Eu também tinha visto aqueles lábios torcidos em uma expressão de humor irônico. Parecia quase desnecessário, mas a presença do “quase” – termozinho safado! – faz toda a diferença.
Traja o tipo de humor que eu gosto, do tipo que não se importa em zombar de si mesmo, verdadeira leveza e certificação de se estar vivo.
Mesmo que a milhas náuticas de distância, poética unidade que mede o mar a partir do céu, um belo dia, num domingo posterior ao original, o Domingos contestou-me:
Por acaso você foi ao dicionário pesquisar o significado da palavra esquisito?
Então aqui nasce a parte II de “Esquisito Íntimo” – é deselegante deixar um leitor sem respostas.
“Esquisito:
Palavrinha sorrateira que passa pela boca aos pulinhos, estalando a língua como se estalasse cascas de noz. É um vocábulo inquieto; dito repetidas vezes e depressa, parece um chiado qualquer — dessas TVs antigas que saíam do ar e preenchiam a tela com pixels* preto e branco dançantes. Uma quase hipnose”.
Ela estala na língua e, agora, reverbera no paladar. Em italiano, squisito escorre, redondo, como um elogio que desliza fácil. Sinto-o na boca como quem descreve um prato raro, delicado, escolhido a dedo. O dedo indicador, então, sem pedir licença, desenha pequenos círculos na bochecha — gesto “tutto buono” de quem prova algo bom demais para ser apenas cotidiano.
E então, como quem puxa um fio antigo, chegamos ao latim: exquisitus.
Aquilo que foi procurado com cuidado.
Escolhido. Refinado. Raro.
Esquisito, portanto, já foi elogio. E ainda é, na Itália. Também na Espanha.
E talvez na nossa língua faceira ainda seja — em alguma versão paralela de universo onde as palavras não se apressam em caber no mundo. Aqui, neste português nosso de cada dia, esquisito virou outra coisa.
Escorregou.
Sofreu uma leve torção de sentido, sem fazer barulho, mas alterando destinos:
- O que era raro passou a incomum;
- O que era incomum, estranho;
- O estranho, caros leitores, por fim, tornou-se esquisito.
Há algo de profundamente humano nessa queda semântica.
Aquilo que exige mais olhar, incomoda quem não quer ver.
Assisti Passageiros e, pela primeira vez, não me senti exquisita — no sentido latino da palavra. Não me senti escolhida, nem rara, nem lapidada pelo cuidado do mundo.
Senti-me… esquisita.
Nada elegante.
Nada refinada.
Nada desses termos que se provam com deleite.
Mais próxima da apropriação brasileira do termo.
Mais próxima de um desalinho.
Mais próxima de todas as dúvidas.
Houve um instante — curto, mas inteiro — em que me perguntei, com uma seriedade quase infantil:
E se eu não estiver mais aqui?
Não morta, no sentido dramático que os vivos gostam de dar às coisas. Deslocada. Imprecisa.
Como se a minha existência escapasse um centímetro para fora do enquadro — o suficiente para que eu ainda me enxergue, mas não me reconheça.
Lembrei de uma senhora em uma pegadinha televisionada. Do susto genuíno ao não encontrar o próprio reflexo num espelho que não era espelho. Da gargalhada que me tomou em São Paulo, livre, despreocupada, viva, espontânea.
E, ainda assim, eis-me agora, dias depoiss, tocando a mesma ideia — mas por dentro, intimamente. De um jeito… esquisito íntimo.
Quiçá o esquisito íntimo seja isso: não aquilo que o mundo estranha em nós, mas sim o ponto exato em que deixamos de coincidir conosco.
Entre o que fomos escolhidos para ser e o que nos tornamos ao longo de travessias.
Há distâncias que não se medem em quilômetros. Sequer em milhas náuticas: medem-se em pequenas falhas de percepção.
Em lapsos de presença.
Em segundos em que o real vacila — e vacilamos, com ele.
Ainda assim, há uma beleza quase indevida nisso tudo.
Ser esquisito — no sentido primeiro — talvez seja justamente não caber.
Não se deixar reduzir.
Não se tornar tão comum a ponto de desaparecer dentro do próprio reflexo.
Talvez eu esteja, afinal, perigosamente viva.