Crônicas

Mano velho

Já não tenho tempo para nada, com oitenta e nove anos. Ele, o dono de tudo, se esvai, mais lento que outrora. Não suporto os achaques e as dores, que me atacam diuturnamente. A velhice é uma covardia, uma falsa esperança. O que posso esperar daqui para a frente? Muita coisa mudou. Minha amada esposa, Salete, se foi muito cedo – mais cedo do que eu previa, com sessenta e cinco anos. Ela, como quase todas as mulheres de sua família, teve câncer de mama. Um pouco descuidada, permitiu que a doença se espalhasse e, por fim, a metástase tomou quase todo o seu corpinho miúdo.

Ela deixou, desde aí, uma lacuna muito grande em minha vida, a ponto de eu abandonar muitas das atividades que fazíamos juntos, de que tanto gostava, como passeios no parque, idas aos bailes, ou mesmo um almoço ou jantar num restaurante de nossa preferência. Como disse Chico Anysio, a morte, a consequência, é uma pena – mesmo eu querendo viver com saúde; doente é um sofrimento desnecessário. Devia me nutrir de ânimo pelos meus netos, mas como posso se estão grandes e mal me dão importância?! Têm seus interesses particulares: um se aventura no cinema, outro na tecnologia, e a mais nova na medicina. Quando eram pequenos, iam para o sítio que tínhamos e amavam ficar brincando colados com o vovô. Íamos à lagoa, fazíamos fogueira à noite, para brincar de floresta; acampávamos para ver o luar e as estrelas.

Tudo isso se perdeu com o tempo. Parece que têm vergonha de andar com o vovô. Maurício, o mais velho, é quem ainda faz algumas coisas comigo, como ir ao supermercado, ao médico ou algo do tipo. Mas faz um pouco a contragosto, às vezes vai à força – noto, sem ele me dizer nadinha. Nem com os filhos posso contar tanto, não pela má vontade, mas porque trabalham demais, e sou a última opção de atenção. Para complicar mais, meus dois filhos não se entendem, depois de uma briga danada de herança, então, quando temos encontros de família, tenho de chamá-los separadamente, em horários ou dias diferentes. Onde já se viu?! O Natal, de que tanto gostava, na época em que estávamos com a minha amada esposa, é agora um momento triste e enfadonho.

Os dois filhos e netos passam rapidinho para dar “um alô” e vão curtir em outras famílias, na casa das sogras etc. Salete parece que agregava tudo, era o nosso elo, porque depois de sua ida à casa do Pai a vida se fragmentou em cacos pungentes, inservíveis. Isso não é viagem de um velho louco, mas, sim, de um velho que não tem tanta força para resistir aos acontecimentos. Veja, pedi tanto que meus filhos se entendessem, que cheguei ao ponto de me desligar completamente dessa arenga, para o meu bem. Que se fodam, falando a sério! Imagine quando eu morrer… Tudo irá pelos ares! É um horror viver assim. Suplico a Deus que abrevie a minha dor. Mas estou seguro de que Deus se esqueceu de mim.

Adriano Espíndola Santos

Adriano Espíndola Santos é autor de “O sussurro cálido da negação”, “Flor no caos”, “Contículos de dores refratárias”, “o ano em que tudo começou”, “Em mim, a clausura e o motim”, “Não há de quê”, “Amparo secreto”, “Viver morrendo” e “Arraia-ralé”. Advogado. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto. instagram.com/adrianobespindolasantos/ e escreve no Crônicas Cariocas às sextas-feiras.

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