A sala de aula, em algum momento, ficará vazia. Quando isso ocorrer, morrerá um país…
A história do professor no Brasil é feita de desistências e permanências cotidianas.
Desistências que fazem parte do diário, do quadro e do boletim. Permanências que fazem parte do olhar, do sentir e do fazer…
Desisto de ser professor toda vez que as planilhas e plataformas me dão mais retrabalho e acúmulo de coisas e mais cobranças, tirando mais o meu tempo e me distanciando do trabalho real.
Permaneço como professor pela responsabilidade com os meus alunos que ainda querem alguma coisa, por ainda acreditar no impossível e, sim, para pagar as minhas contas.
Desisto de ser professor toda vez que a frase de Darcy Ribeiro reverbera fazendo um sentido cru e verdadeiro: a crise da educação não é crise, é um projeto… Projeto de politicagens, de pessoas que não têm o menor interesse na educação.
Permaneço como professor quando é possível ver o brilho nos olhos de alguns estudantes, nas perguntas, nos trabalhos, nos projetos, na curiosidade tão própria de quem é jovem.
Desisto de ser professor toda vez que metas absurdas são impostas e ignoram a realidade de cada escola. Os tecnocratas sempre se esquecem, propositadamente ou não, do chamado chão da escola, das complexidades e singularidades de cada lugar.
Permaneço como professor como uma voz no deserto. Ensinando, corrigindo, explicando, ouvindo e fazendo o que precisa ser feito. Alguém tem que fazer.
Desisto de ser professor quando, a cada ano, as salas ficam mais e mais superlotadas, o salário sempre defasado, as múltiplas e intermináveis tarefas e atividades sem sentido e a inclusão de fachada que só coloca mais trabalho e mais burocracia nos ombros do professor.
Depois de tantos e tantos anos, enganos e desenganos da profissão, eu desisto pelo prazo de validade inerente ao tempo. Mas não é só a validade! Todos os problemas vão para a escola! A escola se transformou em hospital, delegacia, território inóspito, depósito de gente… A distância entre o mundo virtual e descaracterizado e o mundo real e suas desigualdades é cada vez maior. E essa distância tem afetado a escola de maneira brutal.
Depois de tantos e tantos anos, projetos e planos, permaneço porque permanecer é resistir e lutar. Resistir contra um sistema que joga contra o tempo inteiro. Lutar porque é da natureza de quem vive.
Luta-se por amor, por crer, por ser, simplesmente.
Isso ainda nos faz humanos. E ser humano é fator condicionante na profissão. Quando se perde a humanidade, já não há mais nada a fazer…
Segundo estudos mais recentes sobre educação, haverá um apagão de professores para as próximas décadas. Desvalorização da carreira, baixos salários, violência e precariedade na infraestrutura criam o cenário do caos.
Para completar o quadro, o desinteresse pela área aumentou consideravelmente, aliado ao alto índice de afastamentos por razões de saúde mental e o envelhecimento da categoria, ou seja, o que está por vir é catastrófico.
Isso, por si só, é já uma tragédia, mas as tragédias brasileiras se acumulam com o número assustador de analfabetos funcionais, com a violência de todos os tipos e com os espaços educacionais servindo de para-raios.
A culpa, de acordo com os entendidos de plantão, é sempre da escola.
Entre desistências e permanências, o professor brasileiro vai se desfazendo, esvaziando-se de si mesmo pouco a pouco até entrar no modo automático e vislumbrar a aposentadoria…
Entre desistências e permanências, o professor brasileiro inventa e se reinventa a todo tempo, atravessa rios e pontes, usa um pedaço de madeira como quadro, encoraja meninos e meninas a pensar nos vários cantões do país…
Até quando?