Crônicas Cariocas

  • A ambiguidade é inimiga da clareza

    Ambiguidade é a duplicidade de sentido. Ela pode se constituir num bom recurso expressivo, mas deve ser evitada quando compromete a clareza do texto. São ambíguos enunciados do tipo:

    — “Vivemos numa sociedade cuja aparência é mais importante do que a essência.” (o uso de “cujo” no lugar de “em que” dá a entender que a aparência da sociedade é mais importante do que sua essência, e não que na sociedade atual a aparência importa mais do que a essência);  

    — “A maioria das redes e blogs dá apenas uma visão parcial do indivíduo que publica.” (não está claro se quem publica é o indivíduo ou a maioria das redes);

    — “Um grupo de assaltantes rendeu elevou o carro de uma família.” (parece que o grupo rendeu o carro antes de levá-lo!!).

    Um dos fatores que levam à ambiguidade é a má ordenação das palavras. Quando o período não está na ordem direta, pode haver margem para mais de uma interpretação. Por exemplo: “Encontrou o diretor o secretário na sala de reuniões”. Não se sabe quem encontrou quem.  Na ordem direta, em que o sujeito aparece antes do complemento, desfaz-se o equívoco: “O diretor encontrou o secretário na reunião.” Outra forma de distinguir sujeito e objeto é antepor uma preposição a este último: “Encontrou o diretor ao secretário na sala de reuniões”. 

    Deslocar o atributo oracional para longe do termo que ele modifica pode tornar ambígua a frase: “Refiro-me a um conflito no meu namoro, que ocorreu há oito anos”. O que aconteceu há oito anos – o conflito ou o namoro? Como a referência temporal diz respeito ao conflito, o melhor para a clareza é deslocar a oração adjetiva: “Refiro-me a um conflito que ocorreu há oito anos no meu namoro”.

    A separação entre componentes de uma mesma função sintática também pode gerar ambiguidade. Exemplo: “As pessoas que gostam de saber das novidades procuram a internete até mesmo as grandes empresas, para vender seus produtos.” O aluno dá a entender que apenas “pessoas” é sujeito do verbo procurar, e que “internet” e “grandes empresas” são objetos diretos. A frase fica sem sentido, pois o propósito do autor era afirmar que tanto as pessoas quanto as empresas procuram a rede. Ele traduziria claramente essa ideia se tivesse mantido coordenados os sujeitos: “As pessoas que gostam de saber das novidades e até mesmo as grandes empresas procuram a internet para vender seus produtos.”

    No plano semântico, é comum haver ambiguidade devido à polissemia. A diversidade de sentidos de uma mesma palavra pode levar a que se diga o que não se queria dizer. Em redação sobre a atual crise da Igreja, outro aluno escreveu: “Hoje, por força das circunstâncias, a Igreja admite a pedofilia em alguns de seus membros”.

    Entre os significados de “admitir”, está o de “reconhecer” (“Ele admite seu erro”); o redator quis dizer que a Igreja, forçada pelas circunstâncias, reconhece que há pedófilos entre seus membros. Não lhe ocorreu que esse verbo tem também o sentido de “aceitar”, “permitir”, o que poderia levar a um julgamento negativo da instituição religiosa.

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  • O mais importante é a mudança!

    Em cada época de nossa existência, sempre tentaram explicar o funcionamento do cérebro através de metáforas extraídas da tecnologia mais atualizada do momento. A descrição que ficou famosa foi realizada por Platão, que comparou a psique humana a uma biga puxada por dois cavalos, onde um representava a razão e o outro o desejo.

    No século XX os psicólogos compararam nosso cérebro a um computador, que eventualmente apresentava um “bug” em seu sistema operacional.

    Exemplos assim são tentativas de expor nossa influência social exercida em muitos gestos que são o resultado do que somos, de nossa base existencial.

     Diversas atitudes nascidas do meio ambiente nos ensinam comportamentos similares, para sermos aceitos e conduzirmos a mesma máxima interessada pela maioria, sem sombra de dúvidas.

    E como animais sociais, pertencemos à casta de nosso grupo mais próximo, fazendo o papel necessário para pertencermos ao meio que chegamos, por isso não há muitas opções além daquelas já expostas e pegas na prateleira social.

    Possuímos a estranha mania de copiar e colar em nossas cabeças, atitudes bem aceitas e lavadas pelo sistema, que está pronto para entregar a dose certa na boca, e o lado correto de dar o ombro. Nosso conteúdo influenciado pelo meio se mantém absorto e na expectativa do próximo ato, que virá para conduzir o que podemos pensar e o que devemos atuar depois de um texto bem decorado.

    A fadiga por momentos não é uma opção e sim pausa para repor o próximo cartucho. Por isso vos digo, que a vida é curta demais para ser pequena.

    “Mude, mude de novo, experimente outra vez, atue, você certamente encontrará coisas melhores, e coisas piores que as já conhecidas, mas não é isso que importa, o mais importante é a mudança, porque se você tem mais medo da mudança do que da desgraça, você não impede a desgraça, a mudança, o movimento, o dinamismo, a energia, só o que está morto não muda. Repito por pura alegria de viver, a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena” (Antônio Abujamra).


  • Cães e o Poder de Curar a Depressão

    Quantas pessoas acordam todas as manhãs sem grande propósito? Permanecem deitadas, sem forças para romper a gravidade invisível que as prende ao abismo da depressão. Pare essas pessoas, a cama se torna uma prisão, como se a vida estivesse suspensa e elas impedidas de viver.

    Nesse cenário devastador, onde a dependência de medicamentos é uma realidade frequente, a chegada de um cão pode ser transformadora. Diferente dos humanos, os cães não compreendem o que é depressão, mas percebem quando algo não vai bem. Eles possuem uma sensibilidade extraordinária, capaz de refletir o que muitas vezes escondemos até de nós mesmos.

    O simples toque de uma pata, um olhar atento que convida a sair ou o abanar de um rabo podem quebrar o ciclo de apatia. Eles nos lembram, sem palavras, que há um mundo lá fora, repleto de brilho e possibilidades. É um convite sutil, mas poderoso, para explorar, respirar, viver.

    Muitas pessoas encontram em seus cães a motivação para se levantar. Uma pequena caminhada pela rua deixa de ser um fardo e se torna um momento de prazer. É nesse ato quase mágico que os cães se entreguem por inteiros. Com sua companhia serena e amor incondicional, se oferecem para nos animar a seguir em frente, a redescobrir o milagre que é estar vivo.

    Cuidar de um cão nos faz olhar mais para o presente, e nos conectarmos ao aqui e agora. Eles nos mostram que, mesmo nos dias mais sombrios, há sempre uma chance de escapar da tristeza profunda. Talvez a maior cura que os cães oferecem seja a de nos ensinar a reencontrar a simplicidade da vida.

    No final, não são apenas os cães que nos salvam, mas também o amor que cultivamos ao lado deles. Eles não precisam de palavras para transformar vidas. Enquanto farejam, correm ou se deitam calmamente ao lado de quem precisa, passam uma lição simples: felicidade não é algo distante, mas algo que pode ser encontrado em pequenos instantes.

    O vínculo entre cães e pessoas vai além da companhia; é uma troca silenciosa de cuidado e afeto. Para quem enfrenta a depressão, um cão pode ser um guia que o conduz de volta à luz, mesmo quando tudo lhe parece cinza e sem propósito.


  • PALAVRAS E ARTE

    Mesmo que palavras sejam uma paixão e ferramenta de trabalho, as palavras não são naturais; vejam, me explico.

    Natural seria o canto dos pássaros e os latidos dos cachorros. Os sons guturais com que nos comunicamos na fase primeira de nossas vidas, o amamentar, o fazer sexo. Depois que o homem descobriu o fogo, inventou a roda e pintou o interior das cavernas – a cores! -, as ações modificaram-se; era o princípio do artifícios, a pedra fundamental da Era das inteligências artificiais, as IAs, tanta tecnologia resumida em duas vogais maiúsculas.

    Tendo este ponto crucial em mente, toda inteligência humana, a despeito daquela emocional, é um artifício frágil e brilhante, uma película adiamantada para conter o que não quer ser contido. Cachorros, por outro lado, são inteligência bruta, expressão do puro; nós, não mais. Somos nós os adestrados, muito mais do que eles. Adestrados adestradores – adestramos porque tememos; criamos uma sociedade que nos aprisiona em moldes e imposições. Domesticamos não só animais, mas a nós mesmos, numa educação das horas e vontades: choros devem ser silenciados, fomes enquadradas nos horários das refeições e das prescrições das dietas; os desejos, contidos, o dormir e os sonhos adiados para horários plausíveis. Isto é certo; aquilo, errado. Condensamo-nos na teia da comunicação de um mundo codificado, como escreveu, traduziu e reescreveu Vilém Flusser. Por quê? Para caber nos moldes que inventamos. Tudo em prol do que chamamos civilidade – mas que, no fundo, é tão somente a condenação e a camuflagem dos instintos.

    Esta semana tive a honra de encenar pela segunda vez uma peça de Dias Gomes, chamada O Santo Inquérito, sob a forma de leitura dramatizada. Um texto denso, de uma verdade sobre as imposições dos homens, sobre a negligência e reprimendas de palavras e de nossas ações – inocentes e naturais. Também tive a ocasião de encabeçar a produção da pré-estreia de um Festival de Cinema Italiano, uma obra-prima de organização com dedicação 100% voluntária de descendentes e apreciadores da cultura italiana e da sétima arte; uma sessão fechada para convidados em um equipamento cultural local de prestígio e pequeno porte (leia-se capacidade de público limitada), com coquetel e um debate – riquíssimo – entre um cineasta chefe de um cineclube muito atuante na região e um artista multitalentoso com uma experiência artística na África Diáspora. O evento, para convidados, era dependente de confirmações que, ironicamente, muitas vezes foram tão frágeis quanto as palavras de aceitação social. A natureza com que as pessoas atualmente dizem sim  por um simples ‘compromisso’ social muito me assusta. O filme escolhido, Io Capitano (Eu Capitão), com indicações ao Óscar, conta a história de dois senegaleses em busca de melhores condições de vida. A busca por dignidade desmonta todas as ilusões; uma travessia que nos dá um baita soco no estômago sobre como transformamos, pelo fato de sermos criaturas “poderosas” a realidade natural do mundo e de todos os seres.

    Pessoalmente, não consigo entender como a população de uma cidade de médio porte, como Nova Friburgo, pode reclamar de não ter o que fazer quando há tanto, de uma qualidade enorme à disposição e as ausências manifestem uma posição política, até, contrária às suas próprias contestações. Talvez as ausências digam mais do que gostaríamos: um descompasso, um eco da nossa desconexão. Palavras não são naturais.

    Ainda ontem, para compor o cenário de um espetáculo teatral chamado Dedé Show, do imenso André Mattos, cuja direção de arte é do meu mestre José Dias, quem me orientou no projeto final da minha graduação, – e de quem fui logo em assistente em alguns projetos -, me vi de uma quase assistente a componente da banda e, como intercâmbio cultural proposto pelo grande artista e sua performance brechtiniana, ainda declamei Eça de Queiroz, após ser apresentada do palco, em pleno espetáculo. E me encantei com sua história de vida, sua encenação brilhante e palavras, tão naturalmente impactantes.

    Foi um instante em que tudo caiu por terra; a palavra, desnuda, voltou à sua forma mais próxima do que poderia ser natural: uma centelha. E talvez seja isso que a arte faça por nós: devolva-nos a selvageria esquecida, o grito que a forma das palavras tanto tentam domesticar. Sob a luz da arte, a palavra não se molda, mas chama, um convite à integridade perdida, ao pulso humano que nos faz, mais que civilizados, artistas por essência.

    E mesmo que palavras sejam uma paixão e ferramenta de trabalho, as palavras não são naturais. Mas podem… não acham?


  • A nossa vida dos outros

    Queremos mais que uma vida. Queremos viver várias vidas. Desejamos ser piratas, mouros, cantores famosos, astros do cinema, reis e cavaleiros. Desejamos ser o outro e nunca nós mesmos. Não reparamos no espelho o nosso rosto… Em que espelho ficou perdida a minha face? Deixamos o tempo passar. Deixamos nossas coisas para deslumbrar outra vida, outras vidas. Nos assustamos depois com o que vemos: velhice.

    O pior de tudo é quando nos metemos na vida do outro. Somos os donos do conhecimento. Entendemos todos os males e problemas alheios e não sabemos resolver os nossos.

    No entanto, possuímos apenas uma única e delicada vida. Se há ou não há aventuras ou tesouros, grandes batalhas ou fantásticos enigmas, não importa. Importa a vida. A nossa.

    É cotidiana e tributável e a mesma e a mesma e a mesma continuamente? O que fazer? Somos humanos. Somos falhos. Somos loucos e controversos. Somos o próprio conflito e o próprio caos. E quando amamos, tudo piora. Tudo alcança dimensões maiores e mais dramáticas. E morremos sem morrer. E perdemos e ganhamos e continuamos a jogar seja qual for o jogo. E é assim e sempre será. Estamos vivos e este fato, por si só, possui um valor incalculável.

    Queremos outras vidas, mas temos uma, uma só para gastar e para amar e para chorar. Não percamos tempo.

    O que se há para viver, viva. O que se há para gastar: gaste. O que se há para amar: ame. O que se há para chorar: chore. Tudo no seu tempo…

    Encontre-se e perca-se e deixe-se levar. Aprume-se, endireite-se e siga o que há de significante. Veja ou não veja. Sinta ou não sinta. Escreva ou leia ou faça os dois ou nenhum dos dois. Faça o que é importante para a sua vida.

    Queremos mais que uma vida. Queremos viver várias vidas. Queremos viver a vida dos outros.

    No entanto, a melhor e mais valiosa a ser vivida, definitivamente, será a nossa…


  • Só se vive no agora

    Num almoço animado com as amigas, um engasgo rasga o tempo entre o vivido e o viver. O ar não passa pela garganta, os olhos arregalam diante da impossibilidade da salvação. Um ruído no peito anuncia o desengonçar dos segundos, a fragilidade do devir. Tento tossir, não consigo. O que parecia abundante se torna rarefeito. O ar não entra, não sai. Meu olhar aterrorizado de desespero encontra o olhar pronto da amiga médica. Uma manobra feita.  Nada. De novo, nada. Mais uma vez. Tento. Tento. Ouço meu nome entre pedidos de calma. Alguém me abraça pelas costas. Me aperta. Me sacode. Penso no sorriso do meu filho. Nas pessoas que eu amo. Que seja assim a despedida. Que me amparem as melhores memórias.

    O ar volta, a vida abraça, a morte se vai. 

    Uma alegria faceira dança em meus lábios. As cores retornam aos seus lugares, os sonhos se arrumam, mais uma vez, nas gavetas do pensamento.

    Uma certeza ordinária me agarra: sobrevivi!

    A obviedade corpórea desses feitos (respiro, enxergo, ouço, falo, ando) esconde no cotidiano um segredo cruel: a qualquer momento o sempre pode decidir partir.

    Hoje, por sorte, bênção ou privilégio, ele decidiu continuar a meu lado. Então, que me acompanhe no ensaio da minha escola de samba.

    O sempre só existe no agora!


  • A Troca

    Na quietude da noite, em meio ao escuro do quarto, eles iniciam uma conversa.
    Uns indignados, outros seguros de si, e alguns, incrédulos.
    Como todos a conhecem, não poderia ser diferente.
    —  Naturalmente, diz o preto, eu me
    garanto; vou com ela aos mais diversos lugares, do escritório às noitadas, restaurantes e bailes. Comigo ela fica tranquila, sabe que não sou inconveniente.  Dou segurança e conforto. Portanto, serei o último a ser trocado ou nem isso, podem apostar!
    — Querido, presta atenção!
    Sabemos o quanto você a atende  e, por isso, acaba sendo o preferido. Mas não  pense que é pela sua cor.
    Eu por exemplo!
    Também vou a todos os lugares, sou seguro, discreto e tudo mais.
    — Alguém me nota?  Só se for para perguntar onde ela me encontrou. E suas amigas ainda dizem: com esse não tem erro! A cor não é o ponto da questão, já que sou considerado pardo.
    — Verdade! eles dizem, ao mesmo tempo.
    — Eu não sei de nada, pois sou a companhia certa dela para irmos em casamentos, batizados e ocasiões especiais. Estranho seria se não fosse assim. Só os brancos me entenderão!
    Eles estavam ali, no quarto dela, discutindo, buscando entender o que havia.

    Tudo aconteceu muito rápido.
    Há pouco tempo, ela ficava dois ou tres dias em casa, resfriada talvez; aos finais de semana ia à praia, ou então apenas descansava em sua rede com os pés descalços, lendo um livro. E eles permaneciam tranquilos a aguardando.
    Depois, ela passou a quase não sair mais de casa. Separou peças do guarda roupa, colocou em sacolas, etiquetou, limpou gavetas, caixas de quinquilharias e foi arejando o seu quarto.
    Na manhã que a amiga foi buscar as sacolas de doações, eles entenderam tudo.
    Seriam descartados!
    E essa foi a razão da surpresa e da conversa noturna.
    — Ela não nos traiu, disse o preto.
    Mesmo quando trouxe para casa os baixinhos disfarçados, marrentos e cheios de si, ela nos revezou entre eles.
    — Embora cada vez menos nos procurasse, um deles resmunga com um muxoxo.

    Nada mais havia a ser dito.
    A discussão terminou, a Reflexão se impôs e disse:
    — Imaginem como não deve ser fácil para ela nos deixar ir embora.
    Somos amados, bons, fortes e de qualidade. Ainda podemos ser úteis e
    parceiros de outras mulheres.
    E ela?
    O Amor responde:
    — Fizemos parte da sua vida e amar significa deixar espaço para o novo.
    Nada é descartado ou trocado. Nem coisas e nem pessoas.
    Ela está bem.
    E vocês também ficarão. 
    Portanto, entrem em suas caixas, vamos!
    — De fato, disse o mais antigo…
    E aos pares, foram se acomodando.
    É o ciclo da vida, resumiu o amarelo.


  • A sucinta e individual força dos Verbos e Substantivos:


    (…)

    “vence, leva, ‘sai-vitorioso’, fede, terminam, caminham, garantir, levou, votarem, vence,
    consolida, vence, conquista, foi-eleito, abandonaram, levar, conversam, ‘não-fará’,

    pede, nega, inclui, deixar”

    (…)

    Arizona, estados-chave, eleição; disputa, estado; estados-chave, eleição; vitória,
    eleições; contagem, delegados, ‘X’; maioria, câmara; mulheres, EUA, republicano;
    Arizona, vitória, estados-pêndulos; 7-Estados; presidente, pobres, ‘faxina’, pentágono, sombra, COP29, Azerbaijão, eleição, parte, governo, alívio, acusações, complô,
    posição,
    Ucrânia, sinais, Kremlin, EUA

    (…)

    passado futuro Biden Lula Trump Bolsonaro posse vitória Trump pai chances Moraes vitória Trump sinal alerta Lula dois-mil-e-vinte-e-seis senador foto vitória Bolsonaro utilidade Lula candidatos Bolsonaro vitória Trump dois-mil-e-vinte-e-seis apoio
    Bolsonaro Trump Lula ex-presidente Trump

    (continua).


  • Treinamento para habilitados

    Dois dias atrás, o carro da frente do meu exibia uma placa: Em Treinamento para Habilitados. Achei fantástico esse serviço – dar um treinamento para os já habilitados. Isso pressupõe que, mesmo tendo sido considerada apta para a função a que se propõe, a criatura não tem domínio do assunto.

    Incrível, não? Como será, então, que foi considerada apta a exercer essa atividade? Quando se trata de carteira de habilitação de condutor, a nossa tão conhecida CNH, é fácil de entender – o candidato a condutor passa por um curso rápido em que decora algumas regras de trânsito, e faz, se não me engano, umas 40 horas de treino sobre como se portar ao entrar no veículo: regular os espelhos, o banco, a partida, freio de mão, as setas, etc. Aí vem o percurso, a baliza, sair na ladeira (que é o mais temido) e, salvo alguma barbeiragem muito grande, a esperada aprovação.

    Orgulhosamente com seu atestado na mão, o novo condutor começa a enfrenta a vida real – trânsito, cruzamentos, se aventurar a mudar de faixa visto que tem que entrar à direita logo mais, estar preparado para os sinais que mudam de repente, enfrenar alguém que corta a frente subitamente, ficar calmo diante da pressão de outro que buzina para que ande mais depressa, enfim – o estresse de qualquer iniciante ao volante.

    Alguns tem pendor nato, logo dirigem super bem, com tranquilidade e segurança. Outros vivem um verdadeiro martírio ao enfrentar esse desafio. Para esses, foi criado o curso de treinamento para habilitados – super louvável, apesar de que não acredito muito que o resultado seja transformar patinho feio em príncipe.

    Esse assunto ficou, de alguma forma, na minha cabeça. À noite tive um sonho delirante – esse serviço poderia ser aplicado a um outro certificado de habilitação – a certidão de casamento. No meu devaneio noturno, as coisas aconteciam assim:

    Os candidatos a sacramentar uma união passavam por uma prévia para aprender algumas regras de como se comportar ao volante de sua nova vida: regular os espelhos para não enxergar o outro de forma distorcida, escolher um banco que seja confortável e suficiente para os dois; não fazer questão de dar a partida, deixar espaço para o parceiro iniciar o contato; puxar o freio de mão quando vem aquela raiva; dar setas para que o outro perceba quando é para mudar o rumo da conversa etc. Aí vão para o percurso, tentando acertar a baliza, sair na ladeira quando o clima esquenta (que é o mais temido) e, salvo alguma barbeiragem muito grande, chegam para pegar a esperada certidão.

    Certos de que já estavam habilitados, começavam a enfrentar a vida real a dois – trânsito com congestionamentos desgastantes; cruzamentos que provocam colisões; insegurança para pegar a direita e retornar quando a conversa foi na direção errada; dificuldade para captar os sinais de alerta se o humor muda de repente; sabedoria para driblar um triângulo amoroso que corta o caminho subitamente; paciência para manter a calma quando a sogra buzina no ouvido pedindo que apareça um filho mais depressa … Resultado – uma crise de estresse do casal iniciante, que ainda não tinha competência para lidar com a situação.

    Diante disso, será que um treinamento pós habilitação ao casamento funcionaria? Acordei rindo, com essa pergunta no ar.


  • Botas, cavalos e moscas

    Embora eu adore cavalos, nunca aprendi a montar. Como bom-senso e juventude nem sempre andam juntos, quase comprei um pangaré em Águas de Lindóia que fica a mais de quinhentos quilômetros do Rio. O preço não arruinaria completamente as minhas finanças, mas obviamente a distância entre mim e o cavalo não nos tornaria próximos. Foi mais um sonho do que um projeto viável.

    Tempos depois uma amiga que também gostava de cavalos conseguiu comprar um e o colocou em um estábulo razoavelmente barato na Barra da Tijuca. Generosa, ofereceu o cavalo para que eu aprendesse a montar. Impôs uma única condição: que eu providenciasse botas adequadas.

    Indicaram-me um sapateiro especializado dentro do Jockey Clube. Fui lá, ele tirou medidas dos meus pés e marcou data para a primeira prova. Voltei no dia combinado, nada estava pronto. O sapateiro era um senhor de muita idade, puxou conversa e, sabe-se lá porquê, o assunto foi parar no jogo do bicho, cujas regras mais avançadas sempre despertaram minha curiosidade.

    O sapateiro era um pouco enrolado no seu ofício, nas explicações do jogo do bicho também, e marcou nova data para a prova das botas. Não estavam sequer cortadas quando voltei pela segunda vez. Mais conversa, mais jogo do bicho, mais enrolação, outra data. Depois de duas ou três vezes em que isso se repetiu, liguei para a minha amiga para justificar a demora em começar as tão sonhadas aulas de equitação. Ela tinha decidido vender o cavalo porque o preço das cenouras que o animal consumia era estratosférico! Nunca mais voltei ao sapateiro, creio que ele também nunca chegou a fazer as botas. E continuo sabendo apenas o básico sobre o jogo do bicho.

    Em um dos muitos congressos dos quais participei conheci um professor argentino que afirmou ter um cavalo ali perto. Eu e outro professor nos entusiasmamos quando o cara perguntou se teríamos interesse em montar o animal durante um intervalo entre as conferências. Nosso entusiasmo desvaneceu-se quando chegamos ao local: esqueça qualquer fazenda ou clube equestre, era literalmente um terreno baldio com uma cerca de arame e um pangaré pastando. O argentino laçou o cavalo, colocou uma corda à guisa bridão e disse que estava pronto.

    Nunca tínhamos imaginado montar um animal em pelo, contudo não quisemos dar o braço a torcer. Sem sela e sem estribo, subir no cavalo foi uma manobra difícil que precisou da ajuda do argentino. Cada um deu uma voltinha ao terreno e declarou-se satisfeito. Na minha vez morri de medo de cair, abracei o cavalo com as pernas, segurei-me o melhor que pude e deu certo. Mas era um intervalo entre duas conferências, lembram-se? De volta ao congresso, ao meu redor e do meu amigo começaram a acumular-se moscas atraídas pelo cheiro de cavalo que ficou em nossas roupas. Naquele ambiente sério fizemos nossa melhor cara acadêmica, mas vontade de rir não nos faltava. Ninguém ousou falar sobre as moscas; os humanos provavelmente sentiram o mesmo perfume, porém foram mais discretos.

    Hoje já não tenho coragem de montar, nem mesmo em pangarés e muito menos sem sela. Vocês sabem: a idade, a coluna, os joelhos, a osteoporose… Vale a máxima antiga: certas coisas têm que ser feitas no tempo certo.


  • Não existem mais heróis

    Não Existem mais heróis…

    Estes, ficaram em fotos, figuras coloridas ou desbotadas, ficaram nas páginas de um livro velho, ou então, são relembrados de maneira torpe e fragmentada por aqueles que contam histórias antigas, mas têm já uma memória vaga das coisas.

    Hoje, o tempo é de homens perversos. Tempos de perversidade!

    Hoje, o tempo é de guerra e divisão, de discurso copiado na rede e de arma na mão!

    Hoje é o tempo de imbecis! É o tempo do fim da nação!

    Nas fronteiras do mundo, homens rasgados, mulheres cortadas, crianças interrompidas tentam fugir do caos.

    No entanto, apenas prolongam a agonia do desterro…

    Não existem mais heróis.

    Estes, enganaram a troco de pouco, por trinta moedas ou menos…

    Hoje, o tempo é de muros mais altos, dedos em riste, cercas e arame farpado.

    É o tempo do discurso do ódio, da banalização da morte e da miséria, da mediocridade como solução!

    Não existem mais heróis nem cavalos pra montar.

    Não existe mais o final feliz, não há mais aprendiz. O que há é a marca. O que fica é a cicatriz!

    Hoje, o tempo é de revolver cascalhos, olhar os escombros, contar os mortos…

    É o tempo de filósofos desbocados, de agressivos comentários, de loucos pra todos os lados!

    É o tempo dos flagelados, dos desnudados, dos milhões de desempregados…

    Não existem mais heróis…

    E já já não existirão mais poetas.

    Haverá a necessidade de expulsá-los porque teimam frequentemente em pensar, porque teimam absurdamente em enxergar…

    Mas isso tudo não importa, pois as pessoas já não pensam e não enxergam…

    Nas fronteiras do mundo, a despeito da dor, bandeiras continuam delimitando espaços, marcando territórios, desumanizando vidas…

    Nas fronteiras do mundo, a despeito da dor, bombas são jogadas e preparadas e alimentadas sem qualquer pudor.

    As ideologias, rotas e desfiguradas, ainda teimam em dizer o que é bom é o que não é.

    Ainda fazem pessoas saírem de suas casas sem destino e sem a certeza do pão.

    Nas fronteiras do mundo, duas bandeiras se misturam, se interpenetram, mas não se fundem, ao contrário, criam um vazio, uma incógnita… um entrelugar…

  • É preciso sagrar-se cavalheiro

    Para viver um grande amor… talvez esse seja o desejo de todos os românticos, como Vinícius de Moraes. Para uma grande parte dos casais longevos, porém, ele é como aquele café coado de manhã: tem sabor quente e intenso no início, adquire um tom meio desbotado e morno com o passar do tempo e, ao final do dia, sobra só aquele fundinho da xícara com restos de pó, frio e amargo.

    Talvez por esse motivo, mas não somente por esse, um filme que assisti recentemente me encantou – A grande Fuga, um drama dirigido por Oliver Parker e estrelado por Michael Caine. A trama se passa durante o verão de 2014 e acompanha a história real de Bernard Jordan (Caine), um veterano da Segunda Guerra Mundial que decide escapar da casa de repouso em que vive com sua esposa Irene, interpretada por Glenda Jackson, e viajar até a França para participar da celebração do 70º aniversário do Dia D nas terras da Normandia.

    A história do veterano Bernard toca em um ponto sensível e super atual, ou seja, a insanidade de uma guerra, o crime escancarado da perda de milhares de vidas de todos os lados em conflito por e para absolutamente nada.

    Nos faz também pensar no quanto um sonho é capaz de mobilizar nosso corpo e mente a ponto de nos aventurarmos muito além do bom senso e dos limites que a idade nos impõe.

    Talvez para uma grande parte da audiência desse filme, especialmente os mais jovens, esses sejam os maiores atrativos do filme, além da atuação brilhante de dois atores super consagrados como Michael Caine e Glenda Jackson, na época com 90 e 84 anos respectivamente. Glenda, inclusive, faleceu logo após o filme.

    A mim, além desses dois valores, que tornam o filme lindíssimo, a poesia existe na convivência amorosa de dois idosos que, ao final da vida, ainda conseguem manter a cumplicidade, o carinho e a delicadeza da convivência, mesmo estando em um lugar que, a princípio, evitamos até em pensamento – uma casa de repouso.

    Tudo no filme pode ter sido romanceado, obviamente, a partir da realidade de Jordan e Irene; mas a mensagem, de qualquer forma, enternece e faz pensar que é possível manter aquele café como se tivesse sido coado na hora. Mas, como cantou nosso poeta…

    Para viver um grande amor
    Primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro
    E ser de sua dama por inteiro
    Seja lá como for”
    Vinicius e Toquinho


  • ENEM – cada inscrição uma história

    Martina, quando pequena, adorava pegar a seringa de brinquedo e dar injeção nas
    bonecas. Aprendeu com seu pai que, quando crescesse, seria médica.

    Sua família incentivava, com gosto, a brincadeira da menina. Sabiam que, se a fantasia
    ganhasse espaço na realidade, o futuro estaria garantido. 

    Estudiosa, a filha não era. Tinha dificuldade em matemática e português, e preguiça
    para os deveres. Mas desde quando os sonhos respeitam os limites da verdade? Seu pai
    já havia determinado: se espelharia no seu tio-avô. Renomado e rico.

    Ano a ano, na cabeça dele, a história ganhava enredo: Martina estudaria medicina na
    federal, seria assistente do tio Aldomiro, trabalharia na clínica dele. Embora fosse neta
    de um pintor falido, conquistaria o status que seu avô não foi capaz de alcançar. “Nunca
    mais serei o primo pobre”, repetia o pai em seu secreto pensamento.

    No aniversário de doze anos da filha, de forma solene, a presenteou com um jaleco
    branco e nome bordado em dourado. Nessa época, Martina não via mais graça em dar
    injeção. Seu novo divertimento era desenhar vestidos e acessórios. Também amava
    experimentar suas roupas e desfilar pela casa fazendo pose. Deu esse destino ao jaleco.
    Usou-o com cinto, lenço, salto alto da mãe.

    O pai insistia no sonho. Tinha por hábito, ao chegar do trabalho, perguntar:

    — Onde está a Dra. Martina Albuquerque?

    O silêncio invadia o ambiente como uma advertência do futuro.

    A mãe tentou alertar ao marido que a medicina era uma fralda suja de infância. A
    menina, agora mocinha, demonstrava interesse e talento inato para as artes.

    Pela primeira vez, a mãe da garota sentiu, na maçã do rosto, a ira dos inconformados.
    Martina, horrorizada com a cena, nunca mais desenhou.

    Aceitou, com resiliência, a missão de reparar as frustrações e recalques do passado
    familiar. Ingressou na faculdade de medicina. Prestes a se formar, adoeceu do sangue.
    Pobre Martina!


  • As cartas

    Ela estranhou quando o carro parou em frente à sua casa tão cedo. Não costumava receber clientes naquela hora do dia. O homem que desceu do veículo tinha o semblante assustado e, ao vê-la no alpendre, lhe fez um aceno. Ela foi até o portão; antes de abrir, notou as olheiras de quem parecia não ter dormido. 

    – Entre, moço – falou, sem perguntar de que se tratava. Não era preciso. A fama que acumulara fazia com que a procurassem sobretudo por uma razão: desfazer algum temor ligado ao futuro. 

    Ela o fez atravessar o pequeno alpendre rumo a uma saleta onde havia uma mesa forrada com um pano verde sobre o qual estava um baralho já gasto. Sentou-se e fitou o rapaz com um ar doce e compreensivo. Aprendera, com o tempo, que essa expressão acalmava os que a vinham procurar. 

    – O que o atormenta, meu jovem?

    Ele baixou a vista e, com algum esforço, falou as primeiras palavras: 

    – Daqui a pouco vou encontrar alguém. Quero saber se corro algum risco.

    Disse e ficou mudo. Ela esperou que continuasse. Depois ponderou que, se lhe desse uma ideia de que adivinhava o motivo da sua inquietação, despertaria nele mais confiança. 

    – O que é que no comportamento dele lhe provocou tanto medo?

    “Dele”. Então ela sabia que se tratava de um homem! E, de fato, era o marido da colega de trabalho com quem vinha saindo há alguns meses.

    – Como sabe que é “ele” e não “ela”?

    – “Ela” ocupa sua mente, mas de outro modo – respondeu com um olhar malicioso, dando à expressão um ar conivente que o confortou.  

    A senhora é perspicaz – ele disse, com um suspiro que fez os olhos dela brilharem ainda mais. 

    Explicou-lhe então que vinha se encontrando com uma mulher casada. Os encontros ocorriam com a máxima discrição, claro. Chegara a ponderar que o que fazia não estava certo, mas se sentia incapaz de resistir. Desejava-a, tinha paixão por ela, e sabia que era correspondido.

    Fez uma pausa, levemente emocionado com o que acabara de dizer. Em seguida explicou que mal conhecia o marido, por isso estranhou o telefonema pedindo-lhe um encontro para falar “da situação profissional da esposa”. Ficou com a mosca na orelha. E se ele soubesse de tudo e pretendesse lhe fazer algum mal?

    Depois de ouvi-lo, a mulher pegou o baralho e começou a misturar as cartas. 

    – Vamos ver o que elas dizem. As cartas não mentem jamais.

    Esse lugar-comum lhe soou como uma verdade profunda. As cartas pareceram infalíveis e certamente o orientariam sobre o que deveria fazer. A mulher pediu que tirasse uma delas, depois outra, juntou as duas e olhou por cerca de meio minuto a combinação. Depois levantou a vista e o fitou com um sorriso entre cúmplice e triunfante.

    – Tranquilize-se, meu filho. Ele não sabe de nada.

    – Tem certeza de que ignora o que há entre nós?

    – Absoluta. Siga em paz e viva com intensidade essa paixão, pois a vida é curta. 

    Sorriu, aliviado, e lhe perguntou quanto devia.

    – Dê o que o seu coração mandar.

    Abriu a carteira e lhe passou uma quantia generosa. O alívio que as palavras dela lhe trouxeram não tinha preço. Ao se despedir, apertou a mão da mulher e agradeceu com uma humildade que a surpreendeu. Ela é que devia se mostrar humilde diante daquele homem elegante e de uma classe social bem superior à sua. Mas o que dá a cada um a medida da sua importância é a situação que está vivendo, e ele se sentia frágil em razão da dúvida que o afligia.   

    Depois que saiu, ela contou as notas. Era um montante considerável, que lhe permitiria consertar o ar-condicionado e comprar uns objetos com que vinha sonhando.

    Depois do jantar, sentou-se diante da TV para assistir ao noticiário local. Ficou curiosa ao se deparar com a primeira manchete: um marido que se soubera enganado matou com três tiros o amante da esposa. Em seguida vinham detalhes do crime e a foto da vítima. Tomou um susto ao ver que era o homem que tinha vindo consultá-la pela manhã. A mesma roupa, o mesmo cabelo, e nos olhos vidrados um ar de perplexidade.

    Por um instante sentiu remorso, mas logo tratou de banir do espírito esse sentimento. Qual fora a sua culpa? Não tinha concorrido para o crime. Deixara o rapaz confortado como podia ter feito o oposto. Se confirmasse as suspeitas dele e estivesse errada, poderia pôr fim à vivência de uma grande paixão. 

    Pensando bem, foi melhor que ele ignorasse o que estava por acontecer e marchasse tranquilo para o fatídico encontro. A sentença já fora providenciada pelo destino, e quem era ela para interferir nos seus desígnios? O que fez, no final das contas, foi dar um pouco de ilusão a quem já se condenara pelos seus próprios atos.

    Com esse pensamento recontou o que o morto tinha lhe dado, antecipando os pequenos luxos que iria comprar.


  • Custos irrecuperáveis!

    Nossos telefones celulares oferecem dopamina digital 24 horas, 7 dias por semana, aos indivíduos conectados com seus interesses apenas, e alheios ao que acontece ao seu redor. Estamos vivendo em uma época de acesso sem precedentes a estímulos de alta recompensa e muita dopamina: drogas, comida, notícias, jogos, compras, sexo e redes sociais.

    A variedade e a potência desses estímulos são impressionantes, e todos somos vulneráveis ao consumo excessivo e à compulsão ao utilizar as redes sociais, sendo que qualquer pessoa pode desenvolver um vício desses.

    Na era moderna, é fácil perceber o problema, porque sabemos muito bem que os celulares, a “internet” e as mídias digitais são drogas potentes cujas baterias podem ser recarregadas todas as noites.

    As redes ativam os mesmos circuitos que as drogas tradicionais, como o álcool, a cocaína e os comprimidos sintéticos. Eles liberam dopamina (nosso neurotransmissor de prazer) no sistema de recompensa do cérebro.

    Quanto mais dopa mais viciante é a experiência. E a consequência disso é o que chamamos de custos irrecuperáveis, de tempo, saúde, dinheiro e uma lista amarga que surpreende os especialistas à busca de soluções.

    A Dra. Anna Lembke, psiquiatra e professora da Escola de Medicina da Universidade Stanford, escreveu o livro “Nação dopamina”, e explorou as novas e empolgantes descobertas científicas que explicam porque a busca incansável do prazer gera mais sofrimento do que felicidade. Ela mostra que o caminho para manter a dopa sob controle é encontrar contentamento nas pequenas coisas e buscar conexão com as pessoas queridas.

    Como prova disso, a Dra. Anna compartilhou diversas experiências vividas por seus pacientes em trechos emocionantes, que são histórias fascinantes de sofrimento e redenção, e que trazem esperança de que é possível transformar nossas vidas e encontrar o segredo do equilíbrio, combinando a ciência do desejo com a sabedoria da recuperação.

    “Navios não afundam por causa da água que está no seu entorno, mas sim como consequência de quem os maneja mal”.

    Não é sobre o que os outros dizem sobre nós que insistimos respirar, é sobre sonhos, os nossos, aqueles que acreditamos serem possíveis de realizar na vida real, e compartilhar com alguém, que tenha os mesmos.


  • O Luto na Visão dos Cães

    O luto, no olhar humano, é o vazio que se instala após uma perda. Uma ausência que ecoa e se faz presente em cada instante de saudade. Mas, se o luto é tão humano, como explicar que o cão também sofra quando seu dono se vai?

    Talvez isso se deva ao mistério do vínculo que une nossas almas às deles. Diferente de nós, os cães não filosofam sobre o que foi ou sobre o que virá, nem se perdem em pensamentos sobre a ausência. E, ainda assim, quando seu dono parte, algo neles se transforma para sempre. Como Hachiko, o cão que esperou incansável pelo dono que nunca retornaria, os cães têm seu próprio e singular jeito de viver a perda.

    Eles refletem nossas emoções, espelham nossos sentimentos, sentem a nossa dor e também vibram com nossas alegrias. Na ausência, os cães absorvem o vazio, percebem a mudança no ar, o silêncio dos passos que não se repetem mais, e o cheiro que gradualmente desaparece. Mesmo sem palavras ou cerimônias, são tocados pela presença que se foi.

    Um cão enlutado pode ficar apático, quieto, perder o interesse pelo que antes o alegrava. Sua conexão com o dono é uma cumplicidade que ultrapassa o toque e a presença física, algo que, de certa forma, transcende. Como uma alma pura, ele sente a perda sem as complexidades culturais ou emocionais que nós temos. É como se o cão soubesse, em sua simplicidade, que algo essencial se perdeu..

    No entanto, assim como nós, os cães possuem uma força de renovação surpreendente. O segredo está em manter a rotina, respeitar seu tempo, e, acima de tudo, não projetar sobre eles as nossas próprias tristezas. Eles não se apegam à dor; para eles, apenas o presente é real, e talvez por isso, gradualmente, eles sigam em frente. Eles não entendem a nossa pena, não precisam de lamentações.

    Diz-se que, para o cão, só existe o momento presente. E talvez isso explique porque, aos poucos, eles reencontram o caminho para a alegria. O luto dos cães não é uma prisão; é uma travessia silenciosa que nos lembra que a dor pode ser abraçada, mas não deve ser eterna.

    Talvez, de vez em quando, ao sentir um cheiro familiar ou uma brisa que traz algo do passado, ele erga o focinho e, em seu íntimo, sorria, sentindo que, de algum modo, ainda estamos presentes. Porque o amor de um cão não se apaga com o tempo ou a ausência; ele persiste, eterno e fiel, como uma chama que nunca se extingue.

    E assim, quando a noite cai e o silêncio domina, ele dorme em paz, com o coração ainda aquecido por aqueles que um dia amou. E nós, de algum lugar, talvez sintamos o mesmo: uma saudade doce, acompanhada da certeza de que um vínculo assim, entre cão e humano, nunca se rompe de verdade. Nessa complexidade de se fazer evoluir, para os cães, cada instante importa, o passado se dissolve na simplicidade do presente. Eles nos ensinam, assim, que amar também é saber soltar. Um novo lar, uma nova rotina, um novo amor… tudo no cão é levado a ser simples.


  • Equilibristas!

    Somos equilibristas! E fazemos isso com muita eficiência e profissionalismo!

    Não sabemos o tamanho da nossa força até que somos forçados, por circunstâncias várias, a viver a vida nas suas complexas contradições!

    Como não falar da vida e dos seus altos e baixos!?

    Na verdade, vivemos entre o riso e as lágrimas, o sol e a chuva, o sabor do tempero e o insosso.

    Vivemos entre dias quentes e dias frios, oscilando agudos e graves, pagando as contas, sonhando os sonhos e seguindo o fluxo!

    Em um momento estamos subindo, subindo… quase voamos!

    No momento seguinte, descemos e descemos… quase um túnel em direção ao centro do planeta! Transitamos entre o silêncio e a lentidão de um lugar remoto e o nervosismo e o caos da civilização! E assim, como perfeitos equilibristas, andamos por um fio, com passos ora leves e ligeiros, ora pesados e trêmulos.

    E assim, como desconcertados equilibristas, estamos sempre por um fio: os compromissos, as urgências, o sim e o não! A eterna fila do pão!

    Com ou sem luz, com ou sem mar, vamos seguindo…

    Com ou sem dinheiro, com ou sem energia, vamos seguindo…

    Na luta intensa de todo dia, escrevemos e apagamos, abrimos e fechamos os olhos diante da profusão de coisas e seres ao nosso redor!

    O grande problema disso tudo é que, muitas vezes, na explosão de sentimentos e momentos, muitas criaturas acabam por cometer o maior erro, o irreparável erro: o de perceber a vida quando já não há mais tempo…


  • Papilas gustativas do viver 

    Na última semana, por ocasião do aniversário de uma grande amiga, me deparei com o desafio de escrever um cartão de felicitação. Não me servia aquele que já vem com a mensagem pronta e só precisamos assinar. Tampouco queria escrever apenas: Parabéns! Saúde e Paz.

    Muito embora essas palavras, por si só, já representem as joias raras da sorte, queria desejar algo a mais. É certo que dependemos da saúde para realizarmos qualquer feito e da paz para desfrutarmos de qualquer situação, mas há que se ter outros requisitos para a magia do sorriso solar acontecer.

    Visando garantir a minha amiga o melhor dos mundos, achei de bom tom incluir a coragem. A vida depende desse impulso, dessa força propulsora que quebra a potência destruidora do medo de errar e de ser quem se é.

    Caprichei na letra e nas palavras para que a mensagem carregasse em si o poder magnético do afeto, da amizade e do pensamento positivo.

    Já estava pronta para assinar quando algo me inquietou por dentro. Tudo estava dito, o novo ciclo seria perfeito, repleto de bons acontecimentos, sonhos e conquistas. Mas, nesses termos, pareceu inverossímil o meu voto de felicidade.

    Necessitava alertar minha amiga de que essa expectativa de sucesso e vitórias infindas era uma arrumação ilusória de belas palavras. Decidi avisar sobre a possibilidade de momentos difíceis, porque a vida é real e um pouquinho injusta, mas para isso temos a esperança, agasalho dos dias frios de sofrimento.

    De imediato, achei indigesto falar de tristeza, decepção num cartão de aniversário… todavia, sem isso também não se experimenta as papilas gustativas do viver.

    Por fim, escrevi:

    “Amiga, que a vida lhe sorria muito, mas se lhe fizer chorar, não lhe falte garras para seguir em frente, lanhando a cara do infortúnio. Nos dias nublados, toque uma flor, abrace uma árvore. Jamais se esqueça: as nuvens carregadas trazem a chuva que rega a terra.”


  • Tirando a máscara todo mundo é fantasma

    Outubro me lembra Halloween, até porque, como uma bruxa legítima, nasci no dia 31 à meia-noite. Bruxas, vassouras, abóboras e todas as figuras fantasmagóricas que povoam o imaginário popular são inspiração para as mais diversas fantasias: esqueletos, vampiros, mulas sem cabeça, ao lado de figuras famosas como o Conde Drácula, Morgana, Cruella, Freddy Krueger e outras encarnações do mal.

    Para as crianças, 31 de outubro é um dia de alegria, pois significa a possibilidade de comer doces sem nenhum policiamento dos pais, por conta da brincadeira de “Trick or Treat”. Esse hábito remonta a uma prática celta do Samhain, uma festa que marcava o fim da colheita e o começo do inverno. Daí o costume de ir de casa em casa pedindo contribuições em alimentos, hoje adaptadas para guloseimas. Reza a lenda que, durante a noite do Samhain, a fronteira entre o nosso mundo e o “outro mundo”, o dos mortos, podia ser cruzada, permitindo que espíritos maus vagassem pela Terra. Por esse motivo, os celtas usavam máscaras para não serem reconhecidos, originando o uso de fantasias no Halloween.

    Esse uso de máscaras como forma de esconder a identidade me fez lembrar de Erik, o personagem criado por Gaston Leroux em seu livro de 1910, que deu origem ao musical “The Phantom of the Opera”, de Sir Andrew Lloyd Webber, um sucesso que encanta plateias até hoje.

    Erik, o Fantasma, que usa uma máscara para esconder sua figura deformada, se tornou um símbolo de amores não correspondidos, mas a mensagem dessa história vai muito além disso. Ela explora uma batalha interior entre dois aspectos importantes de nossa psique: a coragem e o medo, enfrentados pelos protagonistas. Não é à toa que esse musical atrai o público há muitas gerações.

    Do ponto de vista do Fantasma, o medo da rejeição muitas vezes nos faz usar uma máscara para esconder traços da nossa verdadeira identidade. Tentamos ocultar o que escancara nossas falhas de caráter, nossos desejos proibidos, invejas, ódios, frustrações. Acreditamos que ninguém poderá nos amar se tirarmos essa proteção, assim como o Fantasma não conseguia se mostrar à sua amada.

    Do lado de Christine, a reflexão é sobre a coragem de escutar sua voz interior e seguir Erik, seu mentor abrigado nas trevas. Renunciar ao que é fácil, confortável, belo e aceito por todos, representado no musical pela figura de Raoul. Assim como ela, na vida nem sempre conseguimos optar por nossa melhor versão e deixar fluir quem realmente somos, escolhendo o caminho que não será aplaudido, mas que nos fará mais felizes.

    Talvez porque, afinal, tirando a máscara, todo mundo é um fantasma, não é mesmo?


  • Pressupostos e subentendidos

    Boa parte do que o texto significa não se mostra explicitamente. Quando escrevemos deixamos implícitas algumas informações, e cabe ao leitor completar as lacunas.

    Os implícitos são basicamente de dois tipos: pressupostos e subentendidos. Os pressupostos estão inscritos na língua; não há como fugir ao sentido que eles determinam. Já os subentendidos dependem de interpretação.

    Se alguém diz a uma visita: “Finalmente você apareceu”, pressupõe-se que o interlocutor havia tempo não dava as caras; o advérbio que introduz a oração indica isso. Caso ele acrescentasse uma observação do tipo: “Deixou o orgulho de lado”, estaria formulando um subentendido. A ausência do outro teria sido interpretada como soberba. O subentendido sempre envolve um julgamento, um juízo de valor, e por vezes leva à distorção da verdade.

    Um exemplo disso ocorre nesta passagem de “O pagador de promessas”, a conhecida peça de Dias Gomes:

    PADRE Que pretende com essa gritaria? Desrespeitar esta casa, que é a casa de Deus?
    ZÉ Não, Padre, lembrar somente que ainda estou aqui com a minha cruz.
    PADRE Estou vendo. E essa insistência na heresia mostra o quanto está afastado da igreja.

    Zé do Burro pretende entrar na igreja carregando uma cruz para agradecer a Santa Bárbara o restabelecimento do seu burro Nicolau. Ele é um homem simples, ingênuo, e jamais lhe passaria pela cabeça contestar a ortodoxia cristã. No entanto o padre Olavo interpreta o fato de ele conduzir a cruz como um sinal de heresia. Subentende na resposta do interiorano a intenção de ser um novo Cristo.
    Nos subentendidos refletem-se valores e preconceitos da sociedade. Levei para a classe o seguinte diálogo:

    – Você pretende se casar?
    – Eu tenho juízo!

    Depois perguntei à turma o que se subentende da resposta. Praticamente a totalidade dos alunos afirmou que ela dava entender que só “um doido” se casa. O curioso é que o diálogo também permite que se entenda o oposto. Pode-se interpretar a resposta como uma defesa do casamento, que seria a opção do indivíduo prudente e racional. Por que ninguém considerou esse lado?

    Nesta outra passagem a interpretação ficou mais fácil, pois o que se subentende parte de um dos envolvidos no diálogo:

    – Aquele ali teve sucesso na política.
    – Já sei. Nunca foi pego.

    Está implícita a ideia de que os políticos transgridem a lei.

    Um dos maiores riscos na redação é querer dar aos subentendidos o rigor dos pressupostos. O que se interpreta não pode ser tomado como verdade absoluta. Num texto sobre os novos papéis da mulher na sociedade, um aluno escreveu: “O trabalho da mulher fora de casa prejudica a educação dos filhos, pois ninguém substitui a mãe nessa tarefa.”

    Subentende-se que tal prejuízo possa ocorrer, mas há mulheres que conseguem conciliar as duas funções. O aluno deveria ao menos ter apresentado o seu julgamento como possibilidade. Por não fazer isso, incidiu numa discutível generalização.


  • Mês da História da Mulher!

    Lutar por causas importantes tornam pessoas desenvolvidas e preocupadas com o futuro de todos. Pensamentos racistas, homofóbicos, xenofóbicos, sexistas, misóginos, mantém mentes e comportamentos presos ao Renascimento. Por isso movimentos como o racismo e a misoginia seguem seu próprio código civil descrito na idade média, ou seja, sem sentido em nosso tempo que tem sede de respeito, que deseja se manter moderno e intelectualizado, desenvolvido para os povos que almejam espalhar o respeito e a oportunidade a todos, e não somente aquela casta que preconiza o isolamento e a falta de dignidade aos que pensam no coletivo. Gestos atenciosos sobre esses temas demonstram a qualidade das relações e a dimensão do respeito ao próximo. Como o fizeram os italianos para comemorar o dia internacional da mulher. Eles se presentearam com cachos de pequenas mimosas amarelas. Símbolo que demonstra a força feminina, e as mulheres se presentearam como sinal de solidariedade.

    Na Romênia, esse mesmo dia foi celebrado de um jeito parecido com o dia das Mães, dando motivo particularmente aos homens, do reconhecimento às suas mães, avós, e amigas, entregando-lhes cartões e flores.

    Já nos EUA não foi feriado oficial, mesmo que março seja conhecido como o Mês da História da Mulher; um período para dar atenção às conquistas durante sua trajetória. Naquele dia, capitais sediaram comícios, conferências e eventos de negócios que reuniram debates e lideranças femininas sobre o tema.

    Em oposição a tantas manifestações de acolhimento, encontramos no brasil, uma crítica literária racista que atacou um livro premiado. 

    “O Avesso da Pele”, de Jeferson Tenório, escritor, professor, pesquisador, e venceu o prêmio jabuti em 2010 com esse livro, onde descreve o racismo e narra que uma desastrosa abordagem policial acabou por matar o pai do personagem Pedro, que sai em busca do passado de sua família e refaz os caminhos paternos. 

    Com uma narrativa sensível e por vezes brutal Tenório traz à superfície um país marcado pelo preconceito, e um denso relato sobre as relações entre pais e filhos. Utilizando como pano de fundo uma frase do livro sobre sexo, a crítica, foi, na verdade, racista. 

    Expôs a permanente atitude descabida contra o negro e sua condição em um país preconceituoso, com pessoas abaladas por inevitáveis fraturas existenciais num processo de dor, mas também com redenção, superação, e liberdade.


  • Os signos da crítica

    Costumo ler em voz alta quando estou em casa. Peguei esse hábito da minha mãe, que todo sábado à tarde distribuía na mesa da sala uma penca de cadernos e livros para corrigir trabalhos, ler e reler textos, planejar as aulas da semana seguinte, tudo em alto e bom tom. Uma resma de folhas em branco e o mimeógrafo aguardavam na estante, ali ao lado. Eu podia destruir a casa desde que não relasse naquela mesa.

    Trinta anos depois, não temos um mimeógrafo e nem uma resma de papel por perto, mas mantenho a cultura familiar da leitura em voz alta que, por acaso, tem dado o que falar. Lia há alguns dias uma crítica literária no sofá enquanto minha esposa fuçava numa das gavetas da cômoda. Em algum ponto da argumentação, ela parou para ouvir, prestando uma atenção quase intimidatória; fiquei inclusive receoso com possíveis tropeços ou gaguejos. Quando cheguei ao fim do texto, ela me perguntou quem era o autor e, logo após a resposta, completou: — É taurino. Encerrou o papo saindo para a cozinha. Dois ou três dias depois, em outra leitura, veio a sentença: — É aquariano. Novamente, assunto encerrado sem mais delongas

    Aquilo não fazia sentido. Sugerir o signo do crítico a partir de uma opinião era bobagem, além disso, desmentia a independência intelectual, reduzia as perspectivas, presumia o futuro, mapeava as questões fundamentais da vida. Impossível, apenas impossível.

    Com certa malícia, busquei, sem ela saber a data de nascimento do crítico alvo do último palpite e, para minha surpresa, estava certa. Sorte de principiante, óbvio. Nada mais que isso. Provaria com facilidade se tratar de um chute bem dado e jamais voltaria a refletir sobre o assunto. Naturalmente, não revelei o acerto para não criar uma polêmica conjugal.

    Passei então a ler textos sortidos de diferentes críticos, querendo pôr à prova essa tal sabedoria mística. Tudo iria se mostrar uma baita coincidência, uma eventualidade, afinal, as questões do Zodíaco são achismos, todos sabemos disso. Mas, como em tudo na vida, há quem diga o contrário — uns românticos, alienados. O estranho é que desde então são seis críticos e nenhum erro.

    Wilson Martins foi decretado pisciano trinta segundos após o fim da leitura, mesmo signo de Otto Maria Carpeaux, decifrado sem hesitações. Álvaro Lins foi revelado sagitariano antes do ponto final, faltavam ainda uns dois ou três parágrafos. O aquariano Augusto Meyer também não demorou a ser descoberto, tampouco o leonino Antonio Cândido. Harold Bloom, por fim, não teve chances porque tinha o mesmo signo da Senhora Leidens.

    Eu não sei se há alguma relação esotérica entre as opiniões e os signos dos críticos. O fato é que agora leio crítica literária aguardando ansioso a sentença do outro lado da sala. Talvez ela esteja trapaceando e tenha até buscado os aniversários dos autores perfilados na estante, talvez eu deva esquecer o assunto antes que me contamine. Por certo, não ficaria bem como um jovem místico tardio, ou como um tardio jovem místico, como queiram. Visto melhor o cinismo com calça jeans e tênis.

    Não quero suprimir as opiniões das pessoas, também não quero tabelá-las com base em gnoses obscuras, mas, como uma experiência sociológico-literária, sugiro ao amigo leitor que balize minha dúvida e participe de um experimento científico de descomprovação: se quiseres, me encaminha tua opinião sobre este texto, seguida da data do teu nascimento. Apenas se quiseres, claro, sem obrigações nem mentiras. A ciência depende da tua sinceridade. Me comprometo a fazer uma leitura em voz alta do teu parecer com o intuito de desmistificar o esoterismo literário que me aflige ou, dependendo do resultado, iniciar uma pesquisa mais aprofundada sobre os signos e a crítica. Espero não chegar nesse ponto. Sei que também não acreditas nessas coisas. Que tal, topas?


  • Nunca iguais, revisitadas

    Assim como as folhas altas nas copas das árvores balançam com o prenúncio de intensas chuvas… tal qual o som de passos ligeiros em direção a um compromisso que estar por iniciar… ou ainda a terceira badalada de uma campainha teatral que, após outras duas de igual duração, alerta os desavisados de que o espetáculo se iniciará, assim é a vida dos recomeços. Nunca iguais, revisitados. E entre tantos reinícios em minha vida ao longo deste último ano, as campainhas, os passos e o vento trazem o Crônicas Cariocas novamente à minha rotina, o acender de uma vela em meio às trevas. O portal, que há 18 anos está colado ao meu corpo, pelo avesso; uma sinfonia interna que faz dançar o coração – e atento ao olhar sobre o cotidiano. É como se eu adentrasse pela porta da frente uma casa que sempre foi meu lar. Pois bem.

    Como em qualquer reenceto, há de se dividir o espaço com certa cautela, nada muito marcante, porém presente: o segurar da pena que vacila ao encontrar o nanquim, trechos sem amarração de uma narrativa base – logo papéis amassados por fora de cestos de lixo. A emoção é enorme. O timing da escrita, não. Em se tratando de time, ou tempo, este que é cada vez mais escasso se mostra faceiro aos olhos inocentes de minha versão quase 3.6. Eu não quero falar sobre o tempo. Não o tempo que se esvai por entre os dedos ao manusear páginas de livros novos, tampouco aquele que não se sente ao deleitar-se com amigos, familiares ou cachorros. O tempo que mais se destaca – e ecoa, como ecoa – é o do barulho dos ponteiros analógicos, o vigia implacável que nos demonstra estarmos sempre por fazer algo, por nos deslocar, por agir – sem tempo para o sentir. O tempo movimento, o tempo espaço, o tempo objeto.

    Assim como a pena está para o nanquim, na correlação da escrita, eu estou para as artes, mero instrumento a serviço de algo maior. Energias que explodem ao se chocarem; o zumbido de uma Bialetti anunciando que o espresso está pronto – reforçado pelo cheiro maravilhoso deste líquido perfeito. Tudo não passa de um chamado de alma. E este é o ponto que só os artistas compreendem. Com a volta do Crônicas Cariocas, a Bia ressurge das cinzas poeirentas, o estojo verde da Olivetti deixa de ser apenas enfeite; neste ínterim, a Núbia vem abrindo novamente as cortinas vermelhas, pelos palcos de teatros e espaços de leituras dramatizadas. Há o retumbar da essência italiana, materializada na figura dupla de secretária de uma Colônia de descendentes e responsável pelo seu Departamento Cultural. Como ainda sobram horas à rotina de microempreendedora individual, uma cadeira no Conselho Municipal de Políticas Culturais é bem-vinda. E, resgatando a minha criança interior, aulas de costura. Processo terapêutico em dia, em dia com os momentos pós pandemia que deixou todos doidos varridos, e a minha loucura particular foi casar no civil e religioso para, obviamente, findado o último grande surto mundial, divorciar-me, não somente de um relacionamento pernicioso, como de uma parte podre de mim mesma. 

    Terapia não é teatro. Mas para dar certo na terapia, o terapeuta não pode por seu juramento numa balança, e escolher como tratar pacientes com base a se estão pagando com o cartão do plano de saúde ou via Pix. Desisti das sessões com psicólogos após muitas tentativas frustradas. Eu prefiro viajar, viajar é preciso, viajar é fazer com que a vida não escape de mim mesma, encontrar o desconhecido, perder-me e encontrar-me ao mesmo tempo. Mas a viagem de 2024, ao invés de envolver o Aeroporto de Antônio Carlos Jobim, como tem sido nos últimos dois anos, envolveu altas turbulências em solo. Após me desfazer da ideia fantasiosa de um casamento que só existiu em minha cabeça – ou talvez nem isso -, tornei-me mãe solo de um recém desmamado spitz alemão. Perdi minha cachorrinha, amor de toda a minha família e praticamente contemporânea a minha entrada no Crônicas Cariocas, passei por mudanças sensíveis em meu escritório, fiz minha segunda exposição como artista luminosa.  Uma homenagem ao meu pai, que nem soube que era para ele, pois, quis o destino tirar sua presença do nosso mundo desajustado. A alma de uma pessoa como a que foi meu pai não merecia mesmo passar pelas provações de um mundo cada vez mais Macunaíma. E se fez um rombo no que era a fortaleza de toda a minha história. E ruiu parte do muro que ainda estrutura a minha família – que seria só de mulheres, agora, não fosse o Zeca, meu pequeno e maravilhoso spitz. Revisitar não significa retornar, mas se por/estar no lugar de um visitante. E como visitante, sem amarras ou destino, me deixo aperfeiçoar itens no rol das atividades econômicas do meu CNPJ, sem acompanhar o ritmo do relógio, ao mesmo tempo que a burocracia do luto e descobertas de malandragens de pessoas próximas vão tratando de escaldar meu carater e visão de mundo. Desencaixotar e encaixotar caixas e mais caixas. Empilhar. Selecionar. Pensar. Pesar. Ter pena do apego, e não. Lembranças em todos os cantos, nos bibelôs e coleções, nas fotografias, cds e discos de vinil, nos móveis, tantos e tão apertados na casa de minha mãe, assinatura da paixão do papai pelas coisas incríveis. O luto é algo inebriante e assustador. Então me cerco das artes, esses aliados, fiéis escudeiros, que tratam de cuidar do meu interior, enquanto o lado externo é moldado pelas aulas de pilates e fisioterapia.

    Voltar é sempre um movimento após, há sempre o antes que não será repetido em sua exatidão. Pintar os cabelos, fazer minhas próprias vestimentas, ajustar minhas predileções gastronômicas, cerca-me das artes e dos verdadeiros amigos – apenas realmente aqueles que se importam. Interpretar coisas ou ideias novas. Aprender. Conhecer lugares e pessoas. Aos poucos, sem me dar conta, lá estou eu a escrever! Um passo, uma campainha, uma rajada de vento e a vida que passa, de novo, sendo vivida.


  • A vida pela janela

    Ver a vida pela janela!

    A janela de casa, com a rua e as pessoas que pintam o cenário de cada dia. Com suas cores e sons! Com seus dramas e tons!

    A janela do carro ou do ônibus e a velocidade de tudo o que se vê na cidade: placas, cartazes, rostos, histórias…

    Ver a vida pela janela!

    E ver, com a pressa dos urbanoides de plantão, num frenesi e caos que não dão a certeza de nada.

    Ou ver, com a calma do poeta, com a atenção para todos os lados e lugares, sabores, odores, enfim, com todos os olhares!

    Assim, como o poeta, vejo a vida pela janela!

    Às vezes, vemos o mar, prolongado, com seu movimento constante, espumas e brilho, mostrando sua força e imponência.

    Às vezes, vemos a avenida e as milhares de histórias que se cruzam nos rostos de todos os que passam. E são aqueles que lutam a luta diária do pão. E são aqueles que procuram o sentido das coisas no meio do turbilhão. E são aqueles que se sentem sozinhos entre a multidão.

    Às vezes, algumas crianças, no colo, ainda cheias de sono, sendo levadas por mães e pais cansados, alheias à cidade e agarradas em seus sonhos e imaginação.

    Às vezes, o breve silêncio do sinal fechado e nenhuma palavra dita ou pensada. Como se fosse um transe! Como se nada fosse…

    Às vezes, o silêncio dos que não mais amam, entrecortado por automóveis ou anúncios itinerantes. Mais um transe!

    Às vezes (e estas vezes não são tão raras), basta um sorriso, um encontro, uma palavra, um mistério, um aceno, um aperto de mãos, um beijo que demora, o fuzuê na esquina, a dança dos jovens… basta que uma destas coisas aconteça, ou a junção de todas elas e… começamos ou terminamos o dia com a certeza do dever cumprido, preparados para o sono dos justos…

    Tão estranha a vida na Terra!


  • O Beco

    Dia frio, chuvoso, cair da tarde. Penido se preparou para a volta à casa, depois de um expediente na repartição que lhe rendera uma tremenda enxaqueca. Não era para menos, pois o contato com o público lhe estressava. Na maioria dos casos ignorava as queixas desses “infelizes”, como bem dizia, que lhe importunavam e canetava um “indeferido” na petição. A têmpora direita latejava. Tomou uma dose dupla dos comprimidos que sempre guardava na gaveta, fechou os olhos por alguns segundos para esperar o efeito do medicamento.

    O barulho dos pingos no vidro da janela aumentou, invadiu seus tímpanos causando um temporal de dor. Lembranças afogadas em poças d’água foram tomando conta de sua mente. Os sintomas da cefaléia cresciam, uma névoa lhe toldava a visão.

    ***

    De paletó, galochas, e guarda-chuva só lhe restava enfrentar o caminho até o ponto de ônibus, caminhando atento ao chão. O percurso era grande, a noite baixava sem luar, deserta, soturna. Começou a tremer de frio e desconforto, sentindo os pés mergulhados na água enlameada que cascateava pelos paralelepípedos irregulares da ruela em frente ao escritório. A cabeça pesava e um reboliço gasoso começou a lhe importunar o estômago.

    Se viu frente à entrada da viela estreita e íngreme que dava acesso à avenida. Sentiu as pernas bambalearam. Sempre teve maus pressentimentos em relação a essa viela tortuosa, furtiva.

    Pelas paredes molhadas, o reflexo dos raios pipocando no céu formavam figuras fantasmagóricas. As criaturas bruxuleavam a cada rajada de vento e aqueles seres aprisionados, emparedados em sua mente, sopravam lamúrias, blasfêmias, ameaças.

    A ruela tinha uma curva fechada e dali se deparou com um fim de linha – a viela havia se transformado em um beco sem saída.

    Viu se aproximarem as criaturas que se despegaram das paredes, e a elas foram se juntando outras, e mais outras que o alcançaram. Não tinha para onde fugir, se esconder.

    Esse círculo de algozes com olhos ameaçadores, bocas peçonhentas, corpos desformes, desferiam golpes em sua cabeça. A cada machadada, evocavam uma das injustiças, descasos, desrespeitos, ilegalidades, por ele cometidos.

    ***

    Banhado de suor, sentiu uma mão lhe sacudir os ombros.

    — Penido, que está a fazer aí cochilando? Não vê que a fila está imensa atrás do balcão?


  • Yoga com cães: uma prática que transforma vínculos e promove o equilíbrio

    As relações entre humanos e cães se fortalecem a cada dia. O cão, há muito tempo, deixou de ser apenas um amigo fiel e agora ocupa um espaço fundamental na vida das pessoas. Nossa felicidade ao lado dos pets parece estar ligada ao convívio em todos os aspectos. Não queremos mais que nossos cães fiquem longe de nós; em qualquer lugar que uma pessoa vá, há sempre um cantinho reservado para receber seu amigão. Mas a pergunta que se impõe é: a sociedade está realmente preparada para esse convívio?

    Nesse contexto, a busca por atividades que promovam o bem-estar físico e emocional tem crescido consideravelmente. Uma tendência inovadora está conquistando o coração dos amantes de animais: a prática de yoga com cães. A Escola Lobatos foi uma das pioneiras a reconhecer esse movimento e a implementar essa prática em seu espaço de ensino. A yoga transcende a mera atividade física; é uma oportunidade única de fortalecer os laços entre humanos e seus cães, além de oferecer benefícios significativos para ambos.

    A Prática do Yoga com Cães

    Conhecido como “Doga”, o yoga com cães combina posturas tradicionais com a interação e a presença do animal. A proposta é criar um ambiente em que tanto o humano quanto o cão possam relaxar, alongar-se e se conectar. Nossas aulas em grupo são acompanhadas por professores experientes, garantindo segurança e tranquilidade durante a prática.

    A Experiência de Praticar Yoga com Cães

    Ao participar de uma aula de yoga com cães, somos guiados a conectar nossa respiração e a nos concentrar no momento presente. A presença dos cães torna o ambiente mais leve e divertido, promovendo um espírito genuinamente colaborativo.

    As aulas geralmente começam com alongamentos suaves, seguidos por posturas que permitem que os cães se juntem, seja deitando-se ao lado do dono ou preso à guia. O foco não está na perfeição das posturas, mas na experiência compartilhada e na alegria de estarmos juntos.

    Entre Conosco Nessa Jornada Transcendental

    A prática de yoga com cães é muito mais do que uma atividade física; é uma celebração do amor, da amizade e da conexão. Em um mundo onde a correria do dia a dia muitas vezes nos desconecta, encontrar tempo para se conectar com nossos animais de estimação é essencial. O yoga com cães nos convida a parar, respirar e apreciar o momento presente, lembrando-nos de que a verdadeira felicidade reside nas pequenas coisas.

    Venha fazer parte dessa experiência única que transcende os limites do cotidiano. Junte-se a nós para descobrir a harmonia e o bem-estar que a prática de yoga com cães pode proporcionar. Cada aula é uma oportunidade de aprofundar os laços com seu parceiro canino, enquanto você se conecta com o seu interior e encontra a paz em meio ao movimento e à alegria.

    Acredite na transformação que essa prática pode trazer para sua vida e a do seu cão. Entre conosco nessa jornada transcendental e permita-se viver momentos de pura conexão, amor e crescimento. Estamos ansiosos para compartilharmos essa aventura!

    Benefícios para os Humanos

    1. Redução do Estresse: A prática de yoga é amplamente reconhecida por suas propriedades relaxantes. Ao incluir os cães, que são fontes naturais de conforto e amor, a experiência se torna ainda mais eficaz na diminuição do estresse e da ansiedade.
    2. Conexão e Vínculo: O yoga com cães fortalece o relacionamento entre o humano e o animal. A interação durante as posturas, os olhares trocados e os momentos de carinho são essenciais para aprofundar essa conexão.
    3. Saúde Física: As posturas de yoga melhoram flexibilidade, força e equilíbrio. A presença do cão, que muitas vezes participa ativamente, traz um elemento lúdico e divertido à prática.
    4. Socialização: As aulas em grupo oferecem uma oportunidade de socialização, não apenas para os humanos, mas também para os cães, que podem interagir e brincar com outros animais.

    Benefícios para os Cães

    1. Exercício Físico: Embora o yoga seja uma prática suave, os cães também se beneficiam do movimento, essencial para manter um peso saudável e promover a saúde cardiovascular.
    2. Redução da Ansiedade: Cães que participam dessa prática podem se tornar mais calmos e equilibrados, pois a atividade proporciona uma sensação de segurança e relaxamento.
    3. Estimulação Mental: A nova experiência estimula a mente do cão, que aprende a se comportar em um ambiente diferente, fundamental para seu desenvolvimento e bem-estar.
    4. Socialização Canina: A interação com outros cães durante as aulas proporciona uma socialização importante, ajudando os animais a desenvolverem habilidades sociais.
  • Conteste ideias, não pessoas

    Muitas vezes, ao argumentar, o redator deve contestar um ponto de vista diferente do seu. É preciso cuidado ao fazer isso. Quando a opinião a ser contestada vai de encontro a valores ou crenças, ele corre o risco de deixar de lado as ideias e investir contra as pessoas.     

    Um exemplo: numa redação sobre “Nível cultural e opção religiosa”, apresentei no suporte o fragmento de uma entrevista com Richard Lynn. Nessa entrevista o pesquisador britânico afirma que os indivíduos inteligentes são mais propensos a se tornar ateus, pois têm acesso a teorias alternativas de criação do mundo. Diz também que no Brasil, devido à miscigenação, há menos ateus e mais religiosos.  

    Um dos alunos tentou contestar o ponto de vista do estudioso dizendo que “essas duas afirmações estão totalmente equivocadas, ele com certeza não sabe nada sobre religião.” Afirmou isto sem explicar em que residiria o equívoco do pesquisador nem por que Lynn, uma autoridade no assunto, não saberia “nada” de religião.  

    Juízos apressados e genéricos não demonstram inteligência, mas birra e intolerância. Dão a entender que o emissor, tomado pela emoção, não está disposto a refletir, debater, avaliar os argumentos do outro. Há neles um predomínio quase que exclusivo dos afetos, que são um obstáculo ao discurso racional.

    Existem maneiras mais inteligentes de demonstrar que não se concorda com as ideias ou as atitudes de alguém. Contestar pessoas, além de ineficiente do ponto de vista argumentativo, constitui o primeiro passo para a intolerância e o preconceito. É o que se vê neste fragmento de uma redação sobre o caso Bruno: “Eliza Samudio não foi apenas vítima. Ela teve o que merecia. Quis dar o golpe do baú e acabou se dando mal. Ela deve ter importunado tanto a vida do ex-goleiro que ele não teve outra saída.”

    É fácil perceber nessa passagem que a precariedade dos argumentos decorre do propósito de julgar a vítima. A afirmação de que Eliza “quis dar o golpe do baú” e “deve ter importunado tanto a vida do ex-goleiro” não se baseia em fatos; é mera presunção. E, mesmo que fosse verdadeira, de modo algum justificaria o que se fez com ela.


  • K-Pop apresenta Tom Jobim

    Respeito muito a ideia de que cada geração tem sua música. Nem sempre concordo com o que é tocado, já vou avisando. Mas respeito.

    Em outro momento, volto a falar sobre música geracional, mas confesso que meu respeito é movido menos por qualquer elevação espiritual e mais pelo medo de ser apedrejado em praça pública. A execração na ágora me arrepia; ser apontado nas ruas é meu pior pesadelo.

    Mas, voltando ao que interessa: a música, e não as minhas fobias. Minhas filhas seguem o padrão, e para elas, K-Pop é sinônimo de música.

    Como pai, fiquei curioso para saber do que se tratava. “É música pop coreana”, me explicaram e completaram: “Tem J-Pop, que é japonesa; C-Pop, a chinesa…”. E eu, engraçadinho, quis completar com B-Pop, a brasileira, mas elas logo me cortaram: “Não é nada disso”. E fiquei calado, segurando o riso.

    Existem grupos de K-Pop masculinos e femininos, todos super jovens. Elas preferem as meninas, e eu achei que eram todas coreanas. Fui repreendido: “Não, pai, nem todas nasceram na Coreia do Sul”, me cortaram elas de novo. “Asiáticas, então?”, rebati. “Também não, a Rosé é da Nova Zelândia.” Balancei a cabeça, sem saber o que dizer.

    Elas são fãs, ou melhor, k-popers. Por elas, já fui ao cinema ver um filme com o encerramento da turnê mundial do Black Pink. Cenas dos diversos shows, das moças nos bastidores, e muitas músicas perfeitamente dançáveis. Sim, do alto dos meus 59 anos, vejo que o balanço delas é bom. Ponto para elas.

    Por isso, qual não foi minha surpresa ao ser brindado por uma das minhas filhas com a informação de que “Garota de Ipanema” havia sido gravada no mundo K-Pop. Em uma pesquisa rápida, descobri que a música é comum no repertório dos grupos de K-Pop. Achei ao menos umas três gravações distintas.

    Mas a informação de que K-Pop gravara Tom e Vinicius veio acompanhada de: “Quer ouvir?” Prontamente, concordei e qual não foi minha alegria ao escutar a gravação feita pelo Tom Jobim em um CD de 1987!

    Suspirei ao volante e escutei minha outra filha falar baixinho: “Olha a cara de relaxado do velho”…


  • Quando um amigo me visita

    Amigos. É assim que os chamo. Caracterizam-se por exalar nítido cheiro de afeto. Dessa nitidez brotam o contorno de seus ombros, seu nome, suas palavras e gestos, sua presença, mesmo quando já não estão perto de mim. São o contrário da pedra dura. São o revés do espinho. São o oposto do metal cortante. Gosto de pensar neles como esponjas com formato humano.

    Eis que um deles chega à minha casa. Aperto sua massa corporal entre meus braços e fico feliz por me sentir um dos seus. Peito com peito, calor compartilhado, olhar terno indo e vindo. “João!”, ele exclama. “Dalton!”, eu exclamo igual.

    Assim que começamos a conversar, a linguagem ganha corpo e sentido em torno de nós. Repartimos, como pão, a luz do dia em dois. Falamos de literatura, nosso assunto predileto. Falamos de poesia. Falamos de amigos comuns. Eu o convido a um pássaro, ele retribui com o balançar de um ramo seguro de árvore, perfeito para um ninho. Pergunto-lhe sobre o mar, que há tempos não vejo, e sobre o sol nele refletido. Ele me pede que fale das montanhas e do verde que há no lugar onde moro agora. A distância nos aproxima, a saudade nos irmana, o desterro nos mimetiza.

    A tarde escorre com centenas de lembranças e cheiro de comida. Depois que nos despedimos, acompanho com o olhar sua figura se afastando. Comprovo nesse instante que metade de mim vai com ele, que metade dele permanece comigo.


  • Mesmo instante fugaz!

    Especialistas e pensadores debatem quais são os dilemas acerca da passagem dos anos. O documentário “Quantos dias. Quantas noites” abraça a conexão humana com a idade e o tempo desde o aumento da expectativa de vida até as desigualdades que envolvem esse tema. 

    O longa de Maria Farinha Filmes, dirigido por Cacau Rhoden, realiza um profundo mergulho nos propósitos de nossa existência no planeta, e lhe faz refletir o que realmente tem valor para se preocupar nesse exato momento.

    Drauzio Varella “considerou que se você transformar sua vida num vale de lágrimas no qual submerge de corpo e alma, estará tornando-a uma experiência medíocre. Julgar que aos seus 80 anos, seus melhores momentos foram aqueles dos 15 aos 25, é não levar em conta que a memória é editora autoritária, capaz de suprimir por si as experiências traumáticas, e relegar ao esquecimento as inseguranças, medos, desilusões afetivas, riscos desnecessários e as burradas que fizemos em nossa tenra época.

    Nada mais ofensivo para o velho do que dizer que ele tem “cabeça de jovem”, isso é considerá-lo mais inadequado do que o indivíduo de 20 anos que se comporta como criança de 10″.

    A melhor idade é aquela que lhe traz qualidade em um determinado momento, e não somente na velhice. Quanto mais cedo você construir seu melhor capital social de amigos e parentes, sua base de satisfação se tornará sólida e larga, bem antes daquele instante que vais necessitar de um ombro como apoio à seus passos doloridos.

    O curioso é que a vida de uma pessoa se encerra somente quando morre aquele que falava dela, e que até então as memórias do que ela viveu ainda são lembradas em falas curtas e incompletas. Por isso, nada mais razoável fazer se valer da presença desse indivíduo em sua vida, e demonstrar o valor e suas habilidades únicas em qualquer época de sua curta existência.

    “Os sábios geralmente morrem loucos, os tolos morrem sufocados pelos conselhos. Embora muitos morram de tolhices, outros tantos nem começaram a viver.” (Antônio Abujamra)

    Aprenda a andar mais perto dos jovens, eles trazem novas ideias e formas de conviver diferentes nesse mesmo instante fugaz, por vezes mais leve, e assim lhe oportunizam sentir melhor no mesmo momento por estar envelhecendo, e não aborrecendo. A dor passa, mas a beleza permanece.


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