Contos

Os homens da montanha, os homens do mar

Era bonito o lugar onde ficava aquela cidade: de um lado o mar, de outro a montanha. No meio, a vida calma e comezinha de quem nada ambiciona e é feliz assim. A terra ainda não estava cansada e dava de comer a quem andava sobre ela. Era fácil e bom viver lá, onde o tempo parecia não passar.

Numa ocasião, quando podavam as roseiras, um homem saiu das águas e, com estardalhaço, balançando as mãos como alucinado, gritou que viera até ali como amigo e em missão de paz. Queria informar que a cidade corria perigo. Uma onda de ódio e fúria tinha surgido na montanha, e as pessoas que lá viviam estavam se preparando para descer e invadir o vale. Iriam matar os homens, estuprar as mulheres, abandonar as crianças e pôr fogo em todas as casas. Que todos se prevenissem para salvar a cidade da destruição certa. Assim disse o homem que veio do mar e, tão repentinamente quanto viera, desapareceu no meio da água barulhenta.

Todos se mobilizaram para resistir ao ataque dos homens da montanha. Aos poucos a vida dos habitantes da cidade se transformou. Tinham pressa para estocar alimentos e água, fechar as portas e as janelas, recolher o gado, cercar a plantação, proteger as nascentes. Olhavam para a montanha e tentavam imaginar quando eles viriam. As mulheres faziam uma cruz sobre o peito e não descuidavam das crianças. Uma só certeza apertava o coração de todos: dariam o sangue e o que mais fosse preciso para salvar a cidade.

Noite dessas — quando tudo não passava de silêncio e escuridão, e os homens se revezavam como sentinela, e as mulheres se apressavam para assar os pães, e as crianças ficavam quietas nos cantos, e os olhos de todos não desgrudavam do brilho da fogueira que vinha da montanha —, a cidade foi invadida, os homens, mortos, as mulheres, estupradas, as crianças, abandonadas à própria sorte, as casas, queimadas. Quem invadiu e saqueou a cidade foram os homens vindos do mar.

Mário Baggio

Mário Baggio é jornalista e escritor. Nasceu em Ribeirão Claro-PR. Mora em São Paulo-SP desde os anos 70. Tem 7 livros de contos publicados: “A (extra)ordinária vida real” (2016), “A mãe e o filho da mãe (2017), “Espantos para uso diário” (2019), “Verás que tudo é mentira” (2020), “Antes de cair o pano” (2022), “A vida é uma palavra muito curta” (2024) e “Vozes para tímpanos mortos” (2025). Publicou contos em várias revistas eletrônicas (Germina, Gueto, Ruído Manifesto, Subversa, entre outras). Escreve semanalmente na revista Crônicas Cariocas. Participou da “Antologia Ruínas” (2020), “Tanto mar entre nós: diásporas” (2021), “Brevemente Infinito” (2024) e Antologia de Contos da UBE-União Brasileira de Escritores (2021 e 2023).

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