A alegria das pequenezas

  • A alegria das pequenezas

    — Olha o que eu achei!

    — O que é isso?

    — Um mixer, menina! Um mini mixer! E ainda funciona à pilha. Já pensou? Posso levar para qualquer lugar.

    — Levar? Para onde?

    — Para onde eu quiser!

    — Você só pode estar doida. Tanta alegria por causa de um mini mixer?

    — Ah, e você? Ficou quase uma semana comemorando a caça aos caramujinhos do jardim.

    — Como assim? — perguntou Ana. — Que duelo de esquisitices é esse?

    — Foi a Márcia quem começou — disse Tânia. — Veio com uma conversa de “alegria das pequenezas”.

    — Não foi bem assim! Eu só perguntei se você já tinha reparado na quantidade de coisas pequenas que conseguem deixar a gente feliz.

    — E eu respondi que não fazia a menor ideia do que você estava falando.

    — Pois eu expliquei.

    — Explicou demais.

    As três riram.

    — Ana, eu resolvi prestar mais atenção nessas pequenas alegrias. Não casa, carro, viagem ou joias. Estou falando de um cheiro, um objeto, um hábito, uma coincidência qualquer. Dessas coisas miúdas que aparecem no meio do dia e passam despercebidas.

    — E o mini mixer entrou nessa lista?

    — Entrou! Como não entraria? Pequenininho, leve, à pilha… achei uma graça.

    — Aí ela começou a rir de mim — disse Márcia. — Só que eu lembrei dos caramujos.

    — Ah, não…

    — Ah, sim! Você me telefonava toda contente: “Hoje encontrei trinta!” No outro dia eram vinte. Depois dezesseis. Parecia que estava vencendo uma batalha histórica.

    — Está bem… admito.

    Ana balançou a cabeça.

    — O que a falta de boleto, marido, filhos e preocupação faz com uma pessoa…

    — Ah, faça-me o favor! — respondeu Márcia. — E o seu pijama de bolinhas?

    Ana começou a rir.

    — Não vale.

    — Vale, sim. Você entrou aqui em casa dizendo: “É de plush! É de plush!”, como se tivesse ganhado um prêmio.

    — Eu amei aquele pijama.

    — Está vendo?

    Ana ficou alguns segundos pensando.

    — Quer saber? Acho que vocês têm razão.

    — Sabia! — comemorou Márcia.

    — Espera. Também tenho minhas pequenezas.

    — Agora ficou interessante — disse Tânia.

    — Arroz-doce.

    — Não vale! — protestou Tânia. — Tem que ser uma coisa que surpreenda. Tipo gostar de cheiro de querosene.

    — Você é impossível. Então vamos lá: lençol de quatrocentos fios; controle remoto com pilha nova; aproveitar os restinhos de batom e fazer um blush exclusivo; olhar a pracinha bem cedo, antes da algazarra das crianças; maçã gelada; ônibus chegando na hora; e, claro, meu pijama de bolinhas.

    — Gostei do blush — disse Márcia.

    — Agora é a sua vez, Tânia.

    — Eu?

    — Sim. Quero ver.

    Tânia pensou um pouco.

    — Gosto de entrar no carro e perceber que tem gasolina suficiente. Gosto do cheiro da chuva. Gosto quando minha secretária chega pontualmente.

    Fez uma pequena pausa.

    — E gosto muito de recolher roupa do varal.

    As duas olharam para ela.

    — Não riam. Acho aquilo quase filosófico. Tiro um pregador de um lado, depois do outro, dobro a roupa, coloco no cesto… não sei explicar. Aquilo me dá uma paz enorme.

    Márcia sorriu.

    — Logo você, que fez pouco caso do meu mini mixer…

    — Está bem, está bem. Já entendi.

    — Entendeu mesmo? — perguntou Márcia.

    — Entendi. A partir de hoje vocês não me pegam mais.

    — Quero só ver.

    Dois dias depois, o celular de Márcia apitou.

    Era uma mensagem de Ana:

    “Meninas… descobri um sabonete que tem cheiro de infância.” 

    🌷

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