Contos

Na parede do banheiro

Mila Cox estava filmando e gravando uma entrevista a que seu parceiro musical Zími estava sendo submetido.

Estavam na sala do apartamento que dividiam no bairro da Liberdade.

Eram cinco horas e sete minutos de uma tarde de chuva e São Paulo estava caótica.

Notícias de alagamentos e quedas de árvores eram a tônica dos noticiários locais.

Fazia tempo que não sentiam tanta satisfação por poderem trabalhar em casa e poderem ficar de boa quando as condições climáticas tornam a cidade inviável.

Moravam no sexto andar de um prédio na Rua da Glória, e o barulho que vinha da rua durante os dias influenciava diretamente no som que faziam.

A entrevista era para um universitário que foi ao show dos Crop Circles em Registro, no sábado anterior.

Era parte de um trabalho para a faculdade de jornalismo que o jovem cursava, e tratava sobre música alternativa.

Crop Circles é a banda formada por Mila Cox e Zími.

Eles tinham piadas internas sobre quando eram chamados para entrevistas.

Cox toca baixo e sintetizador, e Zími toca de pé um kit minimalista de bateria, como fazia Bobbie Gilespie nos primórdios do Jesus and Mary Chain.

Os dois eram vocalistas, alternando as músicas em que cada um cantava.

Eles pagam as contas trabalhando como copywriters.

Nunca davam entrevistas juntos. 

Mila Cox era quem geralmente atendia esses jovens.

Dessa vez Zími aceitou falar, a pedido do universitário, porque no dia do show em que eles se conheceram, o jovem tentou uma aproximação com Mila Cox, e prontamente levou um toco.

Agora ela estava acompanhando a conversa, porque sentia que seria necessário editar o resultado antes que o estudante o mandasse para o professor.

À certa altura, já conversando pela webcam, o rapaz perguntou sobre a motivação de Zími para fazer música com uma parceira musical mais jovem.

(Zími tem quarenta e oito anos, e Mila Cox tem vinte e três. O estudante que está entrevistando Zími tem dezenove.)

A entrevista havia demorado alguns minutos para decolar, mas de repente, com aquela pergunta, o jeito que Zími se mexeu na cadeira, de frente para o computador, fez Mila Cox saber que naquele momento ele começaria um grande discurso, que logo se transformaria numa metralhadora verbal que poderia perder a linearidade e fugir do assunto a qualquer momento, caso sua raiva seguisse aumentando.

Então, enquanto Cox já suspeitava de encenação, Zími começou a falar, quase exaltado:

“Algumas pessoas podem pensar que há algum tipo de glamour a ser alcançado, mas isso não existe. É um trabalho sério, porque é a sua imagem entregue a um público, seja qual for seu tamanho. E se a internet serve muito bem pra divulgar a qualidade artística da pessoa, serve ainda mais para expor milhares de cretinos ao ridículo eterno. A minha vida melhorou depois que montamos essa banda. Melhorou inclusive financeiramente. Mas nós nunca lucramos com a banda. Eu estava bastante falido, e agora provavelmente sou um pobre premium. Provavelmente nunca pagaremos as contas tocando. A questão é que para que a banda pudesse existir, era preciso que eu mudasse de vida antes mesmo de ter uma música pronta pra lançar na internet sob o nome de uma banda. Estarmos vivos também é uma motivação fantástica. Nosso vizinho morreu na pandemia, ainda jovem, sem nunca ter bebido, fumado ou dado um teco. Eu reclamo muito, mas prezo demais pela vida. Tento aproveitar. Mas uma coisa que nunca conheci foi o que chamam de ‘zona de conforto’. As pessoas que podem fugir pra essa zona quando o negócio fica louco não vivem a mesma realidade que eu, e provavelmente a maioria das pessoas não conhecem de verdade essa área. Mas me surpreende que eu ouça tanto falar sobre isso.”

Zími então fez uma pausa em sua fala, deu um trago no cigarro e soprou a fumaça mirando a tela do computador, diretamente na cara daquele jovem. 

Estava imaginando que ele fosse criado pela avó, que tinha cabelo de algodão e fazia uma vitamina para ele tomar antes de ir para a escola. 

Possivelmente teve babá até pouco tempo atrás, e talvez até motorista.

Ele tinha o cabelo penteado e não podia confrontar as expectativas da família, e muito menos expectativas sociais mais abrangentes.

Então, sem falar ainda, Zími fez uma careta ao imaginar que aquele cara deixava a cama desarrumada e cheia de farelo, e a encontraria arrumada quando voltasse.

Ele vestia uma camiseta desbotada da banda Carniça de Bode, a mesma que usou no dia do show em Registro.

Mila Cox sabia que ali Zími, quando voltasse a falar, responderia de uma só vez a todas as perguntas que o estudante poderia conceber, antes que ele perguntasse qualquer coisa novamente.

E então Zími voltou a falar.

“Quando montamos a banda, ela tinha dezoito anos e queria se tornar inesquecível. Eu tinha quarenta e três, e queria mesmo era ser esquecido, e viver do jeito que eu quisesse, muitas vezes pagando caro por escolher esse caminho. Para muito além do gosto musical, o que nos atraiu pra esse projeto de vida e de arte foi reconhecermos um no outro a completa impossibilidade de ser domesticado. Continuei vivendo do jeito que eu quero, embora continue insatisfeito com certas bizarrices , que lamentavelmente existem ou ocorrem independente da minha vontade. A sociedade já estava falida desde muito antes de eu nascer, eu sei que há coisas sobre as quais não temos controle, e que nunca vão mudar. Já tive bandas antes, uma delas antes de existir internet. Eu não tinha qualquer ilusão sobre encontrar glamour nessa atividade. E repito: O que deve haver é um propósito muito mais verdadeiro, porque sendo popular ou não, é a sua imagem que está ali, premeditadamente exposta. As bandas legais ficam soterradas pelo lixo de quem não tem a menor ideia do que está fazendo e nem ao menos gosta de arte. Hoje o perigo de fazer um papel ridículo e virar meme é, ou deveria ser, muito mais assustador do que um fracasso comercial. E para quem já tem algum legado, o esforço pra mantê-lo deve ser tão intenso quanto a vontade que se tinha pra emergir. Um legado pode se tornar algo tentador pra ser vendido, quando se quer resolver o setor financeiro da vida. No meu caso, esse sempre foi o setor que me causou depressão e desespero. A lida com algumas pessoas também pode ser um pesadelo, mas que muitas vezes pode ser remediado justamente pelo dinheiro. Comprando o conforto de um isolamento que só é rompido por quem desejamos.”

Depois disso, combinaram que o universitário editaria a entrevista e enviaria para Zími e Cox, antes de mandar para o professor.

Mila Cox falou para Zími:

“Tem que aguentar mesmo. O cara é parte do nosso público. Talvez esteja logo na imprensa.Isso será editado a fim de cortar partes machistas, por exemplo. Toda semana tenho que conversar com um deles.Esse aí parece mais playboy, tem alguma coisa estranha nele que não gostei.”

Zími falou:

“Ainda bem que se aparecer alguém da imprensa mesmo é você que vai falar.”

Ela respondeu:

“Talvez com eles seja mais fácil e certamente a repercussão será melhor também.”

Cox se levantou e foi fazer café.

Zími então atentou novamente para o barulho que vinha da rua e foi olhar pela janela.

Bateu o cheiro do café e ele ficou feliz, mas não só pelo café.

Ele estava bem alcoólatra, e até os bêbados mais clássicos do bairro falavam isso para ele.

À noite ele beberia com certeza, mas naquela hora ele queria café, porque ainda não estava tremendo.

Ele achou que Mila Cox tinha sorte por beber pouco.

No momento em que ela implicou com o universitário, ela bebia depois do show.

Zími pensou em puxar esse assunto, mas Mila Cox era uma das pessoas que o alertava sobre o abuso de cachaça.

Zími resolveu que beberia na padaria do outro lado da rua, que estava enchendo porque à noite haveria um jogo do campeonato brasileiro.

Da padaria ele podia ver a janela de seu apartamento e isso era muito confortável para ele.

Então, justamente ele, que praguejava horrores apenas por ouvir o termo ‘zona de conforto’, talvez estivesse descobrindo que a sua era a calçada da padaria, onde ficava bêbado e estaria perto de casa.

Zími tomou banho e desceu. 

O porteiro daquela noite em seu prédio era gente fina.

Atravessou a rua, e na padaria ninguém parecia estar com medo de ingerir metanol.

A alienação ali era tão completa, que Zími se sentia livre de qualquer culpa.

Ele estava com a sua caderneta e no dia seguinte estaria entregando à Mila Cox a ideia de uma nova música, que ela concluiria.

Fernando Barreto

Jornalista, escritor desconhecido e redator freelancer.

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