
Poema #58: Passagem das horas
Fica de nós este resíduo
do que ainda não fomos.
Este abismo a se superar
e uma certa disponibilidade.
Fica esta in/compreensão mútua
e a dificuldade em se comunicar.
Fica de nós este fragmento
do que ainda podemos ser.
Este relacionamento a se elaborar
e uma parcela de interesse recíproco.
Fica esta identificação de caráter simultâneo
e o desejo de que tudo não se perca.
Fica de nós este sentimento reticente
ainda não de todo vivido/compartilhado.
este completo des/conhecimento do outro
e uma necessidade de maior diálogo.
Fica esta in/definição de objetivos comuns
e o sentido da procura.
Fica de nós este silêncio inédito
devido ao medo em acreditar.
Esta complexa/frágil vontade
de querer sobrepor-nos negando a intuição.
Fica este receio de se expor e viver o espontâneo
e o que isto nos tem custado.
Fica de nós esta intransigência
e a falta de coragem para admitir.
Este impulso em dizer coisas secretas
e a sensação de ferir dizendo.
Fica esta recusa em se confessar
em defesa de uma estúpida integridade.
Fica de nós esta passividade
e o distanciamento decorrente dela.
Este eterno ficar na espera sonhando
e o recolhimento implícito que nega.
Fica este gostar que desconhece convenções
e o raciocínio estragando tudo.
O Acaso das Manhãs













