Crônicas

Pavê da vovó

A receita era antiga e sua avó quando era viva nem lembrava mais sua origem. Talvez fosse portuguesa, talvez holandesa ou uma mistureba de influências. Mas assegurava que tinha aprendido ainda mocinha quando morava em Vassouras, no interior do estado do Rio. Seu avô nunca foi muito fã desse pavê, dizia ela rindo, nem seu pai. Mas você meu neto, faz a minha alegria. Era verdade. Ele comia tudo que ela fizesse e tinha uma predileção toda especial pelo pavê da vovó.

Os ingredientes não tinham nada de especial. O pavê leva leite, creme de leite, baunilha, leite condensado, uma gema de ovo e biscoito de maisena claro, dizia sua avó. Biscoito champagne não se usava porque era caro e nem tinha lá na roça.

Mas ele sabia que não era só isso. Não podia ser só isso. Outras pessoas tinham feito pavê com rigorosamente os mesmos ingredientes mas o sabor nunca era o mesmo. Tinha algo que sua avó fazia que dava aquele gosto especial. O que seria? A qualidade dos ingredientes? As marcas escolhidas? A forma de misturar? Não tinha a mínima idéia mas era insuperável.

Uma vez quando era menino pediu de presente um pavê para comer sozinho, sem ter de dividir com as primas e os primos. Era uma das lembranças mais doces de sua infância.

Sua avó morrera há uns 10 anos e não passou a receita para ninguém simplesmente porque ela tinha tudo de cabeça. Anotar para quê se eu faço pavê desde o século passado, ria.

Com o passar dos anos, o assunto pavê da vovó acabava entrando até nas conversas entre amigos. Sabe quando alguém tem aquelas idéias pretensamente saudosistas de recordar o que tinha de bom na infância? Em verdade é só para alguém se mostrar contando aos outros como ele foi feliz quando era criança, blá, blá, blá. Mas para ele, felicidade era doce e gelada e atendia pelo nome de pavê da vovó. E todo mundo já sabia disso e dava risada porque ele nunca falava outra recordação da infância.

Na última vez em que esse assunto veio à tona foi na festa de noivado dele. Ah sim, não contei mas o rapaz encontrou o amor de sua vida e, à moda antiga, noivou com a moça. Por sinal foi uma bela festa em um sitiozinho lá em Vargem Grande, na zona Oeste do Rio, mas isso eu conto outra hora.

Ao ouvir pela enésima vez que bom mesmo era o “pavê da vovó” a moça se encheu de coragem e disse: vou fazer um igual ao dela. Todos olharam na direção dela e aplaudiram sua atitude. Afinal, já era hora do rapaz voltar a sentir aquele prazer de sua infância e quem melhor do que ela para fazer esse mimo com ele?

Qualificações ela tinha de sobra. A moça era craque na cozinha, neta de mineira com baiana e com curso de pâtisserie na França. Na semana seguinte quando ele foi visita-la em casa, surpresa: pavê! Ela fizera sua sobremesa favorita. Das brumas do seu passado para o nosso doce presente, meu amor, cantarolou ela contente.

O noivo se sentou na mesa da cozinha mesmo, pegou uma fatia generosa de pavê e comeu de lamber o prato. A noiva sorriu vitoriosa aguardando ele falar que era igual ao da avó. O noivo rasgou elogios sinceros, disse que estava maravilhoso, mas não era o da vovó!

Ela não se abalou. Nas semanas seguintes ela arregaçou as mangas com decisão e entregou-se ao desafio: o pavê da vovó. Fez de novo, de novo, de novo e de novo. Passou semanas em pesquisas pela internet, em livros de receita e trocando informações com seus professores franceses. Buscava pessoalmente os ingredientes de melhor qualidade, a despeito do isolamento social provocado pela pandemia do Covid-19. Trocava as marcas, buscava alguma mais regional que não se encontrava no Rio de Janeiro, enfim fez piruetas. Ela dizia que valia o esforço para agradar o amor da sua vida.

E em todas as vezes ela entregava um pavê diferente de tudo que seu noivo já havia provado na vida. Ela se superava a cada receita, a família acompanhava entre orgulhosa e tensa. O rapaz como era de se esperar dava cambalhota de prazer mas ao final tinha sempre aquele “mas” terrível.

A moça não se abalava mas diante da situação que se repetia – “meu amorzinho está uma delícia mas…” – decidiu apelar: convocou sua avó, mais duas tias-avós de Barbacena e foram as quatro para a cozinha. Agora não tem mais jeito: esse pavê vai ter de sair nem que seja na marra, decretou a indignada noiva.

Foram dois dias de trabalho, experiências e tentativas. Até que finalmente chegaram a uma conclusão e fizeram o pavê. O noivo foi chamado e apresentado ao doce. Ela estranhou que dessa vez ele não parecia tão animado como das outras ocasiões mas relevou. Deve ser receio de me desapontar ou cansaço de tanto comer, tadinho.

O pavê foi posto na sua frente, uma fatia foi cortada. As quatro mulheres estavam à mesa com os olhos pregados nele. Com tanta pressão em cima, o noivo sorriu sem graça e disse que antes de provar precisava dizer uma coisa. A noiva se aproximou e olhou séria. Pode falar, disse.

Sabe meu amor eu aprecio muito mas muito mesmo toda essa dedicação que você tem em fazer aquele pavê da minha avó. Mas tem um porém.

Já sei, vai dizer que o pavê não existe, era delírio de criança, disse uma das tias-avós.

Ou o ingrediente secreto era maconha, rebateu a outra tia-avó às gargalhadas.

Tias, por favor, deixa ele falar, reclamou a noiva. Vai meu amor, me conta se abre comigo qual é o porém.

Então como eu ia dizendo, lembra que eu tive Covid-19?, falou devagar o noivo.

Sim, meu amor, foi um susto danado. Ainda bem que você teve a forma mais branda, recordou a noiva.

Sim, foi mesmo mas tive sequelas, avançou o noivo.

Quais?, espantou-se a noiva.

Eu estou com anesmia, disse o rapaz.

Você vai contar para a gente que diabo é isso ou vou ter de pesquisar no google?, disse a avó da noiva.

Anosmia é perda de olfato, explicou ele.

A noiva arregalou os olhos e ficou muda.

O rapaz olhou para ela triste e segurou suas mãos: não sinto cheiro de nada e não tem qualquer perspectiva de que volte a sentir. E sem olfato não consigo sentir o gosto de nadinha…

Xii, então fodeu de verde e amarelo, resmungou a avó.

Fernando Neves

Fernando Neves é carioca, nascido em 24 de setembro de 1965, na cidade do Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Mora na cidade de São Paulo, continua Tricolor de Coração, é separado duas vezes e tem filhas gêmeas do segundo casamento. Jornalista profissional, desde os tempos no Colégio Pedro II sempre se interessou pelas letras, seja como leitor ávido seja como aprendiz de escritor. O jornalismo abriu a oportunidade de escrever e praticar mas não foi suficiente para seu desejo de escrever cada vez mais. As opções de forma são a mininovela e o conto. O estilo adotado pelo autor compreende um arco que inclui suspense, humor, conspiração e realismo fantástico. Semanalmente ele exercita sua paixão pela crônica e poesia publicando em seu instagram @fernandonevesescritor.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar