Entrevistas

Simplesmente Thogun!

Thogun: do subúrbio à tela, entre o rap, a política e o perdão

Morador da Zona Norte do Rio e boa-praça assumido, Thogun ganhou projeção nacional com o documentário Fala Tu (2003), de Guilherme Coelho e Nathaniel Leclery, que acompanhava o cotidiano de rappers cariocas em busca do sonho de viver da música. Ex-vendedor ambulante, dono de voz marcante e apaixonado por jornalismo, ele reconhece que o filme mudou sua trajetória: “Se não fosse o mano Thales, produtor do filme e companheiro de militância há mais de 20 anos no hip-hop carioca, eu não teria conseguido”, afirma.

A relação com o cinema não parou aí. No mesmo período, participou também de Notícias de uma Guerra Particular, de João Moreira Salles, documentário que retrata a violência urbana e o papel do tráfico nas favelas. “Se a influência do Fala Tu tem esse formato, deve-se ao Coutinho e ao João”, diz, citando os documentaristas Eduardo Coutinho e João Moreira Salles como referências.

Nesta entrevista exclusiva, concedida por e-mail, Thogun conta um pouco de sua trajetória.

Crônicas Cariocas: Você foi um dos quatro cariocas participantes do documentário Fala Tu (de Guilherme Coelho e Nathaniel Leclery), que mostra o dia a dia dos rappers e seus sonhos de ganhar a vida cantando. Como você avalia a sua vida após o filme?

Thogun: Ganhar a vida cantando, ainda não enxerguei essa possibilidade. Mas reconheço que, se não fosse o mano Thales — produtor do filme e companheiro de militância, há mais de 20 anos no movimento hip-hop carioca — eu não teria conseguido.

Crônicas: Foi na mesma época em que você filmou com João Moreira Salles, o longa Notícias de uma Guerra Particular. O que esses dois filmes têm em comum?

Thogun: Cara, eu assisti ao filme em 94 e daí soube como pensava o João. Se a influência do Fala Tu tem esse formato, deve-se ao Coutinho e ao João.

Crônicas: Em Fala Tu, os personagens são carregados de peculiaridades. O Macarrão, por exemplo — outro rapper que participou do filme — perdeu a mulher, vítima de eclâmpsia, durante as filmagens. Você ficou sabendo desse episódio? Isso o afetou de alguma forma?

Thogun: É forte, e isso acontece com as mães de baixa renda em todo o território nacional. Uma vergonha. Fico muito puto só de pensar nisso, uma covardia muito cruel com mulheres guerreiras como a Mônica, esposa do Macarrão.

Crônicas: Você continua vivendo no subúrbio?

Thogun: Sim, mas quero implantar projetos em Cavalcante e sair pelo mundo sem esquecer minhas raízes e minha base. Sou da Zona Norte até morrer (risos). Esse cheiro não tem que sair da minha alma.

Crônicas: Você filmou para Fala Tu no hospital onde seu pai estava internado por causa de um câncer, e ele faleceu antes do lançamento do filme. Vocês chegaram a conviver um tempo juntos? Deu para recuperar os anos que ficaram longe um do outro?

Thogun: Deu para alcançar o perdão. O meu de filho e o dele de pai.

Crônicas: Como surgiu o convite para participar da série da HBO Filhos do Carnaval (que agora está sendo reprisada aos domingos)?

Thogun: Cara, a roteirista Helena Soares obrigou os diretores a assistirem ao Fala Tu. Os diretores Cal Hambúrguer e César Rodrigues viram, com certeza, que eu preenchia o perfil do personagem. Fiz dois testes e passei.

Crônicas: Nela você é Nilo, filho bastardo e segurança do bicheiro Gebarão (Jece Valadão), mas também é o personagem que narra toda a trama. Por que você acha que foi escolhido para viver esse papel de destaque?

Thogun: Força de expressão: finalmente eu vi como é bom ser rapper, pois até Filhos do Carnaval eu não era ator.

Crônicas: Como foi trabalhar ao lado de feras como Felipe Camargo, Henrique Diaz e o próprio Jece Valadão?

Thogun: Senti-me premiado, e esses caras não mediram esforços para me ajudar. Foi maneiro, em especial, o Sr. Jorge Coutinho, que viveu o Joel, meu pai postiço. Ele é foda! Muito bom ator.

Crônicas: Como é sua vida hoje? Você continua fazendo músicas?

Thogun: Sim, montei minha empresa e coordeno uma ONG chamada Qmovimenta do Brasil, que atua no Morro do Pinto.

Crônicas: Como é o convívio com outros rappers do Rio?

Thogun: O melhor, pois o rap é extremamente democrático. Vale a postura de cada um.

Crônicas: Já tem novos convites para participar de outros projetos como ator?

Thogun: Sim, mas quando forem confirmados, te falo.

Crônicas: Já conseguiu realizar o sonho de se tornar jornalista?

Thogun: As faculdades que me prometeram bolsas “cagaram o pau”, mas semestre que vem ninguém me segura!

Crônicas: Você acompanha a política brasileira?

Thogun: Faço política desde que acordo. Não adianta fechar os olhos para as realidades do nosso país.

Crônicas: O que espera que mude no Brasil a partir das eleições?

Thogun: Que o povo pare de acreditar em novela, participe realmente, com verdade, desse processo de mudança, e aprenda a lutar por seus interesses.

Crônicas: O que você diria para a molecada das favelas que pretende viver da arte e o que fazer para não cair na rede do tráfico?

Thogun: A arte é um trampolim, e nem todos vão estar à frente das câmeras e dos holofotes, mas podem fortalecer os bastidores e ser protagonistas das suas realidades; vencer e potencializar para que outros vençam. Assim, a molecada vai ficar longe do tráfico quando souber, verdadeiramente, se valorizar, deixando de se ver como massa de manobra de governantes, capitalistas e traficantes. Porque realmente existe a opção de estar vivo, e vale a pena lutar pela vida. Valeu! Paz! Saudações quilombolas!

Francci Lunguinho

FRANCCI LUNGUINHO é treinador de cães há 18 anos, sócio-fundador da Escola Lobatos. Jornalista, escritor e âncora do Podcast Cães & Pessoas, também é criador e editor do portal de literatura Crônicas Cariocas. Mora no Rio com a esposa e dois cães da raça cocker spaniel. Pai do Matheus e faixa marrom de jiu-jitsu. É coautor do livro ‘O Treinamento Invisível: educar cães e transformar pessoas é muito simples’, de 2023, pela editora Arribaçã.

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