Domingo

  • A lágrima extra

    O dia prometia ser quente e úmido — combinação ideal para cabelos rebelados e para quem trabalha imóvel ao ar livre. Depois de entregar o filho à vizinha que o levaria à creche, voltou ao seu reino: um quarto-cozinha-banheiro, tudo no mesmo perímetro afetivo.

    Abriu o velho armário que rangia como se quisesse dar opinião. De lá tirou seu uniforme de batalha: camisa preta com gravata borboleta, colete branco, calças bufantes que herdara de algum século passado, meias brancas e sapatos pretos tão lustrados que poderiam servir de espelho, se não fosse ele já ter um.

    No espelho, iniciou o ritual. Espalhou a base branca, delineou os olhos caídos — reflexo do estado civil com o sono — e arqueou as sobrancelhas como quem diz “não fui eu”. Demarcou o sorriso e, por fim, a lágrima no canto esquerdo, que sempre julgou exagerada, mas o público adorava um dramalhão. Vestiu as luvas, ajeitou a boina e testou o sorriso congelado. Parecia irreconhecível. E ligeiramente ridículo. Perfeito.

    Desceu pela ladeira até o parque municipal, seu escritório a céu aberto. Ali ficava por horas, imóvel, trocando de pose apenas para evitar virar uma estátua de sal. Ganhar dinheiro era quase um milagre; mas, com sorte, rendia legumes, arroz e, quando a semana era boa, até um iogurte para o filho.

    O público passava, ria, deixava moedas. Ele reconhecia cada reação: o adulto curioso, a criança encantada, o adolescente que tentava fazê-lo piscar. Em suas poses — a mão ao céu, a cara de susto, o herói carregando o mundo — havia mais ciática que simbolismo, mas ninguém precisava saber disso.

    Estava justamente no papel de Atlas contemporâneo quando ouviu uma voz conhecida. Congelou ainda mais do que a profissão exigia. Um grupo de crianças da creche vinha em direção a ele. No meio delas, seu filho.

    Ótimo. Justo hoje que o suor ameaçava soltar a maquiagem e revelar que o palhaço, na verdade, precisava urgentemente de um ventilador e não de aplausos.

    As crianças o cercaram, rindo e rodopiando, como se ele fosse um planetário com pernas. O pânico subia como a maré. Se a base branca derretesse, fim do mistério.

    Seu filho parou bem diante dele, apertando os olhos como quem tenta decifrar um código secreto.

    — Professora… por que o palhaço está chorando?

    Ele prendeu a respiração.

    — Sabe, meu pai tem um trabalho sério — mas lá em casa ele gosta de fazer palhaçada pra mim.

    A gente ri um montão. Mas ele nunca chora…

    E ali ficou o palhaço: imóvel, suando, com a lágrima oficial pintada e outra teimando em escorrer, tentando decidir qual delas era a mais difícil de explicar.

  • A fome

    Uma mão vasculha alguma coisa que se possa comer no meio do papel, do plástico…

    Outra mão manuseia as teclas de um computador em um lugar distante e escreve este texto…

    Alguns olhos procuram nas calçadas e nas caçambas de lixo um alimento qualquer…

    Em uma esquina de uma grande cidade, outros olhos observam o espetáculo de luzes e imagens nos telões expostos na avenida.

    Como podemos viver, ao mesmo tempo, tantos avanços tecnológicos e ainda presenciarmos a fome?

    Carros elétricos, robôs, cirurgias a distância, redes sociais, mas há gente passando fome.

    O ser humano já foi à lua (mesmo que haja gente que não acredite), mas não resolvemos a fome do outro.

    O ser humano faz foguetes, pontes, edifícios gigantescos… Perfura o fundo dos oceanos em busca de petróleo, cria satélites e uma estação espacial, mas a fome, a fome de doer a barriga e tirar a dignidade, nunca é resolvida!

    É sintomático perceber que a ganância e a perversidade vão construindo o painel do paradoxo: luxo e lixo, vida e morte, paz e guerra… Indissociáveis? Maquiavelicamente indissociáveis…

    A fome desfigura as pessoas, tornando-as objetos das cidades. Estes seres, carregados de esquecimento, tristeza e fuligem, transitam pelas ruas atônitos, perdidos dentro da própria fome…

    E sente fome a criança que equilibra bolas em um sinal.

    E sente fome a mãe que não tem trabalho, mas precisa alimentar desesperadamente o seu filho.

    E sentem fome centenas de milhares de homens sem nome, uma legião de espantalhos vivos espalhados pelo mundo…

    Fazemos planos mirabolantes, erguemos cidades inteiras no meio do deserto, desenvolvemos mais e mais ferramentas para facilitar as demandas do dia a dia, mas a fome, bruta, pesada, palpável… a fome, continua…

    Ao redor do globo, toneladas e toneladas de comida são jogadas fora.

    A fome, implacável, escancara um mundo difuso e contraditório.

    E esta crônica se encerra com o silêncio…

  • Uma Crônica Canina – parte 3

    Um é obediente, calmo, regrado, um gentleman.

    A outra é impulsiva, agitada, desobediente, uma doida…

    Um é devagar, sonolento, brincalhão.

    A outra é rápida em tudo e uma excelente saltadora! Parece um canguru!

    Ambos são carinhosos e demonstram uma lealdade sem igual!

    Para fechar a sequência dessas crônicas caninas, não poderia deixar de falar dos meus cães! Todd, um golden retriever, e Chiara, uma vira-lata de dar nó em pingo d´água!

    Todd vem de uma linhagem de nobres e educados cães das montanhas friburguenses.

    Chiara veio de uma feira de adoção que o meu filho insistiu duzentas vezes para que eu ficasse. Detalhe: eu morava em um apartamento e, a julgar pelo tamanho do filhote que ele me apresentou, parecia que eu estava prestes a adotar um rottweiler

    É difícil adequar um espaço pequeno e um cão grande ou médio! Pelo menos pra mim! E assim foi a aventura de ter mais uma vez um cachorro em casa!

    Chinelos e móveis mordidos, pé em cocô, reclamações dos vizinhos… Enfim, uma loucura só! Até que conseguimos nos mudar para uma casa e o tão sonhado quintal!

    Pronto! Agora podíamos ficar com os dois cães!

    Outro detalhe: Todd tem guarda compartilhada! Ele fica um período comigo e depois volta para Friburgo na casa dos meus sogros!

    Todd fica dentro de casa! Chiara fica fora! Todd pede para ir ao banheiro! Chiara não precisa pedir! Todd passa quase o dia todo dormindo! Chiara passa quase o dia todo correndo e latindo para o nada!

    E você pode me perguntar: como eles conseguem ficar juntos? Eles ficam! E se respeitam quase sempre!

    Passeiam muitas vezes juntos. Se alguém estiver com algum alimento na mão (não importa o que seja), os dois vão abrir bem os olhos! Os dois vão ficar olhando até você dar um pedaço (ou não)!

    Todd tem uma mansidão quase budista. Chiara parece em ebulição!

    Mas o curioso disso tudo é ver que, mesmo tão diferentes, possuem a graça e a simplicidade que todo cão tem!

    Hoje, entre latidos e muitos pelos, vejo que a felicidade está realmente nas pequenas coisas…

    Termino esta sequência de crônicas caninas com a certeza de que os cães sabem mais da vida do que nós…

  • Therian: Espanto no Parque

    Semana passada, no parque, me deparei com um grupinho de adolescentes usando máscaras de felinos. Saltavam, subiam em troncos, miavam uns para os outros.

    A princípio, achei que fosse ensaio da escola — alguma versão alternativa de Cats, quem sabe. Mas logo vi que não era teatro. Eles se enroscavam nas árvores, ronronavam e se olhavam com uma intensidade… estranha.

    Curiosa — ou ligeiramente assustada — abordei um garoto que ria da cena. — Isso aí? Therian. São assim mesmo. Uns doidinhos.

    Therian? Fingi que entendi, mas corri pro Google assim que cheguei em casa. E lá estava: Therians são pessoas que se identificam com um animal. De verdade. Lobo, gato, corvo. Nada de dragão ou sereia.

    Descobri que não é fantasia, nem seita, nem performance artística. Eles dizem sentir a alma animal dentro de si. Alguns uivam, outros arranham. E muitos usam orelhas, caudas falsas, ou simplesmente se comportam como bichos — por dentro e por fora.

    A coisa foi ficando mais curiosa. Lembrei dos antigos rituais com máscaras de animais — os xamãs, os espíritos-guia, os totens. Mas ali havia uma diferença: no xamanismo, o animal é um visitante. No therianismo, ele é morador fixo.

    Fiquei pensando se estamos voltando a algo ancestral ou avançando para algo ainda mais estranho. Seria isso um eco das florestas ou só mais um produto do Second Life, dos avatares e da vida líquida?

    Segundo meu oráculo moderno (vulgo GPT), existem entre 100 mil e 250 mil Therians no mundo. No Brasil, estima-se de 3 a 10 mil. Ou seja: se você vir alguém farejando uma árvore, talvez seja só um adolescente em fase de descoberta…

    É ou não pra deixar as orelhas em pé?

  • Presença de Espírito: Pena que Não Vem com Manual

    Sabe aquela habilidade de reagir rápido, com graça, esperteza e a frase perfeita? Pois é… não veio no meu pacote. Diante de situações inesperadas, viro uma estátua com sorriso de paisagem. Meia hora depois, claro, surgem respostas brilhantes — todas atrasadas, todas inúteis. E eu fico furiosa comigo mesma.

    Por isso admiro profundamente quem tem presença de espírito. Aquela gente que rebate na hora, cria na hora, brilha na hora. E dois casos sempre me vêm à mente.

    O primeiro é de um político das antigas, mestre em se safar de qualquer saia-justa — e com memória prodigiosa (ou assessores eficientes soprando nomes). Em um evento, aproximou-se um sujeito que a equipe rapidamente identificou como “filho de fulano”. O político abriu um sorriso:

    — Que prazer em vê-lo! Como vai seu pai, o nobre…?

    — Deputado… meu pai morreu há cinco anos!

    Ele nem piscou:

    — Morreu pra você, filho ingrato! Para mim segue vivíssimo na lembrança.

    Sério, quem pensa tão rápido? Outro exemplo é de uma conhecida que recebeu aquele clássico telefonema do “sequestro da filha”. Sem perder o fôlego — nem a fé — ela respondeu:

    — Irmão, não tenho dinheiro nem filha! Sou irmã de caridade. Largue essa vida, venha para o bem, vamos orar juntos.

    Bip bip. Golpista convertido ou, no mínimo, arrependido.

    E aí fico pensando: o que esse povo tem que eu não tenho? Fui atrás de explicações sérias.

    Resumindo o que aprendi: algumas pessoas conseguem aproveitar o microsegundo entre ouvir e responder para inventar alternativas inesperadas. É o tal do pensamento “fora da caixa”, que não se contenta com o óbvio e prefere o caminho criativo — às vezes absurdo, às vezes genial.

    Ou seja: quem tem presença de espírito escolhe se divertir com a própria inteligência.

    No fim das contas, presença de espírito é isso: um talento raro, quase uma arte marcial da criatividade. Alguns já nascem com cinturão preto. Eu, por enquanto, sigo no nível iniciante — procurando o tal manual que ninguém escreveu, mas que bem poderia existir. Até lá, sigo treinando. Vai que um dia o timing e eu finalmente combinamos um encontro. No caso deles… fazendo acrobacias. No meu, talvez só uma caminhada leve. Mas seguimos tentando.

  • Uma Crônica Canina – Parte 2

    Bem, voltamos ao tema! Voltamos às quatro patas!

    Na última crônica escrita, a primeira crônica canina, eu falei um pouco das minhas experiências com cães: Apolo e Baggio. Um vira-lata e um setter irlandês!

    Depois que Baggio partiu (dezessete anos de muitas brincadeiras), meus pais relutaram bastante em ter um novo cão. A fala que ambos sempre diziam: a gente se apega muito a eles!

    No entanto, minha irmã… Aqui eu preciso abrir um parágrafo para falar da minha irmã. Sabe aquela pessoa que simplesmente ama cães? Pois é… Minha irmã, se pudesse, levaria para casa todos os cachorros que porventura encontrasse na rua. Uma cara de pidão e um rabo abanando seriam o suficiente!

    Parágrafo escrito. Continuemos…

    Meus pais não conseguiram manter a promessa de não ter outro cachorro.  Minha irmã levou para eles um cocker spaniel comedor de melão: Thor!

    Pense em um cão super carinhoso e que não desgruda de você por nada… Pensou? Thor é exatamente assim! Pense em um cão mimado, dengoso, metódico e cheio de manias… Pensou? Thor é exatamente assim!

    Thor vai receber você com uma cara de quem não recebe atenção de ninguém!

    Thor obriga o meu pai ou a minha mãe (depende de quem esteja na cozinha) a ir para a varanda metodicamente após o café!

    Se você estiver com uma fatia de melão nas mãos, vai observar que os olhos de Thor se abrem de maneira expressiva e sobrenatural! Melão acima de tudo!

    Mas brincadeiras à parte, o que sei é que Thor tem alegrado a vida dos meus pais já idosos.

    Um cão é companhia, leveza, cumplicidade e o clichê de todos os que possuem um amigo peludo: um amor incondicional!

    Thor é já um senhor. No acumulado dos seus pelos brancos, ainda corre atrás das coisas e pede carinho a quem quer que chegue!

    Penso em todos os momentos bons que um cão pode nos dar e Thor tem feito um excelente trabalho!

    Bem… ainda falta falar de uma dupla que parece óleo e água, mas isso fica para a última crônica…

  • Uma pitada de sal, não basta

    É notório o saber de que o sal, numa casa, nunca acaba. O “nunca”, aqui, refere-se a um tempo deveras alongado. Em uso mais direto da nossa língua coloquial, eis o papo reto:

    quando o sal acaba, meu amigo… tu tá com um pepinão para descascar.

    Ninguém pede sal ao vizinho — pede-se açúcar. Sal é usado aos poucos; “pitadas” são suas medidas em praticamente todas as receitas. Já o açúcar costuma ser contabilizado em quantidades de xícaras. Saquinhos ou caixas de sal duram meses, anoS, até, dependendo do número de moradores em uma casa; os açúcares, por sua vez, persistem semanas — ou um amontoado delas, o que não se compara aos
    meses salíneos.

    Em restaurantes geralmente temos acesso a um sachê com 0,8 a 1 g de sal, medida individual que, não raro, dividimos com quem senta à mesa. O sachê do cafézinho pós-almoço — aquele gole fumegante e escuro que sela a refeição — vem com 5 g.

    Para muitos, um só não basta.

    Eu, desde que moro nesta casa, há quase cinco anos, comprei três sacos de sal — sendo o terceiro nesta semana. Um deles, coitado, tinha apenas 250g. O primeiro durou mais do que o meu primeiro casamento. Achei significativo. E bastante explicativo.

    Nemini fidas, nisi cum quo prius modium salis absumpseris.

    Não confies em alguém antes de terem comido juntos um alqueire de sal.

    Não sei quem disse isso primeiro, nem quem me soprou o mesmo conselho em versão coloquial — talvez alguém, talvez ninguém, talvez os livros, talvez a vida. A versão romana do adágio, compilada por Erasmo de Rotterdam em 1500 (o mesmo ano em que o Brasil foi avistado pelas caravelas de Pedro Álvares Cabral), traz uma receita com a medida exata para conhecer, de fato, alguém: um alqueire.

    À época, o alqueire romano (modius) era uma medida de volume — cerca de 9 litros. 9L equivale a algo próximo de 10 kg. O suficiente, convenhamos, para temperar uma vida inteira a dois… não acha? Já no Brasil, o alqueire virou território, variando de acordo com sua localização, que ainda não era estadual:

     Alqueire mineiro: ~48.400 m²
     Alqueire paulista: ~24.200 m²
     Alqueire baiano: ~96.800 m²

    Não se pode transformar metros quadrados em quilos. Mas a máxima permanece: é a verdade travestida de conselho muito, muito sábio. Sal pode ser sinônimo de tempo.

    Tomemos o dito refinado e coloquemo-lo dentro de um suporte aparentemente sem emendas: duas estruturas translúcidas nas extremidades, em forma de bulbo, ou meia esfera, unidas por uma cintura alongada. Não há quinas; trata-se de curvas contínuas, uma unidade em si mesma. Se inserirmos 1 modius de sal nesse corpo de vidro e calibrarmos o ritmo de sua queda até o equivalente em pitadas, eis aí os 10 kg que nos acompanharão por toda uma vida.

    Que bonito seria recebermos, ao conhecer alguém pela primeira vez — ou como presente de casamento — não flores ou alianças, mas uma ampulheta de 10 kg de sal.

    E víssemos, no cair sutil do tempo, quanto duraria aquilo que julgamos conhecer do outro… É na delicadeza desse escorrer que os novos conhecimentos se sedimentam.

    Há poucos dias, me explicaram que “sabedoria” vem de “sabor”. Sabendo que sabedoria e conhecimento são quase sinônimos, não é difícil presumir:

    saborear 10 kg de sal leva muito, muito tempo.

    #ficaadica

  • Asfora, a vizinha e o yorkshire

    Cap. 01 – Inferno astral

    Asfora nunca entendeu o fascínio das pessoas por animais. Dizia que cachorro é humano demais em corpo de bicho: late, baba e ainda exige colo. Gato, então, é o pior tipo de inquilino. Entra sem pedir, dorme onde quer e encara o dono como se o intruso fosse ele.

    Agora, aos cinquenta e poucos anos, Asfora vivia sozinho. O que, para ele, não era solidão, mas lucidez. Achava que o silêncio era o último bastião da civilização; o barulho alheio, um sintoma de histeria coletiva.

    Mas o tédio, seu velho cúmplice de noites longas, às vezes resolvia pregar peças. Numa delas, abafada e sem graça, daquelas em que o noticiário parece o obituário do mundo, ele deixou a porta entreaberta. Talvez esperando uma visita improvável: Madalena, do 1.304: a vizinha de risadas longas, vestidos curtos e intenções malvadas.

    O destino, como sempre, errou o endereço. Quem entrou não foi Madalena, mas um poodle ofegante, fabricado em puro nervosismo. O bicho invadiu a cozinha, farejou as empadinhas de camarão e se autoproclamou imperador do jantar.

    Asfora reagiu como quem espanta mosquito: rápido, impensado, cruel. O cabo do esfregão quebrou, o cachorro uivou, e o barulho ecoou como sirene moral. Em minutos, a vizinhança já o via como o vilão do condomínio. Ganhou processo, má fama e um título que o deixava furioso: o carrasco dos cães.

    Desde então, vivia sob a vigilância do tribunal dos vizinhos, onde as sentenças eram proferidas no elevador e cumpridas nos cochichos de corredor.

    Na manhã do seu aniversário, acordou com a campainha martelando a alma. Abriu a porta, ainda em transe, e deu de cara com Madalena, sorrindo como quem entrega más notícias embrulhadas em perfume e malícia.

    Socorro! Pega, pega, pega!

    Antes que entendesse a situação, um vulto minúsculo atravessou-lhe as pernas e mergulhou na sala: um yorkshire em surto, uma miniatura do caos. Em segundos, devastou o tapete, o jornal, a paz e a reputação do dono da casa.

    O cãozinho ainda derrubou o porta-retrato da mãe de Asfora, que o observou da moldura com o olhar eterno de “eu te avisei”.

    Vai mijar no tapete! — gritou Madalena, histérica.

    E ele pensou que talvez o tapete merecesse.

    Os vizinhos brotaram à porta, em êxtase, como plateia de tragédia doméstica.

    — Dá uma vassourada!

    — Chama os bombeiros!

    — Eu não disse? — rosnou a dona do poodle, saboreando a vingança. — Nem os cães o suportam!

    Por um instante, Asfora pensou em pular da janela e encerrar a trilogia dos desastres caninos. Mas o yorkshire – aquela bola de energia demoníaca – se enroscou em seu peito e, pela primeira vez, ficou quieto. O silêncio que se seguiu foi tão improvável que parecia um milagre.

    Madalena, com a serenidade de quem dita sentença, decretou:

    — Pois agora o senhor vai cuidar dele pra mim. Quero ver se é homem de verdade.

    Asfora ficou parado, o cachorro tremendo em seus braços, e teve, naquele exato momento, a nítida sensação de que o destino acabava de lhe entregar um bicho para chamar de seu.

    Naquele aniversário, não teve bolo, nem parabéns. Apenas um amiguinho histérico, um coração cansado e a incômoda suspeita de que, talvez, fosse ele o animal que precisava ser domesticado.

    (continua…)

  • Pandora

    Certo dia resolvi organizar as fotos que ficavam naqueles albunzinhos que as Fotóticas da vida ofereciam junto com os filmes revelados, da época em que se revelava fotografia e colocava em álbuns. Foram guardados numa grande caixa, esperando o dia em que eu ia me dispor a organizar.

    O tempo passou, não fiz isso quando deveria ter feito e, agora, essa se tornou uma Caixa de Pandora. De vez em quando olho para ela, pensando se gostaria ou não de abri-la. Lá estão registrados anos e anos da vida, que de certa forma, ao serem guardados nessa caixa, ficaram congelados.

    Me dei conta de que fotos em papel impactam diferente na gente. Quando tudo passou a ser digital, parece que nossa memória também digitalizou, e as fotografias passaram a ocupar outro espaço, menos emocional, longínquo, o espaço virtual.

    Nesse plano digital estão álbuns mais recentes, que podem conter momentos parecidos e com as mesmas pessoas que estão nos antigos registros de papel, mas a nossa relação com eles parece ser diferente, mais distante.

    As fotos digitais parecem não fazer parte de nós e sim de uma plataforma – elas habitam fora de nós, em uma nuvem. Esse distanciamento nos possibilita facilmente deletar, corrigir, cortar, criar outros contextos para os momentos ali retratados.

    Se algo desagrada, ou traz uma lembrança indesejada, com um clique está tudo resolvido e nem nos lembramos mais de que, um dia, esses momentos foram captados, registrados. Já as fotos em papel não. Eliminá-las exige rasgar, queimar, colocar no lixo, sei lá. E isso é um processo cirúrgico dolorido.

    Se desfazer de flagrantes do passado que hoje não são mais significativos, da fisionomia de pessoas que não deixaram marcas – hoje são praticamente estranhas – dá uma sensação de sacrilégio. É como se esses retratos tivessem vida própria, não nos pertencessem e sim à nossa história.

    A digitalização, no fundo, desumanizou esses relatos, criou um espaço confortável entre nós e aquilo que está na tela, para que pudéssemos ir ceifando, sem dó nem piedade, tudo aquilo que incomoda, que não faz mais sentido e, assim, compor o álbum com a história que gostaríamos de contar.

    Mas as fotos em papel criam vida, e não há como apagar a história que contam. Elas ficam ali, naquela Caixa, como guardiãs fiéis do nosso passado.

  • Divagando

    Reza a lenda que quando os conquistadores espanhóis chegaram à América apresentaram-se montados em cavalos. Os nativos, que nunca tinham visto um animal assim, e muito menos armaduras reluzentes, enxergaram naquilo uma coisa só, meio homem, meio bicho de quatro patas.

    Pode não ter sido bem assim no século dezesseis, mas se os alienígenas aportassem hoje em certos locais da Terra, talvez achassem que o telefone celular faz parte do nosso corpo, uma coisa assim meio homem, meio tela.

    Andar agarrado ao celular é a marca registrada destas primeiras décadas do século vinte e um. Como essa simbiose vai evoluir é difícil prever. Quase sempre a realidade surpreende e contraria as expectativas de quem arrisca um palpite porque a visão do que vem por aí em tecnologia é privilégio de uns poucos gênios. A icônica fala de Steve Jobs ao declarar que as pessoas não sabem do que precisam até que você lhes mostre. Só uma coisa é certa: não há volta atrás.

    O que deslumbra uma geração não causa o menor espanto na seguinte. O que achamos maravilhoso hoje será banal amanhã. No futuro quem se lembrará de que o celular foi inicialmente um telefone, visto que esse é o uso menos comum que fazemos dele? Se é que ainda existirão celulares. E quem se recordará de nós que ainda nos lembramos de onde vem o sentido de rodar um filme ou revelar uma foto?

    E por que isso deveria nos preocupar, já que sempre foi desse jeito?

  • Brotam, simplesmente: delírio carioca em câmera lenta

    Às vezes, as coisas das quais mais gostamos não são coisas, e sim, memórias. Esses resíduos de existência têm umas esquisitices amorfas, incorpóreas, como um ‘ar’ de vendedores ambulantes em engarrafamentos: apenas brotam. Do nada. Em função única e exclusiva dessas ocasionais caravanas estagnadas – verdadeiras procissões suspensas – em que o asfalto, enfim, respira. Uma respiração congestionada. É isso, cinematograficamente falando: as reminiscências brotam. Do rés do chão. Da fervura titubeante do betume gasto. Da realidade simples. De um descuido do olhar, exausto da mesmice extenuante, o perceber do movimentar da paisagem, um segundo antes da fonética abafada dos jingles de esquina. Batalha de rimas, expressão genuinamente brasileira, rasgando o culto da língua.

    Paçoca é um real/ leve onze, pague dez real!
    Olha o amendoim torrado! / é doce, é salgado, é barato, é sagrado!
    Bala, chiclete e paçoca, / quem compra alegria, o tédio desloca!
    Capinha, carregador e esperança / o pacote completo pra quem não tem lembrança!
    Olha o mate! / Mate a sede! / Olha o mate, tem limão, natural e leão!

    Uma medina babelesca em tons verdes e amarelentos com suas barracas-corpos, mascates contemporâneos incorporando as mais básicas leis de oferta e procura: o largar de ensacoladas iguarias nos espelhos laterais dos carros; a malemolência dos chinelos emborrachados batucando chaves pix e pregões aos quatro cantos; ofertas de produtos sem valor, recheados de ecos de outrora. Uma bala juquinha reativa o paladar da infância, e você compra, mesmo com as taxas elevadas de diabetes; uma coca-cola estupidamente gelada dentro do isopor equilibrado, com esmero, na cabeça lisa e firme de um rapaz igual a todos os outros, faz você catar moedinhas só pelo barulho satisfatório e salivar que a abertura do lacre metálico carrega. É a fantasia do hiato, da bolha, do rolar dos dedos nas telas descarregadas dos celulares, a insatisfação das postagens que mascaram momentos como o presente, qual vida querendo passar corrida, mas comprida. A memória é culto e altar de todas as formas, odores, pesos e asperezas, o assobio descarrilhando trens automatizados. É no retrovisor do carro, quando carecemos de recursos distrativos, cafeína e paciência que esses souvenirs do acaso nos assaltam: fragmentados, vadios e apostólicos.

  • Onde está Fênix?

    O final de semana prometia ser intenso. Depois de anos sem nos reunirmos, decidi chamar Roberto, Samanta e Maritza para a casa de praia. Oficialmente, discutiríamos os detalhes das comemorações de Natal. Mas, no fundo, eu queria testá-los — ver até onde cada um iria, agora que o mundo estava virando do avesso.

    O governo de transição havia decretado novas normas financeiras e sociais, e o colapso lá fora fazia a cidade oscilar entre apagões e sirenes distantes.

    Dentro da casa, queria um microcosmo de controle absoluto, protegido pelo cheiro salgado do mar e pelo vento que assobiava pelas janelas mal vedadas.

    Samanta chegou primeiro, trazendo consigo Fênix, a gata preta de olhos verdes que pareciam perfurar minha mente. Eu não suportava felinos — alegava alergia, mas o que realmente me incomodava era essa sensação de ser avaliado a cada gesto. A gata se instalou na minha poltrona favorita, como se fosse a dona da casa, e me fitou com uma calma que doía.

    Logo depois, Roberto surgiu com seu Land Rover e uma caixa de espumantes caros, tentando impor normalidade. O vento carregava o aroma do álcool e do mar para dentro da sala.

    — Um brinde ao velho mundo! — anunciou.

    Brindei, polidamente. Ele não percebeu o veneno escondido na minha voz. Maritza chegou por último, exalando o cheiro químico do trabalho com taxidermia, os olhos brilhando de excitação e imprevisibilidade.

    — Não se preocupem — disse, rindo alto demais —, não trouxe o material.

    Mas vocês entenderam o recado.

    Ninguém riu. Sua risada reverberava, arrastando um eco que parecia pertencer a outra casa.

    O jantar foi uma encenação meticulosa. Rimos, brindamos, trocamos farpas sutis. A luz das velas tremia, projetando sombras alongadas e distorcidas pelas paredes descascadas. O vento arrastava folhas para dentro da varanda, e cada sussurro do mar parecia aproximar-se de nós. Eu os observava, maestro de um
    concerto dissonante, e sentia prazer no controle absoluto.

    Fênix permanecia imóvel sobre a poltrona, fitando-me com olhos que queimavam no escuro, como se compreendessem cada pensamento. Meu coração disparava, uma mistura de medo e fascínio.

    Mais tarde, aproximei-me de Maritza.

    — Maritza… aquela gata é perfeita. A pelagem, os olhos… uma obra de arte viva.

    Ela franziu o cenho.

    — Você está bêbado.

    — Ou lúcido demais — retruquei. — Imagine preservá-la… congelar o instante.

    Não é o que você faz com suas peças?

    Ela riu, nervosa, e o som reverberou pelo corredor.

    Na madrugada, não consegui dormir. Andei pelos corredores escuros, sentindo o chão frio sob os pés descalços. Cada rangido parecia amplificado, cada sombra movia-se de maneira suspeita. Roberto dormia, Samanta ressonava, e a tigela de Fênix estava vazia. A poltrona também.

    Acordei tarde, garganta seca, coração acelerado. Maritza e o furgão haviam desaparecido. Samanta perguntou pela gata.

    — Deve ter fugido — murmurei, tentando soar natural.

    Na tarde seguinte, Maritza retornou. Entrou silenciosa, depositou um pano preto sobre o banco traseiro do furgão e subiu para dentro da casa. Nada mais.

    Nenhum gesto, nenhum comentário. Apenas o pano imóvel, sem volume, como se fosse uma sombra esquecida.

    À noite, sozinho na sala, senti o ar pesado, o cheiro salgado misturado com algo metálico que não consegui identificar. Meus olhos se fixaram na poltrona vazia, e por um instante jurei ver dois olhos verdes me fitando. O olhar era intenso, perfurante, penetrando minha consciência como se me acusasse.

    Pisquei. A poltrona estava vazia. Mas a sensação permaneceu, tão viva que o som do vento e do mar se misturava a cada batida do meu coração. Como se Fênix, de algum modo, ainda estivesse lá.

  • O Rio sangra

    Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar crianças, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”Darcy Ribeiro

    Desde que me entendo por gente eu escuto, ouço e vejo  a mesma “fórmula” para combater a violência e o narcotráfico no estado do Rio, sobretudo, na capital: Matar!

    E morre traficante, policial e todo ser vivente que ousar respirar no meio do fogo cruzado!

    E morre o próprio Rio, envenenado!

    Esta fórmula é por si só o fracasso já sabido e anunciado.

    Os verdadeiros e grandes donos do negócio nunca são alcançados! Engravatados e graúdos, estão protegidos nos seus castelos e privilégios…

    O Rio sangra! E sangram gerações de cariocas e fluminenses…

    O Rio sangra! E sangra há bastante tempo!

    Como se costuma dizer nas rodas de conversa de tantos e tantos lugares da cidade: chove-se no molhado e enxuga-se gelo!

    Com isso, há décadas a violência assola o estado. E a coisa só piora!

    Avenida Brasil interditada. Linha Vermelha interditada. As cenas de motoristas abaixados nas estradas por causa do tiroteio são fartas e fáceis de se achar. Os corpos empilhados nos becos e nos morros é rotina e se tornou banal. Mães chorando seus filhos é notícia de quase todo dia!

    A violência no Rio virou banalidade! É assunto diário. Pisado e repisado! Reprisado!

    O descaso das autoridades é revoltante!

    O saudoso Darcy Ribeiro, homem das letras e das ações, criador do melhor projeto educacional que o estado e o Brasil já tiveram, os CIEPS, disse certa vez que se em 20 anos os governantes não construírem escolas, faltará dinheiro para construir presídios.

    Darcy já alertava no final dos anos 80! O caminho passa pela educação. Crucial, fundamental, urgentemente necessária. A educação não é milagrosa e, sozinha, não surtirá qualquer efeito, mas sem ela é praticamente impossível pensar um país!

    Darcy não foi ouvido.

    A metáfora viva do descaso é ver aqui e ali em vários pontos do território fluminense algum CIEP (também chamado de Brizolão) arruinado, tomado pelo mato, pelo abandono, pelo tráfico…

    Darcy não foi ouvido.

    E muitos meninos e meninas do Rio tiveram suas infâncias interrompidas. Seja por uma bala perdida, seja pelo aliciamento da marginalidade.

    Darcy não foi ouvido.

    Ou melhor, foi solenemente ignorado.

    Hoje, cercado por facções diversas e por milícias, o estado do Rio possui um “estado paralelo”! Este estado se sobrepõe ao oficial, tem suas próprias leis e sua própria dinâmica e, com seus tentáculos, envolve e absorve políticos e agentes públicos, tornando-se um problema cada vez mais complexo.

    Darcy não foi ouvido.

    Os professores fluminenses recebem o pior salário da federação. Escolas sucateadas. Dinheiro que some pelo ralo… Alunos com pouca ou nenhuma perspectiva! Educação não é prioridade!

    E a massa de jovens no crime só aumenta e alimenta uma máquina…

    A máquina de moer gente prossegue seu trabalho e sua função: matar!

    O Rio sangra…

  • Por mais segundas-feiras e não sábados ensolarados

    É manhã de sábado, os raios de um dia ensolarado rasgam os tecidos da cortina e iluminam meu rosto adormecido. Há muito barulho de vida lá fora.

    Levanto com os pés quentes e sonhadores no piso frio, lembrete físico das tarefas ainda por fazer. Me espreguiço, levanto o tampo da bacia sanitária, mijo. Descarga, torneira e sabonete líquido: jogo uma água de qualquer jeito no rosto, a toalha felpuda brinca de me fazer cócegas e eu sorrio.

    Café. Preciso de café.

    Pego água no purificador, encho a chaleira elétrica, ligo o botão, pote de pó de café, xícara vermelha. Não ouso olhar pelo vidro do armário e pegar a prensa francesa. Muita lembrança, a dor ainda arde no meio do peito, carne viva, vida ainda, enfim. A campainha toca. A chaleira estala. Tiro o interfone do gancho.

    — oi, então… voltei. Posso subir?

    (..!)

    Ela vinha devagar, como quem teme assustar as paredes. Um pouco desengonçada, com os olhos verdes, quase cinzas. Um rumor de vento antes que os nós de seus dedos bateressem na face externa da porta antecede a minha falta de juízo: ela está ali, com a mesma roupa de sempre, o mesmo olhar **suplicante por abrigo. Eu estou ali, acreditando uma outra vez que, talvez, dessa vez, a palavra “voltei” dure. Nada nela pede licença: entrou, simples como um sopro.

    Eu, sem antever a previsão repetida, me torno o personagem em slowmotion de novo – que inquietante a potência dos outros em fabricar nossas próprias características! Cena de filme clichê, coisa etérea, poeira suspensa. Uma nuvem entre o céu vazio que ela tanto se esbalda.

    No começo, como em todos os começos antes, achei que o amor era isso: ficar leve. O café não esfria, ela me serve antes que isso aconteça. Encosta a cerâmica fria em meus lábios, me faz respirar diferente. É a minha cozinha. Não é a mesma cozinha. Ela joga os cabelos para um lado só com as pontas dos dedos — gesto comum, mas que suspende o ar da cozinha. O tempo pára, ou finge parar. Eu, que sinto e confundo sonho e acontecimento, observo: ela é mais ideia do que corpo. Parece feita do mesmo material das manhãs que não voltam. Há nela um quê de desenho inacabado: o contorno treme, a pele é quase vento, o olhar pesa mais do que o rosto. E, mesmo assim, sorri — um sorriso de quem se desculpa por existir e por não conseguir deixar de existir.

    Sinto que a inventei e ela, por delicadeza, continua encenando que é real.

    Difícil entender que leveza demais é outra forma de se partir: um vaso de plantas que se quebrou e colei sozinho, mas não segura a água das plantas; um eco de lembrança que se recusa a morrer; vento, sua forma mais triste de permanência. Irônico e cômico.

    E eu, bobo, inteiro, continuo acreditando. Ela é boa em cuidar — não de mim, mas da imagem que deixei dela. Cautelosa demais, como se desarmasse sempre uma bomba, para ser humana.

    Um fantasma educado, incapaz de errar, dessas pessoas que não sangram por medo de manchar o chão. Não é antifragil. Não admite consertos. Teme o caminho de desconstrução; é desconfortável o transitório. É tóxico se deixar transformar.

    É desconcertante a sutil e total diferença entre sentimento e condição.

    Jamais suportara ver o que fica depois do “cuidar”, o real: a bagunça dos gestos, o fedor da presença, o convívio que tira o amor do ideal. Queria o brilho, não o suor. Não entendera a distinção poética e viva entre abrir mão e dar as mãos; vivia no mundo idealizado da precisão, das decisões calculadas — não no das concessões e imperfeições humanas. Planejava demais, deixava pouco espaço para o acaso, para o erro, para o viver de verdade.

    É mais máquina que mulher, mais tese que pele. E quando falha, usa o discurso pronto, como quem cita, não como quem sente:

    — Errar é humano, está tudo bem.

    Mas não está. Não quando quem erra é ela. Não suporta o reflexo da própria admiração; nem a vontade, secreta e infantil, de ser o outro. Eu sou esse espelho, e sei que ela tentou. Tentou ter os meus sonhos, camuflar-se no meu mundo. Não me abriu porta nenhuma para o seu. Mudar não é uma opção. Assumir a mim e a si, tampouco.

    Estar presente não é para ela. Ela brinca de amarelinha numa superfície de casas

    passadas e futuras. Pisa leve, pulando. Torce as pernas com graciosidade. Sorri em ambos os tempos – recentemente aprendeu a sorrir com os dentes endireitados por aparelhos ortodontários e pela minha presença em sua vida. Se viu perdida de identidade. Surtou.

    — Quem sou, se não estou pronta?

    É bonita, a danada da imagem distorcida! Mas ela não quer estar aqui, na minha cozinha, o saguão inexorável de um aeroporto internacional. Quer estar no movimento que a faz ser alguma coisa.

    Vai indo embora da mesma forma sorrateira e desonesta que entrou, à francesa tal qual a origem da cafeteira que me encara, relembrando-me que, sim, tudo o que tivemos foi real, eco do que poderia ter sido numa frequência de momento eterno. Ela prometeu. Prometeu me olhando nos olhos. Olhos verdes. Olhos-cinza. Tudo virou pó, eu suspirei, comunguei sozinho junto à fênix derradeira.

    — imbecil de mim, que chamei o eco de sentimento.

    Não sei se era falta de amor, não acredito verdadeiramente… Acho que tal proteção desmedida nunca teve motivo. Era medo, e só isso. Do sucesso. Do mundo a julgar. De se permitir viver a vida, gozar dela; o embate entre o enxergar meu excesso de alma e sua rasa profusão de quem nasceu para pilotar aviões com copilotos artificiais e sem passageiros. Sabe de cor o que estuda, os manuais de aeronaves. Teorias que precisam funcionar, é preto no branco.

    Deixou escapar, num momento de retorno, que eu a fazia ver o mundo com cores. Que ali, no aconchego das 4 pernas debaixo de um cobertor no meu sofá, comendo pipoca, era plenitude. E que o conjunto era poderoso.

    Tais coisas se confundem quando o tempo esgarça. E com ela, sempre, involuntariamente, se esgarça. Eu lhe dou de presente o que eu existo no agora. Ela só tem fusos horários que não me encontram.

    Só sei que ela ama e odeia com a pressa de quem tem de pegar o próximo voo. Viagens sem reembolsos. Voos sem pouso e sem escalas. Combustível infinito, vida perdida. Viagem… a viagem na paranóia humana.

    E eu, que sou pedra, não peso, mas gemo a me lapidar pelo processo da vida. Gemo em gema e brilho. Pareço os raios que me acordam com a furiosa simpatia de um nascer de dia: eu sonhei ser terra fértil.

    Preparei a minha casa para um corpo vento. Projetei os fluxos livres. Convidei as brisas, todas. Me enfeitei com o perfume mais marcante, para que ela o carregasse consigo. Um vento que ela escolhia ser, pois a humanidade, nela, a enfraquece. Ela prefere relacionar-se com máquinas. Prefere o irreversível irreal. Sua condição de menina ferida, adolescente que finge acreditar tão somente em seu poder interior.

    E o que é o amor, senão o desapego da matéria para se manter leve? Leve é ser vento ou se estar seguro em uma estrutura que resista e acolha a ele próprio?

    (nada se movimenta, só o visor digital do relógio de cabeceira).

    Guardo dela o som dos passos que sempre se vão, não o rosto. O tom do verde desbotado e craquelado em cinzas, é tudo o que me resta.

    A chaleira esvaziou. O pó de café firmou-se no filtro de pano. Lacrei a prensa francesa em uma caixa de papelão destinada a doações. A natureza é morta em todos os quadros da casa.

    Guardo a ideia de que talvez o amor não precise durar — basta doer bonito. Doer queimando. Doer para não existir e dar sentido a não ser.

    Durmo.

    Na manhã de hoje, tal domingo em que os despertadores são o silêncio prolongado da madrugada companheira, minha taça de vinho substitui a xícara vermelha. Me olha do topo de seu corpo translúcido e brilhante, fixamente, como quem pergunta:

    — Voltaria a amá-la?

    Ao que respondo “sim”, pois verdade seja entendida: não se deixa de amar por um triz, por uma mera vontade, desilusão ou capricho. É um processo. É a dor de não querer apagar o possível, que jamais será aceito, da parte dela.

    Amá-la é fazer um pacto com o silêncio. É espetar-me e sangrar sozinho. É aguardar o próximo vento, ou uma mísera brisa.

    Desta dolorosa manhã repetida de sábado, resta o domingo árido. Resta a realidade sem. Restamos eu e meus desenganos.

    Graças aos céus amanhã é segunda-feira.

  • Desconfio que nasci pata. Pata pateta?

    Sabe aquela pessoa especialista em uma atividade, focada, perseverante, que se destaca pela alta performance? Não estou falando de quem nasceu com um dom divino — porque aí seria fácil dizer: se não foi abençoado, desista. Falo do ser comum que escolhe um caminho e segue nele, dia após dia, sem desvio. Pois é… essa não sou eu. Pelo contrário.

    Sempre tive necessidade de pular de galho em galho: cada hora um foco, um novo desafio, sempre para explorar algo diferente em mim. Da taquigrafia à flauta doce, da escrita literária ao pudim de leite sem furinhos — tudo me capturava a atenção, mas nunca a dedicação. No meu pula-pula, abri tanto o leque e o passo da dança que nunca fui virtuose em nada, a bem da verdade.

    E aí vem aquela pergunta que arrepia: qual é a sua especialidade?

    Para esse tipo de angústia, só mesmo consultando os universitários — no caso, uma psicóloga. Ela me perguntou — Já pensou em escolher um animal que a represente?

    Respondi sem hesitar: — Sim, sempre imaginei um pássaro. Um sabiá, talvez… ou um beija-flor, voando em busca de novos rumos.

    E qual não foi a minha surpresa quando ela disse: — Que tal um pato?

    Pato? Só me faltava essa! Lembrei logo do Pato Pateta da música do Toquinho, já sentindo meu bico crescer e amarelar. Antes de soltar um “quá, quá”, resolvi esperar o diagnóstico.

    — Veja — explicou ela —, o pato é a única ave que anda, nada e voa. Faz de tudo um pouco. Não com perfeição, mas com competência. É isso que chamamos de “multipotencialidade”.

    Aos poucos a ficha caiu: o pato pode até parecer desengonçado na terra, mas na água desliza com elegância, e no céu encara o vento com coragem. Não precisa ser o rei de nada para ser bom em muita coisa.

    Respirei fundo. Ufa, redimida! Sou uma multipata.

  • uma pílula para manter a sanidade — …humanidade?

    A vida é um eco, não é mesmo?

    Mesmos problemas; vida que se derrama enquanto pensamos demais e, talvez, ajamos de menos.

    Descomplicar é sinônimo, em ação, do substantivo vazio. Que também pode ser um adjetivo. O vazio dói. O apartamento ficou vazio. A vida descomplica quando menos nos esforçamos.

    O vazio é repleto de tudo; é o próprio caos.

    Descomplicar é o verbo de ação para que a estafa necessária possa agir em meio ao vazio.

    Tudo o que nos torna nós mesmos padece do esquecimento: troca da derme, pele nova, ar que sai e que entra. Roupas que já não cabem ou não representam.

    Pessoas que se vão, memórias que se quebram, se apagam, acabam no lixo. Reciclar — é possível?

    Eco.
    Vibração repetitiva.
    Repete e distorce.
    Perde.
    Se esvai.
    Some.

    Descomplica o vazio retumbante.

    Vácuo.
    Fundo.
    Cegueira.
    Falta de ar nos pulmões.

    Um batimento de vida ._/\./|_. .
    (Descomplica)

    Respira.
    Esvazia.

    (O vão no papel já é muito)

  • um outro sentido humano, não apenas sentimento

    O vazio é um lugar insuportável: fede à ausência.

    O vazio, cujo endereço é nômade (na pressa), é também essência humana — carrega-se como um caramujo.

    O vazio como morada, cuja forma é o fazer nada.

    O desespero da entrega que não afeta a vida do consumidor final.

    Tanto se fazer por nada.

    O suor total por um gesto que o mundo faz corriqueiramente: levar à boca e engolir, sem mastigar.

    O vazio é o que se encontra quando já se leu demais.

    Já fez demais.

    Já deu demais.

    E mesmo, ainda, depois de tanto, insiste.

    O vazio é o resultado de sustentar uma imagem de força, quando se pede, aos 

    mais próximos, por favor, um pouco de ajuda.

    É o troféu dos fortes: ninguém leva a sério a fraca franqueza de quem é visto como forte, porque o vazio é um canto de sereia rouca — estabilidade em vertigem.

    O vazio é ensurdecedor.

    O vazio é pesado, é surdo, é cheio, é muito, é tanto.

    É estática.

    E dói — dói ancestral. Dói além. Dói de dói pungentemente, palavra retrógrada, não é mesmo?

    Qual o problema em usá-la, se um dia fez sentido? Bonita, intensa, fora de moda. 

    À palavra cabe o espaço em que repousam as outrora vitórias, agora normal[t]izadas como excesso — o mesmo espaço dos erros ortográficos: lápides em um cemitério de condecorações.

    O vazio é um conjunto de excessos que ninguém quer mais.

    O vazio é o lixo — todo o lixo — o fundo fétido do lixo.

    O vazio é o que se encontra quando, após mil diferentes formas de se fazer estar presente — com amigos, familiares, relacionamentos profissionais —, se olha no espelho e se enxerga apenas as olheiras, a palidez, o opaco dos olhos, o silêncio.

    O vazio sangra.

    É onde estou agora.

    Os dias amanhecem lindos, indecentes de tão lindos.

    Permanecem lindos. Intocáveis, para mim.

    Música alguma é capaz de alterar a dinâmica.

    Todo e qualquer outro esforço, aqui, é dor e mais falta.

    O alcance do vazio é uma frequência do 

    tudo.

    Sintonizá-la não é tarefa simplória.

    No vazio não há oxigênio.

    Atmosfera rarefeita, há luz demais quando se quer dormir.

    A cabeça jamais pausa: desgasta o pouco de vida que resta tentando se calar.

    Vida como incontinência urinária: constante e desagradável, dominadora e… desfeita.

  • Pergunte ao Jacobina

    O reflexo da imagem sempre despertou curiosidade e encantou o ser humano. Ele é a metáfora perfeita para dizer a forma como nos vemos, qual a nossa autoimagem.

    Estima-se que ele tenha surgido, ainda que de forma rudimentar, há cerca de cinco mil anos, na antiga Suméria. De lá para cá, vem assombrando principalmente as mulheres, inconformadas com seu reflexo no Espelho de Cleópatra, símbolo da beleza e dos cuidados femininos, desde a antiguidade.

    Em O Espelho, um dos mais brilhantes contos de Machado de Assis, Jacobina lança uma tese de que as pessoas não teriam apenas uma alma, e sim duas: “Uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro”.

    Sem entrar em uma discussão filosófica sobre a tese do autor,  talvez seja esse o motivo pelo qual a relação das pessoas com o espelho seja de amor e ódio.

    Vivemos cercados por esse olhar invertido. Não bastasse os exemplares que temos em casa, os espelhos proliferam também nos ambientes externos, expondo nossa imagem sem autorização, com a maior desfaçatez. Lojas, shopping centers, restaurantes, elevadores, a cada passo nos deparamos com um exemplar, normalmente gigantesco, a nos desnudar.

    Amamos quando eles nos favorecem, odiamos quando o que reproduzem está muito longe de nossa autoimagem. E, aí, não  podemos deixar de concordar com Jacobina que estamos frente ao embate entre duas almas: a de quem somos realmente, e a da aparência que pretendemos passar ao mundo.

    Raramente estamos satisfeitos com a versão que o espelho retrata. Por isso mesmo, os designers e arquitetos têm toda uma estratégia para tentar acariciar nossa autoestima. Tudo é estudado no momento de escolher um exemplar para colocar na parede, no teto, ou atrás daquela porta do armário que nos diz se devemos ou não sair com o visual escolhido. Uma inclinação de poucos milímetros pode ser suficiente para dar um comprimento extra para as pernas; vidros com corte côncavo afinam a imagem, luzes pelo lado de trás realçam o  brilho da pele. 

    Os subterfúgios são inúmeros, mas a realidade é que nunca estamos totalmente em paz com aquele que escancara o que nos esforçamos por disfarçar. Em casos extremos, a vontade é de, simplemente, quebrar o espelho para eliminar totalmente o algoz.

    Mas… todo o cuidado é pouco! A superstição popular, oriunda de uma crença dos gregos antigos, adverte que quebrar um espelho é destruir uma parte da própria alma, o que pode indicar mau agouro, ou mesmo a morte. Morte de qual de nossas duas almas? Só perguntando ao Jacobina.

  • Poema #13: As Naus e o Sonho

    Entre as naus e os sonhos de antes
    Anterior à memória, objeto estranho…
    o mar era só… sem os seus navegantes.
    Calmo, vário e tamanho,

    As águas, um mistério, um senão
    porém, quando teima a criatura humana
    o desejo insistente instiga a mão
    a alcançar tudo, com toda a gana…

    brota na alma um querer
    mais que tudo e muito mais!
    Indo sem ir e vendo sem ver
    do precipício à beira do cais.

    Da imagem fez-se o nobre canto
    do canto nobre fez-se a triste sina
    da sina triste revelou-se, no entanto,
    o mundo de todos, de todos a cisma

    de içar ao alto a mais alta vela,
    cortar as ondas e caminhos abrir
    aos gritos triunfantes da sentinela,
    vendo sem ver, indo sem ir…

    Vendo sem ver, indo sem ir
    A história do tempo mostrou
    Lágrimas, morte, um pesado porvir
    O que figura humana jamais imaginou…

  • Dias quase perfeitos

    Recentemente assisti Perfect Days, uma coprodução entre Japão e Alemanha lançada em 2023. O filme é estrelado por Kōji Yakusho, no papel de um limpador de banheiros.

    Confesso que, no início, precisei de algum esforço para entrar no ritmo. A narrativa é lenta. O dia a dia do personagem, Hirayama, se repete quase como um ritual. Mas, aos poucos, essa repetição revela algo essencial: a beleza da simplicidade. Uma vida aparentemente pequena, quase claustrofóbica, que ao mesmo tempo transmite uma paz reconfortante.

    Hirayama encontra prazer em gestos banais. Escovar os dentes. Escolher uma música para ouvir no carro. Cumprir bem a tarefa de deixar os banheiros públicos impecáveis. Para ele, isso basta. Sua gentileza com os outros é sua forma de contribuir para o mundo.

    Esse olhar me tocou de maneira especial. Vivo, hoje, uma transição. De uma vida profissional acelerada para um momento mais introspectivo, mais contemplativo. Uma rotina menos marcada por obrigações. Mais aberta a atividades simples, corriqueiras, que se tornam fonte de prazer.

    Mas há um ponto que me inquieta. Para viver seus Perfect Days, Hirayama abandona quase tudo da vida anterior. Relações familiares, laços afetivos, responsabilidades. É como se tivesse optado por um isolamento absoluto. Isso levanta uma questão: até que ponto essa proposta não é uma utopia?

    Afinal, muitos não podem simplesmente abrir mão dos “dias úteis”. Da pressão do trabalho. Dos horários, das contas, das cobranças.

    Penso nas pessoas que encontro ao anoitecer, correndo para pegar um ônibus lotado depois de um dia exaustivo. Gente que, muitas vezes, nem sabe como vai pagar as contas do dia seguinte. E que, ainda assim, encontra espaço para sorrir e me oferecer um simples “boa noite”.

    Talvez esteja aí a maior lição. Não é preciso renunciar a tudo para viver dias perfeitos. Mesmo no meio das obrigações, é possível transformar os dias úteis em dias quase perfeitos.

  • Metacrítica

    Como uma sugestão literária pode desencadear reflexões íntimas

    A taça agora reflete um leve nuance púrpuro, apenas; eu, nesta fria estadia serrana, pretendia perder-me entre os dois novos volumes machadianos, ou, quem sabe, afogar-me nos sentimentos mais belos e tristes que só um romance épico da literatura infanto-juvenil de Budapeste apresenta-nos. Mas é fim de setembro, principia o inverno e a neve não virá, como sempre. Minhas mãos voltam-se para as teclas do computador, são obrigações da vida adulta que por ora me prendem a esta tela. Entre análises gráficas, e-mails e discussões acadêmicas, presenteio-me com a possibilidade de libertar meu eu lírico em pequenas doses de literatura singela. Crio, pois, meu próprio grund, dentro de um edifício que talvez já tenha tido seu espaço defendido por heróicos meninos do antigo primário. Sinto-me resfriada, e a dúvida oscila entre a mudança de temperatura e banhos frios em águas inimigas. E ponho-me a chorar, silenciosamente, pela morte de um grande soldado raso (agora capitão). E ponho-me a gritar interiormente pela vitória de um espaço que perderei em breve. E ponho-me a pensar em todas as injustiças que acontecem ao meu redor. E sinto, pois, que crescer é deveras dolorido, mas que, por fim, minha infância não foi só um belo conto-de-fadas.

    Ao fundo, nenhum acorde ousa quebrar este silêncio honrado. Nenhuma cor sobressai perante o cinza nostálgico dos meus dias de “Os Meninos da Rua Paulo”. Só o vinho do liquido aventura-se a atravessar a garganta, amolecendo o peito e aquecendo o corpo contra os graus fajutos que lá fora brincam com o vento cortante.

    Eis a história que não podem deixar de ler. Bia Mies indica “Os Meninos da Rua Paulo”, de Ferenc Mónar, reeditado recentemente pela editora Cosac Naify.

  • Poema: #12: UM LAÇO E UM NÓ

    Um laço e um nó
    e o engasgo e o silêncio
    a palavra muda amordaçada e nada
    do que fizera antes apaga
    o fluxo do poema e da prosa
    e as mãos frágeis do poeta-cronista
    tentam a todo custo segurar o texto
    o desejo
    a insensatez e a loucura e o rio de letras
    sílabas palavras-peixe e amores brutos
    um laço e um nó e o engasgo e o silêncio
    a palavra mata
    e cala e se cala
    afrouxa e aperta
    afrouxa e aperta
    e joga e rola
    e deita e cola
    afrouxa e aperta e água
    e mais água inundam o ser e o papel
    e o espaço e o universo
    e a tela fala
    aquela fala aquele riso
    aquele pranto
    afrouxa e aperta
    e aperta e afrouxa
    um laço e um nó.

  • O botox da Monalisa. Quando a estética paralisa também os sentimentos

    O sorriso é universal e uma das únicas expressões que já nascemos sabendo fazer e reconhecer, não importa o lugar do mundo onde estejamos. 
     
    Segundo o dicionário, é uma expressão em que os lábios se curvam nos cantos, e é essa curvatura que acaba dando o tom do sorriso. Normalmente, com os cantos voltados para cima expressam alegria, contentamento, felicidade. Ao contrário, se fizerem uma curvatura ligeiramente para baixo ou de forma assimétrica podem expressar ironia, malícia e, até mesmo, loucura ou maldade.
     
    Interpretar o sorriso de alguém é uma tarefa para o nosso córtex frontal, que pode processar essas informações e dar um feedback emocional positivo ou negativo, dependendo do tipo de sorriso captado. Nesse sentido, a neurociência veio ao nosso auxílio com uma descoberta que pode minimizar o efeito de qualquer sorriso maldoso que recebemos – o retorno com um sorriso largo, mesmo que não sincero.
     
    Falso? Sim, mas o resultado dessa falsidade traz um benefício incrível, segundo os estudiosos Kraft & Pressman da Universidade do Texas. Segundo eles, sorrir pode realmente enganar nosso cérebro e impulsionar o humor. Quando sorrimos, mesmo que não estejamos genuinamente felizes, engajamos regiões cerebrais que desencadeiam uma resposta de neurotransmissores como a serotonina e a dopamina, associados à sensação de prazer e bem-estar.
     
    Os resultados desses estudos sugerem que o feedback facial não apenas amplifica sentimentos de felicidade preexistentes, mas também pode iniciar um ciclo virtuoso. Assim, forçar um sorriso pode ser o primeiro passo para iniciar sentimentos de felicidade, mesmo em contextos não favoráveis.
     
    Tudo muito interessante, mas…atenção! a ausência de expressões faciais pode reduzir a intensidade do feedback emocional e, nesse sentido, criou-se um problema para quem é adepto de aplicações de Botox.
     
    Pesquisas mais recentes (Vannini et al., 2018) revelaram que a interação entre a toxina botulínica e o embodiment, ao paralisar os músculos faciais altera a maneira como nosso cérebro percebe e experimenta as emoções, o que pode reduzir o impacto direto do sorriso em nosso estado emocional geral.
     
    Isso nos coloca frente a um dilema digamos estético-emocional: sorrir às bandeiras e rugas desfraldadas, ou emparedar a serotonina num sorriso de Monalisa?

  • Por que falar de amor?

    Por que falar de amor? Por que falar do amor?

    Tantos versos já eu sei… Versos que foram escritos e vistos e sentidos com bocas e ouvidos, com café ou sem café, mas com açúcar e afeto?

    Por que falar de amor? Por que falar do amor?

    Tantas linhas e parágrafos já eu sei… Linhas que foram exaustivamente escritas e revistas com precisão do olhar? E que amor é esse?

    O amor falado, escrito, sentido, ralado, confessado, absolvido e absorvido em todos os níveis e instâncias possíveis!

    Há uma necessidade urgente em se falar de amor num mundo confuso e acelerado. Há uma eletricidade na escrita que não cala e que não espera e impõe falar do amor no meio das balas cruzadas, entre os mendigos da esquina e o preço da gasolina.

    Por que falar de amor? Por que falar do amor? Porque entre os beijos dos amantes há a mensagem que paralisa todos os instantes: ele, o amor, entre os farrapos da guerra e os corpos tombados é o melhor de nós no meio do pior de nós.

    O amor é o risco, o rabisco, o mergulhar entre nuvens e imensidão.  O amor é o silêncio entre a gritaria, é a desejada alegoria… Mesmo sendo fiapo de coração.

    E essa poesia no meio da prosa é a constatação…

    De que no meio do vendaval, do temporal, do trânsito caótico, da política canalha, dos bueiros e cracolândias, do veneno nas plantas, da sirene, da corrupção, do descaso com a vida, da cegueira que imobiliza, da superficialidade das redes sociais, dos influenciadores que se acham os tais…

    No meio de tudo isso, o amor resiste e insiste e teima e lima e abre brechas e fendas dentro da gente só pra lembrar que é preciso sentir.

    Esta crônica meio poema fala de amor porque esse sentir resiliente nos mostra que dentro do turbilhão é ele, o amor, que nos mantém humanos.

  • O retratista fiel

    Folhear álbuns de fotografias antigas — em papel ou digitais — tem me causado um certo estranhamento, uma sensação de que os ambientes, as pessoas, as fisionomias não eram bem assim como estão retratadas.

    Na foto do meu aniversário de 15 anos, o vestido que, à época, me fez sentir uma princesa hoje mais parece um tule de cobrir bolo. Difícil acreditar que fui eu mesma quem escolheu aquela roupa, que em nada me valorizava.

    Na varanda da casa onde morei com meus filhos pequenos — e que, aos meus olhos, parecia abrigar a família inteira —, a foto mostra um espaço em que mal cabiam quatro cadeiras. E nada tinham a ver com os móveis charmosos de jardim que eu havia comprado.

    Meu bolo de aniversário com cobertura de chocolate, que à luz das velas me pareceu brilhante e festivo, aparece seco, simples demais para a importância daquela comemoração.

    No começo, pensei que a culpa fosse das fotos: iluminação ruim, ângulo errado, talvez o dia nublado tivesse apagado as cores. Mas, aos poucos, percebi que não eram elas que me traíam — era minha memória, minha lente afetiva, que guardou lembranças muito além dos flagrantes de uma máquina, seja ela qual for.

    Minha memória registrou o que foi captado pelos sentidos: o olhar de admiração que me fez feliz naquele vestido, o som das risadas gostosas que ampliaram a varanda, o gosto de chocolate do beijo depois do bolo que iluminou minha boca.

    Sabem de uma coisa? Aprendi que é melhor confiar no que ficou registrado em mim: a memória é o mais generoso dos retratistas.

  • Música Brasileira

    Ah! Que saudade da travessia de Milton, das noites com sol de Venturini, do palco de Gil, da construção e das construções de Chico!!

    O coração aperta com a alegria e as alegrias de Caetano, com as águas de março de Tom e, generosamente, faz lembrar de Madalena de Ivan.

    O som alcança corpo, alma e coração e, diante de mim, surge um lindo lago do amor, um lagode Gonzaguinha. Faz brotar mais água e um oceano inteiro em Djavan.

    Devagar, devagarinho, chegam os versos de Martinho e outros versos, os de Cartola, ensinam que o mundo é um moinho!

    Caymmi mostra entre os acordes o que é que a baiana tem e Gonzaga, o Gonzagão, apresenta uma Asa Branca e os perigos do sertão.

    E entre melodias, rimas e cantorias, a crônica celebra Pixinguinha, outra Gonzaga, a Chiquinha, Villa Lobos, Roberto e Erasmo, Marisa Monte, Lulu Santos, Hebert Viana e tantos nomes geniais.

    É a música brasileira pedindo passagem, deixando a mensagem de uma língua vibrante!

    É a música brasileira que se faz crônica, poesia, inúmeros romances e nuances de um idioma eletrizante!

    E entre confetes e serpentinas, vibra a Colombina e o vozeirão de Ed Motta.

    Mas como é que não se nota?

    O descobridor dos sete mares e de Tim Maia as excentricidades!?

    Com tanta música boa e malemolência do canto, há sempre mais encanto e mais sabor! Há também a ovelha negra da Rita  e o Maluco beleza de Raul.

    E entre melodias, rimas e cantorias, a crônica celebra Gal Costa, Maria Betânia, Gabriel o pensador. Celebra Lenine, Moraes e Alceu! Celebra Cazuza, Renato Russo e a guitarra de Pepeu!

    São tantos os tons, de pele e de sons, são tantos os nomes e rostos e histórias que um texto só não dá conta de mostrar!

    Esta é a crônica da música brasileira, a melhor que há!

    E assim, quando a tarde cair feito um viaduto, canta feliz a menina apimentada, a pequena Elis. E ela nos diz que a esperança equilibrista sabe que o show de todo artista tem que continuar.

  • Tatibitate

    Meu amorzinho, vamos começar. Vou explicar para você direitinho o que vai acontecer, não se preocupe, estou aqui pra ajudar, viu amorzinho? Qualquer dúvida pode me perguntar, eu estou aqui do seu ladinho o tempo todo. Vamos lá? coloque o pezinho aqui, assim amorzinho, um pezinho pra frente, o outro pezinho pra trás. E a mãozinha precisa estar firme assim, viradinha.

    Quem lê esse parágrafo logo imagina um adulto conversando com uma criança bem pequena, que ainda não domina totalmente a linguagem, correto? Ledo engano. Ouvi esse diálogo em uma sala de teste ergométrico, em que a pessoa que estava sendo testada era uma senhora na faixa de sessenta anos. Constrangida, ela tentava se desvencilhar desse linguajar da assistente de enfermagem sem sucesso.

    O que percebo é que alguns comportamentos da sociedade acabam por eliminar o período entre a infância e a velhice. É como se, na hora de desenhar a linha do tempo, os anos da vida adulta não existissem.

    Infância e velhice se tornaram uma categoria única, com a diferença que, aos olhos principalmente de quem atende o público, essas crianças longevas sofreram uma perda significativa de senso crítico, autoestima, raciocínio e capacidade cognitiva.

    Assim, a partir dos sessenta anos, os denominados “da terceira idade” se veem frente a situações cômicas, se não fossem odiosas.

    Uma delas é essa mania de usar diminutivos, uma linguagem quase tatibitate. Os idosos não tem membros, tem membrinhos. Não são tratados como senhor e senhora e sim como senhorinha e senhorzinho. Tem sapatinhos e não sapatos e carregam malinhas e não uma mala.

    Esse uso constante do diminutivo reduz o idoso a uma condição infantilizada e o interlocutor a praticamente um tutor daquele ser incapaz. Isso para não falar do sorriso condescendente que acompanha o diminutivo, quase de comiseração.

    Vivemos em um país com trinta e sete milhões de pessoas (18% da população) com mais de sessenta anos e essa parcela da sociedade cresce a 2,5% ao ano. Há que se pensar, portanto, em uma reciclagem dos treinamentos para atendentes do público pois, no andar da carruagem, o diminutivo assumirá o comando na língua portuguesa.

    Está na hora de esticar a linha do tempo e encurtar o tratamento com diminutivos!

  • ………….|….|…|…|.|.|…|.

    Uma pena
    Rubra, rubor – ruído ruivo
    Feito item desejado
    Jaz – ainda que repleta de vida
    No papelão bonito de onde veio

    Nunca
    Sequer
    Dali
    Saiu

    Enquanto observa o líquido

    – mesma cor
    rubra, rubor – ruído ruivo
    Dançar serelepe em cristal humano
    Apaixona-se e queixa-se da sina que lhe
    Cabe
    Abre
    Fecha
    Resta

    O rubor vem do entalhe
    Afinação do cálamo
    Calado a observar
    Rêmige de primeira linha
    Ave-falante-de-peito-roxo
    Ares exóticos
    Mas
    É
    Brasileira

    – brasileiríssima, embora
    rubra, rubor – ruído ruivo
    Do sul

    A bebida reluz

    As barbas eriçam

    Deve ser sonho

    Ar condicionado

    Condição de um seu delírio
    Quer ser algo
    Escrita
    Grita

    Pensa nas curvas delineadas
    Êxtase encontro seu com a bebida
    Mergulho
    Líquido que de si
    Então tinta
    A ponta
    Uma linha
    “O” ponto
    .

    Rubro

    Rubor

    ………….|….|…|…|.|.|…|.
    Ruído ruivo

  • Oscilações

    Um corpo que envelhece, expressões sem fôlego. Vera move-se em vaievéns curtos, sem, contudo, se entregar à queda. No espelho, vendo o que não queria – ou tentando não o fazer; momentos antes, a caixa… dezenas de momentos em papel fotográfico, seu os tantos sorrisos congelados em uma linha torta e encantadora de tempo. Via-se em cada instante eterno, ainda feita de sonhos. Como se o vento do mar Tirreno jamais tivesse parado de soprar em seus cabelos, tingidos tantas e tantas vezes, de tantas cores, desde então. Quase quarenta anos em um sopro. Sequer precisava fechar os olhos: bastava respirar para que o passado lhe viesse inteiro, sem convite ou pedido de licença.

    Sente um burburinho atravessar a caixa e está de volta a Rimini, Maranello, Venezia, Napoli, Capri, Milano. Quatro décadas resumidas em quarenta segundos, alisar dos dedos em unidades fotográficas brilhantes. Quarenta amontoados de papéis dentro da mesma caixa, tudo mofo e saudade.

    Não só quarenta, nunca são; os passaportes perfurados pela aposentadoria documental precoce, carimbos:
    ■ Sofia, a língua complexa, as construções monumentais, neve, amigos, entender a palavra банан (banana), se encantar com o suco de sua fruta favorita e, desde então, fazê-lo sempre para as visitas em sua casa;
    ■ Budapeste – o rio Danúbio e os deslumbramentos de passear à noite e em pleno domingo cheio de vida urbana;
    ■ Bruxelas – sabor das belgium fries, batatas fritas duas vezes, chocolates, o manneken pis que urina orgulhoso na fonte desde 1619, os raios de luz dentro das Igrejas.
    ■ Fez – com o arrastar do sari pela medina, todas as compras inusitadas dentro de uma farmácia, os curtumes e hortelã, o passar pela Al Quaraouiyine, mais antiga universidade do mundo;
    ■ Deserto do Saara – com suas tempestades de areia e neve, babuínos e artistas que pareciam entender e responder todas as línguas do mundo;
    ■ Londres, com seus ônibus duplex vermelhos, táxis pretos; pubs, cultura, chuva e a inesperada gentileza e atenção inglesas;
    ■ Paris e seus odores particulares – deveras compreensível o lançamento das fragrâncias mundiais tão emblemáticas -, os picnics pelos bancos, a surpresa de ver Notre Dame (antes do incêndio) pela primeira vez, percurso com os olhos fechados por dedos carinhosos e as lágrimas que não cessavam perante tanta beleza;
    ■ Versalhes sem adentrar o Palácio, mas vivenciando a cidade, as feirinhas locais.
    ■ Poissy para única e exclusivamente conhecer in persona os sete pilares do modernismo original, a morada do sonho coletivo de então;
    ■ Plovdiv, as ruínas romanas, a cidade repleta de pedras.
    ■ Praga, suas pontes, seus artistas, tantos passos ao sabor do que quis fazer sozinha.
    ■ Porto – restrito ao Porto da mesma cidade, as passagens vívidas pelas janelas do trem.
    ■ Lisboa, pastel de Belém, teleférico com vista para o Tejo e um cartão postal em cortiça.
    ■ Barcelona, as ramblas, o desejo de experimentar ser uma local.

    De além mar:
    ■ Montevideo e
    ■ Colonia del Sacramento, chorizo, cerveza e lindas recordações de registros perdidos nos Hds da vida.

    A maioria dos cartões dos hotéis, notas fiscais de restaurantes, supermercados, rastros das experiências cuja tinta despreende-se da realidade. Croquis apressados em cadernos de capa mole, telefones que não levarão a lugar algum, trajetos riscados à caneta bic, nanquim e grafite 0.7 de lapiseira. A coleção de bótons de cada país visitado. Uma miscelânea de coisas que só para ela são tesouro. Para o resto do mundo, apenas tralha.

    Um enjoo sem causa, nascido do nada, como se o mundo oscilasse para frente e para trás: ecos de músicas, um acordeão inesquecível em um beco em Perugia desafia o artista performático – que toca instrumentos demais concomitantemente – em uma ponte praguense. Sol de inverno, chuva de verão. O amigo mexicano ao lado, rindo com ela. Perugia volta ao seu coração como quem pisca. Quatro anos depois, o mesmo acordeonista a reverencia em uma foto já desbotada. Era um festival de chocolates, o sabor dos baci ainda grudados na língua.

    Mais uma vez um mal-estar súbito. O visco da pele fotográfica parecia o mesmo, até confrontar-se com o espelho. O chão parece escapar-lhe dos pés. O amor pela vida sobrevive, mesmo com as desventuras insistindo em fazer fila nos últimos anos. Tem certeza de ser a mesma dos registros instantâneos de outrora.

    Havia ainda outros retratos: a terma solitária, na qual fora seguida por um brutamontes local, nenhum falando a língua do outro, o pânico. A terma seguinte, cheirando a enxofre, com o namorado que durou. A famosa rua vermelha holandesa, maconha única e sem efeito – pura imersão cultural -, um ex-marido rindo. A saga por casas de um euro com o namorado que costurara sua vida, tantas histórias que nunca se tornaram registros. Cartas de amores e amigos. Um affair da internet que mandava envelopes pelo correio, um namorado da faculdade que a fizera conhecer o sul do Brasil em um evento como se fosse aluna de outro curso. O primeiro passeio de metrô e de barca, a primeira vez na Confeitaria Colombo, todas as primeiras coisas com o primeiro amor, quem a ensinou a jogar xadrez, a escrever e a dirigir. Os planos de uma viagem com um ex que se tornou amigo e nunca aconteceu. A promessa de desbravar o mundo, sozinha ou acompanhada.

    Tudo em um breve e intenso espaço de quarenta anos… – como passa depressa..!

    “La vita è adesso” (a vida é agora), diria um Renato Russo confinado em CD de capa amarela. “La vita è troppo breve per mangiare e bere male” (a vida é breve demais para comer e beber mal) – a máxima estampada em um mercado italiano que já chegou ao Brasil, e que faz todo o sentido.

    Sobre o sofá-cama aberto, esse objeto solitário como Vera, feito para viver entre duas funções e seguir indefinido, a caixa, uma taça de vinho tinto, pães e azeite. Um vinil garimpado em sebo toca no portátil que presenteara ao pai, e lhe coubera de herança. A conversa muda entre Marcel Proust e Byung-Chul Han sobre a busca de outro tempo e o tempo perdido. O tempo nunca cronológico, sempre perfume, presença, ferida, doce, salgados e amargos e mergulhos num passado por vezes modificado. Um pretérito que perfura o presente, deixando de fora smartfones. A roomate turca, o último passeio no mini-metrô perugino. Ela radiante pela liberdade enganosa de não ter que usar véu fora de seu país, o noivo que a impedia pelo telefone de passear com os novos amigos. Tudo aconteceu há tanto tempo..! Perderam contato, Vera se pergunta sobre a felicidade atual da amiga, quando o véu já não é mais obrigatório por lei em Istambul. Quase irmãs, graças al bel paese. Quase desconhecidas, graças ao tempo.

    O chiado da agulha pede o outro lado do vinil. A garrafa de vinho parece um conta gotas com o que resta do líquido. As quinquilharias jazem à meia-luz, inertes na indecisão do mobiliário entre cama e sofá. Um odor extasiante de recortes e invencionices inocentes, lembranças de outrora – utopia juvenil? – impregna todo o ambiente, mas termina por adquirir o sabor cítrico, crítico e desilusório na memória de uma adulta de avançada idade. No banheiro estreito, metálico, Vera outra vez no espelho sorri. Atenta como há muito não fazia. Os lábios suavisam, vê-se vazia, pele enrugada, olhar triste e perdido. A vida já passara por ali, agora vinha como aquela visita inesperada, que ninguém quer receber.

    Aurora, quase. Água quente na pia. Rosto refletido, defletido, molhado. Não sabe o que vem vindo: pela janela escotilha só água, único horizonte. Dizem que tudo se cura em água salgada: suor, lágrimas e mar. Vera sorri; o navio balança. É a vez do mar.

    — Memória datada de 07 de setembro de 2045, no Estreito de Gibraltar (35.972705, -5.702652).

  • O diário secreto de Miss Marple

    O ritual da noite era sempre o mesmo: minha irmã fechava as portas do armário, apagava a luz e decretava silêncio. Só então eu podia, sorrateiramente, pegar o meu livro, lápis, um caderninho e me esgueirar para o meu refúgio de leitura noturna – o banheiro– nada confortável, convenhamos, mas privativo, o que considerava um privilégio.

    O livro escolhido era adequado a essa leitura furtiva – algum título da coleção de Agatha Christie que minha mãe guardava na biblioteca. O Assassinato do Expresso Oriente, Morte no Nilo, Appointment With Death, Poirot Perde uma Cliente…. lia avidamente todas essas histórias que envolviam mistérios, crimes, e finais surpreendentes. Me encantava com Poirot, o investigador astuto e bigodudo e Miss Marple, uma velhinha a quem não se dava o menor crédito como investigadora, mas era brilhante ao tecer a linha de raciocínio dos assassinos e chegar ao desfecho do crime.

    Na minha mente infanto-juvenil me imaginava parte da trama, escondida atrás de uma cortina a observar uma atitude suspeita, aflita para poder trocar ideias com Poirot sobre as minhas hipóteses. No silêncio espesso da madrugada pensava: E se fosse ali, na minha banheira amarela, que encontrassem o próximo corpo? Isso me fazia esquecer completamente a pouca luz do ambiente, a dor nas costas de ficar sentada no chão e o silêncio da casa que, muitas vezes, me fazia imaginar que alguém abriria a porta e eu é que seria a próxima vítima.

    Aquelas anotações noturnas foram meu primeiro ensaio de investigação – mas não de crimes, e sim de mim mesma. Naquele pequeno banheiro de ladrilhos amarelos, cercada de meus companheiros da noite, eu tinha voz própria, acolhimento e o respeito que me faltava pela singularidade de menina fora da roda.

    Minha leitura era intercalada por momentos em que registrava no caderninho reflexões sobre a vida fora da fantasia, as descobertas reais sobre mim e sobre os outros participantes do duelo entre a inocência da infância e a impiedade da adolescência… enigmas que nem Miss Marple, com sua clarividência própria de uma mulher, conseguiria decifrar.

    Esse diário foi a porta de entrada para, muitas décadas mais tarde, me aventurar pela escrita criativa, refugiada em um outro espaço ladrilhado que foi o isolamento durante a Pandemia.

    Fui buscar lá no fundo minha veia investigativa para me dedicar aos contos de ficção, deixando sempre uma porta aberta no final dos textos para que o leitor pudesse fazer a suas próprias descobertas. Não é por menos que o meu primeiro livro de contos, se chama “Conto ou não conto”. Tenho certeza de que Miss Marple gostaria desse título.

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar