
Nova idade
Nunca imaginei que fosse me apegar. Não fui do tipo dado a animais. Não porque os odeie, mas, sim, porque achava que os bichos não deveriam ser criados como gente e por gente. Tia Beta trata os seus cachorros melhor que muita gente por aí, e isso nunca entendi. Ela tem para além de oito animais, juntando até papagaio, e os cria com roupinha, chazinho e tudo o mais. Achava um exagero sem tamanho, me enojava da paparicada. Onde já se viu dormir na cama com um gato? Pensava e a recriminava. “Titia, isso pode dar alguma doença para a senhora! A senhora não tem mais idade para brincar!”, e queria convencê-la de que lugar de bicho é na natureza. Penso que o trauma veio justamente por conta de meu pai, que criava inúmeros passarinhos silvestres e empestava a casa de gaiolas. Eu me sentia literalmente numa delas. O velho fazia questão de mostrar um a um às visitas que chegavam, e não se importava de deixá-los presos: “Se cantam, é porque estão gostando do tratamento…”, dizia mil e uma baboseiras como essa, para justificar sua sina de sacrificador. Naquela época eu era doido para ter um cachorro, e não conseguia, porque podia interferir nas relíquias de papai, machucá-los, e ele fazia de tudo para subordinar a minha mãe às suas vontades. Mamãe não se importava com os bichos, era indiferente, nem amava nem odiava, meio-termo. Uma vez, com raiva de papai, prometeu dar boa parte dos pássaros, aí o velho se empetecou, disse que era ele e os animais, que, se quisesse, era assim. Mamãe, a partir daí, criou uma aversão por bichos de qualquer tipo, nem um porquinho da índia, que ganhei do meu primo, pude criar; ela o soltou literalmente na rua. Até hoje não sei do seu paradeiro. Mas, voltando ao que eu queria contar: tudo mudou até Bem chegar. Ele veio para me fazer repensar a vida em suas minúcias. Foi amor à primeira vista. Ajuda a sarar as minhas feridas, depois da morte de Inara, minha esposa, que sofreu uma longa luta baldada contra o câncer – e talvez avalio que tenha sido ela quem colocou Bem no meu caminho. Encontrei-o na rua, num dia de chuva, embaixo do meu carro. Eu tinha ido ao supermercado. Ao sair, notei o vendaval e corri para o carro. Fiquei todo ensopado. Num lance, vi o pequeno saindo debaixo do veículo e vindo à minha direção, como se precisasse de socorro. Ele pedia, com os olhinhos brilhantes, para ter um lar. Pensei e resolvi em segundos. Levaria na condição de dá-lo à adoção. Mas, com um pouco mais de dois meses, se chegava manhoso, pequeno e frágil, para se aninhar nos meus braços. Dormia muitas vezes aos meus pés. O amor cresceu, naturalmente. E o que mais me anima são as suas brincadeiras, que me fazem rir leve e ir além dos problemas cotidianos. Hoje faço questão de tê-lo ao meu lado. Somos crianças, amantes da vida. Reaprendi a viver.













