
A eternidade possível
Morreu o meu primeiro beijo. Junto com ele foi enterrada uma fração da minha eternidade. Memórias dos medos compartilhados, dos sonhos impregnados na pele, do riso frouxo de nossa meninice.
Foram sepultadas as emoções que eu causei, as palavras e gestos que de mim fugiram para morar em sua recordação.
Diante da notícia crua, áspera, concretada na impossibilidade de um adeus, surge como um rito acessível, a crônica, corpo real da palavra sobrevivente do fim.
É através dela que ofereço ao querido Alexandre Guimarães, menino sensível, doce e leal, um pedacinho de eternidade nesse mundo.
Para isso, registo aqui o pequeno poema que ele me escreveu no pulsar da nossa cumplicidade adolescente:
“Você é o índice das coisas maravilhosas O resumo de tudo que é divino.”
Embora tenhamos nos perdido nas vielas do destino, jamais esqueci as palavras desenhadas num pedacinho de papel amassado pelo tremor das mãos.
Desconheço se ele foi feliz, se aprendeu a lidar com o medo de ser quem era, se encontrou o amor que merecia viver ou o que pensou na hora de partir… tudo isso está soterrado sob o Nunca Mais.
Vívida em mim, resta a lembrança do quanto nos apoiávamos para enfrentar a perseguição dos populares da escola (ainda não existia o conceito de bullying).
Nosso primeiro encontro se deu diante da ameaça de uma surra dos mais velhos na saída da escola. Eu, menor que você, segurei seu braço e afirmei: vem comigo! Ninguém vai te bater.
Você, com seu sorriso de crença, ergueu a cabeça e aprumou-se como se recebesse um salvo-conduto. Sua fé foi tanta que me acreditei forte.
Escapamos dos maus e nos inventamos num beijo inaugural para ambos. Feito muito mais de alívio do que de paixão.
Nos tornamos amigos porque precisávamos mais de colo do que de romance.
Agora, diante do luto, só me cabe celebrar a sorte do nosso encontro no tempo que nos precisávamos.
No final, o que se eterniza de qualquer um de nós é o que a palavra pode contar.














Sempre uma ótima leitura. Um momento de profunda e despretensiosa reflexão.