Carona

  • Carona

    O cara entrou, bateu a porta e começou. Disse que tinha deixado todos os filhos em casa, um deles, o mais novo tinha morrido dois dias antes, a mulher tinha mudado pra casa da irmã mais velha, tinha ido buscar alguma força pra suportar todo o resto que ainda viria pela frente. Que ela era uma boa mulher, que ele tinha tirado de um grande amigo seu, traição não foi, ele acha, o amigo tratava a mulher muito mal, mulher que nem ela merecia ser bem amada por um homem que nem ele, era morena ele disse, quase mulata, melhor que a outra que ele tinha antes dela, branca que nem leite, aguada de idéias, que deixou ele por causa de um vendeiro da fazenda, matou o sujeito dias depois numa tocaia, e enterrou o corpo embaixo de uma parte esquecida da casa, aquelas casas morrem com o tempo, disse, ninguém mais mexe nelas, vai passando de um pra um até que tudo se acaba. Disse que vai buscar a mulher, deixou comida para os filhos até a noite, um deles vai pra escola, atravessa doze quilômetros até chegar lá, então tem fome, que nem os outros que ficam trabalhando na roça das fazendas vizinhas, agora é tempo de colheita de café, bom de aproveitar porque paga meio ano, o outro meio fica no vazio, não adianta encher a cidade de mais gente, então ficam. Diz que está velho, mas ainda forte, que a vida lhe fez calos no lombo, andou por todo canto deste mundo desde pequeno, sem parada, sempre buscando alguma coisa, mas não sabia dizer o que era, que decerto Deus era que tinha posto aquela sina de andar. Diz que gostava de estrada, do jeito que elas vão esticando pra longe, que pode sempre ter algum outro mundo do lado de lá na outra ponta, que acha triste viver sem saber onde vai dar esse ou outro caminho qualquer. Diz que um dia vai sumir por algum outro lugar, no dia que alguma coisa mudar sua vida de uma hora pra outra, que isto pode bem acontecer, aconteceu com ele muito antes, teve quatro esposas antes da mulata e da branquinha, filhos com quase todas elas, pode ser que alguém deixado lá atrás um dia apareça pra acertar as contas. Chacoalha a cabeça espantando alguma coisa, um instante de silêncio e retoma. Diz que o mundo mudou demais desde que era moço, que apareceu uma coisa que ele não sabia que existia, que era o medo de ficar sozinho, solidão já tinha visto nos outros, no jeito de olhar do seu pai, da última vez que pode encontrar com ele, vinte anos antes, quando o pai olhou pra ele da cama do quarto, sozinho, esperando a morte chegar dali há pouco. Que não sabia que palavra era essa até há pouquinho, quando o mundo cresceu de repente numa hora que ele parou pra olhar o vazio em volta, numa tarde de nuvens de chuva e distância limpa, o mundo quieto. Ele diz que deve ser este o sinal, que a hora que a gente ouve desde pequeno vai chegando, que a gente nunca acredita que um dia ela vem, que vai dando uma vontade de voltar pra trás, de fazer meia volta em certos caminhos por outro lado, pra banda deixada naquele tempo em que teve que escolher uma ou outra estrada, assim é que é a vida, uma fica na frente dos pés vazando pra longe, a outra vai viver nos pés de outro que escolher seguir por ela.

    Ele bate a porta e desce num lugar onde não existia nada. Vazio geral ao redor da estrada. E ficou lá esperando, desintegrando-se aos poucos no retrovisor.

  • Um leão na beira da estrada

    Vi-o de longe e identifiquei o leão parado na beira da estrada. A juba grisalha e rebelde não podia ser de outra pessoa. Era ele no acostamento, apoiado em seu carro com o capô levantado. Tinha nas mãos um galão de plástico vazio e parecia aguardar uma carona. Eu passei de moto, capacete posto, só os olhos à mostra. Meu pai não me reconheceu.

    — Sem gasolina?”, perguntei.

    — Sim, que azar!, ele respondeu.

    — Sobe — indiquei com a cabeça o assento traseiro — Eu levo o senhor, tem um posto logo ali na frente.

    Meu pai ajeitou-se na moto, agarrou minha cintura com uma das mãos e, com a outra, segurou a alça do galão. Arranquei. Fazia mais de dez anos que não nos víamos ou nos falávamos. A última vez que trocamos um abraço foi no enterro de minha mãe. Depois, sem que tivesse acontecido nada relevante, fomos espaçando os telefonemas e os encontros, até que deixamos de nos comunicar. Filho único de um pai quase ausente, desisti de procurá-lo. Ele, pouco afeito a carinhos e movido por outros interesses, esqueceu-se de mim. Tudo muito natural, sem brigas ou discussões, só indiferença.

    Não tirei o capacete em nenhum momento. Não sabia qual seria sua reação ao me reconhecer. Melhor que pensasse que eu era apenas um rapaz que lhe prestava um favor na estrada. Percebi pelo espelho retrovisor como ele abaixava a cabeça para se proteger do vento, a juba dançando livremente sobre sua cabeça. O rosto de meu pai estava envelhecido, mas seu corpanzil — forte, vigoroso, saudável — mostrava outra realidade. Vi quando ele olhou para as minhas botas e percebeu que o salto do pé direito era mais alto do que o do esquerdo. Algumas vezes no passado, quando eu já era adolescente, meu pai me falara, num de seus rompantes de sinceridade, do desgosto que sentiu quando o médico, ainda na maternidade, contou sobre o meu defeito de nascença: uma perna mais curta do que a outra. Isso nunca me incomodou além das chacotas dos meninos do colégio, mas ele e minha mãe se sentiam envergonhados — talvez culpados — por esses centímetros a menos, ou a mais, segundo o ponto de vista de quem me olhava. Jamais consegui descobrir qual das minhas pernas era a defeituosa, se a mais curta ou a outra.

    Dirigi com habilidade e cautela, não me aproximando demais dos carros que iam à nossa frente. Notei que meu pai, em que pese o pudor de estar em contato físico tão próximo com outro homem, agarrava-se com firmeza à minha cintura com uma das mãos. Seus olhos não saíam do meu pé direito. Não conversamos durante o trajeto. Quem sabe ele não estava se perguntando se eu não poderia ser seu filho? Talvez estivesse se lembrando da série de médicos a que me levou quando eu era pequeno, as intermináveis radiografias, a sucessão de opiniões sobre a provável causa do meu defeito físico, até a sugestão feita por um especialista, afinal adotada, de colocar um salto maior que o outro nos meus sapatos, de maneira a compensar a diferença de comprimento entre as minhas duas pernas. Ou então estava revivendo o olhar de decepção que me dirigia quando me observava coxeando pelo chão da sala, eu menino, ainda ignorante do preconceito que sofreria vida afora.

    Ao parar no sinal vermelho, já perto do posto de gasolina, senti sua mão pressionando minha barriga, como uma demonstração de afeto. Não esbocei reação. Estacionei a moto ao lado de uma das bombas do posto, e ele desceu do assento traseiro. Falei, sem tirar o capacete e sem olhar em seu rosto, que não poderia levá-lo de volta, estava atrasado para um compromisso. Ele respondeu que encontraria sem dificuldade outra carona para voltar até seu carro. Percebi que tentava ver meus olhos e meu rosto pela viseira do capacete.

    — Muito obrigado, moço, você me fez um grande favor — disse meu pai, seus olhos insistentes na busca dos meus.

    — Não tem de quê — respondi e fui embora.

    À noite, já em casa, meu telefone tocou várias vezes.


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