Crônicas

Beijos

Em Belo Horizonte, foliões reclamam: beija-se muito pouco no carnaval atual. Mulheres solteiras, gays, homens desempregados no “mapa da fome do amor” – todos declaram urgência no coração. Não dá para se iludir: você pode sambar na ponta do pé no Bainas Ozadas, curtir a vibe romântica e antiga do beiço do Wando, se jogar no Bloco da Calixto ou sensualizar na Corte Devassa. Mas passar um carnaval sem beijo algum é como um feriado tão guardado cair num domingo sem graça.

Há beijos de vários tipos. Algumas mulheres, fazendo charme, premiam o folião corajoso – ou pela cantada ensaiada no espelho – com uma bitoquinha, um selinho, um toque fugaz de lábios. Outro é o beijo de língua ardente, intenso mas efêmero: o rapaz fecha os olhos em paixão, mas logo se desvencilha e volta pro bloco. Os mais ousados trocam Instagram, telefone, combinam um depois – que pode rolar ou virar ghost. Afinal, o que vale mais: o beijo ou o flerte? O beijo tem gosto de sedução, adrenalina misturada a música, alegria e muita fantasia.

Ah, e tem o beijo transgressor: de padre fantasiado, homem de freira, Homem-Aranha ou  Mulher-Maravilha. Estamos beijando a pessoa ou a imaginação solta na folia?

Mas os beijos escasseiam entre pierrots e colombinas, virando desespero. Gays exigem corpo perfeito e status; mulheres solteiras dizem “não há homem no mercado”; homens reclamam do “jogo duro”. Culpa da pandemia: o Covid trancou o mundo, e desaprendemos o outro. Celular virou melhor amigo – home office, família no Zoom, sexo por câmera. Na volta da folia, ficamos virtuais demais, sérios, até caretas.

Agora, os memes do “placar de beijo” capturam isso genial: foliões desfilam com cartazes irônicos como “Beijos: zero de dez” ou “Meta diária: um (falhou)“, zombando da escassez romântica pós-pandemia em BH e SP – placas de “Beijômetro: menos dois” ou desafios virais no Instagram, como a jovem com “valores” pra beijo, virando hit na folia mineira.

Pra reacender, pensemos em Auguste Rodin, o escultor que eternizou o beijo em mármore: em “O Beijo”, um casal nu se entrega num êxtase fluido, esculpido num bloco único, exposto no Musée Rodin – desejo proibido em pedra. Ou  “A Catedral”, mãos entrelaçadas em tensão erótica, quase se tocando. Contrastando com nosso “placar zero”, Rodin sussurra: o beijo verdadeiro é marmóreo, eterno, não um like esquecido.

Há um lado bom: se tanta gente reclama, é sinal que clamamos pela volta do beijo na boca – na folia e depois. Juntos, chegamos lá. Um bom beijo na boca ainda é santo remédio pros dissabores da vida.

Leandro Alves

Leandro Alves é mineiro. Formado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, a PUC Minas. Como cronista, participou do Jornal Porta Voz de Venda Nova, criou o blog Preciso De Uma Crônica, além de ter publicado também no site OperaMundi. Cinéfilo apaixonado pelo cinema brasileiro, pela MPB, por poesia, Carnaval, sem falar em ler seus cronistas preferidos como Rubem Braga, Carlinhos de Oliveira, Martha Medeiros e Affonso Romano de Sant'anna.

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