Crônicas

  • A crônica de todos nós

    A crônica tem todos os rostos: brancos, pretos, asiáticos e mais!

    A crônica tem todas as cores, odores e sabores que podemos imaginar!

    A crônica é, como diria o poeta, uma janela para o mar!

    A crônica tem todas as linguagens e gestos e sinais!

    A crônica é simplesmente a crônica. Assim leve como um sorriso, quente como um abraço, demorado como um beijo apaixonado.

    A crônica tem todos os rostos e olhares. Rostos redondos ou retangulares… olhares de canto, olhares de ressaca como os de Capitu

    Rostos e olhares… alguns perdidos e achados no meio do caminho.

    E no meio do caminho pode haver poesia sim!

    Mas muitas vezes tem pedra, poeira e sal.

    Mas qual o mal?

    Se não fossem as pedras ou a poeira ou o sal, o que seriam de tantas histórias que se fizeram no labor das coisas?

    A crônica segue a vida. Em caminhos e descaminhos. Em subidas e descidas. Dia ou noite. Choro ou riso.

    A crônica tem todos os rostos. E cada rosto um dom, um amor, um sonho e uma decepção. Cada rosto uma memória, um perfume e uma canção.

    O cronista avança pelas ruas e avenidas e escreve. Escreve sobre o tempo e todas as coisas que ele deixa e leva. Escreve sobre as luzes e os cartazes que apontam e vendem e prometem tantas coisas. Escreve sobre o movimento intenso de tudo. Fluxo.

    O cronista escreve sobre os rostos que vê ou imagina. João, Maria, José. Bernardo, Miguel e Adelaide. Será que Antônio reclama de um amor? Ou será que a Laura não para de sonhar e tem dificuldade de aterrissar? Ou então o Carlos, a Helena e o Simão? O próximo passo entre felicidade e a solidão?

    São tantos os nomes e tantas as vidas que passam…

    A crônica? A crônica passa e não passa. Muda e não muda! Avança e fica no mesmo lugar!

    A crônica segue como testemunho de todos os homens e mulheres que todos os dias vivem a vida.

    A vida? Seja nas tragédias urbanas ou nas histórias de amor, é o melhor material para qualquer cronista.


  • Deus abençoe esta bagunça

    Tive um chefe muito desorganizado com quem dividi a sala de trabalho. Ninguém conseguia limpar aquela balbúrdia, cada vez mais empoeirada. Quem tentava era desencorajado pela advertência de se tornar o principal suspeito pelo extravio e/ou danos a documentos importantes (É claro que ele possuía outras qualidades, que não a organização, que o tornavam benquisto e capacitado para o cargo).

    Um dia ele fez um comentário do qual se arrependeu instantaneamente: aquela papelada constituía uma prova da inutilidade da burocracia. Não era bem assim: ele tinha razão quanto ao excesso de burocracia, muitos dos documentos ali esquecidos nunca foram reclamados por ninguém, mas, não raro, funcionários desesperados vinham examinar as pilhas de papel na esperança de encontrar um processo perdido. Às vezes eram bem-sucedidos embora na maioria das ocasiões desanimassem só de olhar para as prateleiras atulhadas e de ouvir os resmungos do superior. Em casos extremos acampavam na sala até que ele despachasse alguma demanda urgente.

    Eu, que sou razoavelmente organizada, aturei calada a situação durante um par de meses; ciosa de minha posição subalterna, nada ousava dizer quanto aos papéis acumulados. No entanto, como a intimidade induz a falta de respeito, um dia resolvi dar uma sacudidela naquele estado de coisas.

    As primeiras tentativas foram tímidas. Ofereci-me para separar o joio do trigo, diminuindo o volume de papéis e, consequentemente, de poeira. Ele retrucou que eu não era qualificada para a tarefa, pois desconhecia as nuances da burocracia. Em resposta ofereci-me para selecionarmos juntos o que realmente interessava naquele matagal burocrático. Foi quando ele fez o tal comentário do qual se arrependeu porque eu retruquei, cheia de coragem, que nesse caso o problema tinha uma solução simples: jogar tudo fora.

    Minha reação o assustou de verdade. Percebi que avaliava a possibilidade de que isso fosse um ameaça real e recuou dizendo que para cada processo existia alguém interessado no resultado e que não queria ser responsabilizado pelo sumiço de algum documento relevante.

    Propus limpar só a poeira. Ele respondeu que isso fatalmente mudaria a ordem em que os papéis estavam colocados, o que dificultaria o seu trabalho. Uma afirmativa bizarra, porque ele nunca leria aqueles papéis, nem fazia a menor ideia de como estavam dispostos. Uma resposta que ilustrava exemplarmente a falta de lógica humana.

    Em desespero, ameacei desfazer-me sumariamente de tudo que estivesse amarelado de tão velho e em seguida sacudir a estante jogando fora, aleatoriamente, o que caísse no chão. Diante dessa nova ameaça ele ainda titubeou um pouco, mas não cedeu. O máximo que consegui foi livrar-me de alguns papéis de importância periférica e plantar na cabeça do meu chefe a dúvida: seria eu capaz de cumprir as ameaças que fazia?

    Bagunça à parte, tínhamos ótimo relacionamento, éramos amigos. Infelizmente o perdi muito cedo para um infarto traiçoeiro, uma perda que me marcou e até hoje me entristece.

    Ele já tinha falecido quando conheci meu marido. Adivinhem! Ele é um bagunceiro! A ‘decoração’ do apartamento de solteiro em que morava lembrava a arrumação antiga da minha sala de trabalho, agora dividida com um colega muito mais organizado do que eu.

    Percebi imediatamente que tentar arrumar o tal apartamento seria uma missão impossível. E acrescentei uma cláusula ao namoro: quem casa, quer casa, com território demarcado para cada um. Funcionou. Em todos os locais que moramos sempre existe um quarto interditado que é quase uma reprodução da sala de trabalho que dividi com o meu chefe. Contas velhas, cartas sem abrir, jornais acumulados, pilhas de revistas, sacolas vazias, cartões de visita, anotações esparsas. Só falta a poeira, mas, sinceramente, não sei como a faxineira consegue esse milagre. Eu evito entrar lá, porque a briga é certa.

    Agradeço ao meu falecido amigo pelo treinamento que me permitiu conviver com a desorganização. Se não fosse por ele talvez não tivesse me casado ou talvez estivesse divorciada. Somos moldados pelas pessoas que passam pelas nossas vidas, para o bem e para o mal.

    Como protesto contra a existência desse cômodo que me enlouquece, pendurei em uma de suas paredes, uma placa de madeira comprada na feira hippie, onde se lê: ‘Deus abençoe esta bagunça’. Fazer o quê? Nem sempre as coisas são como desejamos. E o que importa vem primeiro.


  • A casa do ontem

    Se existe algo que podemos considerar indestrutível é a infância. Não importa quanto o tempo ou a maturidade bombardeie esse território, quando menos se espera, dos escombros do passado, desterra-se uma recordação, um medo, um trauma, uma saudade ou um fantasma.

    As lembranças infantis têm poder de reencarnação no agora. Prova disso é o peso cortante, na vida adulta, dos apelidos pejorativos de outrora, do escárnio ou da exclusão vivida num tempo distante. Ninguém esquece o gosto amargoso de uma humilhação. Mesmo que as coisas mudem, as condições se transformem, as pessoas sejam absolutamente diferentes dos primórdios de sua evolução, a infância insiste dentro de nós. Se agarra nas vísceras, forma limo, provoca erosões. Ora traz sorrisos fortuitos, ora rasga os pontos da cicatriz.

    O curioso é perceber que ela reencarna não só nas memórias e dores, mas também nas atitudes cotidianas. Um bom exemplo disso são as redes sociais. Quem nunca se descobriu excluído do grupo secreto de amigos do whatsapp ou constatou, pelo Instagram, que foi o único a não ser convidado para uma festa de aniversário?

     A bem da verdade, a infância também se presentifica em nossas imperceptíveis tolices, seja quando fingimos não ver alguém na rua, para não ter que cumprimentar, seja comentando defeitos alheios ou fazendo pequenas fofocas.

    Para ser justa, saliento que a infância é bem maior do que suas rusgas, basta lembrarmos do quanto os afagos, colos e incentivos nos encorajaram a chegar até aqui. Então não se trata de promover uma caça à infância, até porque ela é o jardim eterno de cada um de nós. Sugiro uma boa faxina. Se a todo tempo visitamos a casa das memórias, que possamos lavar as mágoas com desinfetante, esfregar, até sair, o lodo do sentimento de menos valia, jogar no lixo as culpas e autoacusações. E, depois, vir com um pano úmido e essência de lavanda ou alfazema perfumando o ambiente.

    Feito isso, é hora de abrir as janelas, colocar uma música, contemplar o céu e orgulhar-se de si. 

    Tenho me empenhado nisso. Me recuso a criar um altar de lembranças dolorosas e culto a pessoas infelizes, invejosas e cruéis.

    A missão é habitar-me com harmonia, cercar de afeto o perímetro da existência e apostar nas minhas escolhas.

    Ainda que o amor do outro me anime, não me valida ou constitui.  

    Amigos, venham visitar a minha casa. Limpa, florida e perfumada!


  • A ambiguidade é inimiga da clareza

    Ambiguidade é a duplicidade de sentido. Ela pode se constituir num bom recurso expressivo, mas deve ser evitada quando compromete a clareza do texto. São ambíguos enunciados do tipo:

    — “Vivemos numa sociedade cuja aparência é mais importante do que a essência.” (o uso de “cujo” no lugar de “em que” dá a entender que a aparência da sociedade é mais importante do que sua essência, e não que na sociedade atual a aparência importa mais do que a essência);  

    — “A maioria das redes e blogs dá apenas uma visão parcial do indivíduo que publica.” (não está claro se quem publica é o indivíduo ou a maioria das redes);

    — “Um grupo de assaltantes rendeu elevou o carro de uma família.” (parece que o grupo rendeu o carro antes de levá-lo!!).

    Um dos fatores que levam à ambiguidade é a má ordenação das palavras. Quando o período não está na ordem direta, pode haver margem para mais de uma interpretação. Por exemplo: “Encontrou o diretor o secretário na sala de reuniões”. Não se sabe quem encontrou quem.  Na ordem direta, em que o sujeito aparece antes do complemento, desfaz-se o equívoco: “O diretor encontrou o secretário na reunião.” Outra forma de distinguir sujeito e objeto é antepor uma preposição a este último: “Encontrou o diretor ao secretário na sala de reuniões”. 

    Deslocar o atributo oracional para longe do termo que ele modifica pode tornar ambígua a frase: “Refiro-me a um conflito no meu namoro, que ocorreu há oito anos”. O que aconteceu há oito anos – o conflito ou o namoro? Como a referência temporal diz respeito ao conflito, o melhor para a clareza é deslocar a oração adjetiva: “Refiro-me a um conflito que ocorreu há oito anos no meu namoro”.

    A separação entre componentes de uma mesma função sintática também pode gerar ambiguidade. Exemplo: “As pessoas que gostam de saber das novidades procuram a internete até mesmo as grandes empresas, para vender seus produtos.” O aluno dá a entender que apenas “pessoas” é sujeito do verbo procurar, e que “internet” e “grandes empresas” são objetos diretos. A frase fica sem sentido, pois o propósito do autor era afirmar que tanto as pessoas quanto as empresas procuram a rede. Ele traduziria claramente essa ideia se tivesse mantido coordenados os sujeitos: “As pessoas que gostam de saber das novidades e até mesmo as grandes empresas procuram a internet para vender seus produtos.”

    No plano semântico, é comum haver ambiguidade devido à polissemia. A diversidade de sentidos de uma mesma palavra pode levar a que se diga o que não se queria dizer. Em redação sobre a atual crise da Igreja, outro aluno escreveu: “Hoje, por força das circunstâncias, a Igreja admite a pedofilia em alguns de seus membros”.

    Entre os significados de “admitir”, está o de “reconhecer” (“Ele admite seu erro”); o redator quis dizer que a Igreja, forçada pelas circunstâncias, reconhece que há pedófilos entre seus membros. Não lhe ocorreu que esse verbo tem também o sentido de “aceitar”, “permitir”, o que poderia levar a um julgamento negativo da instituição religiosa.

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  • O mais importante é a mudança!

    Em cada época de nossa existência, sempre tentaram explicar o funcionamento do cérebro através de metáforas extraídas da tecnologia mais atualizada do momento. A descrição que ficou famosa foi realizada por Platão, que comparou a psique humana a uma biga puxada por dois cavalos, onde um representava a razão e o outro o desejo.

    No século XX os psicólogos compararam nosso cérebro a um computador, que eventualmente apresentava um “bug” em seu sistema operacional.

    Exemplos assim são tentativas de expor nossa influência social exercida em muitos gestos que são o resultado do que somos, de nossa base existencial.

     Diversas atitudes nascidas do meio ambiente nos ensinam comportamentos similares, para sermos aceitos e conduzirmos a mesma máxima interessada pela maioria, sem sombra de dúvidas.

    E como animais sociais, pertencemos à casta de nosso grupo mais próximo, fazendo o papel necessário para pertencermos ao meio que chegamos, por isso não há muitas opções além daquelas já expostas e pegas na prateleira social.

    Possuímos a estranha mania de copiar e colar em nossas cabeças, atitudes bem aceitas e lavadas pelo sistema, que está pronto para entregar a dose certa na boca, e o lado correto de dar o ombro. Nosso conteúdo influenciado pelo meio se mantém absorto e na expectativa do próximo ato, que virá para conduzir o que podemos pensar e o que devemos atuar depois de um texto bem decorado.

    A fadiga por momentos não é uma opção e sim pausa para repor o próximo cartucho. Por isso vos digo, que a vida é curta demais para ser pequena.

    “Mude, mude de novo, experimente outra vez, atue, você certamente encontrará coisas melhores, e coisas piores que as já conhecidas, mas não é isso que importa, o mais importante é a mudança, porque se você tem mais medo da mudança do que da desgraça, você não impede a desgraça, a mudança, o movimento, o dinamismo, a energia, só o que está morto não muda. Repito por pura alegria de viver, a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena” (Antônio Abujamra).


  • Arte da imperfeição

    Perfeito vem do Latim “perfectus”, que na cultura grego-latina significa acabar, terminar, completar sem faltar nada. Nós, os que, como eu, fomos criados com esse modo de ver ocidental e dicotômico de ver o mundo, tendemos a buscar essa perfeição em tudo o que nos cerca.

    Cultuamos o prazer imediato, a busca do melhor, a valorização do maior – temos necessidade do completo. Maiores prazeres, melhores oportunidades, o desejo como valor que impulsiona o progresso. Nesse modus vivendi não há espaço para imperfeição, para o menos, o quase, o em parte.

    Esticamos a régua na medida da perfeição, do superlativo, muitas vezes inatingível. Se tropeçamos na jornada, muitas vezes preferimos mudar totalmente de caminho a diminuir as expectativas e se sentir bem com o incompleto.

    Nas relações, não nos acostumamos a aceitar os defeitos alheios nem as nossas fragilidades.  A conviver com o que é dissonante, com o que não atinge o padrão que esperamos.

    Se ampliarmos essa observação para o modo como lidamos com as coisas em geral, perceberemos uma tendência a descartar tudo o que, de alguma maneira, não atingiu a perfeição, envelheceu, perdeu o viço, se rompeu ou quebrou.

    Para não ter que conviver com a frustração do não perfeito, o caminho que adotamos com frequência é abandonar os cacos, que é mais fácil do que tentar aproveitá-los para fazer nascer algo novo.

    Quem consegue ver nesses fragmentos do que foi desfeito a possibilidade de reconstrução em um novo formato de relações, um novo arranjo de forças ou uma nova estética, é quem saiu em busca de um elemento de amálgama que unisse os cacos e fosse capaz de reinventar a beleza, na imperfeição.

    Abraçar a arte da imperfeição é abandonar os limites impostos pela ditadura do perfeito, para adotar um ensinamento oriental que vem conquistando mais e mais adeptos, e pode ser exemplificado pelo Kintsugi. Seguindo uma tradição milenar japonesa, o Kintsugi consiste em realçar as fissuras dos objetos que se quebraram, envelheceram ou estragaram por meio da aplicação de ouro para juntar as peças.

    O resultado é uma verdadeira obra de arte, a arte da reconstrução de algo que tem valor para quem consegue enxergar beleza na imperfeição – das coisas, das pessoas, das relações e da própria vida. Para quem cultivou esse amálgama de ouro dentro de si.


  • A nossa vida dos outros

    Queremos mais que uma vida. Queremos viver várias vidas. Desejamos ser piratas, mouros, cantores famosos, astros do cinema, reis e cavaleiros. Desejamos ser o outro e nunca nós mesmos. Não reparamos no espelho o nosso rosto… Em que espelho ficou perdida a minha face? Deixamos o tempo passar. Deixamos nossas coisas para deslumbrar outra vida, outras vidas. Nos assustamos depois com o que vemos: velhice.

    O pior de tudo é quando nos metemos na vida do outro. Somos os donos do conhecimento. Entendemos todos os males e problemas alheios e não sabemos resolver os nossos.

    No entanto, possuímos apenas uma única e delicada vida. Se há ou não há aventuras ou tesouros, grandes batalhas ou fantásticos enigmas, não importa. Importa a vida. A nossa.

    É cotidiana e tributável e a mesma e a mesma e a mesma continuamente? O que fazer? Somos humanos. Somos falhos. Somos loucos e controversos. Somos o próprio conflito e o próprio caos. E quando amamos, tudo piora. Tudo alcança dimensões maiores e mais dramáticas. E morremos sem morrer. E perdemos e ganhamos e continuamos a jogar seja qual for o jogo. E é assim e sempre será. Estamos vivos e este fato, por si só, possui um valor incalculável.

    Queremos outras vidas, mas temos uma, uma só para gastar e para amar e para chorar. Não percamos tempo.

    O que se há para viver, viva. O que se há para gastar: gaste. O que se há para amar: ame. O que se há para chorar: chore. Tudo no seu tempo…

    Encontre-se e perca-se e deixe-se levar. Aprume-se, endireite-se e siga o que há de significante. Veja ou não veja. Sinta ou não sinta. Escreva ou leia ou faça os dois ou nenhum dos dois. Faça o que é importante para a sua vida.

    Queremos mais que uma vida. Queremos viver várias vidas. Queremos viver a vida dos outros.

    No entanto, a melhor e mais valiosa a ser vivida, definitivamente, será a nossa…


  • Só se vive no agora

    Num almoço animado com as amigas, um engasgo rasga o tempo entre o vivido e o viver. O ar não passa pela garganta, os olhos arregalam diante da impossibilidade da salvação. Um ruído no peito anuncia o desengonçar dos segundos, a fragilidade do devir. Tento tossir, não consigo. O que parecia abundante se torna rarefeito. O ar não entra, não sai. Meu olhar aterrorizado de desespero encontra o olhar pronto da amiga médica. Uma manobra feita.  Nada. De novo, nada. Mais uma vez. Tento. Tento. Ouço meu nome entre pedidos de calma. Alguém me abraça pelas costas. Me aperta. Me sacode. Penso no sorriso do meu filho. Nas pessoas que eu amo. Que seja assim a despedida. Que me amparem as melhores memórias.

    O ar volta, a vida abraça, a morte se vai. 

    Uma alegria faceira dança em meus lábios. As cores retornam aos seus lugares, os sonhos se arrumam, mais uma vez, nas gavetas do pensamento.

    Uma certeza ordinária me agarra: sobrevivi!

    A obviedade corpórea desses feitos (respiro, enxergo, ouço, falo, ando) esconde no cotidiano um segredo cruel: a qualquer momento o sempre pode decidir partir.

    Hoje, por sorte, bênção ou privilégio, ele decidiu continuar a meu lado. Então, que me acompanhe no ensaio da minha escola de samba.

    O sempre só existe no agora!


  • Uma Vida

    Dramas gigantescos da humanidade oportunizam momentos para que indivíduos de bom coração se tornem heróis, e figuras lembradas por não terem se acomodado perante um drama, como é comum a muitos. 

    Uma deles foi Sir Nicholas George Winton, que nasceu em Londres em 1920, onde mais tarde foi corretor da bolsa de valores de Londres e um socialista fervoroso do Partido Trabalhista. Tornou-se parte de um círculo de esquerda preocupado com os perigos representados pelos nazistas.

    Quando visitou Praga em 1938, se deparou com famílias vivendo em condições extremamente precárias e sob a constante ameaça de uma invasão nazista. Em uma corrida contra o tempo, Winton e um improvável grupo de apoio, trabalharam incansavelmente para resgatar o maior número de crianças possível, antes do fechamento das fronteiras.

    Ele ajudou a salvar 669 crianças judias da morte certa, nos momentos que antecederam o início da Segunda Guerra Mundial.

    Pouco antes do Natal de 1938, quando Winton tinha cerca de 29 anos, ele planejava passar suas férias esquiando na Suíça, entretanto, após o pedido de um amigo, mudou o trajeto até Praga para ajudar o Comitê Britânico para Refugiados da Tchecoslováquia — país que estava em processo de ocupação pela Alemanha nazista. Winton passou um mês no país, retornando a Inglaterra seis semanas antes da ocupação alemã. Após a Noite dos Cristais Quebrados, a Câmara dos Comuns aprovou uma medida que permitia a entrada de refugiados na Grã-Bretanha com menos de 17 anos, desde que tivessem um lugar para ficar e uma garantia de £50 por pessoa, que fosse depositada, para garantir seu eventual retorno ao país de origem. Com todos os trâmites, Winton ajudou a resgatar as crianças que fugiram de trem numa operação chamada de Kindertransport

    Em seu país natal, ele e sua mãe, Bárbara Winton, recebiam os refugiados e encontravam novos lares para essas crianças.

     Aquelas vidas foram salvas por meio de oito trens que partiram de Praga com destino à Londres. O filme “Uma Vida” narra de forma tocante o trabalho humanitário de Nicholas Winton. Uma cinebiografia, baseada no livro homônimo escrito pela filha de Nicholas, Bárbara Winton, onde o ator Anthony Hopkins, aos 86 anos, entrega uma interpretação comovente e retrata com fidelidade aquela história importantíssima da Segunda Guerra Mundial. Um enredo que se desenrola de maneira intensa e merece ser assistido.


  • Sobre as angústias de um pé-frio

    Tenho muito medo da morte. Um medo estranho, próximo, escuro, paralisante por vezes, e por vezes aterrador. Isso não me obriga a amar demais a vida. Não acho tudo maravilhoso, não faço parte da galera do gratiluz nem gosto de acordar cedo. Geralmente, estimo a vida nas sextas após o expediente e nos sábados à tarde. Mesmo assim, ante o bafo azedo do óbito, até a semana corrida me apetece. Um dos motivos de preocupação e temor quando penso nesse assunto, em particular, é a provável impossibilidade de seguir acompanhando as ocorrências terrenas. Sendo sincero, meu receio, por idiota que pareça, é não saber do Grêmio no pós-morte.

    Sei que há coisas mais importantes, você não precisa me explicar o quanto isso é mesquinho, mas é a mais crua verdade. O fato é que me apavora a ideia de estarmos (ou estarem, no caso) em 2158 sem saber quantos Estaduais, Brasileiros e Libertadores o Grêmio ganhou nesse período. Me apavora não saber quem surpreendeu e quem decepcionou. Me apavora desconhecer a quantidade de Grenais vencidos com facilidade até lá. Espero que todos, naturalmente.

    Tudo isso é uma grande bobagem. Eu sei. No fundo, odeio gostar de futebol. No entanto, sou daqueles que fazem compras nos patrocinadores do time, que evitam usar qualquer item na cor vermelha, que pagam quinhentos reais numa camisa, que tomam calmantes antes das partidas importantes e que choram escondidos quando dalgum revés. Só não perco o apetite porque não misturo as coisas, afinal, futebol e comida são categorias diferentes. Além disso, ainda há o maior problema, o que me causa mais
    desgosto: sou um baita pé-frio.

    Aqui estacionamos num paradoxo complicado. Quero acompanhar o Grêmio mesmo após a morte, mas nunca presenciei sequer uma vitória no estádio, mesmo com inúmeras tentativas. No máximo, assisti uns empates suados jogando feio. Nos últimos anos, o complexo pé-frio se estendeu aos jogos que assisto pela televisão. Meio a contragosto, fico longe dela simulando ocupações, para só depois descobrir o resultado. Mais tarde vejo os melhores momentos, as entrevistas, as análises de cada lance e acompanho as especulações na imprensa especializada, longe da taquicardia, do desespero e do abraço irreparável do azar. Parece que estou sempre ouvindo atrás da porta.

    O Grêmio e eu vivemos numa espécie de gangorra. Sempre que o time ganha eu estou em outro lugar, atribulado com algum compromisso. Jamais permanecemos na mesma linha por muito tempo. Talvez seja coisa do acaso.

    A principal conquista dos últimos anos foi a Libertadores, em 2017. É claro que assisti aos jogos, o estranho foi que durante uma das partidas mais difíceis, contra o Botafogo, nas quartas de final, caiu a luz no meu bairro e só depois do apito final, já no meio da madrugada, retornou. O Grêmio venceu, mas eu não vi.

    Na semifinal, contra o Barcelona de Guayaquil, tive uma crise hipertensiva após aquela defesa histórica do Marcelo Grohe no início do segundo tempo. Jogo tenso, ansiedade incontrolável. Fui parar no hospital. Outra vitória sem mim. E tem mais.

    No primeiro duelo da final eu voltava de viagem. O trabalho também apita nesses acasos. No ônibus, aflito e inquieto, mal conseguia conectar a transmissão. Soube do resultado numas falas entrecortadas do Pedro Ernesto Denardin, da Rádio Gaúcha, em algum lugar entre União da Vitória e Palmas. A partida já havia acabado.

    Durante o segundo jogo eu participava de um Congresso de Literatura, em Pato Branco, sobre a obra de Nelson Rodrigues. O palestrante era o professor Luís Augusto Fischer. Eu realmente precisava daqueles créditos. Na saída ouvi um foguetório e parei no primeiro bar em que encontrei alguns torcedores do Grêmio. Lá assisti aos replays dos gols enquanto bebia canecas e mais canecas de chope. A palestra foi muito interessante, mas o professor Luís Augusto Fischer é colorado fanático. O Grêmio ganhando a sua terceira Libertadores e eu assistindo um colorado palestrar. Às vezes a
    vida é cruel.

    Esse paradoxo tem me angustiado. Meu pé-frio é evidente e comprovado, os amigos sabem disso. Me excluem dos churrascos durante os jogos para garantir mais chances de vitória do tricolor. Ultimamente, por conta dos sites de apostas, eles só falam em probabilidades. Isso nos distanciou ainda mais. Não sei se a morte resolverá o problema e também não estou disposto a descobrir. No entanto, se no pós-morte o meu pé-frio acabasse, talvez a temesse um pouco menos. Orgulhoso, então diria:

    —  Não dá, hoje tem jogo do Grêmio.


  • A Troca

    Na quietude da noite, em meio ao escuro do quarto, eles iniciam uma conversa.
    Uns indignados, outros seguros de si, e alguns, incrédulos.
    Como todos a conhecem, não poderia ser diferente.
    —  Naturalmente, diz o preto, eu me
    garanto; vou com ela aos mais diversos lugares, do escritório às noitadas, restaurantes e bailes. Comigo ela fica tranquila, sabe que não sou inconveniente.  Dou segurança e conforto. Portanto, serei o último a ser trocado ou nem isso, podem apostar!
    — Querido, presta atenção!
    Sabemos o quanto você a atende  e, por isso, acaba sendo o preferido. Mas não  pense que é pela sua cor.
    Eu por exemplo!
    Também vou a todos os lugares, sou seguro, discreto e tudo mais.
    — Alguém me nota?  Só se for para perguntar onde ela me encontrou. E suas amigas ainda dizem: com esse não tem erro! A cor não é o ponto da questão, já que sou considerado pardo.
    — Verdade! eles dizem, ao mesmo tempo.
    — Eu não sei de nada, pois sou a companhia certa dela para irmos em casamentos, batizados e ocasiões especiais. Estranho seria se não fosse assim. Só os brancos me entenderão!
    Eles estavam ali, no quarto dela, discutindo, buscando entender o que havia.

    Tudo aconteceu muito rápido.
    Há pouco tempo, ela ficava dois ou tres dias em casa, resfriada talvez; aos finais de semana ia à praia, ou então apenas descansava em sua rede com os pés descalços, lendo um livro. E eles permaneciam tranquilos a aguardando.
    Depois, ela passou a quase não sair mais de casa. Separou peças do guarda roupa, colocou em sacolas, etiquetou, limpou gavetas, caixas de quinquilharias e foi arejando o seu quarto.
    Na manhã que a amiga foi buscar as sacolas de doações, eles entenderam tudo.
    Seriam descartados!
    E essa foi a razão da surpresa e da conversa noturna.
    — Ela não nos traiu, disse o preto.
    Mesmo quando trouxe para casa os baixinhos disfarçados, marrentos e cheios de si, ela nos revezou entre eles.
    — Embora cada vez menos nos procurasse, um deles resmunga com um muxoxo.

    Nada mais havia a ser dito.
    A discussão terminou, a Reflexão se impôs e disse:
    — Imaginem como não deve ser fácil para ela nos deixar ir embora.
    Somos amados, bons, fortes e de qualidade. Ainda podemos ser úteis e
    parceiros de outras mulheres.
    E ela?
    O Amor responde:
    — Fizemos parte da sua vida e amar significa deixar espaço para o novo.
    Nada é descartado ou trocado. Nem coisas e nem pessoas.
    Ela está bem.
    E vocês também ficarão. 
    Portanto, entrem em suas caixas, vamos!
    — De fato, disse o mais antigo…
    E aos pares, foram se acomodando.
    É o ciclo da vida, resumiu o amarelo.


  • A sucinta e individual força dos Verbos e Substantivos:


    (…)

    “vence, leva, ‘sai-vitorioso’, fede, terminam, caminham, garantir, levou, votarem, vence,
    consolida, vence, conquista, foi-eleito, abandonaram, levar, conversam, ‘não-fará’,

    pede, nega, inclui, deixar”

    (…)

    Arizona, estados-chave, eleição; disputa, estado; estados-chave, eleição; vitória,
    eleições; contagem, delegados, ‘X’; maioria, câmara; mulheres, EUA, republicano;
    Arizona, vitória, estados-pêndulos; 7-Estados; presidente, pobres, ‘faxina’, pentágono, sombra, COP29, Azerbaijão, eleição, parte, governo, alívio, acusações, complô,
    posição,
    Ucrânia, sinais, Kremlin, EUA

    (…)

    passado futuro Biden Lula Trump Bolsonaro posse vitória Trump pai chances Moraes vitória Trump sinal alerta Lula dois-mil-e-vinte-e-seis senador foto vitória Bolsonaro utilidade Lula candidatos Bolsonaro vitória Trump dois-mil-e-vinte-e-seis apoio
    Bolsonaro Trump Lula ex-presidente Trump

    (continua).


  • Treinamento para habilitados

    Dois dias atrás, o carro da frente do meu exibia uma placa: Em Treinamento para Habilitados. Achei fantástico esse serviço – dar um treinamento para os já habilitados. Isso pressupõe que, mesmo tendo sido considerada apta para a função a que se propõe, a criatura não tem domínio do assunto.

    Incrível, não? Como será, então, que foi considerada apta a exercer essa atividade? Quando se trata de carteira de habilitação de condutor, a nossa tão conhecida CNH, é fácil de entender – o candidato a condutor passa por um curso rápido em que decora algumas regras de trânsito, e faz, se não me engano, umas 40 horas de treino sobre como se portar ao entrar no veículo: regular os espelhos, o banco, a partida, freio de mão, as setas, etc. Aí vem o percurso, a baliza, sair na ladeira (que é o mais temido) e, salvo alguma barbeiragem muito grande, a esperada aprovação.

    Orgulhosamente com seu atestado na mão, o novo condutor começa a enfrenta a vida real – trânsito, cruzamentos, se aventurar a mudar de faixa visto que tem que entrar à direita logo mais, estar preparado para os sinais que mudam de repente, enfrenar alguém que corta a frente subitamente, ficar calmo diante da pressão de outro que buzina para que ande mais depressa, enfim – o estresse de qualquer iniciante ao volante.

    Alguns tem pendor nato, logo dirigem super bem, com tranquilidade e segurança. Outros vivem um verdadeiro martírio ao enfrentar esse desafio. Para esses, foi criado o curso de treinamento para habilitados – super louvável, apesar de que não acredito muito que o resultado seja transformar patinho feio em príncipe.

    Esse assunto ficou, de alguma forma, na minha cabeça. À noite tive um sonho delirante – esse serviço poderia ser aplicado a um outro certificado de habilitação – a certidão de casamento. No meu devaneio noturno, as coisas aconteciam assim:

    Os candidatos a sacramentar uma união passavam por uma prévia para aprender algumas regras de como se comportar ao volante de sua nova vida: regular os espelhos para não enxergar o outro de forma distorcida, escolher um banco que seja confortável e suficiente para os dois; não fazer questão de dar a partida, deixar espaço para o parceiro iniciar o contato; puxar o freio de mão quando vem aquela raiva; dar setas para que o outro perceba quando é para mudar o rumo da conversa etc. Aí vão para o percurso, tentando acertar a baliza, sair na ladeira quando o clima esquenta (que é o mais temido) e, salvo alguma barbeiragem muito grande, chegam para pegar a esperada certidão.

    Certos de que já estavam habilitados, começavam a enfrentar a vida real a dois – trânsito com congestionamentos desgastantes; cruzamentos que provocam colisões; insegurança para pegar a direita e retornar quando a conversa foi na direção errada; dificuldade para captar os sinais de alerta se o humor muda de repente; sabedoria para driblar um triângulo amoroso que corta o caminho subitamente; paciência para manter a calma quando a sogra buzina no ouvido pedindo que apareça um filho mais depressa … Resultado – uma crise de estresse do casal iniciante, que ainda não tinha competência para lidar com a situação.

    Diante disso, será que um treinamento pós habilitação ao casamento funcionaria? Acordei rindo, com essa pergunta no ar.


  • Não existem mais heróis

    Não Existem mais heróis…

    Estes, ficaram em fotos, figuras coloridas ou desbotadas, ficaram nas páginas de um livro velho, ou então, são relembrados de maneira torpe e fragmentada por aqueles que contam histórias antigas, mas têm já uma memória vaga das coisas.

    Hoje, o tempo é de homens perversos. Tempos de perversidade!

    Hoje, o tempo é de guerra e divisão, de discurso copiado na rede e de arma na mão!

    Hoje é o tempo de imbecis! É o tempo do fim da nação!

    Nas fronteiras do mundo, homens rasgados, mulheres cortadas, crianças interrompidas tentam fugir do caos.

    No entanto, apenas prolongam a agonia do desterro…

    Não existem mais heróis.

    Estes, enganaram a troco de pouco, por trinta moedas ou menos…

    Hoje, o tempo é de muros mais altos, dedos em riste, cercas e arame farpado.

    É o tempo do discurso do ódio, da banalização da morte e da miséria, da mediocridade como solução!

    Não existem mais heróis nem cavalos pra montar.

    Não existe mais o final feliz, não há mais aprendiz. O que há é a marca. O que fica é a cicatriz!

    Hoje, o tempo é de revolver cascalhos, olhar os escombros, contar os mortos…

    É o tempo de filósofos desbocados, de agressivos comentários, de loucos pra todos os lados!

    É o tempo dos flagelados, dos desnudados, dos milhões de desempregados…

    Não existem mais heróis…

    E já já não existirão mais poetas.

    Haverá a necessidade de expulsá-los porque teimam frequentemente em pensar, porque teimam absurdamente em enxergar…

    Mas isso tudo não importa, pois as pessoas já não pensam e não enxergam…

    Nas fronteiras do mundo, a despeito da dor, bandeiras continuam delimitando espaços, marcando territórios, desumanizando vidas…

    Nas fronteiras do mundo, a despeito da dor, bombas são jogadas e preparadas e alimentadas sem qualquer pudor.

    As ideologias, rotas e desfiguradas, ainda teimam em dizer o que é bom é o que não é.

    Ainda fazem pessoas saírem de suas casas sem destino e sem a certeza do pão.

    Nas fronteiras do mundo, duas bandeiras se misturam, se interpenetram, mas não se fundem, ao contrário, criam um vazio, uma incógnita… um entrelugar…

  • É preciso sagrar-se cavalheiro

    Para viver um grande amor… talvez esse seja o desejo de todos os românticos, como Vinícius de Moraes. Para uma grande parte dos casais longevos, porém, ele é como aquele café coado de manhã: tem sabor quente e intenso no início, adquire um tom meio desbotado e morno com o passar do tempo e, ao final do dia, sobra só aquele fundinho da xícara com restos de pó, frio e amargo.

    Talvez por esse motivo, mas não somente por esse, um filme que assisti recentemente me encantou – A grande Fuga, um drama dirigido por Oliver Parker e estrelado por Michael Caine. A trama se passa durante o verão de 2014 e acompanha a história real de Bernard Jordan (Caine), um veterano da Segunda Guerra Mundial que decide escapar da casa de repouso em que vive com sua esposa Irene, interpretada por Glenda Jackson, e viajar até a França para participar da celebração do 70º aniversário do Dia D nas terras da Normandia.

    A história do veterano Bernard toca em um ponto sensível e super atual, ou seja, a insanidade de uma guerra, o crime escancarado da perda de milhares de vidas de todos os lados em conflito por e para absolutamente nada.

    Nos faz também pensar no quanto um sonho é capaz de mobilizar nosso corpo e mente a ponto de nos aventurarmos muito além do bom senso e dos limites que a idade nos impõe.

    Talvez para uma grande parte da audiência desse filme, especialmente os mais jovens, esses sejam os maiores atrativos do filme, além da atuação brilhante de dois atores super consagrados como Michael Caine e Glenda Jackson, na época com 90 e 84 anos respectivamente. Glenda, inclusive, faleceu logo após o filme.

    A mim, além desses dois valores, que tornam o filme lindíssimo, a poesia existe na convivência amorosa de dois idosos que, ao final da vida, ainda conseguem manter a cumplicidade, o carinho e a delicadeza da convivência, mesmo estando em um lugar que, a princípio, evitamos até em pensamento – uma casa de repouso.

    Tudo no filme pode ter sido romanceado, obviamente, a partir da realidade de Jordan e Irene; mas a mensagem, de qualquer forma, enternece e faz pensar que é possível manter aquele café como se tivesse sido coado na hora. Mas, como cantou nosso poeta…

    Para viver um grande amor
    Primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro
    E ser de sua dama por inteiro
    Seja lá como for”
    Vinicius e Toquinho


  • ENEM – cada inscrição uma história

    Martina, quando pequena, adorava pegar a seringa de brinquedo e dar injeção nas
    bonecas. Aprendeu com seu pai que, quando crescesse, seria médica.

    Sua família incentivava, com gosto, a brincadeira da menina. Sabiam que, se a fantasia
    ganhasse espaço na realidade, o futuro estaria garantido. 

    Estudiosa, a filha não era. Tinha dificuldade em matemática e português, e preguiça
    para os deveres. Mas desde quando os sonhos respeitam os limites da verdade? Seu pai
    já havia determinado: se espelharia no seu tio-avô. Renomado e rico.

    Ano a ano, na cabeça dele, a história ganhava enredo: Martina estudaria medicina na
    federal, seria assistente do tio Aldomiro, trabalharia na clínica dele. Embora fosse neta
    de um pintor falido, conquistaria o status que seu avô não foi capaz de alcançar. “Nunca
    mais serei o primo pobre”, repetia o pai em seu secreto pensamento.

    No aniversário de doze anos da filha, de forma solene, a presenteou com um jaleco
    branco e nome bordado em dourado. Nessa época, Martina não via mais graça em dar
    injeção. Seu novo divertimento era desenhar vestidos e acessórios. Também amava
    experimentar suas roupas e desfilar pela casa fazendo pose. Deu esse destino ao jaleco.
    Usou-o com cinto, lenço, salto alto da mãe.

    O pai insistia no sonho. Tinha por hábito, ao chegar do trabalho, perguntar:

    — Onde está a Dra. Martina Albuquerque?

    O silêncio invadia o ambiente como uma advertência do futuro.

    A mãe tentou alertar ao marido que a medicina era uma fralda suja de infância. A
    menina, agora mocinha, demonstrava interesse e talento inato para as artes.

    Pela primeira vez, a mãe da garota sentiu, na maçã do rosto, a ira dos inconformados.
    Martina, horrorizada com a cena, nunca mais desenhou.

    Aceitou, com resiliência, a missão de reparar as frustrações e recalques do passado
    familiar. Ingressou na faculdade de medicina. Prestes a se formar, adoeceu do sangue.
    Pobre Martina!


  • Custos irrecuperáveis!

    Nossos telefones celulares oferecem dopamina digital 24 horas, 7 dias por semana, aos indivíduos conectados com seus interesses apenas, e alheios ao que acontece ao seu redor. Estamos vivendo em uma época de acesso sem precedentes a estímulos de alta recompensa e muita dopamina: drogas, comida, notícias, jogos, compras, sexo e redes sociais.

    A variedade e a potência desses estímulos são impressionantes, e todos somos vulneráveis ao consumo excessivo e à compulsão ao utilizar as redes sociais, sendo que qualquer pessoa pode desenvolver um vício desses.

    Na era moderna, é fácil perceber o problema, porque sabemos muito bem que os celulares, a “internet” e as mídias digitais são drogas potentes cujas baterias podem ser recarregadas todas as noites.

    As redes ativam os mesmos circuitos que as drogas tradicionais, como o álcool, a cocaína e os comprimidos sintéticos. Eles liberam dopamina (nosso neurotransmissor de prazer) no sistema de recompensa do cérebro.

    Quanto mais dopa mais viciante é a experiência. E a consequência disso é o que chamamos de custos irrecuperáveis, de tempo, saúde, dinheiro e uma lista amarga que surpreende os especialistas à busca de soluções.

    A Dra. Anna Lembke, psiquiatra e professora da Escola de Medicina da Universidade Stanford, escreveu o livro “Nação dopamina”, e explorou as novas e empolgantes descobertas científicas que explicam porque a busca incansável do prazer gera mais sofrimento do que felicidade. Ela mostra que o caminho para manter a dopa sob controle é encontrar contentamento nas pequenas coisas e buscar conexão com as pessoas queridas.

    Como prova disso, a Dra. Anna compartilhou diversas experiências vividas por seus pacientes em trechos emocionantes, que são histórias fascinantes de sofrimento e redenção, e que trazem esperança de que é possível transformar nossas vidas e encontrar o segredo do equilíbrio, combinando a ciência do desejo com a sabedoria da recuperação.

    “Navios não afundam por causa da água que está no seu entorno, mas sim como consequência de quem os maneja mal”.

    Não é sobre o que os outros dizem sobre nós que insistimos respirar, é sobre sonhos, os nossos, aqueles que acreditamos serem possíveis de realizar na vida real, e compartilhar com alguém, que tenha os mesmos.


  • Papilas gustativas do viver 

    Na última semana, por ocasião do aniversário de uma grande amiga, me deparei com o desafio de escrever um cartão de felicitação. Não me servia aquele que já vem com a mensagem pronta e só precisamos assinar. Tampouco queria escrever apenas: Parabéns! Saúde e Paz.

    Muito embora essas palavras, por si só, já representem as joias raras da sorte, queria desejar algo a mais. É certo que dependemos da saúde para realizarmos qualquer feito e da paz para desfrutarmos de qualquer situação, mas há que se ter outros requisitos para a magia do sorriso solar acontecer.

    Visando garantir a minha amiga o melhor dos mundos, achei de bom tom incluir a coragem. A vida depende desse impulso, dessa força propulsora que quebra a potência destruidora do medo de errar e de ser quem se é.

    Caprichei na letra e nas palavras para que a mensagem carregasse em si o poder magnético do afeto, da amizade e do pensamento positivo.

    Já estava pronta para assinar quando algo me inquietou por dentro. Tudo estava dito, o novo ciclo seria perfeito, repleto de bons acontecimentos, sonhos e conquistas. Mas, nesses termos, pareceu inverossímil o meu voto de felicidade.

    Necessitava alertar minha amiga de que essa expectativa de sucesso e vitórias infindas era uma arrumação ilusória de belas palavras. Decidi avisar sobre a possibilidade de momentos difíceis, porque a vida é real e um pouquinho injusta, mas para isso temos a esperança, agasalho dos dias frios de sofrimento.

    De imediato, achei indigesto falar de tristeza, decepção num cartão de aniversário… todavia, sem isso também não se experimenta as papilas gustativas do viver.

    Por fim, escrevi:

    “Amiga, que a vida lhe sorria muito, mas se lhe fizer chorar, não lhe falte garras para seguir em frente, lanhando a cara do infortúnio. Nos dias nublados, toque uma flor, abrace uma árvore. Jamais se esqueça: as nuvens carregadas trazem a chuva que rega a terra.”


  • Tirando a máscara todo mundo é fantasma

    Outubro me lembra Halloween, até porque, como uma bruxa legítima, nasci no dia 31 à meia-noite. Bruxas, vassouras, abóboras e todas as figuras fantasmagóricas que povoam o imaginário popular são inspiração para as mais diversas fantasias: esqueletos, vampiros, mulas sem cabeça, ao lado de figuras famosas como o Conde Drácula, Morgana, Cruella, Freddy Krueger e outras encarnações do mal.

    Para as crianças, 31 de outubro é um dia de alegria, pois significa a possibilidade de comer doces sem nenhum policiamento dos pais, por conta da brincadeira de “Trick or Treat”. Esse hábito remonta a uma prática celta do Samhain, uma festa que marcava o fim da colheita e o começo do inverno. Daí o costume de ir de casa em casa pedindo contribuições em alimentos, hoje adaptadas para guloseimas. Reza a lenda que, durante a noite do Samhain, a fronteira entre o nosso mundo e o “outro mundo”, o dos mortos, podia ser cruzada, permitindo que espíritos maus vagassem pela Terra. Por esse motivo, os celtas usavam máscaras para não serem reconhecidos, originando o uso de fantasias no Halloween.

    Esse uso de máscaras como forma de esconder a identidade me fez lembrar de Erik, o personagem criado por Gaston Leroux em seu livro de 1910, que deu origem ao musical “The Phantom of the Opera”, de Sir Andrew Lloyd Webber, um sucesso que encanta plateias até hoje.

    Erik, o Fantasma, que usa uma máscara para esconder sua figura deformada, se tornou um símbolo de amores não correspondidos, mas a mensagem dessa história vai muito além disso. Ela explora uma batalha interior entre dois aspectos importantes de nossa psique: a coragem e o medo, enfrentados pelos protagonistas. Não é à toa que esse musical atrai o público há muitas gerações.

    Do ponto de vista do Fantasma, o medo da rejeição muitas vezes nos faz usar uma máscara para esconder traços da nossa verdadeira identidade. Tentamos ocultar o que escancara nossas falhas de caráter, nossos desejos proibidos, invejas, ódios, frustrações. Acreditamos que ninguém poderá nos amar se tirarmos essa proteção, assim como o Fantasma não conseguia se mostrar à sua amada.

    Do lado de Christine, a reflexão é sobre a coragem de escutar sua voz interior e seguir Erik, seu mentor abrigado nas trevas. Renunciar ao que é fácil, confortável, belo e aceito por todos, representado no musical pela figura de Raoul. Assim como ela, na vida nem sempre conseguimos optar por nossa melhor versão e deixar fluir quem realmente somos, escolhendo o caminho que não será aplaudido, mas que nos fará mais felizes.

    Talvez porque, afinal, tirando a máscara, todo mundo é um fantasma, não é mesmo?


  • Pressupostos e subentendidos

    Boa parte do que o texto significa não se mostra explicitamente. Quando escrevemos deixamos implícitas algumas informações, e cabe ao leitor completar as lacunas.

    Os implícitos são basicamente de dois tipos: pressupostos e subentendidos. Os pressupostos estão inscritos na língua; não há como fugir ao sentido que eles determinam. Já os subentendidos dependem de interpretação.

    Se alguém diz a uma visita: “Finalmente você apareceu”, pressupõe-se que o interlocutor havia tempo não dava as caras; o advérbio que introduz a oração indica isso. Caso ele acrescentasse uma observação do tipo: “Deixou o orgulho de lado”, estaria formulando um subentendido. A ausência do outro teria sido interpretada como soberba. O subentendido sempre envolve um julgamento, um juízo de valor, e por vezes leva à distorção da verdade.

    Um exemplo disso ocorre nesta passagem de “O pagador de promessas”, a conhecida peça de Dias Gomes:

    PADRE Que pretende com essa gritaria? Desrespeitar esta casa, que é a casa de Deus?
    ZÉ Não, Padre, lembrar somente que ainda estou aqui com a minha cruz.
    PADRE Estou vendo. E essa insistência na heresia mostra o quanto está afastado da igreja.

    Zé do Burro pretende entrar na igreja carregando uma cruz para agradecer a Santa Bárbara o restabelecimento do seu burro Nicolau. Ele é um homem simples, ingênuo, e jamais lhe passaria pela cabeça contestar a ortodoxia cristã. No entanto o padre Olavo interpreta o fato de ele conduzir a cruz como um sinal de heresia. Subentende na resposta do interiorano a intenção de ser um novo Cristo.
    Nos subentendidos refletem-se valores e preconceitos da sociedade. Levei para a classe o seguinte diálogo:

    – Você pretende se casar?
    – Eu tenho juízo!

    Depois perguntei à turma o que se subentende da resposta. Praticamente a totalidade dos alunos afirmou que ela dava entender que só “um doido” se casa. O curioso é que o diálogo também permite que se entenda o oposto. Pode-se interpretar a resposta como uma defesa do casamento, que seria a opção do indivíduo prudente e racional. Por que ninguém considerou esse lado?

    Nesta outra passagem a interpretação ficou mais fácil, pois o que se subentende parte de um dos envolvidos no diálogo:

    – Aquele ali teve sucesso na política.
    – Já sei. Nunca foi pego.

    Está implícita a ideia de que os políticos transgridem a lei.

    Um dos maiores riscos na redação é querer dar aos subentendidos o rigor dos pressupostos. O que se interpreta não pode ser tomado como verdade absoluta. Num texto sobre os novos papéis da mulher na sociedade, um aluno escreveu: “O trabalho da mulher fora de casa prejudica a educação dos filhos, pois ninguém substitui a mãe nessa tarefa.”

    Subentende-se que tal prejuízo possa ocorrer, mas há mulheres que conseguem conciliar as duas funções. O aluno deveria ao menos ter apresentado o seu julgamento como possibilidade. Por não fazer isso, incidiu numa discutível generalização.


  • Livro, o cachorro encadernado

    Tenho uma relação antiga com o livro. E feliz.

    Acredito que ninguém é obrigado a ler tudo. O básico de cada um é o resultado de suas predileções e inclinações, momentâneas ou não, ditadas por tantas coisas que reúnem um pouco de tudo que se chama você. Mutante por natureza, esponja que absorve e que despeja os excessos pelo caminho.

    O olhar muda com o tempo porque é forjado por nossa maturidade. Não ter idade para ler alguém é uma verdade, mesmo que incomode nossa vaidade intelectual. Acontece. Às vezes, você retorna ao livro mais adiante na sua vida. Às vezes, ele desaparece pelo caminho. Nossa estante de livros, a metafórica, quero dizer, não é melhor nem pior do que a dos outros. São nossas escolhas, sem competir com ninguém.

    Na adolescência, alguns amigos se tornaram fãs de J.R.R. Tolkien e sua saga “O Senhor dos Anéis”. Eu descobri Garcia Márquez a partir de “Cem anos de solidão”. Nossos caminhos literários não se cruzavam. Eles insistiam em me dizer que eu não sabia o que estava perdendo por não conhecer a Terra Média. Lá em Macondo, eu balançava minha rede e suspirava.

    Influências externas podem te empurrar na direção de uma estante. Ou te afastar dela. Mas o que dizer dos estalos que nos chegam de repente? Sabe quando nosso olhar examina a obra e uma voz baixinha nos diz: “acho que vou experimentar esse aí”…

    Ser leitor é muito bom.

    Houve uma época da minha vida em que levava, por baixo, uma hora e meia de casa ao trabalho. E, para voltar também, não tinha refresco. Pegava duas conduções e, na primeira, a de uma hora, eu conseguia viajar sentado. Como sempre pegava o ônibus no ponto final, tanto na ida quanto na volta, era tranquilo. E, para ocupar o tempo, eu lia.

    Foram mais de seis meses nesse trajeto até mudar de casa. Nesse tempo, Guimarães Rosa me fez companhia. Li “Grande Sertão: Veredas” nessas duas horas diárias de viagem. Lembro até o que fiz no dia em que Riobaldo uivou de tristeza. Interrompi a leitura, completamente afogado pelas emoções do jagunço, e lancei um olhar perdido na cidade à minha volta. Sertão bruto me cercava. E Riobaldo uivava.


  • Mês da História da Mulher!

    Lutar por causas importantes tornam pessoas desenvolvidas e preocupadas com o futuro de todos. Pensamentos racistas, homofóbicos, xenofóbicos, sexistas, misóginos, mantém mentes e comportamentos presos ao Renascimento. Por isso movimentos como o racismo e a misoginia seguem seu próprio código civil descrito na idade média, ou seja, sem sentido em nosso tempo que tem sede de respeito, que deseja se manter moderno e intelectualizado, desenvolvido para os povos que almejam espalhar o respeito e a oportunidade a todos, e não somente aquela casta que preconiza o isolamento e a falta de dignidade aos que pensam no coletivo. Gestos atenciosos sobre esses temas demonstram a qualidade das relações e a dimensão do respeito ao próximo. Como o fizeram os italianos para comemorar o dia internacional da mulher. Eles se presentearam com cachos de pequenas mimosas amarelas. Símbolo que demonstra a força feminina, e as mulheres se presentearam como sinal de solidariedade.

    Na Romênia, esse mesmo dia foi celebrado de um jeito parecido com o dia das Mães, dando motivo particularmente aos homens, do reconhecimento às suas mães, avós, e amigas, entregando-lhes cartões e flores.

    Já nos EUA não foi feriado oficial, mesmo que março seja conhecido como o Mês da História da Mulher; um período para dar atenção às conquistas durante sua trajetória. Naquele dia, capitais sediaram comícios, conferências e eventos de negócios que reuniram debates e lideranças femininas sobre o tema.

    Em oposição a tantas manifestações de acolhimento, encontramos no brasil, uma crítica literária racista que atacou um livro premiado. 

    “O Avesso da Pele”, de Jeferson Tenório, escritor, professor, pesquisador, e venceu o prêmio jabuti em 2010 com esse livro, onde descreve o racismo e narra que uma desastrosa abordagem policial acabou por matar o pai do personagem Pedro, que sai em busca do passado de sua família e refaz os caminhos paternos. 

    Com uma narrativa sensível e por vezes brutal Tenório traz à superfície um país marcado pelo preconceito, e um denso relato sobre as relações entre pais e filhos. Utilizando como pano de fundo uma frase do livro sobre sexo, a crítica, foi, na verdade, racista. 

    Expôs a permanente atitude descabida contra o negro e sua condição em um país preconceituoso, com pessoas abaladas por inevitáveis fraturas existenciais num processo de dor, mas também com redenção, superação, e liberdade.


  • Os signos da crítica

    Costumo ler em voz alta quando estou em casa. Peguei esse hábito da minha mãe, que todo sábado à tarde distribuía na mesa da sala uma penca de cadernos e livros para corrigir trabalhos, ler e reler textos, planejar as aulas da semana seguinte, tudo em alto e bom tom. Uma resma de folhas em branco e o mimeógrafo aguardavam na estante, ali ao lado. Eu podia destruir a casa desde que não relasse naquela mesa.

    Trinta anos depois, não temos um mimeógrafo e nem uma resma de papel por perto, mas mantenho a cultura familiar da leitura em voz alta que, por acaso, tem dado o que falar. Lia há alguns dias uma crítica literária no sofá enquanto minha esposa fuçava numa das gavetas da cômoda. Em algum ponto da argumentação, ela parou para ouvir, prestando uma atenção quase intimidatória; fiquei inclusive receoso com possíveis tropeços ou gaguejos. Quando cheguei ao fim do texto, ela me perguntou quem era o autor e, logo após a resposta, completou: — É taurino. Encerrou o papo saindo para a cozinha. Dois ou três dias depois, em outra leitura, veio a sentença: — É aquariano. Novamente, assunto encerrado sem mais delongas

    Aquilo não fazia sentido. Sugerir o signo do crítico a partir de uma opinião era bobagem, além disso, desmentia a independência intelectual, reduzia as perspectivas, presumia o futuro, mapeava as questões fundamentais da vida. Impossível, apenas impossível.

    Com certa malícia, busquei, sem ela saber a data de nascimento do crítico alvo do último palpite e, para minha surpresa, estava certa. Sorte de principiante, óbvio. Nada mais que isso. Provaria com facilidade se tratar de um chute bem dado e jamais voltaria a refletir sobre o assunto. Naturalmente, não revelei o acerto para não criar uma polêmica conjugal.

    Passei então a ler textos sortidos de diferentes críticos, querendo pôr à prova essa tal sabedoria mística. Tudo iria se mostrar uma baita coincidência, uma eventualidade, afinal, as questões do Zodíaco são achismos, todos sabemos disso. Mas, como em tudo na vida, há quem diga o contrário — uns românticos, alienados. O estranho é que desde então são seis críticos e nenhum erro.

    Wilson Martins foi decretado pisciano trinta segundos após o fim da leitura, mesmo signo de Otto Maria Carpeaux, decifrado sem hesitações. Álvaro Lins foi revelado sagitariano antes do ponto final, faltavam ainda uns dois ou três parágrafos. O aquariano Augusto Meyer também não demorou a ser descoberto, tampouco o leonino Antonio Cândido. Harold Bloom, por fim, não teve chances porque tinha o mesmo signo da Senhora Leidens.

    Eu não sei se há alguma relação esotérica entre as opiniões e os signos dos críticos. O fato é que agora leio crítica literária aguardando ansioso a sentença do outro lado da sala. Talvez ela esteja trapaceando e tenha até buscado os aniversários dos autores perfilados na estante, talvez eu deva esquecer o assunto antes que me contamine. Por certo, não ficaria bem como um jovem místico tardio, ou como um tardio jovem místico, como queiram. Visto melhor o cinismo com calça jeans e tênis.

    Não quero suprimir as opiniões das pessoas, também não quero tabelá-las com base em gnoses obscuras, mas, como uma experiência sociológico-literária, sugiro ao amigo leitor que balize minha dúvida e participe de um experimento científico de descomprovação: se quiseres, me encaminha tua opinião sobre este texto, seguida da data do teu nascimento. Apenas se quiseres, claro, sem obrigações nem mentiras. A ciência depende da tua sinceridade. Me comprometo a fazer uma leitura em voz alta do teu parecer com o intuito de desmistificar o esoterismo literário que me aflige ou, dependendo do resultado, iniciar uma pesquisa mais aprofundada sobre os signos e a crítica. Espero não chegar nesse ponto. Sei que também não acreditas nessas coisas. Que tal, topas?


  • Nunca iguais, revisitadas

    Assim como as folhas altas nas copas das árvores balançam com o prenúncio de intensas chuvas… tal qual o som de passos ligeiros em direção a um compromisso que estar por iniciar… ou ainda a terceira badalada de uma campainha teatral que, após outras duas de igual duração, alerta os desavisados de que o espetáculo se iniciará, assim é a vida dos recomeços. Nunca iguais, revisitados. E entre tantos reinícios em minha vida ao longo deste último ano, as campainhas, os passos e o vento trazem o Crônicas Cariocas novamente à minha rotina, o acender de uma vela em meio às trevas. O portal, que há 18 anos está colado ao meu corpo, pelo avesso; uma sinfonia interna que faz dançar o coração – e atento ao olhar sobre o cotidiano. É como se eu adentrasse pela porta da frente uma casa que sempre foi meu lar. Pois bem.

    Como em qualquer reenceto, há de se dividir o espaço com certa cautela, nada muito marcante, porém presente: o segurar da pena que vacila ao encontrar o nanquim, trechos sem amarração de uma narrativa base – logo papéis amassados por fora de cestos de lixo. A emoção é enorme. O timing da escrita, não. Em se tratando de time, ou tempo, este que é cada vez mais escasso se mostra faceiro aos olhos inocentes de minha versão quase 3.6. Eu não quero falar sobre o tempo. Não o tempo que se esvai por entre os dedos ao manusear páginas de livros novos, tampouco aquele que não se sente ao deleitar-se com amigos, familiares ou cachorros. O tempo que mais se destaca – e ecoa, como ecoa – é o do barulho dos ponteiros analógicos, o vigia implacável que nos demonstra estarmos sempre por fazer algo, por nos deslocar, por agir – sem tempo para o sentir. O tempo movimento, o tempo espaço, o tempo objeto.

    Assim como a pena está para o nanquim, na correlação da escrita, eu estou para as artes, mero instrumento a serviço de algo maior. Energias que explodem ao se chocarem; o zumbido de uma Bialetti anunciando que o espresso está pronto – reforçado pelo cheiro maravilhoso deste líquido perfeito. Tudo não passa de um chamado de alma. E este é o ponto que só os artistas compreendem. Com a volta do Crônicas Cariocas, a Bia ressurge das cinzas poeirentas, o estojo verde da Olivetti deixa de ser apenas enfeite; neste ínterim, a Núbia vem abrindo novamente as cortinas vermelhas, pelos palcos de teatros e espaços de leituras dramatizadas. Há o retumbar da essência italiana, materializada na figura dupla de secretária de uma Colônia de descendentes e responsável pelo seu Departamento Cultural. Como ainda sobram horas à rotina de microempreendedora individual, uma cadeira no Conselho Municipal de Políticas Culturais é bem-vinda. E, resgatando a minha criança interior, aulas de costura. Processo terapêutico em dia, em dia com os momentos pós pandemia que deixou todos doidos varridos, e a minha loucura particular foi casar no civil e religioso para, obviamente, findado o último grande surto mundial, divorciar-me, não somente de um relacionamento pernicioso, como de uma parte podre de mim mesma. 

    Terapia não é teatro. Mas para dar certo na terapia, o terapeuta não pode por seu juramento numa balança, e escolher como tratar pacientes com base a se estão pagando com o cartão do plano de saúde ou via Pix. Desisti das sessões com psicólogos após muitas tentativas frustradas. Eu prefiro viajar, viajar é preciso, viajar é fazer com que a vida não escape de mim mesma, encontrar o desconhecido, perder-me e encontrar-me ao mesmo tempo. Mas a viagem de 2024, ao invés de envolver o Aeroporto de Antônio Carlos Jobim, como tem sido nos últimos dois anos, envolveu altas turbulências em solo. Após me desfazer da ideia fantasiosa de um casamento que só existiu em minha cabeça – ou talvez nem isso -, tornei-me mãe solo de um recém desmamado spitz alemão. Perdi minha cachorrinha, amor de toda a minha família e praticamente contemporânea a minha entrada no Crônicas Cariocas, passei por mudanças sensíveis em meu escritório, fiz minha segunda exposição como artista luminosa.  Uma homenagem ao meu pai, que nem soube que era para ele, pois, quis o destino tirar sua presença do nosso mundo desajustado. A alma de uma pessoa como a que foi meu pai não merecia mesmo passar pelas provações de um mundo cada vez mais Macunaíma. E se fez um rombo no que era a fortaleza de toda a minha história. E ruiu parte do muro que ainda estrutura a minha família – que seria só de mulheres, agora, não fosse o Zeca, meu pequeno e maravilhoso spitz. Revisitar não significa retornar, mas se por/estar no lugar de um visitante. E como visitante, sem amarras ou destino, me deixo aperfeiçoar itens no rol das atividades econômicas do meu CNPJ, sem acompanhar o ritmo do relógio, ao mesmo tempo que a burocracia do luto e descobertas de malandragens de pessoas próximas vão tratando de escaldar meu carater e visão de mundo. Desencaixotar e encaixotar caixas e mais caixas. Empilhar. Selecionar. Pensar. Pesar. Ter pena do apego, e não. Lembranças em todos os cantos, nos bibelôs e coleções, nas fotografias, cds e discos de vinil, nos móveis, tantos e tão apertados na casa de minha mãe, assinatura da paixão do papai pelas coisas incríveis. O luto é algo inebriante e assustador. Então me cerco das artes, esses aliados, fiéis escudeiros, que tratam de cuidar do meu interior, enquanto o lado externo é moldado pelas aulas de pilates e fisioterapia.

    Voltar é sempre um movimento após, há sempre o antes que não será repetido em sua exatidão. Pintar os cabelos, fazer minhas próprias vestimentas, ajustar minhas predileções gastronômicas, cerca-me das artes e dos verdadeiros amigos – apenas realmente aqueles que se importam. Interpretar coisas ou ideias novas. Aprender. Conhecer lugares e pessoas. Aos poucos, sem me dar conta, lá estou eu a escrever! Um passo, uma campainha, uma rajada de vento e a vida que passa, de novo, sendo vivida.


  • Conteste ideias, não pessoas

    Muitas vezes, ao argumentar, o redator deve contestar um ponto de vista diferente do seu. É preciso cuidado ao fazer isso. Quando a opinião a ser contestada vai de encontro a valores ou crenças, ele corre o risco de deixar de lado as ideias e investir contra as pessoas.     

    Um exemplo: numa redação sobre “Nível cultural e opção religiosa”, apresentei no suporte o fragmento de uma entrevista com Richard Lynn. Nessa entrevista o pesquisador britânico afirma que os indivíduos inteligentes são mais propensos a se tornar ateus, pois têm acesso a teorias alternativas de criação do mundo. Diz também que no Brasil, devido à miscigenação, há menos ateus e mais religiosos.  

    Um dos alunos tentou contestar o ponto de vista do estudioso dizendo que “essas duas afirmações estão totalmente equivocadas, ele com certeza não sabe nada sobre religião.” Afirmou isto sem explicar em que residiria o equívoco do pesquisador nem por que Lynn, uma autoridade no assunto, não saberia “nada” de religião.  

    Juízos apressados e genéricos não demonstram inteligência, mas birra e intolerância. Dão a entender que o emissor, tomado pela emoção, não está disposto a refletir, debater, avaliar os argumentos do outro. Há neles um predomínio quase que exclusivo dos afetos, que são um obstáculo ao discurso racional.

    Existem maneiras mais inteligentes de demonstrar que não se concorda com as ideias ou as atitudes de alguém. Contestar pessoas, além de ineficiente do ponto de vista argumentativo, constitui o primeiro passo para a intolerância e o preconceito. É o que se vê neste fragmento de uma redação sobre o caso Bruno: “Eliza Samudio não foi apenas vítima. Ela teve o que merecia. Quis dar o golpe do baú e acabou se dando mal. Ela deve ter importunado tanto a vida do ex-goleiro que ele não teve outra saída.”

    É fácil perceber nessa passagem que a precariedade dos argumentos decorre do propósito de julgar a vítima. A afirmação de que Eliza “quis dar o golpe do baú” e “deve ter importunado tanto a vida do ex-goleiro” não se baseia em fatos; é mera presunção. E, mesmo que fosse verdadeira, de modo algum justificaria o que se fez com ela.


  • K-Pop apresenta Tom Jobim

    Respeito muito a ideia de que cada geração tem sua música. Nem sempre concordo com o que é tocado, já vou avisando. Mas respeito.

    Em outro momento, volto a falar sobre música geracional, mas confesso que meu respeito é movido menos por qualquer elevação espiritual e mais pelo medo de ser apedrejado em praça pública. A execração na ágora me arrepia; ser apontado nas ruas é meu pior pesadelo.

    Mas, voltando ao que interessa: a música, e não as minhas fobias. Minhas filhas seguem o padrão, e para elas, K-Pop é sinônimo de música.

    Como pai, fiquei curioso para saber do que se tratava. “É música pop coreana”, me explicaram e completaram: “Tem J-Pop, que é japonesa; C-Pop, a chinesa…”. E eu, engraçadinho, quis completar com B-Pop, a brasileira, mas elas logo me cortaram: “Não é nada disso”. E fiquei calado, segurando o riso.

    Existem grupos de K-Pop masculinos e femininos, todos super jovens. Elas preferem as meninas, e eu achei que eram todas coreanas. Fui repreendido: “Não, pai, nem todas nasceram na Coreia do Sul”, me cortaram elas de novo. “Asiáticas, então?”, rebati. “Também não, a Rosé é da Nova Zelândia.” Balancei a cabeça, sem saber o que dizer.

    Elas são fãs, ou melhor, k-popers. Por elas, já fui ao cinema ver um filme com o encerramento da turnê mundial do Black Pink. Cenas dos diversos shows, das moças nos bastidores, e muitas músicas perfeitamente dançáveis. Sim, do alto dos meus 59 anos, vejo que o balanço delas é bom. Ponto para elas.

    Por isso, qual não foi minha surpresa ao ser brindado por uma das minhas filhas com a informação de que “Garota de Ipanema” havia sido gravada no mundo K-Pop. Em uma pesquisa rápida, descobri que a música é comum no repertório dos grupos de K-Pop. Achei ao menos umas três gravações distintas.

    Mas a informação de que K-Pop gravara Tom e Vinicius veio acompanhada de: “Quer ouvir?” Prontamente, concordei e qual não foi minha alegria ao escutar a gravação feita pelo Tom Jobim em um CD de 1987!

    Suspirei ao volante e escutei minha outra filha falar baixinho: “Olha a cara de relaxado do velho”…


  • Mesmo instante fugaz!

    Especialistas e pensadores debatem quais são os dilemas acerca da passagem dos anos. O documentário “Quantos dias. Quantas noites” abraça a conexão humana com a idade e o tempo desde o aumento da expectativa de vida até as desigualdades que envolvem esse tema. 

    O longa de Maria Farinha Filmes, dirigido por Cacau Rhoden, realiza um profundo mergulho nos propósitos de nossa existência no planeta, e lhe faz refletir o que realmente tem valor para se preocupar nesse exato momento.

    Drauzio Varella “considerou que se você transformar sua vida num vale de lágrimas no qual submerge de corpo e alma, estará tornando-a uma experiência medíocre. Julgar que aos seus 80 anos, seus melhores momentos foram aqueles dos 15 aos 25, é não levar em conta que a memória é editora autoritária, capaz de suprimir por si as experiências traumáticas, e relegar ao esquecimento as inseguranças, medos, desilusões afetivas, riscos desnecessários e as burradas que fizemos em nossa tenra época.

    Nada mais ofensivo para o velho do que dizer que ele tem “cabeça de jovem”, isso é considerá-lo mais inadequado do que o indivíduo de 20 anos que se comporta como criança de 10″.

    A melhor idade é aquela que lhe traz qualidade em um determinado momento, e não somente na velhice. Quanto mais cedo você construir seu melhor capital social de amigos e parentes, sua base de satisfação se tornará sólida e larga, bem antes daquele instante que vais necessitar de um ombro como apoio à seus passos doloridos.

    O curioso é que a vida de uma pessoa se encerra somente quando morre aquele que falava dela, e que até então as memórias do que ela viveu ainda são lembradas em falas curtas e incompletas. Por isso, nada mais razoável fazer se valer da presença desse indivíduo em sua vida, e demonstrar o valor e suas habilidades únicas em qualquer época de sua curta existência.

    “Os sábios geralmente morrem loucos, os tolos morrem sufocados pelos conselhos. Embora muitos morram de tolhices, outros tantos nem começaram a viver.” (Antônio Abujamra)

    Aprenda a andar mais perto dos jovens, eles trazem novas ideias e formas de conviver diferentes nesse mesmo instante fugaz, por vezes mais leve, e assim lhe oportunizam sentir melhor no mesmo momento por estar envelhecendo, e não aborrecendo. A dor passa, mas a beleza permanece.


  • À Criança

    Não deixei de brincar pelo medo de cair, nem de sorrir depois de receber um “carão”.

    Não deixei de assistir a desenhos por perceber que estava perdendo tempo em frente à TV.

    Não deixei de falar com meus pais sobre como foi meu dia, mesmo que para eles fosse apenas um dia qualquer.

    Não deixei de me enturmar, mesmo percebendo que não era bem-vinda.

    Criança não tem filtro. Por vezes, ouvimos que as crianças são páginas em branco que precisam ser preenchidas com uma vida idealizada pelos pais. A gente só entende o “ser criança” observando uma.

    Na beleza da sua inocência infantil, a gente é quem aprende, em vez de ensinar.

    Embarquei na decoreba das tabuadas e na escrita torta no quadro de giz. Mal sabia eu que, aos pedidos de biscoito recheado e à vontade de não mais largar minha amiga da escola, não existia comparação nem competição; a gente apenas queria passar de ano e desejava que o recreio não acabasse.

    A palavra futuro era um palavrão que aparecia no livro de português nas conjugações dos verbos.

    Tínhamos de distinguir bem o que era o futuro do pretérito, ou futuro do presente. E o que dizer do pretérito mais-que-perfeito? Sempre achei bonita essa composição de palavras, mas, ao pé da letra, existe um passado mais-que-perfeito?

    A vida podia ser simples, mas profunda. Não havia artifícios; apenas tudo acontecia naturalmente. O medo vinha, mas bastava fechar os olhos bem forte e se cobrir com o lençol para que tivéssemos um mundo só nosso, na nossa imaginação fértil.

    Deus quis que a fase mais feliz fosse a infância, para que entendêssemos sobre a pureza, dependência, restauração, lealdade e amor incondicional.

    Hoje não é um dia de tributo ao Peter Pan, mas quem sabe a gente aprendeu mais na idade em que tudo era uma brincadeira, onde nada era tão sério, a não ser o amor desmedido dos pais e a preocupação deles ao perceber que não íamos bem na escola, sabendo que só queríamos brincar e deixar o dever pra lá.


  • Nós que aqui estamos…

    Está se aproximando o Halloween e, com ele, o momento de brincar com algo que nos assusta. Mesmo que não se leve nada a sério, entrar na brincadeira, se fantasiar, é ter contato com figuras fantasmagóricas, com o objetivo de causar medo. Assumir a identidade dessas criaturas é uma forma lúdica de extravasar a face maligna que, de certa forma, está presente em todos nós. Aquele território obscuro do mal que nos habita.

    Me chama a atenção que as representações figurativas do mal venham, na maioria das vezes, associadas à morte. Talvez porque, na cultura ocidental, consideramos morrer algo negativo, a passagem para o indefinido. Seja para os que acreditam que não há nenhum outro plano de existência depois da morte, seja para as pessoas com alto grau de crença na vida eterna, ou mesmo entre os que acreditam na reencarnação, não há certeza do que nos espera do outro lado.

    Não por menos, o Dia das Bruxas antecede o Dia dos Mortos, como se a brincadeira de se vestir de alma penada por um dia fosse uma forma de se preparar para encarar a passagem para o outro lado, no dia seguinte.

    Nessa sequência comemorativa do final de outubro, o Dia dos Mortos é reverenciado com visitas aos cemitérios, e outros rituais. As pessoas reagem de diferentes formas à perspectiva da morte: algumas a encaram de uma maneira suave e natural; outras se apavoram, não podem nem ouvir falar nessa palavra; e há aquelas que cultuam esse momento, seja de pessoas próximas ou mesmo desconhecidas e, como carpideiras, aproveitam para liberar lágrimas de outras emoções reprimidas.

    Sem entrar no mérito de qual seria a melhor maneira de lidar com a passagem para a morada eterna, creio que qualquer pessoa evita pensar em quão próxima ela está.  Por isso mesmo, ao ler esse “convite” colocado no portal de um cemitério, dei uma risada, confesso, um pouco nervosa.

    Nós que aqui estamos, por vós esperamos.


  • A inveja é um sentimento que brota

    Alguns acontecimentos recentes me despertaram para algo que suspeito faz tempo: a sorte tem seus escolhidos.

    Por mais que não haja um processo claro e justo para esse favoritismo, ele acontece ali diante dos nossos olhos. É como assistir seu irmão ganhar de presente de Natal um carro elétrico e você um lindo pijama florido de flanela. A diferença é gritante, a revolta é muda, a raiva, efervescente; e uma pergunta que sobe pelas paredes: por quê? Por quê?

    A sorte assume seus filhos preferidos de forma escandalosa. Faz concessões absurdas, muda as regras e os critérios para agraciar seus queridinhos. E não adianta reclamar, bater pé, rogar por igualdade, o jogo é sujo e indecoroso.

    Quem tem sua benção, em geral, não precisa de esforço, empenho, desgaste, a coisa acontece, cai no colo, bate na porta. Quem não conhece alguém que tem a vida afortunada pelo acaso? Nem me refiro aos que nascem herdeiros, não. Esses também têm o que eu queria ter, mas, muitas vezes, pagam o preço de uma família insuportável, vivem numa selva emocional, de competição e vazios que eu não invejo.

    Refiro-me ao sujeito comum, assim como eu, que por ordem da Mãe Suprema, Dona sorte, recebe, de mão beijada, o que eu não alcanço nem de mão cuspida. Exemplos não faltam: a pessoa que se dedica ao trabalho e nunca chega a sua vez de ser promovida porque tem sempre alguém que não faz nada, mas é a escolhida; as colegas de academia, fisicamente privilegiadas em curvas e formas que comem de tudo e não engordam, os que acertam na Mega-Sena. Enfim, diante dos fatos não há argumentos. Ou a Sorte tem seus escolhidos, ou a vida tem um prazer mórbido de ser injusta, implicante e ordinária, ou ainda eu e todos os filhos renegados somos invejosos e despeitados. Mas assumo: ouvir uma escritora, premiadíssima, dizer que nunca desejou fazer sucesso, apenas “aconteceu” em sua vida, me derrubou. Constatei de forma brutal que não sou mesmo atraente para sorte. Passo longe de ser a favorita, a preferida, a escolhida, a queridinha. Pelo visto, ela se agrada dos filhos rebeldes, desinteressados ou distraídos. Só me resta saber: todo patinho feio pode virar cisne pelo seu próprio esforço ou só deixa de ser patinho feio se um cisne poderoso decide promovê-lo ou enxergá-lo como tal?

    Sem encontrar a resposta ou garantias, me atravessa outra dúvida: continuo escrevendo minhas crônicas, livros e poemas? Sigo divulgando, postando, fazendo cursos, indo às feiras literárias na tentativa de construir meu lugar? Insisto em esperar que os amigos leiam, compartilhem meus escritos? Alimento o sonho que me abraça de ser lida por muitos e pelo mundo, de habitar escolas e bibliotecas? Ou me faço de tonta para que a sorte me perceba e a magia aconteça?

    Acho muito cansativo tudo isso. Prefiro torcer para que a persistência seja aquela tia boa que, inconformada com o favoritismo do caçula, se empenha em compensar o renegado, lhe dando um sorvete de casquinha, um brinquedo interessante, um colo quentinho e um cafuné reconfortante.


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