Entrevistas

  • Políbio Alves é o Varadouro

    Ele insiste em dizer que é um profissional da palavra. Não duvidem. A palavra é a “massa” com a qual trabalha. Tão essencial quanto o seu respirar, lá do alto do edifício onde mora, pescando com o anzol dos olhos, todos os dias, o azul da praia de Intermares, bairro onde mora. Por estas plagas e plagas outras, todos sabem também que Varadouro (Poemas – 1989), o segundo livro, esse que diz não aguentar mais olhar porque, todas às vezes que olha, tem vontade de reescrevê-lo, é Políbio Alves, e  Políbio Alves é o Varadouro.

    Depois de morar por 20 anos no Rio de Janeiro, onde conquistou inúmeros prêmios nacionais – entre eles, o de Poesia Augusto Motta/1977, com Passagem Branca (Poemas), aparecendo em forma de livro somente no ano passado -, voltou a sua cidade, talvez, para poder ir à Cuba, apaixonar-se por Havana Velha, descobrir ali o seu eterno Varadouro e escrever um longo poema sobre a sua descoberta. Isso mesmo que vocês acabaram de ler: “É como se ter ido fosse necessário para voltar”.

    Quanto a ilha cubana, se pudesse, transformaria-a naquele rio que passa pela sua aldeia, fazendo a curva bem pertinho do apartamento onde mora, e o cantaria mais que aquele outro famoso do Fernando Pessoa. Na terra do Fidel – do Partido, costuma corrigir -, como cidadão e poeta, recebeu o respeito que sabe merecer, mas, por motivos alheios a sua poesia, nunca teve na Província das Acácias, como, carinhosamente, costumo chamar a capital da Parayba.

    Não passou por Cuba em brancas nuvens. Ali, ainda, três esperados livros, todos prontinho da silva, sob a responsabilidade do editor e amigo Enrique Cirules, estão se vestindo, para, como aconteceu com o seu Varadouro, hoje, parte do acervo da Casa das Américas, ganhar o mundo. A Leste dos Homens, A Traição de Hemingway (ficção) e Havana Velha, essa, o poemão do qual falei no parágrafo primeiro, logo, logo, em sua forma final, estarão chegando por aqui e alhures.   

    Ele lembra que a infância  foi toda na Ilha do Bispo, inspiração do seu Varadouro, um dos mais pobres da capital, linha divisória entre a cidade de Bayeux e a capital da Parayba. Conta com um certo orgulho poético (sic) que de tudo fez na vida, mas, como a ternura, jamais perdeu a dignidade. Morou até em cabaré. Diz que lá  encontrou pessoas mais dignas do que muitos, aqui fora, que se não bastasse a pose de “pessoas”, dignidade nunca tiveram. Repete, sempre que perguntado, a mesma resposta: na cidade do Varadouro e de seus Exercícios Lúdicos, Invenções e Armadilhas (poemas- 1991), o Que Resta dos (seus) Mortos (Contos – 1983) estão com os seus demônios e os seus anjos.

    A entrevistinha foi mais um papo enfocando o lado do poeta-menino e do filho que somente deixou o colo da mãe, quando ela resolveu trocar de roupa e morar n’outra cidade. Poeta que sabe como poucos tecer a palavra e costurar as manhãs. Um papo meu e da Fátima Morena com um exemplar cidadão e amigo que preza os amigos como se fossem os seus poemas preferidos. E, se não bastasse, assim como vive exercitando essa amizade, declama-os todos os dias.

    H. A – Como nasceu o poeta? Houve muito esforço? Foi um parto à fórceps ou natural?

    P.A – Agora, na distância de tantos anos, penso que, a solidão de uma criança se deve entender, por exemplo, que essa criança sou eu – mobilizada entre os adultos, favoreceu a minha identidade com a palavra. Tinha 10 anos. Lembro de me ver escrevendo frases com as unhas contras as paredes do meu quarto. Muitas vezes, mensagens anônimas, havia nomes de lugares, pessoas, palavras que eu não conhecia. Isso – não sei lá por quê – continua a me perseguir até hoje, que depois aparece sempre na minha escrita.


    H.A – Uma curiosidade: como foi a “vida festiva do poeta”, em cruz das armas, quando a casa em que morava era um “centro cultura de poetas, seresteiros e namorados” ?


    P.A – Pois é. No início dos anos 60, éramos todos adolescentes, companheiros de colégio – Liceu Paraibano – e de sonhos. Quanto aos freqüentadores assíduos dos fins de semana da casa de minha mãe, em Cruz das Armas, onde nasci, convém enumerá-los: Gemy Cândido, Carlos Alberto Azevedo, Maria José Limeira, Pedro SAntos, Raul Córdula, Unhandeijara Lisboa, Ademar Ribeiro, Jurandy Moura, Carlos Aranha, Anco Márcio, Nautília Mendonça, Walderedo Paiva, Lucy Camelo, Célia Torres, Breno Mattos, Margarida Cardoso, Franklin Ribeiro, Natanael Alves, MArcos dos Anjos, Marisa Barros, Marcus Vinicius. Esses acontecimentos de cultura e amizade e uma geração, registrou-os Carlos Aranha em seus inúmeros textos jornalísticos. Portanto, alguns amigos, os quais eu admirava, liam os meus textos, Carlos Alberto Azevedo, Célia Torres, Gemy Cândido, Jurandy Moura, Ademar Ribeiro, Marcos dos Anjos e Maria José Limeira.


    H.A –  E as mais fortes lembranças de tua vida no varadouro, que descobriste e transformaste em poesia ?

    P. A – Na verdade, a lembrança dos maruins, a beleza plácida da maré vazante, a lama, o azedume da fábrica de cimento, os caranguejos-de-andada invadindo o quintal, subindo o batente da cozinha de nossa casa. Ali, através deles, surpreendi o rio Sanhauá, as fronteiras do pavor, o medo de morrer afogado nas tardes de pescarias. E nesse reduto colhi os primeiros frutos que iriam fertilizar a minha escritura, quer poética ou ficcional. Exatamente, pela vivência, injustiça, alegria, as dores do dia-a-dia, convivida, repartida, com outros homens


    H. A –  A busca da poesia foi uma coisa dolorosa, perturbadora, ou veio com aquela mansidão natural que embala os poetas e os coloca para dormir nos braços da poesia?


    P. A – Escrever é um ato de transpiração. Por favor não confundir jamais com inspiração. Também um ato de muito prazer num tempo de transformações. A diversidade das alegorias humanas, é, por um lado, estimulante, e, por outro reflete, de fato, a coexistência do disfarce de acontecimentos na ante visão do homens e da arte. Há, todavia, a busca da inteireza crítica, eis o porquê de escrever. O que importa, a mim, é ler. Trabalhar a textura dos meus livros, incitando-os a desafogar liberdades no ato de criação, sempre. Um trabalho solitário, mas contínuo. Desafiador, eu acho. A meu ver, a literatura, a poesia, tem que abordar a incomodidade, a problematização dos sonhos pessoais ou os anseios de uma coletividade. Não acredito em escritor ou poeta que não seja um confessor social.


    H. A –  (ufa!)Ser ou não ser poeta é uma solução ou um problema?


    P. A – Confesso: não sei.


    H. A –  Como era vida do poeta na casa da mãe do  poeta-menino?


    P. A – Em companhia das minhas tias, pois minha mãe trabalhava das 6 às 20h no Instituto Padre Zé Coutinho. Era enfermeira. Foram tempos difíceis. De muita solidão e insensatez no seio da família.


    H. A – Um dia escrevi que quando crescesse gostaria de ser o Fausto Wolff, Shakespeare, ou  um palhaço sorridente que morava perto da minha casa e sonhava comprar um circo só para ele. E o poeta sonhou alguma vez em ser algum poeta um dia? Ou outra pessoa?


    P. A – Jamais tive a mínima ambição de me assemelhar a qualquer escritor ou poeta. Isso sempre me pareceu totalmente inaceitável. E os anos foram se passando – agora estou na velhice – me alegro com essa postura em relação ao ofício de escrever.


    H. A –  A tua mãe, pelo que conheço, foi uma pessoa muito forte e presente em tua vida.  Como ela via o poeta-menino e era visto por ele?


    P. A – Minha mãe, hoje no andar de cima, continua sendo o esteio, o postulado da ética, em minha formação humanista e cultural. Um exemplo de dignidade no pleno exercício de cidadania. Foi esse o legado que nos deixou como forma de conviver amorosamente com a vida.

    H. A . O que te fez – tão de repente! – deixar João Pessoa, mudar-se para o Rui de Janeiro,  para voltar um dia como Cidadão Carioca?


    P. A  – Quando saí de João Pessoa era muito imaturo. Na verdade, na cidade grande me arremessaram pelo avesso, me fizeram de mendigo, depois fui aclamado rei. Ainda bateram na minha cara dizendo que estavam cuidando de mim. Meu exílio no Rio e Janeiro me colocou com os pés no chão. Me fez caminhar sozinho, rosto lavado, para enfrentar o mundo. Fiz de tudo para sobreviver. Tive as mais variadas profissões. Sim, é bom lembrar que o meu título de Cidadão Carioca em outubro e 1974, foi pelos serviços voluntários de educação, realizados nos morros e favelas do Rio de Janeiro, sem nenhum contingente patronal ou de Governo. Aliás, essas experiências multiplicaram meus projetos pessoais. Cresci como ser humano. Hoje, minha vida tem outro significado como escritor, poeta e homem que sou.


    H. A –  Como foram os teus anos vividos no Rio de Janeiro, a vivência do poeta, amigos e companheiros de da “arte de escrever e poetar”?

    P. A – Quando fui embora para o Rio de Janeiro em meados dos anos 60, rasguei quase todos os meus originais. E com algum dinheiro, escondido no cós da calça, desembarquei no terminal rodoviário Novo Rio. Comprei um exemplar do Jornal do Brasil e através dos classificados, aluguei uma “vaga” na Lapa. Bem próxima dos arcos, onde morava Aguinaldo Silva, meu amigo desde 1958. Inclusive, em 1961, ele esteve em João Pessoa na condição de escritor estreante com “Redenção para Job”, romance, participando de uma semana cultural no Liceu Paraibano. Depois com o tempo fui me identificando com outras pessoas ligadas à literatura: João Antonio, Gasparino da Mata, Edilberto Coutinho, Manuel Bandeira, Lúcio Cardoso, Stella Leonardo, Walmir Ayala, Clarice Lispector, André de Figueiredo, Altimar Pimentel, Luiz Mendonça, Pascoal Carlos Magno, Heloísa Buarque de Holanda, Ana Cristina César e José Maria de Souza Dantas. Sim colaborei no Suplemento da Tribuna da Imprensa nos anos 60 e 70, período mais conturbado da história do Brasil, com João da Penha, Maria Amélia Mello, Wilson Bueno, Socorro Trindade e Leila Míccolis. O contato com esses autores tornou-se instrutivo, somente. Na realidade, não cabe, dentro dos rasgos desejantes dos meus objetivos pessoais. É que estava sozinho no Rio de Janeiro, desassossegado na convivência com a minha escrita. Fiz de tudo, numa pungente busca de sobreviver: lavador de pratos em bares e restaurante, empregado doméstico, garçom, garagista, professor, vendedor de livros e funcionário público.


    H. A – E o trabalho, como jornalista, no Rio de Janeiro, contribuiu em que para o poeta?

    P. A – Como fonte de informações valiosas do cotidiano.


    H. A – . Escrever ensaios e resenhas, ganhar prêmios com os escritos, como ganhaste, não desestimulou o poeta, deixando-o em dúvidas entre o fazer poeta e o desejo de ser um ensaísta famoso, por onde caminhavas?


    P. A – Fui freelancer. Escrevi textos que nunca assinei e que foram em boa parte, pelas despesas com o aluguel e alimentação, apenas.


    H. A –  E essa história de “poeta paraibano”, “poeta carioca”, “poeta gaúcho” e outros, não é uma forma um tanto ultrapassada de falar em poesia regional ? O poeta paraibano é diferente do poeta carioca ? Poeta não é poeta em qualquer lugar do mundo, não?


    P. A – Poeta é sempre poeta em qualquer continente, país. Independe, creio, de sua nacionalidade. Quanto ao conceito de poesia regional, sabe-se, é tarefa para os estudiosos de teoria literária. No meu caso, por exemplo, não assimilo essa coisa de poesia paraibana ou paulista e outras. Contudo, vejo-as como poesia brasileira, produzida, às vezes, na Paraíba, outras tantas, no Rio Grande do Sul ou em outros estados.


    H. A – São muitos os poetas “cabralinos” neste terra descoberta por Cabral. Carlos Nejar, um dia, afirmou seres um dos poucos poetas a não sofrer essa influência. Como viste  tal afirmação? E as tuas influências?



    P. A – O depoimento do poeta Carlos Nejar ao poeta Lúcio Lins (poeta paraibano, recém falecido), no Hotel Litoral, durante a realização do I Congresso Nacional de Cultura Nordestina na cidade de João Pessoa, no ano de 1993, não me surpreendeu. É  o testemunho vivo de que ele conhece a minha poesia. Sempre tive muito cuidado para não ficar estigmatizado por nenhum escritor ou poeta.


    H. A –  Quem são os poetas que o poeta Políbio Alves lê?

    P. A – Atualmente estou relendo Manuel Bandeira, Murilo Mendes e Hilda Hilst, além de Federico García Lorca e Derek Walcott.


    H. A –  Varadouro, o teu mais famoso livro, é a tua fonte, o teu quintal, esse cantado e recantado em versos que o tornaram – se não, o tornará um dia – universal. Em quais outras fontes bebeste para escrever a tua obra?

    P. A –  O Varadouro é e sempre será a minha raiz. Ali está a origem de tudo. Toda a minha obra está calcada em seus becos e ladeiras e no rio Sanhauá. Assim, através das palavras, me propus a desnudar para o mundo aquela região.

    H. A –  Escrevo porque se não for assim, acabo morrendo engasgado pelas palavras  presas  na garganta. O silêncio das palavras me incomoda. E tu, por que poetizas?


    PA – PARA NÃO MORRER DE SILÊNCIO!


    H . A – Todos sabem do teu perfeccionismo. Mas por que tanto tempo para publicar, por exemplo, Varadouro, O Que Resta dos Motos e Exercício Lúdico?


    P. A – Essa minha postura em relação ao tempo de publicar o meu texto, devo aos conselhos que ouvi de Berta, quando ainda adolescente: “não tenha pressa em publicar, você ainda é quase uma criança”. Por isso, aproveito muito pouco do que escrevo. Por outro lado, ao longo da minha vida, preocupação maior tenho em ser respeitado como escritor, poeta e homem. Tudo isso resulta das minhas constantes visitas à casa de Berta, dona de um cabaré na rua Maciel Pinheiro, cujas dependências da casa eram divididas entre visitantes, músicos, artistas plásticos, escritores e poetas. Ali, eu permanecia por horas e horas, a recitar versos, escutar música clássica e MPB. Tempo de encantamento e descoberta que iriam fortalecer a minha escrita.

    H. A – O poeta Políbio Alves tem o reconhecimento que merece?

    P. A – Ser poeta ou escritor no meu país, é viver na clandestinidade. porque poeta é uma profissão marginalizada, não reconhecida por lei.


    H. A – Por fim, para não dizer que não falei em Cuba, o que encontraste em Cuba que nunca encontraste por aqui?


    P. A – Tive o prazer e privilégio de conhecer e conviver com o povo instruído que hoje não conhece a máfia, a fome e o analfabetismo. E ainda menos a miséria social institucionalizada. Um povo que tem uma experiência digna e plena onde a virtude e a dignidade se traduzem em garantir um futuro mais justo para todos. Conheci: um povo que recebe bem os seus visitantes e a fraterna hospitalidade de sua gente. Uma população de convicções políticas profundas e absoluta consciência a respeito do mundo. Um povo criativo em meio às diversidades do embargo norte-americano, há quase 50 anos. Apesar de tudo isso, o cidadão cubano permanece firme em seus propósitos de continuar a ter um país independente, administrando o seu próprio destino. Quem duvidar dessa realidade do que eu vi em Cuba, que se cuide. Vá à Cuba confirmar esse fato!

  • Simplesmente Thogun!

    Morador da Zona Norte do Rio e boa-praça assumido, Thogun ganhou projeção nacional com o documentário Fala Tu (2003), de Guilherme Coelho e Nathaniel Leclery, que acompanhava o cotidiano de rappers cariocas em busca do sonho de viver da música. Ex-vendedor ambulante, dono de voz marcante e apaixonado por jornalismo, ele reconhece que o filme mudou sua trajetória: “Se não fosse o mano Thales, produtor do filme e companheiro de militância há mais de 20 anos no hip-hop carioca, eu não teria conseguido”, afirma.

    A relação com o cinema não parou aí. No mesmo período, participou também de Notícias de uma Guerra Particular, de João Moreira Salles, documentário que retrata a violência urbana e o papel do tráfico nas favelas. “Se a influência do Fala Tu tem esse formato, deve-se ao Coutinho e ao João”, diz, citando os documentaristas Eduardo Coutinho e João Moreira Salles como referências.

    Nesta entrevista exclusiva, concedida por e-mail, Thogun conta um pouco de sua trajetória.

    Crônicas Cariocas: Você foi um dos quatro cariocas participantes do documentário Fala Tu (de Guilherme Coelho e Nathaniel Leclery), que mostra o dia a dia dos rappers e seus sonhos de ganhar a vida cantando. Como você avalia a sua vida após o filme?

    Thogun: Ganhar a vida cantando, ainda não enxerguei essa possibilidade. Mas reconheço que, se não fosse o mano Thales — produtor do filme e companheiro de militância, há mais de 20 anos no movimento hip-hop carioca — eu não teria conseguido.

    Crônicas: Foi na mesma época em que você filmou com João Moreira Salles, o longa Notícias de uma Guerra Particular. O que esses dois filmes têm em comum?

    Thogun: Cara, eu assisti ao filme em 94 e daí soube como pensava o João. Se a influência do Fala Tu tem esse formato, deve-se ao Coutinho e ao João.

    Crônicas: Em Fala Tu, os personagens são carregados de peculiaridades. O Macarrão, por exemplo — outro rapper que participou do filme — perdeu a mulher, vítima de eclâmpsia, durante as filmagens. Você ficou sabendo desse episódio? Isso o afetou de alguma forma?

    Thogun: É forte, e isso acontece com as mães de baixa renda em todo o território nacional. Uma vergonha. Fico muito puto só de pensar nisso, uma covardia muito cruel com mulheres guerreiras como a Mônica, esposa do Macarrão.

    Crônicas: Você continua vivendo no subúrbio?

    Thogun: Sim, mas quero implantar projetos em Cavalcante e sair pelo mundo sem esquecer minhas raízes e minha base. Sou da Zona Norte até morrer (risos). Esse cheiro não tem que sair da minha alma.

    Crônicas: Você filmou para Fala Tu no hospital onde seu pai estava internado por causa de um câncer, e ele faleceu antes do lançamento do filme. Vocês chegaram a conviver um tempo juntos? Deu para recuperar os anos que ficaram longe um do outro?

    Thogun: Deu para alcançar o perdão. O meu de filho e o dele de pai.

    Crônicas: Como surgiu o convite para participar da série da HBO Filhos do Carnaval (que agora está sendo reprisada aos domingos)?

    Thogun: Cara, a roteirista Helena Soares obrigou os diretores a assistirem ao Fala Tu. Os diretores Cal Hambúrguer e César Rodrigues viram, com certeza, que eu preenchia o perfil do personagem. Fiz dois testes e passei.

    Crônicas: Nela você é Nilo, filho bastardo e segurança do bicheiro Gebarão (Jece Valadão), mas também é o personagem que narra toda a trama. Por que você acha que foi escolhido para viver esse papel de destaque?

    Thogun: Força de expressão: finalmente eu vi como é bom ser rapper, pois até Filhos do Carnaval eu não era ator.

    Crônicas: Como foi trabalhar ao lado de feras como Felipe Camargo, Henrique Diaz e o próprio Jece Valadão?

    Thogun: Senti-me premiado, e esses caras não mediram esforços para me ajudar. Foi maneiro, em especial, o Sr. Jorge Coutinho, que viveu o Joel, meu pai postiço. Ele é foda! Muito bom ator.

    Crônicas: Como é sua vida hoje? Você continua fazendo músicas?

    Thogun: Sim, montei minha empresa e coordeno uma ONG chamada Qmovimenta do Brasil, que atua no Morro do Pinto.

    Crônicas: Como é o convívio com outros rappers do Rio?

    Thogun: O melhor, pois o rap é extremamente democrático. Vale a postura de cada um.

    Crônicas: Já tem novos convites para participar de outros projetos como ator?

    Thogun: Sim, mas quando forem confirmados, te falo.

    Crônicas: Já conseguiu realizar o sonho de se tornar jornalista?

    Thogun: As faculdades que me prometeram bolsas “cagaram o pau”, mas semestre que vem ninguém me segura!

    Crônicas: Você acompanha a política brasileira?

    Thogun: Faço política desde que acordo. Não adianta fechar os olhos para as realidades do nosso país.

    Crônicas: O que espera que mude no Brasil a partir das eleições?

    Thogun: Que o povo pare de acreditar em novela, participe realmente, com verdade, desse processo de mudança, e aprenda a lutar por seus interesses.

    Crônicas: O que você diria para a molecada das favelas que pretende viver da arte e o que fazer para não cair na rede do tráfico?

    Thogun: A arte é um trampolim, e nem todos vão estar à frente das câmeras e dos holofotes, mas podem fortalecer os bastidores e ser protagonistas das suas realidades; vencer e potencializar para que outros vençam. Assim, a molecada vai ficar longe do tráfico quando souber, verdadeiramente, se valorizar, deixando de se ver como massa de manobra de governantes, capitalistas e traficantes. Porque realmente existe a opção de estar vivo, e vale a pena lutar pela vida. Valeu! Paz! Saudações quilombolas!

  • Dupla do Prazer: Cairo e Denizis Trindade

    Um panorama político e filosófico da sociedade brasileira através da poesia erótica de Cairo e Denizis Trindade

    Entrevista a: Por João Pedro Roriz*

    A poesia está ganhando cada vez mais espaço na cidade do Rio de Janeiro. Hoje, é comum ver saraus lotados pela cidade, com adesão da imprensa e outros segmentos da sociedade. Nesse universo, entre os que respiram poesia, encontra-se Cairo Trindade e Denizis Trindade, poetas performáticos que, durante a ditadura militar, causaram polêmica com a arte da “Por No Poema”, retórica literária política que pretende abarcar a ecologia, a luta social e a reflexão sobre moral e sexo. Integrantes da “Gang”, grupo marginal de poesia pornô nascido na década de 70, Cairo e Denizis, hoje reconhecidos como “A Dupla do Prazer” continuam produzindo arte através da poesia lasciva. Nessa entrevista, feita no apartamento do casal, em Copacabana, Cairo e Denizis falaram um pouco sobre a ideologia da Dupla, suas apresentações mais marcantes, segredos, histórias da Gang como o show em que dividiram o palco com Sting e, claro, sobre sexo.

    A Entrevista:

    Crônicas Cariocas – Qual é a importância da poesia erótica?

    DENIZIS – A poesia erótica que a Dupla do Prazer promove vai muito além do erotismo. Usamos o palavrão e a sexualidade de nossa poesia como forma de protesto contra qualquer modo de censura autoritária.
    CAIRO – Seria muito fácil produzir literatura tão somente para dar prazer. Nossa proposta é ir além, é transmitir a importância do amor livre, a anarquia sexual. É claro que o prazer existe, afinal, com a Gang apresentávamos números ousados para a época. Sofremos muito por causa disso, desde apreensão de livros até ameaça de prisão.

    Crônicas Cariocas – Vocês viveram de perto a explosão da revolução sexual e participaram ativamente do processo. Como vocês vêem a geração atual de jovens em relação à sua própria sexualidade.

    CAIRO – É preciso dizer antes, que a juventude atual adora a nossa poesia, a ponto de eu ter sido considerado um poeta dos jovens. Quanto a essa nova geração de jovens, acredito que ela está perdida, muito por causa dos pais. A novíssima geração está sufocada com tanta psicologia, normas de conduta do que pode e o que não pode fazer. A juventude está perdida, mas a sacanagem continua rolando solta, inclusive muito promiscuamente. Deixo claro que a gente nunca propôs a promiscuidade. Sexualidade sim, mal gosto, não!
    DENIZIS – Essa geração perdeu muito do afeto. Outro dia ouvi a amiga da minha filha dizer que “ficou” com cinco em uma noite. E eu: “Como? Você deu para cinco de uma só vez?”. Daí me explicaram que ela beijou cinco em uma noite. E eu me pergunto: “onde mora o afeto”? Melhor seria ter dado para um e com afeto, com prazer. Ou, se tivesse a fim mesmo, dado logo para os cinco, pois afinal, fica uma coisa meio doentia, um esfrega-esfrega, um roça-roça de lá pra cá e não sai disso…

    Crônicas Cariocas – Cairo, Você é filho de uma geração que promovia o sexo grupal como prática sagrada. É verdade?

    CAIRO – Sim, nada mais natural… Cleópatra participava de surubas maravilhosas. A história conta que grandes rainhas davam para dez em uma noite. A rainha da Rússia Catarina morreu transando com um cavalo… O problema todo é que essa geração atual quer desfrutar da liberdade sexual sem, de fato, se permitir a isso na prática. Hipocrisia social pura.
    DENIZIS – …ou medo de pegar AIDS! Pode ser isso também.

    Crônicas Cariocas – Será que isso não acontece por causa de uma idéia de que, se a adolescente transa é considerada uma vadia?

    CAIRO – As meninas hoje querem copiar os seus modelos, as tops simbols, celebridades que vendem essa imagem. Pura hipocrisia, como as mulheres da nossa época que faziam coito anal para casar virgem.
    DENIZIS – Concordo com o Cairo.

    Crônicas Cariocas – Para a Dupla do Prazer, o que pode e o que não pode em relação ao sexo?

    DENIZIS – Pode sentir prazer, e vai a luta! O que não pode é ir pra cama obrigada. Mas com prazer, vai.
    CAIRO – …assim como não se pode ir para a mesa sem comida, ir pra a rua sem trabalho. Para nós esta tudo junto no mesmo saco.

    Crônicas Cariocas – E o que é que choca a Dupla do Prazer?

    CAIRO – “Imoral é a injustiça social. Sérias são a morte, a solidão”…
    DENIZIS – “…A corrupção e a miséria. Indecência é a violência entre seres iguais, se matando sem nexo…”
    OS DOIS (JUNTOS) – “…E nunca prazer e pecado, lado a lado, de caso, fazendo sexo!”

    Crônicas Cariocas – Vocês já fizeram poesia na cama?

    CAIRO – Claro! É só o que nós fazemos (risos).

    Crônicas Cariocas – Vocês estão trinta anos juntos, trabalhando, falando poesia e fazendo sexo… É desgastante?

    DENIZIS – Em relação a nossa vida conjugal, é preciso ter uma flexibilização para tudo. Isso em qualquer relação, mesmo entre irmão ou pai e filho etc.
    CAIRO – A Denizis diz que sou figurinha fácil nos recitais, mas eu gosto mesmo de assistir, analisar e aprender, descobrir textos e poetas novos que me inspirem alguns textos. Mas qualquer postura cartesiana, rígida e rigorosa hoje em relação a vida do outro é um entrave à liberdade e à caminhada da humanidade em busca do paraíso.
     
    Crônicas Cariocas – Um pertence ao outro?

    CAIRO – “Ninguém é de ninguém”, é uma música antiga… Mas agora falando sério, existe um pertencimento entre qualquer casal. Em cena, por exemplo, quando encenamos um espetáculo, a gente está entregue ao público, mas na nossa privacidade, um pertence ao outro.
    DENIZIS – Acho que o Cairo já disse tudo.
     
    Crônicas Cariocas – Dentro da proposta do “Por no Poema”, onde entra a parte erótica propriamente dita?

    DENIZIS – Nós temos uma seção dentro do no nosso trabalho que chamamos de “Erosão de Eros”, onde falamos poemas eróticos um para o outro. Tem uma cena bem picante que a gente só faz para públicos reservados.
    CAIRO – …isso quando rola cachê e, de preferência em locais apropriados, em boates, etc. Mas as vezes, num festival ou ocasião especial, a gente também faz. Tem um poema que nós falamos no canal Brasil, que as nossas vozes se unem… uma voz sobre a outra, como no sexo: “Navegar da foda à fonte até o orgasmo a escrever o afogamento e o naufrágio”. As palavras e os versos se amontoam, como se a gente trepasse. É uma “trepada”.
    DENIZIS -…e a “trepada” que a gente faz no palco começa na “preliminar”, na perfumaria. É tudo cenicamente. A gente encena o sexo, mas sem penetração. E chegamos a um orgasmo metafórico.

    Crônicas Cariocas – Então vocês nunca fizeram sexo no palco?

    CAIRO – Seria quase impossível. Já até dormimos no palco uma vez antes do espetáculo, mas durante a apresentação não tem como, por causa do público, o ritmo do espetáculo, a cena, os aplausos, a grana da bilheteria depois… É tudo muito profissional.
    DENIZIS – A gente deixa pra chegar em casa. Teríamos que cobrar muito caro pra voyer, assim… (risos). Brincadeira…

    Crônicas Cariocas – E nesse trabalho, no palco, vocês ficam nus?

    CAIRO – Já fizemos nus, mas depende muito do lugar. Mas sem fazer sexo, apenas denotando o ato sexual.

    Crônicas Cariocas – Se a Denizis se excitar em cena, com as palavras e com o toque, isso não fica evidente para o público, mas no seu caso, Cairo, todo mudo perceberia…

    CAIRO – Mas ai é como qualquer ator, você está ali interpretando. Já aconteceu, mas como eu disse, depois vem a próxima cena.
    DENIZIS – Claro que dá tesão, nós ficamos pelados naquela esfregação. Na época da Gangue era um grupo inteiro, éramos vários atores em cena, todos se beijavam e se agarravam, sem essa de casal. Que o publico saía do teatro para ir ao motel transar, com certeza… Muita gente começou relacionamentos durante os shows da Gangue. Resultou em alguns casamentos também.

    Crônicas Cariocas – E vocês praticavam sexo grupal fora dos palcos?

    CAIRO – No palco, a gente encenava a suruba. Fora do palco, é segredo. Nós nunca revelamos isso para jornalista nenhum. Até porque muitos integrantes do grupo já morreram e em respeito a eles é um tabu que vai ficar na história.
    DENIZIS – Nunca falamos sobre isso. Os jornalistas sempre nos perguntaram e nós nunca comentamos.

    Crônicas Cariocas – Mas na Gangue existe um companheirismo muito grande entre seus membros, não é?

    CAIRO – Total e absoluto. Cumplicidade.

    Crônicas Cariocas – E como é que está a Gangue e a Dupla do Prazer, hoje?

    DENIZIS – Temos um músico da Gangue morando em Paris e, por isso, é mais difícil reunir esse grupo. A Dupla do Prazer se apresenta muito. Quando pinta uma grana boa, a gente chama a Gangue e monta o espetáculo para uma ou outra apresentação.
    CAIRO – Na hora de viajar a Dupla é mais portátil, pois somos só nos dois. Longas viagens ficam mais fáceis. A Dupla está em plena atividade.

    Crônicas Cariocas – Qual foram as apresentações mais marcantes de vocês?

    DENIZIS – Pra mim, a mais marcante no sentido de medo e de horror foi em uma Bienal de São Paulo, quando a gente chegou com ordem de prisão. Foi na época da ditadura militar. A policia nos cercou e deu ordem de prisão e o Gabeira disse que se fossemos presos ele ia junto. Como ele era a estrela no momento, não prenderam a gente. O Gabeira e o Cláudio Riller, escritor, hoje presidente do Sindicato Escritores de São Paulo, foram nossos protetores. Outra personalidade que nos apoiou nesse momento difícil foi a escritora Cleide Veronesi que já faleceu.
    CAIRO – Já dividimos palco com o Sting. Foi interessante, para 20 mil pessoas, em um palco maravilhoso, um som ótimo. Gilberto Gil estava recolhendo assinaturas para um manifesto em prol da ecologia, meio ambiente e pelas águas do mundo. Ele produziu um grande show em 1987 na praia, com Jorge Maltner, Nelson Jacobina (na época conhecido como carneiro, por causa do cabelo hippie enroladinho que parecia um carneirinho), Pepeu Gomes, Morais Moreira, e outras feras seletíssimas. Eles abriram uma concorrência com mais trinta grupos, de rock e pop music para que uma banda se apresentasse no show, e o nosso grupo, mesmo não sendo de musica, ganhou a concorrência. Fomos convidados a participar no meio dessas estrelas. O Gil pediu para a gente ceder um espaço de tempo para o sting assinar o manifesto. Nesse momento, o Sting entra no palco, assina o manifesto e canta uma canção. A Gangue voltou em seguida. Foi como se ele fizesse o nosso intervalo (risos). Foi mágico. 
    DENIZIS – Essa do Sting foi legal, mas boa mesmo foi apresentação de aniversário do Circo Voador, com Cazuza, Lobão, Blitz, grandes bandas…
    CAIRO – Sim, me lembro. A multidão derrubou o alambrado, tinha gente pendurada nos ferros da armação do circo, no teto… Uma loucura!

    Crônicas Cariocas – Como foram as apresentações da Gang Pornô na Academia Brasileira de Letras?

    CAIRO – Foi um escândalo internacional, na época. Todos os jornais publicaram sobre o assunto. Nós ficamos nove meses em cartaz lá. Os acadêmicos sempre nos prestigiaram. Eles são sábios…
    DENIZIS – Quando o Ledo Ivo tomou posse, perguntaram para ele o que é que tinha de bom na poesia brasileira e ele falou “a poesia pornô”. No dia seguinte, foi primeira pagina no Globo e Jornal do Brasil: “Pornô na ABL”. O Ledo até recitou poema pornô para a gente.  Temos tudo isso documentado em fitas, matérias jornalísticas etc.

    Crônicas Cariocas – Como foi fazer uma encenação de sexo para 20 mil pessoas?

    CAIRO – Olha, talvez mais fácil do que para uma ou duas… a gente abstrai totalmente. Esquece do público.  O que conta somos nós nesse momento.
    DENIZIS – É uma multidão e a gente se perde, se esquece que tem gente olhando.

    Crônicas Cariocas – Segundo o ideal de vocês, a Poesia Pornô é muito mais abrangente do que a superficialidade do erotismo…

    CAIRO – Sim, pois tem conteúdo político e social. Nicolas Borges diria “amai-vos uns aos outros e o resto que se foda”, isso no bom sentido, é claro. Já eu, digo “Eu queria ser um poeta dos sem-terra e dos sem-teto, servir como a um anjo de guarda aos tristes e deserdados, ser um arauto dos sem voz, dos loucos perdidos e só, dos feios, fracos, falidos, sem porra nenhuma na vida. Eu queria ser o poeta de todos os que não deram certo, sem deixar por um instante de ser o cantor dos amantes”.
    DENIZIS – O meu é muito rápido: “Cada um faz o que quer, com homem ou com mulher”.

    Crônicas Cariocas – O que vocês acham do superficialismo do erotismo. O sexo como indústria?

    CAIRO – Superficialismo jamais! A gente tira a roupa sem medo e ao mesmo tempo com medo de tudo, mas nós somos holísticos… como nos temos visão de tudo, a gente acaba sendo íntegro, inteiro e isso nos dá coragem. As pessoas têm medo de se amar, se cuidar e ser feliz. A nossa proposta é contribuir para a mudança desse quadro. A luta continua, a gente tem uma missão, o fim de todos é o mesmo: todos querem a mesma coisa, a utopia existe apesar do “topos” ser o lugar que não existe. A gente quer fazer desse planeta um grande paraíso.
    DENIZIS – Nós falamos palavrões durante nossas apresentações, mas o utilizamos com humor, de modo positivo e dentro de uma proposta. Por exemplo, temos um poema que critica a situação ecológica do Brasil. A gente fala o nome dos animais que estão em extinção e fazemos a crítica. “Preás, ariranhas e caititus… todos tomando nos cus” e por ai vai.

    Crônicas Cariocas – Então vocês colocam o sexo em defesa de outros ideais, inclusive políticos?

    CAIROS – Sim, nós somos ambientalistas e apresentamos o sexo em defesa do meio-ambiente. Nós tínhamos uma seção chamada “eculógica”. Fala um poema ecológico para ele, Denizis…
    DENIZIS –…“A fabrica que fede fumaça, acido, lucro, plantada a forca por todos os redutos, põe a natureza de luto e a mim puto”. Esse poema é de Ulisses Tavarez. Tem um do Cairo que é assim: “O rico é com certeza quem mais destrói a natureza. Quem come mais é quem mais caga, é quem mais fede, é quem mais mata”. 

    Crônicas Cariocas – E como é o espetáculo de vocês?

    DENIZIS – Levamos o figurino e o cenário a gente usa o que tiver no local da encenação.
    CAIRO – …e o público adora! A Gangue é a nossa raiz. A dupla do prazer nasceu da Gangue e, por isso, temos tanto prestígio hoje.

    Crônicas Cariocas – Pois é, fale mais do público. Como é a reação em relação a nudez de vocês?

    DENIZIS – Ah, o público fica enlouquecido… Recebemos milhões de cantadas, todos querem nos levar para a cama. Os dois juntos, a Gangue inteira, um ao outro, uma loucura, varia muito…

    Crônicas Cariocas – E já rolou proposta financeira para levar vocês para a cama?

    CAIRO – A gente não dá margem para isso não, mas é claro que já confundiram as coisas, vêem a gente no palco sem roupa… Mas é um trabalho tão bonito, muito alem do erotismo…
    DENIZIS – Falamos de outros assuntos e não só o sexo. Temo o religioso, o político, transcendente, com uma pitada de erotismo sempre. Nós não misturamos as coisas, pois somos artistas.

    Crônicas Cariocas – A não ser que vocês quisessem?

    CAIRO – Sim, é claro… Aí seria diferente. Se nos encantar e nos seduzir, ai, não tem preço. A gente iria sem cobrar um puto.
    DENIZIS – Nenhuma proposta de um milhão de dólares ainda (risos), que nem aquele filme “Proposta Indecente”. Brincadeira…

    Crônicas Cariocas – Como é que os filhos de vocês vêem o trabalho artístico de vocês? “Pais revolucionários, filhos caretas”?

    DENIZIS – Nosso filho é ator e se apresenta com a gente desde pequeno. No show da Gangue, ele é o delírio dos gays e das mulheres. Agora, a nossa filha é totalmente contra. Ela não era, mas a gente deu uma entrevista uma vez para o Serginho Groisman e houve um problemão no jogo de vôlei dela, os colegas vieram em cima na escola dizer que os pais dela faziam suruba e tal… Desde ai ela parou de nos apoiar. Inclusive tem um poema que ela pediu para a gente não falar mais.

    Crônicas Cariocas – E como é esse poema?

    DENIZIS – Um poema do Bráulio Tavarez maravilhoso: “A boceta da minha amada tem pêlos barrocos lúdicos, profanos… é faminta como o polígamos das secas e cheias de ritmo, como o recôncavo baiano…” E por ai vai. Acaba assim: “…e só não é mais cabeluda do que as coisas que ela diz nos meus ouvidos quando a gente fode”.
    CAIRO – A cena que fazemos com o poema é bonita. Mas é forte! Por isso, sofremos essa censura em casa, após ter vencido a censura da ditadura (risos). É um hino à boceta, que é uma palavra feia, mas dentro do contexto fica lindo.

    Crônicas Cariocas – E em relação ao filho. Não tiveram problemas com o fato dele se apresentar com vocês quando era criança?

    DENIZIS – Fomos ameaçados. Quase perdemos o pátrio-poder, mas pelo fato dele ser homem, acho que ficou mais fácil resolver o problema. Se fosse menina, o problema seria maior.

    Crônicas Cariocas – E vocês viam problema dele se apresentar com vocês?

    DNIZIS – A gente via como um ato artístico.
    CAIRO – Naquela época, como hoje, a lei não permitia, mas a gente é transgressor e para nós não é crime nenhum.
    DENIZIS – Ele nasceu de quê? De um ato sexual… crime é matar!
    CAIRO – Tem pais que estupram o filho, isso é um crime bárbaro e a sociedade faz vista grossa. Nós fazíamos arte! Arte não é crime. A gente fazia um espetáculo no Teatro Rival dirigido pelo Antonio Pedro, com Grande Otelo, Ângela Leal e grandes atores. O nome da peça era “Cabaré Teatro”. E a filha do Antonio Pedro, com 15 anos, estava estreando no teatro. Aí foram em cima dele. Perdeu o pátrio-poder.
    DENIZIS – …pelo fato de ser mulher! Ator tinha carteirinha de veado e atriz, de puta. Aquela época não era fácil e esse espetáculo do Antônio Pedro era bem ousado para a época. Tanto é que a Gangue se apresentava no intervalo. 

    Crônicas Cariocas – Vocês estão com novos projetos poéticos?

    Cairo – Sim, estamos com um projeto de Sarau Poético em Botafogo. Acontecerá toda quarta-feira no Bar do Adão, na Rua Dona Mariana. Esse sarau será aberto para todas as vertentes poéticas, não só a erótica.

    A “Dupla do Prazer” se apresentará na UFRJ, no campus da Praia Vermelha, durante o Fórum de Ciência e Cultura, quinta-feira, dia 13 de junho. Qualquer informação, basta entrar em contato com a produção local. Tel 2295-1595.

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