Crônicas

  • Cachaça, reza e um Papa gente boa

    Naquela segunda-feira chuvosa em Ipanema, o sol tirou folga. Depois de um fim de semana vaidoso, ensolarado e cheio de turistas na areia, ele se recolheu como quem respeita um luto.

    No lugar dele, veio a garoa. Capas de chuva nas calçadas, cangas de folga no armário e um silêncio molhado pairando sobre a cidade. Eu, mineiro de férias no Rio, escrevia umas crônicas no bloco de notas do celular quando veio a notícia: Papa Francisco morreu.

    Fiquei abalado. Abaladíssimo. Nem sou católico — sou do time que entra na igreja pra admirar o forro de madeira —, mas meu amigo é. E com ele, missa é antes do café. Domingo mesmo fomos ao Mosteiro de São Bento, na Praça Mauá. Missa linda. Depois, um café da manhã  na Visconde com Farme.

    Dizer que o céu chorava pode parecer exagero. Mas ali, com meu amigo ao lado e o coração um pouco apertado, chorei debaixo do guarda-chuva.

    Gostava de Francisco como se gosta de uma avó italiana: ele falava com firmeza, ria com os olhos e dava bronca com afeto. Canonizou Irmã Dulce, beatificou Frei Galvão, estendeu a mão pros refugiados, acolheu os gays e soltava frases que viravam camiseta.

    Um dia, disse a um brasileiro: “Vocês não têm salvação. Muita cachaça e pouca reza.” Depois, deu a bênção com seriedade franciscana.

    Talvez nenhum outro Papa tenha entendido tão bem o Brasil. Nosso jeito de rir da desgraça, de rezar e de fazer piada ao mesmo tempo. Francisco era argentino, mas ganhou a alma da gente.

    Ali, naquela manhã nublada de Ipanema, eu não rezei um terço. Mas agradeci em silêncio.

    Obrigado, Papa Francisco.

  • Dons de domingo

    Frestas na janela forrada com tecidos nobres, trilho suspenso, que corre e fica. Luz matinal que avança, intrépida, vaporosa, deslumbrante.

    É manhã de domingo, os pássaros conversam, uma ou outra garagem desperta, eu também. Alguns dormem. Tantos tomam café, outros fazem cooper, yoga, amor, nada.

    Alguns compram jornais impressos. Alguns jogam virtualmente, desde ontem. Praia, cachoeira, trilhas, um bom livro. Os asfaltos e paralelos têm horas de menor pressão; poucos são os veículos que por eles transitam. Pessoas caminham, cachorros levam seus tutores para passear com mais qualidade.

    As conversas fluem sem tanta pressa. Os olhares se perdem ao sabor do tanto faz. Respira-se mais.

    É chegado mais um domingo, uma ode ao sol, ou um tipo de sorvete _ sunday. Dia de descanso, preguiça, pausas, refeições demoradas, o sabor e vapor de xícaras fumegantes, ócio criativo, prazeres e o que quisermos.

    Aos domingos, as frestas dominam.

  • Crônica apressadinha

    Eu quero escrever uma crônica agora, mas você sabe como é que é… Tenho que fazer isso e fazer aquilo e passar em um monte de lugares e depois de fazer isso tudo, ainda tem mais coisa pra fazer!

    Espera ai! Uma mensagem chegou!

    E o olhar para a tela fica congelado! Os dedos digitam algo! Outra mensagem e mais outra!

    Bom, como eu ia dizendo, quero escrever uma crônica, mas a pressa de nosso mundo é grande!!! Eu sei! Eu sei! A pressa é inimiga da perfeição, mas o que fazer se é preciso correr o tempo inteiro?

    Um instante! Notificação! Dedo que desliza na tela e passa e passa e passa sem parar! Uma imagem e mais outra e outra mais!

    A crônica que quero escrever é sobre essa pressa nossa! A gente vive sem tempo! E não faz…

    Mais uma mensagem! Aqueles vídeos engraçados de cachorro! E já são quatro vídeos! Rapidinho…

    Eu não quero escrever uma crônica! Eu queria, mas com toda essa pressa, não vou conseguir nem pensar sobre! Se não tivéssemos tanta coisa pra fazer!

    Notificação…

  • O fim da fila

    Andei tendo pesadelos com filas — fila do cinema, fila do caixa do supermercado, fila de embarque no avião, fila no atendimento do banco… eu ali, imprensada, empurrada, as pessoas passando na minha frente sem a menor cerimônia, ignorando que se tratava de uma pessoa idosa.

    A cada dia, uma nova imagem dessas me atrapalhava o sono e, num sobressalto, eu acordava. Ao abrir os olhos, respirava aliviada ao perceber que era só um pesadelo. Afinal, eu vivia em um país em que os maiores de 60 anos têm um privilégio garantido por lei — o Estatuto da Pessoa Idosa, de outubro de 2003, assegura prioridades que nos ajudam a envelhecer com um pouco mais de dignidade.

    Com o tempo, os pesadelos sumiram, e eu me vi aproveitando, feliz, os pequenos privilégios da “melhor idade”: o prazer de encontrar uma vaga exclusiva em um estacionamento lotado, de entrar primeiro no avião e me acomodar sem atropelamentos, de sentar tranquila no transporte coletivo. Compensações merecidas pelos percalços do envelhecimento, eu pensava.

    Outro dia, no entanto, fui assistir a uma peça de teatro e me deparei com uma cena inesperada. Ao me dirigir à entrada reservada aos idosos, fiquei desnorteada: onde estava a fila? Em vez de uma ordem civilizada, havia um aglomerado de cabelos brancos e cabeças carecas que se acotovelavam num tumulto para marcar seus bilhetes de entrada.

    Olhei ao redor e compreendi: praticamente todos ali já tinham passado dos 60. Se fosse para haver uma fila especial, ela deveria ser para os “não idosos”.

    Naquela hora, lembrei dos meus antigos pesadelos. Eles não eram delírios, mas premonições. Nossa população está envelhecendo, e não vai demorar muito para que o privilégio mude de lado. Talvez passemos a ver filas exclusivas para os menores de 60 — mais ágeis, mais rápidos, mais conectados —, enquanto nós, os da “melhor idade”, vamos amargar as filas comuns, onde tudo demora.

    Porque um esqueceu o documento, outro não consegue abrir o QR code no celular, um terceiro precisa desmontar a mala na esteira para encontrar a tesourinha esquecida. Sem contar aquele senhor na minha frente que mal consegue subir as escadas do ônibus e, por isso, a porta acaba se fechando antes de mim.

    Segundo o IBGE, em 2070 o Brasil terá cerca de 75,3 milhões de idosos — quase 40% da população. Bem… pelo menos eu não estarei entre esses milhões de ex-privilegiados.

    Já é um consolo.

  • Toda verdade é ato

    Ao tomar ciência da morte do Papa Francisco, um lamento silencioso me abraçou forte. Não frequento igrejas ou missas nem o conhecia pessoalmente, mas senti o pesar que a partida de um amigo distante e querido inaugura.

    A exploração excessiva da mídia, a monetarização advinda do uso selvagem da notícia do seu falecimento, a pequenez do mundo, tornou ainda mais evidente a grandeza rara desse homem que escreveu com atitudes o brado de uma ética de humanização do viver.  

    Seu maior legado talvez seja a mensagem cifrada em todas as suas ações: o amor genuíno, curandeiro de todo o mal, só floresce do respeito e da empatia entre os seres.

    Ele se foi, mas uma fração da sua eternidade ficou em mim.

    O bem reverbera!

    O Amor é colo que acolhe sem mimar.

    A verdade dos afetos e dos intentos vive nos gestos. O Papa Francisco escolheu ser sepultado na Basílica de Santa Maria de Maggiore em Roma, quebrando a tradição centenária de sepultamento na Basílica de São Pedro.

    Quantas coisas são ditas com esse ato…

  • Almas

    Almas rasas, almas profundas. Almas quietas, almas inquietas. Almas glutonas. Ou seriam corpos glutões? Almas machucadas, doídas, que não são percebidas. Almas irmãs, almas curiosas, almas altruístas.

    Olhar, esquadrinhar, perscrutar…

    É desonesto? É como espiar pelo buraco da fechadura? É pretensioso?

    Não sei… mas não consigo evitar. Meu olhar atravessa os corpos, vasculha os gestos, decifra os silêncios. Cada passo que vejo guarda uma história, cada olhar desviado esconde um receio. Há almas que se mostram sem perceber, e há outras que se escondem, mas não o suficiente.

    Ah, meus amigos…

    Como eu gostaria de ser uma alma bebê…

    Só assim eu deixaria de ver. De perceber. De saber.

    Uma alma inocente não veria malícias, subterfúgios, intenções. Não distinguiria as sombras dos sorrisos, as hesitações dos fingimentos. Viveria sem o peso da consciência, sem essa insuportável necessidade de compreender o que deveria passar despercebido.

    Quisera eu ter a inocência de estar desnuda e não perceber…

    Mas não! Prefiro estar oculta a estar desnuda…

    Afinal, para quê saber das fragilidades, da inocência, da malícia?

    Por quê? Para quê? Essa é a pergunta que atormenta a MINHA ALMA…

    E ainda assim, eu continuo olhando.

  • Da glória ao fracasso

    Impressionam-me os casos, muito noticiados pela mídia, de pessoas que eram famosas, endinheiradas, e depois perderam tudo. Geralmente são artistas ou ases do esporte. Sabe-se que o sucesso é fugaz, mas há uma diferença entre sair dos holofotes e mergulhar na escuridão do anonimato ou nos confins da miséria.  

    Recentemente se noticiou o caso de Mário Gomes, que teve a mansão leiloada para pagar dívidas trabalhistas. Desconsolado, o ator revelou que estava por enquanto na casa de uma filha e não tinha ideia de onde ia morar – talvez “embaixo de uma ponte”!  

    Há muitos outros casos. Entre eles está, por exemplo, o de Regininha Poltergeist; depois da fama nos anos 1990, ela perdeu  o que havia conquistado e chegou a morar num posto de gasolina. Outro é o do ator César Macedo, que atuou na “Escolinha do Professor Raimundo” e, fora da TV, enfrentou muitas dificuldades financeiras. Veio a morar nas ruas depois que a esposa morreu.

    E quem não se lembra do ator Rubens Sabino, que fez o papel de Neguinho  no filme “Cidade de Deus”? Depois de abandonar a carreira, ele chegou a viver na Cracolândia, em São Paulo, por cerca de quatro anos.

    Muitos perdem seus bens e ficam mesmo sem ter onde morar. Caso não sejam amparados por um algum parente generoso, têm que apelar para a generosidade dos transeuntes. Na melhor das hipóteses, passam a vender cachorros-quentes, bombons ou água para sobreviver.   

    Se a ambição maior deles é galgar a escada da fama, o que os faz descê-la de forma assim melancólica? A explicação comum, e um tanto óbvia, é que não pensam no futuro. Deslumbrados com os aplausos e paparicos dos fãs, esquecem que essas manifestações passam e com elas o dinheiro que lhes permite o conforto de uma boa vida.

    Alguém já disse que, a ter e perder, é preferível nunca ter tido. A memória dos bons tempos dói mais do que a tristeza por eles nunca terem chegado. Enfim, não se perde o que não se teve.

    Outros atribuem a derrocada à fatalidade, que escolhe algumas pessoas para nelas imprimir negativamente a sua marca. Mas fatalidade não é destino. Para que nele se transforme, é preciso que a vítima de algum modo aceite o que lhe é infligido, ou vá ao seu encontro.   

    Talvez os que descem do chamado “pedestal da glória” façam isso por não se julgarem aptos a lá estar. Talvez procurem a obscuridade por não se acharem merecedores de ficar sob a luz. Nesse caso não é o descuido com o futuro que os leva a tal situação, mas algum tipo de prisão ligada ao passado.   

    Há quem ache que não faz jus ao sucesso que a vida lhe concedeu. Por alguma obscura falha interior, considera injusto o que alcançou na arte, na profissão ou mesmo nas relações sociais. Trata então de “reparar o engano”, infligindo-se um fracasso que compensa o que por equívoco lhe teria sido dado. A alma humana tem desses mistérios.

    Essa tese psicológica não se aplica a todos os casos e pode ser contestada. Mas não deixa de nos fazer pensar. Só ela explica que chegue ao declínio alguém que tanto lutou para alcançar o apogeu.

  • bolhas opacas em sinais de trânsito

    Intuição é um troço engraçado. Às vezes, quando nos deixamos ser por ela guiados, pode dar bom, pode dar samba — ou crônica mesmo [bem melhor, convenhamos, que uma história crônica na bagagem da vida]:

    […)

    Sempre se sentava nos assentos dos veículos públicos, por segurança, por melhor vista da pista, “n” motivos. Hoje, pelo choque de sair da Cidade Universitária, que voltara a frequentar mais de uma década depois, e se deparar com seu velho ônibus para casa vazio, não pensara duas vezes: embarcou, com seu anacrônico RioCard — agora existe um totem de um tal “jaé”, em mais evidência do que o que aceitava o cartão em sua mão esquerda, avanço tecnológico de primeiríssima categoria, outrora. Não sabia o por quê, mas seu coração evidenciara um lugar próximo à porta da saída, nos fundos. Sentou-se. Como uma recém redomesticada “bicho do mato”, com os sentidos apurados em selva de pedra, não ousou pegar o celular. Optou por um livro, um pouco escondido dentro da bolsa grande, que continha de tudo: pasta de dentes, escova de dentes, um outro par de brincos, álcool em gel, lenços de papel, caneta, prancheta, sacola plástica dobrada, um isqueiro, uma lanterna, carregador de celular, uma pera, uma garrafa de água, carteira, chaves de duas casas, o telefone, um desodorante, uma cachemire, um casaco e uma sombrinha. Correu os olhos por uma ou duas páginas; não introjetava as palavras; preferiu conferir a paisagem do Rio em um dia nublado de outono; os cariocas não curtem. Percebeu uma mulher com celular em punho, bem em evidência, que passeava por perfis masculinos em redes sociais. O rapaz no assento atrás do seu parou o que fazia, e l-i-t-e-r-a-l-m-e-n-t-e esticou o pescoço para uma fofocada virto-presencial sem toques — um modo um tanto quanto stalker de se posicionar; assim ficou; o ônibus estava vazio. Esperançosa de ter seu resto do dia bem aproveitado por tão baita sorte da condução espaçosa, relaxou. Semáforo amarelento em contraponto à frieza e letargia de um início de tarde assim, o motorista ameaça pegar a Ponte do Saber. Mas só ameaça. Uma nova volta por toda a ilha se fez. A condução é famosa por estar sempre cheia, inadmissível vagar pelos asfaltos tão levemente. Paciência, os minutos que dedicaria a voltar mais cedo para sua cidade natal (e atual) seriam gastos para um outro propósito. Resolveu abdicar do percurso em linha reta para a Novo Rio. Até queria conhecer o tão comentado novo Terminal Gentileza, mas, ouvindo seu coração, deixou-se rumar para Botafogo.

    O ônibus lotou. Uma discussão esquisita começou próxima ao assento no qual certamente estaria. A senhora que ali sentada estava ganhou uma cotovelada de graça na bochecha direita. E um despertar daquele bater de pestanas tão reconfortante, quando se está acomodada em um veículo público cheio. Evitara um confronto, ponto para a intuição! E ainda tinha sua saída garantida, sem empurra-empurra e aglomeração, calor e estourar das bolhas de cada um. Todo mundo vive em uma bolha que se contrai e se dilata, à medida que passa por situações e ambientes diferentes. Cada um sabe a beleza e os cm a mais dos quais abre mão — e não! — para conviver em sociedade.

    Uma hora depois, avista um shopping conhecido. O ônibus para em um ponto que não se lembrava de ser uma parada, tão próxima era do shopping. Levantou-se de um ímpeto adolescente e puxou a cordinha. Permaneceu de pé, virando-se para a porta. O ônibus simplesmente subiu o viaduto.

    Passos apressados na saída — parada errada: 10 anos antes, o shopping era a deixa. As coisas mudam, resiliência mantendo a pose de antiga moradora da capital. As nomenclaturas de pontos de “BRéssssses” (para dar um ar mais carioca no coloquial da leitura), confundiram seu GPS natural tão assertivo, e as pernas traduziram o nervosismo de andar por ruas conhecidas com lojas diferentes, prédios demolidos, moradores de rua em número bastante significativo e policiais que, ou conversam amigavelmente com um civil das redondezas, ou um dos seus à paisana, ou são corruptos. O rosto da ex-carioca mantinha um semblante que a misturava à multidão, anos de prática — e de teatro —, são como andar de bicicleta. O corpo grita um alerta vermelho, como o toque luminosamente poético sobre sua cabeça: estamos entrando em pânico, é seu íntimo quem diz; respira e foca em chegar a um lugar mais íntimo em suas memórias. Passa por uma esquina arquitetônica e urbanisticamente arredondada: o interior intersticial de uma mecânica de automóveis expõe 3 viaturas suspensas por andaimes, sem rodas, como se estivessem rendidas e cercadas por mais de uma dezena de outros indivíduos, todos latas velhas em estado lamentável. Achou graça na fragilidade momentânea dos veículos da segurança oficial. Sente-se energizada e com fome. Atravessa a rua, sinal verde-esperança, depara-se com uma galeria que tem ares de residencial, mas não somente, seus pés a conduzem, eles sabem o caminho de cor. Dá de cara com o seu velho supermercado, cada vez mais envelhecido e caquético, que sempre a salvava, de domingo a domingo. Vontade do hot-dog da madruga que custava R$ 1,99. Não existe mais. “Serviria um balde do KFC, acho que ainda deve ter um na outra esquina…”

    Seu corpo gira nos calcanhares e esbarra no Cine Estação, e, então, tudo congela: Olhos nas programações Pele ouriçada frente a tantos títulos disponíveis para uma quarta-feira qualquer Suor frio e cheiro de pipoca amanteigada Sente um calor vir debaixo, está excitada Lê o título de filme de uma francesa na Coreia, em cartaz na contagem regressiva de 20 min. Alguém derrama o líquido inconfundível de uma Coca-Cola em um copo plástico.

    Sai esbaforida, encontra um KFC há 15 passos, pede uma promoção qualquer e acha tudo muito engordurado. 15 minutos foram suficientes para avermelhar o rosto, aguardar o preparo da comida rápida | senta-se sozinha, come, repara nas pessoas ao redor, sente-se feliz por estar de volta. A volta em si mesma, as mordidas que rebobinam o tempo. Se vê com pouco mais de 20 anos; compra o ingresso; senta- se na poltrona errada e está mais do que bem, a sala está vazia. Na tela, uma mulher ensina francês para sobreviver em outra cultura. Mas nunca deu aula disso. Ela arrisca. Ela, também.

    O filme termina na incompreensão entre os poucos cinéfilos — quase todos da terceira idade — e ela. Ela quer expandir seus horizontes com a força dos semáforos verdes, um após o outro. Abertos, todos, sem uma transição em um degradê sem sentido. Chama um 99. Não se preocupa com a rua e o movimento. O sinal fecha, todos andam, não [se] sabe[m] para onde, ela tampouco. Adentra o carro, sinal vermelho como pôr do sol. As bolhas aqui e acolá parecem uma instalação a céu aberto orientada por alguma galeria de arte. Sinal vermelho que não se vai. Alguém pega um pedaço de papel na rua.

    Opacarofilia.

  • Ela morreu

    Sentada à mesa de um restaurante, aguardando uma amiga para o almoço de celebração da nossa amizade, chegou aos meus ouvidos uma frase, com efeito de fogos de artifício, dita por uma voz feminina, provavelmente da mesa ao lado:

    — Eu confiava nela. 

    No momento que decodifiquei o som e o sentido se fez claro, fui tomada por uma tristeza absoluta e uma identificação imediata com a enganada da vez. 

    Sem que nos conhecêssemos ou tivéssemos intimidade, experimentei, por osmose, a dor causada pelo corte profundo da decepção. O sangrar hemorrágico de um fim que se impõe mesmo diante do perdão. Toda falsidade ou traição fere a eternidade do sentimento, a ingenuidade da confiança. Sem isso, ela é outra coisa. Perde o viço, a raridade, o estado nato de berço. Mas tem quem não se importe, quem acredite que uma vez ferida, ela, a confiança, feito lagartixa, se regenera. Quanto engano! 

    Seu ferimento tem dor profunda, pulsante e incurável. Sua cicatriz é feita de queloide. Impossível retornar ao conforto inicial de sentir-se em casa diante do outro. Esse é o maior luto. A certeza de que não se volta ao estado natural de ingenuidade. Impressionante que as pessoas não se deem conta do que perdem com o fim da fé em si. 

    Eu confiava nela. Que triste! 

  • Retorno às névoas perfumadas

    Chegou antes da hora marcada. Uns minutinhos somente mas tempo suficiente para se acomodar no café. Escolheu uma mesa na parte externa que dava para o jardim interno da ala elegante do shopping. E ficou ali.

    Marcou o encontro com uma amiga de anos e escolheu aquele lugar para agradar a ela e, sendo sincero, também a si mesmo. A atmosfera do ambiente fazia seu senso estético se manifestar contente. A idéia do encontro era marcar o fim de dois anos de isolamento forçado. Eles não estavam desatualizados a respeito dos respectivos assuntos particulares e comuns. A internet ajudara bastante a manter as conversas constantes. Porém, faltava a proximidade física.

    Os dois encaravam aquele encontro como sua celebração pós pandemia. A volta ao mundo real. Mas o que ela não sabia é que para ele havia um algo a mais por trás daquele encontro. Sem alarde e em segredo ele decidira começar naquele dia um ritual íntimo que ele chamara de retorno às névoas perfumadas.

    Das ausências provocadas pela pandemia em sua vida uma das mais significativas foi a falta de aspirar perfumes. Conversar com as pessoas, manter um contato mínimo, pôde ser contornado com as webconferences. Mas sentir aquele aroma agradável especial, sem chance.

    Não perfume do vidro mas sim aquele cheiro perfumado que sobe das pessoas. Esse é insubstituível. Fica gravado na memória para sempre.

    E sua predileção era pelas fragrâncias que envolviam as mulheres. Sentia uma falta imensa de encontrar alguma mulher perfumada.

    Logo que tomou coragem para sair de casa, tentara um paliativo que era circular pela rua ou pelo shopping e passar pelas pessoas que emanassem nuvens perfumadas. Não dera certo.

    Tinha que entrar em contato com as mulheres para sentir de perto o perfume feminino. A química entre fragrância e a pele de cada pessoa era única, ensinava o senso comum e ele assinava embaixo com todas as letras. Sabia que não precisaria de muito para satisfazer seu olfato. O aperto de mão seria suficiente para trazer para perto de si a nuvem de aroma perfumado. Aspiraria profundamente arquivando na memória o cheiro suave e envolvente daquela névoa deliciosa.

    Aos poucos fora formulando em sua cabeça a idéia desse ritual íntimo. Não via maldade nem inconveniência em sua busca. Era um movimento puramente estético e sensorial, dizia para si.

    Nada abusivo ou ofensivo.

    Não se considerava invasivo, nem tarado ou pervertido. Apenas um apreciador desse aspecto sensorial do mundo feminino. Outra forma de justificar o que iria dar início naquele dia.

    Honestamente não tinha pretensão alguma em se envolver com ninguém. Bastava para seu prazer captar aquele aroma particular. O arrebatamento do encontro do perfume com suas narinas seria sem igual.

    Depois de muito pensar e pesar decidira passar a ação. Agora estava ali, prestes ao primeiro encontro de retomada do prazer sensorial provocado pelo perfume de uma mulher.

    Selecionara com cuidado quem seria sua primeira convidada e optara por uma amiga de longa data e apurado senso estético. Ela era um dos melhores exemplos de química perfeita entre perfume e pessoa. Não conhecia ninguém que combinasse tão bem com a fragrância daquele perfume de nome exótico.

    Portanto, para abrir os trabalhos seria com ela.

    Seus pensamentos foram interrompidos com a visão de sua amiga chegando. Ela caminhava devagar e sorridente. Ele se levantou sorrindo, aspirou o ar profundamente e pensou: seja bem vinda névoa perfumada.

    Crônica escrita originalmente em 5 de outubro de 2022

  • O cronista em caça

    O cronista é um caçador, não o homem que sai com sua espingarda a fim de conseguir algo para comer ou por pura diversão pela morte. É um animal eternamente faminto e em constante situação de caça. A todo momento, está em busca da sua próxima vítima, que alimentará a si e aos outros.

    Ser esse caçador é consequência de ser cronista.

    Onde estiver, estará em caçada. Não importa a situação, o momento ou o lugar. Qualquer um pode ser propício, todos são capazes de lhe oferecer uma nova presa. Ele sabe disso, está sempre à espreita. Diante de um alvo que se mostre, não titubeia; na primeira oportunidade, irá agir.

    Por onde passa, segue perseguindo algo, que os outros não veem e ele, talvez, ainda não saiba ao certo. Não sai de casa necessariamente com o intuito de executar o apresamento subsequente. Entretanto, para onde vá ou onde se encontre, o gênio de cronista está agindo dentro dele.

    Não é caçador apenas por escolha ou por aptidão adquirida, mas por uma condição intrínseca, ínsita ao seu próprio ser cronista. Ela garante o sucesso na localização do alvo de cada empreitada, seja mensal, semanal ou diária; por obrigação ou puro deleite.

    O predicado disso está na procura constante, mas também, por vezes, não deliberada. Está no instinto e nos olhos que só podem ser encontrados em indivíduos dessa espécie. Possui um olhar particular, olhar de caçador, olhar de cronista, essencial para produzir novas presas. Ele não enxerga como os demais. Seus olhos de rapina são capazes de transformar o mais insignificante elemento em uma preia útil.

    Esconder-se ou se esgueirar são desnecessários. Para o bote, precisa de ouvidos vigilantes, visão precisa e argúcia em seu faro. Todos muito bem treinados e experimentados. Assim como os seus gadanhos, que, se não forem cultivados e afiados cotidianamente pelo predador, tornam-se ineficazes no assalto.

    Essa fera não distingue suas vítimas. Qualquer um pode vir a ser o próximo. Tudo lhe interessa, desde o gesto mais inocente à hecatombe mundial, do último acontecimento político ao café que coa todas as manhãs. Não há nada que não esteja passível de se converter no seu mais recente abate.

    Mal tendo digerido o último, já se lança à procura do seguinte. Seu ímpeto jamais cessa, precisa estar sempre em caça. E ele estará.

  • Maldades Obscenas!

    O que não pode ser visto, não incomoda, essa máxima nos protege dos males da natureza humana, que insistem surgir durante décadas e afetar as mentes mais frágeis entre nós.

    Mesmo no início do século XX, os doentes mentais crônicos eram vistos como “degenerados” e “escória”, o equivalente a criminosos e escroques, por isso a ideia de escondê-los em manicômios foi a saída na época para resolver as questões ainda desconhecidas de nossa alma. 

    Nossas dores emocionais são frequentes companhias sem que tenhamos encomendado sentimentos ruins ou algum interesse em especial pra fritar nossos miolos ainda crus. 

    Buscamos viver com leveza porque a ausência de um fardo leva o ser humano tornar-se mais leve e de fácil convívio, e assim atingir um status social atraente e com mais oportunidades mundanas. 

    O que nos atormenta invariavelmente transborda a frente da próxima companhia tornando assim pesado o relacionamento com o próximo. 

    O escritor Milan Kundera escreveu em seu espetacular livro “A insustentável leveza do ser” que o mais pesado dos fardos nos esmaga, verga-nos, comprime-nos contra o chão, ao mesmo tempo, ele é a imagem da realização vital mais intensa. Quanto mais pesado é o fardo mais próxima da terra está nossa vida, e mais real e verdadeira ela é. 

    Vivemos muito pela primeira vez, quase não há tempo para ensaios ao entrar em cena nas ruas, e eventualmente somos recriminados(as) por sermos diferentes, ou a frente dos tempos.

    Nos anos 1486, algumas mulheres foram consideradas bruxas por serem hereges ou conhecerem magias incomuns, e também por suas atitudes contra o machismo reinante, foram recriminadas pela Inquisição. 

    A maior inovação da obra do inquisidor Institoris (Kraemer) foi justamente atribuir exclusivamente à mulher a condição de “bruxa”. 

    Antes da publicação do livro Malleus Maleficarum, ou O Martelo das Feiticeiras, e de posse da bula papal, ele havia empreendido esforços para processar mulheres suspeitas de bruxaria. Sempre é mais fácil atacar o fraco, o desconhecido, porque o covarde precisa justificar seus atos como o fez Adolf Hitler, que certa vez disse a um de seus Generais, se não existissem os judeus, precisaríamos criá-los, pra justificar nosso ódio. O inquisidor Institoris, durante um interrogatório preliminar, procurou conectar a mulher a um desvio sexual feminino e a bruxaria. 

    Assim justificou suas maldades obscenas, contra as criaturas desavisadas.

    *Publicado originalmente no Crônicas Cariocas em 11 de abr. de 2023, 23:24

  • A teoria da verruga

    Conheci a teoria da verruga num sábado nublado, na casa da benzedeira mais famosa da região, para onde fui arrastado por minha avó. Eu esperava sentado numa cadeira de palha ao lado da porta enquanto conversavam lá dentro. O marido dela podava as roseiras no jardim. Aquele homem tinha barbas longas e brancas se ligando aos cabelos também longos e brancos, o andar lhe parecia difícil, encurvado, arrastava o pé esquerdo e, sempre que preciso, se dobrava quase completamente sem mexer a perna, num balanço breve e repentino. Das suas orelhas saíam tufos de pelos pretos, que contrastavam com a cor gélida do entorno e aumentavam a minha vigília assustada.

    Eu já o conhecia. Na escola eram contadas inúmeras histórias sobre ele. Uns diziam que devorava crianças, outros que tinha pacto com o demônio, havia ainda quem jurava tê-lo visto vagando no cemitério em noite de lua cheia. A lenda mais conhecida, entretanto, confirmava que, na verdade, ele era o próprio Lobisomem. Nunca faltaram relatos alegadamente verídicos sobre suas metamorfoses. Ainda lembro de uma história que o Júnior contou e assustou a turma. Andava ele com o seu pai durante a noite quando avistaram um vulto parecido com o velho, caminhando arqueado a poucos metros de distância. Segundo o Júnior, o velho estava se transformando e os percebeu ali, então, num pulo entrou no mato fechado. Assim que chegaram lá, encontraram apenas pegadas de lobo se terminando de repente. E nada mais.

    Eu lembrava dessas histórias encolhido na cadeira com o coração a mil, contando os segundos para a minha avó aparecer. Pensei até que ela pudesse querer me trocar por algum serviço mais robusto da benzedeira. O velho começou a falar comigo ainda de costas. Tinha um tom calmo e soltava palavra por palavra com tal harmonia que me surpreendeu mais do que as próprias histórias sobre ele. Disse que a natureza tinha o seu tempo e nós deveríamos respeitá-lo. Disse que a poda das roseiras era importante para crescerem mais belas e saudáveis. Disse que a vida é também assim, pois precisamos, às vezes, enfrentar dificuldades para nos tornarmos mais fortes. Disse que era como passar Merthiolate na ferida, que mesmo ardendo um pouco, logo nos deixava prontos para outra. Só então se virou para mim, trazendo consigo algumas rosas negras. Me alcançou uma delas e sentou com dificuldade no degrau ao meu lado, enquanto eu sentia por osmose a ardência repulsiva do Merthiolate nos joelhos.

    O tom sereno da sua voz me ceifou o medo, ou talvez fosse a conversa sobre como podemos aprender observando a natureza. Não sei se foi por influência do velho que acabei me tornando biólogo, mas encontro seguidamente pesquisas científicas comprovando muitas das suas afirmações. Contou-me, naquela manhã, a teoria da verruga. Antes, no entanto, alertou-me que poucas pessoas conheciam a teoria e só uma fração delas é que a compartilhava com os mais novos. Eu mesclava o olhar entre o velho e as rosas. Os joelhos já não ardiam mais. Na verdade, poderia ouvi-lo o resto do dia sem que notasse passar um único minuto.

    Depois de um tempo a minha avó apareceu, trocou duas ou três palavras com o velho e fomos embora. Ele me entregou também as outras rosas antes de levantar e seguiu naquele andar lento e curvo para os fundos da casa. As rosas deram o que falar, decoraram a cômoda da sala intactas por semanas. São lembradas até hoje quando reunimos a família e relembramos as aventuras da infância. A Maria José acha que elas tinham algum feitiço mal explicado. Eu nunca levei essa história a sério. E até hoje não sei porque fomos à casa da benzedeira naquele sábado.

    Encontrei o velho ainda duas vezes. Num fim de tarde nos cumprimentamos aos risos como amigos, causando surpresa à minha mãe, que me apertou a mão. Ao que parece, também ela estava contaminada pelas falácias sobre o marido da benzedeira. Nosso último encontro foi estranho. Ele caminhava com uma bengala arqueada na rua. Mirava preocupado cada palmo do chão. Tentei conversar, mas fui alvo de grunhidos aborrecidos. E seguiu naquele passo, sem erguer os olhos, pegando a estradinha que levava à sua casa.

    Há trinta anos o velho me contou a teoria da verruga e, desde então, encontrei apenas outras duas pessoas que também a conheciam. O primeiro foi um simpático senhor com quem dividi quarto no hospital. Tivemos longas conversas sobre a vida durante os três dias em que fiquei internado e, de certa forma, senti saudades do velho e um doloroso remorso por não ter aproveitado mais os meus avós. Tive alta e jamais tornei a vê-lo. O segundo foi um bêbado na rodoviária. Chegou quieto e sentou no chão,
    achei que pediria dinheiro para outra dose, mas puxou conversa num tom filosófico e, sem mais nem menos, chegou na teoria da verruga. Atendi rapidamente o celular e quando desliguei ele não estava mais lá. O ônibus apontou, subi no primeiro degrau e ainda conferi o entorno uma última vez, sabendo que não o veria de novo.

    O curioso é que nas duas ocasiões, quando tive alta do hospital e quando assisti o bêbado filosofar na rodoviária, sonhei com o velho me entregando as rosas. Não posso garantir que exista alguma ligação entre a teoria da verruga, as rosas negras e o velho. Também não posso garantir que haja alguma veracidade na teoria. O fato é que, às vezes, as coincidências da vida aparecem assim, nessas idas e vindas, como se o tempo não passasse, como se pudéssemos voltar a um sábado cinzento de trinta anos atrás e lembrar de tudo, como se fosse ontem, como se qualquer suspiro se desse por um desdobramento daquele instante, daquela conversa despretensiosa entre uma criança e um velho, erigida com medos e narrativas, rosas e teorias.

  • O azul e a lágrima

    A manhã estava calma. Calma como um gato se espreguiçando.

    Tinha combinado de almoçar com um amigo, ali pros lados do Mercado Central. Um passeio tipicamente mineiro: caminhar pelo centro sem pressa, sem carros, sem aquela multidão apressada. Nem buzinas, nem o relógio invisível cobrando compromissos. Conversávamos sobre música, livros e algumas bobagens que fazem bem. Uma moça gritou:

    — Gente, olha ali! O que é aquilo, meu Deus?

    Na esquina da Augusto de Lima com a São Paulo, dois moleques batiam num velho. Tentavam arrancar algo dele. O homem reagia como podia. Dava uns sopapos, levava outros.

    A cena corria diante dos olhos da cidade. O povo assistia. Comentava. Protestava — só com a boca. Braços e pernas, não. Esses estavam mudos. Uma moça gritou:

    — Eu filmei tudo! A polícia vai pegar! Tá tudo aqui!

    Até que um homem, forte e corajoso, entrou no meio. Encarou os pivetes. Eles correram. Sumiram como ratos quando a luz acende.

    A tristeza embaçou minhas vistas. A manhã perdeu o brilho. O sol, as árvores, os pássaros — tudo parecia cenário falso.

    Que cidade é essa que assiste calada um velho apanhar? A paisagem virou ruína.

    O homem forte correu atrás dos garotos. Não sei no que deu.

    Fui almoçar com meu amigo. Porque, mesmo triste, a gente almoça. Conversa. Toca a vida.

    Ficou só uma prece, em forma de crônica:

    Alguém, por favor, olhe para esta cidade.

  • Lambuza-te da tua fatia de tempo

    Uma casualidade remeteria um leitor comum a uma pizzaria. Embasbacar-se-ia, pois, com o sentido literalmente delicioso de uma plaquinha assim, despretensiosa assim, alocada aleatória ou propositalmente junto a três relógios de paredes com o mesmo design, mesmo compasso, horários diferentes. “Lambuza-te ou te devoro”, é a moral da história – e uma citação que pretendo patentear, de tão boa que ficou [fique à vontade para citar, mas já faz um pix! 🙂 ]

    A história, que não é estória, refere-se a todo mundo. Todos os seres, todos os movimentos precisos de ponteiros desalinhados. A vida escorre por entre os dedos. É preciso lambuzarmo-nos, sem o tal do medo de ser feliz.

    Felicidade. Sentimento inquieto e por vezes [desa]brochante, viajante de nós, quando queremos a ela nos agarrar num abraço bem dado e eterno; tal qual uma intrigante corriola, flor azul do alvorecer, argyreia nervosa, flor de campana ou glória da manhã, cinco nomenclaturas para a espécie “ipomoea”, que desabrocha no anonimato das beiras de estradas… um gargalo de uma bexiga que já foi preenchida com o ar de pulmões sadios, que já conheceu a plenitude de se sentir completa e, por um triz pffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffff
    ffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffff
    ffffffffffffffffffffffff!

    murchou.

    Acordar entre os cantos e as foligens, adufes e pandeiros transviados, vistas semisserradas que saboreiam a preguiça da manhã pós-carnavalesca em cinzas; dia útil, e não; corpo ressequido de um tépido entremeio, exaurido e extasiado a indagar as horas – preguiça em se esticar na busca inevitável do celular- e o tempo, que ressoa por entre a transparência opaca do sutil tecido das cortinas.

    Carnaval, carne ao aval social. Retumbam canções com tan-tan-tan-tans que deixam fluir a vida. A felicidade deveria ser encapsulada, posta como pingente em um cordão junto ao coração, por dentro da camisa. Ao alcance. Nem precisaria ser aberta, por estar coladinha, assim, na ideia de estar aqui.

    Apegos e desapegos; safra nova de uma safra primeira. Primeiro, aprendemos o funcionamento do mundo. A escola serve para isso, as matérias, as séries e as provas. Então, ao conhecer vem a liberdade; mudamos. Afronta seria não nos transformarmos. Conhecer as coisas empodera as coisas, e nós. Um suposto erro ortográfico pode ser a concepção criativa – e intencional – de uma definição que ainda não foi definida. Troca-se uma letra e um erro é instantaneamente evidenciado em vermelho por uma
    tecnologia de análises de ponta. Enganei você, máquina! Acho, assim, que a revolução tecnológica está em um outro percurso que o meu, enfim; não vislumbro pois a extinção da minha espécie, modifiquei meu próprio caminho com as ferramentas que tenho em mim, o saber. Desvairadamente, assim, lambuzo-me do que enxergo, das minhas lentes-bagagem. Me mimetizo à paisagem urbanizada. Teletransporto-me ao som de uma cuica à segurança analógica de mim mesma, tão evoluída em ser desvairada.

    O mundo é dos loucos, afinal.
    Das glórias matinais, anônimas, sem eira
    bem beira.
    Da felicidade (des)encapsulada.

  • Vamos tomar um café?

    — Um café? Sim, obrigada!
    — Toma um café comigo? Claro, vamos!
    — Aceita um cafezinho? Sim, aceito!

    Vejam só: em todas essas frases há um convite que vai além da xícara. Há cumplicidade, um gesto de carinho, quase um abraço em forma de aroma.

    Da história do café, lembro de uma narrativa antiga — um pastor de cabras africano, com a ajudinha de um monge, teria descoberto os efeitos revigorantes daquele grão escuro.

    Verdade? Talvez. Isso não importa. O que importa é o que ele representa: esse pequeno ritual que cabe numa xícara e aquece a alma.

    Tomar um café com alguém é mais do que saciar um gosto — é um tempo concedido, uma pausa generosa, um olhar que escuta. É o gesto de quem diz: “estou aqui com você”.

    O perfume do café pela manhã invadindo a casa é quase um sinal de que o mundo segue. É continuidade, é calor, é o anúncio de que mais um dia começou — e, com sorte, com afeto.

    Ainda que o café seja solitário, mesmo assim  ele faz companhia. É o cheiro que abraça. O gosto que desperta. O silêncio compartilhado com a gente mesma.

    O café da tarde tem seus rituais. Com a vizinha, com o parceiro, ou mesmo que você esteja só e com a cadeira vazia à sua frente, o valor de uma xícara é incontestável. Ele tem esse poder de reabastecer não só a energia do corpo, mas a ternura do coração.

    Ninguém convida um desafeto para um café. Isso diz muito. Café é símbolo de reconciliação, de recomeço, de partilha. Já esteve em cenas emblemáticas de filmes, já foi desculpa para uma boa conversa, já foi até poesia.

    Hoje, com o preço subindo mais do que o aroma na cozinha, na cafeteria ou no escritório, convidar alguém para um café virou quase um luxo afetivo. Mas vale cada centavo. Porque o café, mesmo caro, é a essência da cordialidade, do apreço e da simpatia. Por isso sempre vai ter o seu valor.

    Então, não se furte a um convite:
    Vamos tomar um café?

  • República Evangélica do Brasil

    Eles estão espalhados pelos mais afastados recônditos do país, onde pode faltar creche, farmácia, delegacia e agência do Banco do Brasil, mas nunca faltará uma igreja evangélica. Dentro de poucos anos, serão a maior religião do Brasil que, para decepção dos servos de Francisco, deixará de ser o maior país católico para contar com um dos mais numerosos rebanhos evangélicos do planeta. Na liderança, os EUA, terra do capitalismo, do consumismo, do individualismo e do protestantismo, com seus 160 milhões de adeptos. Entretanto, ao contrário do que ocorre aqui, na terra de tio Sam os evangélicos estão em baixa, sobretudo entre os jovens. Para compensar, conquistaram popularidade na América Latina e na África, onde estão em franca expansão.

    Mas em nenhum lugar do mundo o crescimento é tão vertiginoso como no Brasil. Há meio século, havia um deles a cada 50 brasileiros. Atualmente, um em cada 3. A retórica simplória que utilizam ajustou-se à nossa natureza crédula (chamados que são de ‘crentes’). Nos locais que se ressentem da presença do Estado como nas favelas e nos morros cariocas, áreas controladas pela bandidagem e pelas milícias, estenderam sua influência, convivendo harmonicamente com o tráfico e a contravenção.

    Os neopentecostais ganham espaço dando respostas concretas a problemas cotidianos do povão e uma pregação mais próxima à sua sofrida realidade, cujas razões não lhes interessa compreender. Através da ‘ideologia da prosperidade’, oferecem a promessa de rápida ascensão social, ainda nessa encarnação, que ninguém aguenta esperar a redenção post mortem no paraíso celestial. Tudo mediante uma módica contribuição mensal de 10% dos proventos, através da qual os missionários intermediam a intervenção de Jesus, com quem mantêm uma estreita relação de compadrio.

    Inspirado no american way of life, estimulam a cultura do empreendedorismo em que cada um é (ou julga ser) senhor de si mesmo, sem que o patrão lhes extraia a mais valia. Esse modelo se adequa à precarização da força de trabalho em que o indivíduo se desdobra 18 hs ao dia por uns trocados, na ilusão de que, com a bênção do pai celestial, virá a se tornar um Neymar.

    Mas se os espoliados fiéis penam sem sair do lugar, o mesmo não se pode dizer dos bispos. A apropriação dos dízimos mais as generosas isenções tributárias a que têm direito, possibilitou aos aspirantes a pastor exercer uma modalidade lucrativa de negócio. Investindo pouco e sem necessitar de grande preparo, a não ser um desempenho verborrágico convincente, puderam encontrar uma oportunidade de rápido enriquecimento. A ponto de alguns deles amealharem gigantescas fortunas, ostentando vidas de luxo, com bênção divina. Comportamento bem distante do ideal franciscano de opção preferencial pelos pobres, inspirado nas palavras do Mestre: “É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus” (Mateus 19:24), versículo que os crentes gostariam de expurgar do Novo Testamento.

    A vida singela e despojada do homem de Nazaré que repelia os mercadores fariseus e se aproximava dos pecadores e marginalizados presta-se melhor, segundo avaliam, à de um esquerdopata. O deus que evocam assemelha-se mais a um agente financeiro que retribui as colaborações pecuniárias, não com a felicidade eterna, mas com polpudos retornos monetários e a perspectiva de um mundo de abundância material regado a grana e luxúria.

    Os evangélicos não se mobilizam em praticar ações sociais em prol da coletividade. Se alguém padece em condições aviltantes, a culpa não é do sistema, mas unicamente do indivíduo que falhou em seu empenho pessoal.

    O crescimento evangélico foi possibilitado pela permissiva facilidade com que são tratados pela legislação. Num país onde montar uma barraquinha de doces exige um mar de obrigações, abrir um templo requer um mero registro em cartório. E para habilitar-se pastor não há necessidade de graduação em teologia ou qualquer outra exigência. Enquanto na calvinista Europa, sua formação exige uma série de pré-requisitos, aqui qualquer charlatão pode exercer de imediato o ofício.

    Curiosamente, o primeiro governo de Lula, hoje acusado de perseguição, criou facilidades para a prática da religião, isentando as igrejas de uma série de responsabilidades estatutárias. Nesse período ocorreu uma explosão na quantidade de igrejas. Segundo o IBGE, o número de estabelecimentos religiosos no país em 2022 superou os de ensino e saúde juntos!

    Se o PT foi condescendente com o crescimento vertiginoso dos evangélicos, foi Bolsonaro quem capitalizou com competência o apoio dessas igrejas angariando através de medidas populistas o apoio da classe, vindo a se tornar um ser ungido, enviado pelos deuses para salvar a nação do perigo ‘marxista’ e ‘ateu’. Conseguiu até difundir sua política armamentista e seu discurso raivoso recheado de palavras chulas num universo em que deveria prevalecer tolerância e amor ao próximo. E ainda colocou no STF um juiz ‘terrivelmente evangélico’ que acima dos preceitos jurídicos, julga pelo que reza a Bíblia.

    Mesmo sabendo que jamais terá apoio deles, Lula teme exercer maior fiscalização aos evangélicos e acabar com a farra de privilégios. Se os militares e os políticos medem palavras, os pastores soltam o verbo com a certeza de que não existe, sob o céu de Jeová, força capaz de refrear sua atuação.

    Conseguem assim emplacar o que lhes agrada. Ficam incomodados com a existência de homossexuais (direcionando-os à ‘cura gay’) e de banheiros unissex, mas não estão nem aí com os desvalidos famintos. Passam o pano para os estupradores Robinho e Daniel Alves (ambos evangélicos) mas amaldiçoam meninas que querem tirar de seu corpo o fruto de uma violência sexual.

    Contam com o suporte da poderosa Frente Parlamentar Evangélica. Não há no Congresso corporações de católicos, espíritas, muçulmanos, judeus, budistas, umbandistas ou ateus. Tampouco, existe ‘bancada verde’, ‘bancada indígena’ ou ‘‘bancada antirracista’.  Mas tem a ‘Bancada da Bíblia’ que, ao lado da ‘Bancada do Boi’ e a ‘Bancada da Bala’, formam a famigerada tríade BBB, unidas em prol do atraso.

    Dispõem também do controle de meios de radiodifusão, obtendo concessões públicas que deveriam promover assuntos de interesse de toda a coletividade. Recentemente, perceberam maior eficácia nas redes sociais onde conseguem com baixos custos obter comportamento bovino da massa de fiéis. Os pastores dispõem de milhões de seguidores repassando-lhes fake news.

    Os evangélicos enfiam goela abaixo seus princípios morais a todos os brasileiros e brasileiras inclusive aos que professam outros credos. Ao contrário das outras religiões, boicotaram medidas de combate à COVID porque obstavam as aglomerações (e consequentemente a receita financeira).

    Na Amazônia, mantêm boas relações com desmatadores e garimpeiros ilegais, quase todos evangélicos (a quem enxergam como ‘empreendedores’). Querem ‘catequizar’ na marra índios e quilombolas, levando-lhes ‘a palavra de Deus’. É conhecida a virulência com que atacam o candomblé e as religiões de matriz africana que associam ao diabo.

    Alinham-se a governos de direita que desprezam os princípios da democracia e os direitos humanos a que associam ao comunismo. 

    Se com 30% já conseguem manipular o país, imagine o que farão quando se tornarem maioria! Sua intenção é claramente implantar uma teocracia, a República Evangélica do Brasil. Converta-se voluntariamente antes que seja obrigado a fazê-lo.

  • A esquecida

    Cerca de quatro anos pós a morte do marido, D. Zulmira começou a esquecer as coisas. Não sabia onde guardara roupas, sapatos ou utensílios da casa. Letícia, a filha caçula, chegou a alertar a irmã:

              – E se ela deixar de tomar os remédios para pressão?

              – Precisamos ficar atentas. Pode ter um acidente vascular cerebral… – respondeu Soraia, que já pensava na possibilidade de contratarem uma cuidadora.  

              Aos lapsos de memória, acrescentavam-se a tristeza e a apatia. D. Zulmira passava horas numa poltrona da sala, o olhar perdido. Recusava até que ligassem a televisão. Não lhe empolgavam mais as novelas nem os programas gastronômicos, dos quais chegara a copiar receitas para agradar o marido. Valfredo era um gourmet, e a mulher vez por outra lhe preparava comidas diferentes.   

                Para ver se distraía a mãe, Soraia propôs que se mostrasse a ela fotos da família. Sobretudo aquelas em que aparecia com Valfredo, para lembrar-lhe o tempo que passara ao lado do marido. Eram muito bem casados, e certamente as imagens da vida em comum concorreriam para reavivar-lhe a memória e deixá-la mais animada.      

               Assim foi feito. Letícia tirou da gaveta do velho guarda-roupa a caixa em que dormiam, já um pouco amareladas, fotografias da família. Havia muitas dos dois juntos, algumas tiradas quando as filhas ainda nem tinham nascido. O casal aparecia em festas juninas, risonhos, ou enlaçados em bailes de Carnaval. A garota fez uma seleção das que melhor traduziam o convívio amoroso dos dois.

             Numa tarde em que D. Zulmira seguia a rotina de nada fazer e ficar olhando para o tempo, Letícia sentou-se junto dela e começou a mostrar as fotos. Tinha feito uma seleção cronológica, apresentando primeiro as do tempo em que namoravam. Depois vinham as do período em que eram noivos, e por fim as de casados.   

            D. Zulmira olhou de início sem curiosidade, as imagens pareciam não impressioná-la. Mas a partir de certo momento seus olhos começaram a brilhar, e o rosto adquiriu uma expressão intrigada. Olhou para a filha como se não entendesse o que via. Letícia também não compreendeu essa reação, e muito menos quando a mãe lhe fez a pergunta:

            – Quem é essa que está com seu pai?

            – Quê?! Quem poderia ser, mãe? É a senhora!

            – Não sou eu! Tire esses retratos daqui!

            A garota não sabia o que fazer. Chamou Soraia e lhe explicou o que estava acontecendo. A outra ficou surpresa. Não era ela?! Pediu à irmã que recolhesse as fotos e as levasse para a gaveta do guarda-roupa. Antes que Letícia fizesse isso, a mãe pediu para vê-las de novo. Como se quisesse se certificar.  

             – Não sou eu! Seu pai está com outra. Agora fiquei sabendo que ele tinha uma amante…    

            As duas se olhavam, perplexas. D. Zulmira até então esquecia objetos ou nomes de pessoas. Agora parecia não se lembrar do próprio rosto. No dia seguinte, enquanto tomavam café, viram a mãe se dirigir à sala com uma tesoura. Assustaram-se e ficaram imaginando qual seria o seu propósito.    

            Depois de se sentar na poltrona onde costumava passar o dia, D. Zulmira falou:

             – Vão buscar aqueles retratos.

             – Para que a senhora quer? – assustou-se Letícia.  

             – Você vai ver. Quero os retratos aqui.  

             A moça obedeceu e pouco depois voltou com a caixa. Antes de entregá-la, pediu: 

              – Não vá, por favor, fazer nenhuma besteira.   

               D. Zulmira abriu-a e começou retirar as fotos. Olhava-as uma por uma e confirmava:    

               – Não sou eu. Não tenho esse cabelo, nunca usei essas roupas nem esses brincos.  

               Pegou então a tesoura e começou a cortá-las para delas extrair “a outra” que ocupava o seu lugar. As filhas tentaram detê-la, mas logo viram que seria impossível. A mãe tinha uma expressão raivosa e pareia capaz de agredir quem procurasse impedi-la.  

              D. Zulmira colocava as partes cortadas numa mesinha contígua à sua poltrona. Com o tempo, era grande o número de recortes que a mostravam em situações diversas, vestindo diferentes roupas e com variadas expressões fisionômicas – ora risonha, ora atenta, ora plácida, olhando para alguém que não se conseguia ver. Nas caixas restaram as fotos mutiladas, em que também não se sabia quem Valfredo fitava ou tinha nos braços.  

             Terminada a obra, ela fechou o recipiente e deu um suspiro, como se tivesse passado por algo muito incômodo e enfim sossegasse.

             Letícia apontou para os recortes em cima da mesa e perguntou:   

             – O que a gente faz com eles?  

             – Pode esconder ou dar fim. Para mim tanto faz.

  • Do anonimato e outras não-percepções modernas

    Em meio a muitos, me diluo. Entre tantos, sou menos que um. Passo despercebido aos olhares. Percebo que alguns olhos passam por mim. Eu noto esses olhares discretos. Olhos que não me registram em sua retina. Não focam em mim porque não me percebem. Minha imagem sumirá da lembrança deles antes que percebam. Lembrança efêmera, tão consistente quanto a névoa diáfana que sobe do cubo de gelo.

    Nenhum registro, nem o da minha voz. O que eu disse não foi escutado. Se fui ouvido, minhas palavras não ficaram na memória. E se algo permaneceu gravado, será atribuído a outra pessoa aparentemente mais presente.

    Os atos que fiz não deixaram rastros. Nenhuma pegada. Nada será atribuído a mim mesmo tendo feito algo. Minhas realizações não ecoarão na eternidade. Ou serão creditadas a outros. Sou capaz de ir antes, vasculhar e retornar acompanhado sem que percebam que lá estive. Completamente despercebido exploro sem ser notado. Vejo, sem ser visto. Nada de especial, perfeitamente mimetizado na paisagem.

    Mas estou ali. Estive ali. Ocupei espaço, me movimentei. Mesmo ignorado.

    Anônimo, eu sou.

  • Tentar construir uma verdade!

    Um homem rico chamado Calvicius Sabinus, tinha um cérebro com uma memória minúscula, que o deixava com saia justa por diversas ocasiões sociais. 

    Por isso resolveu gastar uma fortuna contratando escravos culturais, para preencher seu vazio intelectual, mesmo sabendo que nunca conseguiria absorver nada estudado pelos contratados. 

    Suas vagas lembranças eram tão ruins que em alguns momentos os nomes de seus amigos, Ulisses, Aquiles e Príamo, sumiam rapidamente sem deixar vestígios. 

    Os escravos seriam sua memória pra cada tema que lhe fosse interessante conhecer, e conversar com os intelectuais de sua época. Nada o impediu de querer parecer um homem culto, por isso não mediu gastos na contratação dos escravos.

     Um deles seria para conhecer a fundo Homero, outro para poder conversar com Hesíodo, e assim atribuiu a cada escravo, a tarefa de conhecer muito bem cada um dos nove poetas líricos. 

    O custo da empreitada foi tão alto que daria pra comprar uma biblioteca com diversas estantes, possíveis de preencher qualquer criatura com conhecimentos atraentes.

    Seria muito interessante se pudéssemos deixar outras pessoas carregarem nossas partes mais íntimas, que nos tornam nobres, mas estaríamos desvalorizando quem sempre consagramos com talentos especiais, aqueles que carregam somente consigo, habilidades extras de valor social, e não em malas a tiracolo para preencher suas falhas.

    Transgredir nossa natureza é tão melancólico quanto querer viver eternamente. Assim como a velhice é a principal fase da sabedoria, nossas limitações a cada tempo, nos servem de marca registrada, e não de acúmulo de perdas, porque formam o conjunto de resultados da construção pregressa. 

    Reinventar-se ou reconstruir-se, não são sinônimos de atos que devemos incluir escravos intelectuais para suprir nosso ego. 

    Entre 1626 e 1628, um potente navio de guerra foi construído pelo governo Sueco. Como o Sr. Calvicius, o Rei Sueco gastou uma fortuna para fazer navegar o navio Vasa. Foi uma obra inovadora, porém, com a parte superior muito pesada, pois continha setenta e dois canhões com 24 libras cada um, além disso o navio não tinha lastro suficiente, e sua falta de estabilidade o levou a naufragar poucos minutos após zarpar do porto. 

    O naufrágio seja pela vida inventada ou desestruturada em seu projeto inicial, é inevitável.

    Assim como a engenharia, a natureza humana tem suas particularidades e formas adequadas de funcionar.

    Basta que façamos um pouco de mea-culpa, e exercitemos a empatia, caso contrário, nos tornamos vítimas de nosso capricho, ao tentar construir uma verdade fatal a realidade.

  • A eterna mania de estar pronta para reagir

    Ontem foi dia de esperar a chuva torrencial prometida pela meteorologia. Não fui ao Pilates, imagina ter que voltar ensopada para casa às 8h da manhã. Lá pelas 11h, olhei o céu da minha varanda, dia claro. Só nuvens fofinhas a decorar a paisagem. Mas decidi não fazer a caminhada diária, vai que o tempo muda de repente e a danada da chuva me pega desprevenida. 

    À noite, teria o aniversário de uma amiga querida e depois um show. Por volta das 19h30, ouvi umas trovoadas, depois vinte minutos de chuva forte com pingos grossos e o receio de passar sufoco para chegar nos eventos ou sair de lá. Botei o pijama e aguardei com paciência o dilúvio. 

    Enquanto observava o asfalto secar, senti uma admiração profunda por todos que apostaram na sorte. Pelos amigos que foram encontrar a aniversariante e pelos desconhecidos que curtiram a noite dançando no show.

    A vida sempre ensina: palavras, promessas e previsões o vento leva. A realidade é feita da aposta no agora. 

    Será que amanhã vai chover? 

    Não importa!

  • Comunista

    Sou comunista! Antes que essa escandalosa revelação afaste os leitores de minha repugnante companhia (tal qual acontecia com os leprosos e lazarentos da Idade Média), apresso-me em oferecer alguns esclarecimentos para tentar aplacar a aversão de meus detratores.

    Aviso logo: não sou comunista tipo saudosista, na acepção estrita do termo, o autêntico comunista que se espelhava nos antigos regimes da URSS e da China. Dos tempos, em que para fazer jus ao título, o aspirante a comunista tinha que ralar, adquirindo uma sólida formação intelectual com base em leituras das obras clássicas de Engels, Gramsci, Rosa Luxemburgo, Adorno, Sartre, Marcuse e outros autores marxistas chiques que faziam furor entre a juventude rebelde dos anos 60. Pensadores esses cujos ensaios, vejo-me obrigado a confessar, como comunista de meia tigela que sou, conheço muito pouco.

    Nos círculos mais sofisticados da intelectualidade, era charmoso afirmar-se ‘de esquerda’, que significava ser esclarecido, em oposição aos burgueses alienados, presos a ultrapassados dogmas, desprezados por sua falta de conhecimento e de consciência social. Sim, caro leitor, houve uma época em que as pessoas cultas é que eram admiradas e valorizadas socialmente.

     Mas os ventos mudaram de direção. Nesses tempos de Inteligência Artificial e de bitcoins, quem é burro e rico é que tem prestígio. Naufragaram socialistas, emergiram socialites. Ser instruído perdeu o charme e o saber passou a ser mercadoria barata, acessível a um clique de mouse.

    No mundo atual, ganharam status os influencers que, com suas pregações vazias na internet, amealharam legiões de seguidores, que passaram a pautar sua visão de mundo não pelos grandes compêndios da literatura universal mas por curtas mensagens de WhatsApp. Assimilaram um entendimento estereotipado de como se comportam as coisas, que pode ser identificado pelo seu ideário: não acreditar na vacina, na ciência, nas escolas, no processo eleitoral, no STF, ser negacionista do clima, acreditar na balela da meritocracia, adotar a Bíblia como única fonte de informação confiável, ser avesso à cultura e às artes, não assistir a Globolixo, acusar os artistas de rapinarem dinheiro público pela Lei Rouanet e outros chavões que lhes foram impingidos pelos formadores de opinião.

    Caso não seja um desses pobres diabos cujo conhecimento (ou a ausência dele) foi homogeneizado pelas redes sociais, o leitor por certo tem algum parente ou algum (ex) amigo nessa condição. Trata-se de um padrão que certamente já foi identificado pelo leitor, a cujo comportamento bovino foi conferida a condição de ‘gado’. Perfeita descrição!

    Os mais extremados marcham pelas ruas pateticamente de verde amarelo, louvando o ‘mito’. Esses não têm mais jeito. Vivem uma realidade paralela, converteram-se ao terraplanismo, adotaram a religião neopentecostal rasa ou o ‘catolicismo’ medieval, rezam para pneus, pedem a intervenção de ETs etc. Alguns acamparam nos quartéis pedindo a volta da ditadura e vandalizaram as sedes dos 3 Poderes achando que estavam salvando o país do… comunismo. O próximo estágio será serem presos pelo Xandão ou irem para um manicômio pois perderam totalmente o senso.

    Esses seres simplórios fizeram valer para a palavra ‘comunista’ (ou seus congêneres, ‘esquerdopata’ e ‘petralha’) uma conotação pejorativa, quase como um xingamento, referente a um ente maléfico que devora criancinhas vivas e quer se apropriar dos modestos bens que possuímos para financiar o regime de Cuba e da Venezuela.

    Foram transformados em ‘comunistas’ todos aqueles que mantiveram ideias independentes, os críticos, os inconformados, os contestadores, os que pensam com a própria cabeça, os ‘diferentões’, enfim todos aqueles que, por uma razão ou por outra, não foram varridos pela maré pasteurizadora de imbecilidade que se apropriou dos corações e mentes, recusando-se a tornar-se panacas robotizados.

    Pela nova abrangente classificação, são considerados comunistas, quase todos os jornalistas, estudantes de universidades públicas, médicos do SUS, assistentes sociais, sociólogos, intelectuais, professores, jornalistas, historiadores, poetas, músicos, atores, cineastas, ambientalistas, naturalistas, veganos, esotéricos, umbandistas, pais-de-santo, muçulmanos, zen-budistas, iogues, ateus, feministas, gays, lésbicas, travestis, indígenas, quilombolas, ribeirinhos, capoeiristas, homeopatas, antirracistas, afrodescendentes, imigrantes, indigentes, moradores de rua, humanistas, excêntricos, democratas, defensores de minorias. Também se enquadram nessa categoria políticos das mais variadas estirpes como Lula, Simone Tebet, Marina Silva, FHC, Alckmin, Sarney, Doria, Kassab, ACM Neto, Rodrigo Maia, Helder Barbalho, Rodrigo Pacheco. E artistas diversos como Caetano, Gil, Maria Rita, Nando Reis, Daniela Mercury, Martinho da Vila, Zeca Pagodinho, Emicida, Marcelo D2, João Gordo, Odair José, Ivete Sangalo, Xuxa, Angélica, Fábio Porchat, Luciano Huck, Datena, Paolla Oliveira, Anitta, Pabblo Vitar, Luiza Sonza, Ludmilla, Valesca Popozuda entre tantos. Todos comunistas.

    Como pode ser deduzido, não sobrou muito espaço para quem não se filiar a uma das duas facções em que a sociedade ficou dividida: a dos comunistas e a dos babacas.

    Nesse sentido, mesmo sem comungar das ideias ortodoxas dos ‘comunas’ clássicos, mas ficando ao lado de todos aqueles que mantiveram a lucidez e o discernimento, ante o mar de boçalidade conservadora, posso proclamar com muito orgulho: SOU COMUNISTA!

    *Textos assinados não refletem necessariamente a opinião do portal Crônicas Cariocas. Liberdade de opinião é o nosso principal de pilar!

  • Para melhor agradecer

    Tenho lido críticas por parte de estudiosos da língua ao uso de “Gratidão” no lugar de “Obrigado”. Alegam que esse é um caso de pedantismo e não deve substituir a forma clássica com que nos acostumamos a reconhecer um favor. “Gratidão”, de fato, soa um tanto pomposo. É como se, com a escolha do substantivo, o favorecido quisesse enfatizar o sentimento e não simplesmente mostrar que dele está imbuído.

           – Já que você não pôde ir para o almoço, vim aqui lhe trazer uns sanduíches.   

           – Gratidão.

    Vejam que o beneficiário, ou beneficiária, não se limitou a mostrar-se agradecido(a). Evocou o que no ser humano é uma manifestação de grandeza de alma. Escolhendo o substantivo, leva o receptor a preencher todo um contexto elíptico (“Diante do favor que me fez, demonstro-lhe minha…”). Convenhamos em que isso torna o diálogo um tanto solene e pouco natural.   

    Risque-se então “Gratidão”, estou de acordo. Mas por que usar necessariamente “Obrigado”, e não “Grato”?  Este é sintético, franco, e não sugere nenhum prévio compromisso da parte do favorecido.

    No “Obrigado”, como se sabe, o contemplado “se obriga” ao dever da retribuição. Confessa-se compelido a retribuir o favor mesmo que não esteja sendo sincero. Fala mais por um dever social do que por um impulso espontâneo, que traduza o reconhecimento pelo benefício recebido.

    As coisas que fazemos por obrigação nem sempre são prazerosas. Quem já não ouviu de alguém a justificativa de que “fez porque foi obrigado”, ou seja, de que agiu de determinada maneira porque não tinha alternativa? Por que transferir essa possibilidade ao domínio das gentilezas e dos favores?

    Se “me obrigo” diante de alguém, tenho-o como credor ou juiz – tipos sociais que não nos acostumamos a ver com simpatia. O primeiro nos cobra, o segundo nos julga, e ninguém se sente à vontade quando submetido a tais injunções. 

    Sei que a sociedade se rege por obrigações de uns para com os outros. Mas não fica bem estendê-las ao domínio das reações espontâneas e afetuosas, como as que experimentamos diante de quem nos presta um favor ou concede uma graça. 

    Não vou deixar de dizer “Obrigado”, que já é um clichê e cujo esvaziamento semântico vem se estendendo ao plano morfológico. Tanto é assim que o vêm empregando tanto homens quanto mulheres (para desespero dos adeptos da linguagem neutra, que escolheriam “Obrigade”).

    Mas confesso que prefiro mesmo “Grato”, que não comporta nenhum dever retributivo e tem o mesmo étimo de “Gratidão”. Além do mais, sendo um adjetivo, enfatiza o estado do beneficiário e não a substanciosa grandeza do sentimento. Sem falar que ganha da concorrente pela extensão. Os manuais de estilo, como se sabe, recomendam o uso de palavras curtas, e por esse critério o dissílabo “Grato” é preferível ao polissilábico “Obrigado”.

  • Maria Lattes

    Eu tenho uma amiga que é Maria Lattes. Não, ela não é parente do Cesar Lattes, físico e prêmio Nobel ainda não reconhecido, e que dá nome ao serviço do CNPq que registra a vida acadêmica e profissional de pesquisadores e estudantes. Não sabe o que é CNPq? Pesquisa, vai, porque a estória que vou contar é outra.

    Como eu dizia, tenho uma amiga que é Maria Lattes. Não existe Maria Gasolina? Maria Chuteira? Então, ela é Maria Lattes. Só sai com alguém depois de checar o Lattes da criatura. Juro.

    O motivo faz sentido. Se tem um Lattes robusto é com certeza um homem inteligente, argumenta. Tem assunto, sabe dialogar, não é um bugre. Ou arú, como dizem no Pará, que é a mesma coisa que ignorante mas expresso com menos letras. E tambem uma espécie de sapo.

    Desisti de lembrar a ela que doutorado não é garantia de a criatura ser agradável. Ela sempre rebate e diz que ao menos é uma boa nota de corte social.

    Mas as vezes essa fissura no Lattes cria situações embaraçosas.

    Teve uma ocasião em que ela desmarcou o encontro porque o Lattes do cara era anêmico, palavras dela. Perguntei porque ela tinha marcado sem antes ver o bendito Lattes. Embaraçada ela me estendeu o celular com a foto do cidadão. O cara tinha bom fisico e sorriso confiante, pouco cabelo na cabeça é verdade, mas com mestrado em química em universidade europeia.

    Ela admitiu que marcou por puro entusiasmo inicial. Mas no exame do Lattes, dançou. Ela descobriu que ele estava há um ano sem publicar artigo. Preguiça intelectual é inconcebível, disse-me ela e completou o veto me informando que o cara declarou que na juventude tinha sido remador do Vasco. Ela bufou e, ao descartá-lo disse, Lattes anêmico e eu sou rubro-negra? Sem chance desse arú encostar em mim!

  • A maldição suspensa sobre a história!

    Nosso mundo altivo com defeitos e qualidades, ainda é o único lugar que possuímos pra ficar e respirar normalmente.  

    Por isso não é possível aceitar um bebê fujão que foi devolvido para a barriga da mamãe, porque achou esse lugar horrível, sendo necessária realização de uma manobra chamada parto reverso. Ele não queria assumir sua responsabilidade em sobreviver aqui fora, porque, ao final das contas, é o que devemos aceitar na chegada aos berros na maternidade. 

    O filme “Bardo, falsa crônica de algumas verdades” é onde se passa essa história maluca, de um bebê que preferiu retornar ao útero de sua mãe, ao invés de se adaptar ao frio recém tocado. 

    Essa é a obra mais pessoal do Mexicano Alejandro González Iñarritu, que já ganhou quatro estatuetas do Oscar. O filme não tem estrutura, ordem cronológica ou lógica, é como um sonho sendo dirigido, onde seu centro é a emoção, e ali foi criada uma autoficção íntima. 

    Assim como essa aventura no parto, o professor de psicologia Christopher J. Ferguson, escreveu no livro “Como a Loucura Mudou a História”, sobre diversas personalidades já bem crescidas, importantes em suas comunidades pelo planeta, que provocaram o mal a seu povo, devido aos seus desvios de conduta e práticas maldosas, culminando na desgraça dos povos a seus pés. 

    As interações, natureza/criação, foram as bases para entender o comportamento de Alexandre o grande, que possivelmente seu avanço furioso para a Pérsia, teria sido explicado por Sigmund Freud como sendo o complexo de Édipo de maiores consequências em toda nossa história. Agia de uma forma que hoje chamaríamos de transtorno de personalidade narcisista, e com a dependência de álcool, desfilava arrogância, temperada a falta de empatia com as necessidades dos outros. 

    Outro personagem com passado marcado de sangue, foi figura carregada de ódio em suas mãos durante seu governo, e assim como o ego frágil não lida bem com o fracasso provável, o Sr. Idi Amin se manteve megalomaníaco, no tempo em que presidiu a Uganda, após um golpe militar em 1971, onde esfacelou mais de duzentas mil pessoas durante seu regime terrorista. Quando criança teve uma relação conflituosa com seu Pai, que o rejeitou, e talvez por isso necessitou praticar um governo inteiramente em torno de si como compensação. Retire a maldição suspensa sobre a história, e ela desaparece, assim como a existência. 

    Idealmente sonhamos que nossos governantes ao chegar no poder, com o povo em suas mãos, pudessem agir como no texto a Kénosis Paulina, onde ocorre a transformação do apóstolo Paulo, ao encontrar-se com Jesus de Nazaré, transmuda seu existir, e com lucidez cristalina, opta por “perder tudo, para tudo ganhar”.

  • O umbigo de Faustino

    Dentre todas as anomalias enfrentadas no consultório durante esses trinta e seis anos, a mais estranha foi a de Faustino. Jamais encontrei alguma lógica no seu transtorno, nem sequer cheguei a compreender o processo de cura. Um caso realmente complexo e sem registros na literatura médica. Cheguei inclusive a debater o assunto com um professor da Faculdade de Medicina no Turfe, embora não gostasse de falar sobre os pacientes fora do trabalho. Apostei errado aquele dia. Ele também nunca ouvira falar de doença parecida.

    No início cogitei escrever uma tese sobre o assunto. Achei que tivesse descoberto uma nova patologia para batizá-la com meu sobrenome. No entanto, como até hoje não encontrei uma explicação plausível, fui obrigado a abster meu ego da imortalidade.

    Fiquei tão absorto naquela anomalia que me desliguei das mais simples atividades diárias. Deixei de fazer a barba por semanas, vestia-me com desleixo, dava duas ou três garfadas em cada refeição e recorria ao álcool diariamente. Os demais pacientes me enfastiavam e, no fim das contas, pareciam crianças tolas e simplórias querendo atenção. Aos poucos, uma espécie de desânimo tomou conta do meu corpo. Minha esposa obrigou-me a visitar um colega a quem sempre tive demasiado apreço. Só então é que lentamente voltei a tomar as rédeas da minha vida, com breves recaídas, no entanto.

    Até hoje me pego pensando em Faustino. Mesmo após tanto tempo, ainda recordo o momento em que entrou no consultório com expressão desesperada, usando calça jeans e camisa vermelha. Inquieto, balançava desordenadamente as pernas e mirava o relógio a cada trinta segundos. Ainda que a aflição fosse comum no nosso dia a dia, Faustino tinha algo mais sombrio e trazia consigo um aspecto assustador. As enfermeiras o evitavam. Depois daquelas quatro ou cinco consultas, jamais tornei a vê-lo.

    Faustino enxergava apenas o próprio umbigo. Não conseguia distinguir o rosto de ninguém, nem sequer o seu, quando em frente ao espelho. Nenhum ser humano lhe era perceptível. Tudo o que via era o próprio umbigo. Aconteceu numa terça-feira.

    Quando acordou, o seu rosto não estava no espelho, o rosto do porteiro do seu prédio não estava na janela da guarita, os rostos dos colegas de trabalho não estavam nos lugares devidos. Todos eram múltiplos do seu umbigo. Faustino sabia perfeitamente que aquele era o seu umbigo porque só ele poderia conhecê-lo tão bem.

    Pensou estar delirando. Poderia ter ingerido algum alucinógeno por engano, comido algo estragado ou vencido, afinal, não conferia os alimentos da dispensa antes de prepará-los. A ansiedade o corroía a cada novo acordar porque acreditava que uma boa noite de sono encerraria tal pesadelo. Sua angústia só aumentou.

    Uma semana depois teve uma crise de pânico no supermercado e decidiu me procurar. Não sei por que me escolheu. Talvez fosse o único com horários em aberto no dia. O sofrimento de Faustino era comovente. Ele dizia me conhecer pela voz, pois via o seu umbigo sobre o meu pescoço, sobre o pescoço da secretária, das enfermeiras, dos outros pacientes e médicos na clínica. Não fosse pela voz, poderia ser atendido a cada consulta por uma pessoa diferente.

    Busquei referências médicas para aquele problema. Procurei na prosopagnosia, consultei especialistas, mas não havia relatos de pacientes que enxergavam só o próprio umbigo. Um dos especialistas chegou a rir quando mostrei o histórico de Faustino e me deixou constrangido. Pesquisei em publicações estrangeiras e comprei até um compêndio sobre medicina oriental. Não encontrei uma só linha sobre o assunto nas publicações científicas de então e, arrisco dizer, até hoje não há.

    Na consulta seguinte, expliquei-lhe que não havia referência para o seu transtorno. Inconformado, Faustino teve uma crise nervosa e ergueu a camisa aos gritos para mostrar-me o umbigo que via multiplicado, dezenas, centenas, milhares de vezes em todo e qualquer lugar. Já nessa consulta eu estava absorto no caso. Pouco pude fazer e o dispensei sem uma única palavra de conforto. Temi por sua segurança.

    Dias depois, adentrou abruptamente ao consultório enquanto eu atendia uma jovem acompanhada da mãe. A secretária não conseguiu contê-lo, tamanha a excitação em que estava. Faustino correu para me abraçar, agradeceu efusivamente inúmeras vezes e, em lágrimas, media-me como a querer fotografar meu rosto. Saiu falando alto e agradecendo aos funcionários no corredor.

    Aquela cena esdrúxula me rendeu alguma distinção e desde então a minha agenda passou a ficar abarrotada. A jovem que atendia no momento tratou-se comigo por uma década e seguidamente recordava do paciente emocionado que havia invadido a sua consulta.

    O repentino prestígio apareceu justamente quando o meu autocuidado estava em baixa. O que me intriga nesse caso não é a cura, afinal. O problema não é esse. Às vezes os pacientes adoecem e melhoram sozinhos, não é segredo para ninguém. O problema que até hoje me deixa cismado é outro. Quando Faustino ainda enxergava apenas o próprio umbigo e ergueu a camisa naquela crise nervosa, o umbigo não estava lá.

  • A coleira do cão e a coleira do homem

    Um homem de “maus bofes” passeia pela rua com seu cachorro de estimação que, apesar do jeito ranzinza do seu dono, vai caminhando ao lado dele alegre, saltitante, interessado, bem mais que o seu dono, nas alegrias do mundo.

    A alegria do cachorrinho é fascinante, parece totalmente livre e independente do péssimo humor do seu dono; homem que, ao contrário do cachorrinho, é quem parece estar numa coleira. Invisível, sim, mas uma coleira de qualquer forma.

    Bom, pessoalmente, gosto de um trecho das Escrituras Sagradas que diz que “Basta a cada dia o seu próprio mal”; o problema é que, preso por uma coleira invisível amarrada ao pescoço, o homem vai imerso nos seus pensamentos, apegado ao seu humor, sua má sorte; ao contrário do cachorrinho de estimação dele, que celebra dos primeiros raios de sol, cumprimenta os desconhecidos na rua com olhos sorridentes, pula, agita-se, late e, para desgosto do dono, puxa a coleira, arranca o dono de seus pensamentos automáticos, seu jeito robótico e aí o homem puxa violentamente a coleira do cachorro, puxa com raiva.

    Ora, a mesma cena vi em outros dias, outras praças quando, cúmplices da alegria do bicho de estimação, outros donos soltavam a coleira e deixavam o cachorro correr livre, olhavam de longe, deixavam o bichinho gastar energia, experimentar a alegria, o sol da manhã. Depois, chamavam o cachorro pelo nome, pegavam a coleira de volta, seguiam o rumo numa amizade tão bonita de se ver.

    Porém (ah, porém), este não é o caso do homem que vai agora na rua. O cachorro e seu dono, visivelmente incompatíveis, seguem o rumo deles até que, já distantes de mim e do amigo que voltava  comigo de um bloco de carnaval, somem das nossas vistas para sempre.

  • pausas: cotidiano em . p.o.n.t.o.s .

    Bateu.

    O passarinho no vidro imóvel do topo da porta da varanda. Reflexo de algo ou transparência que não parecia obstáculo? Não se sabe. O barulho foi intenso e assustou a menina, que estava naquela casa, sozinha com seu cachorro. Ambos prestaram atenção, alertas. Silêncio.

    Bateu.

    Uma mão contra a outra. Uma vez. Duas. Três. Silêncio. De novo; uma voz auxilia o movimento. Nada.

    A campainha não funciona ou… não há ninguém? Sem sinal – de vida. Repetição do processo: mãos que se encontram quase sem se sentir, tão ágeis. A voz. Um assobio. Silêncio.

    Bateu.

    O líquido com a fruta, num redemoinho premeditado. Tensão que transforma uma coisa em outra coisa para outra coisa. O metal corta e estraçalha. O barulho distrai os acontecimentos em segundos de quase alquimia. Muito barulho por nada?
    Suco.

    Bateu.

    A sensação de frio, por todo lado; o sol se esconde, o vento se faz perceber. O piso é frio, contra a pele prévia e deliciosamente aquecida. Temperatura em vertigem. Calma. Abrir de olhos, céu todo branco.

    Bateu.

    A saudade do momento antes, que já se foi, morno como um abraço infinito, aquecendo o turbilhão da vida contemporânea. Sangue que corre vívido no corpo, como o vinho é agitado na taça antes de ser aprovado.

    Bateu.

    Tum

    Tum

    Tum

    Tum

  • PODRES PALAVRAS

    Elas não constam de glossários de expressões chulas. Não podem ser categorizadas morfologicamente. Têm em comum apenas a repulsão que provocam, por mais subjetiva e arbitrária que seja essa agregação.

    São repugnantes por natureza. Trazem o signo do horror em suas entranhas. Assim que ouvidas ou lidas, antes mesmo que nosso racional processe a interpretação de seu presumível significado, batem direto no emocional provocando imediata rejeição. Mantém linha direta com o lado obscuro do cérebro, fazendo emergir conteúdos e imagens que preferíamos deixar quietos nos porões do esquecimento.

    Mas afinal de onde provém essa condição? Poder-se-ia argumentar tratar-se de um fator cultural. Eu diria que mais provavelmente seria um fator gutural.

    Mas uma dúvida persiste. Foi seu subjacente conceito que contaminou sua forma? Ou sua fealdade orgânica tem um liame subliminar com sua presuntiva acepção?

    O fato é que, ainda que sem revelar para que vieram ou de onde surgiram, sua mera pronúncia provoca um indisfarçável desconforto, um mal estar no estômago, eventualmente até mesmo um arrepio.

    São podres palavras, palavrões no sentido mais extensivo do termo.

    ***

    Esgoto, escroto, escopo, estupro, zigoto, peçonhento, bucéfalo, jurássico, chumbrega, mequetrefe, rebuceteio, ricochete, ambivalente, volúpia, interregno, escroque, imberbe, pundonor, hecatombe, hediondo, aborto, absorto, nu, cru, suruba, bacanal, cafuné,  outrossim, ulterior,  visigodo,  macumba, ufano, carcaça, jaez, treta, opróbrio, taciturno, pusilânime, macambúzio, birrento, banzo,  sorumbático,  gárgula, lamuriento, bricolagem, belzebu, quiproquó, barafunda, muvuca, grotão, aziago, ungüento, tara, pamonha,  busílis, úvula, galhofa, cabotino, probo, apedeuta, truculência, brucutu, vuvuzela, quasímodo, chinfrim, putativo.

    Estapafúrdio, esdrúxulo, bombástico, estrambótico.

    Bagulho, bugiganga, espelunca, geringonça.

    Sovaco, chulé, arroto, flatulência.

    Fétido, fedorento, pútrido, putrefato.

    Mocréia, bruaca, muxiba, baranga.

    Cafuzo, mameluco, chibarro, curiboca.

    Nauseabundo, moribundo, furibundo, meditabundo.

    Úmido, túmido, túrgido, tumefacto.

    Chorume, estrume, azedume, negrume.

    Bruto, xucro, ogro, bronco.

    Sacana, safardana, sacripanta, salafrário.

    Velhaco, gatuno, gaiato, larápio.

    Biltre, pulha, crápula, calhorda.

    Roxo, lixo, coxo, mixo.

    Nojo, bojo, jugo, mijo.

    Vômito, pus, cuspe, gosma, muco, pigarro, escarro, urina, caca, baba, estrume, cerúmen, seborréia, fleugma, remela, espirro, esporra, esperma, excremento, meleca.

    Frieira, íngua, ferida, prurido, comichão, cólica, brotoeja, bulimia, disfagia, câimbra, torcicolo, sudorese, hemorróida, icterícia, náuseas, herpes, lúpus, sarna, urticária, enjoo, vertigem.

    Úlcera, lepra, peste, gangrena, cirrose, esclerose, brucelose, trombose, toxoplasmose, esquistossomose, esquizofrenia, hipofibrinogenemia.

    Aids, ebola, chicungunha, zicavírus.

    Mufumba, chaboque, sapiranga, mondrongo.

    Sarcoma, linfoma, mioma, carcinoma, neoplasma, abscesso, furúnculo intumescência, cisto, quisto, cancro, câncer, metástase, pústula, fistula, hiperplasia, fibrose, necrose.

    Intestino, esôfago, estômago, pulmão, pâncreas, abdômen, tórax, cóccix, sacro, peritônio, amígdala, panturrilha, queixo, vômer, fêmur, úmero.

    Útero, prepúcio, testículo, vagina, ânus, pélvis, pênis, púbis, vulva, uretra, pentelho.

    Medonho, soturno, nefasto, funesto, fúnebre, lúgubre, mórbido, tétrico.

    Túmulo, caixão, cova, sepultura, esqueleto, carcaça, cadáver.

    Cemitério, necrotério, crematório, sepulcrário.

    Sanatório, hospital, hospício, manicômio.

    Podólogo, otorrino, obstetra, geriatra.

    Cauterização, curetagem, traqueotomia, lobotomia.

    Tumor, dor, torpor, terror, temor, horror, pavor, tremor.

    Buchada, rabada, galinhada, vaca-atolada, barreado, guisado, linguado, angu, caruru, sururu, aratu, tutu, umbu, pururuca, bobó, quibebe, xinxim, jerimum.

    Espinafre, alfafa, chicória, repolho, nabo, quiabo, inhame, jiló, jaca, cajá, caju, caqui, kiwi.

    Churrasco, chuleta, maminha, coxão.

    Carne-vermelha, febre-amarela, catarro-verde, baleia-azul.

    Glutamato, glifosato, transgênico, Monsanto.

    Glúten, nugget, nutella, miojo.

    Rinha, rodeio, vaquejada, muay-thay.

    Roto, rito, reto, rato.

    Porco, bode, bezerro, burro, cachorro, ornitorrinco, fuinha, texugo, cachalote, esturjão, barracuda, arenque, paca, pacu, baiacu, pirarucu, urubu, peru, jacu, anu, corvo, gralha, rola, pinto, carrapato, cupim, lacraia, lesma, lombriga, percevejo, escaravelho, marimbondo, gafanhoto.

    Colchetes, parêntesis, travessão, gerúndio, cacofonia, anacoluto, onomatopéia, antonomásia, catacrese, anfibologia.

    Vara, alvará, estelionato, carceragem, ouvidoria, glosar, ab-rogar, impugnar, prevaricar, tergiversar, locupletar,  tutela, concordata, hipoteca, precatório, caução, esbulho, estagflação.

    AI5, HIV, PCC, STF.

    SUS, SAMU, PIS-PASEP, BOVESPA.

    Bolchevique, Gulag, Glasnost, Perestroika.

    Azerbaijão, Cazaquistão, Uzbequistão, Quirquistão, Turcomenistão, Tadjiquistão, Baluchistão, Curdistão, Chechênia, Andorra, Bósnia, Bulgária, Kosovo, Luxemburgo, Liechtenstein, Budapeste, Praga, Tirana.

    Fatah-Al-Islam, Taliban, Boko Haram, Ku Klux Klan.

    Hezbollah, FARC, ETA, Baader Meinhof.

    Putin, Pinochet, Pol Pot, Papa Doc.

    Tzar, Salazar, Bashar, Muammar.

    Nero, Calígula, Torquemada, Maquiavel.

    Mengele, Ulstra, Bolsonaro, Garrastazu.

    Ditadura, tortura, clausura, viatura.

    Cárcere, cadafalso, calabouço, cala-boca.

    Mordaça, porrada, porrete, cacete.

    Zebedeu, Zaqueu Zulmira, Zoroastro.

    Odebrecht, Richtofen , Nardoni, Abdelmassih.

    Brutus, Luthor, Vader, Voldmort.

    Hannibal, Godzilla, Poltergeist, Pulp Fiction.

    Akira, Naruto, Pokemon,  Pikachu.

    Rutger Hauer, Heth Ledger, Renée Zelweger, Van Diesel.

    Snoop Dogg, Tupac Shakur, Dr Dre, Shaggy.

    Safadão, Marrone, Teló, Ludmilla.

    Popozuda, Catra, Tchan, Créu.

    Fuck, funk, punk, crack.

    Google, Netflix, Huawei, Bitcoin.

    Uber, Trivago, Hopihari, Agro é pop.

  • Alguém mais a viu por aí?

    Estou convencida de que a felicidade, aquela menina nada popular e tão cobiçada por nós, é fruto de uma disponibilidade interna para o bom estado de espírito. A menina parece acompanhar somente os que desfrutam de uma inclinação nata para viver no agora ou os que são habitados por uma espécie de fé, inabalável, na pureza dos seres e na dinâmica generosa da vida. 

    É possível, também, que sua presença seja consequência de alguma alteração na estrutura do globo ocular. As pessoas que caminham em sua companhia devem ter mais células cones, o que levaria à percepção de um mundo mais colorido. 

    É curioso perceber que eles não carecem de bens materiais, atributos físicos, grandes oportunidades ou sorte no amor para cultivarem uma brisa fresca e aromatizada alma. Certamente, seus eleitos têm como atributo um refinamento dos sentidos, uma poética do existir, uma relação estreita com as manifestações da arte (cantar, tocar, dançar, escrever, ler, interpretar, pintar).

    Os urgentes, os assoberbados de sucesso, os competitivos e os covardes pegam atalhos que impedem o encontro. Ela não é de amassos, demanda carinho, peito aberto e mente livre de manuais de conduta.

    Hoje, no aeroporto do Galeão, entre os viajantes não a encontrei. Sabe onde ela estava? No banheiro, na cantoria apaixonada da funcionária da limpeza. 

    Ah, felicidade… o que te seduz é a leveza do descomplicado. O conforto do simples. A graça escondida nos pequenos detalhes, na alegria do hoje.

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