Outro dia, me lembrei de uma frase que me caiu no colo de graça no Instagram. É de Mário de Andrade: “Viver é gastar a vida e não conservar a vida”. E eu penso: às vezes, a gente economiza tudo – até o que não era pra economizar. Economiza amizade, esperando a pessoa perfeita, aquela que preenche todas as necessidades, que não enche o saco, não cobra e não liga na hora errada. O amigo sem defeitos. E, com essa exigência toda, quantos amigos a gente deixa passar?
Às vezes, economiza o riso. Ri pouco, preocupado se alguém está olhando. Queremos gargalhar de uma piada boba ou dançar soltos, mas guardamos tudo. Esses dias, fui no Bloco do Padreco – um pré-carnaval aqui em Belo Horizonte, no mesmo dia da Banda Mole. O bordão diz que “o carnaval só começa quando a Banda Mole passa”. Pra mim, só começa quando o Bloco do Padreco sai. Perto dos músicos, na comissão de frente, um grupo de freirinhas que se reúnem todo ano atrás da igreja. Fui com um amigo: duas freirinhas desgarradas rezando no meio do bloco. Tinha de tudo ali – freiras perdidas, padres bêbados, homem das cavernas, Batman. Ninguém economizava nada. Risos? Sambavam à vontade, dançavam e quebravam tudo até onde a coluna permitia. No resto do ano, essa turma só se encontra no pré-carnaval.
Fico pensando: em que época do ano a gente gasta a vida sem ser no carnaval? Em que momento chega pra um estranho, ali meio sozinho na porta de um bar, e o leva pro meio do bloco? “Ei, não fica sozinho, vem brincar com a gente!” Gasta-se torto e a direito aquilo que não era pra economizar: amor, amizade. Quando pinta um clima, uma paquera, basta olhar de longe e sorrir com os olhos, esperando o convite. No resto do ano, a gente se quer, mas olha pro lado – tanta pressa de ganhar dinheiro, fazer coisas, pagar contas.
A chuva não poupou ninguém. A multidão se aglomerava, se espremia perto da padaria na Praça Geraldo Torres. De vez em quando, alguém se animava e voltava a dançar na chuva. Fora do carnaval, mal nos olhamos. Vestida de freira, rezando pela alma dos pecaminosos, vi uma Kombi com “Carreto” escrito. Anotei o número, tirei uma foto sensual e mandei pro cara. O carnaval liberta, solta. Enquanto o bloco cantava “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga, “Marcha do Saca-Rolha”, “A Cabeleira do Zezé”, a energia que a gente economizou ia pro ralo. Gastamos a vida e, de certa forma, nos renovamos. Não há tristeza que sobreviva àquela algazarra toda – ela vai pra algum lugar.
Carnaval deveria ser o ano inteiro. No fim do bloco, comentei com um amigo: “As pessoas andam tão sozinhas, só os celulares conversam pelas ruas. Mas é daquilo que a gente fez no Bloco do Padreco que sentimos falta”. Aquele abraço amigo em gente desconhecida, quando o estranho vira parceiro e os olhos sorridentes viram possível amor. E a música? “Toque que a gente vai pro meio do bloco e não se segura”. É disso que precisamos o ano todo – disso que vivemos em quatro dias intensos.
Próximo ao céu, onde nenhum obstáculo além de uma escada de marinheiro me separa do Cristo Redentor, a certeza de que nada é estável me invade. A mutabilidade da paisagem, colorida a cada noite por nuances de distintos pigmentos primitivos — esparsas, turvas, momentâneas — fere um órgão qualquer, apertado entre oxigênio, responsabilidades e preocupações.
(— Não dói porque é frágil, diz uma voz que não vem de mim. Dói porque ainda sente.)
Vejo, a princípio, uma face altiva e quase saudosa, a guardar uma das sete maravilhas do mundo moderno. Nada mais importa, por toda a eternidade. Eis o grandioso que se inclina, curioso, diante do que é genuíno, ainda quando o rosto é o morro dos Cabritos.
(— Eternidade também cabe no intervalo de um gole, murmura Ele, sem mover os braços.)
Telhas sombrias e arbustos naturais, adornados por flores hipotéticas, transbordam sabedoria a respeito da irrealidade do tempo presente. A noite tem cor de um veludo azul, feito em máquina de tinta de catálogo. Parece reproduzível, parece transportável — mas não é; depende da base.
(— Depende de quem olha, suspira o corpo ao lado, em repouso confiado. Eu entendo.)
Damos sentido às coisas pelo breve capricho de acharmos que tudo tem de fazer sentido. O mundo não faz sentido: respira, sente, reage, morre e nasce todos os dias. Ainda que luzes vigilantes enrubesçam os céus para que humanos notívagos brinquem de ser pássaros – cruzem altitudes, pulem de um país para outro, de uma cidade para outra, de um parapeito no térreo de uma serra para um na cobertura de uma praia.
E então, como se quisesse confirmar a metáfora, um pássaro atravessa a noite e pousa quase ao meu lado. Assusta. Meu corpo reage. O coração dispara. Mas o reflexo vem mais leve do que antes. O medo passa rápido. O alívio afrouxado em um riso maduro vem depois.
(— Ainda há espaço para o inesperado.)
Grilos cantam em um e em outro lugar. A brisa é mais fresca nas horas adormecidas, embora janelas sem cortinas — ou pessoas calorentas — permitam que suas intimidades sejam mais soltas quando quase todos dormem. Prédios inteiros estão sem luz; alguns se destacam por suas temperaturas de cor muito particulares: branco quente, branco neutro e tantas cores possíveis pela tecnologia em que células programadas para telefonar transfiguraram-se em extensões de nós.
Ouço música clássica pela saída do áudio do celular, cigarras nas matas dos arredores, motores de máquinas que se dizem silenciosos, conversas ininteligíveis ao longe, motos, carros e um pingar compassado de alguma torneira, não muito distante. Repousa ao meu lado uma xícara de café e uma presença que reconhece meu tempo — não pede explicações, não exige permanência.
Com ela atravesso sinais fechados sem perder impulso: sigo na garupa da bicicleta enquanto as rodas descrevem círculos breves, atentos, até que o mundo permita a passagem. De madrugada, numa avenida larga e quase vazia, o som alto ocupa o espaço e o volante vira dança. A cidade se abre como se fosse só nossa — não por posse; coincidência rara. Existem encontros que não pedem promessa, só reconhecimento.
O tempo é relativo. As pessoas são relativas. E as pessoas são as mesmas de antes: sorrisos que despertam sentimentos de nós mesmos, tão endurecidos pelo correr dos dias.
Choro, sentada no parapeito. Me sinto uma coruja com minha cafeína líquida. Um pouco de mim se desfaz a cada segundo e tenho medo de o mundo acabar num instante — como acabou para o meu pai, para o meu avô, e há de acabar para o meu cachorro, e para meus filhos, se um dia existirem.
Tenho em mim a sede genuína de um viver desembestado, um cavalo selvagem em meio a um descampado. Livre. Leve. Vivo. Sem destino pré-concebido.
De esguelha, entrescondo a pergunta que Ele já sabe que aflige meu peito:
Quanto tempo?
Quanto até que meus olhos se fechem pela última vez, aqui?
Quanto até o último café, o último beijo, o último êxtase, a última visão, a última palavra?
Quanto de tempo hão meus cabelos, pele, sangue e respiro de testemunhar, para que minha mente se aquiete com tanto a se fazer e conhecer?
Sentada nesse parapeito, em conversa honesta e silenciosa com o Redentor, choro.
Não sei se de tristeza, de felicidade, ou apenas de equilíbrio — nessa minha vida em que as energias poderiam se carregar por um apetrecho qualquer, desenvolvido para me manter desperta. A todo momento.
Que pode ser o derradeiro. E também o único. E o primeiro.
Muito se fala dos super ricos, grupinho reduzido de privilegiados que amealham fortunas tão descomunais que fazem o Tio Patinhas parecer um pobretão.
Erguem mansões em localidades diversas com dezenas de cômodos em mármore maciço e um séquito enorme de serviçais, bunkers antinucleares, coleções de carros blindados, iates, jatinhos, joias e objetos de luxo. Possuem zoológicos particulares com animais exóticos (em extinção). Constroem banheiras de ouro e privadas cravejada de brilhantes para dar um tratamento vip até à saída de seu cocô.
Investem em terras, fazendas, gado, ilhas paradisíacas, fundos exclusivos, startups, e outros ativos cujos rendimentos e valorização lhes permitem fazer o seu patrimônio crescer indefinidamente. Tal qual seu ego. E sua ambição. Sonegando impostos para perpetuar a riqueza em sua integralidade.
Não sabendo o que fazer com tanta grana acumulada, promovem festanças nababescas em hotéis 6 estrelas com shows de artistas super stars (super ricos também) e organizam turismo espacial de lazer para outros super ricos gastarem seu tempo em frivolidades inacessíveis aos demais mortais.
Não bastasse, fazem lobby sobre os governantes para direcionar os rumos das políticas para atender a seus propósitos particulares de maneira que os destinos da humanidade a eles se subjuguem.
Não se importam também em rapinar os recursos da Terra em benefício próprio, ameaçando a existência de todos os seres vivos, inclusive deles próprios. Colocam os bens materiais acima de tudo inclusive da vida.
Na outra ponta, na base da pirâmide social, uma imensa maioria de indivíduos padece de fome e sede e luta pelas migalhas que os permitam sobreviver: são os super pobres.
Para um visitante do espaço que descesse à Terra, tamanha desigualdade seria inconcebível. Qual a lógica em os terráqueos aceitar passivamente uma sociedade em que muito poucos têm bilhões enquanto bilhões têm muito pouco?
A chave para a compreensão desse quadro bizarro é que os super ricos contam paradoxalmente com a condescendência dos super pobres para manter o status quo.
Os super pobres não se revoltam, nem se organizam para pressionar por mudanças que melhorem sua situação relativa. Aceitam humildemente a superexploração a que são submetidos. São também super pobres de espírito.
Opostamente ao que imaginara Marx em sua ‘luta de classes’, esses falsos ‘coitadinhos’ enxergam como seus reais inimigos não os abastados donos do capital, mas os demais pobres a que consideram fracassados e os imaginam como concorrentes na batalha para a ascensão social. Se não obtiveram sucesso nessa empreitada utópica para ‘subir na vida’ é por não terem se esforçado suficientemente. E passam a trabalhar dobrado, tornando-se além de super pobres, super esgotados.
Acatam a ideia de que aqueles que se encontram em situação aflitiva foi por desígnios de um Deus que premia materialmente apenas quem é bem sucedido como empreendedor.
Admiram os bem aquinhoados que, graças a seus esforços, teriam alcançado a bem aventurança traduzida por uma vida de luxúria, ao gosto do Cristo corporativo que dirige a humanidade não de um trono celestial, mas acomodado numa cadeira ergonômica de couro num smart office com ar condicionado. Que está mais para CEO do que para o céu.
São os super pobres que abastecem com seu dízimo os pastores charlatões. São eles que elegem com seu voto os políticos corruptos e que enriquecem com sua atenção influencers picaretas. São eles que seguem os mandamentos dos impostores midiáticos que os convencem sem questionamento de lorotas persuasivas.
Os super pobres menosprezam a educação que poderia fazê-los compreender a exploração e ignoram a palavra daqueles que os exortam a entender a dura realidade. Preferem viver na ilusão e se apegar à religião que lhes ensina o conformismo e a submissão.
Sim, os super ricos podem continuar a se esbaldar à vontade. Contarão sempre com a benevolência dos super pobres.
Costumamos dizer que seguimos com a mesma garra, a mesma força, a mesma independência, os mesmos “superpoderes”, embora já tenhamos atingido determinada idade.
No fundo, porém, penso que isso talvez seja uma escolha. Optamos, de forma racional, por manter uma aparência de força. Decidimos seguir.
Ainda assim, creio que nos tornamos, sim, mais fragilizados, mesmo quando estamos bem de saúde, com autonomia e em boa forma física. É como se, pouco a pouco, fôssemos esvaziando o estoque da nossa força emocional.
Passamos a querer andar sempre em dupla. Reparem como muitos casais idosos realizam quase todas as atividades juntos. Ou mãe e filha, duas irmãs, dois amigos inseparáveis. Essa constatação se deu tanto pela observação de outras pessoas quanto pela observação de mim mesma.
Há, no entanto, aqueles que preferem a solidão. Gostam de estar sós, apenas consigo. Desses se diz que cultivam a solitude. Ficam sós por escolha e sentem-se preenchidos de si mesmos.
A solitude pode demonstrar força, garra e independência. Ou talvez revele pessoas que, com o avançar da idade, tornam-se mais recolhidas, avessas a reuniões, festas e encontros. Arredias…até ermitãs, chegando a ser intolerantes.
Eu mesma me percebo dividida entre esses dois tipos de idosos.
Creio que há também aqueles que são emocionalmente frágeis, mas optam por não demonstrar essa fragilidade. Em razão disso, afastam-se da vida social. Recusam situações em que se espera afabilidade, troca, interesse pelo outro, como festas, reuniões e encontros.
Não tenho vergonha alguma em ser surpreendido. Já superei faz muitos anos aquela necessidade de ter que mostrar que sabia de tudo antes de todos.
Desprezo a sensação de poder que a clarividência traz.
A verdade é que adoro não saber das coisas antes que elas aconteçam.
Toda vez que eu converso com alguém que me diz “eu já sabia” eu me alegro por nada saber antecipadamente. Sou curioso, como todo mundo, mas não perco meu tempo tentando adivinhar.
Por dever de oficio de escrita sinto prazer em imaginar situações, futuros alternativos, caminhos diferentes. E se ao invés de entrar naquela pizzaria às moscas eu tivesse ido embora para casa? E se ela tivesse jogado fora meu bilhete ao invés de ler o pedacinho de papel, sorrindo com a ousadia? Pois é, esse exercício é legal porque não antecipa algo na sua linha do tempo mas propõe alternativas para o que já passou.
Voltando.
Não quero ser adivinho. Não desejo ser blasé ou falar com tom morno e fazer aquele ar superior que acompanha as três palavrinhas “eu já sabia”. Dispenso o pedantismo expresso nessas palavras.
Antecipar o trivial, o cotidiano é perder a oportunidade de voltar a se portar como criança. Sim, criança mesmo, rindo do novo porque é novo, é inédito. Com aquele riso frouxo carregado de esperança porque a novidade veio para nos alegrar.
Por isso repudio a soberba dos que olham altaneiramente a vida, com eterno ar de deja vu.
Quero ser testemunha da estréia.
Quero participar dos fatos.
Quero me emocionar com as novidades.
Quero sorrir ante a surpresa.
Quero deixar o coração saltar alegre pelo inesperado.
A discriminação e o preconceito social contra pessoas com alguma deficiência, são vistos como normais em sociedades desinformadas ou mal-intencionadas, e essas pessoas são entendidas como exceções; eles creem que a deficiência é algo a ser superado ou corrigido, se possível por intervenção médica.
Um exemplo de postura inadequada, é dirigir-se ao acompanhante de uma pessoa com deficiência física, ao invés de dirigir-se diretamente à própria pessoa.
Atitudes renascentistas como essa, desfilam nos lares das cidades que as acolhem, ocupados com números, objetos, teorias preconceituosas, ou por vezes, nada.
A história nos mostrou que os franceses condenados, nos anos de 1757, eram levados a praça pública para cumprirem sua punição no fogo, cera e enxofre, porem menos de cem anos depois, o vigiar e punir, foi transformado em treinamento aos detentos, com disciplina, e frequência às aulas, em dois períodos diários, sendo uma demonstração de progresso e desenvolvimento humano. Naquela França do século XVIII, era clara a evolução das mentes, voltada para um objetivo, a busca da inserção social. E cada sociedade se constituiu, no desejo de ser acolhida como um entendimento ao progresso intelectual de seu povo, sem desfile de capacitismo.
Hoje assistimos o povo Afegão batendo de frente novamente com o islamismo, praticado ao pé da letra pelo Talibã, esse mal milenar. As mulheres voltam a perder seus direitos, o povo se vê oprimido, e o poder se instaura de forma retrógrada e destruidora.
O estilo fiscalizador do talibã, pune radicalmente seus opositores, e anuncia cumprir a cartilha da Sharia, com bases ditatoriais.
Estabelece as mesmas antiquadas regras e tabus de convivência, com armas em punho, sem direito a suplício.
O que o Talibã faz, segundo o professor, Atilla Kus, mestre e doutorando em Ciências da Religião pela PUC-SP, é se utilizar dos conceitos religiosos, para justificar condutas e aglutinar apoio entre segmentos de sociedades que vivem no islamismo.
No imaginário ocidental, a Sharia é descrita como uma tradução literal da lei islâmica, tal como está escrita no Alcorão, o livro sagrado da religião muçulmana para a vida cotidiana.
Foi utilizada para justificar a proibição de meninas e mulheres, estudarem ou trabalharem.
Vendo aqui esse movimento similar ao capacitismo, cada um a sua intensidade e interesse, sabemos que é desumana a relação com as supostas interpretações de quem o pratica, sejam contra os deficientes ou às mulheres afegãs, classificando-as como criaturas inferiores.
O que nos resta é denunciar grupos deformados mentalmente como o talibã, atrasados socialmente, azedados pelo sangue em suas mãos sujas e carregadas de morte, que deveriam se esfacelar de nosso convívio.
Lamento incluir esse clã na raça que faço parte no planeta azul, que de tanto girar não consegue soprar com seus ventos secos e nobres, essa lama de maus exemplos de convívio.
Ele tinha se tornado a principal atração daquela cidade à beira do mar. Quem lá fosse certamente ouviria na volta: “E aí, foi ver o…? O que achou?”,“Me conte, como é o…?”, “Não me diga que não foi ver o…!”. Era quase uma obrigação, para qualquer turista, visitar o… Ver o… era a revelação de um segredo, a que só pessoas especiais tinham acesso.
No dia mesmo de minha chegada fui avisado pelo guia turístico de que naquela noite haveria o grande acontecimento: o… iria aparecer. Para vê-lo, eu deveria ir à praia junto com os demais visitantes. Estava já anoitecendo quando uma multidão, em silêncio, pisou a areia. Com devoção e seriedade, todos fixaram o olhar na espuma branca sobre a água escura. Ficamos ali, atentos por horas, esperando o surgimento do… Não se ouvia um pio nem se via movimento ou qualquer gesto de impaciência. Tínhamos todos o sentimento de que iríamos presenciar algo jamais visto. “O sublime”, alguém se atreveu a sussurrar. “A Pombagira, tenho certeza”, murmurou outro. “O enviado do céu”, choramingou a senhora de lenço na cabeça e terço na mão.
A noite avançava e, quando já não se enxergava nada além da brancura das ondas, um homem saiu do mar. Surgiu da imensidão líquida, de onde não é possível que alguém surja. A água circundava sua cintura quando pudemos vê-lo com nitidez. Tinha barba, altura mediana e o olhar esgazeado, como se olhasse para tudo e nada visse. Chegou até o ponto onde o mar lambe a areia e se ajoelhou. Ergueu os olhos para o céu e assim ficou por muitos minutos. Depois baixou a cabeça e, tão lentamente quanto uma vaca se abaixa para abocanhar o capim, beijou a areia e em seguida escreveu algo com o dedo no chão molhado. Todos esticamos o pescoço para ver o que era, mas o mar foi mais rápido e apagou tudo. O homem virou-se de costas e, assim como veio, desapareceu na água escura sem que entendêssemos como.
O mar voltou à mesmice de sempre e todos se levantaram e saíram da areia pensativos. Apenas eu permaneci lá, sob a lua, aguardando o grande acontecimento.
Sempre fui tímido. E, para piorar, me meti muito cedo com os livros. Só através da imaginação eu viajava — na vida real, não. Todo carnaval, eu me escondia: procurava ler uma montanha interminável de livros, me informava sozinho no cinema ou passava horas tediosas vendo televisão. Aquela alegria lá fora não me pertencia.
Até que um dia cansei de ficar em casa. Vou para a rua, nem que seja para fazer uma caminhada, bater perna, invejar a alegria dos outros.
De repente, ali no centro, descendo a Rua dos Goitacazes e chegando à Rua da Bahia, um rapaz me parou. Ele estava fantasiado: usava um vestido rosa, batom, luvas. Estava acompanhado de uma senhora vestida de bruxinha.
— Você sabe onde tem um bloco legal por aqui?
— Infelizmente não — respondi.
— Um bloquinho com a gente?
Eu disse que sim. E aqueles dois carnavalescos foram me levando.
Subimos de volta a Rua dos Goitacazes, sentido Barro Preto, e figuras hilárias foram passando por nós. Um palhaço se aproximou e falou para mim:
— Descubra os braços, moço!
A bruxinha e meu outro amigo riram. Logo depois, cruzamos com um casal: o moço vestido de Mulher-Maravilha, a mulher de Superman.
— Ô, casal, vocês sabem onde tem um bloquinho bacana? — perguntou a bruxinha.
— Não. A gente também está procurando.
— Quer ir procurar um bloquinho com a gente?
O casal se recusou, desejou bom carnaval, e nós seguimos.
No Shopping Cidade, o segurança — depois de segurar o riso — nos informou que ali na Augusto de Lima, perto do fórum, tinha um bloquinho. Não sabia o nome. Rumamos para lá.
No caminho, vimos um homem fantasiado de Chaves, segurando uma maçã. Um rapaz vestido de Quico pegou a maçã dele e saiu correndo.
— Ora, meninos, não brinque! — disse a bruxinha.
Passou um padre — um homem fantasiado de padre — e realizou um casamento de brincadeira entre mim e a bruxinha, nos convidando a dar um selinho. Uma policial me colocou contra a parede.
Quando chegamos à Augusto de Lima, cantamos abraçados: “Alalaô, mas que calor!”. Depois: “Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que ele é?”. A multidão se espremia, se abraçava, se apertava, mostrando que, na rua, em dias de carnaval, a gente nem precisa saber sambar.
Daí em diante, decidi que nunca mais ia para o carnaval — sem fantasia.
Fevereiro começa no domingo, como quem abre as alegorias do descanso — esse mesmo que sonha com samba no pé e os zirigundús dos foliões. Janeiro já anunciava as entradas da folia, com blocos em teste espalhados pelas ruas do Rio de Janeiro
Tive a oportunidade de presenciar um deles na feira da Glória, quando assumi a tarefa de vender artigos culinários japoneses de primeiríssima linha, na barraca do meu grande amigo Shizuto e de sua família. Vale a pena conferir as comidas de rua do Japão — barraca 71, próxima ao portão da Lapa, na Praça Paris.
Outra ocasião foi num domingo em que me lancei à capital para celebrar o aniversário da minha afilhada Lulu, quatro aninhos. Unindo encontros familiares a agendas profissionais, estiquei meus dias no meu Rio de Janeiro. No domingo passado, encontrei a Marcela no Flamengo, onde, no Planalto, nos unimos às palmas de um parabéns com glitter, estandarte, sorrisos largos e corpos carnavalescos espalhados pelas calçadas.
Antes de retornar à minha serra, tomei café da manhã no quiosque Ginga, na praia do Leme — um ponto aberto 24 horas por dia. Algo inacreditavelmente maravilhoso para alguém cosmopolita e do mundo como eu, que se acostumou a não encontrar nada aberto depois das dez da noite, durante a semana. Domingo, então…
No aguardo de uma carona prevista para as nove, caminhei pelas areias de calça jeans, cruzando os limites com Copacabana. Ah, a princesinha do mar — que hoje verei novamente. E novamente a Glória, os agitos da Praça Paris, os corredores da maratona no Aterro, o bloco da Ivete no centro e a rotina dos moradores que circulam pelas redondezas: o cotidiano de quem sai cedo para montar barracas e vender até o fim da tarde.
Em meio ao percurso ainda escurecido da partida, me espanta o amanhecer da serra: a troca de azuis, o passar espaçado dos carros, a felicidade solta na voz dos amigos no carro. Nasceres e pores do sol sempre mexeram comigo de forma arrebatadora.
São sete da manhã. Vejo o Cristo da janela.
Da janela do carona, sobre a ponte Rio–Niterói, fecho esta primeira crônica brindando ao Rio de Janeiro, a fevereiro e a março. Algo do Rio ainda pulsa em mim — um pulsar que antecede o retorno e já carrega a saudade. Como se o caminho não fosse uma linha, mas um estado.
Talvez eu viva assim — é bem provável, eu diria: chegando ao que sou agora, partindo sempre de algo que me ensinou a ficar.
Às vezes, me canso um pouco de ler as crônicas do cotidiano publicadas nos inúmeros sites e veículos de comunicação (logo eu, que sou uma delas?). E não é por conta da qualidade literária dos textos — que, na maioria dos casos, é inquestionável —, mas por sentir que estou sempre comendo aquele mesmo pudim que retorna à mesa depois de congelado.
Por isso mesmo, me deliciei com um texto novo que falava sobre os Tidsoptimistas. O termo é difícil até de pronunciar, mas desperta curiosidade — tanta que fui em frente para descobrir seu significado.
E qual não foi minha surpresa ao perceber que o texto falava exatamente de mim! Será que a autora me conhecia de alguma reunião em que ficou claro ser eu uma Tidsoptimista clássica? Ou teria captado as vibrações do meu ser de luz, sempre pronto a ajudar outras criaturas afortunadas que têm uma visão otimista do tempo, como eu?
Senti um estranho calor, como se — imagino — estivesse tomando um chá fumegante de Santo Daime, à medida que me reconhecia nas situações expostas. Estou vingada! (pensava, ticando cada uma delas). Assim que compartilhar esse texto, todos vão entender que minha intenção sempre foi boa; que o problema é apenas uma diferença de visão sobre o tempo — a deles é objetiva, a minha, subjetiva!
Para que não reste dúvida de que a autora, Becky S. Korich, se inspirou na minha pessoa para psicografar esse texto, seguem aqui algumas situações citadas:
O encontro é às 20h. Às 19h55, saindo de casa e ajeitando o cabelo no espelho do elevador, manda a clássica: “Chegando.”
A reunião é às 14h. São 13h40. Calcula: “Trânsito, 25 min; me troco em 5; dou tchau em 2; saio em 10… dá tranquilo.”
Tem um voo às 10h. Decide sair às 8h10, confiante de que tudo vai colaborar: o Uber vai chegar em 2 minutos, os faróis abrirão em sincronia, não haverá fila no check-in e o portão será logo ali.
Quem já conviveu comigo certamente poderá engrossar essa lista com muitas outras situações optimistic e… me perdoar!
São Petersburgo é uma das cidades mais espetaculares do mundo. Estive lá em três ocasiões, as duas primeiras quando ainda atendia pelo nome de Leningrado, em pleno regime comunista. Naquela época, se o visitante não tivesse incluído todas as refeições no pacote cuidadosamente preparado pela única agência de turismo que os estrangeiros podiam utilizar, a estatal Intourist, enfrentaria muitos obstáculos para encontrar um restaurante que o atendesse.
As opções eram escassas e os funcionários não se esforçavam para agradar os clientes, afinal pouco ou nada lucravam com isso. Eu e meu marido nos deparamos com restaurantes quase vazios, com garçons batendo papo, onde fomos impedidos de entrar sob a alegação de que todas as mesas estavam reservadas. Fazer uma reserva seria a solução óbvia, mas, quando solicitávamos ao hotel que a fizesse, diziam que era cedo demais para isso e pediam para voltar mais tarde. Quando voltávamos, respondiam que as reservas estavam esgotadas.
Os hotéis dispunham de restaurantes que na hora do jantar ficavam abarrotados de estrangeiros tentando conseguir uma refeição decente. Era difícil arranjar mesa, mas uma gorjeta antecipada, principalmente em moeda estrangeira, facilitava as coisas. Mesmo assim, o serviço era ineficiente e os hóspedes tinham que se conformar com o que eles pudessem servir. Boa mesmo, só a vodca.
Vimos hotéis onde existiam, espalhados pelos pavimentos, pequenos bares para lanches, igualmente lotados, mas onde era mais fácil ser atendido. Dispunham de um menu bastante limitado: pão, manteiga, caviar fresco (esqueça o Beluga, e não se iluda: há uma variedade de peixes cujas ovas se rotulam como caviar), café com leite e doces. Depois de duas ou três refeições dessas, e sem conseguir entrar nos restaurantes, você se perguntava se não seria o caso de pedir socorro à embaixada brasileira.
Numa segunda viagem a Leningrado descobrimos que, convidando os guias de turismo para almoçar, eles davam um jeitinho de resolver o problema dos restaurantes. O convite era recebido como uma oportunidade de compartilhar um ambiente que lhes era normalmente vetado por questões financeiras. Contudo nem todos ousavam aceitá-lo: dava para sentir no ar o patrulhamento ideológico, e deduzir como era perigoso ter contato demais com o mundo exterior.
Uma das guias, uma senhora mais idosa, não só recusou enfaticamente o convite, como se afastou de nós tão rápido quanto pôde. Quando nos deixou no hotel no intervalo para o almoço, vimos um pequeno caminhão vendendo bolos (inteiros) na calçada em frente. Já escaldados, achamos prudente comprar um. Havia fila e, quando chegou a nossa vez, as pessoas foram extremamente amáveis: por gestos, ajudaram-nos a escolher o sabor do bolo e a efetuar o pagamento, que, aliás, foi bem pequeno se comparado aos preços que costumavam cobrar dos turistas. Naquele dia, esgotadas todas as tentativas de conseguir lugar em algum restaurante, o almoço foi água e o bolo comprado com a ajuda do povo russo. Não sei se a culpa é da fome, mas esse bolo é uma das poucas coisas boas que me lembro de ter comido por lá.
Quando estivemos em São Petersburgo pela terceira vez, e esperamos que não tenha sido a última, a Rússia estava em processo de abertura política. No entanto, como costumes não se mudam radicalmente de um dia para o outro, ainda havia problemas com os restaurantes.
Essa terceira viagem foi realizada em um navio que ficou ancorado na cidade por dois ou três dias. Já não éramos obrigados a utilizar os serviços da Intourist, se é que ela ainda existia, mas, por precaução, achamos mais conveniente comprar duas excursões de dia inteiro organizadas pela companhia do cruzeiro. Nesses casos, era praxe do navio incluir o almoço em um restaurante local. Não na Rússia: eles providenciaram farnéis para os passageiros que iam passar o dia fora. Sinal de que, apesar das mudanças já visíveis, refeições em restaurantes continuavam sendo pontos fracos.
Agora, já soube por várias fontes, que os russos têm excelentes restaurantes, vinhos e cardápios. Todos os viajantes recentes com quem tive contato falam maravilhas da comida e do atendimento. É por essas e outras que gosto tanto da iniciativa privada. E não pensem que o povo soviético prefere como era antes.
Como assim o prêmio do concurso foi uma viagem a Gumi-si?
Onde fica? É cidade, é país? Em que continente?
Essas eram as perguntas que eu me fazia, repetidas vezes, enquanto também as dirigia ao agente de viagens que me contactou para dar os parabéns pelo prêmio recebido no concurso de literatura da Livraria Lello, em Portugal.
Não acreditei de imediato. Mas era verdade. Eu estava na lista dos escritores de língua portuguesa que participaram do certame.
Confirmado o fato, preenchidos os formulários e de posse do voucher, com todas as particularidades que compunham o prêmio, compreendi, enfim, que não se tratava de um golpe, mas de uma realidade generosa.
Fui então estudar o meu destino. Gumi-si é uma cidade sul-coreana, localizada no continente asiático, com aproximadamente quatrocentos mil habitantes. Uau. Já gostei. A ideia de não ser uma em um milhão aguçou meu senso de pertencimento.
Decidida, preparei minha mala. Antes, porém, consultei a meteorologia, os pratos típicos, as vestimentas, a cultura e as opções de entretenimento, ainda que tudo isso fizesse parte do próprio prêmio.
E que prêmio!
Ao chegar, impressionei-me com a organização, a ordem, a disciplina e a gentileza dos meus anfitriões. A partir daí, mesmo sem sorrisos largos ou palavras expansivas, senti-me acolhida.
Encantei-me com os detalhes. Um banco bem posicionado, uma faixa de pedestres respeitada com solenidade, um silêncio coletivo que não constrange. Caminhar por Gumi-si foi perceber que o cuidado pode ser uma forma de gentileza, que a ordem não precisa ser opressão, que a disciplina também pode ser afeto.
Vocês conhecem o meu estilo de vida. Jovem, carioca, baladeira, inserida em um grupo como o nosso: atores, escritores, modelos e todos os que circulam nesse meio.
Foi surpreendente descobrir que eu cabia naquele mundo onde a beleza, a poesia e o encanto não dependiam de grandiloquência, onde a moderação é elegante e o silêncio não intimida.
Gumi-si fez-me descobrir um lado meu desconhecido. A sensação de estar do jeito certo, no lugar certo, sem atrapalhar. Voltei impressionada e, de certa forma, transformada. Descobri que posso ser eu mesma e que há em mim um silêncio atento, uma presença serena que eu ainda não conhecia.
Gumi-si foi um dos presentes mais valiosos que recebi.
Foi ali que a minha presença desvendou a minha essência.
Ao final de um dia silenciado pela perda de uma amiga querida, bagunçado por estilhaços de memória, invadiu os meus ouvidos um som de infância vindo do parquinho do condomínio. Uma leveza quase me alcançou, não fosse a rispidez com que a tristeza amordaçou minha criança interior. Não foi a primeira vez que ela acabou contida, calada e desacreditada.
Tento estender-lhe a mão, mas ela não confia mais em mim. Foram muitos os abandonos.
Busco convencê-la de que aquela felicidade ingênua de viver sem dar-se conta da morte jamais voltará a nos fazer sorrir sem medo. Perdemos a inocência, a ilusão da presença eterna das pessoas que amamos.
Ela balança negativamente a cabeça. Não crê no meu desespero de realidade. A criança que fui ainda pulsa quando a emoção me toma. Move os lábios, acena como se quisesse alertar sobre a existência de botes para as tormentas.
Não ouço o que diz. Só penso em naufrágios.
Ela sorri, embora sofra todo tipo de escárnio e xingamento. Tola, burra, ingênua, boba. Não percebe que a vida é injusta, cruel, indecente no uso de seu poder e apadrinhamento?
Não perdoo sua falta de malícia. Rasgo suas roupas bordadas de esperança.
Ainda assim, minha criança vive, dança, corre, rodopia, gargalha, sonha e é feliz. Mesmo excluída do direito de se pronunciar. Esperta, bate os seus pés no canto do pensamento, inaugurando um novo código Morse que implora nossa salvação.
Soterro sua presença em resíduos de insegurança, medo, ansiedade, angústia e preocupações. Dou-lhe as costas. Exercito a frieza da maturidade.
Deixem-me crer no amargor dos sábios e seguir encastelada na certeza do desfecho triste. Agora, tudo parece morto dentro de mim. Olho uma última vez para não restar dúvidas sobre o seu fatídico destino.
Lá do fundo de tudo que há em mim, seus dedinhos emergem como prova do seu resistir. Ao longe ouço sua voz a me chamar para brincar de ser feliz. Renuncio às condecorações de guerra. Bandeira branca a minha menina. Ela nunca me causou mal algum.
Machucada, trêmula, assustada, ela corre para os meus braços. Acolho. Acaricio seus cachos. Dou colo.
Nesse encontro do que fui com o que desejo voltar a ser, renasce a aposta no agora, na eternidade do amor e na ingenuidade da paz.
Rimos juntas dessa garotinha desafiadora e abusada chamada vida.
Aconchegue-se no sofá e prepare a pipoca. Esqueça preocupações do trabalho, problemas domésticos, aluguel, guerras, corrupção, mudanças climáticas, contas atrasadas, taxa de colesterol e todas as coisas chatas sobre as quais, quando questionado a respeito, você responde “e eu com isso?”, empenhado que está em direcionar sua atenção para assuntos mais aprazíveis como futricar na vida alheia.
Vai ter início o BBB. A partir de agora, você será transportado para um maravilhoso mundo de fantasia, tão arrebatador quanto um papo casual com o vizinho no elevador, ou sobre o comportamento do poodle da moça da fila do supermercado. Nesse contexto, não há relatos edificantes, dramas épicos ou sátiras de costumes. Nem mesmo um enredo ou um roteiro. Apenas uma sequência de vai-e-vens dos personagens da sala para a cozinha e da cama para a privada, entremeada por diálogos niilistas sobre as virtudes da apatia e do ócio.
Embora voltado para indivíduos com reduzida capacidade cognitiva e mentalidade psicossocial infanto-juvenil, não se confunde com contos de fada ou de aventuras. Nele não há príncipes, donzelas, castelos, dragões, criaturas mágicas e super-heróis. Apenas adultos ‘comuns’ e insossos tipo os que habitam diuturnamente o Facebook e o Tik Tok. Tão estúpidos quanto seus espectadores.
São barrados pelos experts em audiência da Globo intelectuais, pessoas reflexivas, questionadoras e artistas (exceto os ‘popularescos’). Os participantes são selecionados pelo grau de babaquice, em sintonia com o sentimento de identificação dos telespectadores.
São priorizados aqueles que gostam de fazer intrigas, injunções fúteis e tenham capacidade de partilhar sua estreita visão de mundo com gente de sabedoria construída em grupos de whatsapps. Assuntos que, não servindo para qualquer matéria jornalística de relevo (afora revistas Caras e Contigo), são suficientes para provocar acaloradas discussões dos ‘especialistas’ em coisa nenhuma que frequentam os programas diurnos de Ana Maria Braga, Sonia Abrão e Nelson Rubens. Que conseguem a proeza de superar em chatice as bizantinas mesas redondas de futebol que debatem o duvidoso pênalti do zagueiro flamenguista com a eloquência retórica de Cícero defendendo a República Romana.
Gente que, se não estivesse 24 horas na Globoplay exibindo sua frivolidade, estaria junto a você, do outro lado da tela, tornando o reality show campeão de audiência e corroborando as palavras de Nelson Rodrigues: “os idiotas vão tomar conta do mundo, não pela sua capacidade, mas pela quantidade; eles são muitos”.
Tais pessoas, invisíveis na turba ante sua insignificância, ganham visibilidade na TV, fazendo do ofício do Big Brother orwelliano um mar de tédio. Os detalhes do seu comportamento são prescrutadas por centenas de câmaras e microfones estrategicamente posicionados na casa/estúdio para acompanhar minuciosamente os movimentos e reações dos participantes. Captam desde uma coçada de saco e peidos acidentais até opiniões preconceituosas acompanhadas de risadas de cumplicidade.
Nesse circo, você poderá exercer sua vocação cívica elegendo o infeliz que vai para o paredão com a seletividade que lhe faltou na escolha do deputado do Centrão que seu voto colocou no parlamento, cujo nome certamente lhe fugiu da memória, sobre cujas maracutaias você reitera com desdém: “e eu com isso?”
A coisa mais triste do mundo era a vó Ana me fazer as tranças. Eu ficava com a cabeça cheia de caroços de tanto croque que tomava para ficar quieta. Mas todo mal tem o seu bem: a compensação era ouvir a vó Ana falar dos seus maridos.
Estavam pendurados na parede da sala, todos com a mesma idade, parecia, uns trinta anos, e todos um a cara do outro: ruivos, com a bochecha meio pipocada, um bigodinho aparado bem fininho, o beiço caído, de choro, e os olhos mais tristes que já se viu.
São a minha galeria de heróis, dizia a vó Ana, e ia apontando: o vô Joaquim, o vô Afonso, o vô Alfredo, o vô Macico, o vô Juca, o vô Pacheco, o vô Vicente, o vô Inácio.
O vô Alfredo aguentou seis meses; o vô Afonso, só dois; o vô Joaquim, cinco meses; o vô Juca, nove – ia enumerando, orgulhosa, a vó Ana. O que durou mais foi o vô Macico: dezoito meses! Puxa, vó!, eu dizia. A vó Ana falava de-zoi-to, pausadamente, enchendo a boca.
Só um que não aguentou nada, contava a vó Ana, com o ar de desprezo que Deus lhe deu. Só um que era um frouxo! Nem deu tempo de tirar um retrato. Ou a vó Ana nem quis saber de retrato. Esse nem nome não tem: é o nono marido.
Saiu do quarto na primeira noite, ia buscar fogo para o pito, e nunca mais voltou. Esse negou fogo, dizia a vó Ana. No lugar do retrato, um quadro representando uns cachos de uva, murchas, desconsoladas.
Vou te falar, adotar essa postura tem evitado que eu me aborrecesse com mais frequência. Você tira a emoção das palavras e responde praticamente ao pé da letra tudo que te perguntam. Em alguns casos repete a mesma resposta se a pergunta for igual ou bem parecida.
E como é que isso dá certo?
As pessoas ficam sem muita alternativa para conversar porque você tira o espaço para estabelecer qualquer conexão que gere um diálogo mais extenso. Sem agressividade você cria uma barreira de desconforto diante dos demais seres humanos.
Mas ninguém estranha, não acha você meio maluco por causa desse jeito assim…
Assim como? Antissocial.
Ah, bom, é isso pode acontecer. Um efeito colateral dessa postura é, as pessoas ao seu redor, criarem uma imagem pública a seu respeito que varia entre a maluquice e a grosseria. Pode resultar também em um certo isolamento social, sabe as pessoas param de te mandar memes, de te convidar para sair, entre outras atividades da vida em sociedade. Mas tem suas vantagens sim.
E onde isso pode ser vantajoso?
Você se livra do convívio de uma pensa de gente desagradável. Faça as contas, dos corpos humanos que orbitam ao seu redor, o número dos que merecem a sua atenção não cabem nos dedos das suas duas mãos juntas.
Bom, pensando dessa forma eu acho que você tem razoa em parte.
Viu? Essa seleção social é mais fácil se você se portar como uma IA, neutro, sem emoção e irritantemente funcional.
Mas isso não parece com IA.
Isso é o que menos importa porque na percepção das pessoas, por falta de repertório para conseguir definir o que você está fazendo, te classificam como IA. Admito que esse jeito de falar também me remete aquele personagem maravilhoso do cinema.
Qual deles, o robô de Perdidos no Espaço?
O robô não era do cinema, mas da televisão e a voz dele era carregada de emoção.
Então quem?
Hannibal Lecter.
Você não pode estar falando sério.
Estou sim.
O Lecter é o psicopata dos psicopatas.
Ah mas é um grande personagem, concorda?
Claro, totalmente, mas deixa te perguntar uma coisa.
Sim, claro, o que é?
Seu plano de saúde cobre tratamento mental também?
Até os melhores poetas já escreveram os piores versos, mas só os piores poetas os publicam. Isso já foi dito e redito, e aqui digo mais uma vez, porque parece extremamente certo e ainda necessário. A questão que se coloca é a da seleção dos poemas na formação de um livro e como a obra de um poeta se apresenta ao público.Aí o problema assume contornos matemáticos, de proporcionalidade. Porém, não se trata de porcentagem ou de qualquer expressão em valores numéricos propriamente (afinal, em termos de literatura, jamais poderia ser desse modo, bem como por falarmos em matemática mais em termos metafóricos), mas das impressões no leitor e no crítico.
O tempo entre a publicação de um livro e outro precisa exceder o da escrita dos poemas que o leitor encontrará disponível para a leitura. Precisa ser maior não porque o poeta necessite observar esse ditame estabelecido e esperar para o lançamento, tendo o seu livro guardado. Mas porque se alcança uma quantidade de poemas suficiente para compor um livro antes, no entanto, se publicado prontamente, provavelmente, sua qualidade não será boa. Se selecionados criteriosamente, os poemas se reduzem em número, alarga-se o tempo necessário do livro.
Alguns autores publicam livros quase que anualmente, com 100 poemas ou mais. A percepção que fica é a de que publicam absolutamente tudo que lhes sai da pena, sem qualquer crivo crítico e, como aparece em muitos casos, sem sequer revisão ou ajuste, o que é expelido da cabeça vai ao livro. Assim, em meio a bons versos que saem de todos os poetas de qualidade ou medíocres, estará uma enxurrada de ruins e médios poemas, suficientes para rebaixar a qualidade do livro na avaliação e na experiência que o leitor terá dele e com ele.
Há poetas apressados, que procedem do referido modo pela freima de ver seu nome na capa de mais um impresso. Isso acontece principalmente com os iniciantes, que naturalmente possuem uma ânsia maior pela publicação e por serem lidos. Essa pressa pode conduzir facilmente à desilusão e ao fracasso. Se é isso que almejam, digo: publiquem tudo que escrevem, sem crítica e sem seleção, aqui está uma receita perfeita. Mas, se não for isso, esse cronista (que é também poeta) diz: é necessário ter, sobretudo, calma. Calma na escrita, na seleção e na publicação.
Até os poetas mais experientes sabem disso, não deixam de escrever seus versos ruins, só não os publicam. Ou, alguns até fazem. Já se falou bastante como em meio à grandiosidade de Augusto Frederico Schmidt há certos desníveis, ou como existem poemas fora da curva na obra de Carlos Drummond de Andrade, marcada pela extrema qualidade.
Mas, se não fosse suficiente, é necessário ter uma preocupação com a posteridade. Não para mim, poeta menor, que não serei objeto de estudo, mas para os grandes poetas ou os que pretendem ser um dia (e pretendam ser grande um dia). Imagine, você sempre realizou suas seleções muito bem, publicando os bons poemas e escondendo os ruins, porém guarda esses em casa. Após sua morte, um pós-graduando ou um crítico vai pesquisar em seu acervo pessoal e decide publicar seus inéditos. Pois é, estarão publicados os poemas ruins, eles contrabalançarão tendendo a prejudicar o juízo que se fazia sobre sua obra. É necessário estar de olhos abertos até após a morte. Lêdo Ivo talvez estive atento a isso, quando, em A queimada, deu-nos o seguinte conselho: “Destrua os poemas inacabados, os rascunhos, as variantes e os fragmentos Que provocam o orgasmo tardio dos filólogos e escoliastas. Não deixe aos catadores do lixo literário nenhuma migalha.”
As coleiras com espinhos, consideradas um dos primeiros dispositivos de proteção para cães, foram criadas na Grécia antiga.
Apesar de parecerem rudimentares pelos padrões atuais, essas coleiras cumpriram um papel essencial na segurança dos cães da época, especialmente contra uma das maiores ameaças: os lobos.
Na Grécia antiga, os cães eram usados para diversas funções, como pastoreio e proteção.
No entanto, os ataques de lobos, representavam um risco constante.
Para proteger os cães, os gregos desenvolveram uma solução engenhosa: a coleira com espinhos. Esse dispositivo era feito com pontas afiadas que se projetavam para fora, formando uma barreira física ao redor do pescoço do animal.
Quando o lobo tentava atacar, os espinhos dificultavam o acesso ao pescoço do cão, prevenindo ferimentos graves e aumentando as hipóteses de sobrevivência.
Essa proteção não só garantia a segurança dos cães, mas também melhorava sua eficiência nas tarefas diárias, essenciais para a vida cotidiana da época.
O “design” dessas coleiras reflete a criatividade e a praticidade dos antigos gregos, que buscavam soluções eficazes para os desafios que enfrentavam.
Embora as coleiras modernas ofereçam novas tecnologias, as mais antigas com espinhos Gregos, representam um marco importante na história dos equipamentos de proteção animal. Elas mostram como a preocupação com a segurança e o bem-estar dos animais é uma prática que vem de longa data, destacando a evolução e a importância da inovação ao longo dos séculos.
De volta para o futuro, observamos a existência de coletes fabricados em fibra de carbono, a prova de balas, facadas, porretes e espinhos. Eles fornecem proteção ao homem e são muito leves para transportar, sendo assim são o topo da proteção de vidas humanas, fragilizadas imensamente pela violência desmedida.
Que coleira ou colete você imagina que possa lhe proteger do bombardeio das pessoas dizendo para fazer mais, ser mais e comprar mais, ao invés de nos dizer como levar uma vida melhor e mais feliz. Nos tiram do sério quando dizem para ignorar os sinais de alerta de que a vida está levando a melhor sobre nós. É sempre bom ouvir um “Você Consegue”, ao invés do frequente “desista, não é para você”.
Eventualmente uma ajuda bem que viria a calhar, principalmente quando estamos enrolados com trevas de nossas dúvidas.
Não sei quanto a vocês, mas acho que o bom humor anda em falta no mercado. Houve um tempo em que bastava virar pro sujeito no ponto de ônibus, reclamar da demora, e alguém já emendava uma piada. O dono da banca comentava o calor, o porteiro dizia qualquer bobagem, o manobrista ria de si mesmo, o flanelinha improvisava um comentário espirituoso, a moça da farmácia devolvia o troco com uma graça inesperada. A gente ria no meio do dia, sem perceber. De uns tempos pra cá, perdemos esse jeito tão brasileiro de ser, trocar o mau humor por uma boa risada virou exceção.
Pensei nisso quando reli a oração de São Tomás More, inglês do século XVI, nascido em Londres em 1477, juiz conhecido pela honestidade, de quem o Papa Francisco tanto gostava. “Dai-me, Senhor, um pouco de sol, algum trabalho e um pouco de alegria”, pedia ele. Veio a pandemia, depois a morte do Papa, e alguma coisa se perdeu pelo caminho. As pessoas andam sérias demais, economizando o riso, como se ele fosse artigo de luxo, reservado às festas de família.
Não sou lá muito religioso, mas desconfio que a alegria seja a coisa mais sagrada. Mesmo sem missa aos domingos, faço dela a minha. “Dai-me uma boa digestão e algo para digerir”, rezo no trânsito, parado, olhando o sinal fechar outra vez. Todo mundo deveria pedir o mesmo, criança, velho, adolescente, marido, mulher, jovem. O bom humor sempre foi traço do nosso povo, algo espontâneo, quase automático.
Condenado por não aderir ao cisma religioso, São Tomás More escreveu essa oração na prisão. “Dai-me a graça de encontrar o bom sentido”, suplicava. Nós também vivemos cercados, cada um em sua pequena prisão particular, o trânsito, as contas, a solidão. Um sorriso ao porteiro, retribuído, ainda faz diferença, mesmo que a gente não saiba medir.
Me apaixonei, ou pelo menos acho que me apaixonei; fui a uma festa e perdi a cabeça. Comprei um cavalo que não preciso de jeito nenhum. Regras. Não ofereça preço por algo que você não precisa. Ao chegar a um baile, convide alguém para dançar imediatamente e dance uma valsa ou uma polca com essa pessoa. Pense em maneiras de organizar meus assuntos esta noite. Fique em casa.
25 de Janeiro de 1851
Mormaço em Copacabana; brunch no Leme e um copo suado me espera pelas entranhas do Flamengo. A luz é perfeita; Jobim canta ao pé do meu ouvido, sua respiração quase roça minha nuca, numa versão acústica em que o som se propaga, encontra os meus poros e traduz-se em arrepio. Meus olhos observam o entorno, meus sentimentos exalam bossa nova e transformam o banal nessa crônica (não sei se haverá fôlego para chegar ao final):
Os sapatos, importam
Desde sempre. As solas se aprimoraram ao longo dos tempos para que, integralmente, a pele do peito do pé não endureça. Engenharia, borracha, costura, cálculo. Os sapatos importam tanto ou mais que os relacionamentos, que acabam por endurecer os corações. Não protegemos nosso centro vital com a mesma engenharia obsessiva dedicada às solas.
Me deparei, por acaso — dessas coincidências que fingem surpresa, ou não passam de meros algorítimos— com um diário de Tolstói. A data do registro é a mesma deste domingo. As palavras não envelhecem nem obedecem à finalidade de quem as trouxe ao mundo; apenas se deslocam. Cento e setenta e cinco anos depois, arrebentam como ondas inesperadas no asfalto carioca.
“Fique em casa”. Reverbera enquanto entro no Uber, ar climatizado e motorista sisudo. À primeira vista.
Comprar um cavalo. Fazer as malas. Esperar quem não volta.
Tolstói faria disso um erro juvenil. Eu, com algum acúmulo de maturidade gasto na sola dos sapatos, chamo de insistir no que já deu sinais de fracasso. Meu uber me guia para caminhos com cheiro de casa. Avançava devagar. Chovia daquele jeito que não é chuva — é o teste de humor do carioca. Tudo ficou cinza. A expectativa do por do sol nubla.
Anteontem choveu muito. Quando chove assim, a gente aumenta a atenção, ele disse. Um carro passou na minha frente, bem aqui perto. Era tudo água. Do nada, uma onda engoliu o carro. Pense no desespero.
Fiquei em silêncio. Era exatamente o tipo de coisa que Vinícius diria, apoiando o cotovelo numa mesa da Glória, antes do segundo chope.
A vida acontece nesses momentos, eu continuei. Do nada, um carro surge na contramão; um pedestre corre fugindo de um assalto; um motorista cauteloso tem a esposa a parir no banco de trás. A vida não é planejamento. A gente se ilude achando que tem controle sobre uma coisa qualquer. Nem sobre o mundo, nem sobre o que existe dentro da gente. Às vezes, nem sobre a própria pele. Do nada aparece uma gripe.
Mas sempre podemos fazer uma tatuagem a nossa maneira, sorriu o astuto motorista. Desci.
Jobim cantaria isso com um piano manso, como quem sabe que não há solução — só caminho. E o caminho, meus caros, só serve aos pés.
Já escrevi diários prometendo preenchê-los até o fim. Hoje prefiro anotações em folhas avulsas, presas por argolas metálicas: a ilusão honesta de que posso reorganizar tudo depois. A arquitetura me ensinou que o processo de criação não é linear. O Chico parece ter aprendido isso cedo, quando desgarrou de arquiteto para artista. Eu ando experimentando o mesmo tipo de sapatos. A vida acabou me sinalizando que os pensamentos também não são lineares, tampouco unidimensionais. Sequer o tempo é regido por algo que seja levemente parecido.
Logo pela manhã, ao despertar ao lado de Copacabana, em inércia horizontal, a pele é nua; os pés nem chegam a sentir o peso do lençol. Há preguiça, há coerência, há segurança. Levantar é sempre um risco. O encerado do piso chega antes à cabeça que ao toque dos pés. Por isso calçamos sapatos, sejam eles despojadas havaianas: para atravessar o dia enganando-nos de algum controle.
Se Tolstói não trajasse sapatos, talvez o registro fosse outro. Protegendo as solas para chegar às festas, perdeu a cabeça — e quem sofreu, coitado, foi o peito. Qual não seria o estrago se os pés sentissem sem amortecer o impacto?
Há paixões que são lindos girassóis. Há encontros que despertam uma das partes mais bonitas que temos dentro de nós, honestamente livres, que vivem apenas de chinelo nos pés. Não pesam nada, não prometem nada. Destravam a intensidade, a vontade de viver e excesso de medo que trazemos dentro. Tiram nossos sapatos e fazem a conexão instantânea dos pés à cabeça. Não protegem. E cumprem exatamente isso: vida. Há quem chame esses tipos carioca. Não é o gentílico, mas um tipo cultural de se existir. Podemos encontrar cariocas por todo o mundo. A liberdade alheia não é o problema; é a insistência de um turista em levar adiante idealizações alimentadas promessas regadas a pele bronzeada e sorrisos com sabor de água de coco. Amores que vivem melhor no papel do que no chão, porque no chão, a sola protege. Na espera, no entremeio, na possibilidade há segurança.
Comprar um cavalo. Fazer as malas. Esperar quem não volta.
O sentimento é o mesmo de se ver, da janela, o Corcovado e o Redentor. Que lindo.
Existe esse conselho antigo — e suspeito — de que o poeta só é grande quando sofre. Sofrer e gastar muitas solas de sapato. Antônio acreditava nisso. Um exímio amante dos sapatos. Eu desconfio: a grandeza, quem sabe, não esteja no sofrimento, mas na travessia. Em se saber quando não comprar o cavalo. Em desfazer a mala. Em não confundir chuva com destino.
Nossa casa querida, que não é o Rio de Janeiro, em si, nas as entranhas desprovidas de segurança do nosso corpo, é como amendoeiras à espera de jacarandás. Vida e sonho.
Achegue-se, meu bem. O mundo é mal, mas leva — se levar — outra vez a um caminho que pede solas novas. Me abrace simplesmente, diz a árvore, sábia com seus troncos largos. Não fale. Não lembre.
Porque eu sei — e você sabe — que a distância não existe. O que existe é o chão.
E todo grande amor só parece grande quando é triste porque, no fundo, nos obriga a caminhar descalços por territórios para os quais não nos preparamos. O poeta sofre, dizem, porque anda demais. Talvez sofra porque insiste em proteger os pés quando o corpo inteiro pede impacto.
Se é para doer, que doa sem amortecedor. Se é para seguir, que seja com as solas nas mãos.
Há caminhos que não pedem sapatos, pedem presença. E o coração vai sentir — de um jeito ou de outro.
Sempre é tarde quando se pede perdão. Tarde demais para apagar o que não devia ter sido feito, falado, sentido, e até pensado, mas que explodiu algumas vezes em uma súbita golfada, outras em uma enxurro daquilo que fermentava há tempos.
E aí, a dor é sufocante, a vergonha chega a ser desoladora. Saber que o único caminho é pedir perdão consome as entranhas e cutuca insistente, como um alfinete esquecido na roupa.
Na tentativa de minorar a culpa, a busca de alguma justificativa que abrande o remorso, acalme o coração.
Mas eu não sabia que você sabia. Que a vida é tão boa.
Não sabia, não queria, não, não…a negação brota e floresce com a proposta de um bálsamo para a dor do erro. Escusa que se repete como um mantra e ressoa, na esperança da complacência divina, humana, ou da própria consciência. Há perdão para quem não percebe a grandeza da vida?
Se é tarde, me perdoa. Eu cheguei mentindo. Eu cheguei partindo. Eu cheguei à-toa.
Ninguém chega à toa nessa vida. A chegada é uma porta que se abre para qualquer direção.
Chegar partindo é chegar mentindo para si mesmo, como se nada houvesse entre o nascente e o poente. É como quebrar a bússola que orienta o caminho da existência, para que ela nãoMmostre os desencantos do amor ao Sul, os banhos de lágrimas ao Leste, mas também o quentura do amor ao sol do Leste. Somente o ponto Oeste da redentora despedida.
Em cima da mesa, um bilhete dobrado. Maria sentou-se para ler, ainda atordoada pela partida de João. Chegou como quem chega do nada, nunca esteve totalmente presente na relação, e do nada se afastou. A que veio então? O bilhete assim dizia:
Se é tarde, me perdoa. Trago desencantos. De amores tantos pela madrugada. Se é tarde me perdoa. Vinha só cansado.
Tema de inspiração: Carlos Lyra / Ronaldo Bôscoli: Se é tarde, me perdoa
É… Não sei em que ponto e não sei e talvez nunca saiba o momento exato em que deixamos de ser heróis para nos transformarmos em vilões!
Não deveria ser assim, mas é…
Quando crianças, olhamos nossos pais como nossos heróis, prontos para nos defender! Entretanto, com o passar do tempo e o embaçar ou desembaçar das horas, passamos a olhar de forma diferente. E olhamos, ou melhor, questionamos essa imagem!
Mas… e quando nós somos olhados dessa forma?
Deixamos o uniforme de herói para virarmos vilões. E revelamos, conscientemente ou não, nossas fragilidades e nossos erros…
E, sim, ficam à mostra homens e mulheres com suas fraquezas, suas rabugices e suas limitações!
E, sim, ficam à mostra homens e mulheres com seus genuínos defeitos, marcas, cicatrizes atemporais…
E a vida segue!
Afinal, o baile não para e não pode parar!
Entre palavras não ditas e seus silêncios perturbadores, entre palavras que não deveriam ser ditas, mas foram à exaustão, entre reticências e pausas provocadas ou não, vamos nos construindo e nos desconstruindo, tudo ao mesmo tempo…
E ser um herói durante muito tempo não impede que você se torne um vilão! É assim, num deslize, em uma contramão… Mas como disse, nunca sabemos esse momento exato…
E desse jeito, viramos o vilão da história ou das histórias! E não, não é vitimização, mas a mais objetiva e sincera constatação!
No meio disso tudo, vamos sobrevivendo e aprendendo, reaprendendo e ensinando, entre lágrimas e sorrisos, olhares e soluços… Seguimos!
E talvez seja essa a grande essência da nossa caminhada, um aprender continuamente!
Não somos perfeitos e nunca seremos.
E justamente na nossa imperfeição, vamos escrevendo as nossas várias histórias.
Histórias de conquistas, histórias de fracassos, histórias de amor, histórias de horror, simplesmente, histórias humanas…
Você que me vê um pivete mau caráter, um delinquente montado numa moto assassina, presta atenção. Não fosse o motoboy aqui, o folgado aí não teria em domicílio o game das crianças, a ração do dogue ou o tênis da patroa comprado barato no aplicativo. Você me deve essa, mano.
Então vê se te recolhe no teu mundinho mixuruca e para de praguejar do jeito que eu dirijo. Ou você acha que seguindo o guia de boas maneiras do Detran, eu faria a mágica de chegar no teu sofá hoje o bagulho que você pediu ontem no Shopee? Sou o zé-ninguém faz-tudo que dá conta do delivery do supermercado e da farmácia. O curinga que garante a marmita fresca do I-Food e a pizza quentinha no teu portão.
Passo sim farol vermelho. E daí? Queimo as faixas, subo as calçadas, atropelo coroas ceguetas, entro na contramão. E não tem ‘otoridade’ que me enquadre, nem radar que anote minha placa coberta. Eu não importo pros caras.
Mas nas ruas das cidades grandes só dá eu. Você pode cantar de galo no jardim da tua casa, no pátio do teu condomínio boiola. Mas dos muros pra fora, é do meu jeito que as coisas rolam. Fica na tua e bico calado.
Os trouxas ficam cagando de medo dos pontos na carteira por queimar a faixa das avenidas. Já eu costuro, faço malabarismo, passo pela direita e ninguém é macho pra encarar ou caguetar o Zé-Mané aqui. Então vê se tira esse carango fedorento da frente ou arranco fora teu espelho. E nem vem arrumar perrengue pro meu lado senão chamo os chapas e o prejuízo do retrovisor vai sair pior pra você, véi. Aceita que dói menos.
Regrinhas de velocidade não vão me barrar de cumprir minha escala e faturar meu ganha-pão. Não tenho opção. Não tenho um puto no bolso. Não tenho carteira assinada. Não tenho férias. Não tenho plano de saúde. Não posso dar bobeira. Se um maluco passar de caminhão por cima, viro mais um presunto a entrar pras estatísticas de acidentes. Já era.
Recebo por entrega e tem uns algoritmos atrozes que me fazem trabalhar como um camelo, sem tempo pra mijar ou bater umazinha pra aliviar. Fico sob estresse o dia todo, tiro do vale-miséria e dos trocados da caixinha os custos pra manter a máquina ativa. Nessa guerra desigual minha chance de sobrar inteiro é pequena. Mas se eu sair vivo dessa, um dia abrirei um trampo só meu, sem ninguém pra encher o saco. Pode crer.
Sou produto do caos urbano e das tretas sociais sem saída. Venho das favelas, onde polícia não entra, juiz quer distância e político bambambã não apita. Lá manda quem pode mais. Uns traficam pó, outros se seguram com metranca. Minha arma pra me manter limpo e garantir o feijão do meu muquifo é minha fiel motoca.
Trago para os bairros dos bacanas o som dos pancadões da perifa e libero os decibéis dos escapamentos envenenados para assombrar tuas noites de sono. É pra te lembrar que eu existo. E não tem GCM bunda mole que me faça aquietar.
Por isso, bro’, arranca da minha frente e fica esperto. Eu sou motoboy e exijo respeito.
O encontro durou dias, e mesmo assim teve gosto de quero mais…
Não teve atrasos, cada um chegou no seu tempo…
Tinha tema, mas não script. O comando era a vontade e a alegria em participar.
O sorriso feliz de cada participante ao chegar ao local do encontro e mais ainda ao sair, dá a certeza de que as memórias dos dias felizes vividos vai ser um oásis guardado no fundo da alma e, durará para sempre, pois será contado entre pais, filhos, primos, parceiros e amigos desta e até os das próximas gerações!
Três amigos se encontravam com frequência em um botequim no Bairro dos Prazeres. Depois de uns goles de cerveja, ganhava fôlego o debate sobre as idiossincrasiasda humanidade. A cada semana uma nova reflexão.
— Ser humano é um bicho engraçado. Reclama da falta de sorte, de tempo, de oportunidade, mas quando surge uma chance de mudança se angustia, perde o sono com medo do risco, do desconhecido.
— Sim, verdade. Mas o que eu acho mais bizarro é a síndrome do insatisfeito. A pessoa sofre por tanto desejar uma determinada coisa e quando consegue, em pouco tempo, a graça se vai. Sem falar que o que pertence aos outros é sempre muito mais interessante.
─ Para mim, o que considero mais intrigante é o maldito apego ao sofrimento. As experiências ruins, as relações traumáticas, as decepções geram marcas existenciais insuperáveis. Nenhuma felicidade, sorte, conquista ou vitória é capaz de restaurar o estado inicial de alegria ingênua. A marca da insegurança fica ali eternamente ecoando a necessidade de atenção ao perigo. Uma vez perdida a fé na vida, para sempre o martírio do medo de sofrer.
— Concordo com você, em parte, porque tem gente que apresenta uma inclinação natural para as relações desastrosas. Nutrem uma atração mortal pelos ordinários. Não aprendem com a experiência.
— Sim, mas defendo que mesmo nesses casos, onde há um certo prazer no drama, não podemos descartar a existência do apego ao sofrimento. Embora talvez se apresente disfarçado de uma esperança masoquista.
— Pois eu já penso que o maior infortúnio da condição humana é essa necessidade de ser genial. Quanto mais necessitamos dos louros do reconhecimento, mais nos distanciamos de nós mesmos. Fica latente aquele medo de não corresponder às expectativas do outro, de não ser o melhor, o majestoso. Dou crédito às palavras do Freud: “Nós ser muito melhores se não quiséssemos ser tão bons”.
─ Setúbal, aproveite que você está servindo a nossa cerveja e nos brinde com um pensamento sobre a vida.
É assim, quando você pinta aquarela você se põe diante de uma situação que beira a ficção. No momento em que você coloca as tintas sobre o papel tem início uma relação estranha, quase surreal, entre artista e cores.
Veja bem, você sabe o que você quer pintar mas depende da colaboração da tinta.
Você não comanda as cores, elas são surdas aos seus apelos desesperados quando se espalham à vontade e aleatoriamente pelo papel.
Se a superfície estiver seca, elas vão reagir de uma forma. Se o papel estiver úmido, a estória é outra e, claro, vai sempre depender do grau de umidade da superfície. E, por falar nela, a umidade, há outra muito importante, a do ar, que interfere decisivamente na consistência das tintas à medida que deixam os tubos onde jaziam no escuro, compactas e imóveis. Pintar aquarela no deserto do Thar não deve ser a mesma coisa que pintar em Belém do Pará, pode estar certo.
Assim, quando o artista aperta o tubo tem início uma reação que dificilmente ele terá controle completo. Não há diálogo possível com substâncias que se movem ao seu bel prazer. As tintas são manhosas, caprichosas, donas de suas efêmeras vidas. Se espalham da forma que querem e na direção que decidem, independente da vontade da pintora ou do pintor. Ao artista cabe somente tentar corrigir o curso que as cores tomam à sua frente.
Alguns conseguem, outros não. Na fúria de não ver seu talento expresso pelas tintas, muitos rasgam o papel e o atiram a lixeira, encerrando o que as tintas decidiram fazer, se obra de arte ou esboço colorido. Como saber? Não há, e por vezes é um teste supremo de paciência. Mas uma coisa eu tenho certeza é que as melhores aquarelistas do mundo, como a Gemma Capdevila ou a Anna Mason, com certeza sabem conversar com as cores. Elas, assim como os demais expoentes dessa bela arte, seguramente falam a língua das cores, elas falam tintês.
E, você, minha amiga, já aprendeu esse idioma misterioso?
Ainda não, mas me disseram que tem um aplicativo de tradução universal que é uma coisa!
A composição de um mosaico de histórias, pode ser aprendido nas páginas de um livro bem narrado, que nos transporta ao momento da escrita do autor.
Se o livro for mal-ajambrado, e não nos levar ao fundo dos sentimentos do personagem, fica difícil ser atraente para um leitor mais crítico, que busca temáticas diferentes, sensíveis ao coração humano.
A desconstrução de uma tradição, serve como alavanca para o desenho de uma nova narrativa, descrita pelos olhos e a percepção do escritor, envolvido na trama de uma obra de arte.
Sendo orgânica, não deve ter um fio desencapado onde o personagem está escorado em outro, como naquele momento em que Pedro ao falar de Paulo, transgride sua narrativa em forma de fofoca, e passamos a conhecer mais sobre Pedro do que sobre Paulo.
O Jornalista Italiano Tomaso Debenedetti costumava transgredir a verdade em seus textos, e como descrito acima, debochava do leitor. Trabalhou entre 1994 a 2010 para jornais locais em seu país de origem e criou uma conta falsa no Twitter onde anunciava a morte de personalidades, e com simplicidade estratégica utilizou aquele espaço, imitando um perfil confiável.
Lançava seu torpedo falso, para minutos depois anunciar que tudo não passava de uma pegadinha, coisa que repetiu por 10 anos, lucrando nessa toada.
Uma delas deu errado, e ele assumiu sua jornada como “campeão da mentira”, como gosta de ser classificado. O mais incrível é que nunca foi processado por suas vítimas de seu ataque verborrágico jornalístico. O que o inspira é “dizer a verdade pela mentira” como definiu Mário Vargas Llosa.
Essas formas textuais ganharam nome atualizado de fake news, e ele escancarou as fraquezas do jornalismo com suas publicações reais e falsas, na primeira página de portais de notícias importantes.
Quando suportamos as confidências de um desconhecido, a revelação de seus segredos nos enche de assombros. Depois disso, devemos situar seus tormentos no drama ou na farsa?
Depende de nossa benevolência ou de nossa fadiga. O fraco de atenção sempre sofre mais que os outros, porque os olhos que o cuidam são cegos.
Igual a uma terra que não cuida de seus mortos, e que provavelmente está sendo governada pela morte.
Não deixe se esconder de você mesmo tão profundamente, pode ser difícil retornar ao mundo dos vivos e de suas rotinas.
Seu destino com dedos cruzados é de responsabilidade unicamente de suas mãos, as mesmas que desenharam em canetas, poesias de sua história.
Os mortos não podem modificar suas esquinas, esses já encerraram as possíveis paixões.
Quanto a você, faça valer seus dias de glória junto aos seus, assumindo decisões escolhidas a dedo. Cada letra tem sua palavra pra juntar, e essa, suas famílias, que podem mudar de ideia, eventualmente de uma só vez.
Reconectar, rever, retomar a amizade – foi o mantra de Clô ao receber o convite para a festa dos 40 anos de formatura. Quarenta! Ela leu a lista de colegas com um sorriso nostálgico no rosto e um pensamento ligeiramente suspeito:
“Que tempos maravilhosos… mais ríamos do que estudávamos, e ainda assim conseguimos o diploma! Milagre puro. Laís, Marina e eu éramos uma trinca imbatível!” Sabiam tudo da vida uma da outra – inclusive os detalhes mais cabeludos.
Só que a vida, essa bagunceira, foi jogando cada uma para um lado. “Como estarão agora? Bonitinhas, como éramos? Ou detonadas pelo tempo, como todo mundo?”
Aí veio o pânico, aquele clássico pânico feminino com data marcada.
Dois meses até o evento. Tempo suficiente para virar uma versão 2025 de si mesma – sem filtro, sem Photoshop, ao vivo e em HD.
Missão Clotilde em modo turbo: -Reforçou a academia (alô, personal trainer); -Clareamento nos dentes (tchau, café e vinho); -Mechas loiras (tom “iluminada e despreocupada”); -Botox e uma esticadinha nas pálpebras (cirurgia rápida, que ninguém precisa saber); x Harmonização facial? Quase. Mas faltou coragem. Ainda bem.
Chegou ao evento com a autoestima no volume máximo. O espaço era charmoso, mesas e sofás espalhados, vibe “sunset de senhora elegante”.
E lá estavam elas: Marina e Laís. Reconhecíveis, porém… um pouco vencidas pelo prazo de validade.
“Gastei horrores pra nada. Estão caidinhas. Ufa!”
Mas Clô era educada. E disfarçava bem.
Abraços, beijinhos, aquela conversa-padrão de reencontro: “Casou?” “Tem filhos?” “Trabalha ainda?” “Mora onde?” “E seus pais, vivos?”
Checklist da vida em andamento.
Logo vieram umas lembranças – aquelas piadas internas que antes causavam ataques de riso e agora só rendiam sorrisos educados.
A festa seguia animada: bebida boa, DJ animado, comida de primeira… tudo propício ao tal reencontro inesquecível.
Menos… na mesa de Clô.
Ali, o silêncio começou a pesar como prataria herdada.
Ela olhou para as “meninas” e viu… duas estranhas. Nada da antiga conexão, nenhuma faísca do trio explosivo que um dia foram.
Sem rodeios, soltou: — Gente… que tal dar uma voltinha por aí?
Levantou-se, ajeitou o vestido, ergueu o queixo renovado pelo botox e, ao dar o primeiro passo, lembrou de uma frase que leu num cartão postal ou num biscoito da sorte, sei lá: “O rio nunca passa duas vezes no mesmo lugar.”
E, naquele momento, ela achou a metáfora perfeita.
Não sei se vocês já repararam, mas, depois dos 40, o mundo parece decretar: “Pronto, acabou o estoque de incentivos”. Aos 20, todo mundo te empurra pra frente — “Estuda! Viaja! Conquista o mundo!”. Aos 30, ainda rola um “Vai lá, compra a casa, casa, tenha filhos”. Mas aos 40? Silêncio radioativo.
É como se a sociedade tivesse investido tudo em você e agora só contasse os prejuízos. “Já casou, já doutorou, pós-doutorou, comprou o carro, a casa na praia, aprendeu três idiomas. E agora? Desiste, vai”. Ninguém mais te motiva a recomeçar. Ninguém diz: “Ei, e aquele sonho engavetado? Corre atrás!”. Aos 40, você vira um capítulo fechado no livro alheio.
Só muito tempo depois eu parei e pensei: espera aí, onde foram parar aquelas frases motivacionais que eu ouvia tanto aos 20? “Cara, você consegue! Não desiste, não! Você ainda tem muito tempo pela frente. Tem muitos amores pra você viver ainda. Aprende um quarto idioma, por que não? Você consegue, você é novo, inteligente! Para de sofrer por este ingrato, é essa ingrata. Vai viajar o mundo!”.
Mas o que muda — e o que torna essa fase fascinante — é que você só conta com você mesmo. Precisa encontrar seus próprios motivos pra levantar da cama de manhã. Precisa ser um pouco maluco, porque a felicidade depois dos 40 é uma espécie de maluquice. Se encontrar simplesmente aquilo que te faz feliz e correr atrás. Nessa idade, se for esperar alguém empurrando, a gente nem sai da cama. Aquelas frases bonitinhas — “Você consegue, você chega lá” — param quando você faz 30.
Eu olho pros lados e vejo amigos fingindo contentamento, mas no fundo é um vazio quieto. Onde foram parar aqueles “você consegue”? Talvez a gente precise se incentivar sozinho agora. Ou quem sabe inventar nossos próprios troféus — um idioma novo aos 45, uma viagem maluca aos 50. Porque parar de ser incentivado não significa parar de voar.
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