Crônica de Angelo Lemos

  • Bubbaloo tutti-frutti

    Reunião de pais e mestres.

    — Mãe, o Anderson é um bom menino, educado, gentil, quietinho, não dá trabalho. No entanto, precisa prestar mais atenção nas aulas. Tem horas que ele parece viver no mundo da lua.

    A mãe olha o boletim, que segue com notas regulares, sem nenhum vermelho. Mais tarde em casa, ela parabeniza seu filho por ter recebido elogios da professora, e por não ter ficado abaixo da média. Perfeito, não iria perder o videogame aos finais de semana.

    — Mas, filho, a professora disse que dá pra melhorar as notas se você prestar mais atenção nas aulas. Que tem horas que parece que você vive no mundo da lua.

    A mãe disse que, se ele não melhorasse as notas, iria proibir o videogame. Ela ouviu outro dia que esse aparelho anda tirando a atenção da garotada. “Um mal do século”, disse a vizinha. “Isso vicia”, disseram os tios do garoto à mãe dele. Era o assunto da semana. Anderson ficou puto da vida com esse negócio. Nunca gostou de estudar, tampouco ficar sem videogame.

    Era mais um dia de aula e faltavam poucas semanas para uma nova reunião. Anderson sentava na quarta fileira, à esquerda da parede. Números difusos se espalhavam pela lousa, a voz da professora ecoava ao fundo junto com as hélices dos ventiladores. Seus olhos de azeitona, longe, brilhavam com o reflexo do centro de uma luz lunar. Era Raquel na primeira carteira. Enquanto, naquele momento, os sábados e domingos se projetavam para um destino amargo e relutante, ele tirava mais um chiclete de sua boca, colocando-o debaixo da carteira. Havia dezenas de aulas matadas por ali. De segunda a sexta, Raquel costumava ter um intenso e sutil sabor de Bubbaloo tutti-frutti, nas manhãs de lua nova, crescente, cheia e minguante.

  • Poema #08: o velho tênis nos fios elétricos

    só Deus & o Diabo
    sabem
    o quanto eu caminhei
    até chegar
    aqui
    nesse fim de mundo.
    hoje
    joguei
    meus velhos & gastos
    passos
    no alto
    dos fios elétricos.

    acendi uma luz no fim do beco.

  • Um trabalho de verão

    Ele tinha um trabalho a ser feito pelo seu primeiro ano de faculdade de jornalismo. Aliás, o segundo em sua segunda semana de aula. O assunto era: escrever uma história curta sobre algum acontecimento marcante de sua vida, em terceira pessoa. Mal sabia por onde começar, coitado. Viveu tantas coisas em seus 34 anos, mas há muito tempo, apenas lutava pela sua sobrevivência, feito um leão na selva cercado por uma alcateia de hienas. Pensou em escrever sobre um de seus primeiros sonhos que teve quando criança, que era ser jogador de futebol, porém os carrinhos e os empurrões prepotentes que sofreu de alguns adultos ao curto tempo de sua infância, fizeram com que as pernas de seus sonhos bambeassem e a arbitragem da vida o colocasse para fora dos gramados verdes. Pensou em escrever sobre o seu primeiro beijo, ou sobre amores platônicos que teve em salas de aula em sua adolescência, porém como era o mais velho da sala, não quis arriscar em ser interpretado como um demodê piegas e ser motivo de chacota e bullying nos próximos quatro anos. Martelou em escrever sobre as tardes de domingo que sempre passa com sua mãe, (o único dia da semana que consegue visitá-la) aliás, por ele, visitaria sua amadíssima com mais frequência. Porém a urgência de seus dias o impede de sentar calmamente à mesa da cozinha em que lhe espera sempre com um bolo de fubá quente e o café preto 3 corações em seu acolhedor apê. Pensou em escrever sobre a viagem que fez recentemente a São Thomé das Letras/MG, porém teve receio de querer se mudar para lá em definitivo e viver como um hippie, comercializando artesanatos e suas poesias, sob efeitos de cogumelos azuis, ocasionando assim o trancamento de seu curso. Melhor não. Pensou em escrever sobre como foi o seu dia anterior. Por mais que ele saiba que todos os dias são especiais e que devemos viver intensamente cada dia como se fosse o último, nada de tão especial ocorreu naquele dia. Talvez ter pago seus boletos antes do vencimento e poder ter uma boa noite de sono sem dever nada a ninguém, tenha sido um ato heroico e vitorioso desse cidadão do proletariado que tanto apanha todos os dias desse pugilista chamado Capitalismo. Ele pôde então naquela noite sonhar mais uma vez. Ele pensou. Pensou. Pensou. Pesou tanto a memória de arquivos do notebook de sua cabeça, que resolveu então fechar a tela do que foi passado, jogou uma água fresca em seu rosto já bem oleoso de tanta transpiração por falta de inspiração, vestiu sua camiseta preta desbotada do Pink Floyd e partiu rua afora, sob uma tarde ensolarada e quente de sábado, para enfim na noite de sua apresentação, ler para todos que aquele dia foi tão marcante quanto as marcas de verão que nos deixam em algum momento na epiderme de nossas vidas.

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