Argumentar é apresentar evidências para sustentar uma tese. Esse procedimento remonta à retórica clássica, que codificou os principais recursos capazes de promover a adesão ao ponto de vista do orador. Aprendemos dos gregos que tais recursos consistem basicamente de provas e razões. À língua cabia servir de suporte ao pensamento e conferir beleza à expressão por meio das figuras (flores retóricas), que constituíam uma espécie de acréscimo.
Essa maneira de avaliar o papel da linguagem no texto argumentativo mudou. Hoje não se considera o material linguístico como algo que “se acrescenta” ao discurso, e sim como um dos componentes fundamentais da argumentação. O processo de argumentar “depende de nossas escolhas linguísticas para obter sua eficácia” (Ana Lúcia Tinoco Cabral, em “A força das palavras: dizer e argumentar”).
Uma pequena ilustração disso está na historinha que circulou há algum tempo na internet envolvendo um cego e um publicitário. O cego pedia esmola numa manhã ensolarada de Paris; junto dele havia um cartaz com os dizeres: “Por favor, ajude-me, sou cego.”
Ninguém pingava uma moeda em seu pires. Vendo isso, um publicitário que passava alterou os dizeres e foi embora. Quando voltou, horas mais tarde, percebeu que o pires estava cheio de dinheiro. O cego o reconheceu e perguntou o que ele havia escrito. “Nada diferente do antigo anúncio”, disse-lhe o publicitário, “mas com outras palavras.” No novo cartaz, aparecia: “Hoje é Primavera em Paris, mas eu não posso vê-la”.
O que mudou? Na versão do publicitário, a condição do cego não é explicitada, mas depreendida por metalepse (efeito pela causa) da afirmação “não posso ver” (bem mais apelativa). Essa afirmação constitui um doloroso contraste com o que está expresso antes: a beleza da primavera parisiense, que os transeuntes tinham o privilégio de contemplar. As alterações aumentaram a eficácia do texto, que enfim conseguiu despertar a piedade das pessoas.
Como se vê, o bom argumento é o que produz empatia, identificação. E a melhor maneira de conseguir isto é envolver pela linguagem o destinatário.
Não estavam cômodos nem se sentiam confortáveis naquele lugar, mas nenhum dos dois tomou a iniciativa de se levantar e sair dali. Olhavam, cheiravam, procuravam com a ponta dos dedos a origem do desconforto, tudo em vão. Não era a temperatura (que estava apropriada), nem a cor das paredes (que era acolhedora), nem as poltronas (que eram adequadas e anatômicas). A razão não era outra senão eles mesmos. Mas isso eles não admitiam, ainda. Sabiam, no fundo, que quem sentia o incômodo eram a temperatura, as paredes e as poltronas — se tivessem vida e pudessem, sairiam dali e deixariam os dois no meio do nada, até que se consumissem no vazio de sua última respiração e do seu silêncio, como a fruta que apodrece debaixo do sol.
Eram eles que incomodavam tudo ao redor e, embora soubessem disso, fingiam que não. Eles eram os observados com desdém e até repugnância pelas poltronas e pelas paredes daquela sala, pelas praias ensolaradas do Nordeste e pelas ruas geladas de Londres — onde quer que estivessem, incomodariam o entorno. Nas páginas dos livros que milhões de pessoas leem, há duas pessoas que se sentem desconfortáveis dentro de uma casa e não adivinham a origem desse desconforto. Mas a história impressa nas páginas tem que prosseguir, então eles permanecem como sempre estiveram e fingem que procuram a razão que justifique tanta melancolia. Fingem até chegarem ao ponto de se matarem de ódio e angústia, perto da página 250. Até lá, até esse desfecho trágico, seguirão dissimulando e, em voz alta dirão, na última linha, que a culpa é sempre do lugar, nunca deles.
Ana me sensibilizou. Foram só cinco ou seis palavras para ela mostrar a que veio. Num dia gris, apareceu em minha casa. Chamei por intermédio de uma colega, para a qual ela já era diarista e muito bem recomendada como uma “exímia profissional”. À primeira vista, Ana não parecia carente ou necessitada de bens materiais, pobretona – foi essa a imagem preconceituosa que fiz dela e de que me arrependo profundamente. Foi, no entanto, uma surpresa encontrá-la, vista pela janela, com um carrinho velho, mas em bom estado de conservação. Chegou no horário marcado. Veio só e com alguns apetrechos para limpeza, para facilitar o seu trabalho, como um aspirador de pó e vassouras. Pelo visto, ela contava só com os materiais de limpeza que o dono do apartamento devia comprar, como desinfetante, água sanitária e afins. Quando insinuei perguntar se era mesmo diarista, ela, adivinhando, me disse que entrou nas diárias por opção. Já que gostava de limpar a sua casa, preferiu incrementar no serviço e indicar para as pessoas. Simplesmente Ana, ela pede para chamá-la assim. Não adentrei muito em sua vida, deixei que a contasse, se fosse conveniente, se se sentisse em paz para isso. Moro sozinho, com os meus gatos, e acho que também ela sentiu pena de mim. Não há motivo para pena, tentei demonstrar, sem que perdêssemos o rumo da conversa. Estava interessante saber sobre a sua vida – fato é que sou frustrado por não ser antropólogo ou psicólogo, por gostar tanto de saber das histórias das pessoas. Ela me disse que tinha um único filho doente, com síndrome de down e outras complicações, como problemas cardíacos, e que talvez fosse preciso, às vezes, trazê-lo em alguma diária ou levá-lo ao médico… O tempo foi passando e me acostumei ao sorriso envergonhado de Luan, seu filho – além disso, ele não esboçava muita reação, só um certo enjoo à mãe, que o paparicava. Ele não dá um pingo de trabalho, fica sentadinho na sala assistindo à televisão. Ana disse que, quando não está nas diárias, leva o filho à APAE. Que ele adora o lugar, como se fosse a sua segunda casa. Há dias em que Luan não vem, e sinto sua falta. “Por você não trouxe o Luan, Ana?!”. Ela me respondeu que o filho fica uns dias com o pai e outros com sua irmã, também Ana, que ela chama de D’Lourdes. Faz duas semanas que Ana não vem, está doente dos rins, vai precisar ficar em casa e fazer exames, para ver o quadro. Não deixei de passar o valor das suas diárias. Combinamos que, depois, quando isso tudo passar, ela irá repor – mas jamais vou cobrar isso. Fiz assim para que ela recebesse. É muito cavilosa, como minha avó chamava as pessoas escrupulosas demais. Espero que ela venha logo. No apartamento, nos viramos, eu e os gatos; não tenho tanta fixação por limpeza. Só quero que minha amiga volte bem.
Seu Paventino, um idoso aposentado e viúvo, não gosta de ficar em casa. Por isso, seu maior passatempo é passar os dias no boteco do João, na esquina de sua casa. Lá ele é figura tão presente que já faz parte do folclore local.
O maior divertimento de Paventino é abordar novos clientes de João e fazer uma pergunta bem clássica:
— Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?
Esse senhor possui um ritual próprio. Sai de sua casa assim que o boteco abre pela manhã, vai até a banquinha do Seu Altair comprar o jornal do dia, para depois ir bater ponto na sua segunda morada. Lá, ele coloca o jornal no balcão, pede um chopp gelado e fica a espreita. Quando percebe a entrada de alguém novo, lá vai ele fazer sua pergunta. Se a pessoa responde que foi a galinha, ele pergunta: e quem foi que chocou o ovo? Se responde o contrário, de onde veio esse ovo? Ou seja, independente da resposta, a diversão de Paventino estaria garantida.
Um dos seus únicos desgostos era não conseguir fazer sua piada com os clientes costumeiros do bar. Como todos eles já conheciam muito bem seu costume, ninguém dava muita bola. Restava esperar por novos alvos.
Um certo dia, ele fez exatamente tudo igual. Já deviam ser quase três horas da tarde e entrou no bar um senhor de cabelo bem branco, com uma camisa florida, bermudão e papete de couro. Ele logo pediu um chopp. Paventino, então, se aproximou, puxou assunto e indagou se o outro idoso seria capaz de responder uma pergunta. Ele respondeu positivamente. Esse era o momento de consolidar sua alegria e então perguntou:
— Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?
O senhor parou por poucos segundos (que soaram como horas) e respondeu:
Os ovos, que são estruturas reprodutivas amniotas, existiam há milhões de anos antes da galinha. O primeiro indivíduo da espécie Gallus, o gallus domesticus, chocou de um ovo posto por um animal de uma espécie ligeiramente diferente.
Dessa resposta, surgiu um silêncio apavorante no Boteco de João. Todos que ali estavam pareciam olhar para aqueles dois senhores que ali conversavam. Na realidade, o olhar era voltado para o novo cliente que ousou dar aquela resposta a Paventino. Esse, por sua vez, ficou branco, mais branco do que costumava ser e durante um tempo ficou sem resposta. No entanto, não poderia deixar aquilo barato. Sentindo vontade de dar um grande brado retumbante, ele decidiu ser um pouco mais elegante e só falou:
— Pombas, meu camarada, ciência? Não vem com essa que não quero saber disso não.
Paventino, então, levantou e foi se sentar em uma outra mesa onde acabava de chegar ao bar um jovem que, provavelmente, veio se refugiar daquele calor infernal que fazia na cidade naqueles dias. Então puxou assunto e fez a pergunta clássica:
— Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?
E assim se passava mais um dia na vizinhança e no Boteco do João.
Quando ia escrever seus livros, o escritor Moacyr Scliar aproveitava, como dizia nas entrevistas, os intervalos da vida: a poltrona de um avião, a palestra do fulano, o aeroporto — qualquer brecha que, entre um compromisso e outro, a rotina oferecesse.
Para nós, leitores, não é diferente. Lemos na sala de espera do médico, no sacolejo de uma viagem de ônibus, no aeroporto, esperando um amigo no shopping. Quem lê há muito tempo sabe bem o que é isso. Tenho amigos que, apenas para me causar inveja, juram que não se incomodam com barulho; eu, ao contrário, acho que o silêncio virou um artigo de luxo — e pagaria qualquer coisa por ele.
Como grande parte dos leitores, tudo o que quero é um refúgio. Que, como já disse, anda cada vez mais raro.
Se abro um livro em casa, num domingo à tarde, o vizinho resolve comemorar o aniversário da esposa, com direito a karaokê, música alta (quando estou lendo, odeio qualquer tipo de música; qualquer uma, até as minhas preferidas) e aquelas palmas estrondosas. Tento ser tolerante. Tento.
Aí aproveito a sala de espera da dentista, abro o livro, começo a minha viagem… mas alguém liga o WhatsApp, manda e recebe áudios, depois desliza o dedo pelo feed do Instagram. Lá se vai o meu silêncio outra vez.
Outro dia, no parque, procurei um lugar com sombra, longe dos casais, das crianças, dos grupos com violão. De repente, um sujeito para perto de mim, diz “bom dia”, começa a se alongar e — adivinhem — está acompanhado do seu inseparável radinho de pilha.
Não sei se você reparou, mas, atualmente, ninguém faz nada em silêncio: academia, caminhada, natação, estudos, dirigir. Só resta ao leitor a sua luta diária por um pouco de sossego.
Outro dia, sentado num banco bem no centro da cidade, minha viagem pela imaginação era frequentemente interrompida pelo flanelinha: “Aí, gente boa!”, “Aqui, gente boa!”.
Abro o livro, fecho. Torno a abrir, fecho de novo. E assim, sem sucesso, vou tentando.
Tento a sala de espera do teatro, do dentista, a praça, a biblioteca, o pronto-socorro, as gôndolas do supermercado, um lugar debaixo da árvore do estacionamento. Às vezes — como já me aconteceu — vou ler em frente aos hospitais, onde não se pode buzinar, falar alto ou fazer festa.
Exageros à parte, é maravilhoso quando, em meio a este mundo tão barulhento, encontro um lugar quieto e posso saborear, finalmente, o livro. Só a imaginação me ajuda a suportar a vida. Tudo o que peço é que me deixem em paz.
De cotidianos resíduos arrancados na solidão de prisioneiro em que todo o meu ser se devora, tento compor uma imagem humana que me faça aceitável a mim mesmo.
No silêncio da morte aparente na qual me recolho ao túmulo previsto não sei com que ânsia mórbida de calma, procuro juntar os cacos de culpa diária que reunidos formam um apelo ao suicídio.
E não é só o remorso das manhãs doentias pelo que na noite se desfez em delírios de humana fraqueza cansada de si mesma, é todo um saldo de perdas que tenho que fazer e lançar no cômputo geral das misérias minhas.
De cotidianos resíduos recolhidos no isolamento mental de indivíduo em que todo o meu ser se liberta, tento compor uma imagem poética que se faça de ideias e despreze a vida.
Sabe aquela habilidade de reagir rápido, com graça, esperteza e a frase perfeita? Pois é… não veio no meu pacote. Diante de situações inesperadas, viro uma estátua com sorriso de paisagem. Meia hora depois, claro, surgem respostas brilhantes — todas atrasadas, todas inúteis. E eu fico furiosa comigo mesma.
Por isso admiro profundamente quem tem presença de espírito. Aquela gente que rebate na hora, cria na hora, brilha na hora. E dois casos sempre me vêm à mente.
O primeiro é de um político das antigas, mestre em se safar de qualquer saia-justa — e com memória prodigiosa (ou assessores eficientes soprando nomes). Em um evento, aproximou-se um sujeito que a equipe rapidamente identificou como “filho de fulano”. O político abriu um sorriso:
— Que prazer em vê-lo! Como vai seu pai, o nobre…?
— Deputado… meu pai morreu há cinco anos!
Ele nem piscou:
— Morreu pra você, filho ingrato! Para mim segue vivíssimo na lembrança.
Sério, quem pensa tão rápido? Outro exemplo é de uma conhecida que recebeu aquele clássico telefonema do “sequestro da filha”. Sem perder o fôlego — nem a fé — ela respondeu:
— Irmão, não tenho dinheiro nem filha! Sou irmã de caridade. Largue essa vida, venha para o bem, vamos orar juntos.
Bip bip. Golpista convertido ou, no mínimo, arrependido.
E aí fico pensando: o que esse povo tem que eu não tenho? Fui atrás de explicações sérias.
Resumindo o que aprendi: algumas pessoas conseguem aproveitar o microsegundo entre ouvir e responder para inventar alternativas inesperadas. É o tal do pensamento “fora da caixa”, que não se contenta com o óbvio e prefere o caminho criativo — às vezes absurdo, às vezes genial.
Ou seja: quem tem presença de espírito escolhe se divertir com a própria inteligência.
No fim das contas, presença de espírito é isso: um talento raro, quase uma arte marcial da criatividade. Alguns já nascem com cinturão preto. Eu, por enquanto, sigo no nível iniciante — procurando o tal manual que ninguém escreveu, mas que bem poderia existir. Até lá, sigo treinando. Vai que um dia o timing e eu finalmente combinamos um encontro. No caso deles… fazendo acrobacias. No meu, talvez só uma caminhada leve. Mas seguimos tentando.
Na última crônica escrita, a primeira crônica canina, eu falei um pouco das minhas experiências com cães: Apolo e Baggio. Um vira-lata e um setter irlandês!
Depois que Baggio partiu (dezessete anos de muitas brincadeiras), meus pais relutaram bastante em ter um novo cão. A fala que ambos sempre diziam: a gente se apega muito a eles!
No entanto, minha irmã… Aqui eu preciso abrir um parágrafo para falar da minha irmã. Sabe aquela pessoa que simplesmente ama cães? Pois é… Minha irmã, se pudesse, levaria para casa todos os cachorros que porventura encontrasse na rua. Uma cara de pidão e um rabo abanando seriam o suficiente!
Parágrafo escrito. Continuemos…
Meus pais não conseguiram manter a promessa de não ter outro cachorro. Minha irmã levou para eles um cocker spaniel comedor de melão: Thor!
Pense em um cão super carinhoso e que não desgruda de você por nada… Pensou? Thor é exatamente assim! Pense em um cão mimado, dengoso, metódico e cheio de manias… Pensou? Thor é exatamente assim!
Thor vai receber você com uma cara de quem não recebe atenção de ninguém!
Thor obriga o meu pai ou a minha mãe (depende de quem esteja na cozinha) a ir para a varanda metodicamente após o café!
Se você estiver com uma fatia de melão nas mãos, vai observar que os olhos de Thor se abrem de maneira expressiva e sobrenatural! Melão acima de tudo!
Mas brincadeiras à parte, o que sei é que Thor tem alegrado a vida dos meus pais já idosos.
Um cão é companhia, leveza, cumplicidade e o clichê de todos os que possuem um amigo peludo: um amor incondicional!
Thor é já um senhor. No acumulado dos seus pelos brancos, ainda corre atrás das coisas e pede carinho a quem quer que chegue!
Penso em todos os momentos bons que um cão pode nos dar e Thor tem feito um excelente trabalho!
Bem… ainda falta falar de uma dupla que parece óleo e água, mas isso fica para a última crônica…
“Vou ter que gastar meu décimo terceiro”, pensa o pai. Ou a mãe.
“O serviço vai dobrar”, lamentam a vendedora, a empregada, o patrão, o carteiro.
“Preciso variar e garantir o estoque”, diz o quitandeiro gourmet.
Ovos, uvas, pêssegos e toda a sorte de frutas ditas natalinas.
Ah, sem esquecer da famigerada e hilária uva-passa.
Os avós, os tios ricos, os pais de primeira viagem, os de última ou até os de ocasião fazem uma vistoria geral na casa. Afinal, Natal é festa da família.
É hora de mandar lavar os tapetes, consertar cadeiras, fazer inventário de copos, pratos e talheres.
Hum… chegou a hora da decisão: vai mesmo ter amigo-oculto?
Aquele costume sem autor conhecido, o verdadeiro elefante branco na sala, ou no espaço-cenário onde a família vai se reunir.
A tal brincadeira que não brinca, mas insiste em aparecer.
Apesar de todos, e cada um , jurarem que detestam.
Ou não?
Ah, sei bem…
Presentes úteis, inúteis, indefinidos, caros, errados, “nada a ver”.
Comprados com ou sem boa vontade. Com antecedência ou de última hora, em lojas cheias, vendedores apressados, cuja maior preocupação, no momento, é a comissão de venda.
Esse é um assunto tabu.
Assim como o tio inconveniente que bebe e conta a mesma piadinha de sempre;
a prima de nariz empinado que vai dar “só uma passadinha”;
o décimo namorado que a irmã leva às festas de família .
E que ela jura que desta vez “é prá valer!”
E assim se tem a festa de Natal.
O Menino Jesus?
Dorme, cercado de ovelhinhas e reis magos, debaixo da árvore pisca-pisca comprada na promoção relâmpago do site da Shein.
E o espírito natalino? Ah…
Esse talvez esteja embrulhado, sem etiqueta,
perdido entre os papéis de presente e as sobras do peru.
Para mim, segunda era igual a prima chata que a família faz questão de enaltecer na sua frente, porque é obediente e comportada, ou aquele irmão mais velho que serve de referência para tudo o que você não faz direito, ou aquela amiga da escola muito boazinha, que por isso mesmo não servia como companhia para as aventuras da adolescência.
Segunda sempre funcionou como aquela régua social que mede os procrastinadores, os menos abastados de disciplina e engajamento nos projetos de futuro.
Eu realmente tinha pinimba com a coitada. Ficava na espreita só sacando seus defeitos e se, por ventura, não tivesse, eu inventava. Como a gente faz quando não gosta de alguém de cara, sabe?
O abrir dos olhos no pós-domingo era batizado com o desabafo: maldita segunda-feira! Sempre chega para tirar o gosto do fim de semana. Parece pai na porta da festa antes da meia-noite. Trabalho que surge no final do expediente de sexta. Email de chefe cobrando relatório.
O curioso era esbravejar essa reclamação para o universo, ainda que o final de semana fosse tedioso pela falta de ânimo para sair da cama.
No final do domingo, aquele enjoo de véspera aumentava até chegar um certo refluxo no pensamento. Logo invadia aquela indisposição de existir, igual a gente sente quando chega visita em casa e não se estava esperando.
Acontece que o tempo é um homem espirituoso, provocador, que gosta de fazer graça com as nossas convicções, e, pelo visto, tem um certo apreço pelos dias mais injustiçados.
Só pode ser essa a explicação para o que vou contar aqui ou simplesmente sou a prova de que a lei do retorno existe e vocês foram as testemunhas escolhidas pelo destino.
Há vinte e cinco anos, grávida do meu único filho, e na necessidade de realizar uma cesárea devido a quadro hipertensivo, fiz um único pedido ao obstetra: marque qualquer dia menos segunda-feira.
Tudo certo, meu herdeiro de alma nasceria numa terça-feira, cinco de novembro.
Assim seria, se o Senhor Tempo não estivesse disposto a vingar toda minha implicância com uma de suas filhas.
Comecei com as contrações no domingo. Minha mãe, pela contagem das luas, alertava que havia chegado a hora. Eu rogava aos minutos que me deixassem alcançar a terça, que até de nome me parecia mais simpática.
Nada feito, Bernardo nasceu em uma estonteante segunda-feira. Trouxe com ele uma advertência da vida em relação ao desperdício de cinco dias na espera de um sábado e meio domingo para ser feliz. Sim, porque depois do almoço, era só preguiça e angústia.
Desde então, as segundas têm um gosto especial, um sabor de brigadeiro com refrigerante, um lançar de dados na esperança do seis, uma mensagem desejada no celular.
Não tem como ignorar, o tempo é um piadista insistente e a vida uma mocinha muito surpreendente.
Lembram que falei que vocês seriam testestemunhas de uma certa lei do retorno? Pois bem, acabo de nascer como cronista nesta segunda-feira ensolarada de paixão. Vocês são cúmplices dessa traquinagem jocosa do destino.
Sou mãe e filha desse dia tão primoroso que deveria se chamar Primeira-feira.
Quem diria que a donzela rejeitada passaria à condição de mulher amada.
O mundo dá muitas voltas e, pelo visto, prefere as segundas-feiras.
Meu destino foi moldado pelos filmes que assisti. A música que os acompanhou faz a trilha sonora da minha vida. Segue a 5ª e última parte:
Um grande filme deve vir acompanhado de uma trilha sonora à altura. A música tem o poder de potencializar as sensações a nós repassadas pelas cenas assistidas. Em alguns casos, fica tão intimamente vinculada às imagens que delas se torna indissociável. Muitas obras cinematográficas devem seu sucesso à trilha sonora, havendo casos em que esta chega a ofuscar o próprio filme. Meu destino foi moldado pelos filmes que assisti. A música que os acompanhou faz a trilha sonora da minha vida.
81) GREASE (Randal Kleiser), 1978
GREASE NOS TEMPOS DA BRILHANTINA, o musical adolescente estrelado por Olivia Newton John e John Travolta, dirigido pelo estreante Randal Kleiser, foi um dos mais bem sucedidos da história. As músicas trazem rock’n’roll cinquentista com uma pegada pop dos anos 70. O álbum foi um dos mais vendidos de 1978 (disputando liderança com outro musical de Travolta, OS EMBALOS DE SÁBADO À NOITE), com destaque para YOU’RE THE ONE THAT I AM e SUMMER NIGHTS, ambas interpretadas pelo casal de atores, além da música-tema com Frankie Valli de autoria de Barry Gibb (Bee Gees).
82) A SUMMER PLACE (Delmer Daves), 1959
O diretor Daves, especializado em faroestes, alcançou o pico do sucesso com um melodrama, A SUMMER PLACE (no Brasil, AMORES CLANDESTINOS), que se sobressaiu pelo tema musical composto por Max Steiner, estrondoso sucesso na interpretação da orquestra de Percy Faith, firmando-se como a canção instrumental que mais tempo permaneceu no top 1 da Billboard! O austríaco Steiner é um dos gigantes de Hollywood, assinando mais de 300 trilhas, 24 delas indicadas ao Oscar, destacando-se os clássicos CASABLANCA e E O VENTO LEVOU, além do primeiro (e melhor) KING KONG, o de 1933.
83) AO MESTRE COM CARINHO (James Clavell), 1967
Esse filme britânico de orçamento modesto sobre um professor imigrante negro (Sidney Poitier), encarando uma turma de alunos rebeldes de uma escola do subúrbio de Londres, foi um fenômeno arrecadando na bilheteria 70 vezes o valor de seu custo. Mais surpreendente foi a música-tema interpretada pela cantora escocesa Lulu (uma das alunas) que, apesar de se tornar o single mais vendido do ano nos EUA (puxando as vendas da trilha sonora), sequer mereceu indicação ao Oscar. A canção se consagrou como homenagem ao Dia do Professor.
84) LISBELA E O PRISIONEIRO (Guel Arraes), 2003
A elogiada produção nacional protagonizada por Selton Mello e Débora Falabella recebeu uma trilha assumidamente kitsch e pouco convencional compilada pelo roqueiro André Matos. O músico trabalhou com o grupo Sepultura que participou de duas faixas, uma das quais ao lado de Zé Ramalho, numa insólita união, interpretando A DANÇA DAS BORBOLETAS de Alceu Valença. Outra pérola é VOCÊ NÃO ME ENSINOU A TE ESQUECER, canção brega de Fernando Mendes, lapidada por Caetano Veloso. Participam ainda Elza Soares, Los Hermanos e Yamandú Costa. Foi uma das trilhas de filmes nacionais mais vendidas de todos os tempos.
85) A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO (Martin Scorsese), 1988
Scorsese é apaixonado por rock em especial pelos Rolling Stones, cujas canções comparecem com frequência em suas películas, como em OS BONS COMPANHEIROS, CASSINO e OS INFILTRADOS. Sem falar nos inúmeros documentários musicais (The Band, Stones, Dylan, George Harrison e uma série sobre blues). A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO se diferencia, não apenas por se afastar dos recorrentes temas americanos e da Máfia, mas por contar com uma trilha de world music com sons étnicos, de autoria de Peter Gabriel, ex-vocalista do Genesis (registrada no álbum PASSION), com participação de músicos do Oriente Médio, Ásia e África, como o violinista indiano L Shankar, o paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan e os senegaleses Youssou N’Dour e Baaba Maal.
86) BELEZA AMERICANA (Sam Mendes), 1999
Estreia do diretor do aclamado drama de guerra 1917 e de dois dos 007’s mais recentes, AMERICAN BEAUTY com Kevin Spacey valeu-lhe 3 Oscars, incluindo melhor filme. A trilha minimalista e introspectiva de Thomas Newman que usa instrumentos de percussão não convencionais também se notabilizou, com destaque para a bela e reflexiva ANY OTHER NAME, executada com um suave e emotivo piano. Thomas (que é filho do campeão das trilhas, Alfred Newman, 9 Oscars), musicou outras películas marcantes como UM SONHO DE LIBERDADE, À ESPERA DE UM MILAGRE e PROCURANDO NEMO,
87) BATMAN (Tim Burton), 1989
Tim Burton é um cineasta sui generis de terror gótico com uma dose de humor e visual caricatural. BATMAN, BATMAN RETURNS, A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATES, BEETLEJUICE, EDWARD MÃOS DE TESOURA, MARTE ATACA, PEIXE GRANDE, GRANDES OLHOS e as animações NOIVA CADÁVER e O ESTRANHO MUNDO DE JACK são algumas de suas principais obras. Grande parte de sua filmografia foi musicada por Danny Elfman, compositor proveniente do grupo new wave Oingo Boingo, que derivou do rock para o mundo das trilhas sonoras. BATMAN, estrelado por Michael Keaton e Jack Nicholson, ganhou de Elfman uma música-tema instrumental que se tornou famosa. Paralelamente, foi lançada uma segunda trilha com músicas de Prince que alcançou sucesso comercial.
88) TOMMY (Ken Russell), 1975
A celebrada ópera-rock TOMMY do grupo The Who, lançada num álbum duplo em 1969, ganhou uma badalada versão cinematográfica. O enredo conta com o próprio vocalista Roger Daltrey, como um garoto cego que desenvolveu habilidade em jogar pinball. O elenco, traz também Ann Margareth e Oliver Reed, além de astros do rock como Elton John, Tina Turner e Eric Clapton que incrementaram a trilha sonora. Daltrey atuou como ator em outro filme do diretor, LISZTOMANIA, trilha do tecladista Rick Wakeman. Russell tem em seu currículo o provocativo MULHERES APAIXONADAS (1969) com cenas eróticas ousadas para a época.
89) BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS (Michel Gondry), 2004
Drama surrealista, uma das atuações mais elogiados de Jim Carrey que sai de seu estereótipo de fanfarrão, contracenando com seriedade com Kate Winslet. O casal se submete a um experimento para apagar a memória, gerando um conflito emocional com o procedimento. A trilha foi composta por Jon Brion, mais afeito ao pop alternativo. O grande diferencial fica por conta do cantor Beck que ‘roubou a cena’ com sua magistral interpretação de EVERYBODY ‘S GOTTA GET LEARN SOMETHING, único hit do grupo britânico The Korgis.
90) I AM SAM, UMA LIÇÃO DE AMOR (Jessie Nelson), 2001
A sensível diretora Jessie Nelson aborda aqui um tema espinhoso: a relação entre um pai amoroso, mas intelectualmente deficiente, representado por Sean Penn, e sua esperta filha de 7 anos, Dakota Fanning. O personagem vivido por Penn era fã ardoroso dos Beatles, o que originou uma trilha sonora curiosa, que alcançou grande sucesso: canções do quarteto de Liverpool cantadas por uma nova geração de intérpretes (Aimee Mann, Eddie Vedder, Stereophonics, Sheryl Crow, Sarah McLachlan, Black Crowes, Nick Cave etc.)
91) CORRA, LOLA, CORRA (Tom Tykwer), 1998
O cineasta alemão Tykwer, diretor da superprodução PERFUME A HISTÓRIA DE UM ASSASSINO, também assinou a direção desse singular drama, digno exemplar do cinema europeu contemporâneo, sobre uma frenética jovem que em 20 minutos necessita dispor de uma vultosa quantia em dinheiro para salvar seu namorado de ser assassinado devido a uma dívida contraída com traficantes. A história é contada diversas vezes com pequenas nuances nos detalhes. A aventura é embalada por uma pulsante trilha sonora techno, composta pelo próprio diretor, mais colaboradores. Franka Potente, a principal atriz, interpreta diversas canções.
92) HELLO DOLLY (Gene Kelly), 1969
Gene Kelly, mais conhecido como ator e dançarino, dirigiu esta superprodução, adaptação para a telona do homônimo espetáculo da Broadway de 1964, mantendo-se as músicas compostas por Jerry Herman, com algumas adaptações. No filme, a personagem principal é vivida por Barbra Streisand, que representa uma viúva à procura de um novo marido. A canção-tema interpretada por Barbra já era bem conhecida na voz de Louis Armstrong, o maior hit da carreira do trompetista (seu single tornou-se célebre por ter derrubado a liderança dos Beatles que dominavam as paradas).
93) O GUARDA-COSTAS (Mick Jackson), 1992
Ainda que tenha recebido críticas desfavoráveis, esse suspense romântico estrelado por Kevin Costner e pela cantora Whitney Houston (em sua estreia no cinema) foi a segunda maior bilheteria de 1992. Fenômeno ainda maior foi a trilha sonora que alcançou impressionantes vendas de quase 50 milhões de cópias, o terceiro álbum mais vendido de todos os tempos. O êxito foi catapultado por I WILL ALWAYS LOVE YOU, interpretada por Whitney (original de 1973 com Dolly Parton). O tema instrumental é de Alan Silvestri que tem uma longa parceria com o diretor Robert Zemeckis (DE VOLTA PARA O FUTURO, FORREST GUMP, CONTATO, O NÁUFRAGO, A MORTE LHE CAI BEM), afora produções da Disney e da franquia Marvel.
94) PICNIC (Joshua Longan), 1955
Intitulada no Brasil FÉRIAS DE AMOR, essa comédia romântica tornou-se famosa pela dança carregada de sensualidade (nada explícita, apenas sugerida pelos lentos movimentos), protagonizada pela dupla central William Holden / Kim Novak durante um piquenique numa pequena cidade do Texas, uma das cenas mais icônicas do cinema. A canção que embalou o par tornou-se hit, atingindo a liderança na Billboard numa versão orquestrada (coisa rara). Na verdade, tratava-se de um medley combinando uma composição de George Duning, responsável pela trilha do filme, com MOONGLOW, um standard de jazz dos anos 30.
95) PHILADELPHIA (Jonathan Demme), 1993
Demme tem em seu currículo filmes de peso como O SILÊNCIO DOS INOCENTES e PHILADELPHIA. Esse último, interpretado por Tom Hanks, trata de um tema amargo: o preconceito contra portadores do vírus HIV e homofobia. Recebeu uma trilha marcante com intérpretes do quilate de Peter Gabriel, Neil Young e Maria Callas. A canção STREETS OF PHILADELPHIA interpretada por Bruce Springsteen (vencedora do Oscar), aclamada por crítica e público, teve seu videoclipe dirigido pelo próprio Demme. O cineasta teve forte conexão com a música pop, dirigindo também STOP MAKING SENSE (com canções do Talking Heads) e TOTALMENTE SELVAGEM (com uma seleção musical de primeira).
96) DANÇANDO NO ESCURO (Lars Von Trier), 2000
O controverso diretor dinamarquês Lars Von Trier de filmes como DOGVILLE, MELANCOLIA, ANTICRISTO e NINFOMANÍACA (I e II) costuma utilizar em suas trilhas peças de música clássica ou rocks (Bowie, Deep Purple, Metallica). No caso do musical DANÇANDO NO ESCURO, a cantora Björk, além de atuar (surpreendendo com uma performance bastante elogiada no papel de uma imigrante tcheca), compôs e interpretou as músicas, agrupadas em seu álbum SELMASONGS. A mais conhecida é I’VE SEEN IT ALL, concorrente ao Oscar, contou (mas não na versão do filme) com a participação de Thom Yorke, vocalista do Radiohead.
97) HAWAII CINCO-0 (Leonard Freeman), 1968
A longeva série policial ambientada no Hawaii (o 50º estado dos EUA, daí o título), de grande sucesso, teve duas versões: a primeira com 12 temporadas durou de 1968 a 1980 e a segunda de 2010 a 2020 com 10 temporadas. A conhecidíssima música-tema instrumental, composta por Morton Stevens para a série inicial, foi mantida na continuação (reboot), com arranjo mais moderno. Lançada em single pelo grupo de surf rock The Ventures, alcançou o topo das paradas.
98) LOVE ME TENDER (Robert Webb), 1956
Temos aqui um caso incomum em que a música determinou a trajetória do filme (no Brasil intitulado AMA-ME COM TERNURA). A balada LOVE ME TENDER já havia sido lançada por Elvis Presley, com enorme sucesso, quando este faroeste estava sendo rodado com o título provisório de THE RENO BROTHERS, tendo sido rebatizado com o nome da canção para aproveitar sua exposição. O filme marca a estreia do ‘rei do rock’ no cinema, não como ator principal, embora, devido à sua condição de superastro, tenha roubado as atenções, especialmente quando interpretou as 4 músicas escaladas, lançadas num EP (que passou a ser informalmente a ‘soundtrack’ do filme).
99) BICHO DE SETE CABEÇAS (Laís Bodanzky), 2000
Protagonizado por Rodrigo Santoro, o premiado filme nacional narra o drama vivido por um jovem internado à força num hospital psiquiátrico após ser flagrado pelo pai com um baseado, passando por momentos de horror na instituição. Contando com diversas composições do ex-Titã Arnaldo Antunes, a trilha composta por André Abujamra (do grupo Karnak) fez mais sucesso do que o filme, com destaque para a canção homônima, composta por Geraldo Azevedo e Zé Ramalho interpretada por Zeca Baleiro.
100) ASSASSINOS POR NATUREZA (Oliver Stone), 1994
Oliver Stone é um dos diretores mais provocativos e politicamente engajados do cinema, com trabalhos relevantes como PLATOON, NASCIDO A 4 DE JULHO, WALL STREET e THE DOORS (com músicas da famosa banda capitaneada por Jim Morrison). No sanguinolento NATURAL BORN KILLERS, faixas de artistas como Leonard Cohen, L7 e Bob Dylan compiladas e arranjadas por Trent Reznor, líder do grupo de rock industrial NIN. Trent também compôs (sendo laureado com o Oscar) para a animação SOUL (Pixar/Disney) e REDE SOCIAL de David Fincher (CLUBE DA LUTA, SEVEN) com quem, aliás, estabeleceu exitosa parceria.
Sair da vida de alguém é uma decisão unilateral. Não há consulta nem aviso prévio. Às vezes, se o processo é lento, a outra pessoa percebe. Às vezes, não.
Os motivos para a ruptura na convivência podem ser vários. O mais comum é dar um basta em uma relação tóxica. Depois dos mais variados episódios, das pequenas descortesias até insultos de diferentes graduações, finalmente se toma a decisão. Para alguns ela vem logo, para outros muito além do tempo razoável.
A toxidade tem seus graus. Ela é mais percebida nas situações extremas. Mas nos graus mais leves é igualmente nociva.
Seu efeito contaminante não é imediato e arrasador. Ao contrário, é suave porque envenena pouco a pouco. Os bons momentos convivem lado a lado com as situações ruins, mascarando-as.
Por isso é difícil de detectar que há uma intoxicação em andamento mas ela está lá. Dia a pós dia criando depósitos de substâncias nocivas dentro de nós. Minando nossa vontade, nos transformando em algo que não somos.
O que viramos? Um pouco de tudo e menos de nós. O basta é o ponto de ruptura da relação e da existência daquela persona que permitimos que surgisse. Uma representação simplória do nosso “eu” que pode ser tudo menos “nós”. Nossa vasta complexidade de faces foram submergidas enquanto nadávamos no lago frio e parado dessa relação tóxica. Mais um pouco e nos afogamos.
O “basta” traz à toa quem somos e andávamos esquecidos. Não à toa, a leveza se acomoda a partir do dia em que decidimos negar a outra pessoa nossa companhia, desatando as cordas gastas dos restos insistentes do afeto que estava moribundo.
Cria-se distância entre os dois.
Pela natureza desse tipo de relação tóxica, suave em seu cotidiano contaminante, o rompimento é semelhante. Não há rompantes, discursos, choros, recriminações ou gritos. As poucas palavras ditas são suaves e que pouco a pouco vão ficando desprovidas de calor. A antiga intimidade é coberta por camadas de superficialidade.
Aos poucos, no sentido inverso do envenenamento, vai se criando a capa de proteção. O silêncio ocasional oculta as intenções, as palavras vagas mascaram os pensamentos e os clichês tomam o espaço onde antes habitou a originalidade. Pouco a pouco vão se tornando estranhos um ao outro.
Ocasionalmente, é verdade, a antiga convivência volta a memória. A persona tóxica pensará na outra com saudade e se perguntará onde ela anda e o que faz. Quem se desintoxicou suspirará um instante sorrindo em homenagem aos momentos felizes mas afastará logo do pensamento a lembrança. Aquele cotidiano contaminado deixou avisos em sua memória.
A lembrança daqueles tempos afastará seu olhar para longe. Lá, onde quero estar.
O hábito começou muito cedo. Dizia “papá” e “mamã” com um prazer especial em jogar com as sílabas. “Pa… pá”, “mã… mã” – os sons iam e voltavam até que ele os guardava para depois, quando quisesse, brincar de novo. Com o tempo foi juntando outros fonemas (“bu… bu”, “pi… pi”, “tó…tó”). Um dia teve febre e ouviu “dodói”; enamorou-se da palavra e ficou repetindo-a em seu delírio.
Cresceu e foi refinando as escolhas. Agora prestava atenção não apenas aos sons, mas também ao casamento que havia entre eles e o sentido. Às vezes a união lhe parecia perfeita, como em “croque” (sentia o atrito de um fonema no outro), “bafo” (a palavra terminava num sopro) ou “empecilho” (pronunciar essa foi um obstáculo que venceu a duras penas).
Noutras vezes, achava que palavra e som eram como estranhos. “Erisipela”, por exemplo. Ficaria bem para designar um metal precioso (“Usava um colar de erisipela legítima”), mas não para indicar uma doença. O mesmo se diga de “faniquito”, que mais parecia nome de passarinho (“Na manhã clara e ensolarada, faniquitos em bando cortavam o azul do céu”). Teve pena da tia por ela sofrer de uma doença cujo nome não combinava em nada com as ulcerações que havia em suas pernas.
Descompassos como esse lhe deram uma vaga ideia das incoerências do mundo. Havia palavras bonitas para coisas feias e palavras feias para coisas bonitas, assim como havia pessoas lindas com uma alma escura, e outras, de rosto nada atraente, com um espírito luminoso. O mais das vezes – foi aprendendo – o nome era uma falsa aparência das coisas. Isso não o levou a desistir da coleção, só que agora ele tinha um critério; passou a dividir as palavras conforme a semelhança que tinham com os objetos ou seres que designavam.
Agrupou de um lado, por exemplo, “sanfona”, “crocodilo”, “miosótis”, “turmalina” (se bem que essa mais parecesse nome de mulher) – e do outro “presidente”, “cadeira”, “promotor”, “recurso” (palavras que não excitavam a língua e que a gente, quando as ouvia, não tinha a curiosidade de saber o que significavam).
À medida que envelhecia, tornava-se mais exigente com a sua coleção. Algumas palavras lhe pareciam insípidas, por isso ele resolveu esvaziar parte do baú. Uma das primeiras que jogou fora foi “jucundo”, cuja hipocrisia não mais suportava (parecia designar algo triste, mas significava “alegre”). Trocou “jucundo” por “meditabundo”, palavra mais honesta e de acordo com seu atual estado de espírito. Jogou fora também “vagar”, “flanar”, “leviano”, e por pouco não se livrava de “paciente” (“prudência”, que ia substituir a outra, aconselhou-o a esperar mais um pouco).
A coleção agora tinha pouquíssimos vocábulos, mas cada um pesava tanto que o homem não conseguia transportar o baú. Deixou-o embaixo da cama e nele foi inserindo, sem muito entusiasmo, as palavras que ainda o impressionavam (sabia que, se parasse de colecionar, morria). Um dos novos termos foi “achaque”, que vagamente lhe soou como uma dança fúnebre de tribo africana (riu ao perceber que ainda tinha imaginação poética). Outro foi “próstata”, que lhe pareceu o som de uma chicotada (ta-ta). E um dos últimos foi “tumor”, que ele sem graça botou no lugar de “humor”.
Depois que morreu, os amigos e parentes ficaram intrigados com aquele baú embaixo da cama. Abriram-no e nada encontraram em seu interior. “Ele era meio tantã”, comentou a mulher. “Passava horas diante desse baú vazio.” Resolveu guardá-lo, como lembrança, e aos poucos foi metendo nele os objetos inúteis da casa.
Escrevo-te estas mal traçadas pra me despedir. Não me culpe, não me leve a mal nem me mande catar coquinho. Fiz, sim, e não me arrependo, e tu sabe por quê? Pra te ajudar, homem. Não faça juízo errado da minha pessoa nem me deseje má sorte, porque isso não vai ser bonito. E depois tu me conhece, sabe que eu não sou dessas, mesmo que pareça.
Fui embora do cafofo, tu já deve ter percebido que peguei umas mudas de roupa e caí fora. Foi para o teu bem, Negro. Algum dia tu vai compreender todo o tremendo sacrifício que fiz para que tu fizesse sucesso como compositor de samba. Sabe quando tu chega num lugar e todo mundo começa a cantarolar o sambinha que tu fez? Então. Isso tu nunca teve, nunca provou dessa cereja, nunca encostou a língua nesse manjar. Eu te via na dificuldade de inventar uma música para o gosto da comunidade e ganhar algum dinheiro, eu sofria junto de ti, pode acreditar. Então resolvi ajudar te dando um motivo pra ganhar inspiração. Sou boa ou não sou?
Perdida por ti já fui, que maluca não seria? Tu foi o homem que me deu felicidade, Negro, e isso é coisa que ninguém pode negar. Mas lata d’água já deu, não quero mais. Quero o teu samba, e que tu seja realizado. Faz o teu samba, homem, motivo eu te dou: tua mulher deu o fora. Satisfeito?
Não pense que te deixei por que ficando do teu lado eu estaria condenada a uma vida de pobreza eterna, e que se eu continuasse no cafofo acabaria me acostumando a comer o reboco das paredes. Não, Negro, não é nada disso, credo! Fui embora porque queria te ver sozinho, triste e abandonado, sem nada ter de teu mais que o violão velho e lascado, porque só assim tu sofreria e conseguiria fazer um samba precioso, e na letra tu falaria sobre a malandra ingrata e cruel, traidora, que só te fez mal. Garanto pra ti que não vou me ofender por isso. Porque o samba só nasce do sofrimento, não é? Então, te faço sofrer pra florescer. Sabe a carta de alforria que o teu avozinho ganhou no passado? Agora sou eu que te dou alforria, Negro. Se quiser, pode me chamar de Isabel, a princesa. Sou a tua princesa que tá te fazendo um bem maior que o mundo, pra que tu conquiste esse mundo mesmo. E agora tu me diz: sou boa ou não sou?
Ainda, se quiser mais motivo pra incrementar a tua composição, comunico que fui embora na companhia de um cavalheiro que conheci outro dia no Largo da Carioca. Estava vendo vitrine e pensando se aquela saia vermelha ficaria muito justa no meu quadril quando ele se chegou e me disse “Senhorita tão simpática merece ganhar um sorvete duplo de baunilha com morango e um colar de pérolas.” Arrepiei, sabe como? Aí eu respondi “É mesmo? Quero ver se tu não tá mentindo, bonitão de paletó branco. Pode ser framboesa no lugar do morango? Gosto de fruta chique. Tanto calor, não? Ando morrendo pelas tabelas com tanta quentura, Jesus Cristo!” Ele beijou a minha mão e sorriu, o dente de ouro bem na frente. “Evilásio, um seu criado, para servi-la.” Eu não me fiz de rogada: “Marlene, para ser servida.” E beijou mais a minha mão. Escute bem, Negro: beijou a minha mão, igual se beija a mão de uma senhora de respeito. E como uma palavra puxa a outra e as duas lavam as mãos e a cara, no final concordamos que eu iria viver com ele e seria tratada como uma rainha. Sabe rainha? Então. Ele até prometeu me comprar um ventilador pra suportar esse verão, que disseram que esse ano o calor vem pra abrasar a gente. Um ventilador, viu só que luxo? E a francesinha também, toda semana, no pé e na mão. Tu sabe que eu sempre adorei uma francesinha.
Bota isso no teu samba. Diga que tua negra se vendeu. Não é verdade, mas pode dizer mesmo assim, não levo como ofensa. Não é uma alforria? Eu dei a tua liberdade, Negro. Fala pra todo mundo que eu fui a tua Isabel, te deixei livre pra que tu brilhasse. E agora tu me diz se eu não sou boa. Sou ou não sou boa? Anda, fala!
Sei que tu deve tá aí chorando as tuas mágoas sobre o violão, e é assim que deve ser: chora tua saudade, tua dor de corno, chora a falta que tu sente de mim. Chora na melodia, molha as cordas do teu instrumento e tira daí a canção mais linda, aquela que te fará famoso. Tu consegue, o motivo tu já tem. Depois descansa e pensa na tua Negra. É assim que tem que ser.
Adeus, Negro, não jogue a culpa em mim e pensa que tudo o que fiz foi pra que tu conhecesse um pouco de sucesso com uma canção contra mim, contra a tua Negra… Falando mal de mim, ah, que bonita vai ser tua música! E cuida de pagar o aluguel pro seu Vicentino, senão vem ordem de despejo e ele te tira do cafofo. Tem dois meses de atraso, o terceiro ele não deixa passar. Tu não quer morar embaixo do viaduto, quer? Te manda um beijo e um abraço esta companheira que é capaz de tudo pra te ajudar.
A imagem dos demônios dos cristãos foi desenvolvida a partir da figura dos sátiros.
Eles foram semideuses da Mitologia Grega e viveram como devassos, libertinos de carteirinha.
A Bíblia sagrada costuma apresentar os sátiros como sinônimos de demônios, principalmente pelo corpo parecido com bodes.
Não que fossem criaturas que promovessem o mal, mas sim pela aparência associada à quem veio para te levar para o inferno.
O escritor Javier Marías conseguiu descrever com poesia uma associação terminal levada ao cabo em seu livro “Assim começa o mal”:
— Não faz muito tempo que aquela história aconteceu, menos do que costuma durar uma vida, e quão pouco é uma vida quando ela já está terminada, e já se pode contá-la em poucas frases, e só ficam na memória, cinzas que se soltam à menor sacudida e voam à menor lufada, que no entanto, hoje ela seria impossível.
Com os olhos sem maldade, se torna poética uma trajetória humana ao cruzar por uma generosa mente.
O mais famoso dos sátiros foi Mársias, que era uma criatura meio humana com chifres curtos, orelhas pontiagudas, patas de bode e mãos em forma de taça ou de um instrumento musical.
Foi uma divindade grega dos bosques e das montanhas, por vezes também chamado Sileno.
Esse nome lhe foi dado principalmente quando atingia a velhice, ficava barrigudo, feio e andando de burro.
Nota-se que o etarismo já era praticado com ênfase desde bem cedo em nossa existência.
Entre os Romanos, os sátiros eram conhecidos por Faunos, e sua participação nas lendas era quase sempre secundária e pouco decisiva.
Demônios da natureza, companheiros dos deuses, simbolizavam a capacidade criadora dos seres vivos, vegetais ou animais.
Em termos gerais, eram uma mistura de homem, cavalo e bode, variando de acordo com as versões das lendas. No entanto, a expressão “o juízo de sátiro” pode ser vista como uma forma de negativismo ou pessimismo. Quando alguém está constantemente cético em relação à beleza e ao amor, pode perder a capacidade de apreciar a vida em sua plenitude, e deixar de aproveitar as oportunidades que surgem.
A vida perene deve ser compreendida; encontrar o prazer sem azedume faz com que a filosofia exerça uma ginástica objetiva para lhe mostrar um caminho factível, com admiração na maioria de seus momentos.
Compreendido esse capítulo, reza a lenda que a pergunta a ser respondida é por que teimas em manter uma queixa frequente sobre seus dias, por que esperas que somente o amanhã lhe traga a felicidade.
Cuide-se no agora, bem antes que o entardecer lhe mostre que perdeste mais um precioso dia.
Durante muito tempo, sempre que a mídia destacava um ataque envolvendo pitbulls, sobretudo quando havia feridos graves ou mortes, eu me via quase instintivamente na defesa da raça, devolvendo a responsabilidade aos donos. Essa convicção, de fato, não se alterou. No entanto, diante da sucessão de episódios recentes, muitos deles de extrema gravidade, incluindo o ataque mais recente a uma criança de quatro anos que perdeu a vida, sinto-me obrigado a revisar e aprofundar o meu posicionamento.
Não deposito culpa no cão, jamais. Mas é inegável que a raça entrou num estágio crítico provocado pela irresponsabilidade de alguns donos. Eu não gostaria que tivéssemos chegado a este ponto; era para termos mais controle sobre tantas tragédias. A realidade, contudo, se impõe. E ela exige que abandonemos certas ilusões regulatórias: não adianta criar novas leis quando não existe fiscalização capaz de sustentá-las.
É verdade que qualquer apaixonado pela raça pode desejar ter um pitbull. Mas desejar não é o mesmo que estar preparado. A raça demanda conhecimento, equilíbrio emocional, senso de responsabilidade e humildade para aprender. Como treinador, reafirmo o que sempre disse: um cão só se torna perigoso quando cai nas mãos de pessoas despreparadas, muitas delas movidas por vaidade, impulso ou fantasia de poder.
Sempre defendi que todo interessado em ter um cão da raça deveria obrigatoriamente passar por um treinamento sério, capaz de oferecer compreensão real sobre o temperamento, as necessidades e os riscos envolvidos. Hoje, reconheço que isso não basta. É preciso algo mais: leis mais rigorosas, fiscalização presente, punições claras e multas severas para quem desrespeitar as normas.
O problema — e aqui se revela uma ferida antiga — é que a fiscalização raramente alcança os criadores clandestinos. É nesse subterrâneo que a raiz do desastre se instala. Ali, multiplicam-se cães sem critério, sem ética, sem qualquer responsabilidade. Enquanto isso, os criadores sérios, que trabalham com transparência e compromisso, acabam carregando um peso que não lhes pertence. No Brasil, infelizmente, a lógica costuma ser essa: pune-se quem faz certo, ignora-se quem faz errado.
E quem perde com isso? Perde o cão, que não tem voz para se defender. Perde a raça, marcada injustamente por estigmas que não nasceu para carregar. Perde a sociedade, que desperdiça a chance de aprender com as tragédias e impedir que se repitam. Perdem também aqueles que sempre amaram o pitbull com consciência, respeito e responsabilidade. Se existe algo a salvar, começa por admitir o óbvio: o problema não é o pitbull. O problema é o caminho torto que alguns humanos insistem em trilhar.
É por isso que deixo aqui um alerta que não nasce de teorias, nem de exageros, tampouco de histeria coletiva. É constatação dolorosa de quem convive com cães todos os dias: estamos colocando o pitbull à beira de um abismo que ele não cavou. Se continuarmos tratando a raça como vilã, permitindo que criadores clandestinos se multipliquem impunemente, entregando cães potentes a pessoas despreparadas e fingindo que leis sem fiscalização resolvem alguma coisa, teremos um fim irreversível.
O pitbull precisa de nós agora. Não de capas de jornal inflamadas, nem de discursos vazios, muito menos de ondas de ódio ou de um sensacionalismo que o confunda com qualquer outro cão de cabeça larga e focinho profundo. Isso, sim, é injusto. O que ele precisa é de responsabilidade, educação, vigilância e coragem pública para enfrentar o problema onde ele realmente nasce.
Se nada for feito, poderemos ter mais mortes. Ou perderemos a chance de corrigir um erro que não é deles. Este texto é, ao mesmo tempo, um alerta e um pedido de socorro. Salvemos a raça antes que a ignorância a condene definitivamente.
Menino de quatro anos morre após ser atacado por pitbull na zona norte do Rio
A melancolia me invadiu e fez morada – há tempos, desde que me entendo por gente. Pequeno, ainda, me apegava a objetos desimportantes e canções tristes, principalmente, que me levavam ao processo de reflexão. Não participava da maioria das brincadeiras que meus amiguinhos brincavam no colégio. Colecionador, mantinha intactos álbuns de figurinha e ficava lendo e observando cada uma delas na hora do recreio. Tinha, por isso, todas as mais raras, que eram objeto de troca, literalmente, somente para dar aos coleguinhas mais chegados a figura que lhes faltava. Uma vez meus pais viajaram com meu avô materno, para Uruguai, Argentina e Paraguai, em um passeio muito realizado à época, pela empresa Soletur, de ônibus, que saía exatamente do Rio de Janeiro com direção ao Sul do País e adjacências. Não conto as vezes em que chorei amalgamado às perturbações e tristezas provocadas pela solidão e abandono. Não entedia que meu pai e minha mãe fossem voltar. Minha avó, já idosa, não dava muita bola, mas me deixava escutar as canções que passavam no rádio. Uma bem famosa era Hunting High and Low, do a-ha, que me fazia chorar em desabalada desesperança. Talvez por isso, na vida adulta, tenha me apegado às músicas desse gênero, que trazem uma dorzinha no coração, como as da banda Toto também. Para falar mais sobre a melancolia, devo dizer que não me esqueço das palavras do poeta João Cabral de Melo Neto, que dizia ter a melancolia entranhada – e parece que já se acostumara com isso; relatara o fato a seu psiquiatra, que já não sabia o que fazer. De fato, com o tempo, aprendi, a partir de estudos aprofundados, que a melancolia é diferente da depressão. Na Psicanálise, a depressão é a perda da experiência, do desejo, da vontade, enquanto a melancolia é possuir um corpo sensível muito aguçado, para o bem ou para o mal. Mas não vim aqui falar de teorias. As pessoas não entendem que nasci assim, e que não é culpa minha ser melancólico. Já perdi amizades por isso, pela minha introspecção, por não entenderem que não estou sempre à disposição, que tenho meus momentos de angústia e solidão, necessários à minha sobrevivência. Quando criança, fui tido como depressivo e, pasmem, “um projeto de homossexual”, dada a minha hipersensibilidade. Nunca liguei. Coisa de gente pequena. Meu pai mesmo comprava revista de mulher pelada para um menino de cerca de dez anos e me dava, para me “divertir”; sem nem eu saber o porquê disso. Descobri tantas coisas, como a minha capacidade para as Artes… E não há nada que me impeça de viver da minha forma, neurodivergente, pois que, além do mais, sou autista, nível 1 de suporte. Levei tempo para me acostumar comigo. Agora quero ser feliz assim.
Engraçado: sou fã de carteirinha de muita gente séria e focada que vejo pelas ruas. Parece que, de tão preocupadas, vão resolver o problema da humanidade, todas as injustiças do mundo. Gente que não se distrai nunca, não perde tempo, não olha pro lado.
Queria ser assim, mas não sou.
Estou mais preocupado, claro, com coisas que se passam dentro de mim: uma música que ouvi e não me saiu da cabeça, uma piada que me faz rir sozinho na rua, uma saudade de um amor que passou, um filme que eu vi.
Aí, naturalmente, quando saio de casa, não me lembro se minha ideia era ir no açougue ou no hortifruti do bairro. Se era pra comprar pão ou alpiste do passarinho.
Outras coisas que, invariavelmente, eu esqueço: horários de compromisso, datas, aniversários — a vida organizada dos outros.
Mas, quer saber?
Acaba dando tudo muito certo.
Se eu deixo passar a data de um concurso, as inscrições são prorrogadas.
— “Você viu que as inscrições foram prorrogadaa?” — me avisa um amigo.
Se eu perco o horário de um ônibus, um conhecido passa e me dá carona. Se eu perco um documento de RG, alguém acha e me liga.
Acho que, de certa forma, o acaso gosta dos distraídos. Vive dando uma forcinha, arrumando um atalho, uma saída de emergência qualquer.
Como aquele motorista de ônibus que, solidário com a minha pressa, desviou a rota só pra me deixar no trabalho. Ele disse que não podia. Mas fez.
Acho que o mundo tem pena dos distraídos. Ou, quem sabe, simpatia.
O mundo está cheio de gente certinha demais, preto no branco demais. Talvez seja por isso que ele ajuda tanto gente distraída como eu.
As nuvens tecem uma história diária e sem antecedentes. Não sei se pode chamar de trabalho (o trabalho das nuvens) o que parece ser mais um deslizar contínuo de um sonho que não se sabe a si mesmo e apenas escorre para um vazio profundo.
Eu, que estou na janela, vejo as nuvens e não enxergo a razão de se estar a vê-las sem que se possa interferir ou sustar a sua indiferença. A vida humana é mesmo esse estar-sempre-dependurado a uma janela da inércia fechada para o infinito.
Zími e Silvano tinham várias piadas sobre o fato de Mila Cox às vezes pensar em inglês.
Quando criança, ela conviveu bastante tempo com sua tia Sara Cox, que havia morado muitos anos na Inglaterra, depois de viver a juventude numa casa proletária no bairro da Penha.
Sara tinha ido para lá aos dezoito anos, para estudar. Seus pais economizaram dinheiro por muito tempo para que isso fosse possível, assim que ela atingisse a maioridade.
Então casou-se com um inglês funcionário de pub para viabilizar uma permanência mais longa no país.
Sara foi fundamental na educação musical da sobrinha. Foi quem lhe apresentou os discos que vieram a moldar o gosto musical da garota. Estava à frente do tempo das outras pessoas de sua família.
Previu que o futuro seria de luta e resistência contra a barbárie fascista.
Conversavam em inglês, e Mila Cox, ainda criança, aprimorava o entendimento do idioma traduzindo as letras das músicas que ouvia.
Sara dizia para a sobrinha que muitas pessoas se irritam com aquelas que adotam padrões de vida mais individualizados. Sentem-se insultadas, humilhadas e reduzidas a seres ordinários.
Já naquela época, Mila Cox já pensava que a falta de uma resposta definitiva parar o sentido da vida era algo a ser encarado como liberdade Não havia a pressão e nem a tristeza de um futuro pré-decidido.
Certa vez, ouviu da tia que a vida é uma longa preparação para algo que nunca acontece. Diversas vezes ouviu também que a utopia é algo que está sempre no horizonte, e que se afasta à medida que avançamos, e que serve justamente para não ficarmos parados no mesmo lugar.
A tia lhe contava coisas do século vinte, fazendo comparações com fatos ocorridos no presente. Sempre lembrava que também há riqueza potencial naquilo que não precisamos ter.
Havia uma foto das duas na sala do apartamento que Mila Cox dividia com Zími. Mila Cox tinha quatro anos, e Sara tinha vinte e oito.
A tia usava uma camiseta do Television, que dizia ser melhor que Talking Heads. A sobrinha nunca havia chegado a nenhuma conclusão sobre isso, e gostava igualmente das duas bandas.
Então, em 2024, com vinte e um anos, ao saber da morte de Wayne Kramer pela internet, Mila Cox disse: “Oh fucking god!”, na sala do apartamento que dividia com Zími. Ele e Silvano estavam presentes.
Os dois sabiam que se tratava de algo sério, e portanto fizeram as piadas antes que ela contasse o ocorrido.
Enfim, ela contou e foi feito silêncio por trinta segundos.
“Caiu mais um pilar de resistência. Tinha sonoridade e atitude.” – disse Zími.
“Pelo menos ele teve uma longevidade razoável para a vida que levou, e provavelmente terá mais sossego agora do que teve em vida. E fica o legado. Falava para as ruas, era mais próximo da nossa realidade, mesmo em outro país e em outra época, diferente de gente que fazia parte de bandas que tinham aviões, falavam de escadas para o céu e tinham contas bancárias milionárias. Medalhões que eternizaram sua obra e estão com idade muito avançada, ou mortos. “– disse Silvano, que é uruguaio mas não tem sotaque, porque vive no Brasil desde muito criança.
“Ainda esse ano cairão outros pilares, entre eles, medalhões que no nosso imaginário pareciam eternos. Pessoas que quando eu era moleque já estavam consolidadas na carreira, com grana e que há algumas décadas causavam em mim um sentimento que beirava a inveja. Hoje, alguns ainda são milionários, mas estão no fim da vida. Deve ser triste para eles, porque para esse caso o dinheiro não é solução” – disse Zími.
“A melhor idade é estar vivo. Os próximos pilares a cair podem ser até mesmo vocês, isso seria devastador pra mim. E apesar de eu ainda ser jovem posso ser eu a próxima a morrer, sabe-se lá como. Nesse ponto estamos todos nivelados. Viver contra a existência de música marqueteira popularesca é uma boa causa.” – disse Mila Cox.
Dias depois, quando ela escrevia uma música sobre tabus que oprimem a sexualidade feminina, souberam da morte de Damo Suzuki.
A tristeza foi ainda maior, especialmente para Zími, que o tinha como exemplo, quase como um guru artístico. Ele havia presenciado um show de Suzuki em São Paulo, já em carreira solo.
Agora que moravam na região central, viviam perto do local onde aquele show aconteceu.
Na ocasião, Zími havia ficado surpreso com o número de garotas presentes na platéia, o que só fez aumentar sua admiração por esse artista magnífico.
No dia da morte dele, os três reouviram discos do Can, antiga banda de Damo Suzuki.
Durante a audição, Zími fazia anotações num caderno, para depois editá-las e transforma-las em alguma música nova para o projeto musical Crop Circles, que mantinha com Mila Cox.
Ela, que à noite ficou embasbacada ao saber que um censor da ditadura brasileira chegou a emitir um mandado de prisão para o filósofo Sófocles, pela autoria da peça Édipo-Rei, escrita cerca de quatrocentos e vinte e sete anos antes de Cristo, e que seria encenada naquele período, no Brasil, caso a censura liberasse.
Pensou então na maluquice que seria viver num tempo em que teria que enviar suas músicas para censores completamente senis, reacionários e ignorantes, sabendo que nenhuma delas seria aprovada para lançamento.
Sem contar as outras dificuldades. O alto custo de qualquer gravação feita na época, além da absurda falta de informação, por conta da censura à imprensa e a outros artistas da época, e isso somado ao fato de que muitos discos internacionais relevantes não eram lançados no Brasil, e quando eram, custavam caro.
Foi logo trazida à realidade de seu tempo por Zími, que insistia em dizer que sua vida jovem no último quarto do século vinte foi uma experiência nada saudosa, ao mesmo tempo em que tinha sérias críticas e restrições ao primeiro quarto do século vinte e um, em que a informação abundante e fácil formou uma geração fútil, que não lê, ouve músicas ruins e tem uma vida social debilitada pela tecnologia.
Para Mila Cox, Zími e Silvano, a tecnologia trazia benefícios e algumas desvantagens.
Assim como a tia de Mila Cox, tanto Zími como Silvano. falavam para ela coisas do século vinte e faziam comparações entre o presente e o passado.
Ela ouvia muito deles também sobre o fato dela ter nascido no século vinte e um. Ela aprendia com eles o uso de recursos primitivos em casos de emergência. Coisas do século passado, que eram corriqueiras.
Já sabia o que era gambiarra antes que conhecesse a palavra.
Tinha a vantagem de considerar desde sempre que todo o Rock da segunda metade do século vinte foi criado em condições gerais que não mais se aplicavam.
A convivência com gente mais velha também lhe ensinou que sempre há um limite além do qual a tolerância deixa de ser uma virtude.
Então foi à padaria e a televisão estava ligada num programa popularesco da programação aberta.
Viu uma pseudo celebridade do momento, que ela não sabia porque tinha fama, e muito menos qualquer motivo decente para que aquele retardado tivesse espaço na televisão aberta, falando para milhões de pessoas.
Falava de si na terceira pessoa, e era ainda mais jovem que ela.
Mila Cox lembrou mais uma vez de sua tia Sara, que desmistificava para a sobrinha, desde cedo, a fama e os meios de comunicação convencionais, que apresentam conteúdo capaz de convencer milhões no rebanho humano, deixando a grande massa retardada e facilmente manipulada.
Matando uns aos outros por motivos de fé cega em coisas sobre as quais nada sabem., especialmente o charlatanismo religioso ao qual estão sujeitas, futebol, política e música.
Ela tomou uma cerveja e ficou olhando a televisão e os circunstantes à sua volta. Saiu e foi comprar cerveja no mercado antes de voltar para casa, pois era mais barato.
Lambidas, olhar pidão, um rabo que tem vida própria e muitas alegrias!
É a minha primeira crônica canina! Experiência com cães eu tenho, desde pequeno! Lembro de um dálmata lindo que tive quando era criança! Duquesa! As lembranças são poucas porque era muito criança!
Mas do primeiro cachorro que levei pra casa (sem contar obviamente para os meus pais) eu tenho as primeiras memórias afetivas que marcaram a minha vida! Apolo era o nome de um vira-lata baixinho, troncudinho e esperto que adorava lasanha, pizza e espetinho de frango! Corria atrás de bola, fugia de casa com frequência e matava as galinhas da casa da minha avó com uma patada só!
Apolo viveu bem sua vida: correndo, brincando e viajando. De todos os cães que tive foi o que mais viajou, embaixo do banco do carona onde sentava a minha mãe, ficava ali quietinho até uma parada! Quando parávamos, ele atacava dois espetinhos de frango e estava pronto para seguir a estrada…
Infelizmente, como todos os bons cães, ele não pôde ficar aqui nessa vida com a gente e nos deixou por causa do coração!
A outra experiência foi com um cão fofoqueiro! Sim, fofoqueiro! Ele passava muitas horas do dia pendurado no portão da garagem olhando a rua e prestando atenção a todos os movimentos. O nome dele era Baggio! Sim, o nome do jogador italiano que perdeu o pênalti e deu o tetra ao Brasil. O nome quem deu foi o meu pai e nunca entendi o porquê do setter irlandês nunca ter sido chamado de Dunga, Bebeto, Romário, enfim… Ficou Baggio mesmo!
Baggio viajou pouco! Ele não curtia ficar muito tempo dentro de um carro e, por isso, perdeu algumas oportunidades que o Apolo soube bem aproveitar!
Mas, a despeito das viagens e das estradas, tanto Apolo quanto Baggio mostraram em cada olhar e em cada lambida a intensidade que todo cão vive a vida. A intensidade de todas as esperas! A intensidade de fazer a criatura humana feliz…
Meu destino foi moldado pelos filmes que assisti. A música que os acompanhou faz a trilha sonora da minha vida. Segue a 4ª parte:
Um grande filme deve vir acompanhado de uma trilha sonora à altura. A música tem o poder de potencializar as sensações a nós repassadas pelas cenas assistidas. Em alguns casos, fica tão intimamente vinculada às imagens que delas se torna indissociável. Muitas obras cinematográficas devem seu sucesso à trilha sonora, havendo casos em que esta chega a ofuscar o próprio filme. Meu destino foi moldado pelos filmes que assisti. A música que os acompanhou faz a trilha sonora da minha vida.
61) SHAFT (Gordon Parks), 1971
O filme marca a ascensão de heróis negros no cinema americano (no caso, o durão detetive particular John Shaft) em oposição à prevalência de personagens centrais brancos. THEME FROM SHAFT, principal tema musical do filme, vencedor do Oscar, que combina funk, soul e jazz, composto pelo músico Isaac Hayes, tornou-se lendário. Foi lançado como faixa principal de um álbum duplo que alcançou um sucesso arrasador trazendo outros temas do filme (em boa parte, instrumentais). Em 2000, foi feito um remake com Samuel L Jackson no papel principal (como sobrinho do Shaft original) dirigido por John Singleton (BOYZ N THE HOOD), com nova versão do histórico tema original.
62) BLOW UP (Michelangelo Antonioni), 1966
O clássico do diretor italiano (mas rodado inteiramente em inglês), estrelado por David Hemmings e Vanessa Redgrave, trata de um suposto assassinato captado acidentalmente por um fotógrafo de moda, história baseada num conto do escritor argentino Julio Cortazar. A trilha foi composta pelo pianista Herbie Hancock sendo executada por uma trupe de primeira (Freddie Hubbard, Joe Henderson, Ron Carter, Jack DeJohnette, Jimmy Smith etc.). Todavia, o charme é o rock STROLL ON executada pelo grupo Yardbirds (com Jeff Beck e Jimmy Page) que aparece ao vivo tocando no filme. Antonioni tem outros filmes famosos como A NOITE, PROFISSÃO REPÓRTER (O PASSAGEIRO) e ZABRISKIE POINT, cuja trilha se tornou cultuada por conter canções inéditas do Pink Floyd.
63) A LIBERDADE É AZUL (Krzysztof Kieslowski), 1993
O compositor polonês Zbigniew Preisner distinguiu-se por criar e executar as trilhas da celebrada ‘trilogia da cores’ (TROIS COULEURS) do seu conterrâneo Kieslowski, a saber, A LIBERDADE É AZUL (BLEU), A IGUALDADE É BRANCA (BLANC) e A FRATERNIDADE É VERMELHA (ROUGE), com base na composição da bandeira francesa e nos ideais da Revolução Francesa. O primeiro e mais conhecido episódio, BLEU, é estrelado por Juliette Binoche. Priesner também musicou outro filme famoso do mesmo diretor, A VIDA DUPLA DE VÉRONIQUE, além de O JARDIM SECRETO, filme-fantasia com produção executiva de Francis Ford Coppola.
64) O HOMEM DE BRAÇO DE OURO (Otto Preminger), 1955
Diversos clássicos do diretor Otto Preminger tiveram trilhas marcantes como LAURA (cuja música tema de David Raskin tornou-se um concorrido standard de jazz), ANATOMIA DE UM CRIME (trilha assinada pelo mestre Duke Ellington) e EXODUS (com uma trilha épica condizente). A conhecida música de O HOMEM DE BRAÇO DE OURO, filme estrelado por Frank Sinatra, Kim Novak e Eleanor Parker, é assinada pelo afamado maestro Elmer Bernstein, responsável por outras grandes trilhas como a de OS SETE MAGNÍFICOS, O GRANDE MOTIM, MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA e (pasme!) da comédia sobrenatural GHOSTBUSTERS (OS CAÇA-FANTASMAS), cuja música tema tornou-se grande sucesso.
65) BIRD (Clint Eastwood), 1988
Clint Eastwood é um aficionado por jazz, como demonstra a música que acompanha boa parte dos filmes em que atuou como diretor, a maioria dos quais composta pelo próprio Clint. Esmerou-se nessa produção que trata da vida atribulada (vício em drogas e problemas financeiros e de racismo) e curta (faleceu aos 34 anos) de Charlie Parker, ou Bird, como era conhecido, na tela representado por Forrest Whitaker. A trilha apresenta 11 canções remixadas do saxofonista criador do bebop, sendo adicionados aos solos originais de Parker acompanhamentos de músicos contemporâneos.
66) FLASHDANCE (Adrian Lyne), 1983
Lyne é um bem sucedido cineasta com produções de grande bilheteria como 9 ½ SEMANAS DE AMOR (com sua trilha sensual), PROPOSTA INDECENTE e ATRAÇÃO FATAL. Maior sucesso da carreira de Jennifer Beals, FLASHDANCE foi comercialmente um arraso, assim como sua trilha. Apesar das críticas mal humoradas, poucos não se emocionam ao escutar WHAT A FEELING com Irene Cara (Oscar de canção original) ou MANIAC com Michael Sembello. As canções foram compiladas pelo DJ Giorgio Moroder, produtor de Donna Summer, e com vasta atuação durante a era disco. No cinema, assinou também as trilhas de EXPRESSO DA MEIA NOITE (ganhadora de Oscar), TOP GUN, GIGOLÔ AMERICANO, SCARFACE e A MARCA DA PANTERA.
67) MELODIA IMORTAL (George Sidney), 1956
THE EDDY DUCHIN STORY foi um filme biográfico estrelado por Tyrone Power e Kim Novak (no auge de sua beleza) sobre o pianista Eddy Duchin, sendo os números musicais tocados pelo consagrado Carmen Cavallaro. A trilha sonora, cujo álbum foi um dos campeões de vendas de 1956, inclui até uma versão de AQUARELA DO BRASIL de Ary Barroso. A música tema, TO LOVE AGAIN, é baseada num noturno de Chopin. Sidney é especializado em musicais, tendo trabalhado com Gene Kelly, Judy Garland, Frank Sinatra e até Elvis Presley. Destaque para ANCHORS AWEIGH em que Kelly dança com o ratinho Jerry (de Tom & Jerry), numa inédita integração com animação.
68) THE WALL (Alan Parker), 1982
Os filmes do diretor britânico Alan Parker têm em comum trilhas relevantes que fizeram sucesso comercial, sendo difícil selecionar uma: FAME (sobre jovens talentos de uma escola de música), MIDNIGHT EXPRESS (música eletrônica de Giorgio Moroder), THE COMMITMENTS (jovens de Dublin querendo montar uma banda de soul), EVITA (de Andrew Lloyd Webber com Madonna), BIRDY (assinada por Peter Gabriel), MISSISSIPI EM CHAMAS (impactante trilha de Trevor Jones num contexto de racismo). No caso de THE WALL, o filme/animação se baseia no álbum homônimo do Pink Floyd de 1979 com roteiro do baixista/vocalista Roger Waters com críticas ao autoritarismo e ao belicismo.
69) A PROFECIA (Richard Donner), 1976
Donner foi um cineasta versátil que dirigiu películas de gêneros diversos: ação, aventura, comédia, terror. Destacam-se SUPERMAN, O FEITIÇO DE ÁQUILA, OS GOONIES, MÁQUINA MORTÍFERA (1 a 4), TEORIA DA CONSPIRAÇÃO, MAVERICK. O aterrorizante A PROFECIA (OMEN) com Gregory Peck, é sobre um garoto que se revelou filho do demônio. Jerry Goldsmith caprichou na trilha que mescla música orquestral e elementos atonais, em especial a faixa AVE SATANI, com um coro cantado em latim que soa como uma missa negra. Com ela, Jerry, um dos mais famosos compositores de trilhas – STAR TREK, PLANETA DOS MACACOS (de 1968), CHINATOWN, ALIEN, PATTON, POLTERGEIST etc. – faturou seu único Oscar.
70) ROCKY III (Sylvester Stallone), 1982
A saga do fictício lutador Rocky Balboa é uma das mais bem sucedidas do cinema. A série iniciou-se em 1976, sendo o primeiro episódio dirigido por John Avildsen, o melhor avaliado pela crítica, contando com trilha de Bill Conti inclusive a música-tema, GONNA FLY NOW (indicada ao Oscar). Porém o personagem ficou vinculado à canção EYE OF THE TIGER interpretada pelo grupo Survivor, associada a garra e superação, presente no terceiro filme da franquia. Stallone agregou à trilha de Conti esse rock com a intenção de atrair um público mais jovem. EYE OF THE TIGER tornou-se um sucesso retumbante, tendo sido um dos singles mais vendidos do ano.
71) AMARGO PESADELO (John Boorman), 1972
Estrelado por Burt Reynolds e Jon Voight, esse polêmico filme, originalmente DELIVERANCE, cujo título em português dá uma ideia do tormento vivido por um grupo de 4 amigos que escalam um rio quando são atacados e seviciados por habitantes rudes da região. As cenas de violência sexual extrema foram suprimidas pela censura em sua primeira exibição no Brasil. O momento mais célebre ocorre quando um dos personagens faz um desafio musical com um banjo com um rapaz aparentemente deficiente mental da região (“DUELING BANJOS”). O duelo musical foi transposto para a trilha sonora do filme.
72) ARQUIVO X (Chris Carter), 1993
A série televisiva, uma das mais duradouras da história, ficou no ar por nada menos do que 10 anos com 9 temporadas e mais de 200 episódios, dando origem também a um longa. Trata-se de uma temática insólita em que um casal de agentes do FBI investiga casos paranormais. O inconfundível tema de abertura foi composto por Mark Snow utilizando assobios, ecos e elementos eletrônicos.
73) HARRY & SALLY (Rob Reiner), 1989
Comédia romântica não precisa necessariamente ser piegas, como prova essa divertida e esmerada produção protagonizada por Meg Ryan e Billy Cristal, que passam o filme inteiro se estranhando até acabarem juntos. A cena do orgasmo no restaurante é emblemática. A graciosa trilha sonora que fez tanto sucesso quanto o filme foi executada pelo estreante e promissor cantor e pianista Harry Connick, Jr, tido então como o futuro Sinatra e é composta por clássicos do jazz (irmãos Gershwin, Rodgers & Hart, Duke Ellington etc.) Ao fim, Connick Jr não se tornou um novo Sinatra nem emplacou novas trilhas, vindo a fazer alguns papéis como ator coadjuvante. O diretor Reiner teve outros filmes de importância como STAND BY ME (outra trilha memorável) e LOUCA OBSESSÃO (MISERY).
74) O FEITIÇO DA LUA (Norman Jewison), 1987
O diretor canadense Jewison carrega em sua bagagem filmes importantes como NO CALOR DA NOITE (trilha de Quincy Jones com tema de abertura de Ray Charles), O VIOLINISTA NO TELHADO (musical com temas tradicionais judaicos), THOMAS CROWN AFFAIR (trilha de Michel Legrand) e OS GLADIADORES DO FUTURO (André Previn). O FEITIÇO DA LUA (MOONSTRUCK) é uma comédia romântica que conferiu à cantora Cher o Oscar de melhor atriz, no papel de uma ítalo-americana que se apaixona pelo personagem vivido por Nicolas Cage. A trilha mescla canções populares italianas com trechos de ópera, com destaque para THAT ‘S AMORE interpretada por Dean Martin.
75) BAGDAD CAFÉ (Percy Adlon), 1972
Essa curiosa comédia dramática que contrapõe uma turista alemã com aparência fora dos padrões de Hollywood e a dona de um decadente posto de estrada é uma produção germânica que se passa nos EUA com atores americanos (inclusive o veterano Jack Palance). A nostálgica trilha sonora capta a solidão dos personagens e o clima do deserto de Mojave na Califórnia, onde a trama se desenrola. Mas o grande destaque é a balada CALLING YOU (indicada ao Oscar), interpretada por Jevetta Steele, com um enxuto arranjo de piano e flauta que se tornou sucesso mundial. A interpretação da cantora gospel arrancou rasgados elogios da crítica que a compararam com Whitney Houston.
76) YELLOW SUBMARINE (George Dunning), 1968
Os Beatles, o grupo de pop-rock mais famoso da história, lançaram também alguns filmes (A HARD DAYS NIGHT, HELP!…). YELLOW SUBMARINE destaca-se por ser uma animação em que eles aparecem caricaturados numa aventura em que salvam a cidade de Pepperland, tomada por malignos homens azuis que detestam música. A trilha sonora original contém apenas 4 canções inéditas do grupo e não chegou a alcançar grande sucesso comercial. O lado B contém temas orquestrais compostos pelo produtor musical George Martin. Mais tarde, foi lançada uma nova versão com todas as canções executadas no filme, a maioria já presente em outros álbuns. Apesar de tais restrições, o filme ganhou o status de cult por seus traços psicodélicos que revolucionaram a estética dos desenhos animados.
77) DIÁRIOS DE MOTOCICLETA (Walter Salles), 2004
A saga de Che Guevara pela América Latina, sob a direção do cineasta de CENTRAL DO BRASIL, recebeu uma bela trilha composta pelo argentino Gustavo Santaolalla com a canção tema AL OTRO LADO DEL RIO de Jorge Drexler. Santaolalla compôs para 2 outros filmes do diretor brasileiro: LINHA DE PASSE e ON THE ROAD. O músico recebeu dois Oscars mas por outras trilhas, igualmente belas, BABEL e O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN. São dele também as trilhas dos mexicanos AMORES PERROS e BIUTIFUL, do portenho RELATOS SELVAGENS e do americano 21 GRAMAS.
78) GÊNIO INDOMÁVEL (Gus Van Sant), 1997
Reconhecido como um dos mais talentosos diretores surgidos nos anos 90, em especial em temas que tocam a juventude, Gus tem em sua filmografia, obras-primas como O ELEFANTE, MILK A VOZ DA IGUALDADE, ENCONTRANDO FORRESTER, UM SONHO SEM LIMITES e PARANOID PARK. Nenhum deles alcançou a projeção de GÊNIO INDOMÁVEL com Matt Damon e Robin Williams (valendo-lhe um Oscar). A trilha foi assinada por Danny Elfman, mas o destaque ficou por conta das 6 canções do garoto-prodígio Elliott Smith que integraram o álbum, em especial MISS MISERY (indicada ao Oscar).
79) CORRIDA CONTRA O DESTINO (Richard Sarafian), 1971
CORRIDA CONTRA O DESTINO (VANISHING POINT) é um road movie que, apesar do baixo sucesso comercial, tornou-se cult em função das cenas de perseguição e das relações pessoais que o personagem estabelece pelo oeste dos EUA, misturando filosofia existencial e crítica social, bem ao gosto da contracultura dos anos 70. Nesse contexto, a trilha mescla rock psicodélico, country e blues refletindo o espírito de rebeldia e liberdade da época. Ficou famosa no Brasil por utilizar a magnífica FREEDOM OF EXPRESSION, canção executada pelo desconhecido conjunto J B Pickers (na verdade, um improvisado grupo de músicos que se reuniu para gravar essa faixa para o filme), que se tornou conhecida por ser utilizada na abertura do Globo Repórter.
80) SINGLES, VIDA DE SOLTEIRO (Cameron Crowe), 1992
O filme estrelado por Bridget Fonda, Campbell Scott e Matt Dillon é uma simpática e descompromissada comédia romântica do mesmo diretor de JERRY MAGUIRE, QUASE FAMOSOS e VANILLA SKY (todos com trilhas sonoras pop rigorosamente selecionadas) que retrata a complicada relação de jovens à procura do par perfeito. A trama transcorre em Seattle, cidade em que emergia um efervescente movimento musical que se estendeu pelo planeta e revitalizou o rock. A trilha que se tornou referência reflete a atmosfera ‘grunge’, com bandas como Pearl Jam, Alice in Chains, Soundgarden, Screaming Trees etc.
É notório o saber de que o sal, numa casa, nunca acaba. O “nunca”, aqui, refere-se a um tempo deveras alongado. Em uso mais direto da nossa língua coloquial, eis o papo reto:
quando o sal acaba, meu amigo… tu tá com um pepinão para descascar.
Ninguém pede sal ao vizinho — pede-se açúcar. Sal é usado aos poucos; “pitadas” são suas medidas em praticamente todas as receitas. Já o açúcar costuma ser contabilizado em quantidades de xícaras. Saquinhos ou caixas de sal duram meses, anoS, até, dependendo do número de moradores em uma casa; os açúcares, por sua vez, persistem semanas — ou um amontoado delas, o que não se compara aos meses salíneos.
Em restaurantes geralmente temos acesso a um sachê com 0,8 a 1 g de sal, medida individual que, não raro, dividimos com quem senta à mesa. O sachê do cafézinho pós-almoço — aquele gole fumegante e escuro que sela a refeição — vem com 5 g.
Para muitos, um só não basta.
Eu, desde que moro nesta casa, há quase cinco anos, comprei três sacos de sal — sendo o terceiro nesta semana. Um deles, coitado, tinha apenas 250g. O primeiro durou mais do que o meu primeiro casamento. Achei significativo. E bastante explicativo.
Nemini fidas, nisi cum quo prius modium salis absumpseris.
Não confies em alguém antes de terem comido juntos um alqueire de sal.
Não sei quem disse isso primeiro, nem quem me soprou o mesmo conselho em versão coloquial — talvez alguém, talvez ninguém, talvez os livros, talvez a vida. A versão romana do adágio, compilada por Erasmo de Rotterdam em 1500 (o mesmo ano em que o Brasil foi avistado pelas caravelas de Pedro Álvares Cabral), traz uma receita com a medida exata para conhecer, de fato, alguém: um alqueire.
À época, o alqueire romano (modius) era uma medida de volume — cerca de 9 litros. 9L equivale a algo próximo de 10 kg. O suficiente, convenhamos, para temperar uma vida inteira a dois… não acha? Já no Brasil, o alqueire virou território, variando de acordo com sua localização, que ainda não era estadual:
Alqueire mineiro: ~48.400 m² Alqueire paulista: ~24.200 m² Alqueire baiano: ~96.800 m²
Não se pode transformar metros quadrados em quilos. Mas a máxima permanece: é a verdade travestida de conselho muito, muito sábio. Sal pode ser sinônimo de tempo.
Tomemos o dito refinado e coloquemo-lo dentro de um suporte aparentemente sem emendas: duas estruturas translúcidas nas extremidades, em forma de bulbo, ou meia esfera, unidas por uma cintura alongada. Não há quinas; trata-se de curvas contínuas, uma unidade em si mesma. Se inserirmos 1 modius de sal nesse corpo de vidro e calibrarmos o ritmo de sua queda até o equivalente em pitadas, eis aí os 10 kg que nos acompanharão por toda uma vida.
Que bonito seria recebermos, ao conhecer alguém pela primeira vez — ou como presente de casamento — não flores ou alianças, mas uma ampulheta de 10 kg de sal.
E víssemos, no cair sutil do tempo, quanto duraria aquilo que julgamos conhecer do outro… É na delicadeza desse escorrer que os novos conhecimentos se sedimentam.
Há poucos dias, me explicaram que “sabedoria” vem de “sabor”. Sabendo que sabedoria e conhecimento são quase sinônimos, não é difícil presumir:
Asfora nunca entendeu o fascínio das pessoas por animais. Dizia que cachorro é humano demais em corpo de bicho: late, baba e ainda exige colo. Gato, então, é o pior tipo de inquilino. Entra sem pedir, dorme onde quer e encara o dono como se o intruso fosse ele.
Agora, aos cinquenta e poucos anos, Asfora vivia sozinho. O que, para ele, não era solidão, mas lucidez. Achava que o silêncio era o último bastião da civilização; o barulho alheio, um sintoma de histeria coletiva.
Mas o tédio, seu velho cúmplice de noites longas, às vezes resolvia pregar peças. Numa delas, abafada e sem graça, daquelas em que o noticiário parece o obituário do mundo, ele deixou a porta entreaberta. Talvez esperando uma visita improvável: Madalena, do 1.304: a vizinha de risadas longas, vestidos curtos e intenções malvadas.
O destino, como sempre, errou o endereço. Quem entrou não foi Madalena, mas um poodle ofegante, fabricado em puro nervosismo. O bicho invadiu a cozinha, farejou as empadinhas de camarão e se autoproclamou imperador do jantar.
Asfora reagiu como quem espanta mosquito: rápido, impensado, cruel. O cabo do esfregão quebrou, o cachorro uivou, e o barulho ecoou como sirene moral. Em minutos, a vizinhança já o via como o vilão do condomínio. Ganhou processo, má fama e um título que o deixava furioso: o carrasco dos cães.
Desde então, vivia sob a vigilância do tribunal dos vizinhos, onde as sentenças eram proferidas no elevador e cumpridas nos cochichos de corredor.
Na manhã do seu aniversário, acordou com a campainha martelando a alma. Abriu a porta, ainda em transe, e deu de cara com Madalena, sorrindo como quem entrega más notícias embrulhadas em perfume e malícia.
— Socorro! Pega, pega, pega!
Antes que entendesse a situação, um vulto minúsculo atravessou-lhe as pernas e mergulhou na sala: um yorkshire em surto, uma miniatura do caos. Em segundos, devastou o tapete, o jornal, a paz e a reputação do dono da casa.
O cãozinho ainda derrubou o porta-retrato da mãe de Asfora, que o observou da moldura com o olhar eterno de “eu te avisei”.
— Vai mijar no tapete! — gritou Madalena, histérica.
E ele pensou que talvez o tapete merecesse.
Os vizinhos brotaram à porta, em êxtase, como plateia de tragédia doméstica.
— Dá uma vassourada!
— Chama os bombeiros!
— Eu não disse? — rosnou a dona do poodle, saboreando a vingança. — Nem os cães o suportam!
Por um instante, Asfora pensou em pular da janela e encerrar a trilogia dos desastres caninos. Mas o yorkshire – aquela bola de energia demoníaca – se enroscou em seu peito e, pela primeira vez, ficou quieto. O silêncio que se seguiu foi tão improvável que parecia um milagre.
Madalena, com a serenidade de quem dita sentença, decretou:
— Pois agora o senhor vai cuidar dele pra mim. Quero ver se é homem de verdade.
Asfora ficou parado, o cachorro tremendo em seus braços, e teve, naquele exato momento, a nítida sensação de que o destino acabava de lhe entregar um bicho para chamar de seu.
Naquele aniversário, não teve bolo, nem parabéns. Apenas um amiguinho histérico, um coração cansado e a incômoda suspeita de que, talvez, fosse ele o animal que precisava ser domesticado.
Certo dia resolvi organizar as fotos que ficavam naqueles albunzinhos que as Fotóticas da vida ofereciam junto com os filmes revelados, da época em que se revelava fotografia e colocava em álbuns. Foram guardados numa grande caixa, esperando o dia em que eu ia me dispor a organizar.
O tempo passou, não fiz isso quando deveria ter feito e, agora, essa se tornou uma Caixa de Pandora. De vez em quando olho para ela, pensando se gostaria ou não de abri-la. Lá estão registrados anos e anos da vida, que de certa forma, ao serem guardados nessa caixa, ficaram congelados.
Me dei conta de que fotos em papel impactam diferente na gente. Quando tudo passou a ser digital, parece que nossa memória também digitalizou, e as fotografias passaram a ocupar outro espaço, menos emocional, longínquo, o espaço virtual.
Nesse plano digital estão álbuns mais recentes, que podem conter momentos parecidos e com as mesmas pessoas que estão nos antigos registros de papel, mas a nossa relação com eles parece ser diferente, mais distante.
As fotos digitais parecem não fazer parte de nós e sim de uma plataforma – elas habitam fora de nós, em uma nuvem. Esse distanciamento nos possibilita facilmente deletar, corrigir, cortar, criar outros contextos para os momentos ali retratados.
Se algo desagrada, ou traz uma lembrança indesejada, com um clique está tudo resolvido e nem nos lembramos mais de que, um dia, esses momentos foram captados, registrados. Já as fotos em papel não. Eliminá-las exige rasgar, queimar, colocar no lixo, sei lá. E isso é um processo cirúrgico dolorido.
Se desfazer de flagrantes do passado que hoje não são mais significativos, da fisionomia de pessoas que não deixaram marcas – hoje são praticamente estranhas – dá uma sensação de sacrilégio. É como se esses retratos tivessem vida própria, não nos pertencessem e sim à nossa história.
A digitalização, no fundo, desumanizou esses relatos, criou um espaço confortável entre nós e aquilo que está na tela, para que pudéssemos ir ceifando, sem dó nem piedade, tudo aquilo que incomoda, que não faz mais sentido e, assim, compor o álbum com a história que gostaríamos de contar.
Mas as fotos em papel criam vida, e não há como apagar a história que contam. Elas ficam ali, naquela Caixa, como guardiãs fiéis do nosso passado.
Passeando pelo Instagram e lendo as primeiras linhas daquelas matérias aleatórias, esbarrei em uma que capturou a minha atenção: um britânico de 52 anos, Malcolm Myatt, sofreu um AVC (acidente vascular cerebral) e perdeu a capacidade de sentir tristeza. Meu primeiro pensamento foi: que sorte poder viver no conforto da alegria, não se abalar com os sacolejos do destino, se decepcionar com os invejosos, acordar com os olhos inchados de mágoa. Estava quase acreditando que há males que vêm para o bem quando descobri que essa alegria eterna é acompanhada de uma diminuição da capacidade de interpretar as relações, seus códigos e demandas. Na contramão dos ganhos, Malcolm apresenta um comportamento socialmente inadequado (para quem?). Faz piadas em velório, comentários constrangedores em qualquer ambiente, fala o que vem à cabeça, sem se preocupar com as consequências (talvez isso contribua para sua persistente alegria, não?).
Por fim, me convenci de que um estado de alegria inabalável depende de um estado de alienação absoluta. Um desligamento dos motores, das turbinas. Um infinito vagar à deriva num mar exaustivamente azul.
Quero não. Preciso sentir o embalo das ondas, a revolta do vento e depois descansar no cais.
E “harmonizam-se” com a cor preta e outros tons da mesma cor…
Que moda é essa? Qual o guru da arquitetura moderna foi o precursor dessa escolha?
Sigo com o Google Maps aberto, como quem caminha sem saber o caminho, mesmo tendo um mapa na mão.
É um bairro novo, de classe média alta.
As casas, recentes, seguem o mesmo modelo arquitetônico: fachadas altas, linhas retas, vidro escuro, cimento aparente. A estética da segurança, do silêncio e da sobriedade. Tudo muito moderno. Tudo muito igual.
Não bastasse a surpresa da cor, há algo mais que me inquieta.
As janelas não se abrem. Não há som de crianças, nem cheiro de comida, nem sombra de varal. As ruas estão limpas. E totalmente vazias. O traço comum é o isolamento: portões que se erguem automaticamente, carros que entram e saem sem que se veja o rosto de quem os conduz.
Casas habitadas por presenças ausentes.
O cinza não está apenas nas paredes. Está também na atmosfera.
Olho para o alto, ufa! Que alívio ver o céu azul…Suspiro. Mas ainda sinto o espírito do lugar.
Há uma palidez existencial ali, como se a forma da moradia tivesse moldado o modo de viver.
E me pergunto: quando foi que morar deixou de ser habitar e passou a ser apenas isolar-se?
Quando foi que o abrigo virou trincheira?
Sei que tudo é moda. A cor da tinta, o estilo da fachada, a lógica do silêncio.
Mas temo que o hábito de fechar-se por fora acabe por selar também o lado de dentro. Que o desejo de proteção vire indiferença. Que o medo se disfarce de elegância.
Ainda assim, insisto em acreditar que nem tudo se apaga sob o concreto.
Que, de vez em quando, ao abrir o vidro para deixar escapar o calor do carro, alguém note o verde das plantas, o brilho do sol, o céu azul.
Que um canto de pássaro ainda provoque surpresa.
Que uma frase, uma música, uma lembrança rompam o lacre do hábito e façam vibrar algo bom no coração das pessoas que ali vivem.
Porque, no fundo, morar é mais que possuir um espaço.
É deixar-se afetar por ele.
E viver é mais que proteger-se do mundo: é permitir que o mundo nos atravesse, nos transforme, nos toque.
Vou te contar o que vim fazer aqui. Faz algum tempo, uns meses já, que meu desempenho ao piano não avança. Estava muito preocupada em especial quando tentava executar “A Chegada da Rainha de Sabá”, de Handel. Pela sua cara nunca escutou, mas não tem problema é uma composição alegre, um pouco difícil eu admito, mas que merece ser tocada com precisão.
Vai daí que ultimamente não tenho obtido nenhum progresso. Meu professor tem me olhado feio e insistido que não estou me esforçando. Eu pratico bastante mas sabe o que aconteceu?
Aos poucos fui percebendo que algumas notas aparentemente fáceis e até básicas da composição não estavam saindo direito.
Foi então que ouvi dizer que os pianos eventualmente carregavam os espíritos da natureza.
Todo piano é feito de madeira, você sabe, e ela traz em si essa ligação com a mãe-natureza, foi o que me explicaram.
Quando corta a madeira esses espíritos são separados dela, ficam perdidos. Desde então eles vagam de um piano para outro buscando seu lar. Nessa busca eles assombram os pianistas.
Por vezes você vai tocar e o som sai tão pesado que parece que tem um elefante dentro do piano. Em outras ocasiões esses espíritos travessos camuflam a nota tocada certa tornando-a ruim.
Enfim, um inferno.
Ai me disseram que precisa pesquisar de onde vem a madeira do piano. Foi um trabalhão, já te digo. Meu piano é um Fritz, Fritz Dobbert. É, parece alemão, não é ? Só que não, porque a Frtiz Dobbert fabrica pianos no Brasil há quase 100 anos. Portanto, os espíritos são brasileiros certo? Aí a coisa complica.
Com esse caldo de culturas que a gente tem que misturou índio com português, com africano com europeu, com jacaré e cobra d’água não dá para ter certeza da origem desses espíritos.
Eles todos se misturaram aqui também.
Os que moravam na árvore que foi cortada para fazer o piano se juntaram com os que vieram de fora, nos navios. Pensa, se as pessoas fizeram isso, por que não os espíritos? Tudo é possível nesse mundo fantástico que nos cerca, acredite em mim.
Por isso que eu vim aqui. Me disseram que esse Xamã era a última palavra em conhecimento sobre essas coisas espirituais, sabe. Nem estranhei que ele ficava aqui em Copacabana mas tudo bem, o bairro é grande e tem de tudo um pouco, estou acostumada.
Você sabia que ali um pouco depois da galeria Menescal tinha uma vidente turca que lia a sorte na borra do café? Menina, era uma coisa de louco! Não errava uma, segundo uma tia me contou que ficou sabendo por uma vizinha cuja prima veio de Minas só para se consultar. Tiro e queda.
De qualquer forma, meu assunto aqui é um pouco mais focado, eu diria. Tenho fé que o Xamã vai me orientar, vai iluminar meus caminhos. Tomara que não me peça para fazer sacrifícios com animais que isso faz uma sujeirada da nada.
Queimar incenso e até um fuminho assim diferente, se é que você me entende, eu topo.
Opa, minha vez, até daqui a pouco amiga. (um tempo, assim, não tão grande depois…)
Você não vai acreditar. Estou passada. Vim para pedir orientação ao Xamã e ele foi rápido como quem rouba. Depois de me escutar relatar o que estava acontecendo ele me perguntou quantas horas eu pratico ao piano. Eu respondi que duas horas por dia. Sabe o que ele me disse? Que se eu dobrar para quatro horas os espíritos irão embora.
Minha amiga está soturna, posto que falante. Vive a crise dos oito anos – oito anos de casada. Parece que seu rancor, antes de conjugal, é numérico.
Deve ter lido em alguma revista especializada que existe “a crise dos oito anos” e, apercebendo-se de que está nessa faixa de tempo, convoca os agentes recônditos do cansaço e do tédio, o exército roaz produzido pelos infindáveis minutos, horas e dias de todos esses anos.
“Oito anos”, ela pondera, como se os instantes tivessem de repente se transformado num bloco que a puxa para trás, um condensado handicap de história e de vida orientado em sentido negativo. Um tempo dado unicamente a outrem, a alguma coisa que não a ela. Tempo que terá sido “ausência” pela exclusão das alternativas e das vias paralelas – as muitas vias que espreitam tentadoramente a trilha das nossas opções.
Realmente, por que se fixar nos oito anos? Conheço pessoas que referem como insuperável a crise dos cinco. Outros quase não passam pela barreira dos dois. E se a gente pesquisa, encontra quem mal tenha resistido ao limite dos seis meses e até ao do dia seguinte – aquele momento em que o sujeito olha para um lado e para outro e, epa!, depara-se nesse outro com alguém que, a partir dali, vai se constituir numa referência fixa, espécie de fronteira irremovível de sua pessoa. E como isso dá medo.
Minha amiga vem fazendo análise. O objetivo, segundo ela, é “questionar profundamente os meus sentimentos e as minhas relações”. Devo dizer que está se frustrando um pouco, pois esperava através do processo analítico ganhar forças para revolucionar a vida pelo conhecimento de si mesma. Esperava talvez deter, na casa dos seis anos, o processo que redundaria nessa crise dos oito. Ela me diz, no entanto, que tudo está sendo em vão. A “ideia revolucionária” parece mais uma fantasia que, no decorrer das sessões, desvenda-se ante seus olhos. De fato, ninguém se transforma no que não é. Eu podia mesmo lhe citar Sartre: “On change souvent pour rester soi-même.”
Agora faz essa catarse extra-analítica diante de mim, terapeuta sem divã. Além de falante, sombria. Fala dos oito anos como se ele fosse um recorde, parecendo não compreender que esse tempo é complicado porque condensa o bom e o ruim. Pesa porque é âncora. Generosamente, deixo minha amiga falar. É o melhor que se pode fazer por alguém nessas ocasiões.
Ela fala, fala, e me ocorre, maldosamente, que esse é um tipo de sofrimento que comove e também diverte. Deve-se ficar atento, respeitar a dor da amiga – mas não se impressionar demais com o seu tom indignado, com o ar meio apoplético e cheio de ansiedade, com a postura o seu tanto esforçada e ridícula. Essa é uma dor minúscula, mais aborrecida do que pungente.
Conversando com ela, ou melhor, ouvindo-a falar, a gente sabe que pode encontrá-la no dia seguinte saindo do cartório, aonde terá ido providenciar os papéis da separação – mas essa possibilidade é remota. O mais provável será surpreendê-la saindo do restaurante com o marido, depois de brindarem a mais um ano (o difícil oitavo, ufa!) de casamento. Tudo pode acontecer.
Vários dos pedestres que percorrem aquela avenida, em meio ao tráfego acentuado e aos estabelecimentos comerciais, mal imaginam que, logo ali, há um espaço independente de toda essa atmosfera. Muito menos quem faz uso de automóveis; o vidro fechado isola o motorista, algo que ele próprio almeja, mas que obnubila sua relação com o mundo.
Incrustrada nesse meio e em contraste com ele, tomando a forma de um enclave, encontra-se uma praça.
Como uma ilha ou uma república autônoma, o funcionamento da praça é diferente do vivido no seu entorno. Neste, sobressai a azáfama, nenhum segundo pode ser perdido.
Naquele, tranquilidade, remanso, reinando um sobretempo, no qual, as horas do relógio se prolongam desmedidamente ou nem sequer existem.
A correria diária mingua as possibilidades de se dedicar um bom período a passear no recinto. Os horários, os compromissos, o ponto a bater, nada permite isso. Todavia, regular ou esporadicamente, diversas pessoas o visitam. Sujeitos que se fazem presentes no espaço e que fazem ele.
Entre as personagens que compõem a paisagem diária do local – os que se exercitam no arco externo, mais sob efeito das buzinas do que dos cantos dos pássaros; os casais de jovens, a contrariar a opinião corrente de que não se namora mais em praça; os que recorrem à privacidade dos locais públicos, a fim de fugir da vigilância preconceituosa da sociedade e da casa –, a que mais me chama atenção é a do trabalhador que procura aquele lugar para aliviar o jugo do tempo que recai sobre seus ombros.
Necessitando cortar caminho, alguns só atravessam o rossio. Porém, no seu interior, o tempo corre lento; assim, a marcha é desacelerada e a morosidade assume a direção. Por vezes, entre um trajeto e outro, até se deixam perder pelos caminhos e arvoredos, nem que seja por um átimo, até que a lembrança dos encargos ascenda subitamente.
No horário do almoço ou após o expediente, aproveitam o curto período que possuem, sentam-se nos bancos da praça, permanecendo sem qualquer motivo ou ambição. Se há algum direito ao ócio na vida cotidiana daquelas pessoas, ele é exercido ali, durante o curto instante que possui ares de eternidade. Ficam apenas para estar, porque estando, são.
O transcurso célere dos dias se encontra interditado naquela área. No trabalho e em casa, os ponteiros do relógio comandam a rotina. Naquela praça, não. Não existe hora, minuto ou segundo, somente um tempo suspenso, incapaz de ser medido. Desse modo, os “escravos martirizados do tempo” sentem afrouxar suas grilhetas por um instante, talvez, até sonhem em não mais as ter.
Ao contrário do que afirmou o grande escritor Marques Rebelo, os pobres não ignoram as árvores e o “consolo que há no seu aconchego e na sua sombra.” Sabem estimar elas muito bem. Se não vão a sítios e a hotéis, onde os ricos passam os finais de semana, valem-se das praças nos breves ínterins disponíveis.
As plantas, os pássaros, o silêncio, a sensação de quietude presente no local e internalizada em quem está nele, tudo parece contrastar com o ambiente externo e com a própria vida. Possivelmente, a atração por esse tipo de lugar se origine justamente disso, residindo na possibilidade de se embriagar por um momento e “não sentir o fardo terrível do tempo.”
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