Crônicas Cariocas

  • O umbigo de Faustino

    Dentre todas as anomalias enfrentadas no consultório durante esses trinta e seis anos, a mais estranha foi a de Faustino. Jamais encontrei alguma lógica no seu transtorno, nem sequer cheguei a compreender o processo de cura. Um caso realmente complexo e sem registros na literatura médica. Cheguei inclusive a debater o assunto com um professor da Faculdade de Medicina no Turfe, embora não gostasse de falar sobre os pacientes fora do trabalho. Apostei errado aquele dia. Ele também nunca ouvira falar de doença parecida.

    No início cogitei escrever uma tese sobre o assunto. Achei que tivesse descoberto uma nova patologia para batizá-la com meu sobrenome. No entanto, como até hoje não encontrei uma explicação plausível, fui obrigado a abster meu ego da imortalidade.

    Fiquei tão absorto naquela anomalia que me desliguei das mais simples atividades diárias. Deixei de fazer a barba por semanas, vestia-me com desleixo, dava duas ou três garfadas em cada refeição e recorria ao álcool diariamente. Os demais pacientes me enfastiavam e, no fim das contas, pareciam crianças tolas e simplórias querendo atenção. Aos poucos, uma espécie de desânimo tomou conta do meu corpo. Minha esposa obrigou-me a visitar um colega a quem sempre tive demasiado apreço. Só então é que lentamente voltei a tomar as rédeas da minha vida, com breves recaídas, no entanto.

    Até hoje me pego pensando em Faustino. Mesmo após tanto tempo, ainda recordo o momento em que entrou no consultório com expressão desesperada, usando calça jeans e camisa vermelha. Inquieto, balançava desordenadamente as pernas e mirava o relógio a cada trinta segundos. Ainda que a aflição fosse comum no nosso dia a dia, Faustino tinha algo mais sombrio e trazia consigo um aspecto assustador. As enfermeiras o evitavam. Depois daquelas quatro ou cinco consultas, jamais tornei a vê-lo.

    Faustino enxergava apenas o próprio umbigo. Não conseguia distinguir o rosto de ninguém, nem sequer o seu, quando em frente ao espelho. Nenhum ser humano lhe era perceptível. Tudo o que via era o próprio umbigo. Aconteceu numa terça-feira.

    Quando acordou, o seu rosto não estava no espelho, o rosto do porteiro do seu prédio não estava na janela da guarita, os rostos dos colegas de trabalho não estavam nos lugares devidos. Todos eram múltiplos do seu umbigo. Faustino sabia perfeitamente que aquele era o seu umbigo porque só ele poderia conhecê-lo tão bem.

    Pensou estar delirando. Poderia ter ingerido algum alucinógeno por engano, comido algo estragado ou vencido, afinal, não conferia os alimentos da dispensa antes de prepará-los. A ansiedade o corroía a cada novo acordar porque acreditava que uma boa noite de sono encerraria tal pesadelo. Sua angústia só aumentou.

    Uma semana depois teve uma crise de pânico no supermercado e decidiu me procurar. Não sei por que me escolheu. Talvez fosse o único com horários em aberto no dia. O sofrimento de Faustino era comovente. Ele dizia me conhecer pela voz, pois via o seu umbigo sobre o meu pescoço, sobre o pescoço da secretária, das enfermeiras, dos outros pacientes e médicos na clínica. Não fosse pela voz, poderia ser atendido a cada consulta por uma pessoa diferente.

    Busquei referências médicas para aquele problema. Procurei na prosopagnosia, consultei especialistas, mas não havia relatos de pacientes que enxergavam só o próprio umbigo. Um dos especialistas chegou a rir quando mostrei o histórico de Faustino e me deixou constrangido. Pesquisei em publicações estrangeiras e comprei até um compêndio sobre medicina oriental. Não encontrei uma só linha sobre o assunto nas publicações científicas de então e, arrisco dizer, até hoje não há.

    Na consulta seguinte, expliquei-lhe que não havia referência para o seu transtorno. Inconformado, Faustino teve uma crise nervosa e ergueu a camisa aos gritos para mostrar-me o umbigo que via multiplicado, dezenas, centenas, milhares de vezes em todo e qualquer lugar. Já nessa consulta eu estava absorto no caso. Pouco pude fazer e o dispensei sem uma única palavra de conforto. Temi por sua segurança.

    Dias depois, adentrou abruptamente ao consultório enquanto eu atendia uma jovem acompanhada da mãe. A secretária não conseguiu contê-lo, tamanha a excitação em que estava. Faustino correu para me abraçar, agradeceu efusivamente inúmeras vezes e, em lágrimas, media-me como a querer fotografar meu rosto. Saiu falando alto e agradecendo aos funcionários no corredor.

    Aquela cena esdrúxula me rendeu alguma distinção e desde então a minha agenda passou a ficar abarrotada. A jovem que atendia no momento tratou-se comigo por uma década e seguidamente recordava do paciente emocionado que havia invadido a sua consulta.

    O repentino prestígio apareceu justamente quando o meu autocuidado estava em baixa. O que me intriga nesse caso não é a cura, afinal. O problema não é esse. Às vezes os pacientes adoecem e melhoram sozinhos, não é segredo para ninguém. O problema que até hoje me deixa cismado é outro. Quando Faustino ainda enxergava apenas o próprio umbigo e ergueu a camisa naquela crise nervosa, o umbigo não estava lá.

  • A coleira do cão e a coleira do homem

    Um homem de “maus bofes” passeia pela rua com seu cachorro de estimação que, apesar do jeito ranzinza do seu dono, vai caminhando ao lado dele alegre, saltitante, interessado, bem mais que o seu dono, nas alegrias do mundo.

    A alegria do cachorrinho é fascinante, parece totalmente livre e independente do péssimo humor do seu dono; homem que, ao contrário do cachorrinho, é quem parece estar numa coleira. Invisível, sim, mas uma coleira de qualquer forma.

    Bom, pessoalmente, gosto de um trecho das Escrituras Sagradas que diz que “Basta a cada dia o seu próprio mal”; o problema é que, preso por uma coleira invisível amarrada ao pescoço, o homem vai imerso nos seus pensamentos, apegado ao seu humor, sua má sorte; ao contrário do cachorrinho de estimação dele, que celebra dos primeiros raios de sol, cumprimenta os desconhecidos na rua com olhos sorridentes, pula, agita-se, late e, para desgosto do dono, puxa a coleira, arranca o dono de seus pensamentos automáticos, seu jeito robótico e aí o homem puxa violentamente a coleira do cachorro, puxa com raiva.

    Ora, a mesma cena vi em outros dias, outras praças quando, cúmplices da alegria do bicho de estimação, outros donos soltavam a coleira e deixavam o cachorro correr livre, olhavam de longe, deixavam o bichinho gastar energia, experimentar a alegria, o sol da manhã. Depois, chamavam o cachorro pelo nome, pegavam a coleira de volta, seguiam o rumo numa amizade tão bonita de se ver.

    Porém (ah, porém), este não é o caso do homem que vai agora na rua. O cachorro e seu dono, visivelmente incompatíveis, seguem o rumo deles até que, já distantes de mim e do amigo que voltava  comigo de um bloco de carnaval, somem das nossas vistas para sempre.

  • Poema #17 – CORPO

    foi preciso
    que eu fosse
    envelhecendo
    para entender
    (em parte) o
    erotismo tardio
    nos poemas de
    Drummond.

    é que precisamos
    ir perdendo para
    poder reconquistar.
    é preciso ir morrendo
    pra aprender a gostar
    da vida e tentar
    (quando não é mais possível)
    usufruir da beleza da água

    que acabou de passar.

    Da Essencialidade da Água

  • pausas: cotidiano em . p.o.n.t.o.s .

    Bateu.

    O passarinho no vidro imóvel do topo da porta da varanda. Reflexo de algo ou transparência que não parecia obstáculo? Não se sabe. O barulho foi intenso e assustou a menina, que estava naquela casa, sozinha com seu cachorro. Ambos prestaram atenção, alertas. Silêncio.

    Bateu.

    Uma mão contra a outra. Uma vez. Duas. Três. Silêncio. De novo; uma voz auxilia o movimento. Nada.

    A campainha não funciona ou… não há ninguém? Sem sinal – de vida. Repetição do processo: mãos que se encontram quase sem se sentir, tão ágeis. A voz. Um assobio. Silêncio.

    Bateu.

    O líquido com a fruta, num redemoinho premeditado. Tensão que transforma uma coisa em outra coisa para outra coisa. O metal corta e estraçalha. O barulho distrai os acontecimentos em segundos de quase alquimia. Muito barulho por nada?
    Suco.

    Bateu.

    A sensação de frio, por todo lado; o sol se esconde, o vento se faz perceber. O piso é frio, contra a pele prévia e deliciosamente aquecida. Temperatura em vertigem. Calma. Abrir de olhos, céu todo branco.

    Bateu.

    A saudade do momento antes, que já se foi, morno como um abraço infinito, aquecendo o turbilhão da vida contemporânea. Sangue que corre vívido no corpo, como o vinho é agitado na taça antes de ser aprovado.

    Bateu.

    Tum

    Tum

    Tum

    Tum

  • Direto ao ponto

    Falta de objetividade é uma característica, no mínimo, enervante! Ela se manifesta de várias formas, em diferentes situações, e não é típica do avanço da idade, muito menos da falta de capacidade intelectual. Como diriam os advogados em suas argumentações, senão vejamos:

    Às vezes ela é um subterfúgio do interlocutor que não entendeu a pergunta ou o assunto a ser tratado, então responde com evasivas para ganhar tempo. O mais comum é a pessoa simplesmente olhar para você e repassar a sua pergunta, do tipo:

    P: O que você achou da trama desse filme que ganhou o Oscar?

    R: O que achei da trama desse filme que ganhou o Oscar?

    Em outros casos, é pelo simples gosto que algumas pessoas têm de compartilhar sua excelente memória, fugindo totalmente ao tema para contar um caso que vem de Adão e Eva.

    P: O que você achou da trama desse filme que ganhou o Oscar?

    R: Bem… ele me fez lembrar de uma tia minha, sabe, tia Cotinha? Então, ela tinha uma funcionária que fazia uns bolinhos de chuva deliciosos. Eram de comer rezando! Ao final da tarde, quando meus primos estavam nos visitando e era comum isso acontecer, pois moravam perto de casa, sentávamo-nos para assistir a um filme na sala de televisão, e esperar pelos bolinhos que vinham quentinhos, polvilhados de açúcar. Então, posso te dizer que refleti bastante sobre essa trama, infelizmente sem os bolinhos de chuva, e blá, blá, blá…

    E ainda existem aquelas criaturas que não aprenderam a sintetizar uma ideia, dão a resposta correta, porém utilizando mil e quinhentas palavras quando o esperado era um sim ou não.

    P: O que você achou da trama desse filme que ganhou o Oscar? Gostou?

    R: Veja bem… (se começar assim, pode se sentar e esperar, pois a explicação será longa). Em se tratando da ambientação, acredito que reproduziu fielmente a época, pois reparei que o jardim da casa tinha variedades de plantas não comuns ao paisagismo contemporâneo. Isso sem falar na escada de madeira bastante íngreme que subia para o segundo piso e fazia uma curva acentuada, típica das residências antigas. Agora, em relação à trama, considerando o contexto em que se desenrola, eu gostei bastante, porque blá, blá, blá…

    Sou vítima várias vezes dessas três modalidades e vocês?

  • Por isso, escrevo

    Aprender sobre literatura faz parte do meu dia a dia.

    Aposentei-me após trinta e cinco anos como servidora pública. Trabalhei mais cinco anos nessa condição, até decidir que era hora de dar espaço ao novo. Mas que novo? Os jovens que me substituiriam no trabalho? A nova rotina, sem horários rígidos ou prazos? Ou, mais que tudo, o novo que sempre esteve em meu subconsciente?

    A vontade de escrever, de me dedicar à literatura, de compreender meus autores favoritos e sentir o gosto de transformar em palavras o que habita minha imaginação. Resolvi estudar. Aprendi muito, mas sei que ainda há um longo caminho a percorrer.

    Descobri a escrita criativa, o lirismo, o poder dos adjetivos bem escolhidos, a força das figuras de linguagem usadas no momento certo. Percebi que os acontecimentos não devem ser apenas narrados, mas transformados em literatura, com musicalidade, ritmo, beleza — e não simplesmente relatados como em um noticiário.

    Aprendi a selecionar adjetivos, a escolher substantivos, a encontrar poesia nas palavras.

    As narrativas devem fazer sorrir, refletir, provocar, revelar o mundo além do que se vê e se ouve. A riqueza da língua portuguesa deve encantar tanto a mim quanto ao meu leitor.

    A vida dança entre amores, desamores, honra, destino, vingança, ordem ou caos — inquietação e paz.
    Desses dilemas busco a matéria-prima da minha escrita, onde escolho as cores e sabores que coloco nas histórias que povoam a minha mente.

    Por isso, escrevo.

  • PODRES PALAVRAS

    Elas não constam de glossários de expressões chulas. Não podem ser categorizadas morfologicamente. Têm em comum apenas a repulsão que provocam, por mais subjetiva e arbitrária que seja essa agregação.

    São repugnantes por natureza. Trazem o signo do horror em suas entranhas. Assim que ouvidas ou lidas, antes mesmo que nosso racional processe a interpretação de seu presumível significado, batem direto no emocional provocando imediata rejeição. Mantém linha direta com o lado obscuro do cérebro, fazendo emergir conteúdos e imagens que preferíamos deixar quietos nos porões do esquecimento.

    Mas afinal de onde provém essa condição? Poder-se-ia argumentar tratar-se de um fator cultural. Eu diria que mais provavelmente seria um fator gutural.

    Mas uma dúvida persiste. Foi seu subjacente conceito que contaminou sua forma? Ou sua fealdade orgânica tem um liame subliminar com sua presuntiva acepção?

    O fato é que, ainda que sem revelar para que vieram ou de onde surgiram, sua mera pronúncia provoca um indisfarçável desconforto, um mal estar no estômago, eventualmente até mesmo um arrepio.

    São podres palavras, palavrões no sentido mais extensivo do termo.

    ***

    Esgoto, escroto, escopo, estupro, zigoto, peçonhento, bucéfalo, jurássico, chumbrega, mequetrefe, rebuceteio, ricochete, ambivalente, volúpia, interregno, escroque, imberbe, pundonor, hecatombe, hediondo, aborto, absorto, nu, cru, suruba, bacanal, cafuné,  outrossim, ulterior,  visigodo,  macumba, ufano, carcaça, jaez, treta, opróbrio, taciturno, pusilânime, macambúzio, birrento, banzo,  sorumbático,  gárgula, lamuriento, bricolagem, belzebu, quiproquó, barafunda, muvuca, grotão, aziago, ungüento, tara, pamonha,  busílis, úvula, galhofa, cabotino, probo, apedeuta, truculência, brucutu, vuvuzela, quasímodo, chinfrim, putativo.

    Estapafúrdio, esdrúxulo, bombástico, estrambótico.

    Bagulho, bugiganga, espelunca, geringonça.

    Sovaco, chulé, arroto, flatulência.

    Fétido, fedorento, pútrido, putrefato.

    Mocréia, bruaca, muxiba, baranga.

    Cafuzo, mameluco, chibarro, curiboca.

    Nauseabundo, moribundo, furibundo, meditabundo.

    Úmido, túmido, túrgido, tumefacto.

    Chorume, estrume, azedume, negrume.

    Bruto, xucro, ogro, bronco.

    Sacana, safardana, sacripanta, salafrário.

    Velhaco, gatuno, gaiato, larápio.

    Biltre, pulha, crápula, calhorda.

    Roxo, lixo, coxo, mixo.

    Nojo, bojo, jugo, mijo.

    Vômito, pus, cuspe, gosma, muco, pigarro, escarro, urina, caca, baba, estrume, cerúmen, seborréia, fleugma, remela, espirro, esporra, esperma, excremento, meleca.

    Frieira, íngua, ferida, prurido, comichão, cólica, brotoeja, bulimia, disfagia, câimbra, torcicolo, sudorese, hemorróida, icterícia, náuseas, herpes, lúpus, sarna, urticária, enjoo, vertigem.

    Úlcera, lepra, peste, gangrena, cirrose, esclerose, brucelose, trombose, toxoplasmose, esquistossomose, esquizofrenia, hipofibrinogenemia.

    Aids, ebola, chicungunha, zicavírus.

    Mufumba, chaboque, sapiranga, mondrongo.

    Sarcoma, linfoma, mioma, carcinoma, neoplasma, abscesso, furúnculo intumescência, cisto, quisto, cancro, câncer, metástase, pústula, fistula, hiperplasia, fibrose, necrose.

    Intestino, esôfago, estômago, pulmão, pâncreas, abdômen, tórax, cóccix, sacro, peritônio, amígdala, panturrilha, queixo, vômer, fêmur, úmero.

    Útero, prepúcio, testículo, vagina, ânus, pélvis, pênis, púbis, vulva, uretra, pentelho.

    Medonho, soturno, nefasto, funesto, fúnebre, lúgubre, mórbido, tétrico.

    Túmulo, caixão, cova, sepultura, esqueleto, carcaça, cadáver.

    Cemitério, necrotério, crematório, sepulcrário.

    Sanatório, hospital, hospício, manicômio.

    Podólogo, otorrino, obstetra, geriatra.

    Cauterização, curetagem, traqueotomia, lobotomia.

    Tumor, dor, torpor, terror, temor, horror, pavor, tremor.

    Buchada, rabada, galinhada, vaca-atolada, barreado, guisado, linguado, angu, caruru, sururu, aratu, tutu, umbu, pururuca, bobó, quibebe, xinxim, jerimum.

    Espinafre, alfafa, chicória, repolho, nabo, quiabo, inhame, jiló, jaca, cajá, caju, caqui, kiwi.

    Churrasco, chuleta, maminha, coxão.

    Carne-vermelha, febre-amarela, catarro-verde, baleia-azul.

    Glutamato, glifosato, transgênico, Monsanto.

    Glúten, nugget, nutella, miojo.

    Rinha, rodeio, vaquejada, muay-thay.

    Roto, rito, reto, rato.

    Porco, bode, bezerro, burro, cachorro, ornitorrinco, fuinha, texugo, cachalote, esturjão, barracuda, arenque, paca, pacu, baiacu, pirarucu, urubu, peru, jacu, anu, corvo, gralha, rola, pinto, carrapato, cupim, lacraia, lesma, lombriga, percevejo, escaravelho, marimbondo, gafanhoto.

    Colchetes, parêntesis, travessão, gerúndio, cacofonia, anacoluto, onomatopéia, antonomásia, catacrese, anfibologia.

    Vara, alvará, estelionato, carceragem, ouvidoria, glosar, ab-rogar, impugnar, prevaricar, tergiversar, locupletar,  tutela, concordata, hipoteca, precatório, caução, esbulho, estagflação.

    AI5, HIV, PCC, STF.

    SUS, SAMU, PIS-PASEP, BOVESPA.

    Bolchevique, Gulag, Glasnost, Perestroika.

    Azerbaijão, Cazaquistão, Uzbequistão, Quirquistão, Turcomenistão, Tadjiquistão, Baluchistão, Curdistão, Chechênia, Andorra, Bósnia, Bulgária, Kosovo, Luxemburgo, Liechtenstein, Budapeste, Praga, Tirana.

    Fatah-Al-Islam, Taliban, Boko Haram, Ku Klux Klan.

    Hezbollah, FARC, ETA, Baader Meinhof.

    Putin, Pinochet, Pol Pot, Papa Doc.

    Tzar, Salazar, Bashar, Muammar.

    Nero, Calígula, Torquemada, Maquiavel.

    Mengele, Ulstra, Bolsonaro, Garrastazu.

    Ditadura, tortura, clausura, viatura.

    Cárcere, cadafalso, calabouço, cala-boca.

    Mordaça, porrada, porrete, cacete.

    Zebedeu, Zaqueu Zulmira, Zoroastro.

    Odebrecht, Richtofen , Nardoni, Abdelmassih.

    Brutus, Luthor, Vader, Voldmort.

    Hannibal, Godzilla, Poltergeist, Pulp Fiction.

    Akira, Naruto, Pokemon,  Pikachu.

    Rutger Hauer, Heth Ledger, Renée Zelweger, Van Diesel.

    Snoop Dogg, Tupac Shakur, Dr Dre, Shaggy.

    Safadão, Marrone, Teló, Ludmilla.

    Popozuda, Catra, Tchan, Créu.

    Fuck, funk, punk, crack.

    Google, Netflix, Huawei, Bitcoin.

    Uber, Trivago, Hopihari, Agro é pop.

  • Alguém mais a viu por aí?

    Estou convencida de que a felicidade, aquela menina nada popular e tão cobiçada por nós, é fruto de uma disponibilidade interna para o bom estado de espírito. A menina parece acompanhar somente os que desfrutam de uma inclinação nata para viver no agora ou os que são habitados por uma espécie de fé, inabalável, na pureza dos seres e na dinâmica generosa da vida. 

    É possível, também, que sua presença seja consequência de alguma alteração na estrutura do globo ocular. As pessoas que caminham em sua companhia devem ter mais células cones, o que levaria à percepção de um mundo mais colorido. 

    É curioso perceber que eles não carecem de bens materiais, atributos físicos, grandes oportunidades ou sorte no amor para cultivarem uma brisa fresca e aromatizada alma. Certamente, seus eleitos têm como atributo um refinamento dos sentidos, uma poética do existir, uma relação estreita com as manifestações da arte (cantar, tocar, dançar, escrever, ler, interpretar, pintar).

    Os urgentes, os assoberbados de sucesso, os competitivos e os covardes pegam atalhos que impedem o encontro. Ela não é de amassos, demanda carinho, peito aberto e mente livre de manuais de conduta.

    Hoje, no aeroporto do Galeão, entre os viajantes não a encontrei. Sabe onde ela estava? No banheiro, na cantoria apaixonada da funcionária da limpeza. 

    Ah, felicidade… o que te seduz é a leveza do descomplicado. O conforto do simples. A graça escondida nos pequenos detalhes, na alegria do hoje.

  • Considerações de véspera sobre a véspera

    Véspera. Do latim vesperae. A tarde, ao cerrar da noite. Poeticamente, ao encerrar um ciclo solar. Dos pequenos, claro.

    Deriva também de Vésper, a estrela que não é estrela, visível a olho nu quando a tarde cai.

    Véspera é o território preferencial da ansiedade. Quando estamos a poucos passos ou horas daquilo que desejamos. Ou não desejamos mas é inevitável que venha até nós.

    Dizem por aí que a arte reside em controlar a ansiedade da véspera. Papo. Eu já tentei inúmeras vezes em mais de cinquenta anos de existência. Nesse tempo todo jamais – ou quase jamais – tive sucesso. Perco o sono que é uma beleza.

    Achei seis dicas para domar a ansiedade, reunidas pela BBC, British Broadcasting Corporation, fundada em 1922. As dicas da centenária BBC são:

    Monitore os seus pensamentos.

    Faça atividades físicas e pratique meditação.

    Encontre um propósito – nem que seja cuidar de seu animal de estimação.

    Veja o lado bom da vida (por mais que isso seja desafiador)

    Viva no presente.

    Busque terapia – na sexta posição e, a meu ver, como último recurso se os demais falharem. Ainda não cheguei aqui mas é bom ter a lista à mão. Se bem que umas linhas acima eu admito que perco o sono por ansiedade. É, acho que já é o caso de terapia. Mas vejo isso depois de malhar na academia.

    Voltando.

    Há sucessos que só duram até a véspera, como o reinado daquele rei destronado em batalha no dia seguinte. Ricardo III que teve insônia – olha mais um!!! – na noite anterior ao combate e foi assombrado por fantasmas daqueles que morreram por sua culpa. Ao menos é o que está na peça de Shakespeare que já se sabe é historicamente imprecisa. Um detalhe que não ofusca sua beleza dramática.

    Seguindo.

    Véspera da decisão daquele jogo em que o craque de um time foi para a farra e o outro foi atender ao chamado de um menino que acordou na emergência infantil do hospital chamando pelo seu ídolo. Foi na zona sul do Rio de Janeiro, no século passado, o craque prometeu ao garoto o título. E no dia seguinte, com gol de barriga cumpriu a promessa.

    No século XVII o pintor, arquiteto e artesão espanhol Alonso Cano fez uma obra em madeira intitulada “Véspera” que está na catedral de Granada, Espanha.

    O bem humorado Adoniran Barbosa tem um samba chamado “Véspera de Natal”. Termina em comédia pastelão com direito a ação do corpo de bombeiros

    “Véspera” é o nome do terceiro livro da escritora mineira Carla Madeira. Não li mas espiei uma resenha e acho que deve ser uma obra bem interessante. Vou em busca.

    Todo esse papo aleatório porque hoje, sexta-feira, 23 de setembro, é véspera. Mais uma de muitas, dirão.

    Mas para mim, a mais importante das vésperas. Quando o sábado chegar será festa. Contemplarei o momento e o viverei na boa companhia das estrelas da minha vida. Andaremos pelo mundo, plenos de alegria e em busca de diversão tendo aos ouvidos “Ode à alegria”, de Beethoven. Ao cair da noite, estaremos juntos, cansados e felizes.

    Agora, na véspera, tentarei inutilmente ao longo do dia domar a ansiedade. E a noite, só me restará achar o sono.

  • Vida e tempo

    Outrora as pessoas morriam mais cedo e nem assim deixavam de fazer as obras que poderiam notabilizá-las. Parece que a consciência da brevidade da vida levava-as a intensificar seu trabalho. Era como se, intuitivamente, soubessem que não tinham tempo a perder. Ameaçadas por um número maior de doenças sem cura, não podiam se dar ao luxo de adiar projetos e sonhos. Nossos poetas românticos, por exemplo, deixavam este mundo na flor da idade, ceifados pela sífilis ou pela tuberculose, mas as suas obras pareciam consumadas. Eram o melhor que eles poderiam fazer.  

    Hoje é diferente. Graças aos avanços da medicina e da farmacologia, nossa média de vida aumentou. Não podemos nos queixar de falta de tempo. Quem antes tinha quarenta ou cinquenta anos se considerava um velho. Hoje o indivíduo com sessenta sente-se disposto a recomeçar a vida. Supõe que ainda terá muito caminho pela frente.

    Antigamente o desafio era viver mais. Hoje, é viver melhor. Fala-se muito em qualidade e não em quantidade de vida. Uma vida longa, mas deficiente, não parece valer a pena. Isso nos remete à velha questão: o ideal é viver pouco, mas com intensidade, ou viver muito porém de forma rotineira e insípida?

    Muitos alegam que viver da primeira forma é melhor, mas o que desejam mesmo é permanecer vivos (mesmo que isso implique enfrentar os contratempos da velhice). Há um consenso segundo o qual quem vive muito triunfa sobre os que morrem mais cedo. A longevidade aparece como um troféu que confere ao indivíduo admiração e prestígio, e só os incompetentes e desleixados se deixam colher precocemente pela morte.

    Para ganhar esse troféu é preciso se submeter a um tipo de corrida diferente, no qual ganha quem chega por último. Diante disso, é melhor não se apressar. Certamente a melhor fórmula para obter esse prêmio é viver com moderação, evitando o estresse e outros males que nos impulsionam a uma existência trepidante. São grandes os malefícios que essa trepidação traz ao nosso organismo.  

    Viver devagar, no entanto, é um enorme desafio num mundo em que se exalta a excelência e o acúmulo de realizações. Como botar um freio na rotina se somos permanentemente convocados à competição e, em vista disso, a nossa agenda está sempre cheia? Quem tenta frear o ritmo não raro se sente excluído. Ao buscar se desprender das amarras que o vinculam à engrenagem do dia a dia, é tomado pelo tédio e a insatisfação. Conheço gente que, embora se queixe do excesso de trabalho, não suporta os domingos e feriados. Acha que neles falta alguma coisa.   

    O fato é que, mesmo com as cobranças do mundo moderno, hoje vivemos mais. Isso não significa que vivamos melhor nem que o maior tempo de que dispomos nos leve a realizações significativas. Todos temos momentos em que as coisas de fato acontecem, e outros em que nos limitamos a “tocar” biologicamente a vida. Ninguém garante que, se vivesse mais de 24 anos, Castro Alves teria feito poemas superiores aos que fez. Viver mais também não deixa de ser um problema; implica um desafio maior para a conquista e a manutenção da felicidade.

  • Disputa

    Não é sempre que acontece, só às vezes, quando aquilo que o Camarão traz não é suficiente para dividir entre os dois.

    Eliseu e Célia primeiro ficam nervosos como bichos famintos dentro de uma jaula. Amaldiçoam o Camarão, a mãe dele e toda a família. Que morram todos! Depois passam à exasperação e, no minuto seguinte, partem para o confronto físico. Os dois rolam pelo chão, aos tapas. Cospem um no outro. Esse confronto nem de longe se assemelha ao que acontece quando Eliseu volta para casa bêbado e chama Célia de “cadela comunistazinha, vagabunda” e ela devolve o xingamento com “chupa-rola, porco reacionário”. Isso é quase todo dia, e isso não é nada. Casamentos, ou qualquer outro relacionamento afetivo, como se sabe, costumam atingir graus de degradação e humilhação que pouca gente imagina.

    O que ocorre, porém, quando o Camarão joga sujo e não faz o serviço direito é uma hecatombe entre duas pessoas que há horas esperam a entrega num quarto mal ventilado e fedorento de suor. Quando a entrega é feita e não é o bastante para os dois, Eliseu e Célia, cada um com sua força, dão início ao confronto furioso e violento. Trocam murros, dão pontapés e cravam as unhas no rosto do outro, no pescoço do outro, na virilha do outro. As cadeiras voam pelo cômodo, os copos espalhados pelo chão estilhaçam, as garrafas rebentam nas paredes. Um ameaça o outro com faca de cozinha ou pica-gelo, o que estiver à mão. Ainda não chegaram a se ferir seriamente. A se ferir de morte, não, ainda não.

    Depois do exaustivo embate de minutos, Célia, muito mais débil do que Eliseu, sabe que desta vez perdeu a parada e se encolhe num canto do quarto, com as unhas cheias dos cabelos que arrancou da cabeça do marido. Chora de dor com o lábio rachado depois das muitas bofetadas que recebeu. Limpa com o dorso da mão o sangue que escorre de uma das pálpebras e engole o ranho que sai do nariz e desce até a boca. Soluça alto e chama Eliseu de “veado de pau pequeno, lambedor de coturno”. Está convencida de que agora não adianta fazer mais nada a não ser xingar.

    Eliseu olha para a mulher encolhida no chão, encostada à parede. Sente pena. Percebe o cheiro de sangue misturado ao de suor no quarto. Abre uma fresta da janela e olha para fora, mas não lhe interessa o que acontece lá fora. Faz o gesto automático de sempre: entrega um lenço para Célia, indicando a ferida na pálpebra. Ela aceita e pressiona o pano contra o olho para estancar o sangue. “Foda-se o meu olho”, diz ela com o que lhe resta de lábios.

    Ele, o mais forte, agora já calmo e silencioso, senta-se na beirada da cama e, com a ajuda dos próprios dentes, amarra a tira de borracha no braço e busca, apressado, uma veia que ainda não esteja seca. Enfia a agulha, recebe o baque, sente o baque, saboreia o baque. Fecha os olhos e respira fundo.

  • Cães em Condomínio: o yorkshire valentão e o dogue alemão de terapia

    No condomínio recém-inaugurado, nada demais acontecia. No início, poucos moradores, poucos problemas e quase nenhuma discussão. Sobravam vagas na garagem, a academia vivia vazia, e o silêncio era quebrado apenas pelos latidos persistentes do único cão cuja existência era de conhecimento geral: Nietzsche, um yorkshire valentão da vizinha do 304.

    Nietzsche era pequeno, barulhento e absolutamente convicto de que era um rottweiler. Sua coragem era inversamente proporcional ao seu tamanho. Latia com energia e uma certa arrogância canina para qualquer coisa que se movesse — ou deixasse de se mover. No começo, ninguém se importava. Os moradores até achavam graça. Diziam que seus latidos eram pontuais e, de certa forma, até simpáticos. “Um toque de vida num condomínio muito parado”, comentou o postulante a namorido da “mãe-de-pet solo” do Nietzsche. Quando alguém se queixava, outros o defendiam com entusiasmo: “Cachorro late mesmo.” “Ah, ele só tá fazendo o trabalho dele.”

    Nietzsche, no entanto, era sistemático. Latia sempre que o elevador chegava no andar. Latia para passos no corredor, para o funk do vizinho do 202, para o som da “tchibum” quando alguém pulava na piscina. Latia até para o próprio rabo, num looping acústico irritantemente frequente.

    Até que tudo mudou com a chegada de novos moradores: uma família com um dogue alemão, mansinho, equilibrado, cão de apoio emocional de uma criança atípica com menos de doze anos. Os moradores mais antigos não gostaram quando viram o “monstrão”. A vizinha do 304, inclusive, foi a primeira a reclamar: “Como pode um cão desse tamanho? Ninguém precisa tolerar esse absurdo.”

    A tolerância evaporou. Vieram os olhares atravessados, os cochichos nos corredores e, como era de se esperar, os comentários no grupo de WhatsApp.

    O grupo, aliás, nasceu como “Vizinhança Unida” — nome otimista e pacificador. Após alguns episódios, virou “Moradores em Ação”. Uma minoria mais participativa saiu em defesa do dogue alemão e, por tabela, contra o yorkshire. O humor oscilava conforme o nome do grupo. Um dos mais aclamados foi: “Cachorro não é gente.” Agora sim, um nome que refletia bem o clima entre os vizinhos.

    As indiretas ganharam corpo. Bilhetes começaram a surgir no quadro de avisos, em caligrafias diferentes, mas com mensagens parecidas: “Silêncio é um direito de todos”, “Tem lei pra isso, sabia?”, “Esse cachorro parece um cavalo”, “Amamos cães, mas preferimos silêncio.

    O síndico, sujeito sem muita vocação para a diplomacia, resolveu intervir. Chamou os donos dos cães para uma conversa. Com a vizinha do 304, tentou manter a calma ao expor as queixas dos condôminos: sugeriu horários mais estratégicos para os passeios com o doguinho, mencionou o uso de tapetes higiênicos e chegou a citar a convenção do condomínio. Mas ela, astuta, munida do Código Civil e da Constituição Federal rebateu cada argumento apresentado, com firmeza e embasamento. O síndico perdeu a paciência quando ouviu, com a mais serena convicção:

    — Meu filho só late de alegria.

    Nesse instante, ele deu razão ao vizinho do dogue terapêutico, que apenas tentava manter unida uma família que cuidava de uma criança especial.

    Foi então que surgiu uma ideia. A moradora do 204, que observava por trás da cortina de vidro na varanda, comentou no grupo:

    — E se chamássemos um adestrador? Mas um de verdade, desses que entendem também de gente?

    E ele veio. Alto, calmo, voz serena que amoleceu até o síndico. E, com objetividade, esclareceu:

    — Antes de condenar um cão, é preciso ouvir e entender sua relação com as pessoas.

    Conversou com todos. Sentou-se com a vizinha do 304, que confessou, com os olhos marejados, que desde a pandemia Nietzsche se tornara sua única companhia.

    O adestrador ensinou técnicas simples, eficazes. Propôs uma atividade inusitada: o “Dia do Silêncio Consciente”. Um domingo inteiro em que todos se comprometeram a minimizar ruídos, inclusive o som dos próprios julgamentos. Para surpresa geral, Nietzsche latiu bem menos nesse dia.

    Aos poucos, os latidos diminuíram. Mas o curioso foi o que aconteceu com os moradores: passaram a se cumprimentar, sorrir no elevador, trocar receitas. “Harmonia Entre as Espécies” virou o novo nome do grupo no Whatsapp.

    Nietzsche, o valentão, virou mascote do prédio. O dogue alemão, antes temido, tornou-se querido entre os adolescentes. A criança atípica do 302 começou a interagir, ainda que timidamente, com os demais. Ganhou até um desenho feito por um vizinho artista: dois cães — um grande, outro pequeno — dividindo o mesmo osso em paz.

    O treinador seguiu, enfim, para uma nova missão, em outro condomínio, com um sorriso tranquilo e uma ideia na cabeça:

    — A mente dos cães é simples. A das pessoas, nem tanto. Mas com paciência, sensibilidade e respeito, todo mundo pode aprender a conviver. Incluindo os yorkshires e os cães gigantes.

    No fim, os conflitos não eram sobre latidos. Nem sobre o tamanho dos cães. Eram sobre convivência, intolerância e o difícil exercício de viver em comunidade. Como bem escreveu Nietzsche — o filósofo, não o cachorro —, “aquele que luta com monstros deve tomar cuidado para não se tornar um deles”.

    E talvez fosse justamente isso: enquanto todos apontavam para o cão alheio, esqueciam de encarar o próprio reflexo nos espelhos do elevador. Entre cães, humanos e suas frágeis ideias de silêncio, superioridade e ordem, sempre há espaço para um pouco mais de empatia, escuta e camaradagem, especialmente entre vizinhos.

  • A Chuva

    Gotas esparsas trouxeram o chuvisco e fizeram subir um cheiro bom de terra molhada. A chuva anunciou sua chegada e pôs para correr quem estava distraído.

    A grama continuou seca e marrom, as plantas mantinham as folhas encolhidas pela desidratação, e uma leve brisa inundou o ambiente.

    De repente, a chuva despencou de forma torrencial — forte, densa e barulhenta — por poucos minutos. A primeira pancada recuou por um instante, apenas para voltar ainda mais intensa, como se uma comporta houvesse sido aberta no céu. Em segundos, as nuvens brancas, que pareciam véus de noiva se alongando no espaço, foram engolidas pela tempestade, e o céu escureceu.

    Uma pausa? Não!

    O temporal se intensificou. Descargas elétricas riscavam o céu como armas luminosas — sinuosas, douradas, prateadas. O estrondo dos trovões explodia no ar, um após o outro!

    A grande ventania passou, mas o vento ainda balançava os galhos das árvores, que pareciam adornadas por milhares de cristais cintilantes nas gotas que escorriam. A cada trovão, a cada raio, pairava a iminência do apagão.

    E aconteceu!

    Ouviu-se um forte baque, como se algo grandioso tivesse desabado. No chão, como um grande corpo com várias pernas e braços, jazia um gigante tombado — uma árvore caída bem no meio da rua! Na queda, levou consigo os fios elétricos, deixando o bairro sem energia.

    Com a luz apagada e o dia se despedindo, a chuva continuou. Forte e soberana.

    Elevadores parados, televisores mudos, semáforos sem sinais. Automóveis alternavam entre lentidão e pressa, enquanto as buzinas tomavam conta do ar.

    Por alguns minutos, a grande metrópole silenciou. O afã em sempre ter algo para fazer, a importância, a pressa e a impaciência perderam a vez. Nada a ser feito, a não ser o quê?

    Olhar a chuva!

    E nesse tempo, ela reinou…

  • Poema #16 – Convidados

    Da janela da casa onde moro
    aguardo a chegada de alguns
    amigos para a festa de
    aniversário.

    Nada se move, exceto a minha
    sombra na varanda, vazada de
    angústia, silêncio e noite.

    Fecho as janelas da casa
    onde moro e ainda dou
    uma última olhada através
    das frestas da veneziana.

    Nada se move, exceto a noite
    com a sua noção de simultaneidade
    do tempo, das pessoas e das coisas.

    Nada se move, exceto o silêncio
    que domina o ambiente e repousa
    na visão do telefone emudecido
    e inútil sobre o criado-mudo.

    Fecho a porta do meu quarto
    e a casa onde moro fica escura,
    imersa na solidão dos cômodos.

    Inventário de Sombras

  • Quando o tempo para: instantes de giz e asas

    “O mundo não está para a paciência. Mas a paciência está para o nosso bom desenvolvimento humano”.

    Assim, de costas, com o velho e conhecido giz branco em punho, desenhando símbolos e números e letras contra uma lousa verde, a professora Vida passa lições aos seus alunos, uma turma heterogênea chamada humanidade. Aparentemente simples, a lição de hoje reprovou quase a totalidade dos alunos. O simples, nem sempre, é facil. O simples, muitas vezes, é um compacto complexo. Que equaçãozinha filo-matemática desafiadora!

    Sentada na primeira fila, Olivia presta atenção não só ao que está escrito no quadro, mas aos gestos da professora, ao tom da sua voz, séria, embora doce. Sempre voltada para o quadro, difícil dar de caras com ela. Voz, o barulho do giz na lousa, pausas, uma figura que se mexe delicadamente ao passo que injeta questões instigantes, ameaçadoras, apaixonantes e que desfazem o mundo tal qual pensamos que o conhecemos. Odor de lancheira do maternal, sabor da promoção de toda quarta-feira do salgado de queijo, tomate e orégano com batida de morango ao leite da cantina da faculdade. Nesta sala de aula não se sente nem frio, nem calor. Um mistério saboroso, sob o movimentar-se de uma discreta silhueta de longos cabelos brilhantes aprisionados lindamente por uma fita de cetim azul. O vulto veste uma peça única de corte reto, bem cintado, tom sóbrio que, ao ritmo dos passos encurtados e decididos, sem se voltar para os estudantes, prenuncia enigmas que jamais se deixarão decifrar.

    ***

    Vernon senta-se no mesmo lugar, todas as manhãs. Entre outros seres de luz, perfaz a rotina dos eternos sem pressa, deixa-se entreter com o canto dos pássaros e as migalhas deixadas pelo vento, na estrada de pedras lisas, de tom marrom, ao lado do rio cintilante que aponta a direção de sua casa, nada distante.

    Alta, trajando um vestido reto e bem cintado, a professora está atrás de uma lousa transparente. Escreve números, letras e símbolos com um giz branco. Todos estão capturados pela luz de seu rosto, lições simples e delicadas que são entendidas de primeira. Ninguém repara em nada além do rosto angelical da professora Vida, cujo cabelo está todo preso por uma fita cetim azul, e do giz que não pára quieto.

    Hoje, entretanto Vernon se sente diferente. Fixa o olhar em uma borboleta verde que pousou sobre a lousa translúcida. Aos poucos, a claridade rareia, as asas do pequeno inseto o hipnotizam e Vernon enxerga Olívia. O tempo para, o espaço físico se diluí. Olivia está crescida e sorridente, a melhor da turma, como sempre. Seu olhar compenetrado não mudou nada. A pele mais clara de quem perdeu o tempo do lazer e do sol de verão, o sol que sempre amou a queimar-lhe a pele e acender as sardas, por todo o corpo… algumas linhas de expressão mais duras se fazem perceber, perto dos olhos. Está mais magra e mais abatida, também. Mas ainda é bela e vívida..É ela, sua Olívia! Quanto tempo! O coração bate em seu peito como há muito não sentia. Vernon então compreende a dor que desde sua morte não sentira: a ausência dos entes queridos, das memórias, dos dias de aprendizado – e erro -, do amor que ainda corre em suas veias, tão incorpóreas, na forma de mulher humana com quem não teve tempo de se casar. A cena entre planos é orquestrada pela professora, a borboleta que bate as asas em um compasso sonolento. Olívia mexe o nariz do jeito de sempre. Vernon sorri. A borboleta invade a lousa transparente, fura o entre mundos, e sobrevoa a cabeça de Olívia. Pousa em seu nariz.

    Por um breve segundo, apenas um segundo, os olhos de Vernon encontram os de Olívia.

    “Vernon, quanta saudade!”, pensa a jovem estudante.

    A borboleta, então, levanta voo e irrompe pelas janelas do cômodo – o bater das asas sublinhando todo o silêncio do instante interminável -, sumindo em direção a um horizonte qualquer.

  • Crônicas, Filmes e Fotos

    Em Crônicas sobre uma foto falei sobre o tempo, falei um pouco do passado, falei de memória. Tomei emprestado um verso do grande Manuel Bandeira, “…tempos de eu-menino…” E, também, tomei por empréstimo Pasárgada. Mas o poeta há de entender. Retirei algumas fotos de caixas de papelão (quem hoje ainda faz isso?) e lembrei de mim e de pessoas que passaram pela minha vida. Muitos, ainda sempre vistos e abraçados. Outros, nunca mais vistos… Não tive e talvez nunca tenha o paradeiro ou qualquer referência que o valha.

            Mas.

            Ao falar sobre o tempo nessa sequência de crônicas, percebi como dói, às vezes, lembrar certas coisas, certos fatos. Contudo vi que, de mesmo modo, a alegria em rememorar determinadas aventuras era, também, muito forte. Escrevi em outros textos, escrevi em poemas e contos sobre a questão do tempo, sobre a passagem do tempo. Quem escreve sempre fala sobre o tempo…

            Sempre há algo a dizer. Sempre há alguma coisa para desenterrar… O tema não se esgota.

    Eu me lembro de um filme interessante, Conta comigo (1986), com Richard Dreyfuss. Neste longa, a temática do tempo é abordada por um escritor (Dreyfruss) que resolve fazer um livro sobre a sua infância. Ao pensar sobre o passado, percebe que seus verdadeiros amigos (no que essa palavra possui de mais significativo) sempre foram os ‘esquisitos’ dos tempos de moleque. As aventuras e desventuras vividas pelo grupo de meninos marcaram de tal forma a sua visão de mundo que ele não poderia jamais esquecê-los.

            Em Quero ser grande, outro filme dos anos 80, um menino, inconformado com certas ‘barreiras’ da infância encontra uma forma de crescer bem rápido e, então, o jovem Tom Hanks fica perplexo com a sua imagem de homem adulto: um homem dividido entre as coisas de garoto e a descoberta do amor.

            O tempo e o fascínio que nos provoca. E se tivéssemos poder sobre o tempo? Uma máquina, por exemplo?

            Foi o que pensou Robert Zemeckis em De volta para o futuro (1985), uma trilogia que brincava e bagunçava de vez com o tempo. Eu era garoto. Um garoto de dez anos. E via Marty McFly correr com seu skate, tocar a sua guitarra em volume ensurdecedor e entrar em um DeLorean para voltar aos anos 50 e aprontar muito.

            Mas o que eu quero dizer com tudo isso?

            Em todos os filmes citados, o tempo é o assunto abordado. O tempo é o elemento mestre que impulsiona as personagens em suas histórias.

            Quando via as fotos e escrevia as crônicas não parava de pensar em mim mesmo: criança, jovem, adulto. O gosto da jabuticaba tirada do pé. O gosto da manga e os joelhos esfolados pelas quedas de bicicleta. O mergulho nas cachoeiras. As trilhas na Reserva da Mata da Câmara feitas por pequenos grupos. Mais uma vez o gosto, o gosto do primeiro beijo. Aquele morder de lábios e os olhos fechados e as mãos nervosas e incontroláveis… Ah! As mãos!

            Posso ver o olhar abobalhado de Marty Mac Fly quando sente que sua mãe o olha perdidamente apaixonada. Posso ver o sorriso de Tom Hanks pulando como criança junto com o amigo de 12 anos em uma cama elástica. Posso ver os meninos que atravessam léguas e léguas seguindo os trilhos da ferrovia só para resgatarem o corpo de um garoto.

            É o tempo. O fascínio do tempo. A passagem das horas e a vida que vai e vai…

            Recoloco as caixas em seu devido lugar: o armário.

            Mas.

            Ouço as vozes do tempo. Sou eu-menino correndo nas ruas da pequena cidade. Sou eu jovem descobrindo os anseios do corpo. Sou eu homem, inquieto olhando para a tela do computador e pensando terminar esta crônica.

    E, mesmo ao terminá-la, embora o tempo das coisas vividas terá seu espaço no passado, o tempo da escrita destas mesmas coisas será sempre o agora…

            Quando a crônica acabar, um tempo – o tempo da escrita – se foi. No entanto, o tempo da leitura trará as mesmas lembranças de volta num só tempo.

    *Texto originalmente publicado no livro Terra Brasilis.

  • Dia sim, dia não

    Seria pouco honesto dizer que Shirley não tentou caber na mesmice dos dias. Todos somos testemunhas de sua dedicação: levava o cachorro na rua, duas a três vezes, o filho na escola, no futebol, na explicadora, fazia mercado, voltava de lá com os braços lotados de sacolas pesadas e ainda arrumava tempo para vender os panos de prato que ela mesma bordava.

    Uma vez, a observei limpando os vidros da janela da sala, metade do corpo para fora do apartamento, apoiando-se feito malabarista no parapeito. Parecia não temer altura nem queda. Invejei sua disposição para viver com vigor horas sem nenhum atrativo.

    No condomínio sua fama de exímia cozinheira corria os andares. O cheiro do seu tempero invadia os corredores do prédio na hora do almoço e da janta. Sempre comida fresca.

    Aos domingos, com o filho no colo e de braços dados com o marido, encaminhava-se para o templo. Cabelo preso, bem esticado num coque, vestido abaixo dos joelhos, de manga longa, acho que usava sempre o mesmo, sapatilha fechada e perfume de alfazema. Não demonstrava cansaço ou desagrado. Sua perfeita adaptação ao morno da vida me jogava no buraco da culpa. Odiava o jeito firme com que Shirley fazia continência para a felicidade, mas, confesso, me causava um prazer macabro observá-la abrir a cortina, às cinco da manhã, animada para começar seus afazeres enquanto eu apagava o último cigarro antes de ir dormir.

    Ontem, como de costume, assisti ao ritual: a janela se abriu lentamente, corpo rígido como quem já está pronto para a luta, palmas das mãos voltadas para cima, olhos pregados no céu. A boca pálida parecia balbuciar a oração do amanhecer. Agora, eu podia dormir sem paz.

    Passava das duas horas da tarde quando o barulho das buzinas me despertou. Corri para a varanda. No meio da avenida, caminhando entre os carros, passos lentos, braços abertos, salto alto e despida de tudo, desfilava Shirley.

    Quando os enfermeiros a alcançaram, não resistiu, não chiou, não chorou. Entrou na ambulância com seu sorriso cansado todo borrado de batom carmim.

  • Precisamos falar sobre Elon

    “Se um macaco acumulasse mais bananas do que pudesse comer, enquanto os outros macacos morressem de fome, os cientistas estudariam aquele macaco para descobrir o que diabos estaria acontecendo com ele. Quando os humanos fazem isso, nós os colocamos na capa da Forbes” (Prof. Emir Sader)

    Li recentemente que se os 3000 sujeitos mais ricos do planeta, num ato coordenado de filantropia, resolvessem doar 5% de sua fortuna, a dinheirama gerada seria suficiente para extirpar a fome do planeta. Esse distinto grupo, uma turminha que poderia ser acomodada confortavelmente no interior de um desses navios de cruzeiro, teria capacidade de resolver num passe de mágica o trágico problema que há séculos assombra a humanidade. Estamos nos referindo a apenas 3 mil felizardos, uma gotinha de 0,0000375% em meio ao oceano humano de quase 8 bilhões de criaturas que com eles partilham o mesmo planeta.

    Elon Musk está no topo desse seleto clube. O presidente-executivo da Tesla e dono do Twitter (atual X) tem um patrimônio de quase 300 bilhões de dólares, ou seja, 1,5 trilhão de reais. Convertido em papel moeda, resultaria em quase cinco vezes todo o dinheiro em circulação no Brasil! Equivalente a 15 bilhões de notas de 100 reais que, alinhadas, formariam uma fila de tamanho igual ao triplo da distância até a Lua, ida e volta! Essa grana toda que faria o tio Patinhas resignar-se à constatação de que não passa de um pato chucro, está nas mãos de um único indivíduo.

    Pois é, se esse sujeito sozinho resolvesse, numa ação iluminada de generosidade, abrir mão de meros 2% de sua fortuna, algo que obviamente não lhe passa pela cabeça, poderia impedir a morte de 40 milhões de pessoas que se encontram em situação de penúria extrema. Mitigar a fome de africanos pretos pobres e desmilinguidos definitivamente não faz parte dos planos do nobre empresário trumpista, empenhado que está em destinar seus preciosos bilhõezinhos a iniciativas de maior relevância para a raça humana como projetar naves espaciais para levar outros endinheirados para passear em Marte já que a démodé Terra, lugar de plebeu, já era.

    Mas, sejamos justos, nem todos os super-ricos são tão zelosos com a integralidade de seus estimados bilhões. Ao contrário do que se possa imaginar, alguns desses seres celestiais têm consciência de que a fortuna que amealharam ao longo da vida veio acompanhada da obrigação moral para com a sociedade que os possibilitou chegar a essa privilegiada condição financeira. Afinal, as estatísticas revelam que os principais expoentes dessa nata assistiram sua fortuna se multiplicar na última década, enquanto nós outros, pobres mortais, que já estávamos na pindaíba, afundamo-nos ainda mais em nossa indigência.

    Uma pesquisa recente revela que 3 em cada 4 super-ricos não se oporia à criação de impostos incidindo sobre suas posses. Um grupo de 200 magnatas (entre eles um brasileiro) lançou há pouco um manifesto reivindicando (acredite) pagar mais impostos.

    “Nosso pedido é simples. Nós, os muito ricos queremos ser taxados por vocês. Isso não vai alterar fundamentalmente o nosso padrão de vida, tampouco prejudicar nossas crianças ou afetar as economias de nossas nações. Transformará a riqueza extrema e improdutiva em investimento em nosso futuro democrático comum. (…) Quando vocês vão taxar a riqueza extrema? Se os representantes eleitos nas principais economias do mundo não adotarem medidas para lidar com o aumento dramático da desigualdade econômica, as consequências serão catastróficas para a sociedade”, diz o documento direcionado à elite econômica e política reunida no Fórum de Davos.

    É de se estranhar que nossa civilização tão diligente em alardear as conquistas no campo da ciência e tecnologia que pretensamente nos possibilitaram melhor qualidade de vida não seja capaz de equacionar esse simples probleminha matemático de distribuição de renda que traria maior paz e equilíbrio social, minorando o sofrimento de bilhões de seres humanos. É pródiga em criar novas tecnologias, mas inapta em permitir que todos tenham acesso a elas.

    No Brasil, a situação é particularmente alarmante. Estima-se que o 1% mais rico concentre nada menos do que 2/3 da riqueza nacional, enquanto os 50% da base da pirâmide detêm apenas 2% da riqueza.  Esse fosso gigantesco é absolutamente ultrajante.

    Ainda que tendo apoio da maioria da população (85% segundo pesquisas), a taxação de grandes fortunas, por incrível que pareça, encontra resistência na sociedade. Boa parte dos deputados de direita que tomaram conta do Parlamento votou contra projeto do atual governo de taxar bilionários (‘virou crime ser rico no Brasil’ disse o ex-presidente Bolsonaro, antevendo problemas com o fisco quando chegar a essa condição). 

    Para tanto, contou com o apoio dos evangélicos, adeptos da ‘teologia da prosperidade’, segundo a qual, os abastados são merecedores da bênção material que lhes foi oferecida por seu Deus empresário. Recusam-se a colaborar com um tostão que seja para um necessitado (‘fracassado’), mas doam de bom grado um décimo de seu parco salário para o nababo pastor, que foge da caridade (e dos impostos) como o diabo foge da cruz.

    Mas não são só esses que se opõem à ideia de taxar super-ricos. Diversos economistas neoliberais para quem ‘imposto’ é palavrão, também se posicionam contra.  Alegam que de nada adianta taxar os bilionários pois eles desviariam suas fortunas para outros países, em especial os paraísos fiscais, além de serem mestres em dar um chapéu na Receita, corrompendo fiscais e sonegando tributos. Ou seja, já que a sociedade não consegue enquadrar os larápios, deve-se curvar a eles. E fica tudo como está.

    Assim como os advogados, os economistas são especialistas em criar dificuldades para implementar mudanças de caráter social. Submetendo-se à frieza dos números, cortam nossos sonhos de ter um mundo melhor. Ao invés de conceber uma sociedade composta por humanos empenhados em viver em harmonia entre si, enxergam um ambiente mercantilizado, onde agentes se digladiam, cada qual querendo otimizar sua posição, com base em seus interesses particulares, visando maximizar seus ganhos materiais. Nesse campo de batalha, chamado mercado, os super-ricos desempenham o papel fundamental de investidores, os motores do capitalismo. Em direção ao apocalipse socioambiental.

    O que não enxergam é que esse é um tema que transcende a esfera econômica. Não é também uma questão ideológica, coisa de comunista. Exigir maior equidade e evitar essas aberrações na distribuição dos recursos é uma necessidade ética, de justiça social.

    O que a humanidade produz é mais do que suficiente para suprir a necessidade de todos os indivíduos, mas apenas uma minoria cada vez mais afunilada colhe os frutos e ainda se dá ao luxo de esbanjar as sobras em futilidades, em detrimento de legiões de famintos que perambulam pelos continentes à procura de um lugar onde consigam sobreviver com as migalhas. Taxar os super-ricos é um imperativo para que possamos superar esse dilema e nos tornar uma civilização superior. Pelo menos, no mesmo nível da dos macacos.

  • Outono, bem-vindo!

    O outono chegou, espalhando seu tapete de petalas de flores pelas ruas e enchendo o ar com um frescor renovador. Hoje é o primeiro dia dessa estação que sempre me traz simbologias e memórias.

    Que época maravilhosa! O poeta Carlos Drummond de Andrade enalteceu os dias de abril: “Não basta sentir a chegada dos dias lindos. É preciso proclamar!” E eu concordo. O céu de um azul inigualável, a temperatura amena, o ar mais leve — tudo parece nos tocar de forma sutil e encantadora.

    As folhas amareladas dançam ao vento, antes de cair e formar caminhos dourados nas calçadas. Paineiras e jacarandás nos brindam com flores delicadas, as cerejeiras se vestem de tons suaves, e o vento frio no início e no fim do dia nos lembra que a natureza segue seu ciclo, renovando-se.

    Os parques se tornam mais convidativos: pais e filhos passeiam, jovens pedalam, amigas conversam, idosos descansam nos bancos. O outono parece aliviar o peso do cotidiano, trazendo leveza ao nosso olhar sobre a cidade. Até mesmo aqueles de quem se diz que estão no “outono da vida” parecem renascer. A alma se revigora, as janelas se abrem, os sorrisos se tornam mais frequentes.

    E como toda estação tem seus rituais, o outono é tempo de aquecer a casa com sabores que nos trazem conforto e história. Sei bem o que ele provoca em mim: saudades. Mas daquelas boas, que aquecem o coração.

    No inverno, a comida tem um papel quase sagrado na convivência familiar, e o outono é o prenúncio desse tempo acolhedor. Os encontros em casa se tornam mais frequentes, trazendo caldos fumegantes, fondues compartilhados, chocolates quentes e bolos acompanhados de café. Ninguém faz essas delícias só para si — é tempo de reunir-se à mesa, de criar momentos. Tão diferente do churrasco de verão, com sua algazarra de amigos, vizinhos e agregados! O outono pede aconchego.

    Na época dos meus pais, nos juntávamos na cozinha, aquecidos pelo fogão a lenha. As labaredas crepitavam, iluminando os rostos, enquanto esperávamos a “janta” entre histórias e risadas. Minha mãe, carregando sua própria saudade, preparava os pratos típicos do povo guarani, ao qual pertencia. Sopões encorpados, milho cozido, bijou com chá mate… sabores de raízes profundas.

    Lembro-me especialmente de um prato simples e delicioso: carne moída, caldo de feijão, macarrão cabelo de anjo e, por fim, ovos quebrados direto na panela. Comida para dar “sustância”, como diziam os antigos. O outono e o inverno fortaleciam o senso de família, e esses costumes, ainda que transformados pelo tempo, resistem em algumas casas.

    E que bom que resistem! Porque, no fim, o outono sempre nos renova. Seu nascer do sol aquece a alma, suas tardes douradas acalmam, suas noites frescas aconchegam. Como disse o poeta:

    “E o raio de sol benevolente, pousando no objeto, tem alguma coisa de carícia.”

    Que saibamos sentir essa carícia e deixar o outono nos transformar.

  • Terrores infantis

    Penso que as mais intensas lembranças da infância são marcadas pelo que dá medo. Existem as de aniversário, viagens, reuniões em família, e todas constituem um repertório gratificante que nos faz ter saudades do tempo em que éramos guris. Mas elas não se imprimem na memória com a força dos eventos que nos deixavam o coração em sobressalto.  

    Grande parte deles está ligada aos “fantasmas” da noite e aos tipos conhecidos como “doidos”. Qual a criança que não chegou a tremer sob os lençóis com medo da visão de algum ente sobrenatural? Podia ser a imagem de alguém que morreu ou de uma dessas personagens que povoam as histórias contadas em filmes, gibis ou por pessoas próximas.

    Eu ouvia das empregadas histórias de crianças perseguidas por entidades monstruosas que vinham puni-las em razão de algum malfeito. Essa espécie de pedagogia do horror maltratava como um castigo, e de noite eu me encolhia sob as cobertas com medo de encarar a escuridão. Sentia os pingos de suor escorrerem pela barriga, mas não me atrevia a remover o lençol e ficar exposto às tenebrosas visões. Podia ser a de um vampiro, uma mula decapitada ou uma tal de La Condessa, que saía de noite do túmulo para perseguir crianças desobedientes.  

    Já os “doidos” eram fantasmas concretos, que povoavam as ruas e não precisavam do escuro para nos assustar. Geralmente se tratava de pessoas feias e malvestidas, que associavam a bizarrice da figura a um considerável acervo pornográfico. Os nomes feios, diga-se a bem da justiça, vinham como resposta às provocações que faziam a elas.  

    Tenho vivas as lembranças de alguns desses tipos. Um deles era Leôncio, que costumava ficar sob uma marquise numa das ruas mais famosas da cidade. Ele pedia dinheiro aos passantes e descompunha sem cerimônia os que negavam. “Filho da p…” era das expressões mais leves. Como já o conheciam, ninguém o denunciava. Sua agressividade ficava mesmo no plano das palavras, pois nunca se soube que tivesse feito mal a ninguém.

    Certa vez eu passava pela rua com a minha mãe e o vi dirigir-se a nós. Risonho, desdentado, estendeu a mão me pedindo “um troco” (era assim que ele falava). Na inocência dos meus oito anos, larguei a mão que me segurava e desandei a correr. Depois dessa experiência, evitei de uma vez por todas passar por aquela rua.

    Mas a pior experiência foi com “Baleia”, como era conhecida uma mulher que costumava no fim da tarde passar pela rua onde morávamos. Nada provocava mais a sua ira do que a menção ao cetáceo com que inventaram de apelida-la. Justamente por isso os meninos insistiam na cruel designação, o que a fazia correr atrás deles enquanto aguentasse. Nunca pegou nenhum, e duvido que quisesse mesmo fazer isso.

    Certa vez, ao voltar de uma padaria perto de casa, percebi com o coração aos pulos que ela vinha na minha direção e que iríamos cruzar um com o outro. Mudei de calçada e ela fez o mesmo, atribuindo o meu gesto a uma tentativa de fugir por tê-la em algum momento provocado. Enquanto se aproximava, vociferou com uma voz rouquenha e arquejante: 

     – Diga “Baleia” agora! Diga, se tiver coragem! 

    Corri em pânico para casa e lá cheguei “branco”, conforme disse  minha mãe. Deram-me um copo d´água e buscaram me acalmar enquanto eu tentava explicar o que tinha acontecido.

    Houve outros além de “Baleia” e Leôncio, mas esses dois foram os que mais me impressionaram. Hoje vejo que não eram tão maus assim. A explicitude de suas figuras fazia com que nós de antemão os identificássemos e nos preveníssemos. Ao longo da vida eu me depararia com outros mais perigosos, que sob o disfarce da normalidade nos surpreendem neste mundo hostil e nervoso em que estamos confinados.  

  • Cry me a river

    Se você de repente descobrir que se perdeu de mim, não sofra muito. Ou ao menos faça como eu e tente não sofrer muito. A falta da presença minimamente incomoda e honestamente se não conseguir tudo bem porque eu mesmo nem sei se isso é possível.

    Mas sei que se perder acontece. Lamentavelmente.

    Pode ter sido algum caminho que eu ou você escolhemos. Ou nem isso, fomos apenas jogados nessas direções, opostas ou paralelas mas sem nos cruzarmos. Circunstâncias, azares, ventos, quem sabe. Os gregos acreditavam que as pessoas eram meros joguetes da vontade dos deuses. Pode ser também. Zeus e Hera brigam e nós pagamos a conta. Enfim…

    Se foi você quem escolheu esse caminho diferente ou fui eu, ainda importa mesmo? Talvez seja mais importante saber o que nos motivaria a olhar na direção um do outro. Não um olhar de estranhos mas aquele olhar de olhos que se cruzam e se alinham e aninham no reconhecimento.

    O reencontro dos olhares não é impossível. Não seria como foi um dia porque aquilo que passou, passou. Seria certamente em outros termos. Uma nova receita.

    Com boa vontade mútua para abrir os trabalhos, umas doses de concessões leves e bastante atenção para não abrir feridas. Paciência para regar por cima e pode servir levemente aquecido deixando a temperatura ambiente decidir se esquenta ou esfria.

    No mais, não pode faltar boa vontade em crer que não foi por maldade que os passos tomaram direções diversas levando um para longe do outro. Um par por opção, outro por falta de opção.

    De qualquer forma terá algo de doloroso para os dois se os olhares se cruzarem. Sempre é para quem amou demais – como se houvesse amar de menos ou se amor fosse demais. Mas a gente sobrevive. Vida que segue e vem em ondas.

    Se eu for até você, não sei o que vou encontrar. Mas minha coragem é grande. E sofro calado. Se você vier até mim não vai encontrar a porta trancada. Venha sem medo porque comigo mal algum encontrará.

    Se a porta estiver dura de abrir é porque as dobradiças estão enferrujadas. Nada demais. Normal em porta fechada por muito tempo. Não pode usar força para abri-las. Com um pouco de determinação e alguma paciência elas cedem.

    Mas se vindo do outro lado da porta você escutar “Cry me a river” na voz de Julie London, atenção. Seja paciente e vá dar uma volta. Ou entre e venha escutar junto.

  • Confundir e preencher os olhos!

    Movimentos sociais levam décadas para implantar suas regras e conceitos prodigiosos, que por vezes chegam às raias do lamentável. 

    As atividades culturais se diferem no tempo durante seu processo de maturação, tornando-se belos quadros sociais para serem apreciados ao longo de nossa era. 

    Na política, são anos para estabelecer uma nova ideia, convencer o povo que será a melhor opção de bem-estar, seu, e de sua família, mesmo que essa nova partitura tenha consumido seus dias, como o fascismo, que proporcionou capítulos indesejáveis. 

    Na Itália, em outubro de 1922 ocorreu a “Marcha sobre Roma”, evento considerado o marco zero da revolução fascista. O projeto na época freou o avanço dos partidos, socialista e comunista. A milícia violenta, chamada camisas-negras, ocupou Roma, e Mussolini assumiu na Itália como Primeiro Ministro da era fascista. Por isso não há dúvidas de que esse movimento foi filho da Primeira Guerra Mundial, evento ocorrido bem antes de suas raízes se fincarem nas entranhas da política. O fascismo sempre mobilizou massas e as absorveu perigosamente. 

    Como entendido, levou tempo pra se estabelecer junto ao povo, mesmo após arrastar consigo maldade, tristeza e morte.

    Lentamente movimentos importantes para a sociedade, estabelecem razão de existir e fascínio atraente, mas nunca ocorrem rápidos e rasteiros. 

    As obras do Filósofo, Advogado, Escritor e Intelectual, Sêneca (século I), de forma muito distinta, promissora e sem sangue no chão, dignificaram no tempo o comportamento humano. Sete peças trágicas chegaram a nossa era, Medeia, Fedra, Édipo, e outras tantas se mantém preenchendo de cultura e lazer as novas gerações. Esses eventos foram criados por um homem de bem, e trouxeram reflexões saudáveis sobre nossas vidas. Mesmo exilado, em meio a grandes privações materiais, dedicou-se aos estudos e redigiu vários de seus principais tratados filosóficos. Entre eles, os três intitulados Consolationes 

    (“Consolos”), onde expôs os ideais estoicos clássicos de renúncia aos bens materiais, em busca da tranquilidade da alma, mediante o conhecimento e a contemplação. 

    Bem distinto do fascismo que dominou a sociedade através da política, sem medida aos danos avassaladores, desvencilhados de dó. 

    Nem tudo que brilha é ouro, mas pode confundir e preencher os olhos de inocentes e curiosos. Não devemos esperar um resultado saudável apenas por decurso de prazo, vindo de qualquer nova ideia, nascida com diferença e inovação a seu tempo. Nenhuma revolução se faz as pressas, isso não se obtém senão com o tempo, este senhor da verdade.

  • Dois homens bons e generosos

    João Alfredo colhe a cada final de semana as verduras e legumes que semeia. Sua horta é cuidada com esmero, o solo é fértil e o produto de seu trabalho é considerado o melhor do povoado. A barraca que tem na feira é concorrida, todos apreciam sua colheita. Como não tem mulher nem filhos, ele costuma distribuir entre os vizinhos e amigos os vegetais que não vendeu. Todos diziam dele:

    — João Alfredo é um homem bom e generoso e as verduras e legumes que saem de sua horta têm muito boa qualidade.

    Assim, quando vai à padaria comprar pão para o café da tarde, quando passeia pelas ruas do povoado ou quando decide descansar e tomar um copo de vinho no Bar do Massa, João Alfredo é sempre saudado com simpatia por quem o encontra:

    — João, suas verduras e legumes são deliciosos. Sempre frescos e tenros. A cada semana se tornam melhores.

    ***

    Eu também planto e colho verduras e legumes na horta que tenho no quintal de minha casa, mas o meu solo não é tão fértil quanto o de João Alfredo, e por isso a colheita não é tão viçosa. Mesmo assim, é boa para consumo. Na feira, pouca gente frequenta a minha barraca. Também não tenho mulher ou filhos, de maneira que me sinto bem distribuindo entre meus vizinhos e amigos os produtos que sobram. Por causa disso sempre me considerei um homem bom e generoso. Mas quando vou à padaria comprar pão para o café da tarde, quando passeio pelas ruas do povoado ou quando decido descansar e tomar um copo de vinho no Bar do Massa, as pessoas não se mostram simpáticas:

    — Paulo Clemêncio, suas verduras e seus legumes são uma porcaria. Ninguém em casa gosta delas. Acho que nem os porcos gostam.

    Sempre que ouço reações assim fico com um nó na garganta. Mordo meu lábio para disfarçar o desgosto e a vontade de chorar.

    ***

    O tempo passou e todos ficamos mais velhos, inclusive João Alfredo e eu. As verduras e os legumes dele continuaram sendo um sucesso entre as gentes do povoado. As minhas, como sempre, um fracasso. Então, um dia, quando João Alfredo lavrava seu solo fértil e distribuía as sementes e mudas de verduras nos buracos que fazia na terra, eu me aproximei dele por trás e abri sua cabeça com a ponta de uma pedra. João Alfredo caiu e nunca mais se levantou. Com as provas coletadas pela Polícia Civil, um juiz e dois peritos forenses concluíram que João Alfredo tinha tropeçado e batido a cabeça numa pedra. Pobre João Alfredo, estava tão velhinho!

    ***

    Neste fim de semana colhi as verduras e os legumes de minha horta, vendi uma parte na feira e a outra parte distribuí entre os vizinhos e amigos. Depois fui comprar pão para o café da tarde, passeei um pouco pelas ruas e resolvi tomar um copo de vinho no Bar do Massa. Algumas pessoas se aproximaram:

    — Paulo Clemêncio, suas verduras e seus legumes são horríveis, intragáveis. Que saudade do João Alfredo, Deus o tenha!

    ***

    Na semana seguinte joguei veneno para ratos nas verduras e nos legumes que vendi na feira e nas que distribuí entre os vizinhos e amigos. Em poucos dias, grande parte da população morreu. A Polícia Civil investigou e, diante das provas coletadas, um juiz e dois peritos forenses me acusaram de assassinato. Fui condenado a trinta anos e levado à prisão, onde passaria os anos que me restavam de vida. Pensei que não fosse suportar, que morreria de tristeza, mas estava enganado.

    ***

    Estava muito enganado. O diretor do presídio me concedeu um pedacinho de terra ao lado do pátio, para que eu fizesse uma horta e plantasse e colhesse verduras e legumes, atividade que eu sabia executar com esmero. A vida na prisão não tem sido ruim: alimento-me bem, durmo com tranquilidade e ainda cuido da minha horta. Como não tenho a feira para vender nem vizinhos e amigos a quem distribuir meus produtos, compartilho tudo com meus colegas de penitenciária e com os carcereiros.

    Aqui me consideram um preso bom e generoso. Assim, quando passeio pelo pátio, quando descanso num banco para ver cair a tarde ou quando fumo calmamente um cigarro depois do almoço, os companheiros se aproximam:

    — Paulo Clemêncio, suas verduras e legumes são uma verdadeira delícia. Estão melhores a cada semana.

    É quando fecho os olhos e sorrio para mim mesmo, satisfeito e certo de ser um homem bom e generoso.

  • O seleto grupo dos iluminados

    Há poucos dias finalmente descobri o meu lugar no mundo. Depois de vagar entre planaltos e ribanceiras por anos e anos, depois de me notar perdido, ansioso e angustiado, tive, por fim, a revelação. Foi um instante daqueles em que o coração não acelera porque sente que algo tranquilo abrandará para sempre as aflições. E o futuro de repente abre as portas para um andar sossegado, como se a vida até então fosse um longo pesadelo.

    Depois da epifania as cores ficaram mais nítidas, os problemas mais curtos e o sorriso mais largo. O calor, que incomodava meus sovacos suarentos, agora se aprochega tranquilo como um velho amigo. A vida já me parece mais simples e até o meu humor rançoso tem se esvaído devagar.

    O grupo do qual me desvencilhei é composto pela imensa maioria dos seres humanos: os que não sabem o seu lugar e, pior do que isso, não desconfiam qual a sua missão. No entanto, não quero causar alarde. Caso você pertença a essa multidão, não se desespere. Eu mesmo demorei quase quarenta anos para chegar à iluminação. Quem garante que você não será o próximo?

    Agora sou oficialmente da minoria. Na verdade, sempre fui do contra. Multidões me arrepiam e amedrontam desde criança. Jamais me comportei como um “Maria vai com as outras”, como diria minha avó. Sempre tive opinião forte, às vezes burra, mas sempre forte. Tenho pouquíssimos amigos e parto da premissa de que se todos gostam de algo é porque aquilo não presta, sobretudo culturalmente. Logo, se está na moda é uma porcaria e se é unânime, pior ainda.

    Hoje me sinto diferente. A satisfação do dever cumprido é inenarrável. Nunca fiz parte de grupos seletos. Não participo de sociedades secretas, não estou no coro da igreja, não li nem lerei “Café com Deus pai” e não abro a casa para a capelinha da paróquia. Não posto fotos ajudando os necessitados, não dou pitacos estilo coach na internet e não vendo cursos; porém, também me vejo como um homem realizado e iluminado, talvez não em estágio tão evoluído, mas ainda um tanto luzidio, por assim dizer.

    Se minha mãe estivesse aqui, não me furtaria o prazer de ligar para ela no exato momento em que a epifania aconteceu para contar que seu filho, depois de décadas e décadas, alcançou a iluminação e descobriu o seu lugar no mundo. Não sei como o orgulho agiria sobre ela, mas certamente mediria as palavras para não lhe causar algum infortúnio emotivo.

    Desde que a revelação me ocorreu, confesso não pensar em outra coisa, no afã de ocupar logo o meu posto, dia a dia, sorvendo a vida com a mais sincera alegria e a mais pura certeza de que não quero nem devo estar em qualquer outro lugar.

    O garçom, que entende os pormenores dos meus acessos de ansiedade, como todo bom companheiro, assim que me vê, traz logo uma cervejinha gelada para que eu possa realizar a minha imponente missão. O antigo bar na beira de um lago enorme, em que me sento sob a sombra de uma árvore bicentenária, parece funcionar também melhor naquela paisagem com a minha presença. Sinto que precisam de mim. De alguma forma, o bar, a árvore, a sombra, o lago, o céu, as montanhas ao fundo e eu damos sentido ao lugar e criamos ali uma atmosfera singular. Talvez só nós consigamos entender essa energia.

    Somos uma pintura antiga, esquecida por séculos num porão escuro, que enfim ganha os primeiros toques de restauração. Amanhã, com enorme alegria, lá seguirei. E depois de amanhã também, e depois e depois, e depois e depois. Na certeza de que não há desassossego que perdure muito tempo quando estamos no nosso lugar.

  • Poema #15 – EUTANÁSIA

    .

    Sob uma chuva de outubro
    o germe penetrou
    no solo árido de mim,
    onde as emoções se resguardavam.

    Mas o sol e o raciocínio
    dos meses subsequentes
    atrofiaram o germe ávido
    que havia trazido o amor.

    E foram tantos os desencontros
    do clima naquele ano
    que a meteorologia afetiva
    justifica-se culpando a ambos.

    Agora, numa sala de espera
    contígua à do esquecimento,
    resta-nos como única saída
    a eutanásia cúmplice
    do que restou do sonho.

    O Acaso das Manhãs

  • Botafumeiro

    Incensos sempre estiveram presentes na minha casa. Desde que, na juventude, comecei a praticar Yoga, sua fumaça perfumada me encantou e daí para frente fez parte do meu ritual de meditação e recolhimento.

    Passei a acender um incenso para estimular minha criatividade na hora de escrever, desenhar, deixar fluir novas ideias, mas também para afastar os maus fluidos de um lugar que me pareça meio carregado. Escolho cuidadosamente a procedência, a fragrância e o efeito a que se destina, e me entrego ao efeito inebriante que o sândalo, o benjoim ou a mira provocam.

    Mas essa prática sempre me fez lembrar do tempo em que ainda se usava o incenso nas missas de domingo, nas igrejas católicas. Os sacerdotes entravam balançando o turíbulo fumegante de olibano, com o intuito de elevar as orações dos fiéis ao divino. Sua fumaça criava uma sensação de mistério e reverência própria do misticismo da fé.

    Apesar de esse ritual não ser mais praticado com frequência nas igrejas brasileiras, o Botafumeiro, termo que deriva do galego e que significa, literalmente, “arremessador de fumaça”, continua sendo um dos símbolos mais emblemáticos da Catedral de Santiago de Compostela.

    Na minha caminhada pela Galícia, não pude deixar de participar da missa dos peregrinos e me deixar envolver pela fumaça perfumada que o turíbulo espalhava pela nave central e pelas laterais.

    O ambiente era de grande religiosidade, pois antes da missa começar os sacerdotes solicitavam a todos os visitantes não católicos que se retirassem, para os fiéis poderem acompanhar a missa em silêncio, sem fotografias, celulares e comentários — somente os cânticos e o rito em latim ecoavam pela magnífica basílica.

    O Botafumeiro era acionado ao iniciar a liturgia, e se repetia em determinados momentos da cerimônia, envolvendo os presentes numa névoa permanente, que propiciava a introspecção necessária à elevação do espírito e inundava o ambiente de um perfume reconfortante e acolhedor.

    Qual não foi minha surpresa ao descobrir, anos depois, que havia uma “segunda intenção” nesse ritual, muito mais prosaica do que a elevação dos espíritos — livrar o ambiente do odor dos peregrinos que, na idade média, faziam a caminhada em péssimas condições de higiene.

    Dei graças a Deus e ao Botafumeiro, pois pude constatar que, de lá para cá, nada mudou — bendito incenso!

  • Caçadores de eclipses

    Chuvas atrapalham planejamentos. Na realidade, chuvas atrapalham expectativas, e estas, nos frustram.

    [Aqui, chuvas podem se tratar de chuvas. Ou não. Use-a como metáfora, os textos pertencem a quem os lê, no momento da leitura].

    Hoje em dia é simples assistir eventos astronômicos com uma meteorologia ruim; eu, por exemplo, inspirada pela minha irmã, de vez em sempre, me surpreendo a mim mesma com o celular em punho, de noite, da varanda, de uma das janelas, da rua, apontando essa prótese humana para o céu, que pode estar límpido ou encoberto, não importa: lá estou eu girando no meu próprio eixo, tal qual uma lunática. Eis o app Stellarium, e a minha curiosidade pelo posicionamento de estrelas, outros astros e da Lua.

    Na madrugada da quinta para a sexta-feira última, fiz planos para ver a Lua de Sangue. Já com minhas vivências, velas e banhos engatilhados para a sexta-feira à noite, me empolguei com a magnífica poasibilidade de assistir a um momento envergonhado, enraivecido ou enamorado do nosso satélite natural, que teria o ápice de seu fenômeno às 3h26 da madrugada. Eu e muitos conhecidos e desconhecidos, aqui do lado ocidental e acidentalmente noturno da Terra, preparávamos nosso inconsciente para a madrugada em claro — que logo, tornaria-se escura, pela nossa própria sombra sobre a Lua. Mas, em Nova Friburgo, uma chuva torrencial, começou quando nem noite ainda era, minando o planejamento. Planejamento, uma pinoia!, diria minha avó; a tal da expectativa. A Lua vai passar pelo seu processo de eclipse, faça chuva ou passem nuvens. Estamos em março, as águas são certas e fecham o verão. Quem quer, que abrace a chuva e se molhe! Olhe para o céu, tome um banho de Lua. As energias podem até ser potencializadas. Há os que se preparem com telescópios ou cameras semi-profissionais com zoom 42x. Há ainda os que não se animem a sair de seus lençóis e pijamas, e liguem smart TVs, celulares, projetores, computadores ou outros — à exceção do Chrome Cast, que rapidamente instaurou o caos e um burburinho cibernético, com resets da configuracao padrão aqui e acolá, mudança de humores, por sair do ar, assim, sem explicações,dias afora…. em tempos de ansiedade impregnada nas veias, nada pior do que perder uma conexão que se espera onipresente e a nosso bel prazer — de novo, posso não estar me referindo à gadjets ou bandas largas, entenda como bem lhe convir. Por último, há os canais ao vivo no YouTube, com comentários que mais me mortificariam se eu não os acompanhasse no percurso da caça ao eclipse, sobre quatro rodas, suprimentos de café e tapiocas feitos às pressas, um spitz alemão com o focinho voltado para o céu, no meu colo, e um motorista que quase sucumbiu à frustração – e ao sono. Pouco antes das 2h, a chuva parou. Vibra a ligação via WhatsApp no pulso:

    — Alô…
    — Vambora? Anima, se não só em 2039!

    Enquanto todas as opções acima ocorressem por todas as Américas, dois adultos e um cachorro se embasbacavam com a Lua alaranjada que ora estava do lado do motorista, curvas depois do lado do carona. Nuvens e vegetações faziam necessária a presença do Stellarium.

    — Tá ali!

    Sobre a coxa do motorista, a tela do celular mostrava a Lua imensa, suas crateras, e exclamações que faziam a caçada ser mais interessante:

    — Está incrível, pessoal! Noooossa, olhem isso, está incrível! Já já essa nuvem passa, pessoal, por enquanto, façam um PIX de R$5,00 e mandem uma mensagem que respondemos aqui ao vivo.

    Seguimos o rastro da Lua, em busca de um descampado distante das luzes da cidade, quieto e seguro que nos permitisse parar, observar o fenômeno e fazer um lanchinho. Um bairro à esquerda, deixa fluir, lá vamos nós, 5G perdendo força, o 4G o qualquer G. Stellarium no more. Adeus YouTube.

    — Melhor voltar.
    — Vamos perder o ápice se voltarmos.

    De repente, uma pracinha digna de cidade de interior, um campo de futebol desses tomados pelas gramas selvagens, um ponto de ônibus, as casas que dormem. Paramos.

    A Lua.

    Para quem nunca presenciou com os próprios olhos, é difícil descrever; tem sabor de perfume de lavanda, sob o formato de brigadeiro; tem cheiro de um perfume marcante misturado ao odor de um café na madrugada, fumegante para que os olhos se abram. É de um vermelho revigorante. Parece final de copa do mundo, a experiência de se estar a ponto de gritar bem alto “É goooooooool!”. Mas não podemos, todos dormem — só os galos cantaram, cachorros-lobos uivaram e o meu spitz tenta inspirar de uma só tragada o pequeno piso concretado com suas narinas pequeninas. 3h26, o ápice. O mundo pára, por um instante.

    Ainda bem que, apesar de tudo, somos bons em desenvolver tecnologias. E ainda bem que sempre há lunáticos dispostos a vencer o sono, outros que se empenham em manter o planejamento e cachorros que nos fazem superar todas as (im)prováveis frustrações.

  • Admirável mundo novo

    Admirável mundo novo: prédios que desafiam a gravidade, veículos que se movimentam cada vez mais rápidos, produtos e aparelhos eletrônicos que prometem revolucionar a vida de todos nós… E compramos e acreditamos e nos iludimos.

    Admirável mundo novo! Problemas sempre os mesmos. A fome sempre a mesma. A violência sempre afiada. A palavra dos políticos desgastada. O poder e o pudor, desequilibrados e distantes. Caminhos errantes. Mas compramos a ideia. Acreditamos no futuro e nos desiludimos.

    Entre fios e chips e terminais de alta tecnologia, chineses, japoneses e norte-americanos desenvolvem robôs almejando uma cópia fiel do homem. E os cientistas buscam os movimentos precisos, a emoção perfeita, o sorriso certo, o calor medido, o humano. Compramos, acreditamos e nos iludimos.

    Carros andam sozinhos, casas reconhecem seus donos, câmeras espalhadas por todo o lugar. Tudo feito de forma rápida e precisa e direta. Não há tempo a perder porque, afinal, tempo é sempre dinheiro. Não importa o sonho, pela metade ou inteiro…

    Admirável mundo novo: praticidade, estética e velocidade. Precisamos resolver as coisas. As coisas precisam ser belas para nós, assim como nós precisamos ser belos para os outros. Nós e as coisas precisamos ser rápidos. Tudo prático, bonito e rápido.

    Admirável mundo novo! Mendigos e barracos e fuzis e diversos Brasis. O ser ainda humano, cibernético e plastificado, olha, dentro de uma redoma, o novo mundo que inventou. Um mundo cheio de prazeres a preços promocionais, remédios de todas as cores e para todas as dores. O mundo que contempla é de plástico e não há mais água nem cheiro e muito menos verde.

    Mas ainda existem viadutos e criaturas humanas que estão fora da redoma. E ainda há os que choram e que lamentam e que morrem… Ainda há fome e miséria!

    Inexplicável mundo novo!

  • A moda passa, o sacrifício é eterno

    Há poucas décadas era moda fazer plástica no nariz. Um modelo pequeno e parecido com o adotado pelo Michael Jackson ficou popular. Já não se usa mais.

    Agora sobrancelhas grossas estão na moda. Como assim? Adotar sobrancelhas finas, como na época dos filmes mudos, é fácil, mas conseguir pelos onde não há folículos é impossível. No entanto, já estão oferecendo transplantes de sobrancelhas. Caríssimos. Não importa: sempre existe gente interessada em pagar alto para se ajustar ao estilo da vez, mesmo que os objetivos sejam despropositados e os resultados desastrosos.

    A gordura, execrada atualmente, já foi desejada em outras épocas e está ensaiando uma volta. As pessoas fazem dietas loucas tentando enquadrar-se em padrões inatingíveis para o seu biotipo e acabam arruinando a saúde. Até fumar voltou a ficar na moda!

    No início do século, quando as mulheres descobriram o botox, muitas abusaram a ponto de ficarem todas parecidas. Quase tive que etiquetar algumas das minhas conhecidas.

    Tudo bem, Sílvia?

    Sou a Renata.

    Ah, agora que você falou, estou reconhecendo a voz.

    Antes do botox era o silicone. Ambos se aperfeiçoaram, mas veio a harmonização facial. Não são poucos os casos em que o tiro sai pela culatra e a pessoa fica medonha. De vez em quando procedimentos realizados por gente inescrupulosa e sem qualificação fazem uma vítima fatal.

    Tatuagens eram coisa de marinheiro, hoje é difícil achar quem não as ostente. São doloridas, mas quem se importa? Se me contassem há trinta anos que isso aconteceria eu duvidaria. Pois aconteceu. Incrível como as pessoas se submetem a sacrifícios para seguir a moda.

    Não sei se sempre foi assim, mas uma coisa que está na moda há bastante tempo é ser jovem. Ou, no mínimo, parecer jovem. Conheci homens que pintavam o cabelo e mentiam a idade, e mulheres com testas de quinze centímetros que afirmavam nunca ter feito plástica.

    O mito da fonte da juventude vem sendo perseguido pela humanidade sem sucesso e a indústria cosmética tem explorado o assunto com direito a lances inimagináveis. Ganhei uma amostra grátis de um produto carésimo que prometia mundos e fundos sobre rejuvenescimento. Procurando informações mais detalhadas na internet, encontrei um blog em que a autora afirmava ter usado e aprovado o tal artigo, que teria sido muito eficiente na redução do seu bigode chinês. Perfeito, não fosse o detalhe do vídeo ser protagonizado por uma menina de vinte e um anos e, pior, tratando o assunto a sério!! Com que idade será que ela começou a achar que precisava rejuvenescer?

    A moda do vestuário não faz tanto estrago, mas também apronta. Não adianta avisar que saltos de vinte centímetros são um convite a problemas de coluna e a pés torcidos, nem que todo mundo fica bem com isto ou aquilo. Meninas se vestem como viúvas negras, idosos sem-noção se comportam como adolescentes. Sei de uma pessoa cujo apelido é Avó da Barbie, precisa dizer mais? Colocar a estética acima do bom senso é dar um tiro no pé.

  • Prazo de validade

    Desde criança me intrigavam as relações que sobrevivem ao lodo do tempo. Talvez por ter avós e pais separados, a união indissolúvel de duas histórias me comovia profundamente. 

    Na infância, gostava de assistir aos avós de uma amiguinha caminharem pela rua. O andar lento, inseguro de cada um, se amparando na união das mãos enrugadas, nos braços pintados de manchas vermelhas, que depois descobri se chamarem fragilidade capilar, causavam, simultaneamente, uma paz e uma apreensão só ofertadas pela noção de eternidade.  

    Lembro de ressoar no pensamento, em momentos aleatórios, sem nenhuma explicação plausível, o termo “fragilidade capilar”. Por causa disso, toda pessoa que chegava em minha casa, jovem ou não, despertava o meu olhar investigativo na busca daquelas manchas que ficavam por baixo da pele fina. Lá pelas tantas do crescer, minhas pesquisas infantis revelaram a correlação entre aquelas marcas e o envelhecimento. Agora, sim, havia entendido tudo. O corpo dava os sinais do seu desgaste. A corrosão era de dentro pra fora. Mas, ainda assim, eu continuava a achar lindo que o caminho para a finitude fosse em parceria com o ser amado de uma vida inteira.

    Durante anos cultivei esse ideal romântico, mas a recepção dos consultórios médicos e até, mais efetivamente, do Pilates, ultimamente, têm destruído a marretadas minha ilusão. 

    Existem casais, que estão juntos há trinta, cinquenta anos, que não se suportam mais nem por um segundo. É curioso perceber a falta de paciência, as intolerâncias de todo tipo, os safanões, gritos e até xingamentos de canto de boca. As implicâncias, críticas ferozes edesvalorização do parceiro(a) também aparecem de forma acintosa.

    Hoje mesmo presenciei uma cena dessas e me indaguei: há quanto tempo passou a hora deles se separarem? Por que escolheram seguir juntos quando só a desavença os une? Quando foi que deixaram de acreditar na existência de outros caminhos? Como se estabelece o prazo limite para ser feliz? 

    Primeiro, senti uma tristeza rascante. Deve ser horrível viver com alguém pelo medo de morrer só. Em seguida, senti um alívio: quem sabe as brigas e as alfinetadas funcionem como a diversão possível ou, pelo menos, o espaço lícito para depuração das amarguras? É provável que, no exercício da convivência, eles tenham aprendido a se ignorar ou se odiar com amor. Quem sabe se sentem completos, felizes e realizados?

    Agradeci aos meus avós e a meus pais a coragem de lutar por novos rumos. Me orgulhei de mim por não ter me conformado com dias mornos.

    Suspirei fundo e lembrei daquele casal da minha infância. Eles são a prova de que é possível não deixar o amor azedar como feijão fora da geladeira.

    É isso que quero pra mim. Menos que isso não aceito nem com oitenta anos.

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