Crônicas

Memória é pra quem pode

Eu invejo as pessoas que conseguem lembrar de situações, cenas, casos que aconteceram há anos, sem titubear ou duvidar da veracidade dos fatos. Não sei que tipo de dom essas pessoas têm, mas é incrível observar a forma com que elas conseguem acessar o passado, como se ele ficasse dobrado na primeira gaveta da cômoda. Tenho uma amiga de infância que sabe dizer a roupa que estávamos vestindo no nosso primeiro baile. Minha irmã lembra de histórias de quando éramos crianças que eu não tenho o menor vestígio. Meu filho, de todas as partidas e gols do Fluminense. Essa habilidade não me pertence. Sou daquelas que viaja, anda por todos os lugares e, depois, se alguém pergunta se visitei determinado ponto turístico, de imediato, não sei dizer. Preciso perguntar a quem foi comigo. Por isso, amo tirar fotos. Quando revisito o álbum, recordo exatamente o momento, o lugar, a sensação, tudo. Mas, como uma dificuldade sempre gera alguma facilidade em outro ponto, jamais esqueço daquilo que ouço. As palavras me agarram com toda sua força. Sou capaz de relembrar frases inteiras. E como tudo que é bom, dependendo do ângulo, pode ser ruim também, não esqueço com facilidade uma palavra mal dita.

Até o que escrevo, às vezes, esqueço. Tanto assim que, algumas vezes, leio um texto meu sem perceber que foi escrito por mim. Contudo, o que ouço fica para sempre.

Há pouco tempo assisti no teatro um musical e me dei conta de que sabia cantar todas aquelas músicas antigas, que eu já não ouvia há anos. Descobri que as poucas lembranças que tenho da minha infância e adolescência envolvem a música. A minha família era musical. Ouvíamos de Roberto Carlos a marchinhas de carnaval. Aguardávamos ansiosos pelo lançamento do LP de samba-enredos. Ouvíamos Elis, Bethânia, Gal.

Talvez por isso a memória auditiva seja meu forte. Nos amávamos pelos ouvidos.

Ainda lembro a voz da minha vó.

Soraya Jordão

Soraya Jordão é psicóloga e escritora. Nasceu no Rio de Janeiro em 1968, sob o signo de Virgem. Durante a pandemia, descobriu seu interesse pela escrita. É autora do e-book de contos Histórias que contei pra Lua, publicado pela Amazon, em 2022. No mesmo ano, publicou o livro infantil O plano do tomate Tomé, pela editora Itapuca. Foi finalista do concurso Poeta Saia da Gaveta do Verso Falado (2021) e do concurso de crônicas do Instituto Fome Zero (2022). Recebeu menção honrosa no Concurso Literário Relâmpago Virtual, da FALARJ, em 2023. Seu primeiro romance Ciranda de mamutes foi selecionado e publicado pela Editora Patuá em 2023. Escreve para os sites Crônicas Cariocas e Crônica do Dia.

4 comentários

  1. Doces lembranças….cada um com seus traços… também me lembro do tom de voz e cheiros…

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