
Incomodada ficava a sua avó
Há pouco tempo assisti a uma entrevista do ator Wagner Moura onde ele dizia que vivemos uma crise da verdade. Não há mais certeza ou garantia de que aquilo que se vê, lê, ouve ou se experiencia é real. Tudo pode não ser o que parece ou se afirma. Até o que constatamos com os nossos próprios olhos pode ser falso. A inteligência artificial, com sua produção de imagens e realidades, ao gosto do freguês, atende prontamente à nossa ânsia de completude e tamponamento dos buracos existenciais. Não existe mais falta! Tudo se remenda, disfarça, customiza. Viver, agora, é a arte de forjar. Em segundos, podemos colocar um ente querido, já falecido, na nossa foto de aniversário, formatura, batizado do filho. A morte não é mais definitiva. Também é possível postar foto abraçada com o ídolo (in)acessível, compartilhar os segredos mais íntimos, ou, até mesmo, se apaixonar pelo robô vestido de pessoa. “Nem dá pra notar diferença”, dizem por aí os mais experientes… De cá, me pergunto se o amor sempre foi tão artefato assim e só eu me enganei o achando artesanato.
É assustador pensar que o príncipe encantado/inventado nos meus delírios adolescentes, hoje, teria rosto, olhar sedutor, nome próprio e ainda me faria juras de amor com o timbre que eu escolhesse. Subiu um calafrio de horror.
Nada mais tem garantia ou nos pertence, nem a nossa própria imagem e voz. Não é loucura pensar que com a IA, qualquer dia, posso estar na rede falando e defendendo ideias que nunca pensei ou refuto completamente. A crise da verdade é tão bizarra que li, recentemente, e chequei a veracidade da informação (ação indispensável atualmente), que a Dinamarca avalia conceder aos cidadãos direitos sobre sua imagem e voz para combater as deepfakes.
Isso tudo me assombra tanto que até agora não consegui nem brincar com os famosos filtros na internet ou considerei entrar na moda e fazer harmonização facial. Tenho medo de quem posso me tornar. Sim, porque passando a ser aquela que sonhei ser, mesmo que às custas de ser totalmente outra de mim, o que se construiu por dentro não vai servir de jeito nenhum. Tenho certeza de que, se eu fizer harmonização facial, preenchimento, bariátrica, abdominoplastia e uso de lente verde vou precisar de harmonização emocional e espiritual. Sim, porque para ser outra não poderei ser essa que me tornei. Ah, sei não, talvez perfeita eu me torne insuportável. Melhor deixar como está. Verdade seja dita, eu sou muito apegada a essa que eu reconheço quando me olho no espelho.
Também não vejo jeito de namorar robô. A temperatura do corpo, os pequenos equívocos do cotidiano me conquistam demais.
Vou ficando por aqui. Sei que verdade absoluta não existe, mas ilusão tecnológica não me convence. Deve ser porque não acredito em perfeição ou porque, quando a esmola é demais, eu me belisco.














Você sempre nos surpreendendo com suas cônicas . Parabéns minha amiga, que Deus te abençoe grandemente sua vida e te dê mais inspirações para continuar essa nova etapa da sua vida, nos enchendo de imaginações.🤗🥰