Crônicas Cariocas

  • Ah! Se eu pudesse

    Sou um cara que desconhece muito de música. Em particular os novos nomes que têm surgido, seja aqui seja no exterior. Por que? Ah não sei, acho que me dá um pouco de preguiça acompanhar tendências, sabe?

    Por isso para mim foi uma surpresa enorme descobrir que uma cantora, que eu só conhecia de nome, gravou uma bela canção do Roberto Menescal, que eu sei quem é. Ela é a Luisa Sonza.

    O nosso encontro se deu assim. Um dia explorando os meandros da televisão a cabo desci o cursor até “música”. A maior parte do acervo não me interessava mas achei uma aba – acho que o termo serve também – com sucessos do Menescal. Legal da parte da operadora destacar um cara bacana como ele.

    Entrei, cliquei, deixei o som rolar e me virei para tocar uns trabalhos ligados ao doutorado, que não vou contar quais são porque é provável que minha orientadora leia esse texto. Dito isso, lá estava eu lendo e escrevendo, com musica de qualidade ao fundo.

    De repente, não mais que de repente, entra pelos meus ouvidos a agradável canção “Diz que fui por aí”. Estava preparado para escutar Nara Leão quando a voz que veio não era a dela. Fiquei parado um instante tentando reconhecer quem cantava mas sem sucesso. Dei uma espiada e li “Luisa Sonza”.

    Não acreditei. Mas essa moça canta, canta, canta o que mesmo? Bom, canta algumas coisas que eu nunca escutei. Mas hoje, e agora, ela cantava bossa nova.

    E canta bem. Faz aquela vozinha meio rouca, meio baixa, que combina com as letras. Aquela voz de travesseiro, que é novidade para uns mas para outros, como eu, faz abrir sorrisos. Parei o que estava fazendo – por bem pouco tempo, juro!!! – para ver qual seria a canção seguinte. E veio “Ah! Se eu pudesse”.

    Que delícia. Música que agrada aos ouvidos não é só pela qualidade estética dela, que sou incapaz de avaliar porque me faltam conhecimentos. Mas, para mim, pela capacidade de acionar alguma lembrança.

    Lembranças suaves, lembranças boas. Com pessoas do passado, que fiz sorrir e que me fizeram sonhar.

    Dois minutos e trinta e seis segundos de puro enlevo. Ai, acabou. Eu desliguei o som, voltei ao estudo e fiquei com os ecos da voz dela nos meus ouvidos me sugerindo ver o mar “dizendo aquilo tudo quase sem falar”.

    Suspiro e recomendo.

  • CONFITEOR

    Hoje eu cheguei em casa, mais uma vez, com uma vontade doida de me matar. Somente é possível raciocinar com o fígado. É a história de Prometeu, e vem o abutre e lhe rói o fígado. Por isso o homem é o desgraçado que é. Não é dono do seu destino, nem do seu próprio fígado.

    Existe alguma coisa chamada destino? Predestinação? Deveria haver alguma coisa assim para justificar a minha vida, sempre sem sentido. Dizem que a ocasião faz o ladrão. O homem é produto do meio em que vive? Se eu vivesse no meio de assassinos, ladrões, drogados, teria que ser necessariamente um drogado, ladrão, assassino? É só a questão de estar ali, na hora certa. Ou na hora errada. Pode ser que o grande culpado seja o tempo.

    Existe predestinação? Se Deus é eterno, se para Deus o tempo não existe, não é preciso predestinação. Deus apenas sabe, tudo acontece no presente para Deus.

    Hoje estão descobrindo que o tempo não existe, que é invenção dos homens, convenção. Grande novidade. E a ordem do universo não é mais do que o caos. Nós nunca nos lembramos do caos que vivemos, que sensações, que ideias, que catástrofes, que emaranhado mental viveu a nossa pobre cabeça em determinado período. Tentamos entender o homem, o homem tenta entender a si mesmo. Não há nada a ser entendido. O caos não se entende. O caos do universo ou o caos da cabeça de um homem. Dizer-lhe que tudo que acontece é a vontade de Deus e que tem que corresponder a essa vontade? Na mente de Deus fui predestinado para ser santo: tenho que ser dono do meu destino e fazer-me santo na marra? Que predestinação é essa que depende de mim? Se Deus quer, faça-se. Que Deus é esse que não sabe querer? Mas como Deus pode querer se o tempo não existe? Então queriam que eu fosse mais do que Deus? Cuidado, o anjo virou diabo por causa disso. Mas queriam que eu fosse mais do que Deus, que fizesse com que a vontade de Deus se cumprisse. “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.” Parece que o querer de Deus ou o sonhar do homem dependem muito é da obra. A obra é que nasce, acontece. Tudo é fenômeno.

    Com mais de cinquenta anos de idade, nada sei da minha vida. As coisas aconteceram. O homem na vida inteira não tem capacidade de tomar decisões. Toma-as, se as toma, com um pé no acaso, outro na circunstância. Não adianta saber que o acaso é um deus muito pequeno. O inferno dos outros faz a nossa circunstância? A maior decisão é se vale a pena ou não viver. Que todo mundo vive adiando, por medo, por imbecilidade. Não transmitir a nenhuma criatura a miséria da nossa existência. Se é miséria, por que existirmos? Cioran cansou-se de elogiar o suicídio, única ação nobre a fazer na vida, com a vida, e viveu mais de oitenta anos. Incongruência? Somos todos incongruentes. Viver não faz sentido. Nenhuma decisão na vida faz sentido. Muito menos sobre o próprio viver. Ainda mais que não somos donos de nossas decisões. Decidem por nós. Quem? Deus, o diabo? “O diabo na rua, no meio do redemunho.” Gosto dessa frase. É fácil pôr a culpa de tudo no diabo. Ou em Deus. Estou defendendo uma fenomenologia das decisões. Tudo acontece. Ou deixa de acontecer, o que já é um acontecimento.

    Escrevo a próxima frase ou não escrevo? O que escrevo? Preciso escrever? Cheguei à verdade a que quero chegar? À minha verdade? Mas se é minha, não é verdade. Não importa. Quero a minha verdade. Todo mundo quer a própria verdade. Sou um Bentinho casmurrento raspando o fundo do tacho da amargura? O que quero descobrir? Capitu me traiu, e daí? A vida é danada de gostosa, mas é Capitu: vive a nos trair. Mas, e daí? Que prazer é esse de ficar cozinhando a própria amargura? Masoquismo, deixa Capitu para lá. Tudo é fenômeno, por que sofrer?

    Ser ou não ser, eis a questão. O que eu ganharia com isso? Mas tem que se ganhar alguma coisa, sempre? Só se faz alguma coisa por interesse? Bom. Eu tenho que ter algum objetivo para realizar alguma tarefa. Algum porquê. Só posso me libertar desse fardo carregando-o até o alto da montanha. Sísifo não foi mais infeliz, carregou seu fardo. O abutre roeu o fígado de Prometeu? Ele carregou seu fardo. Quando depositá-lo no chão, quando todas as costuras estiverem cosidas, bem ou mal, estarei livre dele. Não precisarei mais ficar cozinhando as minhas amarguras. O abutre poderá deixar meu fígado em paz. Mas Sísifo teve paz? Prometeu teve paz? Sísifo não morre nunca. Prometeu não morre nunca. A miséria não tem fim. Quem disse isso? É preciso imaginar Sísifo feliz – disse Camus. Não sei como. Chegou um tempo em que não adianta morrer – disse o poeta Drummond.

    O acaso de uma vida. Tudo que vivemos passa a fazer parte de nós. Não somos feitos apenas de circunstâncias. Há um eu carregado de passado, que é um gerador de tensões. Ninguém existe como um indivíduo. Eu é um mundo. Ego, id, superego? Um mundo. O que fizeram de mim. O que eu fiz de mim. Sem chorar o leite derramado. Tenho que cumprir. Sei que posso viver porque sei que posso me despedir da vida a qualquer hora. Não esperem que eu não seja incongruente. Quem está para morrer tem o direito de se contradizer. Imagine Sísifo feliz: sou eu. Imagine Prometeu feliz: sou eu. O abutre e o meu fígado.

  • Morrer pela segunda vez

    Orfeu chorou tudo o que pôde quando Eurídice desceu ao mundo dos mortos. Suas lágrimas encheram oceanos até seus olhos ficarem secos. Vendo que o pranto havia desaparecido, e como forma de manter viva a memória da esposa a quem amava sobre todas as coisas vivas, passou a cantar. E viu que cantar era bom e que todos os que o ouviam se deleitavam. Os passantes, antes de tomarem o metrô, jogavam moedas e um sorriso para o músico maltrapilho sentado no chão na entrada da estação. Aplaudiam, pediam bis e ele cantava mais. A tristeza de Orfeu não tinha fim e sua voz não conhecia cansaço. Cantava dia e noite a ausência da mulher adorada.

    Com a força de sua canção, Orfeu decidiu buscar Eurídice no mundo das trevas. Manifestou o seu amor com todas as canções que conhecia, o peito repleto de agonia, tristeza e saudade. Hades, o poderoso deus do Reino dos Mortos, se comoveu:

    — Eu devolvo sua esposa ao mundo dos vivos com uma condição: que ela o siga pelos caminhos de volta à vida e você não olhe, nunca, para trás, até que ela esteja inteiramente sob a luz do sol. E também, sob hipótese alguma, nunca mais cante uma canção. Nenhuma canção. Jamais uma nota musical deverá sair de sua garganta enquanto houver sinal de alma em seu corpo. Caso contrário, você a perderá para sempre.

    Orfeu aceitou a condição. Tomou Eurídice pela mão e deram início à jornada de regresso ao mundo dos vivos, ele olhando para a frente, ela seguindo seus passos.

    (Não olhe para mim, Orfeu. Ouça minha voz, escute os meus passos, sinta as batidas do meu coração. Estou bem aqui, perto de você. Não olhe para trás. Não permita que eu morra pela segunda vez — suplicou Eurídice).

    Enquanto andavam, e já próximos da saída, iluminados por uma réstia do sol que brilhava lá fora, Orfeu se recordou de suas canções e do quanto elas agradavam a quem as ouvia. Lembrou-se dos aplausos e das esmolas que lhe davam. Sentiu saudade desse tempo. Percebeu que seria impossível viver sem cantar e sem plateia. E então, como quem sabe que tristeza não tem fim, com o coração doído e apertado, girou a cabeça para trás e olhou para Eurídice.

  • Mirar no espelho!

    Possuo muitas bibliotecas perdidas em sonho, que descrevem experiências que vivi. 

    Não lembro de alguns detalhes saborosos de minha infância, mas recordo que meus pais me deram muito amor e carinho, e que eu gostaria de rever, trocar novamente aquela risada longa e espontânea, recheada de sorriso e abraço.

    Quando fui a escola pela primeira vez, senti vontade de ficar mais tempo por lá com os amigos, porque aquela, era a melhor parte da aula, encontrá-los, brincar e viver amizades que nasceram para toda vida.

    Meus aniversários com bolo colorido e gente ao redor, sempre foram uma diversão a parte, haviam presentes, e toda garotada estava lá.

    Você também deve ter muitas bibliotecas na mente, que guardam livrinhos com histórias únicas. 

    Momentos que se foram, mas que continuam a mostrar o quão passageiro é nosso tempo respirando.

    Que minuto você reservou para saber quanto tempo vai aguardar para realizar o seu sonho, ou de alguém que você ama? 

    Diversas vezes paramos para entender que talvez nossa hora de fechar a cortina esteja bem mais próxima do que pensamos. 

    Um fio de esperança quer que façamos nosso melhor e deixemos para outro dia o pesar de nossas falhas. 

    Aquela reflexão mórbida e tênue, que corre em nossos olhos, cor de cinza com arco-íris, confunde o teste com a realidade, suspira longo para pensar mais tempo. 

    O fato mais concreto é que deixamos de rever o que nos fez bem, e a quem possibilitou novas oportunidades em nosso caminhar zeloso. 

    Não somos independentes em quase nada, até para respirar precisamos pegar o que tem no ar e jogar aos alvéolos, sedentos de pressa em se preencher a cada instante vital.

    É uma busca de sentido como a Eudaimonia, termo grego que literalmente significa “o estado de ser habitado por um bom daemon, um bom gênio”, traduzido como felicidade ou bem-estar, é o viver de acordo com a natureza, como foi a máxima do estoicismo. 

    Sendo dessa forma a melhor maneira de valorizar o ser humano, porque hoje o que está na moda é sempre o que é novo, e o velho sábio que pode colaborar com a sapiência da próxima geração é esquecido na prateleira. 

    No passado, os velhos é que tinham poder político e cultural. Se o que nos falta é consideração a essa geração, está passando o tempo da mudança de atitude e desmedida ação em reparar esse erro.

    Não se avalie um perdedor pelo que deixou de viver, não vale a pena sentir-se mal ao mirar no espelho.

  • 12ª Escola a Desfilar: Salgueiro – A Delirante Jornada Carnavalesca da Professora Que Não Tinha Medo de Bruxa, de Bacalhau e Nem do Pirata da Perna-de-Pau

    “Mestra, você me fez amar a festa / E eu virei carnavalesco / Sonhei ser Rosa / Te faço enredo’’. Enfim, chegamos à escola que será responsável por fechar os desfiles de 2026 na Sapucaí. A Acadêmicos do Salgueiro. Ela vem fazendo uma homenagem mais que merecida a uma das maiores personalidades no que diz respeito a fazer desfiles de escolas de samba. Sabem de quem se trata?

    Quem conhece carnaval vai achar essa pergunta totalmente desnecessária, pois Rosa Magalhães dispensa apresentações. Maior campeã da história dos desfiles das escolas de samba, com 7 títulos, ela não se resume aos títulos que conquistou. Artista plástica graduada em pintura, indumentária e cenografia, até mesmo depois de sua partida, continua contribuindo na construção da arte que sempre amou.

    Isso porque, Rosa não só será enredo, mas também é referência para uma série de carnavalescos que marcaram essa nova geração e, ano a ano, vem ajudando a reinventar o carnaval sem esquecer de suas origens. Um desses, declaradamente fã da mestra, brilha em uma escola onde ela fez história, trata-se de Leandro Vieira que, sem sombra de dúvidas, não é o único grande fã de Rosa.

    Para falar dessa grande figura, o Salgueiro vem com um enredo que vai exaltar os carnavais feitos pela carnavalesca nas diversas escolas que passou. Para isso, Rosa se tornara uma heroína que vai viver as histórias dos enredos que levou a avenida. O desfile do Salgueiro promete.

    É dessa forma que terminam os resumos dos enredos das escolas do Rio de Janeiro, com a frase: “nem melhor, nem pior, Salgueiro”. Essa frase resume o espírito do carnaval em que a competição existe, mas que o mais belo é a materialização do maior espetáculo da terra que acontece na avenida. Nesse sentido, independente de quem venha a ser campeã, todos as escolas já o são.

    Viva o Salgueiro e viva Rosa Magalhães!

  • 11ª Escola a Desfilar: Grande Rio – A Nação do Mangue

    ‘’Freire ensine um país analfabeto que não entendeu o manifesto da consciência social”. É com esse grande soco na cara que a Grande Rio inicia seu samba enredo fazendo alusão a um dos maiores intelectuais que esse país já teve. Paulo foi teórico que tentou, por meio da educação, ver a emergência das periferias. O Manguebeat, por meio da música, tentou o mesmo. Você conhece esse movimento?

    Manguebeat foi um movimento que surgiu no Recife, no início dos anos 1990, que fazia uma junção de vários ritmos regionais, como o maracatu, o coco e a ciranda, com ritmos já consagrados, como o rock, o hip hop e a música eletrônica. Seu maior expoente foi Chico Science, infelizmente já falecido. Esse movimento tinha como seu principal objetivo criticar a desigualdade social.

    Dessa forma, a Grande Rio vem com um enredo que já deixa claro sua intenção desde o início. Falar sobre um Brasil que, apesar de sempre tentar ser esquecido, emerge das margens e escancara suas mazelas sociais.

    Curiosamente, e felizmente, o faz por meio da arte, meio pelo qual é possível transformar o caos e a lama em riqueza. Essa que não se refere ao dinheiro, mas a cultura.

    Vale a pena recorrer ao próprio texto da sinopse para entender um pouco mais do que esse movimento era, segue o trecho: “A nação do Mangue – o Antromangue idealizado por Chico Science – é a nação dos que festejam como resistência, os que dançam em volta da roda, batem seus tambores, bebem cerveja antes do almoço, pensam melhor, pulsam com as caixas de som, rompem as fronteiras do mundo, creem na arte, na ciência e na natureza das coisas, vestem-se como reis e rainhas, beijam seus beijos, amam seus amores, fazem carnaval, brincam com quem têm que brincar, brigam quando têm que brigar, celebram a vida e, do todo entranhado nos corpos, erguem e honram seus impressionantes castelos de lama’’.

    Ou seja, do ordinário viver comum, emerge algo extraordinariamente rico, poderoso e revolucionário. O Brasil teve e sempre terá essa capacidade.

    Viva o Manguebeat e viva Chico Science!

  • Fervor

    Não tinha nenhuma pretensão de me esquivar. Sou jogo aberto, embora um pouco carrancudo. Apesar da minha masculinidade exacerbada, dei total liberdade aos meus filhos. Paulinho era o único que não se abria muito. Vez ou outra, mesmo depois da separação de sua mãe, tentava uma saída só nossa, para assistir a um filme ou tomar uma. Ele sempre desconversava, e eu sentia uma saudade danada. Paulinho, depois dos dezessete, notei, se tornou introvertido. Um menino superativo na infância havia se tornado tímido, retraído, por conta, decerto, da pressão social. Lógico percebi a mudança de voz, ou uma leve mudança de voz. Acompanhado a isso, traços de feminilidade transbordavam, não tinha jeito, por mais que tentasse camuflar. Nunca toquei nesse assunto, para não o atordoar com bobagens. Que me importava se meu filho fosse gay? Porra, nunca tive preconceito algum! Paulinho não me permitiu ser seu amigo como gostaria de ser. Outras pessoas da família, sim, pegavam no pé, e eu mandava todos se ferrarem. Peguei uma briga foda com parte da família sacana, cacete, bolsonarista – agora, não me faz a menor falta. Nada poderia atacar o meu menino doce e humano. Quando pequeno, na casa dos dez anos, Paulinho começou a ir aos hospitais para cuidar de crianças com câncer. Ele ia vestido de palhaço, com sua trupe, e eu ficava superenvaidecido. Sensibilidade à flor da pele. Paulinho só queria viver sua vida tranquilo, em paz. Os irmãos não o incomodavam. Jorginho e Juninho não metiam o bedelho, e era uma festa quando se encontravam, apesar da diferença de idade – Paulinho era bem mais velho que os novos rebentos de um outro casamento. Estou, na qualidade de pai e amigo, pegando na mão de meu filho neste segundo e rezando para que esse pesadelo passe logo. Ele está na UTI porque consumiu grande quantidade de remédios. Os médicos e a polícia fizeram um calhamaço de perguntas sobre a tentativa de suicídio; se eu sabia qual era o motivo; se alguém poderia ter influenciado essa atitude desvairada. Respondi que a merda da sociedade era que tinha arrebentado o coração do meu filho. “Seu guarda, meu filho só queria ser gay em paz, entende?!”. A psicóloga do hospital veio conversar comigo, para que eu me desarmasse quando meu filho voltasse à vida. Disse a ela que eu era o seu maior incentivador; que isso não era problema algum. Está sedado agora. Mas pode me escutar, eu creio. Prometi que ele seria a bicha mais linda do mundo, ou a mulher que desejasse ser. Que eu faria de tudo para que, de uma vez por todas, ele fosse feliz. Percebi uma lágrima caindo de seu olho esquerdo. A verdade é que vamos sair daqui direto para um salão de beleza, e Paulinho, ou Paulinha, se sentirá a mulher mais bela do Brasil. Todo meu dinheiro será empregado para isso. Nenhuma dor assolará mais o coração de meu filho.

  • 10ª Escola a Desfilar: Vila Isabel – Macumbembê, Samborembá: Sonhei Que Um Sambista Sonhou a África

    “Meus sonhos e tambores, tintas e prazeres/ Pra você, Heitor”. É dessa forma que o potentíssimo refrão da Vila Isabel promete dedicar sua passagem pela Sapucaí ao seu homenageado. Segundo o próprio nome do enredo já fala “um sambista que sonhou a África”. Vocês sabem de quem se trata?

    A Escola do Morro dos Macacos homenageará o grande Heitor dos Prazeres. “Homem do povo” e multiartista que tem em seu currículo único os dons de ser sambista, compositor, pintor, inventor, boêmio e muitas outras coisas que a vida permitiu a ele ser. Sem dúvidas, o escolhido é uma figura que faz parte da história do Rio de Janeiro.

    Aliás, em sua vida viveu importantes acontecimentos da cidade, como as festas que Tia Ciata realizava em sua casa onde da macumba foi surgindo esse ritmo mágico que hoje se convenciona chamar de samba. Lá, ao lado de Pixinguinha tornou-se tocador de atabaques, um Ogã de Xangô e Oxum.

    Criado nesse ambiente, ele fez sua vida no samba, tornando-se “tocador” e aprendeu sozinho a tocar cavaco. Por viver nos dois ambientes, Heitor é uma figura que possui o mais alto gabarito para afirmar que “a origem do samba é a macumba”. Aos que ouvem, cabe não só respeitar, como também concordar com suas afirmações.

    Viveu o surgimento das escolas de samba, ainda na Praça XI, com outros grandes mestres, como o genial Cartola. Não só viveu como fez tudo isso acontecer.

    Por tudo isso, foi escolhido para representar o Brasil no Primeiro Festival Mundial de Artes Negras, em Dakar. Foi, mas não foi sozinho, porque o acompanharam nomes como Clementina de Jesus, Paulinho da Viola, Mestre Pastinha e outros.

    Tudo isso, permite a Vila caracterizá-lo como “Apaixonado Pierrot, Afro-rei”. Sim, um rei que será merecidamente saudado pela Sapucaí no último dia de desfiles do grupo especial. O samba magnifico dá a Vila a responsabilidade de ser a grande favorita. Será que vem título aí? Pode ser, a única certeza é que essa homenagem é mais do que merecida. Salve Heitor dos Prazeres!

  • Poema #56: Isolamento

    A lua na casa de saturno
    saturno na casa da lua
    todo mundo em casa.
    A casa de todos no mundo
    todo mundo na casa de
    todo mundo e eu que não
    encontro o meu lugar
    em lugar nenhum,
    no escuro.

    O Jardim Simultâneo

  • A polícia do sonho

    Quando Zími entrou no apartamento, a tábua do piso fez barulho. A luz do quarto de Mila Cox acendeu, ela abriu a porta e falou:

    “O universitário quer fazer a entrevista com você. Certamente porque te considera um punk velho, cheio de histórias pra contar. Deve ser machista, pouco acostumado com mulheres no rock. Ele disse que colou no show de Santo André.”

    Ela anunciou a ele que um jovem que estava presente no fim de semana anterior numa apresentação de Zími e Cox com a banda que tinham juntos, Crop Circles.

    O jovem a qual Cox se referia era estudante de jornalismo, e queria a entrevista para um trabalho acadêmico.

    “Talvez tenha preferido falar comigo pelo fato de eu ser coadjuvante. E o envelhecimento é um processo magnífico, no qual nos tornamos a pessoa que sempre deveríamos ter sido. Minhas versões anteriores estão perdoadas porque era o melhor que podia fazer na época.” — respondeu Zími.

    “Você não é coadjuvante. Nós dividimos os créditos de todas as músicas.”— disse ela.

    Ela anunciou também que compraria um baixo Gibson Thunderbird, e que daria seu Fender Jazz Bass como parte do pagamento.

    Fosse financeira ou musicalmente, isso pouco importava para Zími.

    Cox tomou a decisão ao receber de sua avó a pressão para se manifestar sobre seus planos para ingressar no ensino superior.

     Precisava tomar uma decisão, e a tomou, mesmo sendo algo que nada tinha a ver com o desejo de sua avó.

    Ela tinha agora vinte anos e ainda não tinha o desejo de entrar para uma faculdade.

    Zími tinha quarenta e cinco e se formou em jornalismo antes dela nascer.

    Geralmente era ela quem respondia às perguntas quando alguém pedia para entrevistá-los.

    Eles eram integrantes da banda Crop Circles, um duo.

    Ele era um baterista minimalista, que tocava de pé seu econômico kit percussivo, e em algumas músicas também atuava como vocalista.

    Ela era baixista e vocalista, e usava um sintetizador para suprir a ausência proposital de um guitarrista.

    Dividiam as composições, mas no palco, ela ficava à frente.

     O universitário queria fazer a entrevista de forma falada, pela câmera do computador.

    Zími já havia feito entrevistas, geralmente para outros estudantes, mas nessas ocasiões, havia respondido por escrito a perguntas que havia recebido por e-mail.  

    Marcaram a entrevista para a tarde do dia seguinte.

    Na maioria das vezes quem atendia a esses pedidos era Mila Cox, que estava na sala quando Zími estava pronto para falar.  

    Ela estava curiosa sobre como ele se sairia.  

    Sabia que se tratava de um cara bem articulado, mas que podia não medir a força das palavras, dependendo do tema abordado.  

    Num dado momento, foi perguntado se eles tinham planos de fazer trabalhos solo.

    Zími respondeu que no seu caso seria um livro, que já estava em gestação, e não outra atividade musical, ainda que o conteúdo desse livro fosse em parte relacionado à música.

    O monólogo a seguir se deu quando Zími foi questionado sobre os baixíssimos índices de leitura do povo brasileiro, logo depois de dizer que seu projeto paralelo à banda seria um livro.

    “Não tenho qualquer ilusão sobre ser reconhecido por mérito literário.

    Acho que na música conseguimos ter alguma influência cultural, pelo retorno que temos de pessoas que vão a nossos shows e ouvem as músicas que lançamos em mídia física ou pela internet.

    Mas no Brasil, a grande maioria das pessoas vai para a internet sem nunca ter lido um livro na vida.

    Será invariavelmente mais um idiota na internet.

    Terá como referência milhões de outros idiotas.

    Inspirando e apoiando uns aos outros, os idiotas na rede se multiplicam.

    Não se darão conta da própria estupidez e ridicularidade, e irão cada vez mais longe com ela, por causa da própria burrice e principalmente do retardamento mental coletivo que o cercará, e que até mesmo o acolherá na grande rede, dando-lhes mais confiança para novas empreitadas desastrosas e constrangedoras.

    Mas na verdade, essas empreitadas são desastrosas e constrangedoras apenas para pessoas que respeitam minimamente a própria inteligência, ou que tenham salvado para si um fiapo de sensibilidade e opinião própria.

    E a internet, que quando usada por pessoas que não tem preguiça de evoluir, é um portal interminável de conhecimento, uma universidade que cabe no bolso, e acaba tendo suas serventias desperdiçadas quando usadas por pessoas com a cabeça oca.

    Esse portal incrível, em simbiose com a outra parte, majoritária, que é um antro de patuscadas e um oceano de motivos para vergonha alheia, precisa ser peneirado para que dali se tire conteúdo relevante do meio de tanto lixo.

    As convicções precipitadas e inabaláveis das massas, que constituem o tão desprezível senso comum, crescem destrambelhadamente, sempre para o prejuízo do próprio rebanho, que desconhece o potencial de autodestruição que sua ignorância e alienação possuem.

    A falência cultural que atingiu essa estúpida sociedade de consumo, em todas as classes sociais, se confronta com períodos anteriores em que a produção cultural para as massas ainda tentava usar a qualidade como atrativo, ainda que misturada com recursos que a tornassem mais palatáveis para o gosto popular.

    Antes da internet, era necessário que o artista superasse o direcionamento artístico imposto pelas rádios e, no caso do Brasil, também a escassez de programas dedicados à música.

    Com a chegada dos anos oitenta, essa escassez se tornou crônica, e o Rock produzido no país enfrentava a falta de familiaridade do público, dos produtores e executivos das gravadoras com o gênero, e em muitos momentos, os arranjos típicos da época, que logo se tornariam datados.

    Os artistas da Motown e da Stax, por exemplo, tinham um nível de excelência artística indiscutível, podem agradar desde um intelectual até uma pessoa menos esclarecida, desde que esta ainda tenha alma, e que de alguma forma tenha acesso a essas obras. 

    Tornaram-se clássicos, romperam barreiras entre o que se considerava música negra e música branca, mas hoje, nem mesmo o advento da internet torna possível sua apreciação por uma maioria, que é movida por sucessos populares instantâneos e descartáveis, de qualidade rasteira, machista e sexista, e que não lhes dá consistência para durar como arte.

    Nem precisam durar, pois para a engrenagem sinistra funcionar, o povo tem que estar cada vez mais afogado em conteúdo de qualidade cada vez mais pobre.

    É preciso que haja quase imediatamente a substituição desses sucessos populares por novas aberrações musicais, que alimentam a alienação do gado, que por sua vez as consome avidamente, sem qualquer questionamento. Apenas vão seguindo o resto do rebanho. Falta referência.

    Não há saída para esse beco inóspito, uma vez que a educação e a cultura, que são armas poderosas para que uma pessoa possa adquirir discernimento, não fazem parte da realidade brasileira.

    É preciso estar muito além disso para que um território povoado possa ser chamado de país.

    É preciso que as pessoas leiam, deixem de ser bisonhas, para que não sejam manipuladas de uma maneira tão triste.

    Baseiam-se numa profunda necessidade de acreditar, ao invés de pesquisarem, para que saibam efetivamente sobre algo.

    São pessoas cheias de necessidades implantadas, que não são reais. Isso lhes causa frustrações diárias.

    Seria mais legal se vivessem menos de aparências, que deixassem de guardar taças de cristal para visitas, enquanto bebem em copos de requeijão.

    Ontem mesmo recorri a uma fuga, tomei umas bebidas pra comemorar a vitória do Uruguai sobre o time da CBF., antes de colocar som num baile da saudade. Não sei como alguém que diz ter alguma estima pelo país pode torcer pra aquela gente.

    Mas antes disso fizemos uma música parodiando a alienação do povo brasileiro.”  

    Zími foi discotecar numa festa para pessoas da terceira idade, convidado pelo pai de um amigo que fazia aniversário naquele dia.  

    Antes da conversa com o universitário começar, ele havia espetado o pen drive que levara para a festa, que tinha músicas pop dos anos sessenta.  

    Para que a discotecagem não fosse uma picaretagem completa, Zími  alternava as músicas do pen drive com a execução de compactos de vinil de Chriz Montez, Classics IV e outras coisas do gênero.  

    Na festa ele contava com uma vitrola para tocar discos de vinil e uma caixa de som para espetar o pen drive, enquanto fingia manipular os discos.  

    O universitário estava ouvindo as músicas de fundo enquanto Zími se prolongava nas respostas e perguntou sobre aquelas músicas, que não pareciam com o estilo dos Crop Circles.  

    Zími, que vestia uma camiseta dos The Germs, admitiu que nesse ponto, ele e Mila Cox sofreram influência do Jesus and Mary Chain, ao tentar colocar melodias pop encobertas por ruídos pouco ou nada palatáveis aos ouvidos médios, acostumados com hits radiofônicos.

    Quando o jovem universitário lhe perguntou sobre o que Zími esperava do futuro da música e da humanidade, ele respondeu:

    “Não vejo o futuro humano com otimismo nenhum. Do micro ao macro, a tendência é a autodestruição da espécie. Tudo está caminhando para um lado sinistro.

    As pessoas se enfurecem com banalidades cotidianas, mas quando se trata de acontecimentos que devastam suas vidas irremediavelmente, parecem pouco se importar, ou nem mesmo perceber.

    Individualmente, não é raro que atinjam patamares olímpicos de constrangimento aos poucos que pensam com alguma clareza e discernimento.

    Sobre o cenário político mundial, é ainda mais pavoroso falar.

    Logo as diferenças irão causar uma erosão política irreversível, sendo que a atual conjuntura de guerras poderá acelerar o fim a médio ou até mesmo a curto prazo.

    A música parece acompanhar esse processo. É possível encontrar coisas boas no underground, longe da grande mídia, que compactua com a destruição do cérebro das pessoas, que não apreciam música como sendo uma forma de arte, e sim como uma distração bastante rasa, machista e sexista.

    Chegamos a um ponto em que a música de qualidade, seja qual for seu gênero, é destinada a um nicho, um grupo seleto de humanos que usam o cérebro.”

    Depois da entrevista, fizeram pizza no forno de padaria que tinham na cozinha.

    No dia seguinte, começaram a compor uma música em homenagem a Dwight Twilley, assim que tomaram conhecimento de sua morte.  

  • 9ª Escola a Desfilar: Paraíso do Tuiuti – Lonã Ifá Lukumi

    “Ibarabô, agô lona/ Olukumí/ Iboru iboya ibosheshe/ Canta Tuiuti!”. Agô Ilé, início esse texto pedindo licença para comentar sobre o enredo da Paraiso da Tuiuti em 2026. Esses belos versos de um refrão em Iorubá que serão cantados pela escola na Sapucai, em 2026, revelam diversos aprendizados que fazem do carnaval uma festa necessária para o aprendizado.

    No Brasil. É muito comum a associação direta dos Orixás a todas as religiões de matriz africana. No entanto, o culto a essas divindades é uma característica partícular dos povos denominados Iorubás. Vamos conhecer um pouco dessa história?

    Quando Olodumaré. criador do mundo, soprou o Emi para que fosse criado, por Obatalá o primeiro ser humano, Orunmila tudo assistiu. Nesse momento, todos os seres foram conectados aos Orixás. Orunmila recebeu, de Olodumaré, a missão de ser porta-voz do oráculo de Ifá guiando a humanidade pelos bons caminhos.

    Após essa tarefa, Orunmila, na cidade de Ilé Ifé, transmitiu o conhecimento do oráculo de Ifá para os Babalaôs que aprenderam a decifrar suas mensagens.

    Então, foram eles os responsáveis por disseminar a mensagem do Ifá pelo mundo.

    Por meio da escravidão, essa tradição chegou ao continente americano, mais precisamente a ilha de Cuba, lugar onde os escravizados trabalharam em fazendas de cana e café e lutaram contra a injustiça da colonização.

    Foi nessa local onde o Ifá Cubano, também chamado de Santeria para fugir da perseguição, criou suas raízes e se transformou em um culto bastante popular na ilha até os dias de hoje. Essa popularidade chegou ao Brasil onde, conforme já mencionado, os Orixás são imediatamente ligados as religiões africanas, embora nem todas elas os cultuem.

    O enredo da Tuiuti é riquíssimo, fator que torna a missão de resumi-lo em um texto limitado do Instagram bastante ingrata. No entanto, só por esses detalhes fica claro que a escola vem com ricos ensinamentos. Ansioso para ver o desfile?

  • A cuíca, a ruivez e o smartwatch – sexta-feira 13 como comissão de frente

    Comprou um relógio para controlar seus batimentos cardíacos. Descobriu que, ao ter o combo de medições de oxigenação, estresse, sono e ciclo menstrual, tornava seu pulso um criador de conteúdo.

    Dados. Gráficos. Percentuais.
    O coração, finalmente, auditável.

    As notificações de redes sociais, e-mails ou o contar do tempo passaram a ser meros gadgets. O que importava era o número que subia e descia como se fosse destino. O corpo, agora, tinha analytics.

    Com o intuito — primeiro e quase exclusivo — de mapear o próprio coração, passou a utilizar a pulseira flexível de cor laranja (também havia a opção preta, mas… quem quer ser discreta em fevereiro?). Dormia com o apetrecho; acordava com um vibrar incessante no punho, notificações piscando como quem dá bom dia e já cobra produtividade emocional.

    Os picos de estresse reinavam entre a hora do levantar — rush de mensagens — e o fim do expediente, que, por ser autônoma, oscilava entre as 18h e as 2h40 da manhã. Raras vezes sua “rotina” não mudava. Aliás, rotina era uma palavra que lhe caía grande demais — como vestido emprestado, sobra um pouco no busto, aperta no quadril. Num confortável marca-passo, aprendeu a desconfortar-se da realidade.

    Tudo passou a ser normal enquanto durasse a bateria do smartwatch.
    O mundo cabia nos 67% restantes.

    O acessório laranja combinava perfeitamente com seus óculos de ciclista urbana. A cidade, que desde as novas lentes, em um tempo outrora, se enferrujara de sol e desejo, agora fazia do verão o agente ruivificante: rubicundou-se em pleno fevereiro; enrusbeceu não de vergonha, mas de coragem.

    Cortou as pontas dos cabelos e converteu-se.
    O laranja passou a ser sua segunda cor favorita — a que a identificava, a que gritava antes dela.

    Nos cinco dias de carnaval, ruiçou aos poucos, como quem aceita arder. Ardeu seu desconforto onde antes calava. Arder é uma forma sofisticada de não adoecer.

    Concentrou-se no encontro fugaz dos corpos fantasiados: as máscaras injetam uma pseudo-coragem pelas veias — um placebo de liberdade. Teatro de verdade, no rés do chão do espaço público. Deixou-se boiar nos braços de um passado transfigurado de pessoa comum, mais magra, olhos mais sinceros, vigilante e contábil de afetos, mesma leveza sustentada por um viés infantil e escorregadio.

    Liberdades hoje em dia confundem-se com libertinagens — diria alguém com sobrancelha arqueada, talvez do século XIX.

    Há um choque entre gerações jamais visto antes. Há um colapso das formas sociais estabelecidas. E isso pode ser bom. Ou pode ser apenas inevitável. Desconforto sentido, interiorizado e meditado.

    E foi então que tudo começou por uma intrépida sexta-feira 13.
    Pleno carnaval.

    Comprou um ticket de cinema para uma sessão vazia. Enquanto a cidade, lá fora, ensaiava gargalhadas com cuícas e paetês, ela escolheu o escuro climatizado. O coração — balde de pipoca à mão — ocupando uma fileira inteira de si mesma. No topo de um Mirante, na Tonelero, horas antes, era horizonte.

    Agora era plateia.
    O smartwatch marcava batimentos estáveis. Mas… e a alma? Entre a piscina do topo e o mar do térreo, como estabilizar uma coisa qualquer?!

    Purpurina everywhere. A cuíca rindo com os dentes cerrados. Um riso friccionado ecoando pelas finas paredes, soníferas de um cansaço acumulado. Um fingimento alegre. Um som que nasce do atrito — como quase tudo que importa.

    Ao tensionar sinapses, ao se permitir solitude e pausa, colapsou com quem acha que a entende e já a julga. Mas não se jogou do parapeito. Desceu de lá com graça.

    Aprendeu que pulsar não é performar.
    Abraçar as mudanças vem de um movimento corporal que envolve mente e coração.

    E talvez — só talvez — desligar as notificações seja o primeiro ato verdadeiramente revolucionário de fevereiro. Mesmo que a pulseira ainda a identifique na multidão.

  • 8ª Escola a Desfilar: Unidos da Tijuca – Carolina Maria de Jesus

    “Meu quarto foi despejo de agonia / a palavra é arma contra a tirania’’. Essa frase do samba da Unidos da Tijuca revela muito bem como sua homenageada utilizou a palavra como uma arma denunciando as desigualdades brasileiras e dando voz a pessoas esquecidas. Trata-se de Carolina Maria de Jesus, como o próprio título do enredo já revela.

    Pela sinopse de seu enredo, a Tijuca fará uma homenagem ao estilo tradicional. Ou seja, ela pretende contar a história de Carolina que começa no cerrado de Minas Gerais, onde a gigantesca mulher, ainda criança, aprendeu com os ensinamentos de seus ancestrais. Dentre eles, está o seu avó Benedito, o tal “preto velho que lhe ensinou os mistérios” como o próprio samba enredo já diz.

    Desse jeito, o enredo vai acontecendo em capítulos. Entre eles, está aquele em que ela vai trabalhar na roça e acaba presa e humilhada por portar um dicionário! Além disso, foi acusada de feiticeira e de ser uma mulher que queria causar prejuízos aos brancos, os donos do local (ou melhor, que achavam ser isso). Pensar em uma Carolina acusada de bruxaria é pensar no destino de várias mulheres que, ao se indignarem com as injustiças que o mundo lhes impunha, foram acusadas do mesmo.

    Infelizmente, vivemos uma realidade em que cada característica física de uma pessoa faz com que ela desça um degrau na escala social. Aí, quem é homem e branco fica lá em cima, já uma mulher, preta, que mora na periferia fica lá embaixo nessa escala que impõe diversas dificuldades para que essas pessoas sejam vistas.

    Carolina não só viveu essa realidade, ela se indignou com ela e resolveu contar. Isso porque, tinha uma arma muito mais barulhenta e potente que qualquer calibre que só se presta para calar vozes. Assim, fez de seu lápis megafone e falou para a sociedade sobre sua realidade, ainda que tenha tentado ser calada.

    Por todos esses motivos, fica claro que a Tijuca acertou muito em seu enredo. É necessário homenagear a coragem de uma mulher que nunca se calou diante de sua situação. Que a força de Carolina Maria de Jesus se espalhe para outras mulheres de fibra como ela, pois serão capazes de mudar esse país.

  • Pierrô e Colombina


    Aquela canção no rádio e os pés e as mãos que batem e se batem. Chão e mesa. Suor e serpentina. Confetes e alegrias. E o moço de pierrô olha para a moça de colombina. E se olham mais até o virar da esquina.

    Bom, o carnaval chegou e o ano, enfim, começa a partir daí. Quantos não vivem dizendo isso a cada novo carnaval, a cada novo fevereiro? Todos ficam em compasso de espera. Tudo parece inerte. A expectativa é enorme, assim como as filas e a falta de paciência. E eis que a festa da pretensa liberdade dá o seu tom. Os carros alegóricos que transitam pela avenida e levam cores e delírios e gritos histéricos, além das notas dos jurados, formam um comboio de fantasia. Uma cara fantasia! A melodia é difícil? A letra é sofrível? A voz do ‘puxador’ falseia? Não importa, é carnaval!


    Aquela canção no rádio e os pés e as mãos que batem e se batem. Chão e mesa. Suor e serpentina. Confetes e alegrias. E o moço de pierrô olha para a moça de colombina. E se olham mais até o virar da esquina.

    Engarrafamentos e arrastão. Praias com águas mornas e sol acima dos 40ºC. “Aquecimento” é isso aí! Há muito gringo para ver o desfile limpo e organizado e delimitado e amordaçado e bonitinho. É a festa da liberdade, diga-se de passagem! Mas cuidado com o cronômetro!

    Há muito dinheiro envolvido na grande festa popular. Muito brilho. Negociações e aplausos e apertos de mão. Não esqueçamos as fotos com os políticos: sorrisos e acenos. Não esqueçamos também dos famosos: uma imagem é tudo! E as notas então? Beleza! Beleza! Silicones e músculos: força em ação! Mas a festa é de libertação! Olha o flanelinha aí! Não tem vaga não!

    Bandeira branca amor não posso mais… Ô abre-alas eu quero passar… Mamãe eu quero mamar… Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é? Será que ele é?

    O ano, de fato, levanta e sacode a poeira (não sei se dá a volta por cima) e tudo segue como sempre. E mais fotos e escândalos, mais flanelinhas, mais arrastões, mais filas e filas… E o calor que derrete o asfalto? E as chuvas que atormentam a cidade? O preço do leite e do pão e da carne e do açúcar?

    O poeta olha para o relógio e escuta as marchinhas do seu tempo. O cronista transcreve. Mas o carnaval passa, não passa? E passa para mais um carnaval passar… A crônica não está atrasada, não é? Palavras ao vento. Palavras como serpentinas. Palavras e o tempo…

    E o velho tempo ri dos homens e das coisas porque a maior fantasia, o maior carnaval é a própria vida. Às vezes, a gente se esquece…

  • Poema #03: Habitar o intervalo

    “A tapeçaria é uma articulação singular entre linhas e vazios, flexibilidade e resistência, o que faz do tear a metáfora por excelência da criação narrativa: porque o ar circula entre os fios como o silêncio entre as palavras.” *

    Os emaranhados da vida
    tapeçaria mal tecida
    De palavras sufocadas por amarras
    por nós
    Arremates enrijecidos do tempo
    entre as costuras

    Vida vivida
    em monobloco

    Esgarçar a tessitura
    do tempo mal vivido

    Esburacar a trama
    de pontos suturados

    Criar um circulador
    de silêncios no espaço

    Arear lembranças
    do que resta calado

    (*) Lara Manesco, em Entre Tecer e Narrar

  • A solução vive nas cinzas

    A dúvida é mesmo a assombração da humanidade, o veneno do existir. Não importa a situação. Se nos deparamos com a necessidade de fazer uma escolha ou se somos tragados pela incerteza da continuidade de algo que nos é fundamental, vem a maldita nos mastigar por dentro. 

    Quem nunca passou uma noite em claro matutando sobre o melhor caminho a seguir? Largo meu emprego de anos por uma oportunidade promissora? E se tudo der errado? Troco de curso na faculdade? E o tempo que já cursei? 

    No amor também não é diferente. Quando a insegurança monta casa em nossa mente, a alegria cede lugar à angústia. O medo de perder a prioridade na vida da pessoa amada ganha ares fantasmagóricos: Ele/Ela está diferente, será que não me ama mais? Será que vai terminar comigo? 

    Quem nunca se viu preso na areia movediça da dúvida a respeito da sinceridade do ser amado? Quer coisa pior do que não sabermos se a pessoa escolhida é realmente digna do nosso amor? 

    O inferno da incerteza não para por aí. Não termos ciência do nosso tempo de validade no mundo também acarreta todo tipo de perturbação. Seja porque adotamos a máxima “só se vive uma vez” e, com isso, perdemos o luxo da ponderação, seja porque nos travamos diante da afirmação: “o amanhã ninguém sabe como será.”

    Por isso, acredito que a quarta-feira de cinzas merece toda a nossa enaltação. Ela é a melhor solução para os impasses da dúvida, do medo e da insegurança. É ela que agiganta as emoções e o colorido dos dias de carnaval. Como faz isso? É simples: delimita com clareza o momento do fim, desenha a borda do buraco onde nos atiramos. É ela que assevera: faça tudo o que desejar, porque vai acabar, COM CERTEZA! 

    A catarse inigualável que o carnaval promove vem da garantia de que não nos perderemos em meio as nossas fantasias. SEJA TUDO QUE DESEJAR, porque a quarta-feira de cinzas vem te catar, te envelopar e reconduzir ao lugar de origem.  É feito um salto de bungee jumping, só que com a confiança de que a corda não arrebentará.

    Quer leveza maior? Chego a sentir o vento no rosto. 

    E a danada é tão assertiva que marca a hora do encontro. Ao meio-dia, as obrigações civilizatórias te enlaçam, te puxam pelo tornozelo. O pulo acontece em um abismo controlado. Mas e na vida e no amor, como é possível viver essa explosão de alegria sem que a opressão da dúvida venha nos assolar?

    Não sei… Talvez a solução esteja no caminho inverso. Na valorização das cinzas. Pouco importa quanto vai durar ou quando vai acabar. É por não saber que devemos apostar todas as fichas no desejo. Também somos o que acabou.

    E se eu sofrer? E se eu me decepcionar? Me frustrar? Me arrepender? Ah, para de medinho.

    Todo ano tem carnaval!

  • Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos

    “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos, uma história pra contar de um mundo tão distante” (Roberto e Erasmo Carlos)

    Os saudosos anos 60, além de propiciar nova consciência, clamor pacifista e efervescência artística, colocaram nos moços longas cabeleiras. Encaracoladas, cacheadas, naturais, lisas, afro, black power, rebeldes, mas invariavelmente compridas.

    Depositários inconformados de valores de uma sociedade decrépita que exaltava a grana e a guerra, os jovens ansiavam por uma nova ordem onde floresceria o amor e a solidariedade universal.

    Os profetas da Nova Era atribuíam o movimento à irrupção da Era de Aquário. “Quando a lua está na sétima casa e Júpiter alinha-se com Marte”, dizia a canção-símbolo do musical “HAIR” (cabelo).

    As mesmas cabeças que, turbinadas por alucinógenos, hospedavam interiormente loucos devaneios de libertação, faziam brotar exteriormente caracóis psicodélicos e fios emaranhados rebeldes.

    Cabelos longos significavam também transgressão à virilidade e à classificação dos gêneros segundo a tradição moralista cristã que dividia o ser humano em 2 categorias absolutas: o homem e a mulher, definidas respectivamente pelas cores azul e rosa.

    As mulheres que tinham nos abundantes cabelos a marca registrada da feminilidade como protótipo de beleza, agora enfrentavam a concorrência masculina, numa época em que os limites que separavam as duas tipologias biológicas tornaram-se mais fluidos.

    Os militares machões que promoviam a guerra e a repressão sempre tiveram aversão por cabelos compridos, enfileirando-os em pelotões capilares uniformes através de cortes tipo reco.

    O sistema opressor para impor os valores burgueses exigia do indivíduo apresentação visual condizente. As vestes e o penteado deveriam retratar disciplina e ordem. Cabelos e roupas desalinhados eram sinal de desleixo, desrespeito, rebeldia.

    A marcha inexorável do tempo sepultou os anos 60 e com eles a quimera por um mundo melhor. “O sonho acabou”, proclamou o cabeludo John Lennon.

    Com o passar dos anos, os cabelos tornaram-se grisalhos, cresceram tanto que ficaram frágeis, começaram a cair como folhas no outono.

    Cabelos compridos saíram de moda. Também saiu de moda o empenho em acabar com as guerras e salvar o planeta.

    Adveio uma nova leva de jovens individualistas com aspirações de ascensão social e fortuna material. Essa espécie em expansão era representada por um figurino asseado, bem trajado, de cabelos aparados.

    A nova safra de jovens das gerações X, Y e Z, ao invés de colares, fitas, pulseiras artesanais com a insígnia de paz e amor, portava roupas e acessórios de grife. Os hippies de outrora tornaram-se capitalistas de terno e gravata e investidores do mercado de ações e em criptomoedas.

    Alguns mais extremados ostentavam, orgulhosos, símbolos neonazistas, muitos deles… carecas. O radicalismo execrava radicalmente a presença de fios subversivos.

    Carregavam metralhadora numa mão e Bíblia noutra. Respaldam seu ódio nas palavras do mesmo Cristo que, triste ironia, pregava amor e usava vestes simples, sandálias, barba e… cabelos compridos.

    Talvez eu seja apenas um saudosista que me apegue a um passado cabeludo que não volta mais.

    Mas no alto das minhas décadas de vida, reluto em ir ao barbeiro cortar periodicamente os cabelos. A eles me apego, como uma ingênua esperança de voltar a sonhar por um mundo melhor.

  • Fantasia de Carnaval

    “Resort com all inclusive, garçons bronzeados, bíceps à mostra, tapa-olho de pirata, buffet internacional e drinks tropicais… Música dos carnavais antigos, marchinhas singelas ou picantes ressoando, sem atrapalhar a conversação… Praia de areia branca, som do vai e vem das ondas… chuveirões e piscinas de borda infinita a poucos passos… Espreguiçadeiras, guarda-sóis, serviços de massagem, banhos de imersão e tratamentos corporais… Um livro, um chapéu, óculos de sol e minhas quatro amigas da vida toda! Detalhe: tudo pago. Amo vocês.”

    Esse foi o aviso que apareceu no “záp-zap” da família. Afinal, o Carnaval é feito para brincar, sonhar, ser Cleópatra, a Rainha de Sabá, a loira da escola de samba, se é que me entendem…

    Além disso, o ano precisa começar. Já chega de réveillon. E logo vêm as contas para pagar, viver, ter, ser, morar. Ufa.

    Quero um pouco de ousadia, fantasia, alegria e folia.

    Sendo assim, vou me divertir.

    — Ah, mas isso pode ser em qualquer época do ano — dirá a desmancha-prazeres.

    — Não vai inventar moda, mamãe! — a apavorada.

    — Não vá gastar à toa! — esse é o “gestor de finanças”. Das minhas finanças…

    — Já falou com seu médico? — a hipocondríaca.

    — Mamãe, à tardinha nós vamos aí, está bem? Precisamos conversar com a senhora.

    Hã? O quê?

    Ah, crianças, do que vocês estão falando?

    Aviso? Não mandei nada hoje. 

    Onde estou? Em casa, escrevendo minha crônica semanal.

    Para a revista, ora! Qual? a revista online.

    Ah, sim, o tema?

    Escolhi este: Fantasia de Carnaval.

    Beijos, também amo vocês…

  • 7ª Escola a Desfilar: Viradouro – Pra Cima, Ciça!

    “Não esperamos a saudade pra cantar”. Essa frase do samba-enredo da Viradouro faz lembrar os versos da música de Nelson Cavaquinho “Quando me chamar saudade”. Nela, o poeta clama para que “flores” sejam conferidas em vida. Parece que a escola entendeu essa mensagem ao decidir homenagear o grande Moacyr da Silva Pinto, muito mais conhecido como Mestre Ciça, no ano em que esse gigante completa 70 anos. Como a escola pretende cumprir essa missão?

    O ano de 2026 será marcado por muitas homenagens. Aqui nessa página já foram comentadas personalidades que “receberão suas flores” de diversas formas. Baseado em seu enredo, parece que a Viradouro vai homenagear seu mestre de bateria fazendo algo semelhante ao que fará a Acadêmicos de
    Niterói, ou seja, contando sua história na avenida.

    Isso porque, a escola falará sobre a ligação do mestre com a Estácio de Sá. Berço do samba e local onde estão fincadas as raízes do homenageado. Ela também pretende falar sobre sua trajetória no samba como passista, integrante de bateria e, finalmente, maestro da batucada.

    O vascaíno Ciça fez história em muitas escolas por onde passou, iniciando sua trajetória na Estácio, escola em que comandou a bateria em um desfile que homenageava o maior rival de seu time, o Flamengo. O mestre não podia deixar tal fato passar dessa forma. Então, foi comandar a Tijuca no desfile do centenário de seu time do coração.

    Dessa forma, o mestre foi fazendo e construindo sua história. Essa, que, aliás, o coloca entre as grandes lendas portadoras da batuta que passaram na Sapucaí. Com seu talento, Ciça ganhou carnavais com uma bateria sempre afinada e doutora em fazer a galera mexer o corpo e sambar no ritmo mágico das baterias por ele comandadas.

    Por tudo isso que foi falado, não é nenhum exagero dizer que a escola de Niterói acertou em cheio na escolha de seu enredo. Conseguem imaginar a emoção que será ver esse mestre conduzindo sua bateria enquanto homenageado? Aguardo ansioso para ver.

  • Alguém salve a Língua Portuguesa!

    Queria falar de literatura. De literatura brasileira, especificamente. Gostaria, na verdade, de escrever sobre algumas das obras de Erico Verissimo, como O prisioneiro, que, por acaso, li os últimos capítulos hoje mesmo. E, preciso dizer, quanto mais leio as obras do Erico, mais certeza tenho de que se trata de um escritor absolutamente extraordinário. No entanto, não abordarei nem o romance e nem a guerra, sua temática principal. Falarei de Grêmio.

    E, vamos combinar, como tem sido difícil falar de Grêmio. Nossa geração cresceu vendo o Grêmio ganhar tudo e mais um pouco nos anos noventa. Passamos por uma década e meia sem títulos, é verdade, mas geralmente com times aguerridos, figurando quase sempre na parte de cima da tabela. Em 2016 veio a Copa do Brasil, depois a Libertadores, a Recopa e uma sequência de Gauchões. Também passamos por uma queda trágica para a segundona e, no retorno, tivemos um ano mágico com Suárez e companhia quase beliscando o título brasileiro.

    O fato é que hoje, ao assistir aos jogos, tenho vontade de criar palavrões. Sinto essa necessidade, às vezes, mesmo antes do início das partidas, bebendo ou não uma cervejinha. Nada contra o nosso novo treinador, nem contra os jogadores, que, em geral, respeito e admiro. O problema é que não há um palavrão específico que retrate exatamente a situação. Por vezes os jogos são tão constrangedores que nem mesmo o grande Erico Verissimo (caso fosse gremista) conseguiria descrever.

    No fim das contas, trata-se de um impulso, de uma onda de raiva, de ódio, de repulsa, de indignação, como só um futebol mal praticado consegue nos proporcionar. Durante os noventa minutos fico a cogitar neologismos e não encontro nada que represente tamanho desentrosamento. Falando sério, eu não sei qual urucubaca lançaram sobre o tricolor, mas passou da hora de nos desfazermos dela.

    De certa forma, sinto-me como o Tenente, de O prisioneiro, que, preso ao passado, não consegue seguir em frente, recaindo em elucubrações, questionamentos e fantasias das mais absurdas. Devo confessar que ainda sonho com as defesas do Marcelo Grohe, com a classe do Maicon, com a força do Edilson, com a canhota do Douglas, último camisa 10, e, claro, com a eterna dupla Geromel e Kannemann. Que saudades.

    Sei que para uns e outros pode parecer bobagem, mas a língua de Camões, de Machado de Assis, de Erico Verissimo, não precisa de palavrões criados durante uma partida de futebol. Já existem palavrões demais e geralmente eu os utilizo em demasia, inclusive em momentos não oportunos. Não adianta, nem nos porões do idioma há uma expressão de baixo calão que defina o futebol praticado pelo Grêmio nos últimos tempos. E, convenhamos, quem sou eu para querer criar neologismos? Deixemos isso para quem conhece. Perdão, Guimarães Rosa. Por isso, peço encarecidamente à equipe que não me permita fazer isso e passe a se apresentar de uma forma, ao menos, mais aprazível. Se não for pela taça, pela torcida, pela história do clube, que seja pela Língua Portuguesa…

  • 6ª Escola a Desfilar: G.R.E.S. Beija-Flor de Nilópolis – Bembé

    “Deixa girar, que a rua virou Bembé/ Deixa girar que a rua virou Bembé”. Começo a escrever esse texto escutando a versão cantada pelo lendário Neguinho da Beija-Flor. Será que o primeiro ano sem ele vai gerar saudades? Pergunta retórica, não é? Fato é que seus substitutos também parecem estar em total condição de levar o bonito samba da escola na avenida. Agora, vocês sabem o que é o Bembé de Mercado?

    De acordo com o próprio enredo trata-se do “maior candomblé do mundo-nascido da transgressão de João de Obá, mantido na resistência do Pai Tidu, acalentado na doçura de Mãe Lidia, insistido na inquietude de Pai Pote e preservado na firmeza de sua Iyá Egbé e de seus detentores.”

    Acho importante citar todas essas figuras. Também o é falar um pouco sobre a história dessa festa que nasceu em Santo Amaro, no ano de 1889, por meio da ocupação de João de Obá para realizar uma grande festa de candomblé que durou três dias. Desde então, todo 13 de maio, a festa se repete no Largo do Xeréu e reúne quase uma centena de casas dedicadas a essa religião.

    É essa festa carregada de representatividade e de poder ancestral que a Beija-Flor pretende reproduzir na Sapucai. Quando falo em reprodução, o faço em sentido literal. Isso porque, tanto o samba-enredo quanto o enredo indicam que a escola pretende fazer um grande Xirê na avenida.

    Conseguem imaginar a força que esse desfile promete trazer para a avenida? A Beija-Flor, atual campeã do carnaval carioca, vem forte com um desfile que parece prometer colocá-la como forte candidata ao bicampeonato. Como um amante do carnaval posso dizer que esse enredo causou grande impacto e
    uma promessa de muitos arrepios ao longo do desfile. As forças ancestrais agradecem a escola por trazer ao conhecimento do Brasil que não conhecia uma festa tão cercada de representatividade e brasilidade.

  • Carnaval e Solidão

    “Festa do pecado” – foi com esse tipo de rótulo que o Carnaval, desde cedo, apresentou-se à minha imaginação. Falava-se nele como “festa da carne”, alegria dos baixos instintos, frenesi do demo. Por isso eu sempre o recebi com uma ponta de remorso. Brincar o carnaval era transgredir não sei que piedosas regras, era se comprometer com o inferno. O corpo gozava, mas esse prazer de poucos e efêmeros dias acabava tendo um preço.

    No entanto o Carnaval não é apenas gozo do corpo, prazer dos instintos. Comporta uma outra dimensão, cheia de fantasia e sonho, alimentada pelo dramatismo de paixões que entristecem e dilaceram. Em cada folião ou foliã anônimos, sonhando nas esquinas sombrias com o próximo parceiro, reflete-se a paixão transfigurada de Pierrô, Colombina e Arlequim. Ninguém admite que saia à rua apenas para brincar – pelo contrário: a brincadeira é também esperança de algo maior, transcendente. É o sonho de uma grande paixão, o desespero fantasiado em riso.

    Dos autores que escreveram sobre essa festa, um dos que mais me impressionaram foi João do Rio. Há em suas crônicas e nos seus contos o sentimento do homem dividido entre a alegria e o remorso, e para quem o prazer físico é uma emoção torpe. João do Rio retrata a belle époque, tempo de crise e subversão de valores no qual as contradições, por mínimas que fossem, ganhavam um acento patético. Mesmo descontando-se os exageros da época, ressalta de seus textos, colorida e potencializada pelo impressionismo do estilo, a velha oposição entre carne e espírito, que comumente vem à tona numa época como a de agora. 

    E lá estão, nos textos do carioca, personagens ansiosos por mergulhar na noite, perder-se na devassidão e no abismo de outros corpos. Vão arrependidos, exalando em palavras de autocomiseração e tédio o odor de seus baixos instintos. Até que são punidos por uma espécie de logro que lhes é dado pelo objeto de desejo, que se apresenta horroroso e hediondo.

    Assim, por exemplo, a mulher mascarada e aparentemente linda revela-se, quando lhe arrancam a máscara, doente e disforme. Não é uma Vênus, como parecia; é um aleijão, de cujo nariz jorra pus. Por essa deformação estética, que frustra qualquer possibilidade de satisfação física, corrige-se um desvio ético e revela-se, ao mesmo tempo, o moralismo do autor. O esnobe e homossexual João do Rio, tão criticado pela sociedade da época, não passava de um moralista severo.

    Mas o nosso tempo é outro, bem mais prático e comercial. Longe estamos dos excessos da belle époque. Hoje é o governo que alardeia preocupação com a nossa saúde venérea, incitando-nos ao uso da camisinha. O pecado é não se prevenir, ficar doente, mas não é errado transgredir os limites do corpo. Este parece aberto a todo tipo de prazer. E a virgindade vale muito pouco.  

    Mesmo assim o Carnaval ainda preserva o romantismo de outros tempos. É falsa, mesmo na permissividade da folia, a alegação de que ninguém é de ninguém. Para além do corpo que se oferece, em riso lúbrico e escancarado, sonhamos com alguém que venha e não vá embora. Alguém que fique e nos socorra depois – quando a lembrança do gozo desfeito não for mais que uma evidência de solidão.

  • Ofensas mal disfarçadas

    Para viver em sociedade é preciso estar atento. Olhos bem abertos e ouvidos bem sintonizados.

    Por que existem várias maneiras de se ofender alguém sem usar palavreado de baixo calão. Por exemplo, atribuir à sorte as conquistas dos outros é uma delas. É uma forma velada de desprezar a preparação e o esforço que outros tiveram.

    Como se as coisas só dessem certo para uns como resultado da ocorrência de eventos positivos, favoráveis ou inesperados. Coisas que acontecem fora do controle ou da vontade humana mas que nunca dão errado. Aleatório puro ou sorte em estado bruto.

    Para essa classe de escolhidos não é preciso fazer esforço algum. Basta ficar lá sentado, embaixo da árvore como aquele primo do pato Donald, o Gastão, que o universo se movimentará a seu favor. Afinal, eles foram ungidos pela sorte, sem saberem porque e sem terem feito nada para isso.

    Bem feitas as contas, é maluquice das boas imaginar que a vida possa se organizar dessa forma. Mas para gente que acredita em terra plana, achar que a sorte é só para uns e não para outros é café pequeno.

    Outra forma de ofender sem arreganhar os dentes é mostrar surpresa ante uma demonstração de esforço genuíno ou conhecimento. Nesses casos a frase do ofensor vem acompanhada de um sorriso, ou mesmo riso, em que diz “nunca imaginei que você fosse capaz de se classificar” ou “nunca pensei que você conhecesse Moliére” (ia escrever Shakespeare mas decidi dar uma folga ao britânico).

    Nos dois casos, para ficar só em dois, não raro o ofendido não percebe que está sendo espezinhado. Fica meio atônito, sem ter o que falar direito, tentando compreender se aquilo que escutou é elogio ou crítica. É quase paralisador.

    Mas há raros momentos em que percebe a ofensa e reage, mesmo fazendo uso de ironia para não perder a linha nem provocar uma briga. Aí, o efeito é devastador contra…ele próprio! O ofensor se ofende e diz que não se pode elogiar. Faz uma bela volta no salão interpretando a vítima, em um papel escrito com a mais fina arte da manipulação. Envergonhado, o ofendido se cala e se esconde ante a culpa que lhe impingem. Quanta maldade.

    Se você chegou até aqui é porque testemunhou – ou foi vítima – dessas formas de ofensa. E se arrepende de não ter dado a resposta adequada ou ter se afastado diplomaticamente, sem oferecer o espetáculo patético da sua falta de ação.

    Isso agora é passado. O que foi não pode ser mudado. E mesmo que você consiga enterrar no mais profundo de si essas ofensas sofridas, isolando essa bagagem da superfície onde vive, o reflexo delas ocasionalmente vai latejar na sua mente. Pode não ser sempre mas em algum momento, quando você escutar um elogio, aquele parasita desprezível vai rastejar para fora do buraco em que você o confinou. Só para plantar a dúvida em você, tirando o gosto doce das coisas boas e legítimas da vida.

  • O Zé Vesgo

    O Zé roubou a Cida, só porque era vesgo o pai não permitia o casamento? Não foi por esse motivo, a Cida estava prometida a um outro – e promessa é dívida. No dia seguinte, ainda no orvalho da madrugada, escurinho, os dois irmãos bateram na porta do Zé, que ele saísse fora de casa, para morrer.

    O Zé saiu de peito aberto, olhou nos olhos dos cunhados e mandou que atirassem. Os dois tremeram na pontaria – diacho de homem que olha para um lado e a gente pensa que está olhando para o outro. O Zé mandou que atirassem mais uma vez, enquanto os olhos tortos entortavam a pontaria de novo.

    Aí o Zé disse: – Cristo mandou dar a outra face, eu dei. Agora é a minha vez – e avançou com o facão contra os dois.

    Os pobres estavam tão desprevenidos que nem tiveram tempo de reagir, morreram sem saber o que estava acontecendo.

    Quando o Zé viu, o sogro caminhava contra ele. O velho tinha os olhos em brasa: – Excomungado! Tem parte com o capeta! Já me tirou a filha e os filhos, já me tirou a vida – e, apontando o revólver contra o próprio peito, disparou.

    O Zé ficou pouco tempo na cadeia; fora legítima defesa, e ele tinha que sustentar a mulher e a sogra, as duas juntas para ajudar a lembrar.

    Por uns quarenta anos, o Zé amargou um remorso dos diabos. Tanto comeu do fruto doente da árvore da memória, que um dia resolveu ganhar coragem e cortar o mal pela raiz: uma dose de cianureto, e estava selada a abdicação.

  • 5ª Escola a Desfilar: Mocidade – Rita Lee, a Padroeira da Liberdade

    “Sou independente, fácil de amar/ livre de qualquer censura/ Vem, baila comigo/ Só de te olhar, posso imaginar loucura’’. É dessa forma, e de outras, que a Mocidade, na letra de seu samba enredo, apresenta sua homenageada. Nem é preciso perguntar quem é, pois o próprio nome do enredo já deixa evidente. Como será que a Escola pretende homenagear a gigantesca Rita Lee?

    Em comparação aos enredos já comentados aqui nessa página, acredito que o mais semelhante ao da Mocidade é o da Imperatriz Leopoldinense. Isso porque, as duas escolas optaram por homenagear duas figuras gigantescas da música brasileira. Ney em uma homenagem em vida e Rita, infelizmente, de forma póstuma. Uma outra semelhança entre essas duas figuras está na incontestável presença do feminino. Os dois tiveram que chutar as barreiras do patriarcalismo para viver da forma como queriam. Fizeram, conseguiram e inspiraram muitas pessoas.

    Nesse sentido, a Mocidade deixa claro em seu enredo que sua homenageada: “Veio ao mundo para arrombar a festa e escandalizar um Brasil que já perdia seus matizes para um opressivo cinza chumbo”. Ou seja, uma mulher de força que, em um dos mais tristes momentos da história brasileira, ousou desafiar o regime vigente.

    Além disso, enquanto “ovelha negra” de toda uma família tradicional brasileira, ela revolucionou misturando rock britânico com ritmos brasileiros e construindo uma carreira musical impecável.

    Rita é tão infinita que fica difícil encontrar as palavras certas para defini-la. Por isso, vou tomar a liberdade de fazê-lo por meio de um parágrafo que a própria

    Mocidade colocou em sua sinopse de enredo, segue o trecho: “Plural. Pluralíssima. Muitas em uma só. Rainha do rock. Cantora, compositora, instrumentalista, atriz bissexta, escritora e apresentadora. Ativista. Super-heroína dos animais. Defensora dos “frascos e comprimidos”. Padroeira da Liberdade. Sagrada e profana. Maldita pela igreja. Bendita pelos fãs. Santa Rita. De sampa. Feiticeira das palavras e atitudes contra o preconceito e a caretice, com ou sem a guitarra nas mãos. Bruxa raiz qie cruzou a lua amarela. Energia esotérica de outras dimensões. De outros planetas. De outros carnavais”.

    Ou seja, simplesmente, Rita Lee.

  • Ato saudável

    Minha vida vai muito além das limitações do eu.

    Subir os degraus de qualquer monumento todas as manhãs, me traz a oportunidade de tudo ficar claro. 

    Seria bom passar esse brilho aos olhos dos outros. Está tudo incrivelmente bem, e agora entendo que os limites entre ruídos e sons, são convenções, e todos estão à espera da transcendência. 

    É possível transcender qualquer convenção se você imaginar que pode fazê-lo. Por isso entendo que minha vida vai muito além das limitações do “eu”.

    Ser, é ser percebido, portanto, conhecer a si mesmo só é possível através dos olhos dos outros a natureza de nossas vidas mortais está nas consequências de nossas palavras e ações que continuam a se perpetuar ao longo dos tempos.

    Talvez haja um mundo melhor esperando por nós e que não estejamos mortos por muito tempo.

    Nossas vidas não são só nossas, do útero ao túmulo, estamos ligados uns aos outros. No passado e no futuro, em cada crime e em cada bondade, renascem as esperanças.

    A morte talvez seja apenas uma porta, e quando uma se fecha, outra se abre. Se não pudermos imaginar o céu, imaginemos uma porta se abrindo, e atrás dela, estará a esperança.

    Se um dia você encontrasse com a criança que já foi, aquela pessoa insegura, inexperiente, frágil e esperançosa por carinho, abraço e amor, o que você diria a ela para que pudesse chegar em seu hoje bem melhor?

    O que não vale é mentir sem sentido como descreveu brilhantemente Jean Jacques Rousseau em seu frenesi no último livro chamado “Devaneios do Caminhante Solitário”. Ele escreveu que “Mentir para vantagem pessoal é impostura, mentir para vantagem de outra pessoa é fraude, mentir para prejudicar é calunia”. “Mentir sem proveito ou prejuízo para si ou para outrem não é mentir”. 

    É ficção. 

    Não se poderia dizer que alguém mente quando dá dinheiro falso, a um homem a quem não deve”.

    Com tantas possibilidades em mentir, creio que devemos procurar ser sempre verdadeiros, e correr os riscos desse ato saudável por nossas almas.

    O universo não responde à ansiedade, ao desespero, à pressa. Ele responde à confiança, ao equilíbrio, e à entrega.

    Quanto menos você força, mais tudo acontece.

    O mundo não deve nada a você, então assuma a responsabilidade pela sua vida.

  • GUERNICA

    Um dia o azul desapareceu. Olhamos para o céu com cara de espanto. Alguém palpitou que uma tempestade se aproximava, mas aquele cinza parecido com aço sobre a cabeça de todos não tinha nada a ver com os temporais costumeiros do mês de abril. Era diferente. Havia um cheiro, um quê desconhecido que tornava aquele dia distinto. O amarelo também sumira. Ao anoitecer a luz acabou. Os namorados não se encontraram, as ruas ficaram vazias e o silêncio se impôs, tão duro que se podia cortar com faca. Nem carros, nem bulício, nem passos: a cidade estava muda.

    Pouco a pouco, como se fosse mágica, todos vimos o verde sumir diante de nossos olhos e até o carvalho milenar, parte inseparável de nossa paisagem diária, perdeu a pujança. Alguma coisa desconhecida sugou lentamente sua seiva, o tronco já apresentava rachaduras e a árvore imponente logo viria abaixo. Quase ninguém teve coragem de sair para a roça. Quem se atreveu, por força da rotina, regressou coberto de cinzas, como se um grande incêndio tivesse devastado o vale em que vivíamos.

    O choque foi maior quando percebemos que o vermelho também desaparecera e, incapazes de distinguir o sangue do barro, erguemos nossos punhos e gritamos com as gargantas cheias de poeira. O céu despencou com fúria, ferro e fogo sobre nossa cabeça.

    Na tela branca, Pablo desenhou formas delgadas, línguas apontando para o alto, corpos retorcidos em ângulos improváveis, animais em agonia, mães que choram. Foi o que ele viu. Em seus olhos nublados estava refletida a imagem de uma guerra em tenebroso preto e branco.

  • 4ª Escola a Desfilar: G.R.E.S. Estação Primeira de Mangueira- Mestre Sacaca doEncanto Tucuju – O Guardião da Amazônia Negra

    “Çai Erê, Babalaô, Mestre Sacaca/ Te invoco do meio do mundo pra dentro da mata”. É dessa forma a Estação Primeira de Mangueira pretende fazer uma conexão Rio-Amapá fazendo com que o público do carnaval conheça as tradições desse Estado por meio de uma figura pouco conhecida por muitos brasileiros. Essa é Mestre Sacaca. Você sabe quem é?

    Segundo o próprio enredo, trata-se de um “curandeiro, folião, marabaixeiro e defensor dos povos da Floresta”. Como a escola falará sobre essa figura?

    Nessa história Mangueira é personificada e está no Turé, um importante ritual sagrado e de resistência de diversos povos indígenas do Brasil que leva a conexão com os encantados. Nesse caso, após entrar em transe xamânico em razão do ritual, ocorre uma conexão da escola personificada com Mestre Sacaca.

    Dai em diante, o mestre será responsável por guiá-la aos encantos da floresta, sejam eles da curé medicinal do poder das águas, dos tambores ou da força das tradições amapaenses representadas por Sacaca.

    É muito interessante como, durante esse processo de transe, Mangueira vai se conectando a tudo o que vai acontecendo durante o ritual e vai percebendo o quanto sua existência é carregada de brasilidade e ancestralidade.

    Ou seja, Sacaca e a Estação Primeira representam um Brasil que jamais pode ser esquecido, um Brasil de tradições que precisam ser valorizadas, como o samba e o Turé. Esse enredo cumpre um papel didático muito importante ao ensinar o público amante do carnaval sobre tradições que, possivelmente, não fazem parte de suas vivências. Nisso também reside a beleza do carnaval.

    Salve a Estação Primeira de Mangueira.

  • O peso da vida

    Tento não crer nessa tristeza que me abala. Já são muitos os motivos para sofrer. Tá pensando que é por coisas externas, como a falta de minha mãe? Não, absolutamente. Perdi-a, como perdi o meu pai, num acidente de trânsito, ainda na infância. Fui criado por uma tia pobre e carrasca. Ela se satisfazia em me ver padecendo. A comida era fracionada. Seus filhos comiam mais. Nunca fui com a cara de nenhum, todos bandidos, literalmente; são assaltantes finos. Perdi o contato com eles quando o mais velho foi preso, em outro estado. Também não faço questão de tê-los por perto. Na verdade, é um grande alívio não ver titia e os seus filhinhos, que para ela não têm nenhum defeito. Disseram-me para procurar ajuda psicológica, e ri disso, porque ninguém vai saber o que sinto por dentro. Mesmo que eu fale, eles estarão passivos, esperando a minha melhora. Por que sei disso? Porque já fui a um par de psicólogos que me relegaram à sorte da insanidade. Tenho problemas com o que mora dentro de mim. Muitas vezes me acocoro ou me deito no chão para passar a ânsia da dor que me invade – é uma alternativa que me dá um pouco de consolo; e o faço em locais diversos, mesmo no shopping, quando fui pela última vez, há dois anos. Tenho medo dessa solidão, que não tem por quê. Já tive amigos, mas os perdi com o tempo, com a minha modorra, com o meu pouco-caso, por que estava preocupado com as minhas loucuras, com as necessidades geradas por um país capitalista. Mas como poderia trabalhar, se não me dava bem com gente? Sim, tenho muito medo de gente. Um médico, amigo da família, numa simples olhada, disse que eu era bipolar e fóbico. Saí arrasado do consultório. Como pode uma irresponsabilidade tamanha de sequer me ouvir?! Ele não me escutou, tirou o parâmetro por causa do meu histórico familiar, principalmente do meu pai, que era atendido por ele. Não me deu perspectiva nenhuma, maldito. Morreu na covid, com os bolsos estufados de dinheiro e soberba. Sinto muito, mas não sei mais quem sou. Perdi-me em desalinhos, em desconexões da minha mente atulhada de sentimentos vazios. Um único amigo que me restou disse que eu era capaz, que podia superar essa dor. Sei que tenho apoio moral, por causa dele; ele me salva nos momentos mais difíceis. Mas suas palavras, às vezes, se perdem no ar, como se ele estivesse falando com o nada, com o limbo do meu ser. Sou um homem triste do fim dos tempos. Não me acalanto com qualquer pegada. Nenhum evento social me agrada. Na verdade, como disse, me dá um medo desesperador. Quero fugir, e, quando não consigo, vou ao banheiro e passo o tempo necessário para me restabelecer minimamente. Evito os eventos sociais. Nilo, meu amigo, disse que preciso enfrentar, mesmo com medo, e o faço por ele, em encontros na sua casa, onde reúne a patota da infância. É o único momento que sinto ser possível, mas logo, no outro dia, recai sobre mim o peso da vida.

  • Gastando a Vida nos Bloquinhos

    Outro dia, me lembrei de uma frase que me caiu no colo de graça no Instagram. É de Mário de Andrade: “Viver é gastar a vida e não conservar a vida”. E eu penso: às vezes, a gente economiza tudo – até o que não era pra economizar. Economiza amizade, esperando a pessoa perfeita, aquela que preenche todas as necessidades, que não enche o saco, não cobra e não liga na hora errada. O amigo sem defeitos. E, com essa exigência toda, quantos amigos a gente deixa passar?

    Às vezes, economiza o riso. Ri pouco, preocupado se alguém está olhando. Queremos gargalhar de uma piada boba ou dançar soltos, mas guardamos tudo. Esses dias, fui no Bloco do Padreco – um pré-carnaval aqui em Belo Horizonte, no mesmo dia da Banda Mole. O bordão diz que “o carnaval só começa quando a Banda Mole passa”. Pra mim, só começa quando o Bloco do Padreco sai. Perto dos músicos, na comissão de frente, um grupo de freirinhas que se reúnem todo ano atrás da igreja. Fui com um amigo: duas freirinhas desgarradas rezando no meio do bloco. Tinha de tudo ali – freiras perdidas, padres bêbados, homem das cavernas, Batman. Ninguém economizava nada. Risos? Sambavam à vontade, dançavam e quebravam tudo até onde a coluna permitia. No resto do ano, essa turma só se encontra no pré-carnaval.

    Fico pensando: em que época do ano a gente gasta a vida sem ser no carnaval? Em que momento chega pra um estranho, ali meio sozinho na porta de um bar, e o leva pro meio do bloco? “Ei, não fica sozinho, vem brincar com a gente!” Gasta-se torto e a direito aquilo que não era pra economizar: amor, amizade. Quando pinta um clima, uma paquera, basta olhar de longe e sorrir com os olhos, esperando o convite. No resto do ano, a gente se quer, mas olha pro lado – tanta pressa de ganhar dinheiro, fazer coisas, pagar contas.

    A chuva não poupou ninguém. A multidão se aglomerava, se espremia perto da padaria na Praça Geraldo Torres. De vez em quando, alguém se animava e voltava a dançar na chuva. Fora do carnaval, mal nos olhamos. Vestida de freira, rezando pela alma dos pecaminosos, vi uma Kombi com “Carreto” escrito. Anotei o número, tirei uma foto sensual e mandei pro cara. O carnaval liberta, solta. Enquanto o bloco cantava “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga, “Marcha do Saca-Rolha”, “A Cabeleira do Zezé”, a energia que a gente economizou ia pro ralo. Gastamos a vida e, de certa forma, nos renovamos. Não há tristeza que sobreviva àquela algazarra toda – ela vai pra algum lugar.

    Carnaval deveria ser o ano inteiro. No fim do bloco, comentei com um amigo: “As pessoas andam tão sozinhas, só os celulares conversam pelas ruas. Mas é daquilo que a gente fez no Bloco do Padreco que sentimos falta”. Aquele abraço amigo em gente desconhecida, quando o estranho vira parceiro e os olhos sorridentes viram possível amor. E a música? “Toque que a gente vai pro meio do bloco e não se segura”. É disso que precisamos o ano todo – disso que vivemos em quatro dias intensos.

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