Crônicas Cariocas

  • O dia em que não havia mais nada pra sonhar

    Olhou para o lado e não havia mais árvores…

    Olhou para cima e, o céu cinza, cheio de fumaça, impedia qualquer ser vivente de ver o sol!

    Olhou para o outro lado e… não havia mais água!

    Resolveu caminhar entre pedras e destroços, cascalhos, plásticos, objetos já sem valor algum.

    E havia no chão coisas que nunca foram usadas, sacolas e mais sacolas de todas as cores e espessuras. Sacolas cinzas, sacolas verdes, sacolas transparentes…

    Caminhou por um bom tempo sem ver vegetação alguma!

    Caminhou por um bom tempo sem ver água corrente!

    Depois de tanto caminhar, sentou-se perto de um veículo abandonado. Não sabia nem o porquê de estar ali! Qual era seu nome e sua história? Não sabia de nada!

    Sabia apenas que tinha fome e que tinha sede…

    Viu que usava um casaco de muitos bolsos e resolveu procurar nos últimos e óbvios espaços!

    Tirou de um dos bolsos algumas notas! Era dinheiro! Disso sabia! Disso se lembrava! E lembrava que comprava muitas coisas com o dinheiro!

    A fome apertava e a sede aumentava!

    Num gesto rápido, colocou as notas na boca, mastigando cada pedaço e engolindo os valores que nela se estampavam. Cinco. Dez. Vinte.

    A única coisa que pode fazer foi chorar. Soluçar…

    Depois de tudo, adormeceu seu último sono e não sonhou mais porque não havia mais nada para sonhar!

  • O principal

    Antes de viajar, ela chamou o marido e recomendou:

    — Não se esqueça de aguar a minhas orquídeas. Basta uma vez por semana. Uma, não mais. Se você esquecer, elas morrem.

    Ele ouviu com ar compenetrado e prometeu que aguaria as orquídeas. Uma vez por semana. Feita a promessa, ajudou-a a botar as malas no carro e a levou para o aeroporto. Na despedida, beijaram-se. Ele lhe desejou boa sorte no estágio e fez a carinhosa recomendação:

    — Cuide-se!

    — Você também!!

    Para ele, foi um teste cuidar da casa. Não tinha jeito nem paciência. Precisava levar o cachorro para fazer as necessidades, lavar a roupa que se acumulava, ir ao supermercado e à feira, pois só comia fora no almoço. Não tinham filhos, o que simplificava muito as coisas, mas ainda assim as tarefas lhe pesavam.

    Além do mais, havia os contratempos da rotina. O cão, por exemplo, às vezes fazia pipi antes da hora. Lá ia ele buscar estopa e água sanitária para limpar a poça na sala ou em um dos quartos. Noutra ocasião, a válvula da descarga quebrou. Teve que procurar um encanador bem cedo, quando deveria estar no trabalho. Nesse dia chegou atrasado e não pôde assinar o ponto.

    O tempo foi passando. Os dois conversavam raramente pelo celular, pois ela tinha uma série de obrigações ligadas ao estágio. Falavam da nova experiência de cada um – ela se aventurando no exterior, ele como dono de casa. Era uma espécie de inversão que os fazia rir.  Até então ocorrera o oposto, mas agora o mundo era outro. Falavam disso e da saudade, que começava a apertar. Para se assegurar de que tudo transcorria normalmente, ela lhe fazia perguntas: “Tem cuidado de Sultão?” “Agendou todos os pagamentos?” “Está passado o pano nos quartos?” Ele respondia “sim” a todas.   

    Pouco antes de ela chegar, ele fez uma vigorosa faxina na casa. Bateu tapetes, lavou e desinfetou os banheiros, limpou o filtro do ar-condicionado. De noite estava exausto e com tosse, pois tinha alergia a poeira. No dia seguinte foi ao supermercado levando uma lista com o nome das comidas de que ela mais gostava. Trouxe iogurte, compota de pêssego, pão de milho.  

    Chegado o grande dia, postou-se bem cedo na sala de espera do aeroporto. Felizmente o avião não atrasou. Na volta para casa, ela quis saber se tudo correra bem; ele respondeu que tinha trabalhado muito, mas valera a pena. Achava-se, agora, um marido completo. 

    Mal entrou em casa, ela se encaminhou para a varanda. Foi quando viu uma pequena orquídea no chão. Aproximou-se do vaso e percebeu que estava seco. As outras flores se desprendiam do caule e estavam prestes a tombar. Olhou transtornada para o marido, que entrava chamando-a para ver as gostosuras que havia na mesa… Ele então se deu conta do que havia esquecido.   

    Nessa noite os dois brigaram. Ele tentou se defender mostrando como cuidara de tudo com esmero, tanto que a casa estava cheirosa e não tinha um grão de pó. Fora tanto o esforço, que ele chegou a ficar doente.

    — Você não fez o principal! — interrompeu-o a mulher. E foi dormir cheia de mágoa.

  • Tempo da mudança de atitude!

    Possuo muitas bibliotecas perdidas em sonhos, que descrevem experiências vividas.

    Não lembro de alguns detalhes saborosos de minha infância, mas recordo que meus pais me deram muito amor e carinho, que eu gostaria de rever em meus olhos, tocar novamente aquela risada longa e espontânea, recheada de sorriso e abraço.

    Quando fui a escola pela primeira vez, senti muita vontade de ficar mais tempo com os amigos, porque aquela era a melhor parte da aula, encontrá-los, brincar e viver amizades que nasceram para toda vida.

    Meus aniversários com bolo colorido e gente ao redor, sempre foram uma diversão a parte, haviam presentes, e a garotada estava lá.

    Você também deve ter muitas bibliotecas na mente, que guardam livrinhos com histórias únicas. 

    Momentos que se foram mas que continuam a mostrar o quão passageiro é nosso tempo respirando.

    Que minuto você reservou para saber quanto tempo vai aguardar e realizar o seu sonho, ou de alguém que você ama? 

    Diversas vezes paramos para entender que talvez nossa hora de fechar a cortina esteja bem mais próxima do que pensamos. 

    Um fio de esperança quer que façamos nosso melhor e deixemos para outro dia o pesar de nossas falhas. 

    Aquela reflexão mórbida e tênue, que corre em nossos olhos, cor de cinza com arco-íris, confunde o teste com a realidade, suspira longo para pensar mais tempo. 

    O fato mais concreto é que deixamos de rever o que nos fez bem, e a quem possibilitou novas oportunidades em nosso caminhar zeloso. 

    Não somos independentes em quase nada, até para respirar precisamos pegar o que tem no ar e jogar aos alvéolos, sedentos de pressa em se preencher a cada instante vital.

    É uma busca de sentido como a Eudaimonia, termo grego que literalmente significa “o estado de ser habitado por um bom daemon, um bom gênio”, traduzido como felicidade ou bem-estar, é o viver de acordo com a natureza, como foi a máxima do estoicismo. 

    Sendo dessa forma, a melhor maneira de valorizar o ser humano, porque hoje o que está na moda é sempre o que é novo, e o velho sábio que pode colaborar com a sapiência da próxima geração é esquecido na prateleira. 

    No passado, os velhos é que tinham poder político e cultural. Se o que nos falta é consideração a essa geração, está passando o tempo da mudança de atitude e desmedida ação em reparar esse erro.

    Não se sinta um perdedor pelo que deixou de viver, não vale a pena deixar de se sentir bem, ao olhar em seu espelho.

  • A VINGANÇA DO LAPTOP**

    *— Quando a tecnologia resolve mostrar quem manda (e vira protagonista da reunião)

    O relógio marcava 14h30 e ele estava numa reunião remota de marketing da Agência Pixel & Café*, com o chefe, as meninas do RH, as estagiárias… e até o Padre Marcelo, convidado para “abençoar” o projeto.

    O computador, num surto de rebeldia, começou a travar: reiniciava sozinho no auge da reunião, desligava sem aviso e exibia um “fantasma” na tela, como aqueles velhos televisores sem controle remoto. A cada “pix!”, a câmera congelava, o áudio estalava. Ele apertava o notebook e xingava baixinho:

    — Mas por que essa porcaria resolveu dar problema JUSTO agora?

    — Que máquina maleducada — brincou a esposa, espiando pela porta.

    — Para de tirar sarro! — retrucou ela, fingindo indignação.

    A mulher folheava o manual, perguntando se ele queria chamar alguém para ajudar. Mas, quando a vontade de rir se tornava incontrolável, corria para o banheiro — deixando o marido ali, brigando com a tecnologia, e voltava com a tensão convertida em gargalhada abafada. Era impagável.

    De repente, ele se transformou numa versão caseira de Leandro Hassum — soltando impropérios com todo o carisma que o estresse do momento permitia:

    — Mas que máquina mais imbecil, não conhece o que é ética, não sabe o que é dar duro por uma empresa. Quando eu puder, o destino dessa porcaria vai ser a lata do lixo.

    Do nada, a reunião voltou. Chefe, RH, estagiárias… e o padre Marcelo ajeitando a batina. 

    — Eu gostaria que todos ligassem a câmera — disse o chefe.

    A câmera decidiu ter vontade própria: apareceu “Permitir câmera?”

    — Mas eu permito, ora essa. Pelo amor de Deus. Que máquina mais desumana, sem coração — resmungou ele.

    Quando a imagem voltou, inclusive do padre, ele clicou, levantou a mão e o chefe liberou a fala:

    — Como eu disse, este projeto vai dar uma alma nova para a empresa, uma chance muito maior de investimentos.

    Aí começou o coro dos microfones:

    — Você precisa ligar o microfone!

    — Tem que ligar o microfone!

    — Tem que liberar o microfone!

    O som virou um coral desafinado. O padre Marcelo, sereno, balançava a cabeça como se rezasse pela alma da tecnologia — e pelo descanso do homem que virou comediante por instinto.

    De repente, ele tirou a camisa, começou a mordê-la, jogoua no chão, pisou nela, gritou, deitouse no chão e esperneou:

    — Máquina mequetrefe, computador patife, sirigaita!

    Então parou para pensar: “O computador era fêmea ou macho? Qual era o sexo do computador? Na boa, o computador é ele ou ela?” Pensou em perguntar isso ao ChatGPT, mas só depois da reunião.

    Afinal, muita gente se refere ao computador como “meu PC”, “minha máquina”. Mas, e aí, o computador é macho ou fêmea? Ele é “ele” ou “ela”? Ou será que é “elu”?

    De repente, ele começou a bradar:

    — Vão todos, em fila organizada, para o inferno! 

    — Vai você, chefe. Com esse terno ridículo de pastor de igreja, esse terno de brechó.  

    — Vai você, sua maluca. Fala mal de todo mundo pelas costas, mas não vai embora porque está dormindo com o chefe.

    E, mais do que a camisa, ele tirou a calça e pisou nela, só de cuecas. Parou. Riu de si mesmo. A câmera estava desligada e, com o microfone com defeito, ninguém o veria nem ouviria. Começou a dançar, a rebolar na frente da câmera, a jogar beijos imaginários para a estagiária da assessoria de imprensa. Um verdadeiro “Conga la conga”. Até que o computador decidiu dar o ar da graça: a câmera ligou de repente. Ele, de cuecas, com o dedo indicador na boca.

    — Estávamos ouvindo. Disse o chefe.

    Ali, mais do que voltar para a reunião, ele queria sumir, desligar o computador, enfiar a cara num buraco. A câmera ligada mostrou o homem congelado — todos boquiabertos, divididos entre a gargalhada e o choque. O chefe pausou a reunião: “Vamos tomar um café rápido.” Na prática, era uma pausa para as risadas, para o fuxico. Depois disso, ele seria o convidado mais esperado no happy hour da firma. Ver um surto tecnológico com final cômico rende boas risadas.

    E ali, na hora do aperto, ele aprendeu: nunca se deve ofender um computador. Ter um laptop como inimigo é a pior coisa que existe. Ele pode se vingar e colocar a gente em situações embaraçosas. Mas, aos olhos alheios, a diversão é garantida.

  • “Felicidade se acha em horinhas de descuido”

    Foi o Guimarães quem disse. O Rosa, que não é flor, tampouco cor. Ele disse, eu refleti. Me perdi nas horas, horas longas e não pequeninas, que atravessaram meu corpo, minhas ideias e minhas versões, desde o nascimento. Me descuidei, por um fio, horas a fio, fios de cabelos que ainda não embranqueceram.

    E foi neste descuido, chamado felicidade, que os fios de meus cabelos foram abraçados, silenciosa, vigorosa e funcionalmente por uma piranha cor-de-rosa.

    Não a ofensa feminicida, não o peixe;

    Apenas uma presilha.

    E não o Guimarães.

    Em tantos segundos misturados, um único observador acima de minha cabeça.

    No descuido de não arrumar sequer o cabelo, felicidade.

    Devolvo, sob a forma de texto-memória, a piranha que o Gabriel Cardoso me deu, uma escrita criativa registrada no tempo (obrigada!)

  • Aroma, meu guia

    Em outra vida, tenho certeza, fui um Bloodhound — aquele cão de faro imbatível, dono de 300 milhões de receptores olfativos. Os humanos comuns (não me incluo) mal chegam a 5 milhões. Sinto odores há quilômetros de distância, tanto os que me encantam como aqueles que me nocauteiam.

    Devo confessar que esse super olfato me leva a escolher locais pelo cheiro – sim! Lojas com cheiro de marca me seduzem: entro, respiro fundo, e saio com algo que nem queria, só para prolongar o prazer do perfume no ar.

    Sou capaz até de me tornar uma frequentadora fiel de um restaurante só pelo aroma de sua culinária que invade o ambiente. Isso sem falar na atração que sinto por pessoas perfumadas, para mim uma nota importante de sensualidade.

    Essa questão olfativa esteve sempre presente na minha rotina doméstica – mantenho sachês perfumados nos armários, borrifo água perfumada nos jogos de cama e banho e uso perfumes de acordo com o verão ou inverno, dia ou noite, até mesmo para ir fazer Pilates ou uma caminhada.

    Mas não fica só por aí – tenho uma gama extensa de incensos que acendo em casa, de forma a imprimir a minha marca no ambiente. Uma prática que iniciei há mais de quarenta anos e que me traz benefícios tanto olfativos como espirituais, para mim e para aqueles que compartilham da minha hospitalidade.

    Por isso, quando li sobre um projeto de arquitetura de luxo com “identidade olfativa própria”, vibrei. Um cheiro só do lugar? Maravilhoso! Estavam, enfim, falando minha língua nasal.

    Mas bastou seguir a leitura e… puft! O encanto evaporou: o metro quadrado custará R$ 100.000,00.

    Por esse preço, meu olfato prefere manter distância. Cheiro bom, sim. Mas com bom senso, de preferência.

  • A pedra do caminho pode ser um trampolim

    Hoje minha intenção era escrever sobre as mil vestes do amor. O interesse pelo tema surgiu a partir de uma conversa entre amigas. Falávamos sobre as possibilidades e particularidades das relações amorosas na fluidez da modernidade: amor livre, relações abertas, trisal, entre outros. Acontece que, como já nos alertava Drummond, no meio do caminho tinha uma pedra. De minha parte, acrescento que a pedra é estadunidense. Ao chutá-la, perdi o foco, o intento e acabei mudando o rumo da prosa. 

    Pretendia abordar o amor, mas fui atravessada pela necessidade de falar sobre exploração, chantagem e disputa de poder nas relações, sejam elas amorosas ou comerciais. É curioso e cansativo perceber que quase nunca se pode relaxar no trato com o outro. Uma espécie de vigília constante das fronteiras se faz necessário. Tudo isso porque, se o outro percebe insegurança, dependência emocional ou financeira ou amor incondicional, em geral, faz pouco caso, abusa e, muitas vezes, viola com escrotidão regras indispensáveis ao bem-viver. 

    Isso se aplica a todo tipo de relacionamento, seja entre pessoas ou nações. No final das contas, o que está em jogo é o desfile de um narcisismo estéril vestido com um casaco de pele feito de perversões.

    Basta que um tenha vantagem, recursos, armas e importância para começar o jogo covarde de quem acredita possuir as melhores cartas.

    É ali no altar dos que julgamos fortes, geniais ou insubstituíveis que o amor-próprio sucumbe, a cabeça abaixa e a morte lenta da autoestima começa. 

    O amor-próprio, a demarcação dos territórios do Eu, do que é meu por direito, é o único tratado que não podemos permitir que fraqueje.  

    A soberania da existência, a independência do ser ou de uma nação é inegociável. 

    Sem trégua, sem papo, sem chance de colocar quem quer que seja acima de nós a ponto de validar a tirania seja de quem for. 

    Lutemos por relações de respeito, colaboração, igualdade de direitos e parceria. 

    Façamos das tentativas de vigarismo, de abuso, de extorsão um trampolim para a liberdade.  

    Sinto muito, no meu EU não cabe a invasão megalomaníaca de um A. 

  • Semente, Flor e Fruto

    Nossos pais são os nossos educadores natos e a escola nos ensina a ler, ter cultura, cidadania, socializar. Esse é o pequeno mundo das crianças. 

    Já a literatura distrai, ensina e forma a pessoa que nos tornamos.

    Ler amplia o horizonte; sem sair de casa interagimos com pessoas diversas, conhecemos países e outros continentes, somos colocados frente a frente com dilemas, vivências e exemplos de vida. 

    Ao elaborar questões existenciais, vivenciar as angústias, os erros e dúvidas dos personagens, tanto dos vilões quanto dos heróis, vamos forjando a nossa própria personalidade.

    Tive a sorte de nascer em um lar improvável: um homem culto e uma mulher simples e guerreira. A noite e o dia, o sol e a chuva.

    Meu exemplo de vida era ver minha mãe em sua luta diária : muitos filhos, dificuldades, poucas perspectivas de mudança. E meu pai, na batalha para pôr o pão na mesa.

    Foi dali, daquela família, que eu saí para o mundo.

    Não pronta, mas com roteiro e bagagem.

    A mim cabia ter coragem.

    A natureza e a juventude seguiram o curso natural da vida. Tão natural que, ainda adolescente, engravidei e me casei aos 16 anos.

    Me culpei, nos castiguei…

    Casamento às pressas, desengano aos poucos.

    Cenário pronto para repetir o ciclo de vida da minha valorosa mãe. 

    Mas eu tive mais do que ela.

    Conhecia o mundo através dos livros. Sabia que heroínas não se fazem sem audácia e sem lutas.

    E eu era uma delas, pois sentia, com uma certeza febril, que era semente, flor e fruto. Mesmo que no íntimo houvesse sustos e medos ainda desconhecidos.

    O estudo e o amor pelos livros me deram conhecimento e condições para saber que meu destino podia ser melhor.

    O espírito, grávido de emoções… a vida exigindo força e vigor.

    O equilíbrio incerto e os desafios áridos. 

    Estudar, lavar roupas, quatro filhos , ajudar nas tarefas, fraldas nos varais como bandeiras brancas ao vento, vacinas, piolhos, resfriados e espinhos no pé, estudar, pesquisar, ler, cumprir prazos, apagar a luz, cair na cama e dormir. 

    Heroínas diversas, bandidas, distintas, rasteiras, rameiras, donzelas e santas. Centenas delas, madrugada adentro, à luz de um lampião.

    Onze anos.

    Planta rasteira. Flores. Frutos.

    Filhos criados, primeira infância vencida, segundo grau completo, faculdade, concurso, liberdade financeira.

    Desistir? Pensamento de momentos…muitos!

    Resiliência, teimosia, orgulho, fé… constantes, fortes, intensos. 

    Juventude, saúde, corpo jovem e forte. Determinação, “estofo moral”, vontade férrea. 

    Viver e vencer exige gritos e não admite sussurros.

    A audácia, a valentia, o movimento se sobrepõe; o sapo é engolido.

    A literatura clareia a mente e preenche o coração.

    As dúvidas e respostas norteiam a jornada.

    A vida segue…

    Sentimentos diversos, “cãs prematuras”, décadas fugazes, lembranças esmaecidas, tristezas esquecidas, alegrias conquistadas, família, amigos, filhos, netos, leitores. 

    Escrevo…As linhas retas são mestras, e nas entrelinhas a riqueza dos espantos genuínos, constatações estranhas e descobertas surpreendentes.

    Sigamos! Ainda há muito a ouvir, falar e dançar. Até que desça o pano, somos os atores deste espetáculo chamado vida! 

  • Canções pra Americano Ver

    A revista Rolling Stone publicou recentemente sua lista de 500 melhores canções de todos os tempos (grifo meu) e supostamente de todo o mundo, atualizada para 2024.

    Aparecem na lista nomes como Cardi B, Carly Rae Jepsen, Migos, Megan Thee Stallion, Eslabon Armado, BTS, Clipse, Pusha T, Bad Bunny, Mark Ronson, Nick Minaj, CL Smooth, Funky 4+1  e Cardi B. Já ouviu falar em algum? Esses ilustres desconhecidos que bombaram nas plataformas de streaming e têm bilhões de acesso no Youtube em breve estarão mofando nas nuvens do esquecimento assim que largados à sua irrelevância.

    Em compensação, músicos de prestígio não fizeram jus a uma indicaçãozinha sequer. Ficaram de fora dentre outros, Frank Sinatra, Tony Bennett, Sarah Vaughn, Nat King Cole, Quincy Jones, Barbra Streisand, Carpenters, Janis Joplin, Joan Baez, Sting, Tom Waits, Bjork e Moby.

    Não é preciso ser crítico musical para constatar que há algo de errado. Que parâmetros teriam sido usados para reputar ídolos do pop descartável como Backstreet Boys e Britney Spears como superiores a um Tom Jobim ou um Burt Bacharach?

    E o que dizer de canções que atravessaram gerações e se eternizaram no imaginário popular como “Moonlight Serenade”, “As Time Goes By”, “Over the Rainbow”, “Smoke Gets in Your Eyes”, “Moon River”, “Take Five”, “Summertime”, “Stella by Starlight”, “My Funny Valentine”, “Misty”, “Autumn Leaves”, “Ne me Quitte Pas”, “La Vie en Rose”, “Volare”, “Besame Mucho”, “Guantanamera”? Nenhuma foi lembrada. Por serem músicas ‘de tiozão’, não mereceram a atenção dos iluminados idealizadores do famigerado guia da RS. Em seu lugar, entraram coisas tipo, “Toxic”, “In Da Club”, “Yeah”, “Hey Ya”, “Big Poppa” e “Fuck tha Police”.

    O rock não teve melhor sorte. Foram sumariamente vetadas bandas de primeira linha como Deep Purple, Dire Straits, Genesis, Yes, Jethro Tull, Emerson Lake & Palmer, Supertramp, Echo & Bunnymen, Siouxsie & Banshees e os ex-Beatles Paul McCartney e George Harrison. Apesar de cantarem em inglês, foram preteridos por uma simples razão: são britânicos. Fossem da terra de tio Sam, não fariam jus a tamanha desfeita.

    Por outro lado, abundaram indicações de gangsta rap, hip hop e country music (equivalente ao nosso sertanejo universitário), estilo cujo alcance está restrito ao território americano.

    Nada contra. Não se trata de discriminar determinados gêneros musicais. A questão é que um levantamento que se propõe a ser um painel da produção musical representativa deveria com isenção abrir espaço ao que é produzido em todas as épocas e lugares, segundo sua relevância artística.

    O Brasil pode dar-se por satisfeito: conseguiu emplacar umazinha preciosa indicação no clube fechado dos 500: “Ponta de Lança Africano”, improvável canção de Jorge Ben Jor surpreendentemente ganhou a 352ª posição. Nada a comemorar já que ficaram de fora temas como “Garota de Ipanema”, “Desafinado”, “Carinhoso”, “Asa Branca”, “Aquarela do Brasil” e “Chove Chuva” (essa última do próprio Jorge).

    Outros países tiveram pior sorte. Foram banidos da lista xenófoba da RS a França (Edith Piaf, Charles Aznavour, Serge Gainsbourg), a Itália (Pavarotti, Bocelli, Peppino di Capri), a Espanha (Paco de Lucia, Sarita Montiel, Gypsy Kings), Portugal (Amália Rodrigues, Dulce Pontes, Madredeus) e a Alemanha (Ute Lemper, Marlene Dietrich, Nina Hagen). Que dirá os pobres latino-americanos. Tal como imigrantes ilegais, foram barrados a Argentina (Astor Piazzola, Carlos Gardel, Mercedes Sosa), o México (Lucho Gatica, Trio Los Panchos, Maná) e Cuba (Pablo Milanés, Silvio Rodriguez, Buena Vista Social Club). Por não se expressarem no idioma trumpiano, foram escanteados.

    O rol de escandalosas omissões é infindável. Grandes nomes que fazem parte da memória musical foram atirados na lata de lixo da história.

    Poderíamos relevar tais aberrações fosse esse painel um dos inúmeros que pipocam em sites inexpressivos na internet. Não é o caso. A Rolling Stone se alardeia como uma revista gabaritada e adquiriu respeitabilidade nos meios musicais. Figurar em sua ‘qualificada’ seleção tem para o músico o peso equivalente ao que teria para o cinema uma indicação ao Oscar.

    Sendo uma publicação sediada nos EUA, não esconde sua subserviência descarada ao showbiz americano e se afina ao mote “make America great again”. Abdicou dos ideais democráticos e universalistas que inspiraram sua criação para adotar um deslavado colonialismo cultural, difundindo para o resto do planeta a predominância de valores essencialmente americanos.

    Prefira a despojada, mas honesta lista das ‘500 Mais da Kiss FM’.

  • Do cochilo

    Admiro quem tem o hábito de tirar um cochilo durante o dia. Comigo isso é difícil, e presumo que o motivo seja a falta de hábito. Segundo os médicos, tirar a soneca diária faz bem e — o mais curioso — não atrapalha o sono noturno. Entre as suas vantagens, pelo que li numa rápida consulta à internet, estão a melhora da atividade intelectual, a redução do estresse, a maior eficiência dos batimentos cardíacos e o aumento do bom humor.

    Esse último efeito é o que mais aprecio, tendo em vista o mau humor que atualmente impera, sobretudo, entre os habitantes das grandes cidades. A violência, as dificuldades econômicas e o atropelo urbano vêm espicaçando os nervos das pessoas, que tendem a se tornar intolerantes e agressivas. Não lhes faria mal parar por alguns instantes e se deixar embalar por Morfeu, cujas virtudes hipnóticas são ressaltadas desde a mitologia.

    A hora ideal para isso é depois do almoço, pois nesse momento o processo da digestão ajuda. Sabe-se que, após as refeições, aumenta o nível de potássio no organismo. Esse mineral, segundo li, “pode influenciar o sono de forma indireta ao contribuir para o relaxamento muscular e a regulação da pressão arterial”. Segundo ainda a matéria, isso “é parte de um mecanismo homeostático que busca manter o equilíbrio eletrolítico do organismo”. Coisa séria e necessária, como veem. Do aumento desse mineral não se escapa, bem como do efeito sedativo que ele provoca.  

    O governo deveria então estimular o hábito da sesta, instituindo algo como o Auxílio-Cochilo ou oferecendo dedução no Imposto de Renda a quem provasse que tira uma soneca de pelo menos meia hora depois de almoçar. Não era preciso que o País parasse, como ocorre em certas partes da Europa, mas a medida concorreria para uma melhor convivência entre seus habitantes — vários deles com o inevitável déficit de sono decorrente das inúmeros exigências da vida moderna.

    Mas é preciso ponderar que, para fazer bem, o cochilo tem que ter hora e, sobretudo, ser voluntário. Cochilar na hora errada, e quando não se quer, pode ser prejudicial à pessoa. O povo, que sabe das coisas, traduz essa verdade no conhecido ditado de que “cochilou, cachimbo cai”. O sentido é um tanto metafórico, eu sei, mas não deixa de se aplicar aos que literalmente adormecem e se subtraem aos deveres impostos pela realidade.   

    Nas estradas, por exemplo, o cochilo pode ter consequências letais. São muitos os acidentes provocados por quem dirige tresnoitado ou depois de uma gorda refeição.  Em nível de menor gravidade, não são poucos os indivíduos que dormitam no cinema e perdem as melhores partes do filme. O fato de suas mulheres beliscá-los quando começam a roncar não resolve em definitivo o problema; algum tempo depois, o potássio os leva a embarcar no sono de novo.

    O cochilo pode ser também um sinal de enfado diante de algo que aborrece ou amofina. Na impossibilidade de rechaçar de maneira explícita a experiência maçante, a pessoa fecha os olhos e, digamos, escapa para dentro de si. Espero que não seja essa a reação do leitor diante deste texto, mas, antes que boceje, acho que chegou a hora de colocar um ponto final.

  • Deuses, sábios e poetas!

    Você consegue imaginar o momento onde nossa raça planetária está a minutos do apocalipse, e que um relógio marca esse tempo em detalhes sórdidos para te enlouquecer?

    Pois esse cuco marcador de nossos últimos dias existe, se chama Relógio do Juízo Final, ou Relógio do Apocalipse, em inglês Doomsday Clock, que nada mais é do que um marcador simbólico, mantido desde 1947 pelo comitê da organização, Boletim dos Cientistas Atômicos, da Universidade de Chicago, que utiliza uma analogia onde a humanidade está a “minutos para a meia-noite”, e este horário representa a destruição de nosso planeta azul, por uma guerra nuclear. 

    As notícias ruins desembarcam nos jornais mundiais, e o relógio se move sem pressa, porém, a frente de um passado de paz, do nosso tempo furtado pelo medo de ser curto. Todo o mal que ronda o planeta empurra o maldito ponteiro.

     Sempre dói a seu tempo, e traz morte a cada movimento á direita dos olhos, esbugalhados pelo susto do próximo pulso. 

    As más notícias são a corda do instrumento, que podem ser uma informação de caráter particular e obscena, ou por vezes um boato maldito, que pode gerar a desgraça alheia.

     Como foi em 1747, uma conversa dita por uma garota do harém de Ibrahim, o sultão do povo Otomano, de língua turca da Ásia Central. Ela contou que uma das concubinas violou o protocolo de relação com o Sultão. 

    Enfurecido, Ibrahim mandou que todas concubinas fossem costuradas em bolsa com pesos, e jogadas ao mar para se afogar. Uma lástima essa língua fofoqueira em meio a tanta gente. 

    A inveja ou ciúme fazem o TIC TAC no Relógio do Apocalipse para algumas pessoas em particular, que partem daqui, devido a falácias maldosas e predestinadas a plantar a morte. 

    No caso dos índios yanomamis, sofridos pela fome e doentes, tem seus relógios da morte apressados a cada indiferença governamental.

     Um quadro generalizado de desassistência em saúde, se agrava pela permanência de garimpeiros. Seus corpos em carne viva, propõe um acordo mental entre o tempo, que se mantém em pé, e o respirar, que segue aos trancos, com o pó de suas ocas. 

    No tempo capaz de registrar nosso fim, a personalidade dos que ficam a sombra das crises, arranha suas virtudes humanas prepotentes e indiferentes.

    Deuses, sábios e poetas, surgem no vento do sopro de nossa existência, alvejando nossas mentes com ideias e assombrando os desavisados, e um breve pulsar de más notícias, empurra o relógio do Apocalipse, e te avisa para apressar o passo rumo a felicidade. Tente sozinho esse ato, duvido que alcance sem outras mãos.

  • O velho piano

    Com as costas curvadas e as mãos apoiadas nos joelhos, o velho Amadeu contabilizou o produto de sua semeadura: recolheu duas cenouras que tinham brotado no meio das alfaces e das couves. Gostou da surpresa. Analisou e viu que as cenouras eram boas. Preparou e comeu uma salada fresca no almoço. No mesmo dia, resolveu experimentar algo novo: plantou no meio das abobrinhas uma flauta, um violino, duas partituras de Bach e um Dó Maior. Cobriu tudo com muito cuidado, apalpou com força a terra, regou e foi descansar. Sentou-se na varanda e contemplou o bom trabalho que fizera. Cuidou da plantação por dias, semanas. Arrancou as ervas daninhas e nunca deixou que faltasse água. Uma manhã, quando abriu a janela, gritou de alegria. Chamou os vizinhos e apontou sua horta, onde reluzia um majestoso piano de cauda.

    Tinha brotado ali, por sua dedicação e cuidado, o mais belo piano de cauda que todos jamais viram. A notícia correu a cidade e virou assunto de todas as conversas. Logo a multidão chegou para ver e passar os dedos sobre a madeira cintilante. Discutiram sobre a excelência da marca, a qualidade das teclas, o branco tão branco e o negro tão retinto que até doía nos olhos. Que instrumento imponente! Não tardou os professores e artistas da cidade organizaram concertos, aulas de música a preços camaradas, concursos para descobrir novos talentos musicais em toda a redondeza. O velho Amadeu não cabia em si de contentamento. Quando perguntavam, dizia que o segredo daquilo tudo era… um segredo. E mais não contava.

    Numa tarde de abril, o velho Amadeu levou as mãos ao peito e fechou lentamente os olhos. Estava sentado na varanda olhando o piano no meio de sua horta. Pensava nas belezas sonoras que brotariam daquela madeira reluzente. Quem o encontrou disse que ele partira com um sorriso.

    O tempo e sua crueldade se encarregaram de diminuir o viço daquela novidade extraordinária. Uma manhã, quando somente os passarinhos visitavam o piano e o limo cobria quase todo o teclado, veio uma máquina e levou o velho instrumento para o depósito municipal de sucatas e ferro velho. E lá ele permanece até hoje, silencioso e coberto de poeira, ao lado do projetor de filmes, dos aparelhos de som, do foguete espacial e de outros objetos que já não têm mais nenhuma importância ou serventia nos dias de hoje.

  • O cão que sabia esperar

    Chamava-se Mingau. Era jovem ainda. Uma mistura de beagle com sei lá o quê.

    Chegou a casa numa noite de chuva, só pele e osso, com os pelos encharcados e a cabeça cheia de feridas. Meu pai lhe deu o resto do prato. Pedi para ficar com ele, mas minha mãe disse que ia dar trabalho e que acabaria sobrando para ela. Mesmo assim, ele ficou.

    Nunca pulou em ninguém. Não pedia comida. Dormia num canto da sala e vigiava, atento, quando deixávamos o portão aberto.

    Quando cresci, ele já andava torto. O rabo balançava devagar. Uma orelha ficava ereta; a outra, caída. Só os olhos continuavam espertos: dois furos negros cravados no pátio, como se esperassem que os passarinhos viessem bicá-los.

    A rotina era essa: eu saía, ele ficava parado. Não corria atrás de nada. Nem de gato, nem de galinha. Também não latia. Apenas acompanhava com o olhar. E ficava.

    À tarde, quando eu voltava da escola, lá estava ele. No mesmo lugar. Sentado. Às vezes deitado. Mas sempre ali.

    Uma vez perguntei por quê. Meu pai disse:

    — Cachorro é bicho que espera.

    Na aula de História, o professor — sujeito que gostava de tudo quanto era bicho — contou sobre um cachorro japonês que esperou o dono por anos na porta da estação. O homem morreu, mas o cão continuou voltando ali, dia após dia, até o fim da vida. Virou estátua. E, até hoje, é lembrado.

    Achei bonito. Contei pro meu pai.

    Ele apenas disse:

    — É Hachiko.

    Saí de casa ainda adolescente. Faculdade, primeiro emprego, a correria do mundo lá fora. Mas, sempre que eu voltava, lá estava Mingau — no mesmo canto, diante do portão — como se o tempo tivesse passado só para mim. Cego, como se sempre tivesse sido. As patas trêmulas. O corpo frágil, tombado de lado.

    Da última vez que o vi, não me reconheceu de imediato. Depois, mexeu as narinas e me farejou. E então fez aquele ruído baixo de cão, que não é choro, mas é pior do que isso.

    Sentei com ele no chão. Cocei atrás da orelha, como ele gostava. Mingau encostou a cabeça na minha perna e dormiu. Ficou ali até o anoitecer. Eu fiquei em silêncio, até minha mãe acender a luz da varanda e perguntar se eu ia entrar.

    E eu disse:

    — Daqui a pouco eu entro.

    Na semana seguinte, fui embora. Mingau morreu três dias depois.

    Na manhã do quarto dia, minha mãe o encontrou caído de lado, com os olhos abertos. Olhos de quem, talvez, ainda esperasse uma última visita.

    Ela contou que Mingau passou os três dias deitado no portão. Não comeu. Não dormiu. Não se moveu.

    Meu pai chorou. Disse que aquele cão só podia ser a reencarnação do Hachiko. Minha mãe não confirmou nem negou, também não se surpreendeu. Apenas baixou o olhar e pediu que me ligassem, para que eu pudesse vê-lo.

    Naquela época, eu não acreditava que bicho entendesse de ausência. Mas sei disso agora, quando penso no Mingau.

    Foi no silêncio daquele portão, diante de um cão que esperava mesmo quando ninguém mais vinha, que me dei conta do que queria fazer da vida.

    Hoje, sigo o rastro de outros cães. Procuro histórias que me façam lembrar do que vivi com o Mingau. Tento ajudar os que ainda não aprenderam a escutar os animais.

    Larguei o emprego. Tornei-me treinador. E, no fundo, nunca deixei de voltar àquele primeiro cão.

    Acho que ele ainda está lá. Não em corpo, mas no gesto de cada cão que sabe esperar. Como quem ensina, sem palavras, que amar também é saber permanecer.

    *Ao meu cão Duque, por todas as vezes em que ele espera sua doninha junto ao portão.

  • De quando quase encontrei Givanildo Carmelino de Abreu Vasques

    Quando acabou a aula de química industrial, fui ao food truck mais frequentado dos arredores da faculdade. O cachorro-quente daquele lugar era tão conhecido quanto o seu Jacinto e a dona Cesárea, seu Jajá e dona Cesinha, para os íntimos. Nunca houve um food truck tão falado na cidade. Se não me engano, o seu Jajá foi até candidato a vereador uma vez, mas não se elegeu. Uma lástima, no fim das contas, pois se na câmara ele trabalhasse com a mesma destreza com que preparava os pedidos, teríamos avanços inimagináveis em todos os setores da máquina pública. Mas o povo é complicado, se vende fácil, sabe como é.

    Sempre que alguém fazia um pedido, ouvia um — Já já tá pronto —, e realmente estava, questão de minutos, de quando em vez, segundos até. A desenvoltura do casal em preparar os lanches num ritual sincopado era algo fora do comum. Mesmo com dezenas de clientes se acumulando, geralmente depois da aula, ninguém aguardava mais de cinco minutos para abocanhar o seu cachorro-quente.

    O furgãozinho ficava ao lado da entrada principal do câmpus. Era frequentado por alunos, funcionários, professores, diretores, população com fome e população com gula. Nunca fizeram merchan nem precisaram disso. Quando os conheci, aos dezoito anos mal completos, recém-ingressara no curso de química. A escolha se baseou num dos testes vocacionais que foram aplicados ainda na escola por simpáticas psicólogas em formação. Os colegas perceberam a minha inépcia para aquilo muito antes de mim. Aparentemente, ninguém na faculdade de química se interessava pelos romances policiais da modinha e ninguém tinha paciência para falar sobre os lançamentos, sobre a lista dos mais vendidos ou sobre as polêmicas do prêmio Jabuti. Pois é. Talvez eu não fizesse mesmo o estereótipo do estudante de química. Frequento o entrelugar desde muito.

    Seu Jajá e dona Cesinha eram bons de papo. Às vezes eu estacionava por ali e nem pisava no câmpus, sobretudo quando a televisão acoplada ao furgão transmitia os jogos do Grêmio. Foi numa dessas que o seu Jajá me perguntou enquanto preparava um lanche sincopado: — E aí, quando vai pra letras? Na hora achei até que falasse com outra pessoa. Eu tinha nas mãos um livro do Luiz Alfredo Garcia-Roza. O Grêmio ganhou com um gol do Barcos. A noite tinha um quê de minuano anunciando o inverno. E pela primeira vez cogitei a migração. Meio sem resposta, meio sem rumo. Era Achados e perdidos, o livro.

    Larguei a faculdade. Quando confessei aos colegas, ninguém esboçou reação contrária, ouvi apenas comentários inamistosos sobre a minha lerdeza. Todos sabiam que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde e a paciência comigo aparentava ter acabado há muito. Tinha uma ideia de que, formado em química, passaria o resto dos meus dias numa fábrica qualquer, daquelas com paredes altas e fedorentas, em que as pessoas entram recheadas de EPIs e ninguém sabe exatamente o que fazem lá dentro. Pois bem, não cumpri esse destino por conta de uma mísera pergunta do vendedor de cachorro-quente mais famoso da cidade.

    No duro, sem rodeios, o seu Jajá tinha razão, devo admitir. Química não combinava comigo. Infeliz coincidência ou não, nunca mais fui ao food truck. As aulas do mais novo destino eram EAD. Graduei-me sem sair de casa, antes mesmo dos antigos colegas, que acumulavam reprovações. A vida mudou um bocado desde então, mas ainda continuo lendo romances policiais e, por acaso, o da vez se chama Fantasma, do mesmo autor que lia quando fui alvo daquela questão. Não sei como andam o seu Jacinto e a dona Cesárea. Dos lanches, em particular, tenho saudades. Cursei economia.

    Numa daquelas noites frias, após uma aula de química industrial da qual não tenho recordações, cheguei um tanto apressado e flagrei ainda o largo sorriso do anfitrião. Logo me disse que Giva Vasques havia recém-saído de lá. De cara não acreditei, mas um outro estudante, de bigode besuntado com ketchup, confirmou a história. Era realmente Giva Vasques frequentando o food truck mais falado da cidade. Imagine você, justamente num daqueles momentos um tanto incômodos em que apenas cumpria tabela nas carteiras da Universidade, ainda antes de mudar de curso, quase encontrei Givanildo Carmelino de Abreu Vasques. E, desde então, nunca mais.

  • Postei que me amo, mas o Wi-Fi não curtiu

    Sabe aquele dia que a gente acorda meio piegas, sentimental demais, como se tivesse engolido um coach motivacional junto com o café? Se nunca acordou assim, por favor, me indique o remédio, porque eu sou refém dessas crises.

    Pois foi numa segunda-feira dessas que eu acordei cafona demais, abri o Facebook e vi a clássica pergunta: “O que você está pensando?” Sem pensar muito, mandei logo:

    “Eu ando me escolhendo todos os dias, mesmo quando pareço a pior opção.”

    Postei.

    Saí para trabalhar. No ônibus, entre aquela multidão hipnotizada pelo celular, peguei o meu para checar… zero curtidas.

    Z-e-r-o.

    Fui olhar meu perfil, contei uns 500 amigos. Pensei: “Uau! Quinhentos amigos e nenhum tem tempo pra mim?”

    No WhatsApp, mandei a mesma frase para o grupo da família, para uns amigos… No almoço, conferi: muitas setinhas azuis, nenhum comentário. Silêncio sepulcral.

    Tentei o Instagram: “Eu me escolho todos os dias. Mesmo não sendo a melhor opção.”

    Daí um amigo velho conhecido, aquele tipo que adora bancar o engraçadinho, respondeu no privado:

    “Quando você posta que já superou tudo, a gente sabe que você tá fingindo.”

    Poxa, ele me respondeu com meme e tudo.

    Eu, no Uber, voltando pra casa, quase seis da tarde, pensei:

    “Que opções eu tenho, cara pálida? Viver de likes? Não, né?”

    A verdade é que a gente não escolhe muito não. O careca não escolhe ter cabelo igual ao do galã da série. Eu, com a barriguinha de chope, não escolho ouvir todo almoço aquela piada: “Tá esperando bebê?”

    Queria que a barriguinha sumisse por osmose, abdução, qualquer milagre. Mas não rola.

    Então, a saída é fazer as pazes com a careca, a barriga, e os 500 amigos que não curtiram meu post.

    Voltei lá e apaguei a mensagem motivacional. Ninguém viu, ninguém sentiu. Tudo certo.

    Se alguém tivesse curtido, seria outra crônica. Mais bonitinha do que esta.

  • Poema #05: Procura dos sentidos

    Terminantemente cego pelo brilho da sua voz,
    custei a compreender que o farol era oco.
    Lançam-se às ondas os que não veem.
    Os olhos,
    mal acostumados à claridade nua,
    não distinguem o contorno do timbre que os feriu.
    Perfil de muitos rostos
    ou nenhum.

    Vem de lá o jogral que arranha os ouvidos.
    As letras,
    maiúsculas e resolutas,
    marcham e cantam
    cantam e marcham
    em fileiras que se entrelaçam e colidem

    até se emaranhar em mil espinhos
    aptos a ensurdecer o toque.
    O ruído das opiniões encarece o silêncio.

    Mas não há trégua.
    A pele sem pausa se arrepia
    ao cheiro que escorre das redes.
    Pouco se aproveita da pescaria.
    Aqui uma lesma
    ali uma pedra
    o resto é areia
    que os dedos espalham até perder as digitais.

    Melhor seria se recendesse a sal.
    Na disputa amarga das fragrâncias,
    ao nariz resta a fratura.
    E antes que alguma possibilidade de cura se apresente,
    impregna o ambiente o perfume insípido dos infalíveis.

    A língua não quer assepsia.
    Tampouco a visão da terra firme.
    Temperos novos
    híbridos
    em vão buscam os lábios que os perseguem.
    O encontro jamais consumado
    afinal se junta ao rol das coisas que,
    embora não devoradas,
    consomem.
    Qual apetite desaparecido.

    Despojado enfim de todos os sentidos
    o corpo perde a conexão com algo além do sensível.
    Sonâmbulo entre sonâmbulos
    pisoteia bússolas e dicionários

    enquanto flana
    em meio à multidão da praia deserta.

  • Poema #30: Porém, Nada Dizia

    Gosto do silêncio.
    Prefiro ficar em silêncio.
    Vejo as pessoas conversando
    e a imagem que me fica é a
    do cuspe trocado entre elas.

  • Na extrema curva do caminho extremo

    Eu não deveria escrever sobre se a terra é de fato esférica…

    Eu não deveria dizer o óbvio!

    Eu não deveria repetir tantas coisas…

    Eu não deveria escrever e me esforçar para que as pessoas saibam e entendam que o nazismo foi um movimento de extrema direita.

    Eu não deveria escrever e me fazer entender que QUALQUER regime de exceção, que tira direitos e persegue pessoas é chamado de ditadura…

    Eu não deveria escrever sobre a desgraça que é o racismo, posto que as pessoas sabem e TEM CERTEZA de que isso é um câncer…

    Eu não deveria escrever sobre TODAS as coisas que, em uma sociedade dita civilizada, são ditas e certas como INDEFENSÁVEIS…

    Hoje, lamentavelmente, o que era indefensável toma forma, cor e se concretiza em palavras, atos, ideias e o que mais vier!

    Hoje, a mediocridade é exaltada, escancarada, premiada…

    Hoje, o medíocre espalha a sua mediocridade com cursos, palestras e verdades descartáveis…

    Agora, sem pudor, preconceitos são verdades e colocados como franqueza, como sinceridade…

    Na extrema curva do caminho extremo, brutalmente, escolhemos a intolerância.

    Na extrema curva do caminho extremo, fatalmente, desconstruímos um país, uma sociedade…

    Na extrema curva do caminho extremo, apagamos a história conforme nossas conveniências e fabricamos heróis…

    Na extrema curva do caminho extremo, matamos a voz, o abraço, o beijo e o afago e ficamos com o ódio, a violência pura, o conflito e o atraso…

    Na extrema curva do caminho extremo…

  • Onde Está Você?

    Cabelos desalinhados, Débora esfrega os olhos fundos, sonolentos. Busca o roupão na cadeira ao lado da cama e se debruça de novo sobre o travesseiro vazio que repousa ao seu lado. Sente o perfume de lavanda ainda presente na fronha — o que lhe restou.

    No silêncio da manhã, seu olhar se detém no fio de luz que atravessa a fresta da janela. Como uma adaga, ele penetra o recôndito dos pensamentos noturnos. Débora se envolve nos lençóis, à procura de um abrigo, algum consolo.

    Preciso encontrar a saída. Me perdi outra vez nessa última tentativa. Tantos obstáculos a vencer. Sinto-me incapaz de descobrir um novo caminho sozinha. Onde está você? Ouço, lá no fundo, sua voz dizendo para seguir em frente. Tento, mas fracasso.

    Vou me embrenhando cada vez mais nesse poço lamacento. Me canso, desanimo, tento tomar fôlego e recomeçar. Procuro apoio, um chão que me sustente — se é que ainda resta algum chão nessa busca infindável. E me pergunto por que não consigo. Tantos conseguem encontrar a saída. Por que não eu?

    Já tentei traçar um mapa dos caminhos que percorri em vão, um guia que me orientasse a descobrir outro rumo. Mas, quando percebo, estou de novo envolvida na neblina das lembranças que sempre me levam ao mesmo lugar. Parece um vício. As mesmas pistas, as mesmas pedras, as mesmas barreiras — tudo se repete, como ondas do mar revolto da saudade em que me afundo cada vez mais.

    Sinto-me aprisionada, cativa desse labirinto, condenada a uma busca sem fim. Não consigo te ver, mas ainda escuto baixinho sua voz, insistindo para que eu siga sem olhar para trás. Mas como seguir, se tudo me traz de volta ao ponto de sua partida?

    O despertador toca. Débora se levanta, conformada, para enfrentar mais uma reunião do grupo de terapia do luto. Ao abrir a porta de casa, lembra-se de uma estrofe do tema de Lisbela e o Prisioneiro.

    Agora, que faço eu da vida sem você?

    Você não me ensinou a te esquecer.

    Mas, desta vez, a canção não soa apenas como um lamento. É quase como se fosse uma companhia silenciosa, uma voz que caminha ao seu lado, lembrando que a saudade também pode ser abrigo.

  • Direção Defensiva

    Uma pesquisa realizada na Universidade de Viena, com sapos comuns (Bufo-bufo), conseguiu registrar um comportamento curioso e inusitado. As sapos-fêmeas, diante da aproximação e assédio de machos indesejáveis e insistentes, se fingem de mortas. 

    A estratégia chamada tanatose é uma reação extrema a situações de estresse ou perigo. Que danadas…não julgo. Sabemos muito bem o quão estressante pode ser um homem querendo transar na hora do sono, da novela ou da leitura. Todavia, no nosso caso, talvez a tática seja menos exaustiva, porque podemos apenas alegar enxaqueca ou cólica. Já as nossas amigas batráquias precisam ser mais radicais. Quando tocadas por pretendentes rejeitados, enrijecem o corpo, deitam de barriga para cima e param de se mexer até que o insistente se afaste totalmente. Com esse comportamento evitam o acasalamento forçado. 

    Danadas…

    Muito embora possa parecer que a vida das sapos-fêmeas é mais difícil do que a nossa, já que não podem apenas alegar cansaço, nós, mulheres, além de lidarmos com uma demanda sexual de alta frequência, ainda somos cobradas a ter iniciativa, demonstrar interesse, desejo. Isso porque os homens não fazem ideia da distância que pode existir entre o apetite deles e o nosso. E mais, desconhecem a importância de um enredo, uma trama, um romance ou um suspense para fazer o motor ligar. Para a maioria deles, o esquema na estrada é dirigir em alta velocidade. Pisar no acelerador e bum! Chegou. Para nós, muitas vezes, admiramos a técnica do siga e pare. O passeio a 60 km/h de janela aberta. Mas não, eles não querem perder tempo admirando a viagem, não têm paciência com engarrafamento e ignoram os sinais.

    A desavença começa aí. Toda mulher tem uma logística de trânsito para liberar acesso a suas estradas. Mas os machos-alfa querem posar de bons motoristas só porque dirigem qualquer veículo. Acontece que nós e as sapos-fêmeas conhecemos as táticas da direção defensiva, embora os homens confundam com direção passiva. 

    Qual a mulher que nunca ouviu: “Você não tem iniciativa, nunca me procura”?

    Qual a mulher que nunca respondeu em pensamento: “Eu só procuro o que quero encontrar”?

    E que não nos acusem de frígidas. Não somos! Queremos motoristas bem treinados, conhecedores dos desafios da estrada. Cautelosos. Que saibam usar os faróis, a lanterna, os espelhos. Controlem os pedais. Carro manual não é automático.

    Aprendam de uma vez por todas que, quando a placa PARE é levantada, ela deve ser respeitada. Caso contrário, não hesitaremos em utilizar: “Cuidado, ANIMAIS NA PISTA.”

  • Frio com Memórias

    Mãos enregeladas, dedinhos roxos de frio, boca seca e gretada, olhos lacrimejando… Que frio!

    O assovio do vento, misturado ao fungar dos narizes, soma-se ao barulho das vozes tagarelas dos valentes meninos e meninas que dobram a esquina correndo, apressados para terminar o percurso ao avistar a grande escola. Entram aos atropelos!

    No inverno, a fila do pátio é dispensada. Cada um segue direto para sua sala e acomoda-se em seu lugar. Acalmado o burburinho, abrem-se os livros. Começa a aula e o tempo passa rápido, principalmente para os que venceram o caminho a pé, pois chegaram na energia do percurso.

    Esses são a maioria. Mas há também os que chegam de carro, vestidos com casacos de náilon, toucas grossas e luvas coloridas. A escola é pública, mas tem prestígio. Imagine só: há alunos que sequer precisam fazer o ano extra preparatório para a admissão ao curso ginasial!

    Nós pertencemos à classe baixa. Nossos casacos são de flanela; a mãe improvisa lenços na cabeça, ergue a gola das camisas e faz o melhor que pode dentro dos seus parcos recursos.

    Mas o melhor mesmo é a hora do recreio! Seguimos em fila, da sala até o refeitório, onde a dona Ana já nos espera com os caldeirões fumegantes. É o lanche dos menos “favorecidos, os pobres mesmo. Leite em pó, bolachas, mingau de fubá de milho.

    No recinto, noto a pilha de produtos, todos com o emblema do governo e de uma tal “LBV”. Curiosa, leio e descubro que as letras significam Legião da Boa Vontade. Sei lá o que é isso… A fila do lanche anda rápido. Recebeu seu quinhão? Pode sair para o corredor, onde bate o sol.

    Isso tudo é passado. Mas que passado glorioso! Éramos muitos irmãos. Sabe o que isso significa? Nós, treze meninos e meninas, mais os primos, os vizinhos, os afilhados, todos indo à escola, por direcionamento dos pais, sem nenhum incentivo de bolsa isso ou aquilo, sendo  alfabetizados, cumpridores de horários, respeitosos com professores e funcionários, tendo o estudo como a principal herança que nos prepararia para a vida! Havia dificuldades, com toda certeza, mas eu sempre escolhi e escolho ver o lado bom da vida! 

    Mas isso foi outro século. Outro tempo.

    Hoje, os meninos vestem moletons de marca, aquecem-se com casacos térmicos, têm lancheiras recheadas e celulares caríssimos. Chegam de carro, ouvem música nos fones e fazem selfies antes de entrar na escola. Nada contra! São as conquistas e o conforto que os pais podem proporcionar.

    Mas, às vezes, fico pensando: o que andamos perdendo no caminho?

    Não sentir frio nos pés, não pode também tirar o calor do peito. É preciso que ensinemos o olhar curioso para o mundo, o prazer de um mingau fumegante, o respeito por quem ensina e o orgulho de fazer parte da fila dos esforçados. Os valores parecem fora de moda, como se fossem coisa de outro tempo. Mas eu sei,  e você também deve saber, que foi neles que nos formamos: no respeito, na gratidão, na partilha.

    Hoje, parece que as selfies valem mais do que o ato, o fato. 

    As conversas, as brincadeiras, as interações tanto entre si mesmas, como com a família deixaram de fazer parta da rotina. O automático virou trivial. As memórias afetivas foram substituídas por sensações virtuais

    E talvez seja por isso que o inverno me leva de volta, lá onde o frio nos fazia mais humanos e a simplicidade era uma grande riqueza. 

    E aí? M’bora lá fazer um chocolate quente para a família? 

  • Sobre o turista

    Ah, esse ar de turista. Um jeito de quem não está nem aí… E não está mesmo. O mundo que ele percorre é outro, bem distinto do que a história soterrou.

    Torres, arcadas, câmaras suntuosas onde reis dormiam com suas esposas — e, em não menos luxuosos anexos, com as belas concubinas — já não são os mesmos de outros tempos. Falta o que lhes dê vida.

    São imagens descarnadas, esqueletos preservados para a contemplação nostálgica (por vezes indiferente) dos que querem escapar ao cotidiano enchendo os olhos com outros espaços. A tudo o turista olha com um enlevo dúbio, misto de admiração e exaspero (por que se tem de enfrentar tantas filas?).

    Pudessem os que viveram naqueles tempos contemplar o futuro, ficariam pasmos com toda essa curiosidade pela existência trivial ou aborrecida que tiveram (mas como saber do tédio das cortes? ou dos riscos embutidos na opressão da plebe? ou do medo contagioso de doenças que não podiam conhecer?).

    Tudo muito parecido com hoje — só que mais bonito! Bonito! Dessa beleza que a distância e o mistério imprimem ao que se desfez no passado. Ou que permanece intacta por já não existir o que a tisnava com a mancha da injustiça ou do opróbrio.

    Mas nisso o turista não quer pensar — do contrário, não seria turista. Depois de um longo périplo, e de tantas fotos, ele rumina com um prazer muito pouco espiritual o variado café da manhã que no dia seguinte tomará no hotel.

    Em seguida irá às compras com uma convicção proporcional aos apelos que lhe são feitos no mundo de hoje. Ninguém pode, afinal de contas, escapar ao seu tempo. E na viagem o que importa mesmo é a bagagem de volta. 

    ****

    Millôr escreveu que turismo é prostituição, referindo-se certamente à penetração de estranhos em lugares com os quais não têm nenhuma afinidade. As atrações lhes são oferecidas por um bom dinheiro. Devem então se mostrar pródigos também nas compras e nas gratificações — o que não é de todo ruim pois faz marchar a economia, que é a matriz de tudo.

    A viagem permite que a gente sinta como andam as coisas lá fora. E não estão muito diferentes daqui. As TVs mostram violência e corrupção, que parecem a tônica do capitalismo moderno. Já os radinhos de pilha dos motoristas de táxi, complementando o noticiário, dão conta do ânimo do povo.

    Numa das corridas que fizemos, um motorista lisboeta criticou a ação dos políticos locais e, um tanto exageradamente, atribuiu aos brasileiros a responsabilidade por parte da roubalheira que havia por lá. Senti-me desconfortável, e não sei se o acréscimo que ele fez melhorou ou piorou o meu estado de espírito: “Fomos nós que ensinamos os brasileiros a roubar. Agora estamos pagando por isso.”

     Eventos como esse não mascaram a poesia e a gratuidade que existem em viajar, romper as amarras da rotina, adentrar outras geografias e espreitar no rastro do tempo um presente perdido, que amanhã será o nosso.

  • Striptease

    De longe, só se vê que há luz no quarto, mas pouco se distingue o que acontece lá dentro. Com meu binóculo, escondido atrás da cortina no apartamento do prédio em frente, tenho visão privilegiada e posso ver tudo com detalhe. Posso vê-la tirar a roupa, por exemplo. Como agora. Ela acabou de entrar. Jogou a echarpe no chão e sentou-se na borda da cama para tirar os sapatos de salto. Joga-os num canto. Começa a desabotoar a blusa. Noto que está um pouco mais cansada do que o habitual, há rugas acentuadas na testa, olheiras fundas. Imagino o dia puxado de trabalho que ela teve e me comovo.

    Agora de pé, ela abre o zíper da saia e a deixa cair até os tornozelos. Com um movimento da perna direita, joga a peça em cima da cama. Vai de um lado ao outro do quarto, olhando em volta, como se procurasse algo. Para e inclina-se para tirar a meia-calça, que larga no chão. Assim, de blusa e calcinha, descalça, solta o coque e balança a cabeça enquanto os cabelos lhe cobrem as costas. Parece que encontrou o que buscava. Acende o cigarro e fuma na frente da janela, olhando o movimento da rua.

    Volta-se para dentro e apaga o cigarro no cinzeiro da mesinha de cabeceira. Retorna ao ritual de desnudamento. Tira as rugas, aquelas que ainda povoam seu rosto e que resistem ao creme hidratante usado diariamente. Arranca também as manchas dos braços e as olheiras escuras que lhe fazem penumbra nos olhos. Desfaz-se completamente das varizes e estrias das coxas e panturrilhas. Aos tufos, e com movimentos bruscos das mãos, livra a cabeça dos indesejados cabelos brancos que envelhecem a moldura de seu rosto. Olha-se de costas no espelho grande da penteadeira e arranca de uma vez a gordura acumulada nas nádegas. Agora de frente, elimina por completo, com a ajuda de uma esponja, o olhar sombrio que tinha até então. Esfrega os seios e o sexo, empurrando para o chão todos os homens que escreveram a história de seu corpo. Por último, respira fundo como se precisasse tomar coragem e puxa de uma só vez a cicatriz da cesariana.

    Completamente nua, o olhar sereno, fecha as cortinas e apaga a luz.

  • Trama subjetiva nas mentes!

    O poder político mantém certas ideias para gerir uma nação, desenha caminhos fartos de opções no cotidiano do povo, que está a espera de sua colaboração e sustento. 

    O poder da biologia carrega em suas raízes a capacidade de escrever a data de seu velório. 

    O poder espiritual, sustenta a igreja com certas regras e posturas limitadas pela fé, diferenciado substancialmente com espírito e alma aos pés de sua prole. 

    Carrega a eternidade como salvação das almas e mantém o religioso atento às esperanças de paz no céu após sua partida. 

    Como entender o predomínio de um poder que tal data manda, tal povo, tal decisão e aspirações, se os propósitos parecem distintos e as forças diferenciadas? 

    No tempo de Milcíades, um jovem General Helenico que comandou a vitória sobre os Persas no mundo mediterrâneo, ignorava-se a existência do mundo extremo-oriental, e o poder exercido em tal época não tomava conhecimento de absolutamente nada mais, além da poderosa Atenas, maior potência da antiga Grécia. 

    Esse isolamento vaidoso, transformou esse general soberbo em um derrotado, e preso, ao final malogrado. 

    De maneira similar faziam os guerreiros de Atenas, para suas mulheres. 

    Elas Teceram para seus homens, soldados, ausentes além da morte, dedicadas aos filhos e sustento da família. Subservientes a supremacia masculina, talentosas, entregaram suas vidas e desejos ao se dedicarem exclusivamente as lides domésticas, a servidão sexual, a procriação, para alimentar a guerra, e por isso sofreram suas perdas.

    A Grécia Antiga não era uma nação, mas sim um conjunto de cidades-estados cujos povos possuíam algumas características em comum, como a semelhança linguística, por isso foram chamados genericamente de gregos. 

    Porém, ninguém jamais exerceu tanto poder na terra quanto a soberania da opinião pública, que é a força radical, e que produz, nas sociedades, o fenômeno de mandar e descobrir o que é verdadeiro.

    A verdade é algo instável, resultado de uma negociação, porque a história é contada com a versão de cada narrador, e o poder é a questão central de nossa existência, é a maneira como estamos dispostos a aceitar o valor de certos discursos contra outros. 

    E isso depende de quem está falando, se é poderoso, homem ou mulher, branco ou negro, sempre irá exercer uma trama subjetiva nas mentes do povo, que se mantém na expectativa do próximo passo, que o leve a redenção. 

    Além da morte, não sabemos ao certo o que é verdade, apenas até o seu momento.

  • Deixa o mundo lá fora, vai

    À primeira vista, nenhuma graça. A turma está lá fora, jogando bola, tomando cerveja no boteco, nadando no clube. E você? Está ali, concentrado, alheio, lendo. “Que programa mais besta!”, “Quem lê demais fica doido!” — já ouvi de tudo.

    Mas ler é outra história. Bem diferente de ver série, filme ou novela. Quando alguém filma, quer que você compre a ideia dele. No livro, a escolha é sua. Você decide o que quer, do jeito que gosta, no seu ritmo.

    E qual é a graça, então? A leitura dá assunto pra conversa: política, comida, viagem, cinema… Você não fica com aquela cara de paisagem quando alguém chega pra bater um papo.

    Mais que isso: tem personagem que parece até irmão gêmeo da gente. E, na imaginação, o herói pode ser você — ou o vilão. A escolha é sua.

    Ler não prende. Dá pra aproveitar no intervalo do almoço, esperando no banco, no aeroporto, até dentro do táxi.

    E o melhor: é barato. Um amor que cabe no bolso, sempre por perto.

    Quem lê não engole qualquer coisa que o primo, o padre ou o pastor falam.

    Um livro pode virar tudo de cabeça pra baixo. Pode fazer você mudar de profissão, trocar de cidade, experimentar uma comida nova, viver outros amores, botar gente chata pra correr.

    Pode provocar risos altos na rua, lágrimas diante de um prato de sopa, aquela cara engraçada no ônibus.

    No fim das contas, um livro é uma fonte de prazer sem fim. Pena que nem todo mundo sabe disso.

  • Poema #4: Rondó randômico

    A tosse que se ouviu pulsar,
    entranhada nas dobras do ar,

    ouvi que nunca houve outra igual,
    engasgo ou sintoma de um mal
    que se ouvisse sem se escutar.

    Como prever em qual lugar,
    incontrolável como o mar,
    recairia o surto canibal
    que se ouviu pulsar?

    Nesse jogo de sorte e azar,
    tecido com ardil no tear
    da imprecisão proposital,
    cada lance adia o final
    do giro sem fim do pesar
    que se ouviu pulsar.

  • Poema #30: A Voz do Silêncio

    Estou acordado
    e não sonho,
    mas a realidade
    antecipada
    me envolve.

    A barba se me
    desprende do rosto
    fio a fio num frio
    maior onde estou
    me enregelando.

    Tudo se dissolve
    na aparência de ossos
    de que fui formado,
    e que é minha forma
    mais resistente no mundo.

    Mas a terra
    (com seus vermes)
    decompõe ao seu contato
    todo o meu aprendizado
    doloroso da vida.

    E uma cova me absorvendo
    transforma tudo o que fui
    num triste resumo de pó
    que um dia se chamou homem.

    E que lhe deram um nome
    (que tive), mas que a terra
    aterra no tempo o traço
    nominal dessa efemeridade.

  • O crítico perfeito

    Não havia estática no ambiente coabitado por seis espaços, sexta-feira inaugural de um coquetel em meio a formas geométricas suspensas; horas que se observavam tentando segurar a respiração e manter o mesmo compasso entre os minutos.

    Perder-se não é uma brecha no tempo, pelo contrário.

    São chaves que não abrem porta alguma, mas pendulam na possibilidade. Está introduzido o conceito curatorial de luz, memória e tempo.

    São todos os fusos horários em um coro uníssono que nos convida a passar o tempo com quem mais importa: nós mesmos.

    São palavras-abismo, tic-tac fragilizado pelas letras que os retiram das horas e os tornam instalação de arte.

    Na última sala, são as sombras do público — tal corpo heterogêneo e encantado de convidados, artistas e meros transeuntes — transformadas em projeções de luz que revela a história da cidade. É o fazer arte, o abrir dos múltiplos sentidos que fazem algo conceitual existir. Corpos parados, movimento. A estática não existia, e existia: tudo é repouso, sob tensão.

    Enquanto as duas salas centrais introduziam ao mundo, por primeira vez, a versão corpórea do ser que vos fala aos domingos — eu — , em seu corpo dúbio de ser artista e um cpf trivial, abriam-se também, nas telas-smart da fachada principal, janelas outrora fechadas. Elas vazavam a exposição para o presente: o tempo movimental da cidade.

    Câmeras escondidas, como parte da própria resistência artística, desafiavam os limites do espaço físico do centro cultural, deixando escorrer, discretamente, imagens para fora da arquitetura. Palavras em suspensão reagiam aos recortes de acrílicos que desafiavam as leis da gravidade, transfigurando-se em inéditos poemas, de visualização, por vezes, única. As perspectivas beiravam uma infinutude de hipóteses.

    De todas as hipóteses, havia um ser peculiar naquele entardecer. E não se trata dos alguns de quatro patas que zanzaram com seus tutores e não assinaram o livro de presença, mas vieram. Zeca, o meu Zeca, foi um deles. Mas esse, não. Não caminhava ereto como os outros, tampouco observava com a pressa dos sabidos. Preferia o chão. A frieza do piso de pedra, a polidez que refletia o que estava em cima, embaixo. Ali, deitado, encarava o mundo com a solenidade de quem conhece o segredo das coisas que balançam. Em suas mãos, um saco industrializado, aberto e barulhento. O mastigar como forma de não perder o presente.

    Algumas pessoas passavam e notavam. Outras, focadas em suas reflexões artísticas, nada viam além das obras. Havia aqueles que apenas se preocupavam com o enquadramento da selfies perfeita e tropeçavam na existência miúda sem perceber que ali — ao rés do piso encerado — havia filosofia em estado bruto.

    As placas, suspensas por fios de nylon invisíveis, dançavam como se tocadas por uma orquestra de suspiros. Um sopro aqui, um braço ali, e pronto: uma dança ao sabor do inesperado. Eram acrílicos coloridos, mas, vistos de lado, tornavam-se lâminas de tempo, quase perigosas em sua beleza oblíqua.

    Ele — ou seria ela? — permanecia absorto, talvez tentando compreender por que o que aprendera como vermelho parecia tão roxo por baixo, ou por que o verde fazia sombra de ouro. Sons guturais saiam de sua garganta. Palavras disformes como a produção de sentido. Eis que soltou uma risada.

    Não daquelas educadas, mas uma gargalhadinha breve e torta, como quem foi pego de surpresa por uma pequena embriaguez. Silêncio em toda a exposição luminosa.

    Era água com gás.

    Bebida dos deuses, claro — mas só para aqueles que ainda não sabem que deuses existem.

    Em literatura pode-se descrever assim: um espírito antigo num corpo novo. Ou ainda: uma criança-pedra, meio estátua meio relâmpago, comendo batatas como quem consagra o instante; fantasma da manhã seguinte, vinda para lembrar que tudo o que é belo balança — e passa.

    Eu, Bia Mies, apenas observava. No entre, espacial, temporal, emocional e luminoso da minha primeira inauguração artística. Só fui entender tudo quando ouvi minha outrora assistente dizer, com um suspiro de vencida:

    — Athena… Athena. Vamos. Está na hora de dormir.

    Eis o mistério desfeito: o ser filosófico, bêbado de água com gás, era apenas uma criança de quase dois anos, que comera torradinhas demais e decidira deitar-se no chão da exposição para apreciar o tempo à sua maneira. O crítico perfeito.

  • Nada de Novo no Front

    Nada de novo no front.

    Mais uma guerra… E as guerras não têm nada de bom…

    E esta crônica, infelizmente, se repete. Mais uma crônica sobre as guerras, quando não se deveria escrever crônicas sobre guerras!

    Contudo, mais uma vez, preciso escrever que não há nada mais estúpido do que a guerra!

    A guerra interrompe o canto. Paralisa o jogo. Congela sentimentos.

    A guerra separa amores, aniquila sonhos, pulveriza infâncias, desmaterializa as coisas e desumaniza os humanos.

    A guerra vive de farrapos e de figuras esquálidas. A guerra se alimenta do medo!

    E por que fazemos tantas guerras?

    A mesma ganância, o mesmo poder, a mesma influência…

    Às vezes, faz-se guerra pelo simples prazer de guerrear. Assim, animalesco e brutal.

    Às vezes, faz-se a guerra por não ouvir. Por não querer ouvir! Por jamais ouvir o que é diferente!

    Outras vezes, faz-se a guerra por querer gritar verdades específicas que um grupo toma para si como a única verdade!

    No entanto, a verdade mesmo é que as guerras ensinam dor e solidão.

    A tradução de uma guerra está nos olhos marejados de uma mãe que não receberá seu filho.

    A tradução de uma guerra está nos traumas e nas memórias de uma nação inteira que segue enfrentando fantasmas…

    A guerra e os estúpidos que a veneram.

    Estes estúpidos amam bombas, flertam com mísseis, beijam metralhadoras e se insinuam com tanques. Não sabem nada da vida! Não querem vida!

    Tragicamente, são sempre os estúpidos a governar e a iniciar todas as guerras…

    Nada de novo no front…

  • Os Jardins de Áurea

    O ambiente cheirava a alfazema, misturada ao odor morno da roupa de cama recém-trocada, que aguardava no cesto para ser levada à lavanderia. Do lado de fora, um beija-flor pairava diante da janela, como se buscasse algo que havia perdido.

    Áurea já estava pronta para receber as visitas da tarde. Vestia o traje estampado mais elegante do guarda-roupas, embora não fosse aquele que desejava usar. Sentiu as mãos ágeis de alguém prendendo seu cabelo com um elástico no alto da cabeça. Indefesa, agradeceu em silêncio por não haver espelhos ali. No escuro das lembranças, preferiu se ver de pretinho básico, desfilando pelos corredores como Audrey Hepburn, com ares de Bonequinha de Luxo. Quis afastar a lágrima que ameaçava escorrer em direção ao pescoço, mas era impossível. Conformada, fechou os olhos e abriu a fechadura do seu jardim das maravilhas.

    Nesse instante, Carlota entrou, com seu inseparável relógio pendurado no pescoço. Nas mãos, um copo d’água e a sequência de comprimidos amargos do horário. Seu andar era firme, mas automático, como quem já não pensa no caminho. Áurea, com o olhar perdido, viu nas pupilas enevoadas surgir a figura do Coelho Branco, gentil e solícito, oferecendo-lhe os copinhos. A cada gole, o sabor de torta de cerejas, de caramelo, de creme de leite, de torradas amanteigadas. Um fio do líquido escapou pela boca trêmula, aparado de imediato pelas luvas do coelho.

    Tudo pronto. Áurea foi conduzida ao salão, onde balões vermelhos pendiam do teto e cadeiras estavam alinhadas rente às paredes. Aos poucos, vultos silenciosos, de fisionomia pálida e olhar vazio, ocuparam os lugares. Imobilizada em sua poltrona de honra, ela passeou os olhos pela plateia, em busca de algum sinal familiar. Nenhum lampejo. Apenas rostos indecifráveis, sombras de um tempo esmaecido.

    O chá começou a ser servido, cada residente com sua porção, cada qual em seu canto, resignado. Quem a auxiliava era um rapaz magro, de longos cabelos encaracolados presos sob um boné. Seus dentes brancos, manchados aqui e ali, lembravam um teclado de piano desafinado. O olhar impaciente queimava mais do que o chá pelando que descia pela garganta. Ele precisava que Áurea terminasse logo, para atender o próximo da fila. Meio adormecida pelo calor da bebida, ela se viu diante do Chapeleiro Maluco, seu relógio pendurado na lapela, repetindo que o tempo não gosta de ser marcado.

    Então, voltou os olhos para os balões vermelhos, que oscilavam sob a brisa do ar-condicionado. Hipnotizada por seu movimento pendular, começou a rodopiar pelos salões de baile da memória. O tempo brincava com retratos amarelados: ela adolescente, a filha se casando, ela no colo dos pais, as brincadeiras com os netos. Tempos em que a vida resplandecia, de fora para dentro.

    Mas veio o tempo em que, num estalar de ponteiros, a ordem da Rainha foi dada: “Cortem-lhe a cabeça!” E então, nenhum movimento restou — só as pupilas escuras, insondáveis, opacas. Era sua chave para o túnel que a levava ao jardim dos sonhos. Lá onde tudo é luz, onde tudo se reveste de cores, perfumes e sabores.

    De volta ao quarto, Áurea foi colocada em sua cadeira, diante da janela. O entardecer deixava entrar os últimos raios de sol de outono, refletindo em seus olhos imóveis. Sentiu-se diminuindo de tamanho, como Alice após a poção mágica, até que se viu fora de si, pairando no ar. Seguiu então o beija-flor que ainda batia no vidro à sua procura — leve, invisível, em paz.

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