Crônicas

  • SUB VIDA

    A sobrinha perguntou para o tio no churrasco da família: ‘Quando você percebeu que estava fodido e não tinha mais volta?’

    O tio respondeu: ‘Desde cedo, nos anos 70, no primeiro dia na escola, aos quatro anos. Eu apenas não sabia expressar em palavras o que sentia, mas sabia que a jornada seria terrível desde aquele momento.’

    Sobrinha: ‘Qual era o sentimento?’

    Tio: ‘Era o sentimento de que a vida, da forma como era vivida pelas pessoas que eu conhecia, e pelo que via na televisão, não fazia sentido.’

    Sobrinha: ‘Por quê?’

    Tio: ‘Porque somos escravos e a maioria das pessoas é cega em relação a isso, e por medo e para defender uma falsa segurança, defendem a própria condição de escravos a qualquer custo.’
    Sobrinha: ‘Você já pensou em se suicidar?’

    Tio: ‘Sempre pensei que fosse melhor ir até o fim, só pra ver o que acontecia, porque de qualquer forma todo mundo morre no fim.’

    Sobrinha: ‘Eu penso a mesma coisa, só que na juventude já convivo com pandemia e guerra, e na sua juventude não havia nada disso.’

    Tio: ‘Mas você já nasceu com a internet, ela serve como escapismo. Na minha juventude a bizarrice era tanta que você pode imaginar apenas remotamente. Não havia nem mesmo o sentimento pela falta de algo que não existia, como a internet. Na minha juventude havia o medo da AIDS, o racismo era considerado normal, a guerra era em casa mesmo, pra decidir quem escolhia o canal de televisão a ser assistido. Na escola havia bullying, que nem tinha esse nome e era considerado normal, e as crianças eram deixadas ali para se matarem. Esses atos eram praticados sem que os autores sequer temessem o repúdio. Na minha juventude brasileira houve a ditadura, e depois o que se convencionou chamar de fim da ditadura, o que é uma falácia tão cretina quanto todas as mentiras que ouvimos de políticos até hoje. Mas hoje vocês tem a internet e ficam cada um na sua bolha, o que é terrível, mas antes não havia nem mesmo essa possibilidade. Na minha infância e juventude, os mais velhos ora diziam que a juventude deles era melhor, ora diziam que era pior. Isso variava de acordo com os interessem momentâneos dessas pessoas, que na maioria morreram. Os que sobraram estão aí pra você tirar suas próprias conclusões’.

    Sobrinha: ‘Por que você não tem filhos?’

    Tio: ‘Porque tenho uma mágoa enorme por ter nascido, e não faria o mesmo com outra pessoa. E também porque não tenho condições financeiras para isso. E sobretudo porque tenho essa convicção desde cedo, desde um tempo em que as pessoas mais velhas diziam que com o tempo, eu mudaria de idéia. E também porque seria questionado sobre coisas para as quais não tenho as respostas.’

    Sobrinha: ‘Mas eu gosto das respostas que você me dá!’

    Tio: ‘Mas é porque isso só nos encontramos de vez em quando.’

    Sobrinha: ‘Mas meu pai é obtuso e nem fala desses assuntos comigo!’

    Tio: ‘Não sei o que responder sobre isso. Ele deve achar que é errado falar sobre essas coisas.’
    Sobrinha: ‘Você tem fama de pegador. Por que nunca casou?’

    Tio: ‘As mulheres que mais me intrigavam eram as que me rejeitavam e desprezavam. Mas com a internet pude ver o que elas se tornaram, e se há algo pelo qual sou agradecido na vida, é o fato dessas pessoas terem me desprezado.’

    Sobrinha: ‘A sua namorada nem tinha nascido quando você fazia faculdade. Nunca vai casar com ela?’

    Tio: ‘A única razão pela qual ela me suporta é o fato de que ela pensa como eu em vários aspectos. Cada um na sua casa é melhor para nós.’

    Sobrinha: ‘Ela é rica, bonita e jovem. Por que você reclama tanto?’

    Tio: ‘Antes de conhece-la, eu já tinha décadas de uma bagagem que até hoje não sei ao certo como usar. Quando ela nasceu, eu era bem mais revoltado. Hoje em dia eu continuo odiando certas coisas, mas sei que nunca vou poder mudá-las. Continuarão existindo políticos, as pessoas continuarão saindo de casa em dia de eleição, e não apenas votarão nesses políticos, como farão propaganda não remunerada pra eles. Esse foi o primeiro exemplo que me ocorreu sobre coisas que continuo desprezando, mas que provavelmente não vão mudar enquanto houver humanidade.’

    Sobrinha: ‘Quais são as cinco melhores bandas de rock?’

    Tio: ‘Se você me perguntar a mesma coisa amanhã, ou se tivesse perguntado ontem, a resposta talvez fosse diferente. ‘

    Sobrinha: ‘Essa é a parte legal disso. Responda sem pensar muito!’

    Tio: ‘Kinks, Husker Dü, X Ray Spex, Jesus and Mary Chain e Big Star. Menções honrosas para Teenage Fanclub e Replecements.

    Então olharam ao redor. Um outro tio estava bêbado e escolhia só músicas ruins.

    Eles nem pediam mais para escolher as músicas.

     Só havia vergonha e constrangimento.

  • Looping quotidiano

    O calor voltara, sem dó, piedade ou qualquer advertência de brisas amistosas. Já desgastada do clima instável, como da própria prudência em largar o vício do sedentarismo, Cíntia tinha na ponta da língua todas as séries numéricas que a identificavam:

    — Data de nascimento?
    — CPF…?
    — CEP..?
    — Telefone, com DDD:
    — Sabe seu peso?

    Inacreditável como um arsenal de números insiste em sintetizar quem somos. Sorriu, mentindo sobre o real valor de sua altura. Registro facial bem-sucedido, criptografado no sistema sob a forma de incontáveis outros dígitos. Catraca liberada. Mais um número: 853, surgiu no visor digital ao atravessar os braços esterilizados e refrigerados.

    Vamos lá.
    Um passo.
    Outro.
    Mais um (já são 3!)

    Pessoas em quantidades consideráveis. Nenhum conhecido. Alguns olhares. A maioria perdida entre movimentos ensaiados e ritmos particulares que cada um compartilha consigo mesmo, sem fios, nos minimalistas fones de ouvido.

    Detestava, mais do que qualquer outra coisa, o ambiente colorido, suarento e repleto de reflexos, equipamentos e câmeras das academias.

    Essa é diferente, você vai ver!

    Até agora, nada novo: a manifesta vontade de sair correndo por onde a haviam taxado 853, naquela manhã de janeiro de 2026. R$ 99,90 por 3 meses… Compreendia que não duraria tempo suficiente para descobrir o valor legítimo da mensalidade.

    Aproximou-se de uma parede repleta de portinhas. Escolheu a 23. Escrutinou o ambiente na surdina ao deixar seus pertences ali. Não tinha cadeado — anotou mentalmente a necessidade de trazer um na segunda aparição, que faria, se fizesse. Alguns passos para a esquerda. Bebedouro à direita. Um QR code com a programação das aulas.

    Retorna ao armário. Zíper da bolsa laranja. Tateia até sentir o celular. Alguém a esbarra.

    O que as pessoas veem em ambientes assim?

    Encosta a portinhola. Volta ao QR code. Analisa as possibilidades que a deixariam
    distantes da esteira com vista para a TV de 60‘.

    8h06, informa o canto superior direito do seu smartphone.
    8h10, aula de alongamento.
    É isso.

    Procura a sala. Porta 5. Lá dentro, lâmpadas tubulares coloridas no forro pintado de preto.

    8 mulheres. 2 homens.
    Sorri cabisbaixa querendo sumir. Escolhe um colchonete no fundo da sala.
    A professora sobe num pequeno palanque.
    Sucessão de gestos copiados, respirações contadas no “1,2,3”
    Suspensão de oxigênio.
    “6,5,4,3,2…”.
    E de novo.

    Estalo de ossos. Músculos doloridos, pouco a pouco descontraem-se.
    45 minutos depois, fim. Está de novo à deriva.

    Recorre ao QR code. Próxima aula… zumba… não.
    9h30, bike.

    Gastar 25 minutos conhecendo a academia?
    Fingir fazer algo importante no celular?
    Beber água.
    Fila no bebedouro. Trazer garrafinha.

    O próximo a hidratar-se, curvando o pescoço e exercitando o abdômen involuntariamente, é um ex-professor da faculdade. Sente-se desconfortável. Abre uma rede social qualquer e finge curtir tudo o que aparece — finge ou curte mesmo, culpa da aflição.

    Ele passa.
    Ela suspira.
    Um barulho ao longe. Ganha força. Volume.
    Balança a cabeça.
    Novamente o bip bip insistente.
    Rotaciona o pescoço. Direita. Esquerda.

    Fecha os olhos, tentando descobrir de onde vem tal balbúrdia incômoda. Inspira.
    “1,2,3”
    Abre os olhos.
    O teto mostra números luminosos.

    7:01.
    Levanta o dorso. Pisca. Não entende.
    Não passara de um sonho.
    Desliga o alarme com a mão esquerda e volta a dormir.
    Pelo menos não era real, essa história de academia…

    De novo o alarme.
    7:06.

    Levanta-se atordoada. Banheiro. Lava o rosto. Escova os dentes. Os cabelos são um amontoado de nada com nada.

    Cozinha: limão, água, pão e manteiga. Cafeteira: café.
    Banheiro, novamente. Topper. Camisa de manga curta. Calças legging. Meias. Protetor solar facial. Ensaia um sorriso. Penteia os cabelos. Rabo de cavalo. Bolsa laranja. Tênis. Fecha a porta.

    Elevador.andar. Pátio descoberto.
    O calor voltara, sem dó, piedade ou qualquer advertência de brisas amistosas. Já desgastada do clima instável, como da própria prudência em largar o vício do sedentarismo, dirige-se, por 1ª vez a uma porta envidraçada de bordas pretas. Entra. Recepção. Cíntia tinha na ponta da língua todas as séries numéricas que a identificavam.

    — Data de nascimento?
    — CPF…?


    Olha com uma sensação de estranha familiaridade para o seu reflexo, quadruplicado.
    Um espelho está de frente para um outro. Atrás de si, um visor acende. Barulho
    inquietante.
    Um número pisca.

    7:01

    O alarme — em algum tempo, no mesmo lugar — se prepara para tocar outra vez.

  • TOC-TOC: crônica das loucuras cotidianas

    Desconfio que, em vidas passadas, andei frequentando a Casa Verde do Simão Bacamarte. Não que eu me dedique profissionalmente ao estudo da loucura, mas traçar o perfil das manias alheias é um talento que cultivo com facilidade — e um tantinho de desfaçatez.

    Outro dia quase me levantei da mesa e despedi com uma desculpa qualquer quando um amigo passou álcool num copo de vinho antes de se servir. Mas o leitor há de convir que essa neura de contaminação acaba com qualquer romantismo de um encontro, não?

    E o que dizer daquelas pessoas que, em qualquer situação, soltam um sonoro “Louva Deus”? Um cacoete religioso? Ou uma saudação digna dos fanáticos de Handmaid’s Tale“Bendito seja o fruto”? Só mesmo rebatendo com um bem-humorado “Que o Senhor abra”.

    Repassando as loucuras que identifico nos outros, cheguei ao fascínio por simetria. Convidada para um almoço, a pessoa entra na minha casa e pede permissão para arrumar o quadro que está um pouco fora do alinhamento. Em seguida, comenta que a mesa de almoço não está centralizada com o lustre, e termina perguntando se eu não me importo dela alinhar os talheres. Dou aquele sorriso bem-educado, e digo “fique à vontade”, com vontade de trocar o “i” pelo “u”.

    Cheia de razão (assim eu achava), rotulei esses comportamentos como TOC — Transtorno Obsessivo-Compulsivo. Pobres criaturas, devem sofrer com isso… por que não buscam uma ajuda psicológica?

    Até que, outro dia, ao organizar as pastas no computador, percebi que estava renomeando aquelas que fugiam do padrão. Se começo usando maiúsculas no nome da pasta, todas precisam estar em maiúsculas. Inadmissível misturar!

    Epa… será que eu também tenho o meu TOC?

    Mas vejam bem: nem de longe isso me preocupa. Afinal, como já dizia Bacamarte, de médico e de louco todo mundo tem um pouco. Agora, com licença que vou ali renomear umas pastas fora do padrão.

  • Palavras nem tão bonitinhas assim

    Toca, por primeira vez em meus ouvidos, uma canção intrigante: I’m All I Got, de um grupo chamado Dead Brothers. O nome não passa incólume. Há algo ali que cheira a flores murchas, deixadas tempo demais num vaso a mercê de sabe-se-lá-o-quê. Palavras que já foram belas, mas agora exalam um odor agridoce, quase fétido. O conjunto de palavras ressoa, reprisa, ritmada insiste — e me tira por completo da leitura. A melodia dançante também, em contraste quase cruel. Passei a ter o hábito de usar fones de ouvido para ler quando o entorno me entristece — ou quando quero me sintonizar com o presente, totalmente. Sinto-me dentro de uma redoma, protegida. Se ‘todo homem é uma ilha’ – ed è vero –, cada um de nós cria seus próprios mecanismos para embarcar nessa solitude que somos nós mesmos, mesmo quando ela se parte, se afunda, some e sangra.

    Entre páginas de milhares de livros que me circundam, móveis com mais biografia que meus avós, objetos que simbolizam tantas memórias, minhas pernas se cruzam, esticadas, sobre a superfície gentil da escrivaninha. Respiro fundo. Concentro-me, tortuosa, entre letras recém-nascidas de músicas estrangeiras, páginas que exalam palavras traduzidas para meu idioma materno; minhas mãos carregam camadas de esmaltes que se complementam — resquícios de réveillon — escolhidos pelo tom de amarelo e por trazerem “artista” em seu nome de cor. Pequenas combinações concentradas em 8ml, garantia sem devolução de autoestima.

    Só escolho meus esmaltes pelos nomes. Assim como escolho minhas vestimentas pelo que meu coração me nomeia, diariamente. Orgulho-me por não ter um estilo único. Talvez porque estilos fixos também acabem cheirando a flores mortas quando insistimos demais neles. E lá se vão dias úteis neste ano com cheiro de caderno novo. E, ainda assim, tempestades e raios me lembram da promessa que me fiz de não cometer mais os mesmos poemas, nos mesmos versos e estrofes — como quem tenta não repetir feridas já infeccionadas. Pele cicatrizada é cura, não fecho-éclair. É tudo novo, me repito. É página em branco.

    Eis o ponto em que a pele deixa de ser sombra da morte, perde o espanto e se torna rotina.

    “Suportar” e “sobreviver”: dois verbos que carregam duras penas, tão necessárias a nossa existência. Duros e honestos verbos… Como ter uma vida longa sem tais ações? Impossível. O provável é acostumarmo-nos a elas. Torná-las menos pesadas aos sentidos. Abusar, para isso, do lado racional do qual fomos providos. Quem sabe aceitar que algumas palavras nem sempre se perfumam para nos encontrar; vêm fétidas e com mal hálito, para que percebamos o quanto ainda estamos vivos.

    Ao zanzar neste sábado, pela casa que é parte minha e, ao mesmo tempo, reflexo parcial de tantas existências, li um poema que decreta: a garganta fica entre a mente e o coração. Dei-me, assim, de encontrão com as minhas infecções de garganta, quando pequena. Lembrei-me de como sangravam. E de como aquela dor era infinitamente menor do que os sangramentos atuais da mente e do coração.

    “Adultez”, chamar-se-ia isso, fosse um potinho de esmalte. Padecem desse mal todos os abençoados com vidas longas — ou relativamente alargadas. Sentimos. Experimentamos. Falhamos. Nos envaidecemos. Choramos, seja por alegrias ou arrasamentos da alma. Estamos vivos. Existimos. E seguimos colecionando momentos e memórias neste labirinto que traz placas em línguas diversas (traduzirei para vocês):

    SUPORTAR
    ENTRANCE
    INGRESSO
    = ENTRADA

    _
    ———– | <<< >>> [ ] (x) ( )

    _

    SOBREVIVER
    EXIT
    USCITA

    = SAÍDA

  • Notas de Dezembro

    Minha filha se diz triste na noite de Natal. Informo-lhe que ninguém é alegre ou triste conforme o calendário. Explico-lhe que, por uma espécie de imposição da data, todos “devemos” nos sentir alegres nessa ocasião. Como nem sempre isso acontece, fatalmente confrontamos nosso estado com o que a regra determina – aí sim, acabamos ficando tristes de verdade. Ou seja: entristecemo-nos por não estarmos tão alegres quanto se exige que estejamos. É um típico fenômeno de época, alimentado por uma economia intrínseca ao calendário. E ninguém é alegre ou triste conforme a folhinha – repito-lhe na tentativa de tranquilizá-la.  

    Minha filha agora se diz mais triste por “não ter entendido nada”.

    * * *

    Aconteceu quando eu voltava do Recife, à tardinha, e já estava quase na estação rodoviária. Perto havia um bar, e no bar alguns homens. Um pouco ao lado, deitada entre os homens que bebiam, uma vaca. Ninguém lhe prestava a mínima atenção. Malhada, episcopal, a vaca reinava entre os homens que tentavam esquecer – erma de si mesma, ela já naturalmente esquecida. Talvez por isso ninguém a percebesse. Era apenas mais um espírito evadido, um ser sem angústia nem pressa no manso burburinho do bar.

    Eu me dei conta de que só ali aquela cena era possível. Somente num bar, e com tamanha naturalidade, uma vaca dividiria o espaço com o homem – os dois fazendo quase a mesma coisa. Tentasse o animal entrar numa igreja – por exemplo, na missa de domingo à tarde – e seria enxotado com horror. Esqueceriam o nascimento de Cristo entre cabras, porcos, jumentos, e rechaçariam essa vaca ao vivo. Pois no templo, conforme se vê nos presépios, ela só pode figurar como ícone, adorno, jamais com suas orelhas e seu rabo.

    A imagem desse quadro me ficou, confundida com a gravidade do crepúsculo. A vaca tão solene e tão pura, com o seu olhar desabrochado e líquido. Entre homens desocupados e sozinhos, que ali pastavam a vida.

    * * *

    Mais um ano se passa. Meu primeiro e natural impulso é dizer: e eu com isso? Queria ignorar a data, a convenção expressa na folhinha, e atravessar indiferente a passagem de um ano para o outro. Ignorar o tempo, como ele nos ignora. Acordar no novo ano sem ter me despedido do anterior, isto é, sem ter passado pela ingênua solenidade com que, vestidos de branco ou azul, nos postamos à beira de um túmulo invisível, vendo enterrar-se um cadáver feito de pequenas partes de mim, de ti, de nós.

    O ano velho é o rótulo sob o qual alinhamos nossos feitos – tantos deles, em verdade, malfeitos – a fim de proceder a uma espécie de contabilidade filosófica. Através dela buscamos provar que os bons momentos compensaram os maus, e que a vida, no fim das contas, vale mesmo a pena de ser vivida.

    Com filosofia ou não, o certo é que o tempo passa. É melhor não resistir e encarar isso com bom humor. Imaginando, por exemplo, como cada um dos tipos abaixo saúda a chegada do novo ano:

    • o otimista: “Um ano a mais!”
    • o pessimista: “Um ano a menos…”
    • o religioso: “Um ano… Amai!”
    • o niilista: “Um mal a menos.”
    • o agiota: “Um mais ao ano.”
    • o leiloeiro: “Um ano, e quem dá mais?”
    • o condenado: “Um ano, ao menos!…”
    • o asmático: “Um ano. Ar menos.”
    • o indiferente: “Mais ou menos um ano, tanto faz.”
    • o medíocre: “Um ano mais ou menos.”
    • o matemático: “1 ano é + e –”
    • o banqueiro: “Um ano e mais, mais, mais…”
    • o indeciso: “Um ano, a menos que…”
    • o belicista: “Um ano. Armemo-nos!”

              E um proveitoso 2026 para os leitores que tiveram a paciência de chegar até aqui! 

  • Deixe-se levar

    No ano que começou agora há pouco desejo menos organização e mais espontaneidade. Mais espaço para contemplação e menos para observação.

    Compromisso só nas obrigações, porque são implacáveis. No mais, vamos levando em espirais diáfanas.

    Planejar é preciso, certo, mas não pode ser um ato imperativo em nossas vidas. Umas boas doses de imprevisto, reunidas a golpes de vista felizes, não farão mal algum.

    Caminhar por caminhar. Espiar e deixar o olhar seguir até onde a vista alcança para só aí decidir se vamos por essa estrada ou por aquela ou, até, por nenhuma.

    Que nossas escolhas de onde ir possam seguir o que Robert Frost soprou suavemente em seu poema O caminho não percorrido:

    “Duas estradas divergiam em uma floresta, e eu…
    Peguei o menos percorrido,
    E isso tem feito toda a diferença.”

    Sim, fazer a diferença por nossas escolhas ainda é uma sábia opção.

    Que no próximo ano uma parte dos nossos movimentos sejam em direção ao estático. Parar por parar. Parar porque é bom.

    Olhar para um lado ao invés do outro e vice-versa.

    Escutar, falar, sorrir, chorar.

    Conter-se, expandir-se, rir-se.

    Deitar, dormir, sonhar.

    Sonhar acordado, sonhar enlevado por uma doce lembrança.

    E, para encerrar, desejo que tenhamos mais confiança e que olhemos mais para dentro de nós mesmos. Atitudes que só podem nos trazer coisas boas.

    Nem que nos conduzam somente à citação de Walt Whitman, na “Canção da estrada aberta”:

    “eu sou maior e melhor do que eu pensava”.

  • Ponte emocional!

    Certa vez, um grande amigo do poeta Olavo Bilac queria muito vender uma propriedade rural, um sítio que lhe dava trabalho e despesas. Ele reclamava que era um homem sem sorte, pois, as suas propriedades davam-lhe muitas dores de cabeça e não valia a pena conservá-las. Pediu então ao amigo poeta para redigir o anúncio de venda do seu sítio para publicá-lo no jornal, pois, acreditava que se ele descrevesse a sua propriedade com palavras bonitas, seria muito mais fácil vendê-la.

    E assim, Olavo Bilac, que conhecia muito bem o sítio do amigo, redigiu o seguinte texto:

    “Vende-se encantadora propriedade onde cantam os pássaros, ao amanhecer, no extenso arvoredo. É cortada por cristalinas e refrescantes águas de um ribeiro. A casa, banhada pelo sol nascente, oferece a sombra tranquila das tardes, na varanda”.

    Meses depois, o poeta encontrou seu amigo e perguntou-lhe se tinha vendido a propriedade.

    — Nem pensei mais nisso — respondeu ele. — Quando li o anúncio que você escreveu, percebi a maravilha que possuo. Desisti de pronto.

    Algumas vezes, só conseguimos enxergar o que possuímos quando pegamos emprestado os olhos alheios.

    Isso nos serve de lição para melhor observar também o outro, que nos cerca e anda de mãos dadas conosco, e sorri todos os dias quando tomamos a iniciativa de uma bela atitude.

    Por vezes não sabemos o valor do que nos envolve, e nos parece que ainda não acordamos de um sonho onde tivemos que dizer adeus. 

    Mas como sobrevivemos, percebemos que onde quer que andemos, gostaríamos que fossemos seguidos. Porque ninguém tem o amanhã garantido, e por isso necessitamos amar toda noite como se fosse a última.

    Se o mundo acabar amanhã, quem você gostaria que estivesse a seu lado?

    Ou, se a festa tivesse terminado e nosso tempo na terra também, quem você gostaria de abraçar, só por mais um instante?

    Às vezes, não tiro uma foto do momento que estou contemplando, porque ela vai atrapalhar. O mais importante, é só ficar nele, como está se passando em meus olhos, transmitindo uma sensação única que a fotografia não vai gravar, porque as coisas belas não pedem atenção.

    Escolha seu melhor para oferecer a quem deseja atrair, vai que o outro pense da mesma forma e aquela ponte emocional tão esperada, se perpetua como exemplo.

  • Votos Teimosos

    Meu coração transborda desejos teimosos, daqueles que povoam o peito da gente e não arredam pé. Que no ano que se aproxima o amor seja maior que o ódio, e nenhum ser humano neste Brasil de meu Deus fique sem almoçar, tomar café da manhã ou jantar.

    Que o carnaval, de fora a fora no Brasil, siga firme e forte, pois brincar ainda é coisa séria, e a fantasia é o que nos ajuda a suportar a vida. Desejo que os homens, ao se separarem de uma mulher, ergam a cabeça e saiam andando, sem jamais cogitar levantar a mão. Que cada vizinho sorria e dê um bom-dia ao triste e solitário, todos os dias, sempre com um sorriso de acompanhamento. Que o amor pela leitura contagie crianças, velhos, idosos, homens ou mulheres.

    Desejo que filmes, livros, exposições de arte, música e poemas — tudo isso que chamamos de cultura — entrem na cesta básica de todo brasileiro. Ainda que aprendamos a conviver com quem pensa diferente: o que votou no outro candidato, o que curte outra música, o que nasceu em família oposta à nossa. Que essa pessoa jamais seja inimigo, mas tratada com respeito e cordialidade, até nas redes sociais.

    Que quem gosta da cachacinha beba só o necessário, sem exageros; que o amor jamais saia de moda, e tenhamos liberdade para amar e desejar quem quisermos. Que a luta por um mundo mais justo não nos tire os olhos do amor, guiando escolhas políticas e relações privadas. Que ninguém saia a roubar o bem alheio, mas conquiste desejos com trabalho digno e condições justas. Que apreciemos as coisas supérfluas da vida, não só o essencial.

    Que os jovens redescubram o prazer da vida ao vivo e a cores, sem telas o tempo todo; que vivamos em harmonia com peles, finanças e idades diferentes, velhos e moços aprendendo uns com os outros. Que ninguém fume exageradamente, que ignoremos desaforos no trânsito, e que quem tem fé seja respeitado — assim como quem não tem. Esses são os votos mais sinceros do meu coração para o ano que vem. Até a próxima.

  • O Patriota

    Depois de muitos anos de resistência, Brasilino, respeitado pesquisador brasileiro, aceitou sair de seu país e ir fazer uma palestra na maior universidade dos Estados Unidos.

    Os norte americanos estavam eufóricos por conseguirem levar ao seu país um dos responsáveis por grandes contribuições no ramo da saúde nos últimos anos. Seu Brasilino, no entanto, não se sentia da mesma forma e sempre viu com maus olhos a saída de terras brasileiras.

    Logo ao descer do aeroporto, ele foi abordado por uma série de jornalistas americanos que disputavam espaço para ver quem seria o primeiro a fazer uma pergunta. Então, uma bela repórter ostentando cabelos loiros e olhos azuis indagou o brasileiro:

    — Qual é a sensação que o senhor sente em palestrar na maior universidade do maior país do mundo? — Perguntou em inglês.

    — Maior país do mundo? — respondeu Brasilino em português.

    — Em inglês, por favor. — pediu a repórter em inglês.

    — Eu sou brasileiro, falo português.

    — O senhor não sabe falar inglês? Como pode um dos maiores cientistas não saber falar inglês? — seguiu a jornalista em tom mais debochado ainda falando inglês.

    Brasilino limitou-se a agradecer a todos os repórteres presentes (em português) e dizer que estava cansado em razão da viagem e que iria descansar.

    Após sua declaração, um furioso repórter gritou para o brasileiro em inglês:

    — Você deveria respeitar o nosso país, sem ele nada do que você descobriu seria possível!

    Brasilino então, respirou fundo, deu meia volta a foi até os jornalistas. Sem dar espaço para nenhuma pergunta, ele começou a falar:

    — Eu sou do Brasil. Minha terra possui riquezas sem fim. Essas, muito antes dos colonizadores chegarem, já eram utilizadas por nossos indígenas para viver. Fomos extorquidos pelas grandes potências mundiais de forma sequencial, cada uma no seu respectivo momento de hegemonia. Ainda assim, temos o país mais lindo da face da terra. Falo não só de nossa natureza, mas também de nossa cultura. Eu venho do país onde nasceu o samba, a bossa, uma música popular riquíssima. Um país que produziu Gonzagas, Gonzaguinhas, Chicos, Caetanos, Gals, Grandes Otelos, Nelsons Pereiras dos Santos, Glauber Rochas, Miltons Nascimentos, Cassias Ellers, Marias Bethanias e tantos, mas tantos outros grandes personagens. Vocês acham mesmo que eu irei concordar que o país de vocês é o maior do mundo?

    Brasilino falou tudo isso em um bom e sonoro português. Depois, pegou suas malas e entrou novamente em seu avião. Sentado na cadeira, só disse mais uma frase:

    — Me levem de volta para minha terra.

  • Ema, ema, ema cada um com seus problemas

    Emília entra no elevador enorme da repartição pública, desses feitos para transportar pelo menos vinte pessoas, mas que, naquele horário, estava quase vazio. Quase. No fundo, uma pessoinha encolhida chorava baixinho.

    Emília desvia o olhar. Final de um dia estressante — só me faltava agora ter que consolar alguém que nem conheço. Vira-se de frente para a porta, torce a boca e entoa seu meme preferido: ema, ema, ema, cada um com seus problemas.

    Milena se joga no sofá para conferir as mensagens de WhatsApp que ainda estavam na caixa. Começa pelas mais urgentes: o grupo da faculdade marcando um happy hour, a faxineira avisando que não vai poder trabalhar amanhã. Em seguida, aparece uma que começa com: Família, quem pode me ajudar? — acompanhada de emojis com mãozinhas postas em prece.

    Milena titubeia. Se abrir a mensagem, vai ter que responder, se envolver. Melhor nem abrir. Afinal, também tem seus próprios problemas. Portanto… ema, ema, ema, cada um com seus problemas. E passa para a próxima.

    Amélia segue paciente na fila de carros para pegar a filha na escola. Já está quase na sua vez quando, de repente, um carro emparelha e a janela se abre. Uma moça, descabelada, suplica:

    — Será que eu poderia passar na sua frente? Minha filha está tendo uma crise de angústia. Ela está no espectro do autismo, preciso pegá-la o mais rápido possível. É uma urgência.

    Amélia hesita por um segundo. Pensa que ainda precisa levar a filha ao dentista, que já está atrasada. Então acelera o carro. Afinal, ema, ema, ema, cada um com seus problemas.

    Emília, Milena, Amélia. Trocam-se as letras, muda-se o cenário — o refrão é o mesmo.

    Talvez sejamos todos um pouco essas emas. Não por crueldade, mas por exaustão. Cansaço, medo, excesso de solicitações. Nossos problemas individuais sempre se sobrepondo aos dos outros, como se não houvesse espaço para mais nada.

    Nunca tivemos tantos “problemas próprios” e tão pouco espaço para os problemas alheios. Talvez não seja falta de empatia, mas excesso — de tarefas, de ruído, de cansaço. Cada um cheio demais de si para caber no outro. E assim seguimos: um coro afinado na pressa, cantando juntos a mesma cantiga. Ema, ema, ema, cada um com seus problemas.

  • Contabilidade emocional

    Todo fim de ano aproveito para fazer minha contabilidade anual. O balancete tem como objetivo listar os saldos das minhas contas emocionais (ativo, passivo, receita, despesa). Esse fechamento contábil possibilita uma leitura mais detalhada dos investimentos afetivos realizados. É, também, nessa hora, que projetos importantes, esquecidos na gaveta do tempo, vêm cobrar seu lugar.  

    Quando isso acontece, não resta outra alternativa, senão realinhar o capital-tempo à nova empreitada. Para isso, infelizmente, alguns ciclos precisam ser encerrados ou, como gosto de acreditar, pausados, por tempo indeterminado, mas não infinito. Contudo, antes de colocar em prática um novo projeto, há que se celebrar, com aqueles que colaboraram para que o saldo emocional fosse positivo, os frutos colhidos. 

    Obrigada, Crônicas Cariocas (Francci e demais escritores) e todas as pessoas que me leem, pela parceria leal e investimento contínuo. A escrita de um novo livro me convoca e preciso concentrar esforços nesse projeto, mas a grandeza do que foi vivido aqui segue comigo.  

    A vida é assim: uma dança de roda que não se cansa de girar. Então, dancemos, todos juntos!

    Feliz 2026!

  • Sandálias divisionistas

    As notícias estão ficando cada vez mais surreais. A última é que estão acusando as outrora inocentes sandálias havaianas de estar a serviço do comunismo internacional. Nem me dei ao trabalho de entender a origem dessa estapafúrdia ideia, fruto de um ambiente social doentio.

    Esclareço que embora não seja usuário dessas sandálias, reconheço nelas a virtude da perfeita adaptabilidade às necessidades das extremidades dos membros inferiores da perna, também chamadas de pés, que têm a função crucial de promover o equilíbrio e a sustentação do corpo.

    São elas práticas, laváveis, arejadas, não usam costuras e seu formato anatômico proporciona bem estar ao referido órgão de apoio, com uma base homogênea de borracha em que se sobressai a famosa tira em Y, sua marca registrada.

     Além disso, são baratas e duradouras, sendo por isso acessíveis a pessoas de todas as classes sociais. A possibilidade de se adotar milhões de estampas com motivos e cores variadas permitiu que caíssem no gosto até de pessoas mais estilosas, sem perder o charme de sua estrutura básica.

    Com isso, conquistaram corações e pés de todos. Há lojas de havaianas espalhadas mundo afora. Sim, é um item essencialmente brasileiro que alcançou sucesso internacional e colocou o mundo abaixo de nossos resguardados pés, o que deveria encher de orgulho esse país tão pobre em referências.

    Então por que a implicância agora com esse artefato tão simpático que exporta a descontração e a maneira de ser do brasileiro?

    Devo dizer que particularmente não sou fã das havaianas, ao contrário de minha esposa que se esbalda com os inúmeros modelos de estampas que parecem nunca se repetir, em exposição tanto nas vitrines produzidas dos shoppings como em araras improvisadas de mercadinhos populares.

    Minha desavença com elas é de cunho estritamente pessoal. Não me dou bem com a sua peculiar tira que separa o dedão dos demais dedos. Por natureza, acho que os cinco dedos de cada pé, ainda que por natureza tenham autonomia, foram moldados para ficar perfilados uns ao lado dos outros sem barreiras. A tira da sandália que faz com que ela se sustente no pé deixa o dedão separado, o que me passa uma dolorosa sensação de ‘divisionismo podal’ que gera certo desconforto.

    Mas para 99% dos humanos, homens e mulheres, adultos e crianças, essa característica parece não importar, tanto que as sandálias são um sucesso. Exceto para aquela parcela paranoica da sociedade que, por alguma razão, teima em achar que o divisionismo das havaianas vai muito além da questão do dedão.

  • Seu próprio molde!

    A lagosta se esconde embaixo das pedras quando sua concha está apertada. Essa condição a provoca providenciar uma nova proteção, porque seu corpo cresceu. Nossas vidas apresentam situações de muito estresse e desconforto, e rapidamente buscamos um remédio ou conforto. 

    Mas, na verdade, esse momento tenso é uma transição para o crescimento pessoal, após uma análise e profundo entendimento do que se passa em nossas mentes, porque naquele instante não possuímos a noção de uma resposta, e, nessa altura, passamos a entender onde é nosso novo lugar, e como chegar lá.

    Uma vez tivemos 15 anos, e observávamos a passagem dos dias com leveza, despreocupados com maiores problemas, éramos um livro a ser preenchido com experiências, que nos valeram a oportunidade de errar sem culpa, moldar nossa personalidade com vida, mudanças boas e ruins, porém, intensas e marcantes.

    Muito diferente do chamado “método Fiorelli”, que serviu de técnica para moldar corpos no fatídico ano de 79 d.C., quando o Vesúvio libertou sua fúria sobre as cidades romanas de Pompéia e Herculano, e enterrou sob uma pesada camada de cinzas e escombros vulcânicos, centenas de pessoas nas mais diversas posições, eternizadas naquele triste evento.

    Os habitantes não conseguiram escapar, e ficaram imobilizados sob toneladas de material incandescente.

    Com o passar dos séculos, seus corpos desapareceram, deixando vazios na rocha solidificada que se formou sobre eles.

    Foi no século XIX que os arqueólogos, explorando as ruínas de Pompéia, descobriram um método engenhoso para moldar esses buracos.

    Enchendo-os com gesso líquido, eles conseguiram criar figuras que capturavam com fidelidade os últimos momentos das vítimas.

    Essas esculturas espontâneas mostravam suas posturas, seus gestos e até detalhes de suas roupas e poses.

    A técnica foi atribuída a Giuseppe Fiorelli que foi quem permitiu que a tragédia se mostrasse com uma intensidade surpreendente.

    Os moldes revelam fragmentos de humanidade detida no tempo: famílias abraçando-se no medo, corpos que tentaram fugir do inevitável e outros que procuravam refúgio diante da tempestade ardente.

     Não perca a oportunidade latente de você fazer seu próprio molde, caso contrário, mais tarde, vai sobrar somente o lugar para o gesso.

  • Feliz Natal

    Sempre achei que, embora viver com gente dê trabalho, viver sozinho simplesmente não funciona. Somos seres de comunicação. Precisamos de gente por perto — pais, mães, amigos, irmãos, colegas de trabalho, professores, clientes, fregueses, marido, mulher, namorado, crush — Todos nós. Precisamos. De gente.

    Mesmo quando temos dinheiro, mesmo quando achamos que já resolvemos tudo. Viver sozinho? Não dá. Talvez por isso a vida nos obrigue a nos renovar o tempo todo — a repensar atitudes —. Porque, convenhamos, todo mundo é um pouco egoísta, de vez em quando. Ninguém acorda todos os dias disposto a dar bom dia a um desconhecido, muito menos numa segunda-feira.

    A vida é feita de pequenas provas de resistência: chefes que tiram nossa paciência; trânsito engarrafado, quando estamos atrasados; telefone que resolve dar problema justo no dia em que guarda todas as nossas senhas e dados bancários. A vida testa e, quando estamos no limite, qualquer um pode ser grosseiro. Ainda assim, é reconfortante quando percebemos que dá para tentar de novo, se renovar.

    Renovar-se é um exercício diário. Sem glamour. Como não somos perfeitos, passamos a vida tentando ser pais melhores; filhos melhores; parceiros melhores. Às vezes, passamos anos tentando aprender algo básico: ser amigo. Cuidar das amizades dá trabalho — e dá trabalho para sempre.

    Pensei nisso esta semana, ao assistir a “O Natal dos Muppets”. Um filme americano — bonito, delicado —. A história acompanha Ebenezer Scrooge, um homem que mede tudo em dinheiro; não se importa em demitir pessoas nem em cobrar dívidas altas, mesmo no Natal. Um sujeito que acredita não precisar de ninguém.

    E é impossível não se reconhecer um pouco nele. No corre-corre do cotidiano, a gente se ocupa demais em ganhar dinheiro, comprar coisas, acumular. O filme, no entanto, lembra algo simples: é possível ser feliz com pouco. E, quando isso acontece, a gente ama melhor quem está ao nosso lado. A gente se renova, um pouco a cada dia.

    Talvez esse seja o verdadeiro sentido do Natal. Não apenas a troca de presentes, a ceia farta ou os abraços. Há quem trabalhe na noite de Natal, há quem sinta a falta de quem já se foi. O espírito natalino tem mais a ver com sair um pouco de si e enxergar o outro. Com se renovar.

    Gostando ou não da data comemorativa, aproveito para agradecer aos leitores do Crônicas Cariocas por um ano generoso. Esta casa me acolheu muito bem. Desejo a todos os leitores, amigos e colegas cronistas um Feliz Natal, cada um celebrando à sua maneira.

  • Errância

    Os parceiros musicais Mila Cox e Zími haviam conversado sobre adotarem ou não temas mais políticos em suas músicas.

    Para ela, as músicas tinham abordagem política, mesmo com letras minimalistas e sem serem panfletárias, mas sempre enfatizando, entre outras coisas, uma posição antifascista.

    Ela falou: “Não precisamos ser chatos como o Bono”.

    Mas para Zími, era preciso amplificar essa abordagem, pois estavam passando por um período perigoso e ameaçador, num país que nasceu de um projeto que podia ser chamado de proto-fascista, com invasão das terras e extermínio de uma civilização.

    A conversa se deu na volta de um show que fizeram como o duo Crop Circles numa festa junina em Catanduva que deu espaço para quatro bandas de rock, de diferentes subgêneros.

    Ele já tinha quase cinquenta anos e começou um outro dia praguejando sobre quanta merda uma pessoa tem que aguentar apenas para se manter viva.  

    Dessa vez a queixa era por conta de um pagamento não realizado por um trabalho que realizou como freelancer, como porteiro substituto num prédio residencial na Rua Aurora.

    Então enfiou a mão entre o assento e o encosto do sofá, onde havia dormido à noite.  

    Correu-a por ali e encontrou uma moeda de dez centavos, um pente e uma tampa de caneta.

    Logo tomou algum ânimo para procurar se atualizar um pouco sobre a situação do resto do mundo, através de fontes que ele confiava, para que isso melhorasse sua estima, pois isso o fazia lembrar que não tinha tantos motivos para lamúrias.

    Era estranho, mas em dias ruins, ele ganhava sobrevida ao se deparar com notícias tristes, outras trágicas e outras constrangedoras, lembrando que problemas do cotidiano são para todos, mesmo que em diferentes circunstâncias.

    Cada uma dessas notícias, um resultado crônico de repetidas ações que ele repudiava, idealizadas e comandadas por gente que ele também repudiava. Tudo isso seguido e praticado por um imenso rebanho humano cego, burro e passivo, desprovido de qualquer autonomia intelectual.

    Nativo de um país agora regredido ao agrarismo da soja, sob ameaça de fascismo, e com o planeta à beira de um colapso climático.

    Entendia a razão de poder ser considerado um fracassado, pois só seria vencedor no sistema excludente e perverso em que vive se não fosse a pessoa que é.  

    Apesar de estar cansado de lembrar que a falência do sistema é a origem de muitas mazelas humanas e saber que utopias não o tirariam daquela miséria existencial, sabia também que elas serviam ao menos para que não mandasse tudo às favas de uma vez, entrando propositadamente numa overdose letal.

    O sistema educacional estimula a todos que a ele tem acesso, a buscar por um tipo de vitória, que por questão de índole, nunca o estimulou.

    É necessário que haja milhares de derrotados para cada vencedor.

    Milhares de almas atormentadas com pensamentos suicidas que também se perguntam o porquê de tudo isso, apenas para adiar a morte, que levaria a um esquecimento absoluto, até para quem era próximo, e que provavelmente terá o mesmo destino.

    Isso tudo enquanto o que há de verdadeiramente heroico num ser humano é não pertencer a nenhum rebanho.

    Não há lugar algum para chegar, não ser a tumba, e para depois disso, talvez a distinção pós morte para aqueles que deixam na Terra algum legado que também não caia no esquecimento, caso de um entre milhares, sendo que muitos dos quais chegaram a sonhar com a tal vitória, buscada por uma fé cega que os moveu até lugar nenhum.

    Algo típico de quem é enganado durante muito tempo, e que tende a rejeitar qualquer prova de fraude, se desinteressando em descobrir a verdade, pois é doloroso reconhecer, ainda que para si mesmo, que fora enganado, às vezes por toda a vida.

    Pelo menos as manhãs não eram todas iguais, porque para ele também havia aquelas em que podia acordar calmo, com o apagamento das urgências, das angústias e dos receios de irrealização, resultado de alguma pequena vitória recente ou da própria insolubilidade de questões perturbadoras.  

    O dia anterior havia sido de derrota, com muito tempo na porta de um supermercado esperando pelo pagamento do freela, fumando e verificando a todo momento o aplicativo do banco do qual era cliente, para ver se finalmente o pagamento havia sido efetuado.

    Havia agora, na porta de qualquer mercado de toda a região central de São Paulo, um número cada dia maior de pessoas desesperadas de fome, pedindo algum tipo de ajuda, e olhadas com perplexidade e rancor pela maioria dos que ainda saiam de lá com sacolas de comida para levar para casa.

    Algumas dessas pessoas ainda são capazes de ostentar certos privilégios, em plena crise aguda numa terra sem deus nem lei.

    Sempre que ele saía de algum desses lugares depois de alguma compra, carregava com sua sacola de mantimentos um tipo de culpa bastante incômodo, ao ver tanta miséria.

    Nessas horas lembrava novamente do sistema, porque sabia que a miséria é culpa dele, e não de simples fracassos pessoais, como tanta gente está condicionada a acreditar.

    Foi obrigado a desistir da espera quando a bateria de seu celular vagabundo acabou, de tanto que verificava o aplicativo do banco à espera do dinheiro.  

    Então, voltou pra casa, abriu as bitucas de cigarro de sua lixeira e bolou o recheio delas em guardanapos de boteco, como se fossem baseados, e depois dormiu com fome.

    Nem mesmo esse tipo de perrengue era capaz de fazê-lo desistir de fazer esses bicos em vez de algum emprego com carteira assinada numa empresa que chama o empregado de “colaborador”, com longas jornadas de trabalho, baixa remuneração e assédio moral.

    Enquanto isso, Mila Cox apenas se lembrava da frase que ouviu dele certa vez, em que dizia ter se enganado apenas uma vez, ao pensar estar enganado sobre um tema menos importante que a conclusão tirada dele.

    Era um indício de que o problema dele não era falta de autoestima.

    E aquele dia seria bom para ele, que ao encontrá-la, sempre revive sua sociabilidade, tão comprometida por tempos de escassez de tempo e dinheiro, o que então lhe fazia ter que gastar energia, completando a tríade que tanto prezava, que era tempo, dinheiro e energia.

    Ela era muito mais jovem, e isso o levava, andando com ela, a fazer coisas que jamais faria sem sua influência.  

    Servia também, até certo ponto, como renovação no ânimo de viver.

    Sair de sua zona de “conforto” não era tão dramático para Zími, porque não havia ali, de fato, muito conforto.  

    Havia, sim, uma rotina razoavelmente previsível, até para se preparar com certa antecedência para a chegada de perrengues, que para ele, eram sempre financeiros.  

    Vivia sozinho num apartamento no centro da cidade, sendo um consumidor minimalista e praticante do desperdício zero.

    Já Cox tinha seus próprios problemas, e carregava bastante insatisfação, não exatamente pela vida que levava individualmente, mas pelas mazelas da conjuntura.

    Mas ainda era jovem o bastante para gritar um pouco mais, por causa do retrospecto de vida mais curto e por teoricamente ter mais tempo pela frente, para enfrentar desdobramentos malignos de eventuais tendências equivocadas dos dias atuais e anteriores.

    Tinha vinte e um anos, e apesar de ter um porte físico pequeno, era o tipo de pessoa que se reconhece de tão longe, quanto se possa enxergar, com o cabelo curto cuja cor era mudada quase semanalmente.

    Ela tem um Chevette Jeans 79 que chama atenção por onde passa, desde shows que faz pelo interior de São Paulo, até estacionamentos de supermercado.

    Quando questionada se era tímida ou premeditadamente antissocial, respondia que costumava conversar com quem realmente interessava, pois muitas pessoas hoje em dia vivem se sentindo insultadas, e quando não tem a resposta que querem ouvir, a tomam como uma afronta, e que a música a ajuda nessa questão, mesmo quando suas músicas geram dúvidas sobre o que realmente querem expressar.

    Estudava Letras e era uma copywriter freelancer, com ganhos sempre superiores aos de Zími, e mora com os pais numa boa casa na Penha.

    No atual momento, ambos apenas vivem, cada um à sua maneira, esperando o que há por vir para a humanidade, sem tanta esperança de dias melhores, mas com a certeza de que ainda não vimos nada em termos de tempos surreais, e que o pior ainda está por vir.

  • Onde mora o seu olhar

    Nunca havia pensado na morada dos olhos, e sua relação com a inspiração necessária para um bom escritor, até que me caiu no colo o texto magnífico de Rubem Alves – A arte de ver.

    Me encantou esse termo, morada dos olhos, pois ele dá uma outra dimensão à diferença entre o ver e o olhar, que está relacionada à morada onde guardamos aquilo que nossos olhos captam.

    Se captamos as imagens somente com a visão, elas são armazenadas em uma caixa de retratos.

    Colecionamos imagens que nos são úteis para referenciar, objetivamente, o mundo que nos cerca. Pensando na arte da escrita, essa caixa nos fornece material para descrever a forma, a cor, o tamanho dos objetos que vemos – um bolo de chocolate com cobertura, por exemplo. Se bem descrito, podemos até sentir na boca sua cremosidade.

    Mas, se captamos o que nos cerca com o olhar, se abrimos nossos escaninhos, conseguimos romper com a racionalidade objetiva e nos conectarmos com significados e emoções que vão muito além do objeto. E, aí, a morada desse olhar é uma porta aberta dentro de nós; o olhar nos habita, mas é livre, cigano, vagando por aqui e ali. É o olhar do escritor poeta, que ao pousar em um bolo de chocolate, é capaz de sentir e nos fazer sentir, em seu texto, a cremosidade de um beijo apaixonado.

    Como poeticamente colocou Alberto Caeiro (citado no texto de Rubem Alves), para isso é preciso “partejar olhos vagabundos”

  • A última crônica do ano – amanhã há de ser outro dia

    E terminamos mais um ano. Mais um ano que corre e corremos juntos para não perder a viagem! Empacotamos novos e velhos sonhos para o ano que virá…

    O mês de dezembro é assim: o último mês do ano é tão apressado, mas tão apressado que parece querer o novo calendário!

    E correm as pessoas com as festas de Natal e as festas da virada. Roupas, nomes, mensagens, sorrisos, promessas, presentes, viagens…

    E terminamos mais um ano.

    As velhas e repetidas canções de natal, de todos os natais, embalam as ruas e as casas, embalam a fraterna pressa tão típica de fim de ano, todos os anos…

    Mas…

    Mesmo que façamos as mesmas coisas (ou pelo menos, boa parte delas), guardamos dentro de nós mesmos uma certa urgência e uma necessidade verdadeira de acreditar que as coisas vão mudar, vão se acertar… E colocamos confiança, fé, esperança em um novo momento, como se fosse um presente, um bálsamo, um afago que nos dá força para continuarmos a grande aventura da vida…

    Assim, enfeitamos a casa, arrumamos a mesa, chamamos os amigos, colocamos luzes nas janelas, nas varandas, nos quintais…

    Assim, preparamos a melhor roupa, damos um trato no cabelo, organizamos a melhor ceia e colocamos no rosto o melhor sorriso.

    Seguir em frente é preciso… É preciso!

    Termino esta última crônica parafraseando o velho mestre Chico Buarque…

    Apesar das bombas, da cara feia, dos políticos e suas politicagens, dos malandros e das suas malandragens, amanhã há de ser outro dia!

    Apesar das intempéries da vida e dos sobressaltos diários, amanhã há de ser outro dia!

    E daqui a alguns dias, há de ser natal!

    E daqui mais alguns dias, há de ser um novo ano!

    Com toda certeza, será um outro dia!

  • Entre

    A arte salva momentos.
    A frase foi construída por Matilde Campilho, num vídeo brevíssimo — desses que carregam a tônica do fulgaz que uma gravação de Instagram faz reverberar por nossas pupilas. Prendeu-me num eco posterior ao instante do encontro com a postagem, enquanto eu dedilhava a tela com a ansiedade tão comum — e tão normalizada — no comportamento contemporâneo.

    A arte salva.
    E, às vezes, sem que sequer nos demos conta de que precisávamos ser salvos. Tomemos o exemplo da poetisa portuguesa Matilde,

    • que: contou a história de um dia em que, ainda criança, resolveu dar um passeio sozinha, desbravadora assim, acompanhada apenas por sua mochila — artista desde sempre;
    • entrou num museu e se estarreceu diante da enormidade de uma pintura imensa, instalada numa sala igualmente imensa;
    • não, não era apenas a diferença de escala entre a menina pequena e a obra monumental que fez seus joelhos fraquejarem;
    • ali ela se deixou ficar. “Trinta minutos, um quarto de hora”;
    • quando voltou para a família e contou, com os olhos brilhando, que havia visto algo incrível, não soube responder aos adultos o que exatamente era.

    A arte não precisa significar, propriamente.
    Ela é um todo que se percebe pelos sentidos, não pela razão. Racionalizar o mundo tende a retirar-lhe a beleza. Explicar demais, mostrar demais, produzir conteúdo a torto e a direito — numa onda que, inevitavelmente, vai quebrar mais adiante — também. A arte tem como propriedade o encantamento. E o encantamento se retém apenas por percepções: tato, olfato, visão, audição, paladar. E, sobretudo, na dimensão do tempo.

    O tempo.
    Ele vem regendo meu modo de encarar o mundo desde que meu pai se foi. Parece que se chocaram em mim — ou por mim — as três vertentes conhecidas: a do ontem, a do agora e a do amanhã de manhã, esse futuro imediato. O presente, então, pulsa em outra frequência. Acaricia meu rosto com mãos delicadas e, ao mesmo tempo, quando me olho com profundidade, faz com que eu me apaixone perdidamente pela vida, sem saber ao certo que rumo tomar.

    Estou viva.
    É final de 2025 — ano torto, ano obscuro, ano adoentado e, ainda assim, tão necessário no intramundo de cada um. A mente, como os livros, as pinturas, as instalações artísticas, os filmes, é uma máquina do tempo literal e literária.

    E alguém aqui já leu… H. G. Wells?

  • Reflexões em tempos de espanto

    Nas últimas semanas, tenho pensado a respeito de uma dúvida que sempre me ocorreu: as palavras têm, por si só, o poder de iludir ou é a paixão quem confere a elas esse dote?

    Quem não conhece a facilidade do sujeito apaixonado para confundir alô com amor? Não adianta defender que dessa leseira não sofreremos. Basta uma breve reflexão sobre antigas decepções amorosas e logo se apresenta a pergunta: Como não percebemos isso? Estava na cara que não valia nada…

    A bem da verdade, só vemos o que nos conforta ou suportamos ver. Essa é a raiz da cegueira afetiva. E a palavra, pelo visto, embaça a visão.

    A ideia de um encaixe perfeito ou de uma imaginária completude entre as pessoas, independentemente do tipo de relação em que se apoie, porta sempre uma ilusão, uma fala(cia). O discurso se faz tijolo na construção do trono mítico do amado. E mais, à medida que o apaixonamento avança para o campo da idolatria, situação na qual o objeto cultuado é aquele a quem nos entregamos como único salvador, mais ensebamos as palavras na tentativa de escamotear a verdade áspera da nossa própria escuridão.

    Se mais nos vestimos de encanto, mais nos despimos de realidade. É assim que os olhos perdem sua função, e as ações, sua significância. A razão, senhora justa e ponderada, é esculachada em praça pública. Quem quer saber dela? O próprio ditado insinua a ingenuidade desastrosa do sentimento: o que os olhos não veem o coração não sente. Faço aqui um adendo e uma advertência: Não importa se os olhos veem e o coração sente, isso não dá sustância. A paixão tem fome de doces promessas. Engole sem mastigar. Se farta e se lambuza de casadinhos feitos de palavras e ilusão. É perigosa, mas não necessariamente letal.

    Num dado momento, saciamos a fome e, por vezes até, vomitamos. A palavra recupera sua roupa de andar em casa.

    O mesmo não se pode dizer no enamoramento cego, típico da idolatria. Nele, acredito, há uma duplicação do sujeito e do seu dito.

    O objeto amado, venerado e enaltecido, ainda que em condições insalubres de afeto, é puro reflexo. Representa uma versão esmaltada e lustrosa desse sujeito que até então vagava desalmado de sentido. Faminto de importância, engole sem mastigar casadinhos de narcisismo e ostentação. Não enjoa, não
    cansa. Arrota insanidade.

    Nada importa. Ninguém.

    Nenhuma explicação é capaz de abarcar a submissão profana de um corpo ao seu reflexo, visto em carne e osso do lado de fora. Não nos enganemos.

    ]Ninguém venera a diferença.

    Só se idolatra a própria imagem, cifrada nas palavras e ações do outro idolatrado. Ambos se pertencem.

    E quanto à palavra, concluo que ela não é culpada. Para que a palavra iluda, alguém precisa dizê-la. Alguém precisa ouvi-la e querer validá-la.

  • Morrer de amor

    Uma noite dessas tive a boa ideia de assistir a apresentação de um coral onde uma amiga querida canta. O programa foi todo dedicado à Rita Lee e, de repente, durante a apresentação algo me tocou e foi a letra de “Saúde”. A parte que acendeu uma lâmpada, ou chama se preferir, é a seguinte: Se por acaso morrer do coração/É sinal que amei demais. Confesso que sorri.

    Por que sorriu? Lembrou dos amores passados?

    Sabe que não. Eu sorri porque ali naquele teatro escutando o coral cantar eu me dei conta que morro do coração por amor desde que era adolescente. Não é exagero, é verdade. Eu sei que é difícil acreditar porque usualmente eu projeto uma imagem séria e bem controlada, até porque a grande maioria das pessoas que convivem comigo atualmente são do campo profissional. Portanto, a gente até sorri mas é algo mais corporativo.

    Tá, sem viagem por favor. Continua porque estou tentando te entender.

    Às vezes nem eu consigo isso. Mas enfim ai me veio à cabeça a ideia que nas multidões anônimas que se esbarram todos os dias pelas ruas existem aqueles cujos corações pararam. As razões são as mais variadas, isto é, as dores de amor são múltiplas. Tem pela pessoa amada, a mais comum, mas tem por filhos, animais de estimação, carros, casas, relíquias e até por livros que se perderam. Tudo pode provocar paixão ao mesmo tempo em que tudo pode partir o coração.

    Verdade, concordo com você.

    Então, nas noites com ou sem lua se fosse possivel escutar a frequência dos uivos de quem padece por amor seria ensurdecedor. Cada um, com sua dor, uivando aos prantos. Mas uivo de amor tem uma frequência tão alta que nem os cães captam. Toda noite, tão certo quanto há estrelas no firmamento, tem a sinfonia dos desesperados que morrem de amor.

    Ai quanta dor ao luar!

    Mas nada é para sempre muito menos as mortes de amor. O que vem avassalador, vai embora suavemente, escorrendo para fora dos corpos. Memórias são criadas, decisões são tomadas. Uma vida recomeça sobre as partes, as vezes até escombros, da anterior. Vida surge onde antes havia… vida. E assim, sem que se dê conta, levantamos da fria cripta e saímos andando ao calor do sol.

    Sou uma dessas almas que ressuscitam. E antes que eu em esqueça, como chama o coral onde sua amiga canta?

    Gogós.

    Gostei.

  • Nossa frágil condição humana!

    Histórias e piadas contadas por nossa família e amigos, invariavelmente nos fazem rir, mas se forem das boas. Observando no detalhe, elas contam histórias sobre o mal, ou de uma desgraça alheia. 

    A bondade não tem graça nenhuma, somente se ao final a história virar um desastre. 

    O filósofo francês Henri Bergson disse que o cômico exigia algo como uma momentânea anestesia do coração. “O riso não tem maior inimigo que o coração”, por isso rimos do mal para que ele não nos atinja.

    Uma das piadas que os judeus contavam na Alemanha nazista, era sobre o que um comandante da Gestapo dizia a um judeu: “Vou te dar uma oportunidade de viver, se adivinhar qual dos meus olhos é de vidro”. 

    O Judeu responde de imediato — É o esquerdo.

    O oficial admirado pergunta — Como é que descobrisse?

    E o Judeu respondeu — É o que parece menos humano. 

    Pode parecer surreal, no entanto, é uma manifestação bastante profunda nas mãos de todos que se confrontaram com o mau absoluto, que o fizeram mais por necessidade do que provocação. 

    Na União Soviética a piada frequentemente contada era a seguinte: “Sergei, arranjei um emprego, vou para o cimo daquela torre, e meu trabalho é tocar essa corneta quando a revolução triunfar. Pagam-me um rublo por dia”.

    “Ivan, isso é pouquíssimo “.

    “Eu sei, mas é um trabalho para a vida toda”. 

    Eles riem do mal, do bem, ninguém rí, para quê? 

    Mesmo histórias curiosas que resultaram num final trágico, por consequências em suas entrelinhas, parecem uma ironia do destino. 

    Como ocorreu com o Ditador, Ex Presidente da República Portuguesa, Antonio de Oliveira Salazar, apegado ao poder, de onde emanou ordens dramáticas e doloridas àquele povo sofrido, acabou por encontrar um final mortal inesperado, em sua trajetória humana. 

    Uma história com ares de ópera-bufa, se imaginarmos que o ditador foi derrotado por uma queda ao chão. 

    Em 1968, Salazar gozava férias em Santo António do Estoril, e sentado em uma cadeira que não se sabe se em falso ou quebrada, ou estrategicamente fora do lugar, levou o ditador ao chão, onde bateu a cabeça com violência no piso da pedra. Teve um hematoma cerebral e não se recuperou do trauma. Morreu dois anos depois. Conta-se que ele jamais soube que não era mais o presidente do Conselho de Ministros e que a equipe de governo se reunia em sua presença, para encenar reuniões e decisões. 

    Nossa frágil condição humana limita uma rota a todos, muito similar a fraqueza de seus pares e a finitude que nos acompanha. 

    Mas o dolorido é quando os meses e anos escorrem pelos dedos, e chegando a velhice, se vê que não saiu do lugar.

  • Está tão difícil ser eu

    Uma das coisas mais surreais que me ocorreram foi, sem dúvida, ser confundido com outra pessoa. Gente mais nova não sabe bem o que é isso, mas, na época do telefone fixo, quando sequer existia WhatsApp, quando redes sociais eram ficção científica, a pessoa te ligava insistindo que você não era você.

    — Você sabe quem está falando?
    — Não faço a menor ideia.
    — Ah, sabe sim.
    — Sei não.

    A voz era de mulher, eu não fazia a menor ideia de quem fosse, mas ela não se dava por vencida. Rebatia, insistia, falava com este outro que não era eu, mas que, para ela, era.

    — Vai ficar me tratando assim?
    — Assim como?
    — Fingindo que não se lembra de mim. Depois de tudo.
    — Tudo o quê, minha senhora?
    — Ah, faça-me um favor.

    Desligou.

    Até hoje, eu insistindo que sou Leandro, tem gente que me chama de Leonardo. Vizinhos, amigos, médicos, enfim, todo mundo. Eu adoro ser Leandro, sempre gostei, mas, no meu caso, ou a pessoa abrevia, ou muda.

    Ou fala Leonardo, ou abrevia para Léo, mas o que eu adoro mesmo, de verdade, é ser simplesmente Leandro.

    Sofro, claro, também, com homônimos. Uma vez, quando fui tirar um documento, arrumaram um Leandro em São Paulo, com sobrenome igualzinho ao meu. Custei a resolver.

    Já fui confundido, em rede social, com um ficante de outra moça, quando meu lance, na verdade, era com a prima dela — o que, naturalmente, gerou uma confusão sem tamanho.

    Felizmente, nunca fui confundido com o pai desaparecido de ninguém, nem com um espião, nada disso.

    A vez mais divertida, confesso, foi quando, no interior do Rio de Janeiro, em Grussaí, numa pousada, fui confundido com o marido da moça que estava na minha frente.

    A gente ia pegar uma ficha, sei lá, para fazer o quê, não lembro, e a moça da frente, talvez por uma casualidade do destino, estava com uma camiseta verde — eu também estava de verde.

    — Agora pode vir o casal — disse a atendente.

    — Casal? Ele — ele, no caso, era eu — não é meu marido. Meu marido está no quarto, dormindo.

    Eu quis rir, mas achei melhor deixar para rir depois.

    A última vez foi ontem, quando fui à rodoviária, quando fui comprar uma passagem para o Rio de Janeiro, para uma viagem a trabalho estendida para passeio, quando o atendente, com meu RG e tudo, mesmo digitando o CPF corretamente, inventou que meu sobrenome não era Pereira, era Ferreira.

    Tentei mudar, mas o rapaz disse que o sistema não deixa mudar.

    — E eu deixo? — argumentei.

    Ele disse que eu não tinha problema, que o importante era o número do CPF, que, infelizmente, o jeito era viajar como Ferreira mesmo. Paciência.

    Aviso aos navegantes: eu adoro ser Leandro. Nunca quis ter outro nome. Até se voltasse em uma reencarnação, eu ia querer ser eu mesmo.

    Agora, se um desavisado me confundir com esse tal Ferreira e vier depositar um milhão de reais na minha conta, vou jurar, de pé junto, que sou o Ferreira. Fiquem avisados. Não devolvo. E pronto.

  • Só a bailarina que não tem

    Um dia desses, lendo uma crônica do Vinicius de Moraes — O estranho ofício de escrever — senti um alívio maior do que aquele que experimentava, na infância em colégio de freiras, ao sair do confessionário. Minha consciência, até então abalada pelos pecados veniais e mortais que vinha cometendo na escrita, se encheu de uma morna complacência. Afinal, se até Vinicius escorregava, por que não eu?

    Escrever, para mim, envolve uma dor de parto aguda e profunda. O texto vai vindo a cada contração e, por vezes, precisa da ajuda de fórceps para ganhar o mundo. Sempre acreditei que, como escritora, não era uma boa parideira.

    Lia os grandes cronistas e me encantava com a fluidez com que as palavras bailavam nas páginas: ora em plié, compondo sentidos flexíveis; ora em rond de jambe, mudando o rumo da narrativa; muitas vezes arrematadas com um inesperado grand jeté. Eu me consolava pensando que jamais havia treinado em sapatilha de ponta — requisito básico para integrar um corpo de baile como o daqueles escritores notáveis.

    Na tentativa de entender como se dava o processo criativo deles, resolvi bisbilhotar suas rotinas. Descobri um certo consenso: corpo em movimento, mente disciplinada, metas diárias e um caderno sempre à mão para capturar ideias fugidias. Adotei as caminhadas matinais e o inseparável caderninho — e continuei insegura. Meu relógio criativo insiste em funcionar à noite, e me permiti respeitá-lo, até porque método algum jamais garantiu inspiração. As crises criativas permaneceram, fiéis como velhas conhecidas.

    Foi então que me deparei com a confissão de Vinicius. Ele, Rubem Braga e Paulo Mendes Campos escreviam para diferentes jornais e, num aperto, Rubem pediu a Vinicius uma crônica emprestada. Veio A Sopa. Rubem fez pequenos ajustes e publicou. Tempos depois, foi Vinicius quem, sem texto novo para o dia seguinte, recorreu a Rubem — e recebeu de volta justamente A Sopa. Protestou, claro. Mas não era pobre soberbo. Remendou aqui e ali e publicou.

    Foi minha absolvição definitiva. Se até os grandes reciclavam crônicas em dias de penúria criativa, por que não eu?

    Lembrei então da Ciranda da Bailarina, de Chico Buarque e Edu Lobo:

    “Confessando bem, todo mundo faz pecado…
    Só a bailarina que não tem.”

    E só o escritor perfeito também não.

  • Uma crônica quase poesia

    Uma crônica leve bem leve. Uma crônica como se fosse um beijo. Isso. Como se fosse um beijo. Uma crônica limpa. Sem manchas de maldade ou de egoísmo.

    Ambição de conto? Nem pensar! Uma crônica suave e mansa. Dessas que o vento leva de tão leve e descontraída.

    Uma crônica bem medida de sol e mar e sal. Uma crônica desenhada e bem cuidada. Música ao fundo. Olhos de ressaca. Ressaca de mar que é pro Bruxo do Cosme Velho não ficar zangado.

    Uma crônica tão curtinha. Coitada! Não dá tempo de dizer um oi! Uma crônica assim bem simples deixando as coisas. Deixando tudo e todos. Uma crônica não para ficar intrigado e reflexivo. Não! Uma crônica para sorrir. Uma crônica para abraçar. Uma crônica para cheirar e apertar e acarinhar. Uma crônica leve, bem leve…

    Uma crônica de dezembro, voando no calendário já anunciando o Natal e o fim de mais um ano. Tudo passa tão rápido, não é? Imagina a crônica?

    Fica, então, esta crônica leve, ligeira, perfumada de palavras e mais palavras, quase poesia, quase nada…

  • A ordem é amar?

    O parlamento da Dinamarca aprovou, recentemente, uma lei que proíbe o acesso de menores de quinze anos às redes sociais. Com essa atitude, o governo determina que a relação dos seus cidadãos com as plataformas digitais transcende o escopo da educação familiar e se torna um problema de saúde pública.

    A Austrália também adotou medidas semelhantes. Contudo, por lá, a idade mínima para acesso será dezesseis anos. Outros países da Europa estudam seguir nessa mesma direção.

    O velho discurso de que as redes sociais são espaços que promovem liberdade de expressão, diversão e conexões sociais importantes não se sustenta mais diante do alarmante crescimento da dependência emocional e da ansiedade coletiva entre crianças e adolescentes. Muito embora alguns críticos chamem a lei de moralista e paternalista, a Dinamarca afirma não se tratar de censura, mas de regulação preventiva.

    O projeto se baseou numa estatística preocupante: os índices de depressão e ansiedade entre jovens dobraram nos últimos dez anos e não se pode ignorar a correlação entre esse fato e o tempo das telas.

    Para além da discussão sobre quem deve ter o poder de cuidar do bem-estar e da saúde mental das crianças e jovens, é absolutamente necessário

    refletir sobre a invasão que os espaços afetivos têm sofrido por parte dos eletrônicos, das redes sociais e plataformas digitais. Não temos como negar que, muitas vezes, negligenciamos as pessoas que amamos e, até mesmo, a nós mesmos e aos nossos objetivos e planos, seduzidos pelo vagar solitário e despretensioso nas redes.

    As crianças e os adolescentes denunciam sua dependência e adoecimento com sinais cotidianos, muitas vezes, naturalizados por nós, como por exemplo: crises coléricas ao não poder acessar o eletrônico, resistência e desinteresse em relação a qualquer outra atividade que não envolva o celular ou o game, agressividade e descontrole diante da frustração no jogo ou por impedimento de acesso, isolamento no quarto, afastamento do contato familiar, entre tantas outras coisas.

    Os adultos também já experimentam, de forma explícita, as consequências dessa relação desmedida com as redes sociais. Quem nunca sentiu inveja da felicidade alheia e fake postada nas redes? Todo dia, ali, na nossa frente, tem alguém que parece ser mais feliz, mais bem-sucedido, mais amado, mais elegante, mais sortudo do que nós. E pior, assistimos e aplaudimos a vida dos outros enquanto a nossa fica parada na mesma estação. As relações amorosas também têm sofrido com a soberania virtual. Já ouviram falar sobre phubbing? Não? Eu posso apostar que, em algum momento, vocês já o experimentaram de forma ativa ou passiva. Phubbing é o ato de ignorar uma pessoa ou situação social para prestar atenção ao celular. O resultado? Prejuízo da conexão e da intimidade e, consequentemente, distanciamento emocional.

    A situação é tão bizarra que, mesmo quando escrevemos, lemos ou conversamos sobre o assunto, ainda assim, somos capazes de praticar o “crime”.

    Como desarmar o feitiço?

    Algo me diz que a solução está na arte, na literatura, na música…

    Lembrei da letra: “Quando a luz dos olhos meus e a luz dos olhos teus decidem se encontrar… Meu amor, juro por Deus que a luz dos olhos seus vence o meu celular”.

  • Um tom diferente na tinta da retina

    No Renascimento foi inventada a sopa fortificante e restauradora, feita de carne de boi, carneiro e legumes, servida como refeição no século XVIII aos viajantes ou indivíduos extenuados, após um longo dia de trabalho. 

    Era servida nas estalagens, tabernas e hospedarias, e devido aos seus efeitos benéficos, ganhou o nome de restaurant.

    Esses lugares não entregavam refeições para quem batesse em suas portas, e não seguiam o conceito de apresentar um cardápio onde o cliente pudesse escolher o prato que desejasse, tinham apenas a sopa restauradora.

    O Sr. Boulanger (em francês, padeiro), ganhava a vida como vendedor destes caldos, e colocou uma placa com dizeres em latim em seu estabelecimento (Rue des Poulies, em Paris), que dizia o seguinte: 

    — “Vinde a mim, vocês que têm o estômago em penúria, e eu os restaurarei”. 

    Ele foi o primeiro a anunciar a venda destes caldos fortificantes, que recompunham a saúde de quem tinha problemas de digestão, e assim se deu a origem da palavra restaurante. 

    Este estabelecimento se firmou na França após a Revolução destituir a aristocracia, e deixar sem emprego um contingente de serviçais hábeis no trato com os alimentos. 

    Com a chegada de muitos provincianos à cidade, e ninguém para cozinhar para eles, surgiu a oportunidade da criação do hábito de fazer refeições fora de casa, dando início ao surgimento do restaurante. 

    Foi o La Grande Taverne de Londres, fundada em 1782, de propriedade do senhor Antoine Beauvilliers, onde foi criado o padrão do restaurante moderno, ao combinar 4 pré-requisitos essenciais: um salão elegante, garçons bem treinados, uma adega bem escolhida e uma cozinha requintada. 

    Uma evolução maravilhosa que veio ao encontro do prazer em reunir pessoas e celebrar a vida.

    Cardápios orientais, a comida do Mediterrâneo, os festivais gastronômicos pelo mundo, as sobremesas e os banquetes, tudo envolto ao prazer em desfrutar momentos da Dolce Vita. 

    Da necessidade à formação profissional, surgiram mestres da culinária que desenharam um novo rumo a uma especialidade repleta de particularidades, que agregam um pouco da cultura de cada povo onde nasceram.

    A rua dá um tom diferente na tinta da retina, que não encontramos em casa, e a necessária convivência com o mundo nos faz gente para podermos saber o que somos, e o que podemos ser para o outro.

  • O mar é logo ali

    Na semana passada, fui ao Rio de Janeiro para o lançamento do livro “A reinvenção da metáfora: as bodas de Rogério Salgado”, publicado pela Ventura Editora, com organização do poeta Luiz Otávio Oliani, e que tive o orgulho de apresentar na orelha.

    Enquanto estive no Rio, uma frase não saía do meu pensamento: “Poxa vida, o mar está tão perto, é logo ali.” O carioca vive tão perto do mar que, às vezes, parece fingir que não se dá conta, fingir que não liga, fingir que desdenha. Mas é tudo aparência.

    O mar, no Rio, é uma espécie de arranjador, um maestro que comanda a música que toma conta da cidade. Onde quer que você esteja, é o mar quem dita o ritmo.

    Ao andar pelo Rio, tenho sempre a sensação de que as pessoas estão, de alguma forma, sempre prontas para pegar uma praia. Se você duvida, eu te provo.

    Basta reparar — você, que mora longe da praia — como tudo é diferente em lugares como Belo Horizonte, onde eu moro. Quem vive longe do mar passa a vida vestido, e acha que precisa escolher roupa para tudo. O carioca, não. Porque o mar está logo ali.

    Percebi isso quando fui curtir a noite numa boate de Copacabana, na Rua Raul Pompéia. Na farra, o carioca raiz não liga para roupa: se quiser ir de jeans, camiseta e pochete, ele vai; se a mulher quiser ir com um conjunto monocromático, ou com um vestido, ela vai também. Maquiada ou de cara limpa, com batom ou sem batom — tanto faz. O mar está a poucos metros dali.

    Se quiser sair de madrugada da boate e pular no mar, pula. Antes do café da manhã, pula também. Por ser uma cidade com mar, o Rio está sempre mais interessado em tirar a sua roupa do que em te ver vestido. Você me entende.

    A vida na praia é diferente da vida longe dela, e, mesmo quando não é, ainda assim você vive envolvido por essa música invisível do mar.

    Se você conhece São Paulo, sabe que, em algumas casas noturnas, você não entra de bermuda. Assim que a recepcionista percebe o turista desavisado, logo aparece um ambulante oferecendo uma calça para alugar, com maquininha de cartão e Pix.

    Se você se senta numa lanchonete usando boné, é provável que alguém peça para você tirar. No Rio, isso seria impensável.

    Sou mineiro. Moro em Belo Horizonte. Estou acostumado à calça comprida, a ficar vestido o tempo todo, a escolher a melhor roupa para cada ocasião, a combinar cores, a tentar parecer mais bonito, ou até a aparentar uma condição social melhor do que realmente tenho. Quem é mineiro sabe.

    O carioca, não. Usa bermuda para quase tudo: ir à praia, ao banco, ao mercado. Só coloca calça quando realmente precisa: museu, missa, casamento, show, concerto. De resto, roupa de calor, só se for leve.

    Um executivo carioca faz cooper em Ipanema de bermuda, tênis, e sem camisa. A mulher carioca, quando sai da praia, coloca um short por cima do biquíni e uma camiseta para entrar numa loja ou num restaurante.

    Quer reconhecer um estrangeiro em Ipanema? Olhe o Posto 9: é o cara de bermuda, camisa com a manga dobrada, e tênis. A estrangeira é a que veste uma bata por cima do biquíni, usa um chapéu Panamá, e óculos escuros.

    Tudo isso porque o mar é o maestro. Criou a música silenciosa que envolve o Rio, e a coreografia que encanta meus olhos de cronista.

    Mas eu fui mesmo para o lançamento da antologia dos melhores poemas de Rogério Salgado. Fui comemorar os 50 anos desse poeta mineiro radicado no Rio — e aproveitei para bater perna, confesso.

    No evento, na Lapa, pouca gente emperequetada além do necessário. Homens de bermuda, chapéu, camiseta floral, jeans, tênis. É impossível não notar o quanto o mar influenciava tudo aquilo: era uma música silenciosa, um poema, uma liberdade.

    Nem todo carioca gosta de mar, eu sei, mas, no fundo, eles sabem que é o mar quem manda — e nós obedecemos.

    Mesmo quem está no Rio só a passeio acaba entrando na atmosfera carioca. Ganha, sem perceber, uma pequena alminha carioca.

    Com o tempo, você passa a achar uma Havaiana mais charmosa que qualquer tênis caro; anda sem camisa; toma sol; percebe que cada corpo é único, quando está à vontade. O executivo troca o terno pela bermuda; a turista descobre que só precisa de um vestido para tudo.

    Quanto mais tempo você passa no Rio, mais carioca você fica. Gosta de mate, de biscoito Globo, de sorvete de pistache, de samba. Aprende as delícias de andar descalço, de entrar no mar, de esquecer da vida.

    Por isso, estou sempre arrumando uma desculpa para fugir para o Rio. Porque, ali, o mar está sempre por perto — e, acredite, isso faz toda a diferença.

  • Obscuros

    No dia seguinte à festinha de lançamento do primeiro single da banda Hollow Clowns, Zími ficou sabendo por redes sociais que Samir, baterista da banda, havia morrido por overdose de cocaína.

    Era considerado grande baterista, pela força, influência e domínio técnico do instrumento.

    Samir tocava numa banda de punk rock, mas poderia tocar numa banda de rock progressivo.  

    Ele tinha trinta e oito anos.

    Samir era discreto e aparentava ter boa saúde, o que potencializou o impacto de sua partida.

    Foi apenas nesse momento, após uma sucessão de bizarrices na vida pessoal de Zími, e também no cenário mundial, que uma depressão se abateu sobre ele.

    Sabendo que é impossível se manter animado o tempo todo, Zími considera que o mercado motivacional vende uma farsa, e não uma utopia.

    Ele era movido por certas utopias, com ideais muito mais nobres do que tentar mudar essa característica comportamental humana.

    Quando acordava em frangalhos, o resto do mundo continuava funcionando da mesma maneira débil e acelerada em direção a um penhasco que se aproxima assustadoramente enquanto o rebanho humano devora a si mesmo para cumprir metas que enriquecem os verdadeiros patrões, ausentes da feiura cotidiana das cidades.  

    Muitas vezes estão, em plena terça-feira à tarde, em suas lanchas cheias de putas e garrafas de uísque, lamentando com razão a finitude de suas vidas.

    Eles têm alguns bonecos remunerados para dar as ordens e que são chamados de chefes, e que muitas vezes também são escravos.  

    Estão, no entanto, hierarquicamente acima do grande rebanho, cuja diferença em relação ao período oficial de escravidão está apenas nos nomes pelos quais são chamadas as respectivas condições, assim como o percentual de pessoas escravizadas, muitas das quais nem ao menos se dão conta disso.

    Muitos, inclusive gostam e agradecem a esse modelo contemporâneo de escravidão.

    Os bonecos acima deles servem de modelo para a massa, determinando o que vulgar e popularmente se chama de ‘vencer na vida’.

    Mas os capitães do mato, os feitores, as senzalas e as casas grandes também continuam presentes, com outros nomes.  

    O fato de noventa e oito por cento da população é composta por escravos, dando à massa uma impressão de nivelamento, ainda que sejam nivelados no fundo de um poço frio, sujo e úmido.

    O rebanho humano é passivo apenas na relação com esses patrões, mas é bastante selvagem e agressivo na relação com seus semelhantes, que na melhor das hipóteses acordam às cinco da manhã, enfrentam a saga do transporte público, depois cumprem as metas, voltam para casa enfrentando novamente o trânsito dentro de ônibus e vagões de metrô lotados, chegando em casa com a energia vital sugada, e às vezes até agradecem pelo dia.

    Essa massa anônima que devora a si mesma perece e é substituída facilmente, pois na fila por uma ‘oportunidade’ há milhões de desesperados.

    E Zími não escapará vivo dessa desgraça, pois não espera por uma vida melhor após a morte, despreza pastores picaretas que vendem terrenos no céu e exploram o rebanho através do medo.

    E as escolas sucateadas continuam a formar analfabetos que saem dali sem ler, escrever ou fazer contas, prontos para serem esmagados pela grande máquina de moer carne.

    Zími fez faculdade de Jornalismo e ali só recordou que está na mesma cilada que seus semelhantes, e essa consciência lhe serve apenas para tentar um caminho menos tortuoso, permeado pela arte, especialmente música e literatura, com predileção por gêneros que esclarecem essa condição humana precária.

    O suicídio não é solução para ele, pois sabe que a vida dará conta facilmente de matá-lo, e ele quer ver até onde consegue chegar vivo, e ver até que ponto as coisas podem chegar, e talvez presenciar o fim de toda essa farsa, por meio de uma iminente hecatombe.

    Sua fé e esperança consistem em viver até que isso aconteça, para que finalmente, pelo menos por um momento, sejamos todos iguais e nas mesmas condições.

    Zími considerava repugnante o fato de ter sido gerado, e consequentemente não teve filhos, o que o ajudava a lidar com tanta desgraça.

    Sabendo que a vida em si não tem sentido algum a ser descoberto filosoficamente, ele procurava dar a ela esse sentido.

    Ele trabalhava em casa, não enfrentava trânsito, nem chefes, nem colegas de trabalho.

    Sabia que era pobre, mas pagava aluguel, comprava comida e ia ao cinema.

    Podia viajar, porque tinha uma banda, o duo Crop Circles, que ia de chevette pelo interior para shows pequenos, em troca de cerveja e gasolina, e onde podiam vender algum merchandise, para pagar pela comida ao longo do rolê.

    Mila Cox era a parceira musical de Zími no projeto, e também sobrinha de Samir.

    Zími recebeu a notícia da morte de Samir e ainda não sabia como Cox havia reagido ao fato. 

    Sabia apenas que a partir de então, era mais importante do que nunca levar o projeto adiante.

    Conseguiam vender os cd’s e camisetas que levavam, o que parecia um sinal de aprovação por parte do público, embora durante as apresentações houvesse um silêncio causado por um misto de curiosidade e perplexidade, sem nenhum murmúrio de aprovação ou dissidência.

    Muitas vezes, nessas viagens, dormiam no carro, desde que arrumassem algum lugar para cagar e tomar banho.

    Não raro, o público era composto por gente que nunca viu uma guitarra na vida.

    Nos shows da banda eles continuavam ser ver guitarra, pois a banda era composta por ele na bateria e Mila Cox no baixo, no Moog e no sintetizador.

    Na fase embrionária da banda, tentaram vários guitarristas, mas por considerarem que todos pecavam pelo ego inflado, adaptaram o som para que a guitarra fosse substituída por efeitos sonoros do Moog.

    Seus temas eram destruição em massa, apocalipse, extinção, dor e o circo de horrores do cenário político, com letras minimalistas entre ruídos aparentemente aleatórios.

    Ele morava no centro de São Paulo, tinha uma bicicleta e além de trabalhos acadêmicos que fazia para os outros em troca de algum dinheiro, também comprava, trocava e vendia livros.

    Revoltava-se contra a arquitetura urbana da região em que morava, pois esta é bastante hostil para pessoas em condição de rua, que em número cada vez maior, ocupavam a região do centro.

    Era muito mais velho que Mila Cox, que nasceu no século vinte e um e usava a tecnologia que tinha disponível para fazer música, gravá-la e distribuí-la partir de um computador.

    Ela era copywriter e ainda nem sabia se cursaria alguma faculdade ou não. Morava com a avó no bairro da Penha, e fazia cookies de aveia e chocolate amargo nas horas vagas.

    Gostavam de Alex Chilton e Leonard Cohen, mas faziam um som completamente diferente desses artistas, que embora atemporais, não se enquadravam na realidade com a qual tinham que conviver, seja na vida prática do cotidiano ou na parte artística de suas existências.

    Tinham grande paixão pelos discos gravados entre 1966 e 1972 pelos Beach Boys.

    Álbuns que nunca são lembrados e permanecem quase obscuros, apesar da beleza das composições. 

    Essa quase obscuridade dentro da obra de uma banda famosa talvez seja uma das razões para o culto por parte deles.

    Para Zími, Mila Cox era uma espécie de Laurie Anderson. Para ela,  Zími era uma espécie de Slim Jim Phantom.

    Ela usava redes sociais para divulgar a banda e marcar shows, principalmente em cidades pequenas, e ele, que tinha grande desprezo pelas redes, tinha como foto de perfil uma 3×4 em que aparece com uma batata frita enfiada na narina esquerda.

    Zími agora estava preocupado com Mila Cox por causa da morte de Samir, e esperou que ela o procurasse para se manifestar, enquanto fazia a letra de uma música em homenagem ao amigo. 

  • Caos contraproducente

    Cheira à baunilha. Há banana e aveia em formato de osso e olhos ainda vacilantes e resistentes aos raios dominicais.

    Uma miríade de folhas, bocejos e pelos esparrama-se sobre o sofá-cama amarrotado pelas horas adormecidas. O sábado à noite fora um misto de contagem e revolta; em meio à desordem em percentual crescente do que também pode ser um ramo de gravetos1 , o caos é quase palpável. Percebi, ao procurar o volume no topo de rol das minhas leituras que, em dois mil e vinte e cinco, entre presentes e aquisições, cinquenta e oito novos livros passaram a habitar meu universo – fora aqueles que residem, do outro lado da rua de pedestres, com a minha mãe. Em meio a manuais de plantas nativas, guias
    arquitetônicos cariocas, história da arte, coletâneas de crônicas com dedicatórias de pares meus, ficções baseadas em fatos históricos reais, clássicos que ainda não conhecia intimamente, uma linda e antiga coleção em capa dura com detalhes em folha de ouro sobre o tempo perdido, livro em inglês sobre urbanismo contemporâneo, livros sobre os fins dos tempos, sobre design como atitude, sobre livros…Romances ocidentais repousam, à espreita: eis um autor japonês misterioso, como convém, a descrever plantas arquitetônicas que tramam estórias de terror; um outro, coreano, volume segundo, vem escoltado por uma promessa contemporânea tão minha e tão patética: uma bebida comprada pela Amazon que, citada no livro um, é destinada a degustação da continuação da narrativa, ambos ainda lacrados, no aguardo de uma experiência literária completa. Sobre ser antifrágil, sobre o ego ser o seu inimigo, sobre arquitetos conhecidos e apresentados através de disciplinas online da USP, livros sobre como viver em um mundo com participação do coletivo, sobre assassinato na Casa Branca – uma dupla literária que inspirou o homônimo na Netflix: recomendo se, por acaso, você deseja rechear seu domingo de mistério, inteligência e humor -, o quarto livro para se ler antes que o café esfrie, a coleção de xícaras sempre de prontidão no armário superior da cozinha. Em meio ao feliz espanto, a média aritmética do investimento de alguns mil reais em trezentos e sessenta e cinco dias, afirmo, categórica:

    Um lugar sem livros e vestígios de cachorro não é um ambiente feliz, sequer saudável.

    Sequer humano.

    O incenso continua consumindo-se a si mesmo para perfumar de baunilha a loucura mansa deste domingo. Mesmo após o sono,“O fim dos sussurros” não cessa; ecoa pela casa a ausência das páginas não lidas. Hoje, sete de dezembro, em Bucareste, romenos vão às ruas para eleger o novo prefeito da capital. A vacância do cargo deu-se pela assunção do antigo líder citadino, Nicușor Daniel Dan, como dirigente da nação. Ruta Sepetys, que eu conhecera em plena Novo Rio na noite da segunda-feira última, ao fechar da livraria sem limitações de paredes, em meio ao saguão, contara-me sobre um menino que, sem poder algum de escolha, tornara-se um informante do regime comunista na Bucareste da década de oitenta. Traidor por imposição, o adjetivo sussurrante rendia-lhe algumas regalias, como remédios para o câncer de seu “bunu” (“avô”, em romeno; que palavrinha fofa!). A falta de luz, comida, esperança e cor – tudo tinha tons de cinza, relatava-me Ruta – impunha a ironia como traço cultural de resistência. Tudo se mistura agora ao apartamento repleto de livros e bolas de pelo do meu spitz alemão em que estávamos no início do texto, quando o menino descobre que há bananas – dezenas -, em cima da bancada de uma cozinha norte americana. Ele, que desejava ardentemente uma única banana, contrapõe-se aos biscoitos de banana e aveia do Zeca, o spitz brasileiro, que brinca de mastigar um e outro em formato de osso. Enquanto em Bucareste os romenos vão às urnas exibir seu poder de escolha conquistado a muitas perdas e desolação, eu procuro meu livro que se perdeu ou no carro de aplicativo que me trouxera do pet shop, ou no próprio pet shop, que hoje está fechado, ou dentro da minha casa repleta de livros. Procurei até nos dicionários que estavam vacilantes de suas funções numa prateleira dentro do armário do quarto das visitas. A xícara de café espera impaciente na cozinha. Zeca me observa desejoso de rua. Eu penso no livro que está pela metade, perdido de mim e eu dele. É domingo. Em Bucareste, um novo prefeito será sancionado. Na Bucareste das páginas em sussurro, isso parece impraticável.

    1. desafio dominical:sacuda a poeira – metafórica ou literalmente, você escolhe – e folheie as páginas provavelmente amareladas e puídas do seu dicionário (se ainda houver um sobrevivente em sua honrada residência, no caso) em busca do termo que nomeia um modesto ramo de gravetos. Recorrer a Alexa, ao Google ou qualquer IA, será, além de covardia, contraproducente; o analógico anda pedindo migalhas de atenção, um gesto de misericórdia, então… vamos lá!

      PS.: aos preguiçosos de plantão, àqueles que preferem tudo mastigado, aviso que a resposta repousa na imagem desta crônica. ↩︎
  • A Leoa e o menino

    O menino sonha os seus sonhos de menino. Voar, cantar, adestrar leões!

    A leoa faz o que uma leoa sabe fazer, observar atentamente e esperar o momento certo para atacar, afinal, o que um leão faz de melhor a não ser atacar com precisão a sua presa?

    O menino foi esquecido pelo tempo, pelo relógio e pelos olhares. O menino esqueceu-se de si mesmo…

    Solto nas ruas, fechou-se em si mesmo nos seus sonhos e nos seus devaneios.

    A leoa treina e treina cada pulo, cada salto mais alto, observando e aprimorando.

    Afinal, é da natureza dos leões pular e saltar e aprimorar…

    O menino, ignorado pelos homens, refugiou-se em suas fantasias e pôs-se a acreditar que seria um treinador de leões! E treinadores de leões precisam treinar… leões!

    Quis os descaminhos da vida que o menino e a leoa se encontrassem em um zoológico.

    Quis os descaminhos da vida que a leoa e o menino ficassem frente a frente.

    O menino, como que no delírio do artista, se jogou na jaula num voo acrobático e a leoa, por sua vez, já experiente no seu senso de observação e paciência, só esperou o tempo certo e necessário para derrubar o menino.

    O menino, derrubado pela leoa, já não era mais menino… era pó, vento, pensamento distante.

    No entanto, para a grande perplexidade dos que vivem na cidade, o menino já havia sido derrubado bem antes.

    Pelo descaso, pelo abandono, pelas tristes e constantes adversidades da vida.

    O menino foi lançado aos leões, mas não aos leões de fato…

    Leões da covardia, da omissão, da sistemática corrupção, do preconceito, da solidão…

    A leoa, que não tem culpa de nada, presa também pelo insensato homo sapiens, segue sua curta vida enjaulada, como se criminosa fosse!

    Outros meninos entram também em jaulas todos os dias, mas simplesmente não olhamos…

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