    É do tipo que acha que a novela na TV tem “sarro demais”, que está ensinando o que não deve pras pessoas. É do tipo que vai pra cachoeira no carnaval, fica se guardando pra garota ideal, não vê necessidade de sarro, em público, de casal algum.

    Tenho um amigo da faculdade que, sempre que eu voltava de uma balada — com os olhos sonolentos e sujo de batom —, dizia coisas como:

    “Imagino a quantidade de germes e bactérias sendo transmitidos nesse tanto de gente se beijando na boca.”

    Por fim, tenho um outro amigo que, quando me acompanhou numa boate, me falou algo que, sempre que me lembro, fico me desmanchando, em lágrimas, de tanto rir.

    Segundo ele, antes da boate abrir, “um grupo de aidéticos espetou uns alfinetes no banco, pra espetar a gente e contaminar de propósito”. Eu fico imaginando a cena: a boate abrindo mais cedo, não pros frequentadores, mas pra esse suposto grupo entrar primeiro e deixar tudo preparado pra espetar a bunda dos frequentadores quando eles chegassem.

    Ele se assusta um pouco com a noite, se assusta um pouco com a boemia — mas, pelo menos, vai. Pelo menos, me acompanha.

    Este, apesar de falar umas coisas bizarras, de vez em quando, é uma das melhores companhias pra uma boate, um bloco de carnaval.

    Convivo, o tempo todo, com gente que fala que “os poemas de Drummond são machistas”, que “Vinícius de Moraes tem gatilhos”, que dorme cedo, vive fazendo regime, censura quando vou beber, dançar a noite inteira ou comer doce depois do almoço.

    Mas, quer saber?

    Sempre achei fascinante quando duas pessoas, de personalidades opostas, se tornam amigas.

    Não sei quem criou a ideia de que, pra serem amigas, duas pessoas precisam gostar do mesmo tipo de música, votar no mesmo candidato, serem religiosas ou serem dois amigos notívagos.

    Às vezes, o que me atrai numa pessoa é, justamente, aquilo que eu não sou.

    Então, é bom quando alguém, de certa forma, nos leva a enxergar o mundo de um jeito diferente.

    Um dos meus cronistas preferidos da vida se chama Carlos Herculano Lopes e, numa entrevista, ele disse uma frase que me marcou. Era assim: “Por mais simples que uma pessoa seja — ou por mais diferente que ela seja de você —, todo mundo sempre sabe alguma coisa a mais do que você.”

    E eu, ao frequentar a noite e gostar de bloquinhos de carnaval, sei alguma coisa a mais do que o meu amigo músico, que toca na missa; mas o meu amigo, certamente, sabe uma infinidade de coisas a mais do que eu, a minha amiga cronista, avó e com filhos criados, certamente sabe uma infinidade de coisas a mais do que eu, e o meu amigo da faculdade, certamente, conhece coisas e tem saberes que eu, sinceramente, não tenho — e, talvez, nunca terei.

    Por isso, talvez, seja assim que a gente se torne tão amigo.

    Porque ter alguém que discorda da gente e vê o mundo de outra forma mostra que a Terra não gira ao nosso redor.

    Por isso, uma das coisas mais fascinantes que eu já vivi é sentar com um amigo, pra tomar um café, e dividir histórias de vida completamente diferentes entre si.

    Talvez, por isso, eu ache a amizade uma das coisas mais bonitas da vida.

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