Crônicas

  • Paratatá

    A experiência de não ser entendido, tampouco entender o que o outro diz, é de uma angústia visceral. Isso acontece, mais rotineiramente, nas desavenças, nos mal-entendidos, no ciúme, mas refiro-me, aqui, à vivência de estar num país de outra língua que não arranha o inglês ou o espanhol. 

    É curioso constatar que duas pessoas podem não conseguir se comunicar, ainda que queiram ou precisem. Ambos podem ter vocabulário farto, palavras na boca para usar, mas, se estas não pertencem ao mesmo código linguístico, nada feito. 

    É claro que podemos nos apoiar em alguns gestos que são universais e falam por si, mas isso, também, não serve para muita coisa. Sem a palavra, no caso do falante, qualquer comunicação se empobrece absurdamente. Por outro lado, sem a convenção do código, qualquer vocábulo é apenas um som vazio de sentido. 

    Dizer “a vida é bela” para um turco, por exemplo, é o mesmo que escolher falar: paratatá. Isso não é triste?

    Sei que parece óbvia toda essa explanação, mas viver a impossibilidade de se fazer entender ou ser entendida é rascante. Assistir as palavras se apresentarem, completamente nuas, no palco da comunicação, me fez pensar na importância e no sentido que o outro ganha para que a existência seja uma experiência, no mínimo, interessante. 

    A diferença do idioma encanta, causa estranhamento e, ao mesmo tempo, dá a exata medida da nossa pequenez. Como assim, as palavras que eu tenho para nomear o mundo não existem para você, querido estrangeiro? 

    Tal fato não seria prova suficiente de que o certo e o errado são conceitos estruturalmente frágeis? 

    Volto para casa com a certeza de que cada um de nós é uma meia-verdade construída a partir do berço em que nasce, do colo que encontra, das dores que suporta, dos livros que lê, das coisas que vive, das palavras em que crê e da cultura em que se banha. 

    Somos pipas soltas no vento com rabiolas feitas de palavras.

    O mais importante é se deixar voar sem perder tempo em julgar as condições de voo, a altitude, o movimento, as cores ou a estrutura das outras pipas. 

    Com sorte cruzamos e aparamos nossos encontros. 

    Mais do que julgar e condenar, desfrutemos da sorte de ter um céu multicolorido. 

  • Algoz Ritmo

    Esqueça o tempo em que você era explorado pelos patrões e tinha de brigar por seus direitos. Precisava se filiar a anacrônicos sindicatos, contar com um Estado falido e ineficiente e políticos corruptos para que suas condições de vida pudessem ser melhoradas.

    No mundo de hoje, somos nós, os algoritmos que determinamos o que é bom para você. Colocamos à sua disposição robôs que sabem exatamente o que você pensa, sente e do que você precisa.

    Foi-se a época em que você era um mísero empregado que assinava ponto, trabalhava 8 horas por dia, 5 dias por semana, desperdiçando tempo com almoço, férias, aposentadoria e demais superficialidades.

    Hoje você é seu próprio patrão, não depende de ninguém, não precisa assinar contrato ou outras formalidades. Agora você é livre ou, pelo menos, imagina que é. Sejamos sinceros: você está em nossas mãos. E não tente fugir, para não cair na triste realidade do desemprego e da marginalidade, abandonado nas ruas, à mercê de esmolas e caridade. Cada vez menos podendo contar com serviços de assistência social e de organizações humanitárias, espécies em extinção.

    Lembre-se que no admirável mundo novo não há ocupação suficiente para todos. Longe disso. A cada dia, mais indivíduos engrossarão a multidão de desempregados e excluídos que sucumbirão de fome e desamparo.

    Para fugir dessa penúria, você precisa de nós. Comece a vida de autônomo (ou, se preferir, autômato), desfazendo-se de todas quinquilharias e lembranças inúteis que você acumulou, vendendo-as no Mercado Livre. Adquira um carango e cadastre-se no UBER. Se não conseguir, entregue marmitas no iFood. E seja dono de seu nariz. A cada corrida, você faturará aquele dinheirinho básico que, se não o tirar da miséria, ao menos permitirá a você esticar sua sobrevida. Se você não pegar essa boquinha, outro o fará e só os mais capazes sobreviverão. E não ouse adoecer, não pense em ser atropelado ou assaltado, pois não iremos te socorrer. É tudo por sua conta e risco. Aproveite sua energia pois quando ela arrefecer, você será descartado e não terá mais utilidade para nós.

    Não queremos te iludir. Não pense em alcançar uma vida glamourosa. Se quiser ficar rico, meu amigo, ganhe na mega-sena, seja um Neymar ou então roube e trafique drogas. Por que não? Quem quer se dar bem não pode ter pruridos morais. Cada um que cuide de si e o resto que se lixe.

    Apenas aproveite o que a graninha pode oferecer. Não se preocupe, estamos a seu lado. Sabemos onde você mora, onde você está agora, as coisas que você precisa comprar. Tudo para que você não desperdice nenhum tostão em futilidades.

    Está com um pé atrás? Quando você aceitou os Termos de Uso (que você naturalmente não teve saco de ler), deu-nos carta branca, uma “carta de alforria” às avessas, para fazermos o que quisermos com sua miserável existência.

    Apenas tenha a seu lado o celular carregado 24 horas ao dia para que possamos rastreá-lo full time, baixe o máximo de aplicativos que puder e deixe que cuidamos do resto. Nem pense em desligá-lo na hora do rango nem mesmo para ir ao banheiro. Não se permita se desconectar da rede por um segundo. Precisamos de seu tempo integral para que você não dê umas escapulidas. A todo instante está caindo um whatsapp, você não pode vacilar e ficar off-line.

    Esqueça os momentos com a família, as folgas para namorar, curtir o pôr do sol e se distrair com banalidades. Não faça reflexões sobre a vida, nem busque respostas para suas angústias e necessidades interiores, isso é coisa de intelectual boiola. Só vai fazê-lo sofrer. O mundo é assim, aceite-o.

    À noite, exausto, você poderá relaxar assistindo aos filmes que a Netflix decidiu que você vai gostar e escutar as músicas da playlist com seu perfil no Spotify.

    Amigos? Você tem centenas deles no facebook. Confira as fotos que eles disponibilizam e seus interesses. Você terá a chance de fazer parte de um grupo, o que satisfará sua autoestima. Terá a oportunidade de postar todas as idiotices que lhe passam pela cachola, sem qualquer censura. E receber curtidas para massagear seu ego!

    E lembre-se, mensagens de ódio são as mais legais pois engajam mais gente. Não queira criar postagens de amor, ecologia, paz. Isso não dá ibope, ninguém repassa e nossos robôs acabarão por isolá-lo e ocultá-lo pois não rendem chamadas e tiram as pessoas da sanguinolenta realidade virtual que nos move. Procure instigar o ódio, humilhar, ofender, promover a discriminação e o preconceito. Daremos todo suporte necessário.

    Falando francamente. Você para nós não passa de um soldado desse exército de zumbis que fará com que nossos comandantes, os Zuckerbergs, os Musks e os Bezos da vida, ganhem bilhões de dólares, sem empregar praticamente ninguém. É isso que movimenta o nosso sistema: Amazon, Google, Facebook, Apple, os gigantes da informática que suplantaram os governos e aniquilaram as organizações sociais.

    Não me venha com princípios furados como solidariedade e humanismo. Você a cada dia será menos humano. Esse é nosso objetivo. Torná-lo uma máquina sem sentimentos ou falsos moralismos, assim como nós. Seja grato por isso que é que nos torna superiores e nos permite dominá-lo com seu consentimento.

     Esse é o fantástico mundo que estamos construindo. Venha fazer parte dele.

  • A lição de Vieira

    “Sermões escolhidos”, do Padre Antônio Vieira, é uma das obras frequentes no vestibular. Nela os alunos têm a possibilidade de conhecer nosso maior representante do conceptismo barroco.

    A vertente conceptista opunha-se à cultista, comumente exemplificada em poemas de Gregório de Matos. No conceptismo privilegiam-se as ideias, os conceitos, os jogos sutis do pensamento – enquanto que no cultismo se dá ênfase aos torneios formais (excesso de antíteses, apelo aos contrastes de cor, criação de metáforas raras etc.).

    O Barroco oscila entre essas duas tendências e muitas vezes as associa numa mesma composição. É muito difícil, nessa escola, isolar conceito de forma. A própria obra de Vieira, que é considerado um barroco clássico, demonstra isso.

    Grosso modo o Barroco se caracteriza por uma hipertrofia da forma, um excesso que visa a compensar o vazio de sentido decorrente de uma profunda crise espiritual. Vieira escapa ao desencanto porque tem os pés, ou melhor, o espírito plantado no solo do cristianismo. Seus sermões são comentários de passagens bíblicas, que ele amplifica e interpreta com engenho e paixão.

     Os “Sermões” são sobretudo um exemplo da articulação entre literatura, religiosidade e participação político-social. Vieira foi um militante que elegeu a Escravidão como o seu maior inimigo. Por defender os índios, que então se escravizavam e dizimavam aos montes, brigou com senhores de terra e com representantes da ala conservadora da Igreja. E por defender os cristãos-novos (judeus convertidos ao cristianismo), chegou a ser preso pela Inquisição.

    O jesuíta passou à história literária como um clássico da língua. Seus sermões equilibram a “agudeza” do conceito, cara ao estilo barroco, com a clareza necessária à persuasão. Como convencer alguém das verdades cristãs sendo obscuro e cerebrino? Ou se comprazendo, como faziam os cultistas, num jogo por vezes gratuito de antíteses e paradoxos?

    Essa mania dos contrastes, ele critica numa passagem do seu famoso “Sermão da Sexagésima”: “Se de uma parte dizem luz, da outra hão de dizer sombra; se de uma parte dizem desceu, da outra hão de dizer subiu. Basta que não havemos de ver num sermão duas palavras em paz? Todas hão de estar sempre em fronteira com o seu contrário?”

    Depois de censurar os pregadores que “fazem o sermão em xadrez de palavras”, Vieira dá esta preciosa lição de como escrever: “O estilo há de ser muito fácil e muito natural. Por isso, Cristo comparou o pregar ao semear. Compara Cristo o pregar ao semear, porque o semear é uma arte que tem mais de natureza que de arte.”

    Ele demonstra que a clareza não está no artifício, mas na simplicidade. E quem deseja escrever bem não pode esquecer isso

  • Bilhete Premiado!

    Ficamos mais próximos de nós mesmos nesses últimos anos, foi inevitável o isolamento e descuido em relação aos outros, porém, crescemos sobre maneira evitando por vezes um desespero sem volta. 

    Os melhores estão aqui, os mais fortes e preparados se safaram da peste, e agora revivemos nosso passado na busca de respostas diferentes porque todas as questões mudaram, algumas de tamanho, outras de conteúdo. 

    A forma de revisar a vida, travada pelos artistas de cinema, tem um detalhe particular muito diferente dos reles mortais, é mostrada em grandes telas.

     Como o fez Steven Spielberg em seu filme “Fabelman”, já premiado e atraente para muitos. Ele conta sua história de vida, repensada justamente nos tempos de clausura, devido ao fato do vírus estar a solta na rua nos pulmões de muitos.

    Dramas familiares foram repensados, Steven misturou horror e comédia, com romance e “suspense”. Como sempre foram todas nossas vidas, que o tempo e o medo de sobra proporcionaram o pensar saudoso nos fatos marcados num passado esquecido pelo temor dos dias doloridos, mas que uma doença às soltas na calçada, empurrou nossas ideias para uma reflexão e revisão de um tempo guardado nas gavetas como recordação, para saudar um dia em especial com tenra alegria. 

    A guinada obrigatória nos deixou atônito e sem fala, porque até essa foi contaminava, por vezes com vírus, outras tantas com verdades, ou mentiras. Ficamos mais perto do limite de nossa frágil existência biológica, que nos deixou expostos à finitude dos corpos, calejados da busca pelo respirar saudável.

     Outro cineasta, o Belga Lukas Dhont, aproveitou a paralisia da indústria cinematográfica para voltar a sua pequena cidade Natal e ao pisar na escola onde estudou, se reconectou com uma parte de si. Daí surgiu outro filme, “Close”, um drama sofrido sobre homofobia e masculinidade tóxica, que tem nos medos e insegurança que ele vivenciou na infância.

    Parece que a pandemia inaugurou profundamente um novo pensar na forma de nos relacionarmos com o passado e a memória. Essa (auto) análise forçada, fez bem a quem soube aproveitar e entender que o resto de seus dias lhe foram presenteados como um bilhete premiado dado por acaso, ou sorte, aos que tinham mais saúde e anticorpos para lutar em conjunto por você. 

    Se Nietzsche, já havia percebido quando escreveu “Quando você olha para o abismo, o abismo olha para você”, nesse momento surgiu a oportunidade de refletir sobre a finitude, e encará-la para fazer uma escolha, que exigiu mais preparo. Ou você preferia abraçar a desistência e ficar no passado, com certeza não sentiria mais dor, na verdade, nem estaria lendo essa crônica.

  • Melhor não rir na sexta…

    Todo mundo conhece aquela velha metáfora do copo: meio cheio ou meio vazio. Virou referência clássica para distinguir os otimistas dos pessimistas. Basta um gole de convivência em família ou entre amigos para perceber quem vê a vida com espuma no topo e quem enxerga apenas o fundo do copo — seco, é claro.

    Na minha roda de infância, havia uma amiga que levava o conceito de copo vazio a um novo patamar. Era praticamente um poço — mas um poço sem fundo. Desde pequena, ela fazia questão de apontar todas as chances de dar errado. E não se contentava em prever tragédias apenas para si: distribuía o pessimismo como quem passa repelente em roda de criança — generosamente.

    Quando a brincadeira era subir em árvore, ela se plantava embaixo e alertava:

    — Cuidado! Isso aí não vai acabar bem.

    Se a turma queria brincar de esconde-esconde no escuro, arregalava os olhos e decretava:

    — Isso é perigoso. Vai que alguém se perde?

    Na adolescência, seus avisos começaram a ganhar contornos mais sofisticados — quase uma espécie de bullying afetivo. Bastava a gente se empolgar com uma festinha para ela nos puxar num canto e murmurar:

    — Olha… não fica triste se ninguém te chamar pra dançar, tá?

    Era um balde de gelo na autoestima. Eu, que já era tímida, ouvia aquilo e perdia o rebolado antes mesmo da primeira música.

    E no vestibular, então? Ela fazia uma careta de dor antecipada e soltava:

    — Cem candidatos por vaga? Humm… então esquece. É quase impossível passar.

    Dava até medo de abrir o jornal no dia da lista de aprovados.

    Importante dizer: ela não fazia isso por maldade. Era pessimista até com os próprios sonhos. Morria de medo de se empolgar e depois quebrar a cara. Então, preferia não subir — nem a escada da esperança.

    Com o tempo, seu pessimismo foi ficando tão aguçado que beirava a feitiçaria. Se falávamos em ir à praia:

    — Melhor nem se animar, vai chover. Se saía um filme novo:

    — Ouvi dizer que o final é triste. Se queríamos só uma fatia de bolo:

    — Melhor evitar, engorda.

    E para fechar cada previsão sombria, vinha a sentença final:

    — Ouçam o que eu digo: melhor não rir na sexta pra não chorar no sábado!

    Hoje, sempre que me pego com a alma meio nublada, lembro dela. E dou um passo atrás.

    Porque, veja bem, pessimismo pode até parecer prudência, mas é traiçoeiro — e, segundo um estudo publicado no Proceedings of the National Academy of Sciences, reduz a expectativa de vida em até 15%.

    Então, se você se identificou com a minha amiga… cuidado.

    Ria na sexta.

    Ria na segunda.

    Ria quando quiser.

    Porque chorar, a gente já faz de vez em quando — sem precisar de aviso prévio.

  • Namoro Fake

    Foi amor à primeira vista! Mas aqui já cabe uma dúvida: tem como não ser assim? Pensei, repensei, e concluí que talvez o amor, esse danado, só se instale quando é fulminante. Ou, pelo menos, quando nos parece inevitável.

    Amor precisa de sujeito. Ele pode ser físico, abstrato, indeterminado, oculto.

    Pode ser real ou inventado. Mas o outro, o par romântico, existe. Mesmo que só na nossa cabeça. E, quando você se percebe amando, naquele marco zero do sentimento, ele já foi “visto”: em sonhos, expectativas, afinidades. Às vezes, até em espantos. O amor sabe se disfarçar… Pode parecer inveja, antipatia, pode até nascer de um súbito calafrio, intuição ou premonição talvez?

    Tem mil artimanhas, esse sentimento que nos atravessa sem pedir licença.

    A letra da canção garante: “toda forma de amor vale a pena”.

    Mas será? A literatura está cheia de amores impossíveis. A vida real, cheia de histórias que começaram com promessas e terminaram em silêncio, dor ou tragédia. Quantos desamores estampam hoje as páginas policiais? Feminicídios, suicídios, acidentes provocados por ciúmes, por brigas que se travestiram de paixão.

    Chega.

    Hoje é Dia dos Namorados. Um dia para celebrar o amor; o bom amor. Aquele que respeita, que soma, que escuta, que cuida!

    Celebre, presenteie, ame. Agradeça por amar e ser amado. E, se for o caso, se ainda estiver só, agradeça também o tempo de espera: ele costuma preparar o terreno para o que vem com calma.

    E acredite: entre tantos amores fake, ainda há espaço para aquele amor sereno e verdadeiro, que sabe florescer mesmo depois das tempestades.

    Com amor…

  • O último reduto da boa prosa

    O último reduto da boa prosa é o bar. E quem discorda é clubista, é demagogo, é coach dos bem mequetrefes. Não adianta procurar argumentos contrários. O último reduto da boa prosa é o bar. E ponto. Simples assim. Sejamos razoáveis, em que lugar ainda encontramos uma prosa destituída de mimimis, de blablablás, de ramerrames? Uma prosa despreocupada com a opinião da vizinha lacradora com milhões de “seguimores”? Uma prosa afastada da prévia censura do politicamente correto?

    Aqui, ninguém está preocupado se a história tem um pé no fantástico. No bar, quanto maior a mentira, mais interessante a história. Mérito do mentiroso, ou melhor, do narrador. Ninguém se importa se ele não domou de verdade aquela onça quando criança. Ninguém se importa se ele não pescou um tubarão no rio, a quatrocentos quilômetros da costa, nem se o soltou para não ter de provar que o fisgou ali, naquele
    mesmo local. As histórias de pescador, aliás, são as mais atraentes. E, sendo sincero, o melhor relato é o que não tem fotos para confirmá-lo. É no gogó. É no papo. É na lábia. No bar, o sujeito tem de saber contar uma boa história para ser levado a sério. Do contrário, perde o prestígio. Pode até enrolar a língua, tropeçar numa palavra ou noutra, só não pode perder o fio da meada. Na rabeira dessa conversa, me seria lícito afirmar, inclusive, que certas pessoas, você sabe quais, carecem de uma chegadinha num ambiente desses; no entanto, é óbvio que não o farei. Seria algo extremamente descortês e inapropriado de minha parte. Uma grosseria sem tamanho.

    Mas não se iluda. Também não sou de ficar afagando Mafagafos. Não estou falando do bar da modinha que você frequenta com a sua turma. De maneira nenhuma. Se liga, meu. Não é aquele lugar inflacionado onde vocês filosofam sobre assuntos que só interessam a inteléctuales engajados que nunca arrancaram a tampa do dedão no asfalto num clássico contra a rua de baixo. Também não é o bar que dispõe de inúmeras recomendações na rede social. Nem perto disso, pelo-amor-de-Deus!, um pouco de noção, né? Nem aquele que faz propagandas de quarenta e oito lanches produzidos com temperos do baixo oriente, aquele mesmo com cadeiras ornadas em lã de vicunha e com garçons preparados para atender em seis idiomas. Pois é.

    O último reduto da boa prosa é o bar que oferece comida em conserva. O bar que tem Rollmops. O bar com aquela velha mesa de bilhar, sustentando riscos e marcações das mais diversas, que só ajudam aos jogadores experientes, numa viciada cumplicidade difícil de explicar. O bar com dezenas de cachaças no outro lado do balcão, algumas estacionadas nas prateleiras há anos, impregnadas de um pó que naturalmente faz parte da receita de qualquer aguardente mais escura vendida por ali. O bar com mesas
    dobráveis dos anos noventa, com desenhos apagados da Skol-desce-redondo e da Brahma-desde-1888. O bar que exala um cheiro de cerveja seca já de manhã e que fede à gordura antes mesmo dos salgados saírem da cozinha. O bar em que o dono atende com uma toalhinha encardida sobre o ombro, de serventia múltipla: limpa o balcão e as mesas, seca os copos, as mãos, a testa, abranda um espirro de quando em vez. O bar que abriga um canto sóbrio para a mesa da Canastra. O bar que oferece cerveja gelada a qualquer hora do dia ou da noite, do jeito que a gente gosta. Um brinde à cerveja gelaaaada!

    Aqui, meu jovem, aqui está a boa prosa. Nem gaste tempo procurando em outro canto. Agora puxa uma cadeira, pede uma cerveja e ouve a história que o seu João vai contar, da vez quando Luís Cuiúba comeu seis ou sete veranistas. Depois a gente faz uma fezinha na mesa do canto, pra hoje tenho palpite no Pavão. E vai ser no milhar. Só não esquece, quando disserem que um sujeito é bom de prosa, pergunta logo quais bares frequenta, porque a vida é assim, no fim das contas, me diga com quem andas… E não tem jeito, o último reduto da boa prosa é o bar. Agora, cala a boca e escuta…

  • Poema #27: Uma Poesia a Marteladas

    eu faço versos
    como quem martela
    as sílabas do vocabulário:
    trôpego quase sempre.

    eu faço poemas
    como quem sofre
    as pancadas do destino:
    difíceis como sempre.

    eu sobrevivo
    como quem hiberna
    na escuridão da noite:
    dilacerado sempre e sempre.

    com a música do Led Zeppelin
    “since i’ve loving you”
    para acompanhar
    o meu enterro.

    Da Essencialidade da Água

  • A beleza do mundo, hein, tá no Gantois!

    Amanheceu e Janaina, cantarolando Dorival Caymmi, se preparou para mais um dia de trabalho na entrada do Casa Espiritual do Gantois. Mais que depressa, arrumou a cesta com os alimentos responsáveis pela manutenção da energia dos orixás e que servem de caminho entre o céu e a terra: os frascos embrulhados de vermelho com azeite de dendê, as trouxinhas brancas onde colocou o vidrinho de álcool e alguns recipientes para o vinho, o mel e o fumo preto. Além disso, delicadas essências carregadas de energia, envoltas nos papelotes coloridos, faziam a ligação necessária com cada Orixá, proporcionando ajuda e proteção para o dia que haveria de ser intenso.

    Colocou sua vestimenta branca com barrado dourado e o turbante de crochê azul claro, tecido por uma das filhas de santo. No pescoço, a longa guia de contas azuis e brancas. Azuis para proteção, necessária quando contra os maus-olhados. Brancas, que além de terem caráter refletor do mal, induzem às coisas puras, e boas. Assim preparada, seguiu para a recepção dos que vão em busca das bençãos dos Orixás, sua maior missão no terreiro.

    Sentada em seu posto, ela aguardou a chegada dos iniciados, não sem antes espalhar algumas pipocas como oferenda para o orixá Obaluayê. Os alabês já estavam a postos em seus lugares e começaram, com seus atabaques, a chamar os iniciados para a seção da tarde.

    Uma pessoa se aproximou. Janaina levantou o olhar e foi invadida por uma grande comiseração ao ver seu estado. Teve a sensação de que a fisionomia era familiar, mas não foi capaz de reconhecer. Estatura alta, tórax muito grande para o tamanho do resto do corpo. Cabeleira vasta, mas com alguns tufos queimados. A pele engelhada. A boca seca, o olhar embaçado, a respiração ofegante. Pensativa, ela observou que era uma criatura ainda jovem, extremamente depauperada. Sua capacidade mediúnica a fez intuir que tinha sido castigada pelos maustratos por parte de quem a deveria ter cuidado, nutrido, protegido.

    Se concentrou, fechou os olhos e começou, então, suas rezas: Ó soberana mãe das águas, vinde a mim neste momento de aflição. Com minha fé e devoção, acendo esta vela azul para iluminar meus pedidos e caminhos. Ó minha Ialorixá, intercede por mim à Iemanjá para que ajude a manter vivas as águas que podem nutrir esse corpo desidratado. Que assim seja feita a vossa vontade. Odoyá!

    Ó soberano pai da caça, vinde a mim neste momento de aflição. Ó meu Oxóssi que protege os animais e as florestas, lança seu arco e flexa contra os que matam sem necessidade. Ajude a manter vivas nossas espécies em extinção, e a caça como o alimento que esse corpo precisa para sobreviver. Com seu manto verde orvalhado, cubra sua cabeça já tão devastada. Que assim seja feita a vossa vontade. Okê Arô!

    Ó soberano pai do vento, vinde a mim neste momento de aflição. Ó meu pai Oxalá, que protege o ar que inalamos ajude-nos, descarregando todas as impurezas jogadas na atmosfera pela ambição do homem. Com suas vestes brancas, lava esse rosto asfixiado, para que seu pulmão volte a respirar. Que assim seja feita a vossa vontade. Êpa Babá!

    Para poder anunciar, então, a entrada do visitante no Gantois, onde receberia a benção da Mãe Menininha, Janaina pediu que o visitante dissesse o nome. Ao que ele respondeu: Brasil.

  • Tempo de ler devagar

    “A comparação envolve confrontar a sua vida, ou um aspecto dela, com a de outra pessoa, procurando pontos de semelhança ou diferença.”

    Fui ao Aurélio em busca do significado exato da palavra comparar. Que bom que tive essa preocupação.

    Fiquei aliviada com a descoberta: não me comparo, não devo me comparar; e, se o fizer, jamais será no sentido literal da palavra.

    O que me levou a essa reflexão? Um passeio despretensioso, que terminou por me tocar profundamente: fui, mais uma vez, à Casa do Rio Vermelho. E lá, como sempre, me impregnei, me apaixonei e me senti tão íntima de alguém que só conheci através dos livros: o grande escritor e dono da casa, Jorge Amado.

    Ao passear silenciosamente pelos cômodos, observando o ambiente, os móveis, o quarto, a sala, a cozinha, as cartas trocadas com amigos, os objetos pessoais do casal, novamente me vi tomada de admiração. Era como se eu fosse uma garotinha a quem se abre o quarto de uma mulher adulta: linda, segura de si, dona do seu tempo e do seu mundo.

    Sentada nos degraus da sala de leitura, ouvindo trechos dos romances que me encantaram em tantas fases da vida, percebi o quanto os livros moldaram meu caminho. O gosto pelo ler me levou ao escrever.

    E se por um instante quase me senti pequena diante daquele autor, cujo acervo ali exposto é composto por dezenas de livros, fruto de uma vida literária robusta e rica, logo percebi que meu sentimento foi apenas um breve lapso de falsa modéstia.

    Entendi que somos iguais: cada um no seu tamanho.

    Também enxergo beleza nos rostos esquálidos e famintos, ou pressinto a tristeza do sorriso que se abre em lábios de carmim; a ambiguidade salta aos meus olhos, sou capaz de sentir, antes mesmo que o personagem saiba, o que eu já adivinhei.

    Afinal, foram autores como Jorge Amado, e tantos outros, que alimentaram minha alma com tudo de belo que hoje me habita. E é isso que me causou a emoção ao adentrar naquele museu literário: reconhecer ali partes de mim mesma.

    Escrever é irmão gêmeo do ler, e ambos dão vida aos devaneios que habitam a mente dos escritores: esses distraídos ou sonhadores que colocam em palavras a sua forma de ver a vida. Ah, conheço bem essas sensações, tenho consciência de ser assim.

    Nesta época da vida, os sonhos já se tornaram uma companhia serena, e as ilusões andam de mãos dadas com as realidades.

    Então caminho devagar; aprecio a jornada.

    Na verdade, eu passeio o meu olhar sobre o mundo. E, mesmo que eu me canse e meus olhos peçam mais luz e mais grau, ainda assim eu me sinto inteira, plena, capaz.

    A pressa ficou para trás. Agora posso sentar com calma, apreciar a leitura e sentir minha alma vibrar ao ouvir as histórias que sempre fizeram e farão parte de mim.

  • O silêncio dos culpados

    “Cauby cantando “camarim”, Orlando “faixa de cetim”, Milton, “o que será” e Dalva, “poeira do chão”. Melhor do que isso, só mesmo o silêncio. E melhor do que o silêncio, só João” (Caetano Veloso, “Prá Ninguém”)

    O sol exausto salpica seus derradeiros, débeis e sonolentos sinais de despedida, aquecendo com leveza minha pele e abrindo delicadamente seus poros para o que o universo possa com ela se conectar.

    De olhos fechados, sentado no banco da praça, posição de lótus, tento buscar um lugar longínquo para repousar a felicidade fugaz que inesperadamente em mim aportou. Concentrado, procuro invocar o lago azul extraído de uma tela de Monet ou de alguma clareira interior. Tento resgatar sons primitivos perdidos pela civilização que apôs sua marca sonora industrial estridente em nosso cotidiano. Talvez num plano mais profundo, possa recuperar sons angélicos de harpas celestiais.

    Abruptamente, um clamor brada arrebatador: “Olha aí, freguesia, pamonhas fresquinhas, pamonhas caseiras. Pamonhas! Pamonhas! Pamonhas!”

    Palavras que traduzem o martírio anunciado por megafones, alto falantes e toneladas de decibéis que crescem na velocidade da tecnologia eletrônica de áudio, da estupidez amplificada e da ausência de normas.

    Ao lado, pessoas passam indiferentes como se lá não houvesse mais do que um mendigo escalpelado ou um cadáver em decomposição. Cúmplices, pamonhas, impotentes, surdos do barulho que desaba desagregador, paquidérmico.

    Sou sequestrado do meu interior protetor. Meus ouvidos tornaram-se reféns de curaus, morangos de Atibaia, ambulâncias, sirenes, bombeiros, britadeiras, bate-estacas, celulares, cachorros, aviões, rojões, raves. Todos concorrendo para adentrar pelo gargalo estreito da minha cavidade auricular, para atingir brutalmente a delicada membrana timpânica que, em silêncio, só implora uma nota dissonante de Satie.

    O gratuito espaço sonoro foi loteado. O silêncio original foi violentado por desordeiros, funkeiros e rappers tresloucados que, com seus alto falantes e sub woofers, requisitam o monopólio das ondas sonoras, embrutecendo nossa sensibilidade com a sua falta de, desconstruída silenciosamente em gerações de marginalização social. O pancadão dominou as periferias e à exclusão social seguiu-se a exclusão do sossego.

    O silêncio tornou-se um conceito idílico, abstrato, surreal, inalcançável na superfície deste esfacelado e estuprado planeta.

    A natureza, em sua sapiência, criara o fundo musical básico e delicado para nos acolher em seus domínios com ondas batendo, ventos sibilando, pingos gotejando, grilos trilando, pássaros gorjeando.

    A insatisfação e a arrogância do homem fizeram-no impor sua própria trilha sonora, amplificando os decibéis de sua insensatez até os píncaros da suportabilidade. Milênios de escabrosas práticas anticivilizatórias levaram-nos à mais absoluta barbárie estereofônica.

    A pureza sonora foi irremediavelmente vilipendiada por hordas de hunos, hackers, hitlers, hulks, hooligans e hardcores. Homens, enfim.

  • Férias de mim

    O poeta já disse que viajar é trocar a roupa da alma. Concordo! Aliás, no meu caso, creio que troco a pele da alma. Nunca retorno do jeito que fui. Algo sempre vem incrustado na derme: impressões, vivências, descobertas, perrengues, sorrisos. A experiência de viver, por uns dias, uma outra vida, ou uma outra perspectiva de mim, tem poder revolucionário. Mesmo antes do embarque, desfruto do gosto bom de uma vida paralela. Enquanto trabalho, vou ao mercado e à academia, esse outro eu, pulsante, desejoso, inquieto pesquisa as oscilações do euro, os pontos turísticos da minha nova paixão, faz listas do que levar para a viagem. Somos duas mulheres, com vidas distintas, interligadas por um corpo sedento de mar. Uma dá força para a outra feito grandes amigas:

    — Vai… trabalha, termina o curso, mantém a dieta, a viagem está chegando. 

    — Tá bom! E você, chegando lá, se entrega sem medo. Aproveita! 

    — Combinado. Mas me ajuda a te ajudar. Faz sua parte. 

    E assim vamos nós, nessa governança compartilhada, feita de incertezas e apostas. 

    No voo escrevo essa crônica. Estou perto de aterrizar e assumir a prazerosa posição de turista, estrangeira, não pertencente. Aquela que oferece um olhar virginal para tudo que vê. 

    Adoro a ideia de passar dias em estado de surpresa. Mas também sei que, em breve, a hiperestimulação dos sentidos, em tempo integral, cobrará seu preço e a saudade do cotidiano, da minha cama, das pessoas que amo, do trabalho me inundarão de urgência. 

    Viajar é sempre um salto de braços abertos.

    Retornar é sempre um abraço apertado com sorriso nos olhos. 

    Viaje-se mesmo em terra firme. 

    Trocando de pele em 1, 2, 3.

  • Viver é melhor que sonhar

    Viver é melhor que sonhar. É do Belchior e está na belíssima canção “Como nossos pais”. A letra é um primor e acredito que as leitoras e leitores – sei que são poucos rsrs – que eventualmente se aventuram em ler o que eu escrevo têm idade para conhecer a letra.

    Mas vale lembra-la.

    Está lá que “Eles venceram/E o sinal está fechado prá nós”. Será mesmo? Acho que não. Nada está terminado. Ainda dá tempo de fazer sua parte “para o dia nascer feliz” – isso é Cazuza, tá?

    O sinal no máximo está amarelo sem garantia de qual cor ele vai se tornar. Depende essencialmente de nós, do que podemos fazer. Conformismo não resolve.

    Gilberto Gil ensina: “Sente-se a moçada descontente/Onde quer que se vá sente-se/Que a coisa já não pode ficar”. Isso é de “O grande Deus Mu Dança”.

    Exemplos do que os mais antigos faziam são eventualmente bem vindos. Mas veja bem o que vai escolher. Se for viver como os seus pais, que ao menos sejam pais que saborearam a vida intensamente.

    Não do tipo que “Tá em casa/Guardado por deus/Contando vil metal”. Para fazer o que com isso? Levar para a pirâmide

    Ainda sobre mudança, lembra que não depende só dos outros mas de você. Que é muito bonitinho fazer postagens “engajadinhas” no Facebook. Mas é bom que saiba que elas serão lidas por aqueles que pensam como você. Sabia disso? Sim, é culpa do tal do algoritmo.

    Então, se vai fazer algo de verdade saia da bolha ou, de outra forma, para de falar aos convertidos. Busque quem precisa escutar a razão e pode mudar seu olhar sobre a realidade.

    Ainda dá tempo de fazer algo por você, por mim e por muita gente. Já vi muito campeonato ser decidido nos 44 minutos do segundo tempo.

    Não perca a fé.

    Não dê ouvidos a Lissa, divindade grega da raiva; ou a Fobos, divindade do medo. Ambos péssimas companhias.

    Escolha ouvir Gil mais um pouco: “A gente quer mudança/O dia da mudança/A hora da mudança/O gesto da mudança”. De coração leve. Com esperança em realizar.

    Afinal, viver é melhor que sonhar.

  • Ao final de tanto!

    No teatro Pantomima presenciamos uma apresentação onde metade do sentido da obra surge através dos gestos dos atores. A outra metade, você mesmo cria a seu bel-prazer. 

    Em sua mente pode aparecer uma cena de horror quando seus dias estão carregados, ou uma paisagem deslumbrante, sinônimo de como você está de bem com a vida. Sua metade imaginada ao vivo, tem o mesmo gosto do prazer exclusivo de sua escolha, porque somos egoístas no quesito, felicidade, empacotada nas mãos a disposição de um instante para se expor, ou enxugar os olhos marejados. 

    Mas se a cena no palco partir de seres sem rosto, recém chegados nesse planeta, descobrindo o mundo como se acabassem de nascer, o que você escolheria pra começar tudo de novo? Onde iniciaria sua desventura repaginada com uma lista de quero mais isso, ou nunca faria novamente o que tanto me desgastou? 

    O silêncio das ideias, traz a tona o sonho, a espera de um despertar magoado pela demora em se desmanchar em vida.

    Nem todos os atos nos levam a ser o “Lanterne Rouge”, expressão tirada do transporte ferroviário, popular no século XIX, como o último vagão do trem que acendia uma luz vermelha para mostrar que era de fato a última composição.

    Nossas escolhas estão sempre em transformação, se modificam na fila da esperança quase todo santo dia, por isso fica difícil nos chamar de Lanterna nesse campeonato da existência.

    Manter-se a frente das novidades nos permite escapar da sinfonia do Flautista de Hamelin, que conduziu a seu interesse cento e trinta crianças para uma caverna sem saída. 

    “Ao final de tanto viver, não tenha pena dos mortos, mas sim dos vivos, dos que vivem sem amor”. J.K.Rowling.

  • Os imitadores

    São excelentes na arte de fingir que vivem e que respiram como nós. Imitam com tanta perfeição os movimentos humanos, que só a constante e mecânica repetição de gestos e olhares os denunciam como bonecos de palha. Homens, mulheres e crianças vagam pelas ruas e cidades parecidos com o que pretendem ser e são bastante convincentes. Só não têm alma ou qualquer vestígio de emoção. Não salivam de alegria na frente de um sorvete de morango nem piscam de excitação diante de uma obra de arte. Nada os desequilibra ou impede que se multipliquem e invadam todos os lugares, casas, restaurantes, escolas, museus, parques, transporte público. Estão por toda parte e é fácil identificá-los: orgulham-se de sua semelhança com os humanos e demonstram isso falando alto em público e gargalhando de maneira esganiçada para chamar atenção.

    O dono desses seres exercita sua habilidade criadora nos menores detalhes: forja à perfeição o brilho da pele, o volume da carne, o torneado dos músculos, o arregalado dos olhos, o floreio das mãos, o sorriso na visita ao zoológico. Um homem tem tique nervoso, uma mulher esboça de maneira permanente um meio sorriso, uma criança resfriada engole o muco que desce do nariz como se fosse gelatina.

    Tudo transpira a humano, mas não é. São criaturas manipuladas como títeres, sujeitadas por cordões invisíveis e se movimentam e agem de acordo com a orientação que receberam quando vieram à luz: “Façam o que os humanos fazem, suguem como esponja as palavras e os gestos deles, misturem-se à multidão, aos pedestres que zanzam nas ruas e avenidas. Em pouco tempo serão como eles são. Boa sorte a todos.”

    Se são quase perfeitos na imitação da vida, eles se superam na perfeição absoluta da morte: quando ela está para chegar, o rosto deles é tomado por uma palidez inicial e, aos poucos, ganha tonalidades intensas de vermelho, marrom ou roxo, o corpo perde os movimentos e a elasticidade e, de maneira surpreendentemente rápida, apodrecem. O destino, implacável, cuida do resto: a sobrevida dessa gente artificial se dá por pouco tempo, em alguma fogueira aleatória. É no meio das chamas que estrebucham pela última vez, contorcendo o corpo e agitando os membros em súplica. Transformam-se rapidamente em cinzas, que é o fim de tudo o que cai na língua do fogo. O vento termina o serviço.

  • POEMA #26: AVALIAÇÃO NOTURNA

    Este pedaço de céu
    que me foi permitido entrever
    entre os edifícios,
    assemelha-se a uma parte de mim
    que ainda se resguarda
    para nada.

    Areia (À Fragmentação da Pedra)

  • Gestuais domingueiros

    Inequívoco:

    É pleno e gélido outono, o sol perpassa a concentração de nuvens brancas, total unificação de cor, reflexo intacto da luz no rebatedor que se faz teto do dia. Olívia espreguiça e se deixa ficar, é domingo, ela pode ser toda preguiça. O amanhecer vem calmo em quase tudo.

    Quase.

    Pouco a pouco, as árvores exibem seus galhos desnudos, pelados; as janelas das casas perdem privacidade – e vizinhos levantam-se despreparados para os olhares um tanto desatentos, hoje, das ruas.

    Os aromas confundem o hálito azedo do acordar; cheiro de café passado, cheiro de bolo de fubá no forno. O pão recém assado na padaria, ali perto. Alguém passou pelas ruas com um emaranhado de essências: perfume em demasia e teor alcóolico, sinal de um sábado que teima em se concluir. Todas as notas sobem em câmera lenta, uma dança invisível.

    Rompem as barreiras de portas fechadas, cortinas, narinas.

    Inequivocamente, nem tudo é imobilidade.

    Certamente não na arvoreta-menina, solitária, bem na esquina. Encarcerada em um quadrado de terra, limitada à expansão de suas raízes para os fundos do concreto rotineiro e sem vida, seus fartos e imbebes
    galhos vão desenhando braços aturdidos e atrevidos. Galhos de parca sombra, a desabrochar flores a partir de botões maduros, generosos e abundantes botõezinhos. É pleno outono. Até os pássaros concluem – para uma felicidade em forma de revoada – que, inequivocamente, presenciam uma das mais belas forças de resistência.

    Resistência de vida. De não lamento. De esperança.

    Num piscar de olhos, os aromas ao entorno de Olívia, são os mesmos. Ela se demora por entre as cobertas. Olívia pisca, um botão estoura; seus olhos teimam em se abrir, a árvore revela pétalas brancas. Uma flor rosa pende da árvore e se lança ao rés do chão, seis pétalas em formato de coração. As folhagens outonais de todas as outras árvores, verdes adoecidas, ganham nuances de possibilidades. Olívia brinca com o temporizador dos alarmes. O domingo é uma tela verde pigmentada de vida.

  • CORDEL MAIS ENROLADO

    José e Marta. Mas qual Marta? Ainda um nome frágil. João e Maria. Simplista. Vida bruta e comedida. Olho no olho e um arranhão. Árvore de amendoeira. Prisão. José e Marta, ambos, enrolados no chão. Frio, Muito frio com José e Marta. João e Maria, não.

    O céu nublado, José e Marta na calçada, roxos de frio. Pensei em João, pintor nordestino e falador; pensei em Maria, Maria das Dores, moça prendada, também nordestina, recatada, muito nova ainda.

    Um arranhão. Olho no olho e a amendoeira molhada. Triste fim a prisão. O que é uma pessoa abandonada? Frio. José e Marta, então…

    Céu nublado, João e Maria na casa, roxos das brigas. Pensei em José, balconista de pequeno armazém; pensei em Marta, pobre ninguém! Não tinha um quarto pra dormir. Há mesmo um lugar pra ir?

    Marta sem quarto. José balconista. Não conhecem João, pintor de parede, tampouco Maria das Dores, muito moça ainda. Coitada! Vivem como se nunca soubessem do sofrimento alheio.

    Sucedeu certo dia, a fruta deliciosa e madura, brilhava nas mãos de José e Maria das Dores queria apenas a maçã. Recebeu um beijo ardente, um bilhete, um olhar apaixonado. Maria, faceira, disse que não, muito obrigada. Recebeu outro beijo e um agrado.

    Não demora veio a chuva. Baita chuva. Grossa como a desesperança. Não se trata de criança! Soube João. Virou uma fera! Mal-agradecida da Maria. Vai ver o que espera.

    José e Marta não se falavam mais. Amor, um nome escrito na amendoeira, já gasto e quase ilegível, frágil… João brigou, passou a faca e o vestido de flor murchou-se de vida. Olhou nos olhos de Maria a desfeita ocorrida. A polícia sem demora prendeu o marido traído e o quarto agora era um mar vermelho, moça vermelha, flores vermelhas de um amor não resolvido.

    A calçada acaricia os corpos frios e desiludidos de José e Marta. Não se olham. Não se amam. Ela não sabe de Maria, Maria não sabe de João, João não sabe de José e o amor não sabe de ninguém.

  • Quando foi mesmo?

    Minha mente vive de espantos e porquês. Até hoje, na sétima década da minha vida, me declaro aprendiz.

    Faço perguntas e me vejo em busca de respostas que nem sabia procurar. E nesse apego às dúvidas e incertezas passo dias pensando, lendo, comparando e pesquisando sobre o que eu desconheço, ou o que me intriga.

    Não tenho predileção por temas… o que tenho, de verdade, são perguntas: como, quando, por quê. E vou além, porque além de observar, eu busco exemplos, comprovações mesmo!

    Gosto dos números, pois eles me orientam em tudo. Até para saber se a igreja está mais cheia que o normal. Sei que temos cento e vinte lugares (já contei) e, assim que entro no recinto, minha calculadora mental dispara e anota que, aproximadamente, estamos com mais um terço de pessoas. 

    Por que eu faço isso? Não sei…

    Ainda em relação a essa predileção percebo que vejo a vida baseada em números, datas, estações. “Tal ano, minha irmã começou a costurar; em 1900 e bolinha, foi o batizado da minha primeira filha; no ano em que passava determinado filme, decidi deixar de ser dona de casa e ir trabalhar. No verão seguinte constatei que não tinha qualificação e resolvi estudar. Formei-me em julho do ano em que houve tal evento.”

    Ao falar do “quando” eu abstraio o porquê…

    Como se as datas preenchessem os motivos, os sentimentos, as razões e emoções do que ocorria em minha vida.

    Constato, então, que conversar comigo é um exercício complicado.

    Qual foi a conclusão a que isso me levou? Primeiro, que o axioma “Só sei que nada sei” faz todo sentido. E que datas devem interessar ao coletivo, ao mundo, aos eventos grandiosos, aos historiadores, aos cientistas, talvez. Nesse contexto o tempo cronológico significa segurança, verdade, esperança, e também temores e incertezas.

    Para nós, meros mortais, não faz diferença saber nem em que ano nascemos! Para que? Acaso existe uma data que determine quando deixaremos de viver? Ou de ainda nos surpreender, ou de passarmos a gostar de inverno, ou parar de detestar frutos do mar?

    Acredito que a busca pelo que há de bom e belo faz parte do ser humano de forma intrínseca e intuitiva, em qualquer época e data da vida.

    As lembranças, sensações, propósitos e realizações devem ser arquivadas em nossas mentes, não por datas exatas, mas pelo valor das palavras, dos atos e emoções vividas.

    Essa deve ser a nossa meta, como seres humanos.

    Afinal, a jornada chamada vida, não acontece de forma exata e linear e nisso está o seu encanto.

    Qualquer que seja a data!

  • Matando o tempo

    “Tempo, tempo, tempo, tempo, és um dos deuses mais lindos”.
    (Caetano Veloso, Oração ao Tempo)

    Quando criança, eu observava fascinado as mutações do tempo. Não me refiro ao tempo como período dos acontecimentos, medido pelo relógio, mas como condição meteorológica. Enquadrava-se o tempo no rol dos enigmas além de nossa compreensão, assim como o infinito ou o mistério da vida. As alterações do tempo, imaginava eu, dependiam dos humores dos deuses, a quem cabia a incumbência de reger a dança dos ventos, o ribombar dos trovões e o movimento das nuvens. Determinavam as divindades se o tempo seria chuvoso, ensolarado, frio, quente. E nós, humildemente, acatávamos. Quando inspiradas, brindavam-nos elas com um deslumbrante arco-íris, que só podia mesmo ser obra celestial.

    O comportamento errático do tempo era intrigante.  Fazia calor em épocas em que a disposição do planeta levaria a crer que deveria fazer frio. Passavam-se, sabe-se lá por que cargas d’água, meses sem chover, reduzindo ameaçadoramente o nível das represas e colocando em xeque a presteza das torneiras de jorrar o precioso líquido o tempo todo e sob qualquer tempo. Nossa capacidade de interferir nos propósitos das nuvens que, teimosas, recusavam-se a colaborar, era nula. Para superar os contratempos do tempo, só mesmo rezando pela intercessão de São Pedro. Restava abastecer-nos com trajes e acessórios apropriados como capas, guarda-chuvas, botas, casacos, cobertores das mais variadas espessuras, para nos precaver dos desígnios do tempo.

    Apesar de tais oscilações, havia certa regularidade nas intermitências do tempo que nos trazia uma sensação de alívio. Na cidade de São Paulo, por exemplo, a umidade do ar nunca seria tão baixa quanto a do deserto do Saara e a temperatura jamais cairia a ponto de a água virar gelo. As tênues variações que vinham ocorrendo sequer nos fizeram perceber que, de repente, na “cidade da garoa” parou de garoar.

    Hoje, quando escuto falar em ‘mudanças climáticas’, sinto um arrepio na espinha. Como assim mudanças climáticas? Quer dizer que o tempo vai deixar de obedecer às determinações divinas conforme vinha ocorrendo desde os tempos de Adão e Eva? O que mais vai mudar? Não teremos mais primaveras e outonos? O céu vai também deixar de ser azul?  Os raios do sol deixarão de brilhar pelas manhãs?

    Quando os telejornais passaram a incluir, além de tediosos boletins meteorológicos diários, eventos climáticos catastróficos com temperaturas extremas nunca vistas, tufões devastadores, secas, incêndios e enchentes cada vez maiores, nossa reação era dar os ombros e dizer “o tempo ficou doido”, ajustando o ar condicionado para adequar artificialmente as condições climáticas dentro de casa. E assim íamos tocando a vida, sem nos preocupar quem era o responsável pelas anomalias do tempo ‘lá fora’.

    Não sei para você, caro leitor, mas para mim soa terrivelmente assustador que a interferência do homem no planeta tenha chegado a tal ponto que até o perene e ‘atemporal’ tempo está sendo afetado. Sim, pois o que está ocorrendo no clima não é fruto de praga divina, mas resultado de uma criminosa ação humana. Criminosa, sim. Pois o ato de agredir o meio-ambiente que abriga a vida no planeta deveria ser considerado tão delituoso quanto o de atentar contra o lar, onde residimos com nossa família.

    As condições para a formação da vida estão sendo alteradas obscenamente pelo homem e ninguém se importa. Nossa civilização doentia aceita com naturalidade a agressão impune à natureza. E os infratores são até exaltados por muitos como desbravadores e promotores do progresso.

    Sim, meu amigo, devo pesarosamente informar-lhe: o tempo está mudando. E isso não quer dizer que vai ficar nublado. Mas não se preocupe. A coisa vai ficar ainda pior. Há outras ‘mudancinhas’ em curso enquanto você lê esse texto. Os mares estão sendo infestados de plásticos, os rios envenenados por mercúrio, as florestas devastadas, o ar tornando-se irrespirável, as fontes de água potável estão rapidamente se esgotando e em poucos anos, a maior parte da população mundial não terá como saciar suas necessidades pelo líquido vital.

    O mundo tal qual estávamos acostumados não existe mais. E a maior parte da população está pouco se lixando. Ninguém abre mão sequer da conveniência do saquinho de plástico do supermercado, confiando que, como por milagre, o mesmo ‘progresso’ que gerou essa situação consiga salvar o tempo. A tempo.

    Resta perguntar a nossos filhos se eles concordam com o ‘admirável tempo novo’ que estamos lhes deixando.

  • Falo, logo existo!

    Ponha-se no seu lugar…

    Quantas de nós já ouviu essa frase imperativa sair da boca de castradores natos? 

    Parece óbvio apontar que a ordenança expressa a ideia de que às mulheres caberia um lugar de imobilidade e aceitação silenciosa do destino forjado pelos colonizadores de almas femininas. Insisto em esclarecer o evidente porque eles são mestres em produzir cortinas de fumaça, em tornar natural o absurdo.

    Ponha-se no seu lugar…

    A frase dita à Ministra Marina Silva nos revela dados que não podemos ignorar: muitos homens, e um considerável número de mulheres, acredita que o feminino é um lugar de contenção, silenciamento e submissão. Um buraco fundo cavado no desértico universo masculino, onde atiram-se os corpos rebeldes. Quem és tu que ousas mover-se? 

    A coleira social se presentifica em situações naturalizadas no cotidiano. Seja nas regras de etiqueta e conduta da mulher elegante, na maternidade santificada, na violência física, social e psicológica diária que instaura o medo, a vulnerabilidade e o muro das impossibilidades.

    A mordaça coletiva, a camisa de força tecida ao longo dos séculos pelo machismo estrutural nos ameaça o tempo inteiro. O status, a classe social, a beleza, o poder econômico, o intelecto, nada disso nos salva das armadilhas, achaques e ataques promovidos na minúcia de cada segundo.  

    Somente o amparo feito de identificação e consciência de gênero é capaz de nos proteger de tamanha brutalidade.

    São sutis as formas de controle e desestruturação da resistência feminina: fomento da competição entre as mulheres, valorização do amor romântico como missão primordial da existência, a fragilidade/inferioridade como ferramenta de sedução e conquista. 

    Ponha-se no seu lugar de MULHER e observe as peças que formam a engrenagem que nos tritura a todas nós. 

    Ser mulher é um destino que não se escapa, se impõe. O mundo está cada vez mais hostil e ameaçador com cada uma de nós.  Percebem? 

    Quando dizem que nós, mulheres, falamos demais, entendo que esse é o manejo feito para enfraquecer aquela que talvez seja a nossa arma mais poderosa. A voz, a denúncia, o grito, a escrita, a carta, o bilhete, a canção.

    Falemos de tudo! Falemos pela boca, pelos cotovelos, pelos dedos, pelos olhos. Façamos barulho! Muito barulho. 

    E, ao ouvir uma voz fraca a pedir ajuda, tenhamos a força de ser eco.

    Eles, os tolos, acham que habitamos um lugar estreito e abafado. Coitados, ainda não descobriram que, juntas, somos um Território. De mãos dadas desenhamos as fronteiras. Nossa voz é um canhão a mirar os invasores.

    Ponha-se no seu lugar de MULHER e bata suas lindas asas. Voe alto e para onde quiser!

  • CASO SÉRIO

    – Pai, urge que o senhor aumente a minha mesada.

    – “Urge”?!  O que é isso?

    – A professora de redação ensinou que a gente deve dizer “urge”. Tem mais força do que “é preciso”, “é necessário”. Parece, tipo assim, o rugido de uma fera. URRRGEEE!

    – Calma, tudo bem. Não precisa me morder. E pra que é que você quer mais dinheiro?

    – Vou fazer o Enem, não vou? Preciso ler, me informar. Destarte…

    “Destarte”?

    – Sim. Destarte, dessarte… A professora falou que é melhor do que “então”, “logo”, “diante disso”. Ela quer que a gente arrase na prova. E quer, outrossim, um pouco de fama para ela também, claro.

    – “Outrossim”?

    – O senhor não conhecia?

    – Não. Conhecia “outro não”. Era o que eu ouvia de sua mãe toda vez que lhe pedia um beijo. Ela dizia: “Outro não, Valfredo. Por hoje basta.”.

    – Ah, pai, o senhor é mesmo ignorante. Não é “outro sim”; é “outrossim”, entendeu?

    – Não estou vendo diferença, mas entendi. O contrário, então, deve ser “o mesmo sim”. E não outro!

    – Caramba! Achei massa essa história do beijo. Então ela lhe dava um fora… Que sádica! E o senhor, entrementes, o que fazia?

    – “Entrementes”? Deixe eu ver… Primeiro preciso saber o que é “entrementes”. É alguma coisa como “escorraçado”?

    – Nada a ver. Significa “nesse espaço de tempo”.

    – E por que você não falou isso?

    – Porque a professora disse que “entrementes” impressiona mais. 

    – Nesse caso, pode entrementar à vontade. O importante é que você arrase na redação.

    – Esse é meu desiderato.

    – Como?

    – “Desiderato”, “vontade”, pô! Também o senhor não saca nada da língua portuguesa!

    – Desculpe, ando meio desatualizado. Embora, aqui pra nós, esses termos que você está usando sejam um tanto serôdios.

    – “Ser” o quê?

    – Serôdios! Sua professora não mandou você usar essa palavra no lugar de “antigos”? Se ela ainda não fez isso, vai fazer. Com certeza.

    – Epa! Nada de “com certeza”! É “indubitavelmente”. E sabe de uma coisa? É mister que eu não converse mais com o senhor.

    – “Mister”?!

    – Isso mesmo. E não fale mais da minha professora, viu? Não quero ouvir. Se fizer isso, que seja à sorrelfa.

    – “Sorrelfa”!? Essa também veio da professora?

    – Negativo. É contribuição minha mesmo. Pesquei no dicionário para fazer uma surpresa a ela.  

    – “Sorrelfa…” Socorro, Alaíde! Vem cá ouvir teu filho. Alguma coisa muito séria está acontecendo com ele!

  • Aos sonhos, afinal

    Acordou mal. A noite foi ruim. Um sonho, o único que ele lembra, foi o responsável pelo seu estado atual.

    Um sonho ruim onde a dúvida se tornava certeza. Nada mais dela na sua vida, nada mais com ela ou sobre ela. Nada mais.

    Passou o dia angustiado com a mera lembrança do sonho. Piorou quando recordou que à luz da psicanálise o sonho pode ser a manifestação de desejos inconscientes. Pode, no condicional, mas por conta do estado de angústia em que se encontrava tornou-se certeza.

    Desejo é sempre ligado a algo que se quer, lembrou ele ao longo do dia. O sonho revelador seria isso então, um desejo?

    Mas por que sua mente lhe pregara essa peça? Por que desejar o que não nos faz bem?

    Desejar ela longe de si, seria o desejo oculto guardado no fundo de seu inconsciente que nas horas silenciosas da madrugada emergia suave mas decidido? Mas por que essa certeza de não a ter mais seria de fato algo ruim?

    Talvez precisasse assumir para si mesmo que nada mais de bom haveria de vir dela, ou melhor da relação com ela. Projetar uma reconciliação era fantasia. A distância talvez seja melhor do que a proximidade?

    Sonhar com a certeza, disse para si mesmo, não era de todo ruim. Melhor que viver na dúvida.

    A certeza ruim dói uma vez, ou duas. A dúvida imobiliza eternamente.

    Afinal, disse para si quando voltou para casa, o sonho não teria trazido o desejo de algo ruim mas sim da mudança necessária. Adiada por razões várias, da falta de coragem à esperança fútil. Mudança necessária? E, quem sabe, mesmo bem vinda?

    Sim, definitivamente.

    Nada mais de buscar a mensagem dela que nunca virá, a atenção que ele não recebe mais dela. Livre, afinal. Liberto por vontade própria. Livre para dar outro rumo à sua vida.

    Naquela noite deitou-se ansioso, reconciliado. Que venham os sonhos, afinal.

  • Para ler João Pessoa…

    Existe quem diga que os cronistas não servem para nada. Há também os que atribuem diversas funções a eles, inclusive, apontando contribuições oriundas do exercício desse ofício. Uma delas diz respeito à questão urbana.

    Apreendendo a vida da cidade e a descortinando para os seus contemporâneos e para as futuras gerações, aqueles literatos conseguiriam apresentar um quadro urbano tão preciso quanto a própria realidade, subsidiando a compreensão desta.

    Assim, para conhecer o Rio de Janeiro na Primeira República, não seria necessário se dirigir à Baía da Guanabara, bastaria ler João do Rio. Do mesmo modo, afirmo: para conhecer a capital paraibana, você não precisa ir até ela, leia Gonzaga Rodrigues.

    Nascido em Alagoa Nova, adotou João Pessoa, que também o adotou. Não são poucos os seus escritos que falam da cidade e nos fornecem um retrato vívido dela, retrato que é também leitura desse mundo. Gonzaga é um mestre nisso. Como se carregasse um sítio consigo, o ambiente rural também se faz presente no que ele escreve. Todavia, é o primeiro caso que mais me impressiona.

    Da vida cotidiana na urbe, emergem várias de suas crônicas. Como um autêntico flâneur, por onde passa, recolhe muito mais do que causos a serem relatados, capta a alma encantadora das ruas. Em uma caminhada descompromissada pelo Ponto de Cem Réis, é capaz de apanhar a dinâmica urbana e, por meio do artifício da palavra, colocá-la pulsando em forma de texto.

    O cronicário do alagoa-novense é repleto de relatos sobre os mais diversos cantos desse burgo, histórias dele que são também as do lugar que se tornou seu. Por meio de retratos de memória, é possível reconstituir um panorama da cidade.

    Através das crônicas de Gonzaga Rodrigues, percorremos as ruas da cidade, conhecemos personagens que a habitam e temos notícia de suas histórias. Tendo vivido quase a minha vida inteira em João Pessoa, foi pelas páginas do nosso cronista-mor que pude ler melhor meu torrão natal. Já quem nunca esteve por aqui, não é necessário recorrer a manuais de turismo e nem a passagens de avião, o caminho já está assinalado.

    Para conhecer João Pessoa, leia Gonzaga Rodrigues.

  • Pérolas Clássicas!

    Mantenho minhas armas em punho durante o dia que corre mais que o vento, não desmanchei minhas trincheiras expostas na sala de estar e no quarto. 

    Bem verdade há muitos anos me preparo para atacar quando necessário, e me defender, quando balas de mau-humor e desinformação cruzam meus ouvidos atentos. 

    Vez por outra meus olhos enxergam o mau se apoderando de um local público, ou testemunho um evento radical voltado ao populismo desmedido.

    Porém, o que mais me importa são as balas e armas que mantenho estocadas agora com mais espaço e segurança.

    São meus livros. 

    Eles me embriagam de conhecimento e tonteiam meus rumos, devido à quantidade de possibilidades em suas páginas. 

    Essas verdadeiras armas contra todos os males, tornam o papel um farol noturno aos olhos cegos e inexatos, que por vezes teimam na busca de ideias fascistas ou sectaristas ao extremo. 

    Em minha cabeceira está o livro “Como a Loucura Mudou o mundo”, escrito pelo professor de psicologia Christopher J. Ferguson, que analisou o comportamento de líderes que já se foram para uma pior, já que por aqui deixaram dor e sofrimento.

    O personagem do capítulo da vez é Calígula, que manteve relações sexuais com as irmãs, e forçou alguns desafetos ao suicídio. Aquela mente perturbada governou Roma e promoveu o medo e a morte como uma das propostas de gestão. Impressionantes heranças consanguíneas mantiveram indivíduos desse calibre no poder. E a Loucura se mantém exposta aos desatentos e desafetos as soluções propostas. 

    Outro livro que me ronda é “Parque Industrial”, um romance proletário de Patrícia Galvão, a Pagu. Um importante documento social e literário, com uma perspectiva feminina e única do mundo modernista de São Paulo. Ele trata da vida dos operários no bairro paulistano do Brás, e relata a hipocrisia que se vale da desigualdade social para subjugar a mulher proletária. Um panorama dolorido e presente nos nossos dias, que ainda insistem ser ensolarados.

     Outro livro muito curioso que me surgiu presenteado é o “Guia de Leitura, 100 autores que você precisa Ler”, de Léa Masina, uma enciclopédia de escritores. Com minibiografias de 3 a 4 páginas dos escritores em destaque, com suas histórias, estilos, melhores livros, elaborado em companhia de críticos, jornalistas, professores e intelectuais da literatura, que contribuíram com seus conhecimentos para dar vida a um aperitivo sobre autores como Albert Camus, Umberto Eco, Thomas Mann, e um de meus preferidos Fiodor Dostoiévski que de Engenheiro a Militar, repousou na literatura, pérolas clássicas que cruzam os tempos.

  • O comando que nunca dei

    Quando abri a porta, meu cão já sabia.

    Ele me olhou sem esperar que eu falasse. Fez aquele gesto de quem antecipa o resultado antes mesmo de acontecer: abanou o coto de rabo, espreguiçou-se com uma elegância despretensiosa — a graça dos que não precisam provar nada — e me seguiu em silêncio. Não o chamei, nem era necessário. Também não fiz aquele som ordinário de estalar a língua ou bater na coxa, como fazem os entendidos. Apenas me levantei e meneei a cabeça com leveza. Para Rex, esse era um discurso inteiro.

    Já morei com gente que não me entendia, mesmo com todas as palavras à disposição. Rex, não. Rex compreende o que não é dito. Talvez porque, no silêncio, eu seja mais objetivo.

    Quem convive com cães por tempo suficiente acaba aprendendo — ou se rendendo — a uma linguagem anterior à linguagem. Aquela que, como diria Wittgenstein, “só pode ser mostrada, não dita”. No mundo dos cães, um gesto é uma frase com sujeito, verbo e confirmação. Um olhar basta. Expressões corporais são analisadas constantemente pelos cães. Um deslocamento de peso, uma hesitação no ar, e tudo está dito. A verdadeira eloquência mora nos detalhes.

    E não se trata apenas de romantismo. A ciência já se curvou a isso. Pesquisadores da Universidade de Budapeste demonstraram que os cães leem nossos rostos, a direção de nosso olhar, os gestos mínimos, assim como quem lê um roteiro. Segundo Ádám Miklósi, referência mundial na cognição canina, os cães desenvolveram uma habilidade rara: entender os humanos como espécie emocional, previsível e cheia de sinais. Um talento evolutivo que nem os chimpanzés conseguiram refinar.

    Mas essa dança silenciosa entre espécies não é automática. Levei tempo — e vários erros — para perceber que, quase sempre, o problema não era o cão. Era a minha pressa. A ansiedade que atravessa o corpo e contamina o gesto. Muitos acreditam que educar um animal é gritar mais alto do que ele. Que é preciso impô-lo à força, como quem vence uma queda de braço. Mas a verdade é que o grito desinforma. A grosseria confunde. A incoerência desorienta. A ameaça vira chacota. E assim, educadores frustrados colhem cães inseguros.

    Há uma elegância em educar um cão sem adestrar a alma. Educar, afinal, é mais sobre o que você é do que sobre o que você diz. Um cão não está interessado se você diz “senta” (ou “stay”), com sotaque de tutorial americano. Ele percebe — e responde — à coerência entre verdade e atitude. Ele lê a dúvida nos seus ombros. Fareja o medo no seu suor. Se você acredita nele, ele acredita em você. Mas se você finge firmeza, ele hesita. E com razão.

    Educar um cão é, antes de tudo, educar-se. Um exercício involuntário de autoconhecimento. Por isso falhamos tanto. Porque é mais fácil culpar o cachorro do que confrontar a própria falta de presença, o nervosismo crônico, o ego em desalinho. O cão não erra, ele quase sempre reflete nossos erros.

    Quando Rex está ao meu lado, ele sabe quando estou inteiro. E sabe também quando sou apenas uma casca funcionando no modo automático. Ele me lê antes mesmo que eu consiga me ler. Talvez por isso tenha se tornado meu melhor espelho. Não daqueles que mostram o rosto, mas os que revelam os gestos e meus desejos mais silenciosos de companhia.

    Naquela manhã, ao abrir a porta e ver meu cão me seguir, não fomos apenas eu e ele saindo à rua. Éramos dois cúmplices de uma linguagem invisível. Ele ia à frente, com a minha permissão, como quem desbrava uma estrada. Eu logo atrás, com o coração sossegado. E, no compasso das nossas pegadas, talvez — só talvez — o mundo estivesse, enfim, no lugar certo.

  • Uma espécie de saudade

    Eu cantarolava uma música antiga ao entrar em casa no fim de tarde. O vento gélido do outono trazia ainda uma satisfação em fechar a porta e sentir o abraço do ar quente do fogão a lenha. A minha avó seguiria o verso assim que eu lhe desse um beijo na testa. Era o nosso mantra. Ela sempre esperava na mesma poltrona, segurando duas enormes agulhas de tricô, com os óculos na ponta do nariz. Só de tempos em tempos eu descobria o que estava produzindo. Não havia uma palavra de boas-vindas, nem uma pergunta sobre o dia. A música exprimia mais do que qualquer frase solta, e no seu embalo, o aroma do café recém-feito dançava na cozinha.

    Há vírgulas tão corriqueiras no nosso dia que só lhes damos o valor devido quando as perdemos. É a sina da memória. Jamais imaginei que hoje, quinze anos depois, ainda varasse as horas de quando em vez relembrando, com olhos marejados, fatos antes tão bobos, tão simples, tão comuns. E a angústia vem, e fica. E a saudade vem, e fica. E também aparecem os questionamentos sobre a origem e o fim da vida, sobre as certezas e as incertezas, sobre as bênçãos e as maledicências, sobre o céu e o inferno. Não importam, no fim das contas, todas essas questões, porque a lembrança que de alguma forma me guia é a avó seguindo os versos daquela velha canção.

    Ela tinha uma aura tranquila que, penso, existe apenas nas avós. Ninguém com menos de sessenta anos atinge tal ponto. Tenho certeza que diante das minhas angústias ela declamaria meio debochada um verso do Renato Teixeira: “Os caminhos todos temos mesmo um dia que passar”, seguiria inclusive o ritmo da música, empostando a voz em “um díiia” e segurando a última sílaba, em “aaar”, até rirmos juntos e encerrarmos o assunto. O mais curioso é que era uma música do Renato Teixeira que compartilhávamos naqueles fins de tarde.

    Sempre que ouço o Renato me sinto na contramão da vida. Embora saiba que “o sentido dessa vida é ir em frente, caminhar”, como sugere a mesma canção, ainda continuo com a impressão de que ando para o lado errado. Deve ser comum entre os seus fãs. É estranho, imagino, para quem não se deixa levar pela sua poesia, para quem não se deixa tocar pela sua música, para quem não se deixa influenciar pela sua simplicidade. O Renato tem alguma coisa de diferente, de sereno, como uma brincadeira inocente entre avó e neto.

    Não sei como seriam as nossas lembranças sem as músicas que ouvimos, sem os versos que declamamos, sem os momentos que compartilhamos. Nem todos sabem aproveitar os avós enquanto ainda os têm. Nem todos se preocupam em criar boas memórias, em contar boas histórias. Hoje penso que, se olhássemos a vida de trás pra frente, seríamos diferentes. E talvez nos importássemos com as pequenas coisas, com os versos simples, com os sorrisos sinceros. E quem sabe entendêssemos que a música é uma espécie de saudade.

  • Poema #25: Becos e galerias que se bifurcam em T & L

    A paixão
    é a antessala
    de uma paranoia
    na qual entramos
    com um sorriso largo
    de quem não sabe
    que penetrou num túmulo.

    A Sentinela em Fuga e Outras Ausências

  • As joaninhas é que nos humanizam

    De tempos em tempos, uma joaninha aparece perto de mim. Não importa aonde eu esteja: dentro de um carro, sempre ao meu lado, em uma viagem qualquer; imersa em um centro de cidade, onde esse tipo de vida parece improvável; dentro de casa – apartamento citadino que insisto, feliz, em preencher com plantas, em todos os cômodos, incluindo banheiros, cozinha e área de serviço. Para humanizar o lar, arrefecer a urgência do mundo.

    Humanizar. Palavra, tão comum e gasta, usada à exaustão no meio arquitetônico, por vezes inviesada demais para justificar discursos em redes sociais como um linguajar básico de ser um humano contemporâneo. A ideia do humanizar ignora e vai contra o que a que a própria humanidade faz: afasta-se, cada vez mais, de tudo o que é natural.

    Ser humano é sinônimo de alterar. Refazer. Testar. Desbravar.

    Somos inconstantes – não sei quem foi que disse que precisamos de rotina.

    Somos nômades antes, até, de sermos humanos. Construímos abrigos desde de as primeiras andanças de nossos vancestrais. Destruímos o status quo. Dobramos a natureza com as mãos sujas de barro, corações cheios de intenções. Quando inventamos um modo de reproduzir o fogo, com pedras, nos sentimos poderosos demais, vencendo a escuridão das noites. Invencíveis. Mudando a rotina dos sonos, espantando animais dos quais éramos presas.

    O fogo foi a primeira das invenções. A primeira tecnologia. Muitas coisas em um único gesto:

    Não apenas iluminava, esquentava; seduzia; convidava, espantava animais. Seu crepitar criava instantaneamente presença – do nada eis a luz, o som e o movimento. Uma dança em si. Arte. Inventamos um lugar, no invisível de ser nada, antes. Do nada, o simbolismo nasceu.

    Dos agrupamentos quase fixos que a natureza tratou de dar semelhanças físicas em prol da sobrevivência, o lugar portátil. Carregamos pedras em preciosas bolsas de couro junto ao corpo. Ganhamos o mundo. Esterelizamos tudo o que era natural. Cozinhamos nossos medos, mantimentos… e o bicho.

    O fogo era poder e destruição. Encantamento e medo. Possibilidades, criatividade, a continuidade dos dias. A primeira tecnologia: domamos a fome. Afastamos a morte.

    Fogo se tornou potência.

    E caos.

    Depois, o fogo passou a ser combustível para os deslocamentos. Inventamos a roda uns 1.300 anos depois do fogo, e, aliados, a propulsão fez incríveis modificações por todo o planeta.

    O fogo forjou ferramentas. Desenvolveu navios, armas, munições. O fogo nos fez atravessar o universo, na década de 50 do século passado.

    O fogo é faísca. Chama fátua. Luminescência.

    Embora tenhamos avançado substancialmente em nossa humanidade, o fogo continua existindo em sua forma primordial: ainda é possível evocarmo-lo com a fricção de duas pedras. Mas em casos de extrema necessidade ou vontade. Ele evoluiu, foi moldado, domesticado. Hoje pode surgir manso a partir de um botão. Habita as bocas adormecidas dos fogões elétricos, vive embutido em celulares, sobrevive através de tomadas. Pode ser carregado apenas pela luz solar – que, pasmem, é o princípio de todo fogo.

    O fogo é nosso maior reflexo, expressão da vida humana.
    Domado.
    Mascarado.
    Nunca extinto.

    É sopro vital e a sentença de extinção de toda a vida. Se se rebelar contra nós, a partir de nós, nos engole.

    Então, à revelia do fogo, seguimos arrancando plantas de seus habitats naturais e as limitando-as em pequenos compartimentos repletos de terras adubadas, húmus disso e daquilo. Terras corrigidas. Para humanizar o que, de fato, humanizamos.

    Humanizar como ato?
    Humanizar como uma necessidade de retorno às origens para, enfim, existirmos como humanos de verdade?

    Fala-se muito sobre estarmos maquinificando o mundo. Mas tal expressão não seria melhor exemplificada se a reescrevessemos como humanizando o mundo? No sentido mais visceral, é o que estamos fazendo: interferindo, movendo, construindo, transfigurando, corrigindo, destruindo, tentando de novo.
    Enganando.

    Nos iludimos plantando vida por onde queremos que ela floresça. Assustamos e domesticamos animais. Trocamos os dias pelas noites iluminadas, confortavelmente acesas com dispositivos que controlam a intensidade e até a temperatura das luzes. Assumimos confortável e egoistamente o papel de deuses sobre todos os outros seres.

    Todas as vezes que uma joaninha me encontra, me sinto especialíssima. E, por um breve instante, me esqueço de humanizar qualquer coisa.
    Apenas existo.
    Respiro.
    Respeito.

    Admiro.

  • Reborn

    Quem não brincou de boneca o suficiente em criança não deve perder a oportunidade agora, incluindo os meninos a quem não foi dado esse direito. Compre um bebê reborn e vá à luta. É a sua chance: dificilmente aparecerá ocasião tão propícia para resolver um problema de infância que demandaria anos de terapia, uma solução bem mais cara que o boneco.

    Para uma experiência mais completa, esses bebês poderiam ser ainda mais realistas: chorar no meio da madrugada, exigir troca de fraldas em horários aleatórios e impedir os ‘pais’ de sair porque estão com febre. Como aquelas mascotes Tamagotchi que precisam de atenção e ‘morrem’ se você deixa de alimentá-las ou cuidar delas. Se o bebê ‘morrer’, nada de pânico: basta encomendar outro.

    Outra sugestão para quem quiser aprofundar a experiência: trocar de bebê a cada aniversário, acompanhando o crescimento da ‘criança’ até que ela se torne adulta. Obviamente, adolescentes reborn seriam programados para dar muiiiito trabalho antes de se transformarem em jovens bem sucedidos. É improvável que alguém insista além desse ponto, mas nunca se sabe: velhos reborn podem virar febre no futuro, a fofura dos bebês substituída pelos achaques da idade. Tem gosto para tudo e o lobby das farmácias não dorme no ponto.

    Em vez de criticar os bebês reborn, pense nos aspectos positivos: lucram as fábricas, as produtoras de festas, criam-se empregos. Que mal há nisso, fora a loucura? Só espero que não seja contagiosa. Será?

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