Contos

Só se é de parar quando morrer

Com dona Raimundinha não tem brincadeira. Mulher trabalhadora, venceu na vida a custo de muito suor, com o seu restaurante lá no centro. Tenho orgulho de minha mãe. Além de tudo, me ensinou a ler e a escrever, porque eu tinha certa dificuldade de decorar as letras, ou mesmo uma dislexia, algo não diagnosticado, porque nos anos oitenta não havia tratamento especial para neurodivergentes. E isso ela fazia quando chegava do trabalho, ia conferir as tarefas escolares minhas e dos meus irmãos, e levava horas, sem demonstrar cansaço. No fim do dia, já perto das 22h, ainda ia arrumar a casa, com a ajuda da Deusinha, a nossa cuidadora e faz-tudo do lar. Ela botou meu pai para correr quando soube que ele tinha um caso com uma funcionária do restaurante; daí você tira a sua dureza nas atitudes, não tinha conversa: “Escreveu, não leu, o pau comeu!”. Lógico, com a sua personalidade forte, quem mandava era ela, e sempre foi assim. Por outro lado, tinha uma delicadeza sem igual para a cozinha, era um verdadeiro milagre, ela se transformava, dedicada como era: a única pessoa que conheço com mãos de fada para a comida, muito melhor do que qualquer chefe. Muito melhor que eu, que segui os seus passos na gastronomia, sendo eu estudado, e ela não. Muito nova, Raimundinha veio para Fortaleza. Sabia, muito certa, que morar no interior, em Nova Russas, não traria o máximo de satisfação que pudesse ter. Decidida, deixou os pais e uma reca de irmãos para trás, deixando dona Lourdes, sua mãe, em polvorosa. “Genésio, não deixa essa menina ir, arruma um jeito de ela trabalhar, essa menina quer trabalho!”. E Genésio, meu avô, não tinha muito o que fazer, trabalhava numa fazenda com gados e pastagem, coisa que achava não ser para mulher, e deixou-a ir; que pegasse o seu rumo, porque não ficaria só, teria mais oito filhos aos seus pés. Quando chegou em Fortaleza, foi trabalhar em casa de família. Logo conheceu meu pai, que era do exército, se juntou e construiu a sua própria família. Era dura no trato, mas sabia a medida certa no amor. Quando eu ainda era criança, era dona de um restaurante, um apartamento e dois carros. Isso era muito para a realidade brasileira. E fazia questão de aproveitar as benesses de ser bem de vida. Viajava muito comigo e meus irmãos. Alugava casa de praia para passarmos os finais de semana – e quem nos acompanhava, para os cuidados diversos, era Deusinha, de cujo paradeiro, hoje, infelizmente não sei. Meu pai sempre ficava fora da jogada, porque atrapalhava com as suas habituais bebedeiras. Nunca tive apego ao meu pai, que foi e é um fracassado, e ainda, nas poucas vezes em que nos falamos, quis me botar moral. Sempre se referindo à Raimundinha como o grande amor de sua vida, algo inatingível: “Desencana, velho, ela não quer nada contigo!”. Hoje, moramos eu e Raimundinha, porque os demais se casaram e construíram as suas famílias. Raimundinha ainda continua dura na queda, não aceita desaforo e doma, como ninguém, seus cinco funcionários e uma casa de cinco quartos. “Mamãe, já está na idade de você parar, deixe que eu dou continuidade na cozinha e no trato da casa”. “Não! Só se é de parar quando morrer”. De certa forma ela tem razão, não a vejo parada, é um trator, desde as 5h da manhã até o final do dia. É assim a sua vida, nada mais o que fazer para mudar, senão seria outra, não seria minha mãe, não a vejo de outra maneira.

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Adriano Espíndola Santos

Adriano Espíndola Santos é autor de “O sussurro cálido da negação”, “Flor no caos”, “Contículos de dores refratárias”, “o ano em que tudo começou”, “Em mim, a clausura e o motim”, “Não há de quê”, “Amparo secreto”, “Viver morrendo” e “Arraia-ralé”. Advogado. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto. instagram.com/adrianobespindolasantos/ e escreve no Crônicas Cariocas às sextas-feiras.

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