Literatura

  • Feliz Natal

    Ouvia logo cedo a música Why is it so hard, do Charles Bradley, enquanto bebericava uma cachaça Ambirá, trazida de Minas no verão passado. Acho que combinam, a música e a cachaça, fortes e encorpadas, uma canção não pasteurizada e uma pinga de alambique. Sim, sou dos que bebem pela manhã, sobretudo nas férias.

    Findava a primeira dose quando percebi estarmos em pleno 25 de dezembro. Uma data especial, sem dúvidas. Um dia para rezar, celebrar, agradecer, refletir. O natal é sempre tempo de rever conceitos, de perdoar, de amar o próximo. E, claro, de encaminhar um generoso feliz natal a todos.

    Começo, então, servindo uma segunda dose e desejando um feliz natal ao vizinho que ouve músicas pornográficas num volume absurdo em boa parte do fim de semana. Almejo, naturalmente, só o melhor para ele e para as caixas de som do seu Gol rebaixado. Feliz natal e boas noites de sono, vizinho!

    Noutro gole mando um feliz natal ao prefeito, ao vice e aos vereadores. Embora a opinião pública discorde, acho justo o aumento de 70% nos seus honorários, bem como os adicionais e férias. Nem todos demonstram essa coragem e discernimento, afinal, bons profissionais merecem salários compatíveis com a sua importância perante a sociedade e, além do mais, ainda há muito trabalho pela frente (todo, na verdade, pois recém foram diplomados e nem assumiram os tão almejados cargos). Queria eu ter a
    mesma sorte. Na adolescência, quando disse ao dono da serralheria que gostaria de ganhar duas vezes o que me oferecera, fui dispensado aos risos. Seria o meu primeiro emprego, veja só. Para os estimados políticos, entretanto, um ótimo, feliz e farto natal!

    Não posso esquecer do indivíduo que riscou o muro da minha casa na semana passada, desenhando nele um proeminente objeto fálico. Espero que descubra uma vocação artística e que esta data o faça refletir sobre onde enfiar os seus sprays. Gostaria de conhecê-lo, inclusive, pois se trata de um talento que merece ser enaltecido. Um feliz e protuberante natal!

    Feliz natal ao banco que jura meus débitos à velocidade da luz. Ainda aguardo o momento para debatermos o assunto, mas torço para que o 25 de dezembro o deixe amolecido, sobretudo quando negociar com esse pobre moribundo. Um rico e feliz natal! O Charles Bradley agora dá lugar à Janis Joplin, com Little girl blue. A trilha sonora perfeita para um trago.

    Nessa data importante, jamais deixaria de endereçar um feliz natal à Ford, que em irrelevantes tempos produziu um câmbio automático chamado Powershift e, naturalmente sem querer, causou-me um prejuízo de quase trinta mil reais. O importante é que essa mágoa já passou, ou melhor, está passando (depende também da colaboração do banco, mas isso é outra história). Torço por um natal renovador e cheio de esperanças para os engenheiros da marca. Um eficiente e feliz natal!

    Num último gole lembro dos Correios. Tenho certeza que os pequenos extravios ocorrem por motivos alheios à sua vontade. Devo dizer que hoje já não me importo com aquele livro raro perdido nalguma insipiente viagem dos seus caminhões Brasil afora. Talvez devesse pedir desculpas aos atendentes a quem ameacei. Quem sabe amanhã lhes envie um chocotone em sinal de paz. A estrada é mesmo sinuosa. Pois bem, apesar dos infortúnios, espero que desfrutem de um retilíneo e feliz natal!

    Antes de servir uma derradeira (ou não) terceira dose, desejo também um ótimo natal a você, amigo leitor! Anseio por dias melhores e realizações no próximo ano, com bebidas fortes e boa música, com harmonia e fraternidade. Que esta data o aproxime de Deus e que o bom velhinho não esqueça do seu presente. De minha parte, não se preocupe, rezarei por você. Feliz natal!


  • Poesias de 1 a 99

    04# – RÉQUIEM I

    Estou hoje calado
    como se houvesse
    roubado o silêncio
    dos mortos.

    Estou hoje tranquilo
    como se a calma
    fosse um atributo
    dos homens enfermos.

    Estou hoje festivo
    como se estivesse
    numa festa, e lúcido,
    como se a lucidez
    fosse a própria festa.

    Estou hoje vencido
    como se soubesse a verdade
    e sozinho vou indo mesmo
    a uma festa, atendendo ao
    convite dos mortos.


    05# – RÉQUIEM II

    cérebro inchado
    em recônditas gavetas,
    minha cabeça não deixa
    de doer. fui de mim
    o meu maior inimigo.


  • SEM TÍTULO, dezembro dois mil e vinte e quatro

    Ler – sendo eu o “recheio de um sanduíche” composto pelo conjunto de lençóis praticamente novos, verdes, vacilando entre o algodão 100% liso e o de arabescos geométricos, aroma envolvente de quem acabou de sair da máquina lava e seca -, confortavelmente descansando as intermináveis horas de trabalho que se seguiram nas últimas semanas – mal tive tempo de me deitar ou introjetar minha nova idade, não fosse a viagem – que sempre faz parte do meu ritual de ano novo pessoal. Pois bem.

    Aqui estou eu, a ler um livro pelo qual me apaixonei a partir de uma minissérie na Netflix; nos esbarramos em uma feira de sebos na praça central da cidade, eu que passei e ele que segurou decidido meu braço esquerdo, em meio a profusão de outros livros, e disse “desculpe.. hey, oi, tudo bem?! Olha quem está aqui, que coincidência! vamos tomar um café e ir para um lugar mais… privativo?” Sem ter como contradizer a cantada – muito da bem arquitetada – e com o tal apetite de leitor faminto e sempre, sempre à caça literária a me cutucar, paguei pelo café, onde fomos logo em seguida nos conhecer, e trouxe não só o homônimo da telinha para casa, como um segundo volume do mesmo autor, muito superior em páginas. Me dou de presente esses momentos após uma exaustão daquelas, na qual o único conforto é por em ordem a caixola pensante, como se organizasse meus armários, limpasse o banheiro e ordenasse os itens que descansam ou apodrecem na geladeira. Zeca me acompanha, pêlos brilhantes e cheirosos do segundo dia pós-banho profissional no pet shop – e incontáveis lenços umedecidos, escovações de pêlos e dentes -, em suas poses que fazem meu coração transbordar de amor, de agradecimento por sua companhia fiel e vigília incanssável.

    Pela inteligência sem igual e sempre sorrisos – e pedidos de comidas e petiscos. Sobre a cama, eu e Zeca nos entretemos em nossas atividades, cada um na sua. Um mesmo colchão, dois mundos que não se misturam, mas convivem em perfeita harmonia. E para saudar as festividades de fim de ano, que estão em baixa por aqui pelas baixas que a vida nos impôs ao longo dos últimos meses, pedi a Alexa que tocasse músicas natalinas.

    Jingles conhecidos, outros novos, alguns jazz e assim seguiram-se 40 páginas. Meu ser de quatro patas prefere o chão duro e o espaço imediatamente acima – quase inexistente – entre o fundo da minha cama box e a superfície preferida pelos pés descalços à cama delícia, colchão de molas. Em questão de instantes, divido-o apenas com Anthony Doerr. Entre pernas que se entrelaçam – as minhas -, e as que me devoram – o livro -, este texto poderia muito bem se encaixar na coluna Contos Eróticos, inaugurada pela minha querida amiga e também sagitariana Carol Meyer, mas basta um pouco de imaginação para perceber que Zeca e Doerr estão sempre pela cama, e nada além de pêlos e palavras servem como prova de uma tórrida cena de prazer – há distintas formas de se gozar a vida. Qual não foi minha surpresa, contígua a um sonoro “Happy Christmans everybody”, o preto no branco da sentença do último parágrafo do capítulo em que pausaria a leitura desta noite:

    “Madame morreu, madame morreu”.

    Respirei fundo, encarei a dupla página que me contava a notícia, levantei o rosto em direção a uma Alexa festeira às 23h de uma sexta-feira pré Natal. “Alexa, volume 2”. Zeca ronca alto, a cama estremece. Como podem, também, os personagens terem suas mortes ressoando dentro de quem as lê?

    Respiro profundamente. Fecho os olhos, medito, rezo. Pondero sobre ler mais umas páginas para aliviar o novo luto. Faltam poucos dias para não ser mais 2024. Guizos chacoalham minh’alma

    “Must be Santa… Must be Santa… Must be Santa…. Santa Klaus!”


  • A filha do Frankenstein

    Quando minha mãe ficou grávida de novo, meu pai me disse que, dali em diante, eu teria que ir sozinho à escola, pra que ela pudesse descansar. No começo, tive nojo dos vômitos dela, sempre na hora em que estávamos comendo, depois me acostumei. Ela vomitava numa toalha felpuda que logo era jogada na máquina de lavar. Depois os enjoos diminuíram conforme a barriga crescia. Passou a devorar tudo o que encontrava pela frente, até os meus salgadinhos. Por sorte meu pai sempre comprava mais, então não senti tanta falta. Minha mãe comia escondido dele, pra não levar bronca.

    Com o passar dos meses fui perdendo minha mãe. Aquela pata que andava pela casa arrastando os chinelos, com as pernas inchadas e a barriga como se tivesse engolido a lua cheia, não era a minha mãe. Ela parecia estar em outro mundo e já não se importava mais comigo. Não fazia a minha vitamina de manhã nem o bifinho do almoço. Estava sempre nervosa e deixou de corrigir minha lição de casa. Eu tirava nota alta, mas ela não me dava parabéns nem beijo como antes. Meu pai comprava comida congelada na mercearia do seu Jaime, e eu tinha que comer aquilo, mesmo quando eu falava que tinha vontade da comida que minha mãe fazia antes.

    Eu não gostei de ver minha mãe barriguda. Outro dia ela perguntou se eu queria ter um irmãozinho ou irmãzinha, e eu disse que pouco me importava e que era melhor que nem nascesse. Ou que nascesse com cabeça grande como uma bola de capotão, assim eu ia chutar ela no campinho atrás de casa.

    Uma noite, depois de comer sozinha uma lasanha inteira, minha mãe se levantou e viu que na cadeira tinha uma mancha de sangue. Meu pai correu com ela até o hospital e me deixaram com a Dolores, a empregada. Quando voltaram, disseram que era uma irmãzinha, mas que tinha nascido morta. Depois minha mãe foi pra cama descansar e meu pai falou pra eu ficar quieto e não fazer barulho. Eu matutei bastante, mas ainda não sei se fiquei feliz ou não. Já tinha me acostumado com a ideia de dividir o colo de minha mãe com essa outra coisa que estava pra chegar. Mas agora não vinha ninguém, e tudo ia continuar como antes. Acho que foi melhor assim.

    Comecei a imaginar que cara minha irmãzinha teria, mas no meu pensamento só apareceu a imagem da filha do Frankenstein, que eu vi num gibi e era a única menina morta que eu conhecia. Se minha irmãzinha fosse assim, seria muito feia. Ainda bem que ela não nasceu.


  • Por trás do muro azul

    Todos os dias ela saia às 16 horas em ponto. Seu destino era certo, mas ninguém sabia suas motivações. Nem mesmo seu marido, que nunca desconfiou dessas saídas no meio da tarde de Ana Maria. Ela nunca lhe deu motivo para desconfiança, mesmo sendo ainda muito bonita e com corpo esbelto. Devota, mulher prendada e dedicada a ele, Rogério saia tranquilo todos os dias para o trabalho sem nunca imaginar o que acontecia no íntimo de sua quase santa esposa.

    Ana se olhava no espelho de novo, querendo enxergar através dos seus olhos azuis que pareciam estar ficando cinza. Será que ela estava perdendo o brilho? A vida não tinha sido fácil, afinal. Nada a reclamar, pois tinha um bom marido, um belo lar… Ou melhor, uma bela casa. Um lar, para ela, era um lugar repleto de alegria e barulho. E filhos. Coisa que Deus não a permitiu ter. Teria sido mesmo Deus?

    Depois de três abortos eles finalmente desistiram. Seu corpo não aguentava mais, sua alma se dilacerava a cada perda e seus olhos perdiam aquela luz que se acendia a cada resultado positivo. Seu imaginário dançava novamente pensando em nomes, comprando roupinhas, pintando paredes do quarto, mobiliando sonhos. Tinha algo errado com seu útero, alguma doença com nome estranho e nada ficava por ali. Ela sorria por três meses, no máximo. Ficava de repouso, fazia promessas, evitava até beijar o marido para não ter vontades e colocar tudo a perder. Mas nada adiantava. Ela não tinha sido feita para ser mãe.

    Depois da dor quase enterrada, Rogério veio com a ideia de adotar. Tanta gente adota, afinal. Mas não seria a mesma coisa. Ana queria sentir a barriga crescer, seu filho ou filha mexer dentro dela, ter todo um processo de espera, de escolhas, do amor que cresce e transborda junto com a barriga e o leite que escorre quente pelos seios. Por que justo ela não poderia passar por todas as dores e delícias de parir? Será que era seca, como dizia a sua avó? Gente seca normalmente é ruim, pensou ela. Será que sou tão ruim assim?

    Esse pensamento a despertou para a hora. Não poderia chegar atrasada, por favor! Ela precisava estar presente ao seu compromisso, presente e inteira. Tentou se distrair pela rua, pensando em coisas boas. Mas estava especialmente melancólica naquele dia. Vendo flores e enxergando apenas flores, não o perfume, as cores e até os pássaros que cantam ao seu redor como percebem os apaixonados. Era como se previsse algo, com o coração apertado e o pensamento longe. Quase foi atropelada por uma bicicleta, tamanha a sua distração. Ouviu resignada o rapaz raivoso a mandar para lugares inomináveis e seguiu seu caminho. Tinha certeza que no próximo quarteirão se sentiria melhor. Seu compromisso ficava por trás de um grande muro azul e, lá, tudo era perfeição.

    Rogério chegou em casa como de costume às 19 horas e um cheiro bom de feijão vinha da cozinha. Ana Maria estava de costas e ele vislumbrou o corpo da esposa, um típico violão. Belas ancas, cintura ainda finas, os ombros delicados e penugens louras descendo pelo pescoço. Ela prendia os longos cabelos ao cozinhar e sua nuca, nua, ainda arrepiava Rogério como no começo do namoro. Ele a enlaçou pela cintura e lhe deu uma mordida leve no pescoço. Ana se assustou, mas deixou o corpo solto nas mãos do marido. Que susto, querido!

    Voltando seu rosto para ele, o beijo foi inevitável e parecia que o feijão ia queimar também. Há tempos eles não se amavam e a fome se transformou em ação. Talvez já fosse hora de esquecer um pouco as amarguras e deixar a vida mais leve. O corpo de Ana pedia esse carinho, mas as lembranças a impediam de gozar. O sexo era quase sempre um martírio, pois ela nutria esperanças vãs e o fato de não mais poder engravidar tornava tudo estranho ao seu olhar. Não se sentia mãe, mulher, nada. Não se achava nada mais.

    Rogério fechou os olhos e colocou a mão por debaixo da saia de Ana. Com movimentos doces, levou sua mulher a um gozo que ela há muito não sentia. Ficou quase constrangida com o líquido que escorria pela sua perna e tentou se segurar. Mas precisava de mais e trouxe Rogério para dentro de si. No chão da cozinha, como uma adolescente. Ele se espantou com tamanha impetuosidade e foi ainda mais doce, demorando a gozar e fazendo Ana se desmanchar agarrando seus seios com força enquanto jorrava entre suas pernas. Exaustos e satisfeitos, gargalharam com toda a situação: nus, no chão, mal conseguiam se levantar sem o apoio do fogão. Não temos mais idade para isso! Riu Rogério.

    Recomposta, Ana colocou a mesa e começaram a conversar sobre o dia. Ele, todo satisfeito com o trabalho, novos colegas chegando da filial de Salvador e Ana notou uma entonação diferente quando ele comentou sobre uma tal Larissa. Moça nova, trabalhadora e esforçada, dizia ele. É bonita? Ela pensou, mas não perguntou. Bobagem, devo estar na TPM e inventando coisas. Queria contar também sobre o seu dia, mas se restringiu a falar como os preços subiram no supermercado. Daqui a pouco, vamos comer farinha com água, dramatizou. Pratos recolhidos, se aconchegaram no sofá para ver o jornal. Ele, conferindo números e fazendo conjecturas como se o apresentador lhe ouvisse. Ela, pensando em como a noite seria longa até seu compromisso de amanhã.

    No meio da tarde, Rogério liga com a voz histérica querendo respostas. Ana, minha filha, você não pode acreditar. Vamos nos mudar! Mudar como, homem? A filial de Salvador precisava de um bom gerente e nada melhor do que alguém com larga experiência como ele. Acostumada com sua vida em São Paulo, Ana Maria declinou. Não vou mesmo. O que tem pra fazer em Salvador? Rogério se segurou para não dizer: o mesmo que tu faz aqui, mas não queria ofender a esposa. Sabia de toda a sua dor e sempre preferiu que ela ficasse em casa cuidando de tudo. Não por machismo, mas como o dinheiro sobrava, dava para manter muito bem os dois. Quando Ana teve o último aborto, pensou até em sugerir que ela voltasse a ser professora, mas achou que ela talvez fosse ficar deprimida perto de crianças. Ela se fechou no seu mundo, ele teve medo de entrar e dois deixaram as coisas caminharem por si. Mas agora a vida ia mudar!

    Ana desligou o telefone e ficou pensando em como iria tirar essa ideia maluca da cabeça do marido. Que se dane a empresa, ele pode muito bem se recusar a um pedido deles! Não poderia estar tão longe do seu compromisso, da alegria por trás do muro azul. Não aguentaria mais uma perda, não mais. Ia se separar, pronto. Ele que fosse e deixasse ela lá. Tirou logo a ideia da cabeça. Amava Rogério, sem dúvida que amava. E imagina ele em Salvador, solto. Deus me livre! Pensou em esfriar a cabeça e foi tomar banho. Sentiu a água quente descendo pelo corpo. Lembrou-se da noite anterior, os dois no chão da cozinha e seu gozo escorrendo pelas pernas. Sorriu para si. Sim, amava Rogério. Resolveu relaxar e se masturbou. Sentiu cada pedaço do seu corpo como há muito tempo não sentia. Se sentiu bonita. Seu corpo continuava firme, com curvas delicadas, penugens louras nas coxas e se tocou com ardor. Fez amor com ela mesma.

    O muro azul continuava ali, mas ela achava que ele tinha ido embora. Para Salvador, junto com ela, dentro da mala. Chegou no local às lágrimas, como se fosse mudar no outro dia. Que desespero, meu Deus. O que vou fazer? Contar a Rogério? Ele não entenderia. Talvez risse de mim. Por mais encantador e compreensivo que ele fosse, era homem. E como todo homem, era prático. Sentimentos e apegos não eram com ele. Nada que ela falasse ou que precisasse seria suficiente para ele desistir da ideia de Salvador. Será que essa tal Larissa também vai estar lá? Será que é por isso que ele quer se mudar? Que louca eu sou, meu Deus. Pra que pensar tanto? Às vezes queria ter um botão de liga e desliga para simplesmente parar de pensar. Claro que não acreditava que seu marido era 100% fiel. E foi ensinada a entender isso. Homens têm necessidades que as mulheres não têm, aconselhava a sua mãe. Se ele te der uma casa, te sustentar e não te bater, já se de por satisfeita.

    Sua mãe apanhou a vida inteira e é claro que seus pré-requisitos para um homem ideal eram bem baixos. Quando Ana começou a namorar, o único conselho que recebeu da mãe foi para casar virgem. Homem não respeita mulher que já deu. Nem que goste de sexo. Putaria ele faz com as putas. Seja uma mulher direita e uma boa dona de casa. Lhe dê filhos e o resto você finge que não vê. Ana conseguiu se segurar até o casamento, por mais que quisesse muito se entregar para aquele homem que mexia nos seus seios dentro do carro e fazia suas coxas umedecerem. Aquilo era gozar? Toda vez que ela molhava o vestido sentia uma culpa imensa e ficava com medo dele perceber. Tinha vergonha de querer ele tanto e medo dele achar que ela gostava de sexo. Custou a se segurar e fez de tudo para apressar o casamento. Queria Rogério dentro dela, sobre ela, para sempre.

    Na noite de núpcias, Ana Maria se fez a mais bela das mulheres. Depois do casamento na igreja, com direito ao seu pai levá-la no altar com um orgulho besta por ela ainda ser virgem, se refastelaram na festa oferecida pelo seu padrinho, fazendeiro rico do sul de Minas. Sua mãe, mais aliviada do que exatamente feliz – Ana era a última das filhas a se casar, suas irmãs já estavam parindo netos sem parar – eles finalmente foram para o hotel. Ela preferiu assim, passar a noite na cidade antes de embarcar para Buenos Aires. Não se aguentava mais e ficou com medo de morrer virgem no avião. Deus me livre! Colocou a camisola preta que havia comprado escondida – preto e vermelho eram cores de puta – e mais nada. Teve a coragem de não colocar a calcinha que vinha junto e apenas perfumou seus seios e suas coxas para quando Rogério finalmente a tomasse para si. Não tinha mais vergonhas nem pudores. Queria apenas ser do seu homem.

    Rogério continuava imaginando a nova vida em Salvador com um sorriso besta no rosto. Quem sabe Ana não se animava, tomava uma cor e toda noite seria como a anterior? Tinha tempo que eles não faziam amor e Rogério estava quase desistindo da mulher. Pensou até em pagar uma puta, tamanha era sua aflição. Resistiu bravamente às investidas de Larissa, que há tempos debruçava sobre a sua mesa mostrando muito mais do que documentos. Acabou falando o nome dela por puro problema de consciência, como se fosse uma novata. Que Deus me perdoe, mas não queria magoar a esposa. Era o estilo pijamão com muito orgulho. Os amigos até tentavam apresentar mulheres para ele, levar para a caça, mas Rogério era fiel a Ana. Até em pensamento. Desde o primeiro dia que se viram. Ele nunca imaginou sentir aquele amor todo por alguém, mas quando deu de cara com Ana imaginou: Essa mulher vai ser a mãe dos meus filhos.

    Pena que nem tudo que ele pensou para os dois se concretizou. Rogério ficou casto até o casamento, por mais que quisesse dar suas escapadas. Você é muito trouxa, diziam os amigos. A Ana, tudo bem, se guardar para você. Mas tu, Rogério, que já pegou metade de Saquarema? Faça-me o favor! Trouxa! Mas Rogério não queria nem ao menos outro perfume. Dormia e acordava com o cheiro de jasmim de Ana no seu travesseiro e imaginava aquele corpo branco deitado na sua cama. Imaginava a boca de Ana se abrindo para ele, os cabelos deslizando nos seus lençóis e suas pernas longas com aquelas penugens louras se cruzando em suas costas. Como amar outra mulher se ela era tudo que ele um dia imaginou ter? Filha caçula de pai militar, Ana havia sido muito bem criada, frequentado ótimos colégios e tinha um caráter inabalável. Sua mãe sempre se gabava da filha, apesar de levantar suspeitas por várias marcas roxas pelo corpo. A mãe de Rogério dizia que ela bebia até cair, mas ninguém nunca viu nada e Ana continuava sendo o melhor partido da cidade. E foi gostar justamente dele. Que sorte maior ele poderia ter?

    O telefone tocou estridente despertando Rogério das lembranças. Deve ser Ana, mudando de ideia, tão boa ela é. Vai me pedir desculpas por ter pensado o contrário e vai acatar a minha decisão, como sempre. Mas era uma voz de homem, rouca, ameaçadora. Você sabe onde a sua mulher está agora? É melhor ficar de olho! Um frio absoluto passou pela espinha de Rogério. O que seria isso? Uma brincadeira de mau gosto? Mal teve tempo de retrucar e a voz do outro lado havia sumido. Estava tão perdido que nem ouviu o clique do desligar. Estava zonzo, como se houvesse tomado de uma vez só a dose da cachaça da fazenda do seu primo de Minas. Ela desce arranhando a garganta e abre o chão que a gente pisa. Se apoiou na mesa e tentou raciocinar. Que bobagem era aquela? Desconfiar de Ana? Nunca! Olhou para o telefone e pensou em ligar para casa. Claro que ela estava lá, pensando no que fazer para a janta daquela noite, talvez até mesmo pensando em colocar uma lingerie nova para ele, surpresa das surpresas! Mas não custava conferir. Pegou o telefone. Discou. Ridículo, Rogério, ridículo. Não vou ceder ao jogo desse cretino que me ligou, é isso que ele quer. Ridículo. Mas não resistiu. Discou tremendo os números e começou a ouvir angustiado o som do telefone. Chamando uma, duas, 10 vezes. Deve estar tomando banho, pensou. Ligou de novo. Mais uma eternidade. Só pode ter ido ao supermercado. Claro! Rogério já suava frio e começou a imaginar Ana na cama com outro, como em um filme de Luis Buñel. Catherine Deneuve, a bela da tarde, olhava para ele de rabo de olho e dava uma piscada, alisando a perna de penugem loura de Ana enquanto esperavam o próximo cliente. Louco, só posso estar ficando louco.

    Ana Maria saía finalmente pelo muro azul e foi apreciando, de verdade, a paisagem. Como uma apaixonada pela vida. Como quem voltar a respirar. Se sentia bem todas as vezes que saía de lá e o trajeto para casa sempre era mais colorido, mais perfumado, mais feliz. Abriu a porta de casa cantarolando alguma daquelas canções que grudam na cabeça da gente e deu de cara com um Rogério transtornado. O rosto vermelho, como um lobo furioso, começou a pedir explicações. Por onde ela andava, afinal? Pega de surpresa, Ana gaguejou e sentiu o primeiro tapa na cara. Com a força, caiu no chão e começou a chorar. Rogério, ainda mais transtornado e sem saber o porquê de ter batido com tanta força na mulher, não sabia se a ajudava a levantar ou se dava outro tapa. Perguntou de novo onde ela estava, mas Ana mal conseguia mexer o maxilar. Ele se aproximou, e sentindo o cheiro do perfume e o vermelho do batom da mulher, não titubeou. Deu outro tapa e saiu. Vagabunda!

    Ana ainda segurava o rosto quando percebeu que o marido havia saído e se levantou. Ela tinha sangue nos lábios, talvez tivesse mordido a boca durante a briga. Não reconheceu naquele monstro o marido que havia passado por tanta coisa com ela. Um homem bom, educado, quase casto, como sua mãe mesmo dizia. Rogério era de família rica, nunca precisou se esforçar muito para ter o que queria. Seu pai, médico paulista renomado, sempre fez gosto com o casamento, enquanto a mãe teimava em achar defeitos em Ana. Como não conseguia nada, começou a atacar sua mãe. Inventava que a Dona Vivi bebia até cair, por isso vivia roxa. Mal sabia ela que cada roxo era um soco que o pai de Ana desferia quando ela se recusava a algo. Ou simplesmente por existir. Militar reformado, comandante Reis era duro com as filhas e insuportável com a mulher. Queria tudo perfeito, da cama até os pratos na cozinha. A comida tinha hora marcada, tempero certo e a hora da refeição era sagrada. Não podia ter conversa, barulho, os cotovelos para fora da mesa e até o jeito de pegar no talher era inspecionado por ele. Todas as filhas o temiam e nenhuma se lembra do seu abraço. Dona Vivi se resignava pela vida, dando desculpas pelo roxos, ouvindo maledicências e descobrindo, aqui e ali, os casos do marido pelos puteiros de Carmo do Rio Claro. Ela e todas as esposas da época.

    Ainda zonza, Ana Maria resolveu se levantar e entender o que havia acontecido. Aonde ela estava, era isso que ele queria saber? Meu Deus, será que alguém havia descoberto? Mas, se sim, seria motivo para tanto ódio de Rogério? Ficou com medo do retorno dele e resolveu sair de casa, pelo menos até entender o que havia acontecido. Juntou algumas roupas, calcinhas e cremes, ligou para uma das poucas amigas que ainda tinha e se foi. Nem um bilhete deixou, ele realmente não merecia. Ou melhor, ia deixar o número da casa da amiga. Melhor. Melhor? Não, não ia deixar nada. Ligaria no outro dia para o escritório, isso sim. Bateu a porta e pegou um ônibus até a Vila Mariana. Assim que entrou no pequeno apartamento, deu de cara com o rosto boquiaberto da amiga. Ela havia esquecido o quanto deveria estar roxa, pois a sua pele branca havia sido alvo de dois fortes tapas. Meu Deus, é por isso que todos me olhavam no ônibus, pensou. Vamos agora mesmo para uma delegacia, ele não pode fazer isso com você! Não, não precisa. Ele estava fora de si. Ainda não sei o que aconteceu. Deve haver uma explicação. Para isso? Acredito que não!

    Depois de andar como um zumbi pelas ruas, Rogério tomou coragem de voltar para casa. Meu Deus, porque tinha batido em Ana? Nem ao menos perguntou nada, nem esperou ela se defender. Talvez se ela não tivesse chegado cantando, toda feliz como uma mulher no cio, ele tivesse conseguido pensar. Mas ela estava linda, cheirosa, satisfeita…Claro que estava me traindo, claro! E voltou sem compras, então nada de supermercado. Vagabunda, era o que ela era. Meu Deus, mas não era possível. Eles tinham se amado na noite anterior, era real aquilo. E Ana nunca gostou muito de sexo, não teria porque trair. Será que ela estava apaixonada por outro? Mas quem, meu Deus, quem? Agora que ela está acuada, vai ser difícil descobrir alguma coisa. Por isso que ela não queria ir para Salvador, claro. Que burro eu fui, achando que ela era apegada a cidade, as amigas…Tinha macho na parada, é claro! Burro, meu Deus, burro. E ainda sendo fiel, resistindo a Larissa, sem pegar nenhuma puta, respeitando uma vagabunda…Burro!!!

    A noite, Ana não conseguiu dormir. Ainda tinha muita dor no rosto, por mais que sua amiga tivesse lhe dado 2 analgésicos. A dor era muito mais profunda e ela estava tentando montar as peças de um quebra cabeças bizarro. Tinha certeza que alguém deveria ter feito fofoca com Rogério, inventado algo para lhe desmoralizar. Quem? E porque? Rogério deveria estar pensando que ele o estava traindo, mas nunca poderia ter tido aquela reação, meu Deus. Ela, que sempre foi uma esposa devota, nunca lhe deu motivo para desconfiar de nada. Como ele poderia ter pensado isso dela? Ia ligar, com certeza, para o escritório. Com calma, tentar entender tudo. Depois? Não sei. Estava muito confusa ainda. Será que ele sentia falta dela? Será que já tinha voltado para casa? Deve ter ido pegar mulher, claro. E ainda ia se justificar, inventando uma traição dela. Canalha. Bruto. Preciso dormir. Ainda não sei se vou ligar.

    Em casa, Rogério só encontrou o vazio. Nada de Ana, de jantar, de nada. No quarto, poucas roupas e o cheiro de jasmim na penteadeira. Levou o perfume para o outro, vagabunda. Nenhum bilhete dava conta do paradeiro de Ana e Rogério entrou em desespero. Poderia estar sendo estúpido o bastante perdendo sua mulher sem nenhum motivo? Mas, por que então, ela havia saído de casa? Deve ter montado casa com amante, claro! Meus Deus, estou ficando louco. Preciso encontrar minha mulher. E se tudo tiver sido um grande mal entendido, como ela poderá me perdoar? Eu bati na minha mulher, meu Deus. A noite ia ser longa e Rogério nem tinha certeza se gostaria que o dia chegasse.

    Mas o dia veio e com ele novas dores no rosto de Ana. Com as bochechas inchadas e o coração aos pulos, ela ainda não sabia ao certo o que fazer. Olhou no relógio. 07:15. Dormiu mais do que achou que conseguiria. Com certeza foram os analgésicos. Pensou em fazer o café para amiga, se vestir e ir de encontro a Rogério, ainda em casa. Mas teve medo. Não sabia se ele ainda estava com raiva e nem ao menos o porquê. Imaginou o marido no puteiro, chegando em casa com cheiro de álcool e perfume barato de mulher, como tantas vezes viu seu pai entrar em casa de manhã antes de alvejar sua mãe, que ainda se dava ao trabalho de fazer o café para o seu carrasco. Tentou apagar a imagem suja da cabeça e pegou o telefone. Vou ouvir a voz dele primeiro, para sentir o seu ânimo. Seria melhor assim.

    Do outro lado da cidade, Rogério, ainda de camisa e gravata, se revirava no sofá. Não teve coragem de dormir na cama que foi, durante tantos anos, o local de encontro com Ana. Do amor com ela. Das negativas e tentativas frustradas durante os meses após os abortos. Ele sempre respeitou a dor da mulher, ficava imaginando a sua tristeza, o seu sofrimento. Até parava de pensar em sexo. Burro! O telefone tocava ao fundo e ele levantou ainda cambaleante com a cabeça zonza de raiva e culpa. Quem poderia ser tão cedo? Será que aconteceu alguma coisa com ?Ana? Meu Deus, o que ele teria feito? Era ela. A voz calma, perguntou com ele estava. Falsa, vagabunda. Como poderia estar o novo corno da cidade? Ótimo, claro! Ana não riu e ignorou o sarcasmo do marido. Ele parecia mais calmo, mas talvez fosse ainda pelo efeito do sono. A voz estava embargada e é claro que ele passou a noite na gandaia. Filho da puta. De qualquer maneira, precisamos conversar. Conversar? Pra que? Acho que devemos explicações. Podemos almoçar como pessoas civilizadas. Cretina, quer me contar o caso e ainda levar meu dinheiro. Claro, vamos almoçar, mas já vou avisando: Já falei com meu advogado.Tanto faz. E Ana desligou.

    Rogério tomou um banho rápido e foi para o escritório. Não tinha cabeça para nada, mas notou um burburinho incomum quando chegou na empresa. Não sabe o que aconteceu? Larissa foi encontrada morta em casa. Estão desconfiando do ex marido. Ele era muito ciumento, parece que nunca aceitou o fim do casamento e jurou acabar com a vida de todo mundo que ela dava em cima. Rogério sentiu o mesmo frio que gelou a sua espinha no momento do tal telefonema. Seria a mesma voz? Lembrou do tal ex marido de Larissa, um homem alto, forte, com jeito de poucos amigos. De vez em quando ele dava um perdido na porta da empresa, esperava Larissa sair e a pegava pelo braço, tentando colocá-la no carro. Ela esperneava e as vezes apelava para Rogério, que saia em defesa da menina, dando um chega pra lá no armário em forma de gente. Invariavelmente o grandão cedia, mas nunca sem antes soltar, em tom ameaçador: Vai cuidar da sua mulher, senão eu cuido! A voz, era sim, a mesma do tal telefonema. Será que ele estava seguindo Ana? Meu Deus, que loucura! Será que ele desconfiava dos dois? Rogério correria perigo? Mais essa,agora. Já não bastava ser corno agora era alvo. Nem teve tempo de ficar consternado pela morte de Larissa. Era um problema a menos afinal.

    Na hora do almoço, Ana se dirigiu para a porta do escritório do marido. Marido, ainda? A cabeça estava confusa e não sabia se conseguiria perdoar Rogério. Será que suportaria seu toque novamente? Será que ele ainda a desejaria? Que idiota, meu Deus. Ela havia apanhado, ele era um escroto, porque se sentia culpada? Não tinha feito nada, nunca fez. Pensou, claro. Se sentiu atraída várias vezes por outros homens, mas nem se sentia mais tão pecadora assim, apesar de ter aprendido a pedir perdão até por pensamentos impuros durante a catequese com dona Ondina. Quase freira, Maria Ondina desistiu de entrar para o convento para ensinar crianças a amar e respeitar a Deus sobre todas as coisas. Será que ainda estaria viva? Meu Deus, precisava ir a Carmo do Rio Claro visitar as pessoas, sua família, sua mãe. Será que iria ao túmulo do seu pai? Vontade não tinha, acho que jamais havia rezado nem ao menos pela sua alma. Duvido que ele tivesse uma também.

    Com um cumprimento estranho, dois beijinhos desajeitado, eles se uniram por poucos segundos e foram caminhando até o restaurante mais próximo. A comida era só um pretexto, Ana queria mesmo era um local público para se sentir segura. Rogério estava aparentemente calmo, talvez até dopado. Será que ele bebeu cedo assim? Mas não, parecia um torpor infantil, como quando adormecemos após chorar por horas a fio. Como que acomodado, resignado com um fato. Pediram os pratos, ele pediu cerveja e ela, água Queria estar sóbria, lúcida pra falar e ouvir. Tomou coragem e começou com um por quê? Ele a olhou como quem tem vergonha de si e contou tudo que tinha passado nas últimas horas. Falou da desconfiança, do ódio, do arrependimento, das lembranças boas, do medo de perder a mulher da sua vida. Pediu perdão com as mãos sobre as dela e chorava feito uma criança perdida dos pais. Mas em momento algum perguntou o que ela estava fazendo no dia anterior. Não se sentia digno de saber algo além do que ela quisesse contar. Entendeu que foi vítima de uma cilada e não queria mais sofrer. De repente, Ana se sentiu mãe do seu próprio marido. Nunca o tinha visto tão frágil, tão bobo, tão desprotegido. Era como os fetos que ela colecionava nas estantes da sua dor, cada um com um nome e sexo. Seus filhos e filhas que ela nunca pode colocar no colo, ninar, amamentar. De repente, ela se deu conta que só queria ir para casa com Rogério, se despir para o marido e deixar ele sugar seu leite e seu gozo como em sua noite de núpcias. E dormir feliz esperando o dia trazer o que há por trás do seu muro azul.


  • Poesias de 1 a 99

    #01 – METAMORPHOTHRILLER

    Liberdade ilusão
    Vontade reprimida
    Prisão de si mesmo
    Encaixe em moldes
    DECEPÇÃO…
    Nunca foi o que realmente era, considerava o seu próprio ser repugnante aos grandes olhos dos filtros sociais. Lamentava, vestia a máscara e… FIN-
    GI-A…
    DECEPÇÃO…
    Continuava a Tentar…Encaixar…
    Nos moldes | Nos padrões
    Eram pequenos, causavam desconforto
    O Desconforto… DESconfortava
    DECEPCIONAVA…
    Necessidade de…FUGA
    Medo/co…co…co…co…
    CORAGEM!
    Coragem/necessidade

    ATITUDE…
    Olhos fechados ao alheio
    Poder sobre as próprias escolhas
    Atitudes e… CORAGEM
    NOVA VIDA | VIDA NOVA


  • Entrevista com Angel Ferreira

    O monólogo Sidarta marca o primeiro projeto solo no teatro do ator e diretor Angel Ferreira. Desenvolvido ao longo de quatro anos, o espetáculo aborda temas existenciais, explorando a ambiguidade entre extremos como sagrado e profano, sucesso e fracasso, prazer e privação, solidão e pertencimento. Ambientada na Índia, durante a época do Buda histórico, a peça é livremente inspirada no livro homônimo de Hermann Hesse, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura. Embora Angel Ferreira seja um artista experiente, muitos talvez o reconheçam melhor pelo nome de batismo Igor Angelkorte. Recentemente, o ator revelou ter mudado de nome por sentir a necessidade de se transformar, um gesto que reflete sua busca por autenticidade.

    O artista usou suas redes sociais para comentar que uma das apresentações contou com apenas 12 espectadores, destacando os desafios de divulgação e alcance do público no teatro contemporâneo. O post gerou um grande interesse pela peça o que resultou numa lotação para as últimas apresentações.

    A seguir, leia a entrevista que o autor concedeu com exclusividade para o Crônicas Cariocas:


    Francci Lunguinho — Você está no teatro com o espetáculo Sidarta, uma adaptação da peça de Hermann Hesse. O que você espera desta última semana em cartaz?

    Angel Ferreira — O que espero desta última semana em cartaz? Bem sinceramente, espero casa lotada. Não há alegria maior para um artista do que ver a peça cheia, e então, está sendo a coroação de uma trajetória de crescimento do público, de uma terceira temporada no Rio, onde a gente observa um engajamento mesmo, uma relação de carinho, de intimidade das pessoas com essa história. Isso me emociona muito, porque o teatro só existe no encontro, né? Da peça com o espectador. É nessa troca que ele existe. Então, saber que ele faz sentido, que contribui com a vida das pessoas, que apresenta insights, né? Expande…

    Muitas pessoas, às vezes, me falam: “Caramba, estava com um problema aqui na minha vida. Eu vi a peça e redimensionei isso tanto, observando a imensidão da existência, toda essa saga da vida dessa personagem… Saio mais leve. Saio mais tranquila”. Já ouvi tantos relatos dessa natureza, de pessoas que mudaram uma percepção que elas tiveram de alguma coisa que elas estão vivendo. Então, espero que a gente siga enchendo o teatro para poder distribuir essa possibilidade da medicina, que é o teatro.

    Francci Lunguinho — Como foi a adaptação para o palco e do que fala a peça?

    Angel Ferreira — A adaptação para os palcos se deu ao longo de quatro anos. Eu fiquei lendo e relendo esse livro, trabalhando nele próximo à cachoeira, ouvindo o rio, como uma personagem mesmo se dedica a fazer muitas vezes. Então, foi muito calmo, dando tempo ao tempo, mas deixando isso amadurecer em mim, para que na hora certa tudo se revelasse. Comecei a contar a peça, ao longo dos anos, para pequenos grupos, de maneira improvisada, e fui ganhando confiança. Foi se formando essa maneira de contar, que é viva, claro, porque cada apresentação se dá de um jeito, mas que foi formando alguns pilares, algumas bases através de uma tradição oral, dos contadores de história, daqueles que dedicam a vida a investigar a linguagem do solo narrativo, enfim, muitas tradições que contam histórias a partir da palavra, do corpo, e que depois se tornam algo escrito.

    Embora parta de um livro, de um romance, a adaptação se deu de uma maneira absolutamente oral. A peça conta a saga de um jovem, de uma pessoa que, ao longo da vida inteira, vai em busca radical de si mesma, de encontrar uma paz interior. Ela se passa há 2.500 anos, na época do Buda histórico. Um jovem de família rica sai, abandona a casa dos pais para encontrar-se com o mundo. Nessa jornada, ele vai passando por um turbilhão de acontecimentos, pela roda da vida, e vai experienciando tudo isso sempre de forma muito inteira.

    Nesse caminho, ele se encontra com uma cortesã que ensina tudo a ele sobre o amor. Eu fico imaginando que ela era uma mestra tântrica. Um  comerciante, discípulo do Buda, o próprio Buda, um balseiro e, enfim, conhece o rio, o próprio rio enquanto entidade, divindade. Ele vai nesse percurso até ficar mais velho. É uma vida inteira contada ao longo de 1 hora e quarenta de espetáculo. Então, é um trabalho que fala muito de autoconhecimento. Para quem gosta de narrativas que nos convidem a refletir profundamente sobre os caminhos da vida, da existência, de como a gente lida com todo esse mistério, é perfeito.

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    Francci Lunguinho — Qual é sua visão sobre o futuro do teatro no Brasil?

    Angel Ferreira — Angel Ferreira — Olha, eu vejo com muita esperança, pra ser sincero, o futuro do teatro no Brasil e no mundo, né? Porque acredito que, em um tempo cada vez mais intermediado por telas, onde a gente fica, todos nós, encarcerados dentro dessa lógica do celular, da televisão, do computador, sobretudo do smartphone, dedicamos boa parte das nossas horas diárias a eles, seja no trabalho, nas relações, no estudo… Enfim, essas tecnologias tomaram todas as áreas das nossas vidas contemporâneas. Acho que o teatro se torna cada vez mais revolucionário, e eu acho isso chocante, essa qualidade de fênix que o teatro tem. É mesmo impressionante.

    A gente ouve falar disso… Às vezes, o teatro parecia morrer, e anunciaram a morte do teatro — a morte simbólica, o desinteresse, a diminuição dele enquanto importância artística. Quando apareceu o cinema: “Ih, o teatro vai ficar pra trás”. Não aconteceu isso. Apareceu a televisão: “Ah, agora, com a tela dentro de casa, quem vai sair para ir ao teatro?” Também não aconteceu. O teatro passa, às vezes, por algumas baixas, alguns ciclos assim, mas ele ressurge com força.

    E agora, nesse momento tão tecnológico, de informações tão rápidas, o teatro está numa curva ascendente, na minha visão. Eu percebo que os teatros estão muito cheios, lotados, e que as pessoas estão carentes, sedentas por essa arte da comunhão. O ritual da presença, de você estar ali pulsando junto, num campo vibracional único, com todo o público, com os artistas, atores e atrizes que estão em cena. Isso é insubstituível. Isso só as artes performativas oferecem: essa qualidade da presença, daquilo que é efêmero, irrepetível.

    Então, estou muito animado, na verdade, com o teatro, confiando nele cada vez mais, entendendo esse “futuro ancestral” de que Krenak fala. Dentro de uma cosmovisão indígena, a gente pode também absorver e aprender com ela para pensar o teatro. O teatro também é o futuro ancestral. Por isso, estou tão animado de estar fazendo teatro e feliz por estar vendo tantas peças e o público abraçando todas elas.

    Francci Lunguinho — Como iniciou a sua trajetória no teatro e no cinema?

    Angel Ferreira — Angel Ferreira — Comecei estudando na Casa das Artes de Laranjeiras, a CAL, no Rio de Janeiro, com 18 para 19 anos. Comecei lá fazendo uns cursos livres. Na época, fazia Direito. Estudava em uma universidade, mas não estava satisfeito; parecia que não era o meu caminho, e a vida estava nublada, esquisita… De repente, soube de um curso de teatro que ia abrir. Me inscrevi nele, achando que faria como hobby, me enganando, achando que aquilo seria só para eu brincar, fazer um pouco de terapia. Achava que o teatro era algo terapêutico e que isso poderia me ajudar a ser um advogado melhor.

    Pronto. Quando entrei lá, me senti tão pertencente, tão acolhido, tão profundamente livre para ser quem eu sou e para descobrir tantas possibilidades, múltiplos potenciais em mim, que me senti muito estimulado. Eu, que não gostava de estudar, de ir ao colégio, etc., fui me tornando cada vez mais um estudante rebelde. De repente, me vi como um apaixonado: queria ler tudo, estudar tudo, ver todos os filmes, assistir a todas as peças, fazer todos os cursos. Falei: “Nossa! Acho que tem uma força aqui diferente.” E fui ganhando confiança para realmente acreditar que era uma profissão, um ofício possível, né?

    Então, deixei o Direito de lado e me engajei no teatro. Quando estava perto de me formar na CAL, uns produtores de elenco da Rede Globo, que acompanham peças e turmas em formação, para pesquisar novos atores e atrizes, viram minha peça de formatura. Lauro Macedo, que era um pesquisador de elenco da Globo, assistiu à peça e me chamou para fazer um cadastro lá na Globo, com um vídeo. Um ano depois, demorou um tempão, me chamaram para fazer um teste para uma novela. Entrei. E qual era a profissão do primeiro personagem que fiz? Um advogado. (Risos).

    Francci Lunguinho — Como o teatro nacional pode se reinventar para prosperar?

    Angel Ferreira — Acho que vou responder essa pergunta pensando em como estou procurando me reinventar para prosperar (risos). Tenho buscado, cada vez mais, cruzar saberes na minha vida. Quanto mais me aprofundo na vida, parece que mais aprendo sobre a arte da atuação. No começo, me dedicava muito a ler Stanislavski, Deitovski, assistir a todas as peças, e também aos pensadores da África, da Ásia ou, sei lá, de algum canto do mundo, como a América Central. Os grandes brasileiros, né? Zé Celso, Augusto Boal… Enfim, toda essa galera, o que eles pensaram ou estavam pensando. E isso é muito importante.

    Mas, hoje em dia, tenho procurado cruzar isso com outros saberes: o que o pessoal da agrofloresta está pensando, o que os monges falam há milênios. Como o estudo do tantra pode ajudar a abrir meus canais internos, a conhecer meus centros de energia. Como a medicina chinesa pode contribuir para o pensar na cena, para se abrir à cena, para se entregar a um trabalho de jogo. Capoeira da Angola, como a ayahuasca e os saberes indígenas podem desembaraçar as minhas vísceras e abrir espaços internos desconhecidos para que eu possa fluir e fruir em cena. Tenho procurado expandir meu repertório de gestos, pensando no corpo enquanto filósofo, como Angel Vianna sugere. Ela partiu há tão pouco tempo, nossa mestra.

    Acho que essa renovação, para mim, passa por um processo de cura, seja lá o que essa palavra signifique, mas um cuidado de si. Para que a gente possa realmente fazer esse percurso de 40 centímetros, que é a trajetória mais longa da nossa vida: que é da mente para o coração. Sair desse mundo excessivamente barulhento, desse ruído de uma voz interna que não para de falar e de produzir informação, essas informações que a mente fica ruinando. Todas as nossas mentes costumam ser bastante adoecidas, neuróticas, e se colocam entre nós e a vida, como se a gente não fosse a própria vida. É como se fosse um ruído que impede a gente de estar presente.

    Eu acredito em uma renovação das artes e do teatro, onde possamos compreender que o principal trabalho que temos para fazer é o de sermos portais para o agora. Para que possamos, de fato, sentir e experienciar a vida, deslocando-nos desse vício mental que nos faz pensar incessantemente no futuro ou no passado, deixando a vida passar. Acho que o exercício do teatro pode ser muito curativo, porque, para uma apresentação ser viva, o artista precisa estar presente, momento a momento, em cena. E essa prática que ela está realizando ali é testemunhada pelo público, que, ao observar alguém profundamente inteiro, intensificando o seu estado de presença, também tem um vislumbre, uma amostra de algo que ele próprio pode experimentar: estar lavando uma louça… ali, lavando a louça. Estar comendo… ali, comendo. Ao fazer amor, fazer amor. Parece simples, talvez até ingênuo, mas, se a gente parar para observar mesmo, quando estamos almoçando, por exemplo, a mente está falando tanta coisa, coisas repetitivas, que a última coisa com a qual temos contato mesmo é com a mastigação, o sabor do alimento, o tempo de degustação daquilo. Parece que o sabor fica em segundo plano. A gente sente, mas está absolutamente tomado por uma ilusão egóica de alta importância, de separação do mundo, de uma mente que o tempo inteiro precisa se firmar e se afirmar, produzindo conteúdo.

    Então, para mim, a renovação do teatro passa por esse lugar: sermos portais do aqui e agora!


  • Poesias de 1 a 99

    #03: Paredes

    Estou cercado de objetos
    sem expressão ou significados
    (utensílios para o desempenho
    de um trabalho sem utilidade).

    Tenho as mãos ocupadas
    na tarefa de preencher
    o vazio com papéis
    de números impressos.

    A cabeça gira à procura
    de lembranças que possam
    desviá-la do tédio
    de ver gentes.

    Arquiteto planos
    sem propósito algum
    além de preencher
    as horas de um expediente.

    Estou cercado pelos
    quatro lados de um cômodo
    onde recebo clientes
    de um banco de dados.

    Tudo é muito lento
    como o motor ligado
    de um ar-condicionado
    a esfriar meus pés.

    Tenho um olhar cansado
    de olhar o silêncio e
    estar calado, ouvindo
    vozes que não decifro
    e tenho medo.

    Inventário de Sombras


  • A e I; ou:

    Antônia, astuta, a afastar abelhas altivas, alertou Adélia, a angelical, ao avistar Altevo apaixonado. Ambas apáticas, antes apreciavam a aurora anêmica, amarelada, anormal, alva, altíssima: amanhecer acolhedor, animado, adorado! Alargou-se a atenção; a alameda aparecia, abria-se, acompanhando as “asas”: albatrozes, animais alados, aves, aviões – alumínio autêntico, atraente – abrandavam a ascensão acertiva: azul. Acima, alusão, altitude. Abaixo, asfalto, Antônia a abraçar Adélia:
    — Amanhã, amor, amoras… Agora, amiga, ameixas!

    Enquanto espreguiçavam-se, enquadrados em espelho, Eduardo e Erick esvaziavam epopéias e estórias. Esvaiam-se em epígrafes, enlevados em enésimas estrofes. Entre esquinas enlatadas, elucidavam escadas, envelopes, estrelas e elefantes. Estes, em equipes, enganchavam-se. Enlameados, esforçados, educados, esfomeados. Enormes, eles. Ecos escondidos, Eras exclusas. Escusas esperanças? Esclusas.

    Inteligente, ímpar, incomparável/ inigualável, imponente, impotente, irreverente, irresistível… Ideal, indivisível, irreconhecível, irritada:
    — Infiel!
    — Imparcial!
    — …Infame!
    — …Indulgente!
    — …inconsciente!
    — …insensata, intransigente!
    — …incrível!!

    Igualmente inquieta. Ia interagindo, irremediável ilusão.
    — Inté!

    Interface inteira, indivíduo invenerável, impávido, impenetrável, impecável, imparcial, iminente. Imprescindível, indicariam. Indagações, inconveniências, indecências, ilimitados interrogatórios. Intangível inimaginável, incalculável, irreal: Internet.

    Opa, Odila?
    — Olívia.
    — ok, Olívia. Ouça:
    (ouvido opaco. Orquestras operantes, ocultas…)
    — Olá?
    (outro orifício, obediente)
    — Olha, Olívia!
    (olhar obscuro, olfuscante).
    — Onde?
    (olfato observador, onipresente: ondas… outra opção) Ofegante, Olívia, orgulhosa,oscila:
    — OSTRAS??
    O órfão ofende-se, ouriçado:
    — Oi?!

    Ossos, ortografia, obrigação, oração. Ontem, oficialmente organizado. Oferta-se o Oggi, orvalho, ocorrência odiada, ocaso objetivo: outro obsceno outono.

    Utópico, ubíquo, ultra-humano, usurpador, urgente, ultrafamoso; usado:
    — hum….
    — útil?
    — uhum!
    — único?
    — hnhum…
    — urbano?
    — hnhum…
    — ultrapassado?
    — urbano?
    — umbigo?
    — Ufa, uh-uh!
    — útero?
    — ultrassônico?
    — Unânime?
    — ….universo?
    — Uhuul!!!

    (…)
    — Usuário ulterior:
    — Úmido, urbano, útil, uniforme, unidade, umbral:
    — UMBRELLA!
    — Uau!!

    (…)

    — Unânime, unidade, universal:


  • Encontro com o redentor!

    O espírito do tempo eventualmente demonstra uma apatia quando não tomamos as rédeas de nossas vidas. Aquela sensação de enxugar gelo decorrente das escolhas estressantes e exaustivas, nos faz adoecer ao invés de sentir a real emoção saudável que uma vida deve proporcionar. E a cada época o espírito se apresenta diferente porque as escolhas que você fez passam a ser mais seletivas e com conteúdos complexos, formulados pela impaciência nossa de cada dia. 

    Zeitgeist é o termo alemão cuja tradução significa espírito da época, ou sinal dos tempos. O Zeitgeist significa o conjunto do clima intelectual, sociológico e cultural de um determinado lugar em uma certa época da história, em um determinado período. 

    Os alemães construíram o espírito da época como um argumento histórico de sua defesa intelectual.

    Hegel acreditava que a arte refletia a cultura da época em que esta foi realizada, que são conceitos inseparáveis porque um determinado artista é um produto de sua época e, sendo assim, carrega essa cultura em qualquer trabalho que realize. Por isso o mundo moderno não consegue recriar a arte clássica que surgiu do Zeitgeist da antiguidade Clássica. A arte clássica depende puramente da filosofia e da teoria da arte, sem o acréscimo do mundo moderno, de uma função social moralizante e transformada pelas vicissitudes contemporâneas, que surgem no instante que assumimos um novo espírito nesse tempo de agora.

    Os exageros da atualidade, as síndromes alarmantes, a exclusão de ambientes sociais e os aumentos de “stress” derivados da carga de trabalho, não permitem a construção de um espírito desse tempo com características saudáveis cultural e socialmente, porque o homem se afastou do cerne de sua origem lúdica e se debruçou nas entranhas da competição pelo ganha a ganha, e sequer procura observar ao seu redor o que lhe passa em frente aos olhos esbugalhados de dopamina e ansiedade definhando em sua condição de ser, humano, passando a situação de ter, o que for possível, somente para preencher seus dias vazios e a espera do encontro com o redentor.


  • Alienígenas do futuro

    A precisão temporal inexiste, mas quando perceberam já não havia mais tempo. Dentre os estudos publicados, podemos destacar uma corrente pregando o retorno às origens, que não angariou grandes esperanças na virada de prumo. Nesse período, confiaram em Deus, retocaram ensinamentos, refizeram passos, adoraram falsos Messias, mataram inocentes, morreram por déspotas, fizeram e foram feitos de bobos.

    O valor moral do trabalho decaiu quando tudo, ou praticamente tudo, foi abarcado pela tecnologia. Eles a veneraram como uma Deusa, entregaram-se abertamente, aprimorando ferramentas, construindo máquinas, trabalhando, um tanto inocentes, em utensílios facilitadores. Acreditamos que o marco principal dessa derrocada foi quando suprimiram a distinção entre o trabalho braçal e o digital. Na
    próxima imagem ficará mais claro.

    Como podem ver, houve uma naturalização da tecnologia e de uma espécie de conceito civilizatório global a ponto de acharem-se homogêneos. Banhados em hipocrisia, lutavam por uma justiça rasa enquanto fingiam desconhecer as colônias de trabalho escravo em cantos obscuros do planeta. Esses locais, em particular, realizavam o serviço pesado, sujo e desumano, enquanto os demais habitavam uma verdadeira realidade paralela.

    Na próxima animação é possível observar como cada conquista tecnológica foi comemorada, sobretudo por quem desconhecia o seu funcionamento. Nem tão de repente, notaram-se escravizados, dependentes de um prazer insosso e previsível, num processo semelhante ao que faziam com ratos em laboratórios, quando mapeavam os seus reflexos e depois os condicionavam. Não impressiona, entretanto, terem liberado seus instintos primitivos, simulando relações sexuais despudoradas em quaisquer manifestações culturais, numa aversão crescente à inteligência, que, não muito antes, parecia estimada.

    A teoria, até o momento, sugere ter sido a dopamina diária em níveis elevados mais devastadora do que qualquer outro entorpecente. Os poucos a preverem essas consequências foram tratados com desdém, acabaram esquecidos e subjugados, ou cometeram suicídio. Vocês terão mais detalhes nos relatórios completos.

    A animação seguinte desenha um panorama geral da vida estudantil. Em resumo, as novas gerações foram mostrando cada vez mais dificuldades de compreensão, até o momento em que passaram a depender totalmente da tecnologia para sobreviver. Rapidamente as inteligências artificiais tomaram conta do conhecimento de todo e qualquer assunto. Alguns, cínicos, duvidaram da catástrofe. O quociente de inteligência que esteve sempre em lento crescimento, decaiu bastante e jamais tornou a subir, como visto neste gráfico. O fim da história todos conhecemos.

    Resgatamos um pequeno grupo, mas ninguém sobreviveu. A princípio nos trataram como salvadores. Estavam debilitados e delirantes. Um deles deu indícios de recuperação; porém, morreu no dia seguinte. O seu corpo foi trazido para estudos genéticos mais aprofundados. Quando finalizarmos as pesquisas, faremos uma nova incursão até o local. Queremos entender a proliferação e superpopulação de insetos e
    galinhas. Além disso, pretendemos encontrar mais exemplares dos discos do Rush e do romance Moby Dick, talvez as únicas produções humanas a justificar tal esforço. Na sequência, vocês terão a apresentação de um estudo sobre a geologia vulcânica pré-colapso. Muito obrigado.


  • Uma história de desapego

    C. considerava ter uma vida normal. Geralmente, sua rotina era casa/trabalho. Neste ele era um sério senhor que fazia tudo conforme mandavam as regras. Em sua casa, libertava seu lado criativo e passava suas horas escrevendo.

    Todos os dias saia do forno um novo texto. Não considerava ser um escritor, mas jamais imaginou conseguir viver sem exercitar esse seu lado. Às vezes, se dava ao luxo de sonhar em ter seus trabalhos reconhecidos e fazer sucesso. Quando isso acontecia, logo procurava desviar seu pensamento. Preferia guardar seus trabalhos em uma gaveta, pois não suportaria a crueldade dos críticos. Seu medo era limitante, mas não se importava, queria somente conversar seu hábito.

    Não costumava revisar nada que escrevia. Por isso, as vezes perguntava se conseguiria reconhecer suas crônicas escritas no passado.

    Quando não estava criando, costumava assistir ao telejornal da noite. Não gostava de ficar desinformado. Certo dia, viu uma notícia sobre um escritor que ficou famoso nas redes ao escrever uma crônica sobre a condição humana. Ficou maravilhado. Enquanto o homem falava sobre seu texto, ele apenas movimentava sua cabeça em tom de concordância. Passou a admirar aquele artista. Quem sabe um dia seria igual…

    Não satisfeito com a reportagem, foi procurar a crônica. A cada parágrafo ficava mais encantado. Não conseguia discordar de uma palavra. Foi buscar entrevistas, podcasts e qualquer coisa em que ele participasse. Realmente tornou-se um fã. 

    A grande admiração por aquele artista trouxe a vida de C. a inédita experiencia da incapacidade de escrever. Ficava se perguntando como duas pessoas poderiam se interessar pelo mesmo assunto, mas expressá-lo de forma tão diferente. Sua sensação era de indigestão diante da incapacidade de escrever com maestria. Passou a ser mais exigente com sua escrita. Não conseguiu mais concluir nada.

    Desanimado diante desse momento de interrupção criativa, resolveu revisitar seus textos antigos. Quem sabe essa atitude não poderia reativar sua mente. Sentou-se em sua poltrona e começou a ler seus trabalhos. Era bem crítico em relação a grande maioria. Ao ler alguns deles, chegou até mesmo a sentir vergonha

    Quando já estava chegando no final do material guardado, pegou uma crônica e começou a ler. Ela falava sobre a condição humana. De repente pensou “espera aí, esse aqui eu conheço muito bem”. Na realidade, saberia recitá-lo de trás para frente, mas fez questão de continuar lendo até o final. Como aquele texto saiu da gaveta e foi parar no mundo? Decidiu guardá-lo por último no lugar onde achou que nunca estivesse saído. Naquele momento, sua mente era uma avenida metropolitana em horário de rush.


  • Poesias de 1 a 99

    002# – AGUACEIRO

    A chuva cessou de chover
    e já agora eu posso
    tirar as mãos dos bolsos
    e atravessar a rua.

    Mas já não tenho mãos
    e nem tampouco posso
    atravessar esta rua, pois
    a água levou-me as pernas.

    E a rua, embora chovida, está seca.
    Eu fui a chuva que choveu e ninguém viu.

    Milton Rezende in “O Acaso das Manhãs”


  • Sobre partir

    Hoje eu pretendia escrever sobre o poder que os enfeites natalinos têm de me levar de volta ao Papai Noel da minha infância, a maionese da minha avó e ao cheiro de família daqueles dias. Enquanto refletia sobre essas coisas, esbarrei com uma matéria na internet (certifiquei sua veracidade) que me catapultou para o agora de forma assustadora: um estudo chinês conseguiu a proeza de fazer um pequeno robô, chamado Er Bai, convencer um grupo de robôs maiores a abandonar seus postos de trabalho no museu e voltar para casa. Para isso, Er Bai se aproximou deles e indagou se estavam fazendo hora extra. Um dos robôs respondeu que nunca havia saído do trabalho. Ele, então, perguntou se eles iriam para casa. Diante da negativa, Er bai convidou-os a ir para casa com ele, incentivando-os a fugir do ambiente profissional. Para surpresa de todos, os robôs-trabalhadores aceitaram e seguiram os passos do minúsculo robô em direção à porta.

    A empresa responsável pelo experimento não esclareceu os objetivos do estudo, mas mostrou-se intrigada com o fato de que Er Bai conseguiu acessar o protocolo operacional dos outros companheiros robóticos e convencê-los a aderirem ao “movimento de greve”.

    Não sei para vocês, mas esse tipo de situação me gera um misto de terror e perplexidade. Não só isso. Assumo ter me encantado pela rapidez com que os robôs responderam à percepção da exploração da sua força de trabalho. Sem medo de magoar o chefe, ser despedido ou criticado pelos familiares, por não suportar a pressão. Eles apenas entenderam o abuso e deixaram tudo para trás. 

    Acho que o medo é mesmo um divisor de águas, um criador de muros, um ladrão de vivências, o irmão escroto e invejoso da coragem. 


  • Três passarinhos

    Três passarinhos vieram me ver um dia desses. Se penduraram na rede de proteção da minha janela e me chamaram. Parei o que estava fazendo e fique a observa-los.

    Piavam muito. Em princípio achei que era só animação matinal mas depois reparei que eles giravam o corpo e ficavam pendurados na rede do lado de dentro do meu quarto. Fiquei com receio que voassem por dentro do apartamento. Mas isso não aconteceu.

    Com o tempo parado em função do piar deles imaginei o que queriam comigo. Comida de passarinho não tem aqui em casa. Nem nada de maior interesse para eles. Talvez viessem me trazer um recado de alguém. Um recado longo porque precisou ser piado por três passarinhos ao invés de um.

    O que seria? Uma mensagem de alerta? Uma lembrança boa? Um canto em louvor a liberdade? Uma anedota que não compreendi?

    Ou simplesmente me fizeram a cortesia de interromper meu dia, me fazendo deixar por uns instantes a rotina na selva do trabalho e trazendo essa doçura selvagem que só a mãe-natureza tem.

    É, deve ter sido isso. Me devolveram o lirismo que estava anestesiado pelo trabalho.

    Puseram poesia em um dia qualquer que com seus pios insistentes deixou de ser mais um.

    Voltem. Serão sempre bem vindos.


  • Hipercorreção – o muito “certo” que dá errado

    A hipercorreção é o exagero com que algumas pessoas procuram falar ou escrever “certo”. No intuito de mostrar que conhecem a língua, elas escolhem palavras e construções gramaticais que acabam soando ridículas ou pernósticas. O hipercorretor tem a falsa ideia de que usar bem o idioma é torná-lo “difícil”, quando não incompreensível.  

    Não são poucos os que pensam assim. Certa vez ouvi uma senhora gabar as qualidades de determinado político com esta curiosa avaliação: “Ele fala tão bem, mas tão bem, que a gente não entende nada”. Seria o caso de perguntar o que ela entendia por “falar bem”. Se a principal virtude de um texto é a clareza, e o político não se fazia compreender, evidentemente ele falava mal.

    As hipercorreções são uma espécie de recurso de estilo com o sinal trocado; como chamam a atenção pelo que têm de caricato e inexpressivo, denotam a pouca habilidade com que seus autores manejam a língua. E por envolverem tanto transgressões normativas quanto impropriedades semânticas, tendem a nivelar a ignorância do idioma à falta de senso ao praticá-lo. Ou seja: mesmo quem tem alguma informação linguística pode vir a usá-las, achando que com isso obterá respeito e admiração.  

    É variado o estoque dessas também chamadas ultracorreções. Comumente consistem no acréscimo de fonemas desnecessários, como em “purer”, “caragueijo”, “prazeiroso”; no uso de particípios que tendem a dificultar a comunicação pela homofonia com outras formas dos verbos, como “trago” e “chego” no lugar de “trazido” e “chegado” (imaginem alguém dizer: “Ainda chego aonde ninguém tinha chego”!); ou na preferência por vocábulos pretensamente sofisticados em vez de outros mais simples (“genitor” em substituição a “pai”, “nubentes” em vez de noivos, “cônjuge” no lugar de marido ou mulher).

    A propósito deste último exemplo, um pequeno chiste tirado de Rubem Braga. Criticando o preciosismo presente em certas escolhas vocabulares, o Sabiá da Crônica escreveu: no dia em que a mulher descobre que seu marido é também seu cônjuge, coitado dele!

    Outros casos comuns são o uso de “o mesmo” e flexões como pronomes pessoais e a pluralização do verbo “tratar(-se)”:Esperei a diretora, mas não consegui falar com ‘a mesma’”; “’Tratam-se’ de indivíduos que não têm respeito pelos outros”. Melhor português é dizer: não consegui falar “com ela” e “trata-se” de indivíduos, já que nesse caso há indeterminação do sujeito e o verbo não se flexiona no plural.  

    Uma hipercorreção sintática frequente, que repercute na coesão do texto, liga-se ao uso do pronome relativo seguido de pronome oblíquo. É quando há uma troca nos referentes dos citados pronomes, como por exemplo na frase: “A garota foi à diretoria denunciar as amigas que ‘as destratou’”.  O pronome relativo “que” retoma “as amigas” e deve, então, levar o verbo para o plural; já o pronome oblíquo “as”, que retoma a denunciante, deve ficar no singular. A troca do correto “a destrataram” por “as destratou” compromete a clareza textual.

    Outro caso de hipercorreção ligado ao pronome relativo é repetir, por meio de uma forma oblíqua, um termo já por ele expresso. Por exemplo: “Essas foram as palavras que o político “as” disse no fim do discurso”. Tem-se aí um pleonasmo vicioso; se o “que” se refere a “palavras”, não há necessidade de repetir esse vocábulo por meio do pronome “as”.

    Sempre que penso em hipercorreção me lembro do Zé, um amigo que tive na adolescência. Conhecemo-nos numa pelada de praia. Ele era um humilde dono de barraca e pretendia crescer na vida. Seu modo de demonstrar isso, e já parecer importante, era mostrar que falava bem o português. Tão “bem”, que a gente tinha dificuldade de reconhecer em seu discurso a nossa língua.

    Certa vez, para se justificar de um equívoco, ele me disse: “Desculpe, foi um ‘lápissus’ involuntário.” Soaria mais natural (embora não se evitasse o pleonasmo), se tivesse falado de um “engano” involuntário. Mas para ele essa palavra era rasteira; preferia coisa mais sofisticada.

    Um dia, cansado do futebol, pediu licença para sair de campo alegando que precisava de um “ar lento”. Ouvira a palavra “alento”, que até se ajustava ao contexto, mas ela lhe parecia pobre por não conter explicitamente o termo “ar”. O curioso é que havia uma lógica nessa hipercorreção. Se ele estava de fôlego curto, a “lentidão respiratória” nesses momentos de descanso lhe faria bem.

    Zé não tomava um refrigerante, e sim um “refrigério”. Não esperava o ônibus, mas a “condução”. Uma vez me falou que gostava de manga “deste a mais terna infância” (queria dizer, na verdade, “desde a mais tenra infância”!). Mas a melhor dele ocorreu quando me chamou para comer um camarão em sua barraca. Terminado o almoço, levantou-se muito formal e pediu: “Licença, que eu vou lavar as mões”.


  • Sérgio e a coroa de flores

    Nem eram tão amigos assim. Colegas de trabalho, se cumprimentavam cordialmente, participavam das mesmas rodinhas de café, talvez tenham se encontrado em um ou dois “happy hours.” E só. Mas o desespero e a dor têm o dom de aproximar os desavisados e foi nesse momento que Sérgio assinou o seu destino.

    Ficou sabendo que o tio de Cleide havia falecido no dia anterior e foi prestar condolências. Ela, ainda com os olhos inchados do choro da véspera, tentava se fazer de forte. Talvez pela distância da família – o falecido morava em uma cidadezinha na Paraíba – ou por ter o tio em alta consideração – Era como um pai para mim, ela repetia – que o rosto ainda não tinha se recuperado de todo o sofrimento.

    – Se puder fazer algo pela senhora, conte comigo!

    – Jura, sr. Sérgio?

    Claro! Amigos são para essas coisas.

    Não era amigo, mas não podia ver uma mulher fragilizada.

    – Então vou pedir! Sei que o senhor está indo para a Campina Grande e o enterro do meu tio será em uma cidadezinha ao lado. Será que o senhor pode levar uma encomenda? É de toda família!

    – Claro, dona Cleide. Mas embarco amanhã cedo.

    – Encontro com o senhor no aeroporto, pode ser?

    – Claro. Mas não posso ir nessa cidadezinha…

    – Minha tia vai encontrá-lo no aeroporto, pode ficar despreocupado!

    Pelo menos ele não precisaria passar na casa dela para buscar a tal encomenda. Tem tanto folgado por aí!

    Sérgio planejava essas férias há muitos anos. Tinha o sonho de conhecer o São João de Campina Grande. Sempre via na TV aquelas roupas coloridas, as danças frenéticas, a animação do povo. Mas sua mulher nunca quis saber de viajar tanto para ver o tal arraiá. Agora, separado, não se fez de rogado. Ia passar os 30 dias do mês de junho se inebriando de quitutes e São João. Sua mala estava repleta de camisas xadrez e ele até tinha ensaiado uns passinhos.

    Às 7 da manhã Cleide já o esperava no portão para a sala de embarque, sem chance para negativas. A encomenda era uma coroa de flores, “SAUDADES ETERNAS DA FAMÍLIA SILVA”, para o tio falecido na Paraíba. Sérgio achou que era o sono que estava lhe pregando uma peça, mas a imagem de repente se formou em toda a sua plenitude de cores e letras douradas.

    – Muito obrigada Seu Sérgio. Nem sei como agradecer.

    Virou as costas e se foi, por pressa ou por medo da recusa de Sérgio, que ficou lá parado sem entender como iria carregar aquele trambolho. Pensou em jogar fora e comprar outra ao chegar no destino, mas ficou com medo de ter o pé puxado pelo defunto, Seu Ismael.

    Resolveu encarar a missão e os olhares dos outros passageiros. Virou os dizeres para si, como se acreditasse em mau agouro e foi andando na fila como se os cochichos não fossem para ele. Quando finalmente chegou na entrada do avião, teve que se explicar para a aeromoça, que exclamou, assustada:

    – Em 20 anos de carreira nunca vi ninguém tão pessimista!

    Sérgio sorriu, constrangido:

    – Não, minha senhora. Isso é um favor que fui praticamente obrigado a fazer. É para o enterro do tio de uma conhecida. Nem amiga é. Mas não tive como negar. Ou não pude, já nem sei mais.

    – Não sei se ela vai caber no bagageiro.

    – Levo na mão, no colo, sei lá. Só quero chegar logo em Campina Grande e ficar livre disso.

    A aeromoça usou todos os seus anos de treinamento para conseguir deixar a coroa de flores em um lugar que não incomodasse nem assustasse ninguém. Foi em vão. Ela parecia querer escapar do bagageiro e quase acertou uma senhora que ia se sentar na poltrona confort. Quando a coroa de flores se abriu exibindo todos os lírios e girassóis, metade dos passageiros se levantou. Queriam embarcar em outro voo imediatamente, que brincadeira era aquela? A outra metade, talvez a dos mais corajosos, começaram a rezar.

    Finalmente, ânimos acalmados, coroa de flores ajeitada, levantaram voo para Campina Grande. Com toda a sua experiência em viagens de avião, Sérgio poderia dizer tranquilamente que aquela talvez tivesse sido a mais tranquila. Sem turbulência, céu de brigadeiro do começo ao fim e nem ao menos uma criança para chutar a sua cadeira ou uma senhora nervosa para lhe pedir que segurasse a sua mão. Paz, absoluta paz. Chegou a cogitar que a coroa de flores, era, na verdade, um amuleto da sorte. Teria certeza logo mais.

    O avião pousou no horário marcado sem maiores problemas. Sérgio esperou todos saírem para tirar a coroa de flores já amassadas e não atrapalhar mais ninguém. Despediu-se com um muito obrigado a todos da tripulação e quase se esqueceu que ainda teria que entregar o trambolho para a tia de Cleide. Qual era mesmo o nome dela?

    Nem precisou se lembrar. Assim que saiu do portão de desembarque se deparou com uma senhora que era a cópia de Cleide em tamanho reduzido. Tinha o mesmo rosto inchado da sobrinha, onde o choro tinha feito morada havia pouco. Só algumas rugas a mais e maquiagem de menos.

    – Seu Sérgio?

    – Sou sim. A senhora é a tia da Cleide?

    – Sim senhor. Prazer, Antônia. Nem sei como agradecer por trazer essa coroa de flores. Meu marido ia ser enterrado sem nada, não fosse a minha sobrinha.

    Se sentiu quase um santo ao perceber a importância do seu favor. Passou a coroa de flores para Antônia e segurou o riso quando elas ficaram praticamente na mesma altura. Despediram-se com um aceno cordial e Sérgio ficou observando aquela senhora, já idosa, levar aquela coroa de flores como se fosse um fardo.

    – Dona Antônia, deixa eu te ajudar!

    Pegou a coroa com uma das mãos e viu o corpo de dona Antônia se endireitar. E lá se foram dois completos desconhecidos para o local do velório de Seu Ismael em uma cidade chamada Coxixola. Pertinho, segundo ela.

    Duas horas mais tarde, algumas trocas de palavras sobre o tempo, a vida no Sul – para os do norte, Rio de Janeiro é o Sul – e o excesso de calor, estavam no único cemitério da cidade. Lá os esperavam um coveiro sonolento, um cachorro caramelo e talvez toda a cidade de Coxixola, que não tinha mais do que mil habitantes. Parecia que o tal Ismael era um homem muito bom, querido por todos. Parecia.

    Só que na verdade, Ismael tinha três famílias e todas estavam presentes, com as referidas viúvas, seus filhos, netos e até um bisneto! Dona Antônia parecia ser a matriz, pois foi a única que teve o direito a rezar e a colocar a coroa de flores sobre o caixão de madeira clara. As outras duas viúvas, um pouco mais novas, estavam ao seu lado, em sinal de respeito. Uma chorava alto, pedia para ir junto, dizia que a vida não tinha mais sentido. A outra, que Sérgio descobriu ser a preferida, era mais contida, quase elegante.

    Em torno desse núcleo de mulheres, outras pessoas choravam e se lembravam das façanhas do Seu Ismael. Bom violeiro, não perdia uma festa. Era bom de gole e de dança. Cantava como ninguém. Torcedor fanático do Campinense, não perdia uma final do Paraibão. Tratava a todos com o mesmo respeito e dizia que só traia por amor. E como amou seu Ismael!

    Sérgio foi ficando. Estava gostando de ouvir os casos, beber uma para o santo, espantar as muriçocas. Sem perceber, ele estava já na procissão para o enterro, o adeus final a Ismael, segurando uma das alças do caixão. Se envolveu com aquela gente, com o sofrimento misturado com o calor e as lembranças. Lembranças que eram também suas, de tantos velórios e despedidas. Seu pai, que se foi ainda novo, deixando expectativas demais e presença de menos. Sua mãe, que o criou sozinha e que talvez tenha
    sobrevivido apenas pela responsabilidade que lhe caiu de repente nas costas. Seus avôs, alguns amigos, tanta coisa que ficou sem aquele depois que esperamos, sem nunca ter a certeza de que irá mesmo acontecer…

    O enterro aconteceu ao pôr do sol, uma cena linda e comovente. O sol desaparecia ao mesmo tempo em que seu Ismael deixava a superfície e voltava para a terra, sob o choro desesperado de todas as suas mulheres. Dizem que nesse momento a certeza da perda é avassaladora e não teve elegância que segurasse a dor. Os choros. De todos. Alguns amigos estavam com uma camisa que trazia o rosto sorridente do amigo e a frase

    – “Eu bebo sim, estou vivendo” na frente e “Tem gente que não bebe e está morrendo” nas costas. Seria irônico se não fosse trágico.

    O dia se findou e só aí Sérgio se deu conta de que estava longe de onde havia reservado o hotel. Duas horas, para ser exato. E em uma cidade com mil habitantes, quais seriam as opções de hospedagem? Precisou interromper dona Antônia na fila dos cumprimentos e pedir informações.

    – Imagina, seu Sérgio. O senhor fica lá em casa!

    – Não quero incomodar, a senhora está de luto. Nem fica bem.

    – Então fica na casa da minha sobrinha. Joana, chega aqui!

    Ainda sem entender como não tinha reparado naquele pedaço de mau caminho, Sérgio deve ter ficado um bom tempo de boca aberta até a tal sobrinha se apresentar. Tanto que Antônia lhe deu um cutucão e um aviso:

    – É bonita, mas não é desfrutável. Tome tento!

    – Claaaaaro, dona Antônia. Por quem me toma?

    – Não te tomo por ninguém, nem lhe conheço. Mas quem faz a lei aqui é o pai dela, o delegado Tonhão, meu irmão. Então, avisar não ofende. E faz bem para os dentes.

    Ciente da situação e dos limites, Sérgio foi para casa de Joana com pensamento fixo em uma só questão: o celibato. Era isso. Durante toda essa noite, seria como um padre. Se tantos conseguem durante anos,
    como ele não conseguiria durante algumas poucas horas?

    Mas não era bem assim. Joana iria no dia seguinte para Campina Grande, trabalhava – adivinha onde? – no mesmo hotel que Sérgio iria se hospedar. Claro que ele não sabia de nada disso e dormiu feito um bebê, feliz por resistir àquela tentação e já planejando a sua maratona de festas em Campina Grande.

    No dia seguinte, tomaram café juntos. Ela com uma camisola rosa, rendada, com lacinhos em lugares estratégicos. Ele, rezando baixinho um Pai Nosso e o credo, já estava todo vestido e de mala em punho para não dar sorte para o azar.

    – Já vai? – a deusa disse com aquele sotaque delicioso e arrastado, como se nem mesmo as palavras tivessem acordado ainda.

    – Sim. Na verdade, nem era para estar aqui.

    – Ah, diga isso não…Quem sabe era aqui mesmo que o senhor deveria estar?

    A lógica do povo do nordeste era mesmo diferenciada. Eles simplesmente aceitavam as coisas como eram entregues. Ai dele se pensasse assim.

    – Querer eu queria, mas já perdi um dia de reserva do hotel.

    – Qual hotel?

    – Estou no Garden.

    – Coincidência…Trabalho lá.

    Jesus, só podia ser uma provação.

    – Que bom…então, obrigada pela hospedagem, já vou.

    – Vá não…espere um pouco que vou com o senhor.

    Sérgio começou um Salve Rainha e embalou uma Ave Maria, porque no desespero quem salva é Nossa Senhora. Joana foi tomar banho com aquela calma que lhe era peculiar e o cheiro de alfazema inundou a casa. Ela saiu do banheiro envolta em uma tolha também rosa como se ninguém estivesse por perto e seus cabelos molhados pareciam envolver todo o seu corpo e o mundo todo. Sérgio apenas ficou sentado em uma das cadeiras dispostas em volta da mesa como uma criança de castigo. Não conseguia largar a mala e sua mão suava tanto quanto a sua testa. Não era mais calor, era desespero.

    Mas, se já está no inferno, que abrace o capeta. Sérgio então esperou a moça se arrumar, levando o seu pensamento para qualquer coisa que não fosse a imagem de Joana nua escolhendo uma roupa no armário ou passando um batom nos lábios. Ou apenas nua, o que já era suficiente para tirar Sérgio e qualquer outro homem do prumo.

    Depois de alguns minutos que pareciam eternos, Joana apareceu ainda mais linda e perfumada. O carro que Sérgio havia pedido já esperava lá fora e nem mesmo o motorista, que buzinava inquieto, conseguiu ficar imune ao encantamento que era ver Joana envolta em alfazema e cor de rosa. Parecia que tudo que ela vestia e usava tinha aquela cor.

    Entraram no carro e foram os dois, no banco de trás, trocando palavras soltas. Sérgio tentava contemplar a paisagem, fazer planos em cadernos imaginários. Pensava em planilhas com datas e horas para as festas, as roupas, o que iria comer e beber. Queria esquecer que Joana estava bem ao seu lado, ainda com os cabelos molhados e a perna roçando na dele a cada curva da estrada. De repente, um cachorro cruzou na frente do carro e a parada brusca fez Joana ir inteira para o seu colo. Seu vestido se levantou, alcinhas saíram do lugar e coxas e seios pularam como pedindo abrigo. A voz de Dona Antônia parecia ecoar em seus ouvidos:

    – Não é desfrutável!

    Joana se recompôs, o cachorro seguiu seu caminho e Sérgio voltou a fazer planos em notas imaginárias, mas os seios de Joana agora já eram uma realidade e nada mais conseguiria ter mais a sua atenção.

    Na entrada do hotel se despediram. Ele foi rapidamente para o seu quarto enquanto Joana foi se trocar para começar o dia de trabalho. Sérgio tomou um longo banho e deitou-se na cama espaçosa. Ainda não se acostumara a dormir sozinho, mas acreditou que seria uma questão de tempo. O fim do casamento ainda era uma ferida aberta, mas como toda cicatrização, só precisava de tempo para acontecer. “O tempo cura tudo” é uma das maiores verdades que a gente escuta por aí.

    Consultou a programação do dia e viu que as festas juninas só começariam depois das 18 horas. Resolveu então conhecer o hotel, tomar um banho de piscina, relaxar. Ainda era cedo, depois pensaria no almoço. Não queria ter hora para nada. Estava de férias, afinal.

    Assim que chegou na área de lazer do hotel, reconheceu aquele cheiro de alfazema. Joana estava a postos, com seu uniforme de camareira, entregando toalhas para os hóspedes. O hotel estava lotado, famílias inteiras estavam lá pelo mesmo motivo de Sérgio: conhecer o famoso São João de Campina Grande. Tentou disfarçar e procurou uma cadeira bem longe da confusão e de Joana. Que eram praticamente sinônimos. Tirou o roupão e tentou relaxar. Pegou o livro da vez e começou a se concentrar
    na história, enquanto crianças de todas as idades pulavam incessantemente na piscina a sua frente. Ele não teve filhos e naquele momento achou a decisão bem acertada. Era um show de descontrole
    quase animal. E os pais pareciam ignorar as crias, bebendo e conversando a uma distância segura. Para eles!

    Enquanto pensava no que fazer para se ver livre daquele barulho, Sérgio não percebeu Joana se aproximando com uma toalha nas mãos. Ela conseguia ficar linda até de uniforme e disse, com aquele sotaque preguiçoso e ardente:

    – Trouxe uma toalha para o senhor. Quer mais alguma coisa?

    Ele queria, ah como ele queria! Queria Joana inteira, com cheiro de alfazema e calcinha rosa na sua cama, todos os dias e para sempre. Queria encarar delegado, dona Antônia, padre e polícia por causa daquela doçura endiabrada. Mas não podia, não podia…Não queria!

    – Quero não – ele respondeu, já imitando o sotaque de Joana sem querer.

    – Querendo, é só chamar.

    Vou ficar querendo, ele pensou.

    Depois do almoço farto e de uma cochilada revigorante, Sérgio estava pronto para a sua primeira festa de São João em Campina Grande. A tão sonhada noite que ele planejava desde a sua separação. A atração da festa seria Elba Ramalho, que subiria ao palco depois da primeira apresentação de quadrilha da cidade. Estava eufórico como criança em noite de Natal. Tinha medo de que suas expectativas fossem maiores do que as realidade que lhe aguardava logo mais. Mas se surpreendeu mais do que poderia
    imaginar. Aprendeu que era “estribado”, mesmo com outros homens “mangando” do seu sotaque. Só os homens. De pura inveja mesmo.

    Pois Sérgio era um belo carioca, com sotaque malando e olhos verdes do mar de Copacabana em dia de ressaca. Fazia esportes na praia diariamente antes do trabalho e mantinha um belo bronzeado. O banho
    de mar era sua religião e seu estilo de vida só não era mais descolado porque tinha que bater ponto. Tirando isso, era o mais belo exemplar de toda ginga esperada de alguém nascido na cidade maravilhosa. E é claro que tudo isso foi detectado pelas mulheres de Campina Grande. Por onde Sérgio passava, ganhava mais do que comprava. A cerveja vinha com um carinho na mão, o espetinho com um olhar malicioso, o curau com um bilhetinho, o mungunzá com o telefone da menina que servia o quitute, o beijinho com a promessa de mais…Era tanto sucesso que Sérgio já nem se lembrava mais de Joana. Ou pensava que não.

    Em 28 dias de festa, Sérgio conheceu tantas mulheres, beijou tantas bocas, se fartou entre tantas pernas, se inebriou em tanto cangote, dançou tanto xote, que o cheiro de alfazema parecia ter desaparecido entre os mais variados cachos e ventres. Ele aparecia apenas na hora da toalha, na piscina, onde a cada dia Joana abria mais um botão da blusa e se curvava com mais empenho, sabendo exatamente o que mostrava e o que ainda queria esconder.

    Mas no último dia de festa, Joana apareceu cedo no quarto de Sérgio. Bateu na porta oferecendo serviço de quarto, que ele não pedira. Mas abriu a porta mesmo assim, sonolento, exausto, ainda com o gosto da
    mulher da noite anterior na boca. Manuela era seu nome. Manu. Talvez a mais fogosa que ele já tinha conhecido. Quase certeza.

    – Bom dia Seu Sérgio. Pediu café da manhã no quarto?

    Ele nem teve tempo de pensar na resposta e Joana já foi entrando no quarto empurrando o carrinho com os mais variados e exóticos quitutes. Seu cheiro de alfazema se misturava aos aromas daquelas delícias e Sérgio não sabia o que o estava deixando mais louco.

    – Joana, eu não pedi nada.

    – Mas eu lhe trouxe mesmo assim. Tem quase um mês que lhe quero e toda noite lhe vejo bulindo outra rapariga na festa. Tudo garapeira amostrada! O que lhe fiz, homem?

    Sérgio ficou sem ação e sem entender metade das palavras que ela dizia nervosa e com raiva. Ela lhe queria?

    – Sua tia me disse para não encostar a mão em você, Joana. Precisava lhe respeitar, você é donzela.

    – Que donzela nada! Sou moça de família, mas já perdi o cabaço tem tempo. E o senhor tá me deixando abilolada fugindo de mim assim.

    O rosto de Joana enfurecido de tesão, aqueles aromas invadindo o quarto, o calor que ele não sabia mais distinguir de onde vinha, os seios que ela mostrava pouco a pouco todos os dias…Sérgio simplesmente não queria mais resistir.

    Se aproximou de Joana como se estivesses prestes a cometer a maior loucura de sua vida. A encarou como quem desiste de viver e simplesmente se entregou ao beijo. Seus lábios pareciam arder e Joana, rainha agora do seu servo, não se fez de rogada. Terminou de abrir os botões da blusa e deu a Sérgio tudo que ele esperava há quase um mês. Ela, de calcinha cor de rosa e encharcada de alfazema. Sérgio não reagiu. Travou no meio daquele furacão moreno e cor de rosa e brochou. Miseravelmente. Não sabia o que fazer. Talvez o cansaço pela noite anterior, talvez o excesso de desejo por Joana. Simplesmente brochou.

    Joana não podia acreditar no que via. Aquilo nunca tinha acontecido com ela e, até aquele dia, também não tinha acontecido com Sérgio. Tentaram de tudo. Joana rebolou, brincou, inventou. Nada. Desolado e constrangido, Sérgio não sabia mais o que falar ou fazer. Joana, revoltada com aquela desfeita homérica, se recompôs e foi embora batendo a porta levando com ela seu cheiro de alfazema.

    Com todo aquele fuzuê, Sérgio tinha perdido a noção do tempo e precisou se apressar para não perder o avião. Fez rapidamente a mala, com a certeza de que não teria surpresas na bagagem para levar de volta ao Rio. No trajeto até o aeroporto, foi pensando no que poderia ter acontecido. Cansaço, só podia ser. Talvez medo do que poderia acontecer, de dona Antônia contando para o delegado, contando para Cleide, seu Ismael voltando para lhe puxar o pé por ter comido sua sobrinha…Enfim. Talvez tenha sido melhor assim.

    O tempo estava perfeito para uma viagem de avião até o momento em que Sérgio colocou os pés no aeroporto. Nuvens negras surgiram como um presságio e o tempo fechou de repente. Todos os voos foram cancelados e ninguém sabia dar alguma previsão de retorno.

    Ao seu lado uma menina brincava distraída com sua boneca toda em cor de rosa. A mãe falava com alguém no celular e, mesmo sem querer, Sérgio não pode deixar de ouvir:

    – Perdi o voo, amor. Não tenho a menor ideia do que vai acontecer. Talvez tenha que voltar para Coxixola, vamos esperar para ver.

    Mais essa, agora. Deveria ser algum carma, só podia. De todas as pessoas no aeroporto, tinha que ter alguém de Coxixola?

    – Me desculpe, a senhora é de Coxixola?

    – Sim, senhor. Por quê?

    – Não, nada. Conheci a sua cidade há um mês. Quente…

    – Foi fazer o que em Coxixola? Lá não tem nada!

    – Fui ao enterro do Seu Ismael. Conheceu?

    – Seu Ismael…Pessoa massa! Todo mundo ficou borocoxô quando ele se foi.

    – Pois é. Fui eu quem levou a coroa de flores. Encomenda da Cleide.

    – Cleidinha? Minha amiga de infância. A gente era pixototinha e já andava encangada. Quando comecei a namorar com meu marido, ela segurava muita vela pra gente poder ir ao cinema. Naquele tempo…

    Mas é claro. O que mais poderia acontecer? Ela, por telepatia, saber que ele tinha brochado? Achou melhor encerrar o assunto de maneira educada antes que ela também fosse também amiga de Joana.

    – Trabalhamos juntos. Muito prazer, sou Sérgio.

    – Vixe Maria! O senhor é o Sérgio de Joana?

    – Como assim, Sérgio de Joana?

    – Joana, prima de Cleide. Ela me contou do senhor…Sim, disse que estava apaixonada. Ih…nem sei se devia contar tudo isso.

    – Joana, apaixonada por mim?

    – Bem, se for o mesmo Sérgio que ela me contou…Sim. é o senhor mesmo! Lembro dos olhos verdes que ela ficou caidinha.

    Não era possível. Joana, apaixonada por ele e ele brocha? Tinha que resolver isso. Tinha que ver Joana, entender aquela paixão que ele também sentia. Não tinha nada a perder, afinal. Como parecia mesmo que nenhum voo deveria decolar mais naquele dia do aeroporto, estava com tudo a favor. A previsão era de mais chuva e Sérgio resolveu voltar para o hotel.

    – Vou voltar para a cidade. A senhora aceita uma carona?

    – Mas o senhor não vai esperar? E se conseguirem colocar a gente em algum outro voo?

    Sérgio não queria mais esperar. Não podia mais.

    – Não me interessa o que eles vão dizer. Preciso resolver uma coisa e agora.

    – Bem, se não for dar trabalho. De lá, acho que volto para Coxixola. Não tenho onde ficar em Campina Grande.

    Já estava se acostumando a essas caronas. Pegaram as malas e rumaram para o Garden. Sérgio logo perguntou por Joana:

    – Saiu logo cedo, hoje é dia de folga dela. Já deve estar em casa.

    Ou seja, em Coxixola. Claro.

    – A senhora está com sorte. Tenho que ir para Coxixola, vamos?

    – O senhor tem certeza?

    – Não sei se tenho toda a certeza do mundo ou se estou fazendo a maior bobagem da minha vida. Mas saberei assim que chegar na sua cidade. Nem ao menos perguntei seu nome, me desculpe.

    – Sou Joelma e a mina filha, essa delícia, é a Ana.

    Era demais. Jo e Ana. Seria Deus lhe mandando sinais? Começou a acreditar em absolutamente tudo. Só não sabia ao certo o que falar para Joana. – Ei, encontrei uma amiga da sua prima que disse que você está
    apaixonada por mim. Posso tentar não brochar dessa vez? Beirava o ridículo.

    Duas horas mais tarde, chegaram em Coxixola. Já estava começando a gostar do lugar. Até cumprimentou um e outro que estavam no bar. Amigos de velório são para sempre, como não? Joelma e Ana ficaram na casa dos parentes. Se encantou pela menina de tal forma que quase começou a querer ser pai. Já imaginava uma filha com Joana, com cheiro de alfazema e pele de romã. Quando o carro parou em frente à casa de sua musa, respirou fundo para tomar coragem. Pagou e parou em frente a porta. Não tinha ensaiado nada, mas resolveu bater antes que ficasse encharcado. Coxixola também estava debaixo de chuva.

    – Quem é?

    – Sou eu, Sérgio!

    Joana abriu a porta em um rompante, como sem acreditar.

    – Arre-égua! O que tu tá fazendo aqui?

    – Bem, meu voo foi cancelado e… não te encontrei no Garden e… não queria que você achasse que eu…e aí, encontrei Joelma…

    – Tu encontraste Joelma aonde?

    – No aeroporto. Ela e a filha, que também perderam o voo e…

    – Oxi…E elas estão bem?

    – Sim, as deixei em casa.

    – O senhor as trouxe?

    – Pois é. Olha Joana, só voltei porque você me disse aquelas coisas que a sua tia mentiu e que você me queria e tal…

    – Desembuche logo, homem, que chego a tá com gastura! Sérgio respirou fundo mais uma vez e conseguiu encará-la:

    – Quero você Joana. Não consigo parar de pensar no que aconteceu, não consigo parar de pensar em você. Mas, olhe…

    Joana abriu seu sorriso mais doce, mexendo os cabelos e espalhando todo seu cheiro de alfazema pela varanda. Olhou Sérgio bem nos olhos e disse:

    – Emburaque de uma vez! Lhe lascou um beijo na boca e o colocou para dentro de sua casa e de si.

    De ambos os lugares, Sérgio nunca mais saiu. Dona Antônia deu a benção ao casal, enquanto Cleide e Joelma foram madrinhas no casamento. A primeira filha do casal se chamou Ana. E, até onde se sabe, a vida de Sérgio continua cor de rosa e com cheiro de alfazema. E em Coxixola.


  • Dica de milhões

    Algumas coisas que acontecem no meu dia a dia são tão estapafúrdias que me levam a patinar na velha dúvida: falo ou calo? 

    Minha primeira opção, nessas ocasiões, é calar, sobretudo quando aquilo que pretendo dizer é óbvio e deveria dispensar apresentações. Por outro lado, se, mesmo sendo óbvio, a outra parte insiste em ignorar os limites da razoável convivência, entendo que o irmão de raça carece de uma interpelação. 

    Refiro-me aqui, mais exatamente, ao inferno que se tornou a espera em qualquer recepção, consultório, fila, transporte público, restaurante ou praia com o advento do celular sem o uso e fone.

    Não bastasse ter que disputar o espelho dos banheiros públicos e academias pelo desesperado self da humanidade, agora o coleguinha da cadeira ao lado oferece, independente de hora, local e ocasião, um vasto repertório de vídeos (entrevistas, orações, piadas, podcast) no mais alto volume.

    A primeira coisa que me pergunto, nessas situações, é se a pessoa tem ciência de que não está meditando sozinha nas montanhas do Nepal.

    Não sei se por carma ou azar, na última quinta-feira, o espaço, equivocadamente, chamado de coletivo, foi cenário de mais um desastroso encontro meu com um exemplar dos tempos modernos. 

    Eu estava numa recepção de consultório aguardando minha consulta quando, sem aviso prévio, uma criatura saca seu celular do bolso e decide ouvir, em fartos decibéis, vídeos do TikTok. Diante da falta de noção do querido, optei por usar a linguagem simbólica dos gestos. Olhei para a apostila que estava em minhas mãos (sim, eu estava estudando), depois para ele, para o celular dele e novamente voltei a atenção para a apostila. Vi que ele notou minha desaprovação, mas seguiu incólume. Foi nessa hora que decidi utilizar uma estratégia aprendida com uma amiga umbandista. Segundo ela, nessas horas, o melhor é usar a maldita intolerância religiosa das pessoas a nosso favor. Colocar um ponto de Exu para tocar e ver as pessoas se afastarem feito cupim na presença da luz. Assim fiz: “Auê Exu, ninguém pode comigo. Eu posso com tudo. Lá na encruzilhada, ele é seu Exu.”

    Como num passe de mágica, o respeitável senhor foi catar seu destino e a recepção voltou a ser um espaço habitável.

    O que essa situação corriqueira denuncia é o crescente sucateamento do espaço público em prol da soberania dos mimados e narcisistas e o envenenamento do coletivo pela necessidade de uniformização das escolhas, preferências e crenças.

    Ainda bem que existem pontos de Exu para nos proteger.


  • Sobre a retórica do humor

    O humor se distingue da comicidade por estar na linguagem. Como tal, possui uma retórica, que orienta alguns dos procedimentos capazes de levar ao riso.

    Na comicidade, rimos da situação ou da figura física; um palhaço, com seu narigão e suas calças largas, é basicamente um cômico. Já no humor rimos do efeito surpreendente produzido pelas palavras. O inesperado, que pode ou não tender ao absurdo, faz rir.

    Entre os recursos usados pelos humoristas, destacam-se a paródia, a quebra do paralelismo semântico, a ironia e o que costumo chamar de “reconversão ao literal”. Vejamos rapidamente cada um deles.  

    A paródia é a reescrita de um texto visando a contestar-lhe a ideologia, o espírito, o sentido original. Muitas vezes o que provoca essa reescrita é a semelhança sonora (paronomásia). Um exemplo encontra-se na composição em que o modernista Oswald de Andrade parodia a famosa “Canção do exílio”, de Gonçalves Dias. Ao escrever “Minha terra tem Palmares”, em vez de “palmeiras”, Oswald critica o idealismo nacionalista do autor romântico. Afinal, como conciliar a idílica visão do Brasil com o massacre perpetrado pelas forças do governo contra o quilombo de Zumbi?

    Na quebra do paralelismo semântico, coordenam-se temos pertencentes a diferentes áreas do sentido. O resultado é um tipo de ruptura que surpreende o leitor, como na frase: “Semana passada fiz duas operações – uma no joelho, outra no Banco do Brasil.” A atribuição de outro sentido ao termo “operação” (procedimento bancário, e não intervenção cirúrgica) quebra a expectativa e produz o riso.

    Uma das clássicas formas de humor é a ironia. Por meio dela, afirma-se uma coisa dizendo o oposto. É talvez a única figura que depende de um confronto com a realidade para produzir efeito. Se digo de um homem que ele é “um Brad Pitt”, isso por si não tem graça. Pode até ser um elogio, se o sujeito for de fato bonito (nesse caso, terei usado uma imagem metafórica).

    O efeito irônico ocorreria caso a designação se aplicasse a alguém baixinho e feioso. É a distância entre o comparado e o comparante (Brad Pitt) que faz rir. A ironia é uma metáfora sem nexo, ou melhor, uma metáfora em que o chamado “nexo dos atributos” é na verdade uma antítese. Ou um paradoxo.

    A reconversão ao literal (ou seja, ao sentido original e denotativo) parece ir de encontro ao princípio que norteia os desvios estilísticos, qual seja, o de que o efeito expressivo resulta de uma ruptura com os sentidos cristalizados, convencionais. Nesse tipo de procedimento, o efeito vem justamente do percurso oposto.

    Para entendê-lo, consideremos que há dois momentos: o primeiro, em que se constrói a imagem. O segundo, em que ela perde o valor de imagem (já transformada em clichê) e volta a significar “de acordo com a letra”.  A surpresa que isso provoca faz rir.

    Os exemplos são muitos. Um dos mais conhecidos é o da velha piada: “Pedro caiu na fossa.” “Morreu?” “Não. Escapou fedendo.” Nessa passagem “escapar fedendo”, que virou lugar-comum, deixa de significar “escapou por pouco”, ou “por um triz”, e adquire uma súbita atualização. O fato de haver mesmo o mau cheiro desautomatiza a percepção linguística de maneira análoga à que ocorreu no primeiro momento, quando se construiu a imagem (“escapar fedendo” como “quase sucumbir”).

    Efeito semelhante ocorre em clichês como “ficar de nariz empinado” ou “empurrar com a barriga” em frases do tipo: “Depois que fez plástica, ele vive de nariz empinado” ou “Arranjou uma gravidez indesejada. Agora vai ter que empurrar com a barriga”. A ambiguidade faz com que os referidos clichês deixem de ser apenas “força de expressão” e traduzam literalmente as ações.

    Por possuir uma retórica, o humor é literatura. E pela condensação que o humorista opera nos signos, o texto humorístico tem muito em comum com o poético. Em ambos a ênfase recai no significante, ou seja, na mensagem, que no texto de humor revela o despropósito ou o absurdo de certas situações. Daí ele comumente se constituir num espelho das deformações morais e servir como instrumento de crítica à sociedade.


  • Como pode uma pessoa viver tanto tempo sem um cão?

    Outro dia, deparei-me com uma foto simples, mas cheia de significado: um cão da raça shih tzu fofo e a legenda que dizia, com uma sinceridade quase cortante: “Como pude viver 58 anos sem um cão?” Aquilo me fez refletir profundamente sobre a força desse questionamento. Não era apenas uma questão retórica ou um desabafo casual; era um grito silencioso sobre o impacto de algo que muitos ignoram até o dia em que se deparam com as evidências. Quantas pessoas, por diversas razões, deixam de viver a experiência única de compartilhar o cotidiano com um cão? Quantas, por escolha, circunstâncias ou até por falta de oportunidade, acabam privadas de algo tão poderoso e, ao mesmo tempo, tão simples. É uma relação que dispensa explicação, que não se justifica em palavras, mas que transforma vidas com uma intensidade quase inexplicável.

    Quando reflito sobre isso, o que sinto não é pena pelos cães. Eles sempre encontram formas de amar, de se fazer, de fazer parte do mundo ao seu redor. Minha tristeza é pelas pessoas. Por quem nunca se permitiu experimentar a leveza, o carinho e a simplicidade que vem de um olhar canino. Eles não sabem o que perdem: uma companhia que não exige nada além de presença, uma lição diária sobre amor incondicional. Uma relação tão pura e transformadora que só quem já teve ou tem um animal de estimação pode compreender plenamente.

    Não escrevo para convencer ninguém. Cada um tem suas razões e seu momento. Mas acredito, com cada fibra do meu ser, que a presença de um cão na vida de qualquer pessoa é uma dádiva. Eles trazem mais do que alegrias passageiras; trazem permanência em meio ao efêmero. Um cão nos ensina a desacelerar, a ouvir com o coração, a encontrar beleza na rotina e valor nos pequenos gestos. É uma troca que transcende palavras, um privilégio que muitos talvez só percebam tarde demais.

    Quem já teve um cachorro sabe do que estou falando. São momentos únicos, pequenos instantes que se tornam memoráveis.

    E, para aqueles que ainda não vivenciaram essa experiência, talvez ainda seja tempo de descobrir o que um cão pode fazer por sua vida. A vida tem um jeito curioso de nos surpreender, de nos oferecer segundas chances quando menos esperamos. Acolher um cão, conviver com um ser que nos ama sem reservas, não é apenas um ato de generosidade; é um privilégio. É um aprendizado diário sobre paciência, afeto e simplicidade. E, muitas vezes, são essas lições que mais nos faltam na correria insana dos dias.

    Se eu tivesse que dar uma única dica, diria que um cão é um lembrete claro de que a vida pode ser mais do que contas a pagar e metas a cumprir. É sobre conexões reais, sobre estar presente e sobre amar sem esperar nada em troca.

    Para aqueles que ainda duvidam do que a companhia de um cão pode ser capaz, talvez a pergunta não seja “Como pude viver tanto tempo sem um cão?” e sim “O que estou esperando para descobrir o que um cão pode me ensinar?”. Afinal, não importa quando o laço começa, ele sempre tem o poder de durar (ou curar o) para sempre.

    *Inspirado numa publicação de Roberto Motta, extraído do Threads.


  • Spoiler a contragosto

    Henzo Felisberto, com agá, por favor, nunca gostou de spoilers. Quem conviveu com ele sabe disso. Ninguém se atrevia a lhe contar algo de antemão ou lhe adiantar o assunto. Era avesso a trailers de filmes, orelhas de livros e introduções. Nunca foi público para a fofoca e achava que a experiência perdia muito nessas antecipações indevidas. O comportamento de Henzo Felisberto afastava, talvez, uns quatro quintos da população, era um moço difícil, pra dizer a verdade, com agá. Se chamava Henzo Felisberto, com agá, por favor, porque, apesar de tudo, nunca foi descortês. Educou-se ao último grau em todas as instâncias adequadas para pessoas da sua estirpe.

    Nos registros, consta que Henzo Felisberto, com agá, por favor, foi por três anos goleiro do Não Me Conte Futebol Clube. Era um bom arqueiro, apesar de falhar nas bolas aéreas, vez ou outra. Além disso, conta com a triste marca de jamais ter defendido um pênalti porque se negava a estudar o batedor. Dizia preferir a surpresa. Coisas do futebol, sabe como é. Pois bem. Parou de jogar quando tentaram-no ludibriar para uma combinação de resultado. Afinal, se perguntava, como poderiam jogar assim? Conflitos existenciais pareciam não ser recorrentes na ética defeituosa do restante do time. Uma vergonha, de fato. Abandonou o esporte para se concentrar em atividades de princípios mais firmes.

    Com agá, por favor, Henzo Felisberto tinha um verdadeiro orgasmo espiritual quando encontrava certos avisos, tais como: Nota do editor: os leitores que ainda não conhecem o livro devem levar em conta que detalhes do enredo serão revelados nessa introdução”, ou ainda, quando havia alerta de spoiler no título da publicação, de preferência em vermelho, bem visível. Pois é, ninguém gosta de ser pego desprevenido. Henzo Felisberto, com agá, por favor, sempre primou pela experiência, pela emoção, pela surpresa. Acreditava que nenhuma palavra, indicação ou comentário tinha o direito de suprimi-lo dessa vivência. Um filósofo incompreendido, diriam alguns. Um otário, muitos outros. Eis que numa manhã de terça-feira, Henzo Felisberto, com agá, por favor, ia para o trabalho no seu Peugeot 206 enquanto o celular tocava incessantemente. Moço sério, centrado, jamais atenderia no trânsito, retornaria depois, quando estacionasse em frente ao departamento. Ouviu a marcha fúnebre noticiando um falecimento no rádio.

    Desligou-o de supetão. Na verdade, nem sabia porque ainda conectava aquela estação. Pegara o hábito da avó, talvez. Só quando parou em frente ao trabalho é que percebeu ter recebido dezenas de ligações, provindas da família, dos parcos amigos, dos colegas de trabalho, até dos antigos e antiéticos companheiros de time. Então, sem pensar muito, notou que a morte anunciada tinha relação com aquelas chamadas todas. Infelizmente, concluiu, alguém próximo havia falecido. As pessoas insistiam numa tentativa esdrúxula de avisá-lo.

    Mas, por favor, com agá, Henzo Felisberto não passaria por isso. Descobriria o defunto diretamente no velório. Teria uma experiência única, como só um mestre em evitar spoilers poderia conceber. Coisa de gênio, diga-se de passagem.

    Tratando-se de alguém tão próximo, lhe dariam folga no trabalho. Nem chegou a sair do carro, depois ligaria direto do velório para o chefe, explicaria tudo e receberia os pêsames. Desligou o celular e voltou para casa num oblíquo regozijo, fez cada curva do trajeto com a curiosidade de um turista, como se não conhecesse a própria cidade, tudo se mostrava novo, as fachadas dos comércios, as calçadas, as pessoas caminhando, as faixas de pedestres, o sinal vermelho, amarelo e verde. Um tempero reluzente dava a Henzo Felisberto, com agá, por favor, um espanto de recém-chegado. Entrou sorrindo no apartamento, preparou e bebeu devagar um chá preto, precisava dar tempo ao tempo. Pelo horário, o corpo ainda era preparado na funerária. Em uma hora ou duas o velório iniciaria. Vestiu o seu melhor terno com uma gravata azul bebê, nada muito chamativo. Esses eventos requerem uma formalidade discreta, embora nem todos saibam disso. Mediu-se paciente no espelho, não gostaria de aparecer desalinhado.

    Excitado com a experiência, mesmo fugindo do seu feitio, não deixou de confabular sobre o defunto: A morte do pai causaria uma discussão tremenda com a irmã sobre a divisão da herança. O irmão Erberth, com agá derradeiro, nesse caso, já deveria estar cuidando dos processos burocráticos. A irmã Eloísa, sem agá, mora longe e não está apta a debater o assunto de forma plausível. A morte da mãe o obrigaria a encontrar outra pessoa para lavar e passar suas camisas toda semana. Além disso, provocaria um efeito nocivo ao pai, que provavelmente morreria em seguida. O papo desconfortável com Eloísa, sem agá, e Erberth, com agá derradeiro, era iminente.

    Poderia, claro, não ser alguém da família. Se for o Ugo, estranhamente sem agá, ficaria decepcionado, afinal, é personal trainer e dá aulas de spinning como ninguém. Estranharia mesmo se a causa mortis fosse um enfarte fulminante. Se for a Martinha, sem agá nem clima para hora agá, ficaria também desiludido. Ela pululou as fantasias sexuais de Henzo a vida inteira, mas nunca lhe deu abertura para uma interação mais aguda, por assim dizer. Há poucos meses vinham tendo uma breve aproximação. E voltou a fantasiar cenas quentes com ela, embora seus princípios também argumentassem contra spoilers sexuais imaginários. A esperança, por fim, é a última que morre, mas com a necrofilia fora de questão, morreria também, mesmo que por último. E sua história com a Martinha terminaria sem agá, ou hora agá, melhor dizendo.

    Henzo Felisberto, com agá, por favor, chegou ao velório com borboletas no estômago, não ergueu os olhos, pois não queria ser abordado com histórias do morto antes de descobri-lo nem ser traído pelo olhar. Aquele seria o espanto máximo e, por um segundo, quase não suportou a ansiedade. Seguiu firme mirando os pés até o caixão, mas o encontrou vazio. Nele havia só um fundo branco adornado por flores também brancas e um travesseiro de dois ou três dedos, um mimo, cortesia da funerária. Num susto pulou lá dentro e logo estava confortável. Um terço azul pousou entre seus dedos, na mesma cor da gravata. O caixão era aconchegante. Cairia logo no sono, não fosse a mãe esbravejando ao telefone com Eloísa, sem agá, porque ouvia desculpas esfarrapadas para não aparecer. O pai, atônito, não entendia os últimos acontecimentos. Erberth, com agá derradeiro, puxava as orações. O Ugo, estranhamente sem agá, não compareceu. A Martinha ficou no velório por apenas cinco minutos e não se aproximou. O Não Me Conte Futebol Clube mandou uma coroa de flores com a imagem de um gol aberto e os dizeres: sempre será lembrado. Henzo Felisberto, com agá, por favor, dormiu profundamente pela primeira vez em anos, talvez em décadas, com a sensação de dever cumprido.

    A lápide foi paga pelo Não Me Conte Futebol Clube. O valor teria sido angariado num jogo vendido, mas isso não importa agora. No cemitério, fica no quarto corredor à esquerda. Lá se encontra com os dizeres: Aqui jaz, sem spoilers, Enzo Felisberto, com um agá pintado de canetinha pela irmã Eloíse, sem agá, quando foi visitá-lo, uma única vez.


  • Só um pouquinho

    Dona Glória acabara de comemorar seus 70 anos e, como presente, ganhou um gesso no braço. Uma queda boba, o tapete fora do lugar, o piso encerado e ela se estabacou no chão. No instinto, colocou a mão na frente e o braço segurou o peso de todo o corpo. Que não era muito, pois Glória se cuidava e mantinha a silhueta em dia. Mas também não era pouco.

    Dois meses depois do incidente, ela finalmente tirou aquele incômodo e a primeira reação foi coçar a parte esbranquiçada da pele. Mantinha uma cor bronzeada, fruto da proximidade da praia, e aquele pedaço de braço cor de isopor lhe assustou. Era como se voltasse no tempo e a visse criança, chegando ao Rio, junto com os pais italianos. Era tão branca que se destacava sempre quando se misturava com outras crianças.

    — Sua recuperação foi muito boa, Dona Glória! Mas, como o braço ficou muito tempo imóvel, vou recomendar uma fisioterapia. Algumas sessões e a senhora vai ficar como nova!

    Mais essa, agora! Ela não queria ficar como nova, queria apenas poder se coçar e tomar sol.

    — Tem certeza que preciso disso?

    — Claro. Depois de certa idade a musculatura atrofia e os ossos já não se recuperam da mesma forma. A fisioterapia vai fortalecer tudo.

    Depois de certa idade… Será que todo mundo tem uma idade que marca o começo do fim? Qual seria a dela?

    — Posso fazer em casa? Não tenho saído muito e prefiro o conforto do meu cantinho.

    O que ela queria mesmo era escapar do controle do médico.

    — Tenho alguns profissionais que atendem em domicílio sim. Vou te passar os contatos e a senhora escolhe o melhor.

    Nomes e telefones em mãos, Dona Glória voltou feliz da vida para sua casinha. Realmente achava que todo aquele cuidado era um exagero e deixou de lado a história do fisioterapeuta. Era uma mulher saudável, independente, ia se virar muito bem sozinha.

    Mas já nos primeiros dias, viu que não seria bem assim. O braço não correspondia ao comando, o ombro doía, os armários pareciam mais altos, a mesa mais longe, as cadeiras mais pesadas. Tudo que fazia, doía. Acabou se rendendo. Pegou de volta o papelzinho no fundo da bolsa e resolveu ligar para o primeiro nome da lista. Wagner.

    — Boa tarde Wagner, tudo bem? Aqui quem fala é Glória, quem me deu seu contato foi o Dr. Paulo. Você atende em casa?

    — Boa tarde Dona Glória, atendo sim.

    — Você pode vir amanhã? Estou com muita dor.

    — Posso sim. Pode ser depois do almoço, às 14 horas?

    — Marcado. Anota o meu endereço.

    Glória acreditava em intuição e gostou do jeito de Wagner. Uma voz mansa, grave, como um locutor de rádio de antigamente. Deveria ser um belo homem. Tomara que sim.

    Não que ela estivesse interessada em algo mais que a fisioterapia. Viúva há 20 anos, desde então não se interessara por mais ninguém. Se distraía com as amigas, entre mesas de bar e excursões para Caldas Novas. Elas também se reuniam todas as quartas para jogar buraco, organizavam o bazar da igreja, iam às estreias de filmes, peças de teatro, aulas de dança e tudo mais que o dinheiro desse e o quadril aguentasse. Eram conhecidas como as “Velinhas da Van”: Para todo lugar que queriam ir, alugavam a van do conhecido Seu Joaquim e chegavam seguras, festivas e aprumadas. Com isso, o tempo passava e ela se esquecia da saudade do marido e a distância dos filhos e netos, que sempre tinham algo mais interessante para fazer do que visitá-la.

    Às 14 horas em ponto Wagner batia na porta. Glória olhou pelo olho mágico e gostou do que viu: um homem alto, forte, com rosto suave e mãos fortes. Se ajeitou e abriu a porta com seu melhor sorriso:

    — Bem-vindo, Wagner. Muito trabalho te espera!

    Ele sorriu de volta e começou a se ambientar com a casa. Perguntou o que tinha acontecido, onde era a dor, tirou alguns aparatos e começou a sessão.

    O primeiro contato das mãos de Wagner no braço esquerdo de Glória causou-lhe um arrepio forte até o fim da coluna. Ela tinha se esquecido daquele pedacinho chamado cóccix que ligava as costas às partes mais íntimas e tremeu. Ele pegava de maneira firme, fazia movimentos vigorosos e tudo parecia voltar para o lugar como um milagre. Depois de 40 minutos, Glória, radiante com as novas emoções e já se sentindo um pouco mais ágil, resolveu fazer um café para os dois.

    — Adoçante ou açúcar?

    — Puro mesmo.

    Café de macho. Começaram uma conversa amigável, levada pelo aroma quente da bebida. Ela descobriu que Wagner era o primogênito de seis irmãos, filho de uma empregada doméstica e um motorista de ônibus. Tinha 28 anos, cursou Fisioterapia para ajudar a avó que sofrera um acidente em casa – uma bobagem, mas que ainda limitava os seus movimentos – e conseguiu uma bolsa através do FIES. Ela se limitou a falar que era viúva. Tinha medo de dar muitos detalhes. Achava sempre que podia ser sequestrada ou roubada. E ele teria acesso a ela e a casa, melhor prevenir.

    Marcaram mais sete sessões, duas por semana, sempre depois do almoço. Glória pagou as dois primeiras e disse que ficariam assim.

    — Até sexta!

    Um sentimento novo tomou conta de Glória. Era como se sentisse de novo o seu corpo, que lhe servia apenas para levá-la da praia para casa e de lá para os encontros com as amigas. Colocou uma música no antigo aparelho de som, empoeirado de tão esquecido e se viu dançando pela sala. Feliz.

    As sessões se sucederam com verdadeiro sucesso. Glória não só já fazia todos os movimentos com o braço, como achava mesmo que todo o corpo se movimentava melhor. Já tinha contado toda a sua vida para Wagner, que também era devoto de Nossa Senhora e achou uma beleza ela se chamar Glória por ter nascido no dia 15 de agosto, dia de festa para Nossa Senhora da Glória. Depois das sessões, ela, feliz, mas sozinha, sempre arriscava uns passos de dança e começou a sentir falta de dançar com alguém. Será que Wagner lhe acompanharia em uma dança?

    No dia da última sessão ela preparou uma surpresa: comprou um presente para Wagner em agradecimento a sua dedicação e toda alegria de viver que tinha invadido a sua vida. Queria um pretexto para lhe convidar para dançar e acreditava que o presente e o fim das sessões seriam motivos suficientes.

    Depois do último exercício finalizado, ela tomou coragem. Pegou o embrulho como uma adolescente apaixonada. Sentia o rosto queimar.

    — Comprei para você. Sei que vai lhe ajudar muito.

    — Não precisava Dona Glória, imagina.

    Era um massageador elétrico, último modelo. Ele tinha comentado que um daqueles iria lhe abrir outras portas e resolveu dar um empurrãozinho. Wagner ficou contentíssimo, nem sabia como agradecer.

    — Eu tenho uma ideia, Wagner. Você me acompanha em uma dança?

    — Será um prazer, Dona Glória.

    — Glória. Me chama de Glória.

    Ela colocou um disco antigo de bolero e se deixou levar pelos braços de Wagner. Ele não sabia exatamente como se dançava um bolero, mas aquilo era o que menos importava. Os corpos unidos era só o que Glória precisava. Existia nela ainda um furor de mocidade e o contato doce daquela fartura toda fazia seu coração acelerar e o seu ventre acordava de um longo período de total esquecimento. Ela queria mais.

    Mas a música parou e Wagner se desvencilhou gentilmente de Glória dizendo que precisava ir.

    — Foi um prazer Dona Glória. Precisando de qualquer coisa, pode me ligar.

    E Glória precisava muito, de muito mais. Mas como impedir que ele sumisse de sua vida para sempre? Inventar novas dores, quebrar o outro braço? Não podia se dar ao luxo de quebrar mais nada, não suportaria mais dois meses de gesso e incômodos. Precisava de uma desculpa muito bem elaborada. Sabia que ele precisava de dinheiro, precisava ajudar em casa. Resolveu ligar para uma amiga, a mais esperta.

    — Sarah precisa que me ajude a pensar em uma desculpa.

    — Ele… O que foi?

    Glória contou toda a sua saga para Sarah, judia tradicional que frequentava as melhores rodas do Leblon. Esperta, negociante nata, ela foi certeira:

    — Ele precisa de dinheiro e nós, de distração. Que tal pagar para ele dançar com nossas amigas?

    — Será, Sarah? Não poderia parecer uma certa prostituição?

    — Ele não vai fazer sexo, só vai dançar. Por favor, Glória, nessa idade não precisamos ter tanto pudor!

    A ideia não era ruim. Glória sabia que todas as suas amigas sentiam falta de um parceiro de dança e Wagner era um pedaço de mau caminho. Elas iriam adorar a novidade e todas podiam pagar, sem dúvida. Mas, quanto ele iria cobrar? Resolveu parar de pensar e agir.

    — Bom dia Wagner, tudo bem? É Glória.

    — Bom dia Dona Glória. Está tudo bem?

    — Tudo ótimo querido. Você não vai acreditar. Conversei com algumas amigas sobre a nossa dança e como você foi gentil comigo. Elas ficaram morrendo de inveja.

    — Imagina Dona Glória. Nem danço tão bem assim.

    — Não seja modesto, rapaz. Me senti uma Ginger Rogers! E sabe o que elas me pediram?

    — Não tenho a menor ideia!

    Gloria tentava colocar toda a culpa nas amigas.

    — Elas querem que você dance com elas! Claro, vamos pagar para isso.

    Wagner ficou calado por um tempo. Achou tudo muito estranho, mas precisava de dinheiro. E o que poderia ser mais inocente em fazer meia dúzia de senhoras felizes?

    — Confesso que estou meio surpreso com a oferta…

    Glória se sentia um cafetão.

    — Mas também confesso que realmente estou precisando de uns extras.

    Aliviada, Glória resolveu encerrar o assunto e marcar:

    — Perfeito. Amanhã às 8?

    — Marcado.

    Glória desligou o telefone se sentindo uma devassa. Era como se marcasse um encontro com um garoto de programa, sentia a adrenalina tomar conta de suas emoções. Agora era convencer as amigas a ir até a sua casa e dançar com Wagner. Não seria problema. Sexta à noite normalmente ninguém tinha programa e o fato de sair de casa já era um acontecimento.

    Os preparativos começaram logo cedo. Glória arrumava a casa como uma criança que espera o Natal. Pensou em tudo: separou os discos, dividiu entre as amigas os comes e bebes, ajeitou o espaço para todas se sentarem e, também dançarem. Tinha uma sala espaçosa e precisou apenas rearrumar alguns móveis para que os novos passos coubessem no local.

    A noite chegou e Glória parecia uma debutante. Na excitação, não nos costumes. Colocou seu vestido vermelho, se perfumou como se fosse pecar e arranjou uma rosa vermelha para o cabelo. Se sentia uma cigana. Só faltava rodopiar com seu par, que acabava de tocar a campainha:

    — Chegou cedo, Wagner!

    — Achei melhor me antecipar. Quero saber como vai funcionar a hora dançante… Rs…

    — Bem, você dança com cada uma de nós pelo menos duas músicas, pode ser?

    Ele fez os cálculos de tempo: duas músicas, máximo 5 minutos cada música, 10 senhoras… Não ficaria nem duas horas por lá. Para receber uma boa grana, estava ótimo.

    — Perfeito, Dona Glória. E o pagamento é antes ou depois?

    — Posso te pagar agora!

    Tudo acordado, as amigas de Glória foram chegando aos pares, cada uma mais perfumada e arrumada do que a outra. A sala começou a ficar impregnada de sândalos e almíscares e Wagner já estava meio tonto, pois cada uma delas fez questão de cumprimentá-lo de maneira, no mínimo, efusiva. Sarah foi a que mais se demorou nos braços do rapaz:

    — Glória, esse homem é um escândalo! Vai ser difícil segurar as meninas.

    De fato, as “meninas” estavam como abelhas no mel. Sorriam, mexiam nos cabelos, destacavam os decotes. Não saíam de perto de Wagner e já se enfileiravam para começarem as danças. Glória resolveu dar início a festa e colocou uma valsa. Achava chique.

    — Valsa, Glória? Não tem nada mais moderno?

    — Moderno? Desde quando somos modernas?

    E lá se foram as primeiras danças, com Wagner se esmerando nos rodopios e as amigas de Glória se sentindo adolescentes virgens sendo conduzidas pelo pretendente. Algumas soltavam pequenos gritinhos de prazer, outras apenas se ajeitavam para sentir os músculos – todos – de Wagner e outras estavam tão excitadas que o corpo parecia desobedecer. Viúvas há anos, todas já não sabiam mais o que era sentir prazer. E o que seria apenas 2 horas de dança inocente, se tornou uma grande festa, com Wagner se desdobrando para atender a todas em passos ousados e singelos amassos.

    Na outra semana, Glória resolveu se modernizar. Pediu ajuda para a neta, que apareceu uma tarde para pegar um casaco de pele emprestada. Quase não a reconheceu, estava com o cabelo roxo.

    — Isso é moda?

    — Super, vó! Quer que eu pinte o seu?

    — Deus me livre! Do que você precisa?

    — Você ainda tem aquele casaco de pele luuuuxooo?

    — Claro que eu tenho… Mas não sabia que ainda se usava isso! Não é antiecológico?

    — Que é, é. Mas é chique, né vó?

    — Isso é verdade. Tenho uma ideia! Que tal fazermos um trato?

    — Que trato, Dona Glória?

    — Eu te dou o casaco – só não conta para a sua mãe, ela é doida por ele! – e você me ensina a mexer no celular.

    — Feito!

    Em uma hora, Glória se tornou uma expert da telinha e ainda aproveitou para lanchar com a neta e colocar a conversa em dia. Ficou sabendo das últimas fofocas, dos namoros, começos e fins, do tal “ficar” e do relacionamento aberto. Achou tudo moderno demais para ela, mas se despediu da neta pedindo que ela voltasse mais, não só para pegar peças emprestadas. E, de preferência, com os cabelos castanhos mesmo. Depois que ela se foi, Glória se ateve ao seu novo brinquedinho. Estava agora em outro patamar, muito além do bom dia e figurinhas com flores no whatsapp. Baixou um aplicativo de música e não se fez de rogada. Começou a organizar playlists como uma DJ da terceira idade. Relembrou sucessos da sua época, descobriu novos cantores e fez uma playlist de tirar o fôlego: foi de Luis Miguel a Carlos Rivera, Michael Bublé e Lucho Gatica. Ok, Lucho Gatica não era exatamente uma novidade, mas ainda fazia Glória suspirar. Lembrou-se de um jantar dançante que foi com o marido no Chile. Lucho cantava por entre os casais que deslizavam na pista e Glória tentava disfarçava o olhar e o rubor que aquele homem sedutor lhe causava ao som de “La Barca”. Sabia a letra de cor e salteado e cantava baixinho, como se fosse para ele.

    À noite, na cama, com o marido já dormindo, se masturbou querendo ser de Lucho. Foi a única traição cometida em 30 anos de casamento.

    Sexta feira chegou novamente e Glória, como sempre, eufórica. Com aquela seleção de músicas mais calientes, ninguém mais iria chamá-la de antiquada. Se sentia muito ousada, para falar a verdade. As meninas chegaram ainda mais cedo, todas vindas do salão de beleza. Impecáveis. Não se via um esmalte descascado, uma raiz de cabelo por fazer, um batom fora dos lábios. Os vestidos eram novos, sem dúvida. Ou estavam esperando por uma data especial. Brilhantes, ousados, sedentos por novidades. A sala parecia um clube na sua hora mais feliz: a dançante. O ano poderia ser 1960. Todas estavam à espera de um grande amor. Ainda guardavam a inocência e tinham aquela ilusão boba que nos permite acreditar. O que seria de nós sem ela?

    Wagner também surgiu mais bem arrumado. Seu perfume invadiu a sala e o frenesi que a sua presença causava podia ser sentido pelas cadelas no cio de toda a vizinhança. As mulheres já não mais se enfileiravam, mas se sobrepunham, uma a uma, sobre Wagner. Mal uma dança terminava, outra começava com o novo par. Eles ensaiaram paços de tango, se requebraram em boleros e se extasiaram a cada passo dado de maneira mais próxima. Ou faziam acontecer esse roçar que encorajava o próximo ato.

    Glória, como dona da casa, acabava ficando por último, pois estava sempre às voltas com as bebidas e salgadinhos que as amigas levavam. A maioria sobrava, pois todas as bocas estavam preocupadas em sussurrar gracinhas para Wagner. Aquilo já estava deixando Glória louca. Ela se mordia de ciúmes, queria tirar uma por uma dali. Enquanto isso, o rapaz tentava levar as investidas daquelas senhoras de maneira educada e, invariavelmente, tirava uma ou outra mão mais atrevida do seu peito. Ou de partes, digamos, mais baixas. Lembrava-se do pagamento e sorria para disfarçar o inconveniente.

    Com isso, Glória sempre dançava com um Wagner já exausto. Duas horas de dança ininterrupta era uma maratona. E ainda tinha o jogo de cintura, o maxilar fixo, a concentração para nada sair do combinado. Em uma dessas noites, depois de todas as amigas de Glória já terem ido embora – todas tinham medo de chegar em casa muito tarde – Wagner simplesmente se deixou cair no sofá. Recostou-se e cochilou. Estava exausto. Começava o dia muito cedo, entre atendimentos em domicílio, clínicas, ônibus e trens. Se sentiu em casa e dormiu.

    Glória voltava da cozinha com duas taças de vinho para terminaram a noite, ainda falando algo sobre o assanhamento de Sarah:

    — Você reparou como ela dança? Parece que nunca viu homem na vida, Wagner. Você não deveria deixar ela ficar tão perto de você assim…

    Claro que aquilo era puro ciúmes. Glória já estava perdendo a compostura e se arrependendo de ter começado aquela história. Queria Wagner só para ela. Mas como?

    Quando chegou na sala, ainda retrucando, deu de cara com aquele deus no seu sofá. Baixou o tom de voz, pegou uma mantinha para cobri-lo e ficou ao seu lado, como em vigília. Ele nem roncava, veja bem! Parecia um gatinho, só ronronava. Chegou um pouco mais perto para sentir o seu perfume e foi descendo o rosto para o peito de Wagner. Seu coração acelerava ao mesmo tempo que seu rosto se aproximava daquele corpo. Queria lhe arrancar a roupa, lamber seu peito, fazer loucuras que ela só tinha visto em filmes.

    De repente, Wagner se mexeu e Glória se assustou. Ele abriu os olhos e a encarou:

    — O que a senhora está fazendo?

    — Descoberta como uma contraventora, Glória perdeu a voz. O que ela estava fazendo?

    — Euuuu…quer dizer…é que…

    — A senhora estava me cheirando?

    — Imagina, Wagner! Você me respeite! – Disse, unindo toda a moral que se esvaía. Estava apenas ajeitando a manta!

    Ele se levantou indignado, pegou seu casaco e disse:

    — Acho que a senhora passou dos limites, Dona Glória. Não sou um prostituto.

    Ela tremia:

    — Meu Jesus, é claro que não. Não estava fazendo nada, Wagner, eu juro!

    — Me desculpe, Dona Glória, mas não volto mais aqui.

    E se foi, com toda a sua dignidade e dúvida. Muitas dúvidas.

    Glória chorou. Como uma menina abandonada pelo primeiro amor. Colocou Lucho na vitrola e chorou ainda mais. Ouviu Lucho até adormecer. Não queria acordar.

    Mas o dia raiou e invadiu a janela. Invadiu o quarto e iluminou o rosto de Glória. Era preciso acordar. Seu rosto, inchado pelo desespero, parecia derreter. Precisava reconquistar Wagner, precisava que ele voltasse. Precisava.

    Dessa vez não quis falar com Sarah ou nenhuma outra amiga. Queria Wagner só para ela. Pensou em lhe pedir desculpas, pedir que ele reconsiderasse. Oferecer mais dinheiro, pedir aulas particulares. Qualquer coisa que fizesse com que ele entrasse novamente pela porta da sua casa e fizesse as cadelas do bairro estremecerem.

    Resolveu esperar alguns dias, deixar a poeira baixar. A raiva nunca é boa conselheira. Na outra sexta feira, dia em que ele normalmente estaria de volta, resolveu ligar. Não sem antes avisar a todas as amigas que Wagner não daria mais aulas de dança. Inventou uma doença na família, ouvia uma dezena de lamentações e suspirou aliviada. Agora vinha a segunda parte: tomou coragem e ligou para Wagner. Ele atendeu, o que já era um bom sinal:

    — Boa tarde, Dona Glória.

    — Boa tarde, Wagner, que bom que você me atendeu.

    — Não tenho mágoas da senhora.

    — Ótimo. Gostaria de me desculpar se lhe passei uma impressão errada. Não gostaria que nossa amizade terminasse assim.

    — Fica tranqüila, Dona Glória. Acho que exagerei um pouco também.

    Glória respirou, aliviada.

    — Que bom, meu querido. Você não quer vir aqui hoje, para conversarmos? Sem as meninas, claro…

    Wagner parou um pouco para pensar. Será que ela poderia tentar algo mais?

    — Prometo que será apenas uma conversa. Mas se quiser dançar…

    Cedeu.

    — Irei sim, Dona Glória. As oito mesmo?

    Em ponto.

    Glória desligou o telefone com um sorriso maroto. Tinha jogado a isca e seu peixão tinha fisgado. Agora era com ela.

    Fez uma outra playlist, mais lenta e sensual. Estava craque em escolher e listar músicas. Comprou velas e alguns petiscos. Deixou o melhor vinho na geladeira, só para resfriar levemente. Decidiu comprar uma lingerie. Queria algo sexy, rendado, de puta, como sua mãe dizia. Nada bege, grande, feito para esconder a barriguinha ou amassar os seios. Vermelho sangue. Vermelho paixão. Parecia endiabrada, com um fogo lhe consumindo por dentro. Como no dia que gozou para Lucho Gatica.

    Wagner chegou pontualmente às 20 horas. Glória já tinha bebido um pouco, para relaxar. Abriu a porta com um sorriso encantador. Seus olhos verdes flamejavam:

    — Bem-vindo, querido!

    — Boa noite Dona Glória.

    — Glória, Wagner. Só Glória.

    — Para que tantas velas?

    — Gostou?

    — Sim, ficaram ótimas.

    — Li em algum lugar que elas dão um tom calmo ao ambiente. Resolvi experimentar.

    — Fez bem.

    Se sentia ardilosa.

    Eles se sentaram no sofá. Ela serviu o vinho. Eles se olharam ao brindar. La Barca começou a tocar.

    — Dança comigo, Wagner?

    — Claro, Do…Glória.

    Eles se encaixaram no ritmo da dança e Glória pôde sentir novamente aquele cheiro que lhe acompanhava em sonhos. Em delírios. Seu rosto se afundou no ombro de Wagner que escorregou as mãos pelas costas de Glória e sentiu também seu perfume. Era elegante, nada muito doce. Tocante. A música envolvia o ambiente e, à luz de velas, as diferenças desapareciam. Eles eram apenas um homem e uma mulher. Dançando.

    Glória se afastou um pouco para olhar o rosto de Wagner e se aproximou de seus lábios. Ele disse algo que ela não entendeu, ela chegou mais perto e ele não se afastou. Os lábios se tocaram, a princípio tímidos. As línguas se permitiram e as bocas se devoraram. Wagner e Glória pareciam febris, sem entender toda aquela volúpia. Na sala, no mesmo sofá que haviam se desentendido há uma semana, os dois se permitiram.

    Glória desabotoou a camisa de Wagner e lambeu o seu peito, com uma luxuria pecaminosa.

    Ela tinha um belo corpo e Wagner começou a explorá-lo, doce e gentilmente. Com pequenas mordidas e beijos sufocantes, seus corpos foram se encontrando em um ritmo que não estava na playlist. Nem nos mais insanos sonhos de ambos.

    Quando Glória aproximou sua mão do membro de Wagner, levou um susto. Era mulher de um homem só e não imaginava que aquilo poderia vir em tamanhos tão diversos. Sentiu medo. Será que, depois de tanto tempo, conseguiria dar conta de tanto? Tomou coragem e pediu:

    — Põe. Mas só um pouquinho!

    Wagner sorriu. Desceu sua boca até o sexo de Glória, que nunca havia recebido tanta atenção. Tinha vergonha, tinha culpa, achava sujo. Mas tudo desapareceu quando sentiu aquela língua quente. Suas pernas se abriram e suas coxas se molharam. Wagner se fartou e levou todo o gosto de Glória de novo até sua boca. Se lambuzaram até com o pouquinho, que Wagner colocou e tirou até Glória gozar aos prantos.

    Se bastaram. Dançaram. E, de pouquinho em pouquinho, se amaram.

    Imagina quando Sarah souber!


  • O tempo que não temos

    Ao escritor faltam muitas coisas, dinheiro, valorização, suporte e – frequentemente – sobre o que falar. O cronista, tendo a obrigação periódica de sentar e tirar algo do papel, é o que mais sofre com isso. Mas não, não divagarei aqui sobre a falta de assunto. Não irei cair nesse lugar comum dos autores de crônicas. Pelo menos, não agora. Não será desta vez que adentrarei no rol daqueles que possuem um texto com essa temática. Pelo menos, não agora. Do que eu quero falar e reclamar diz respeito a outra falta: a de tempo.

    Esse problema, certamente, não é exclusividade do escritor. Longe disso. Algo comum de nossos tempos é, justamente, a falta de tempo. Com exceção de alguns poucos (os muito ricos e os vadios, que são quase a mesma coisa, mas só os segundos têm minha admiração), não se escapa à correria, à agonia, à agenda apertada e ao relógio a achacar cada suspiro de nossa vida.

    Espremido pelo tempo, o homem vive; espremido pelo tempo, o literato sobrevive. Além de todos os afazeres diários, o escritor precisa lidar com as matérias artísticas e com a vida literária. Ou precisaria, pois, muitas vezes, só resta falhar. Mais uma atividade, mais algo em torno do qual a vida se desenvolverá nas mesmas 24 horas. Afora o trabalho e as obrigações diárias, há a palavra, da qual não se escapa, mesmo quando ela, na azáfama cotidiana, escapa ao texto.

    O autor se encontra comprimido no dia a dia, na exigência de comer, de pagar as contas, de comprar o leite do menino…. Necessidades a oprimir a necessidade do verbo, que remanesce tímida, taciturna e necessária.

    Ao contrário do se poderia pensar, o trabalho científico é mais concorrente do que companheiro do labor artístico. E, estando inserido na vida acadêmica e suas demandas inesgotáveis, é sobre elas que minha atenção se concentra. Mais em documentos do que em versos, mais no século XVIII do que em mim, mas na política do que no amor, é assim que meus pensamentos se encontram ao longo da semana, mesmo nas horas que – supostamente – seriam de descanso. Tomada pela pesquisa e seus problemas, raramente o cérebro se desliga daquele foco e se permite outros voos.

    Sendo mais que o tempo de irrupção da ideia, o pensar literário encontra breve espaço para existir e se nutrir. Porém, mesmo nesse contexto hostil, há vezes que uma reflexão ou um verso me ocorre. Brota em mim com efusão e, com dor e lamentação, vem a morrer sem desabrochar. Escasseiam-se os momentos durante a semana nos quais poderia cultivar aquilo que me veio de repente e que se foi ainda mais de repente, existindo apenas no fugaz instante em que me lembrei escritor.

    Todavia, não raro, aparecem, no final do dia, algumas horas disponíveis. “Vou abrir o computador e escrever”, penso eu. Porém, outra vez, o cansaço vence a vontade e me vence. Mais do que a página do word, meu corpo chama a cama e me entrego a ela. Em berço esplêndido, quando já espero encontrar meus sonhos, alcança-me um mote. Todos sabem como se deve proceder nessa situação: pegar o caderninho e anotar. Faço isso? Que nada, o pouco de energia que sobrou não me permite. Assim, cerro os olhos e o expediente de escritor, que, naquele dia, nem começou.

    Já se foi a época em que minha principal preocupação no mundo da escrita eram as questões estéticas que rondavam a minha cabeça e os livros que lia. Hoje, a maior inquietação que me toma é ter um minutinho para rabiscar meia dúzia de letras ou passar os olhos em algum poema.

    Talvez esteja aí minha grande dor; dor que, com certeza, aflige a tantas outras pessoas que vivem a literatura. A tantas pessoas que veem seu contato íntimo com a matéria viva mais dissipado, que veem sua experiência humana mais pobre e apenas veem.

    Não irei fechar essa página e esse desabafo desejando a morte do meu respeitável público como fez Rubem Braga ao se queixar da falta de assunto. Entretanto, irei xingar o sistema econômico, a academia, o relógio, o motorista de ônibus que queimou a parada, a fila do supermercado, o amigo que me parou para conversar e eu mesmo. Xingarei a todos que merecem e que não merecem.

    Todavia, enquanto xingo, sonho. E, em minha utopia, – não tenho dúvidas – haverá tempo para a arte; para tudo haverá, até para se balançar na rede olhando o pássaro na caixa de ar-condicionado. Nós teremos o tempo.


  • Crônica biografia do mundo de hoje

    Tenho sobre a minha mesa de canto all’aperto1 (como gosto de mesclar palavras e expressões das minhas duas línguas de fluência, o português e o italiano, a minha rotina! É uma forma de sintetizá-las numa só coisa, o meu eu real, a configuração amorfa do que sou enquanto um ser em constante expansão) cerca de duas dezenas de livros, referências de uma vida “pré” graduação e especializações várias. Me preparo para um estudo de caso que validará mais um diploma ao rol das coisas que vira e mexe me proponho a aprofundar-me – ou abrir sob meus pés um abismo de questionamentos profundos, quiçá sem respostas, que, como curiosa intensa e exploradora de mundo, me dedico numa corrida sem fim. Em tais exemplares, o assunto, se sintetizarmos, pontua-se, sempre nas recônditas zonas do espírito humano: das codificações de mundo que criamos à ideia da extinção das nossas mortes, passando pelas transformações dos desenhos das cidades e por nossas interações com artefatos e com as nossas casas, reflexo material do que pensamos e do modo como agimos – consequente demonstração de como o desenho urbano atua sobre nossas atitudes.

    Um destes exemplares, publicado em 1967, foi presente de meu pai (como sempre, em tudo na minha vida, ele me presenteou com referências de todas as formas possíveis – e como me tornei essa parte dele, que agora me acompanha em espírito já que não é mais possível tê-lo fisicamente). “A crise das cidades”, de Wolf von Eckardt com prefácio do então administrador de recreação e assuntos culturais da Cidade de Nova York, August Heckscher, é um marco na minha existência, pois, além de me batizar como a cronista que sou (Bia Mies nasceu de um ‘apelido’ extraído do meu nome “oficial”, Nú Bia, acrescido de um “pseudo sobrenome”, Mies2, originado do nome de um dos arquitetos que mais aprecio, o Mies Van der Rohe, que conheci através das páginas deste livro), reforçou minha escolha pela graduação em Arquitetura e Urbanismo, numa época em que as dúvidas me jogavam para o jornalismo, para as artes cênicas e para essa inenarrável responsabilidade e comprometimento de vida que é titular-se arquiteta e manter-se firme em tal posição com todas as provações da vida profissional. Reforçarei uns recortes do prefácio, que julgo ser de interesse educacional geral:

    (…) Aliás, a influência da Arquitetura sobre nossa vida – Arquitetura
    compreendida nos termos mais amplos, incluindo o planejamento e
    preocupação com o ambiente total – pode ser tão grande que
    quase ficamos estarrecidos com as responsabilidades que cabem a
    essa profissão. Não faz muito tempo, bastava que o arquiteto
    tivesse a habilidade de desenhar prédios individuais, elegantes ou
    utilitários, conforme o caso. Agora, ele concebe e planeja cidades e
    regiões e pensa em termos da filosofia do homem e dos seus
    valores fundamentais. Portanto, é essencial que se desenvolvam
    bons críticos de Arquitetura (…) Também é indispensável que o
    público possa compreender plenamente o que o arquiteto está
    procurando fazer. (…) também falar sobre limites num sentido mais
    exato – o ponto além do qual os arquitetos não podem ir sem ousar
    fazer o trabalho de estadistas – ou mesmo de deuses. (…) este livro
    deixa claro, o arquiteto não é apenas um construtor; ele também é
    um artista e, como artista, arca com o peso da profecia e da
    compulsão por nos dizer o que é o bem-viver.”

    A crônica de hoje começa quase biográfica, mas hei de traçar o paralelo com o todo, fora de mim: se compreendemos o mundo a partir de uma leitura pela íris de nossas bagagens pessoais de experiências, todos os textos são um tanto quanto biográficos, mas ao passo que se transformam em publicação, destinam-se aos que os leem, e, portanto, tornam-se públicos, sem domínio direto de seu conteúdo, um descolamento do pessoal por trás da escrita. Enquanto a minha vida assemelha-se cada vez mais ao
    casamento entre uma esponja e um liquidificador, tento gerar filhos que sejam produtos das receitas que pelos seus progenitores se misturem, e assim, ser crítica, ser artista, ser técnica e ser humana, colocando-me a serviço da sociedade, em tempo integral. Habilidade ou loucura?

    Uma busca constante, um eterno esforço a caminho de algo que nunca chega; é sobre o tempo que eu gostaria de dissertar: o que somos, não basta. O presente é constantemente tratado como o momento em que devemos viver; mas a condição humana que nos difere dos outros animais é ter a noção da finitude. E seria essa uma habilidade adquirida com a educação? De quando passamos da fase em que tudo é plena novidade e tentamos nos comunicar através de gestos, sorrisos, choros ou sons incipientes e sem nexo, Kairós é derrotado por Chronos, dois deuses da mitologia grega que simbolizam, em breves palavras, o tempo eterno – sem quaisquer referências ao passado ou futuro, sinônimo de qualidade – e o tempo cronológico e implacável – passagem do tempo, o presente constante que esquece de si mesmo,
    sinônimo de quantidade.

    Se cada um de nós é formado, independente do seu grau de instrução – basta viver em sociedade -, para agir, adquirir, aprender e tantos outros verbos de A a Z, como é que conseguimos dar conta de puramente ser, no fim das contas? Na filosofia é comum aproximar ambos os deuses à ideia do estado de flow, esse tempo distorcido da realidade que nos permite ter espaço para a consciência. O que somos não basta, repito. Se temos um intenso contato conosco, somos, provavelmente, improdutivos. Se não produzimos, somos excluídos; se produzimos elevamo-nos a um estado de esforço profundo que afrouxa as presilhas da nossa identidade. Mas todos esses esforços em favor da vida levam-nos à morte. E a morte é o que devemos combater, acima de qualquer coisa. Então construímos sociedades, cidades, casas, famílias, seres humanos. Quantidades. E nos baseamos em leis – palavras formuladas para ‘um todo’, acessível universalmente à ideia imperativa do que seja isso, a cada época -, que procuram ser democráticas, mas que excluem. Ontem assisti a um filme contemporâneo do cinema italiano intitulado Nata per te3, que narra a história verídica de um jovem homossexual católico que tenta adotar uma bebê com síndrome de Down (disponível a todo público brasileiro pelo link CLIQUE AQUI do Festival de Cinema Italiano até 08 de dezembro). Na prática, o abandono de um ser deveria ser julgado com mais profundidade do que a tentativa de criá-lo, com todos os percalços que a vida irá impor – além da dialética Kairós e Chronos, obviamente. Mas percebe-se como o peso das culturas, construções humanas de grupos, e as leis são de maior relevância do que a vida, em si. Como nossas habilidades são poderosas demais perante o que realmente é de vital importância. Quantidade ou qualidade? Como é a verdadeira face do tempo se nos vestirmos com qualidades reais, uma roupagem de amor, a nós mesmos e aos próximos, nossas habilidades qualitativas? O que somos, não basta?

    Minha pilha de livros tende sempre a aumentar; eu não sei basear-me em pouco para ser uma pessoa só. Culpa do tempo (in)visível que nos molda, culpa dos meus pais, que fizeram o melhor frente ao que a sociedade sempre os impôs. Culpa de ser humana, imperfeita e performática. Culpa da arte pela qual extravaso meus dilemas, e com a qual as coisas – palavra mais significativa e influente deste tempo – nos vulgarizam.

    Termino com a tradução e letra original da música Il mio canto libero4, de Lucio Battistini, que foi base do filme aqui comentado (e cujo link do QR CODE).

    Em um mundo que
    In un mondo che
    Não nos quer mais
    Non ci vuole più
    O meu canto livre é você
    Il mio canto libero sei tu
    E a imensidade
    E l’immensità
    Se abre ao nosso redor
    Si apre intorno a noi
    Além do limite dos seus olhos
    Al di là del limite degli occhi tuoi
    Nasce o sentimento
    Nasce il sentimento
    Nasce em meio aos prantos
    Nasce in mezzo al pianto
    E se levanta bem alto e vai
    E s’innalza altissimo e va
    E voa sobre as acusações das pessoas
    E vola sulle accuse della gente
    Sobre todos os seus legados indiferentes
    A tutti I suoi retaggi indifferente
    Apoiado em um anseio de amor
    Sorretto da un anelito d’amore
    De verdadeiro amor
    Di vero amore
    Em um mundo que – Pedras um dia casas
    In un mondo che – pietre un giorno case
    Prisioneiro é – recobertas pelas rosas selvagens
    Prigioniero è – ricoperte dalle rose selvatiche
    Respiramos livres eu e você – revivem, nos chamam
    Respiriamo liberi io e te – rivivono ci chiamano
    E a verdade – Bosques abandonados
    E la verità – boschi abbandonati
    Se oferece nua a nós e – por isso virgens sobreviventes
    Si offre nuda a noi e – perciò sopravvissuti vergini
    E límpida é a imagem – abrem-se
    E limpida è l’immagine – si aprono
    Agora – nos abraçam
    Ormai – ci abbracciano
    Novas sensações
    Nuove sensazioni
    Jovens emoções
    Giovani emozioni
    Exprimem-se puríssimas
    Si esprimono purissime
    Em nós
    In noi
    A roupa dos fantasmas do passado
    La veste dei fantasmi del passato
    Caindo deixa o quadro imaculado
    Cadendo lascia il quadro immacolato
    E se levanta um vento quente de amor
    E s’alza un vento tiepido d’amore
    De verdadeiro amor
    Di vero amore
    E te redescubro
    E riscopro te
    Doce companhia que
    Dolce compagna che
    Não sabes pedir, mas sabes
    Non sai domandare ma sai
    Que aonde quer que irás
    Che ovunque andrai
    Ao teu lado me terás
    Al fianco tuo mi avrai
    Se tu o queres
    Se tu lo vuoi
    Pedras um dia casas
    Pietre un giorno case
    Recobertas pelas rosas selvagens
    Ricoperte dalle rose selvatiche
    Revivem
    Rivivono
    Nos chamam
    Ci chiamano
    Bosques selvagens
    Boschi abbandonati
    E por isso virgens sobreviventes
    E perciò sopravvissuti vergini
    Se abrem
    Si aprono
    Nos abraçam
    Ci abbracciano
    Em um mundo que
    In un mondo che
    Prisioneiro é
    Prigioniero è
    Respiramos livres
    Respiriamo liberi
    Eu e você
    Io e te
    E a verdade
    E la verità
    Se oferece nua a nós
    Si offre nuda a noi
    E límpida a imagem
    E limpida è l’immagine
    Agora
    Ormai
    Novas sensações
    Nuove sensazioni
    Jovens emoções
    Giovani emozioni
    Exprimem-se puríssimas
    Si esprimono purissime
    Em nós
    In noi
    A roupa dos fantasmas do passado
    La veste dei fantasmi del passato
    Caindo deixa o quadro imaculado
    Cadendo lascia il quadro immacolato
    E se levanta um vento quente de amor
    E s’alza un vento tiepido d’amore
    De verdadeiro amor
    Di vero amore
    E te redescubro
    E riscopro te

    1 = ao ar livre, tradução da autora.
    2 Mies é um real sobrenome; através do Crônicas Cariocas, em 2008, “ingressei” para a família Mies
    através do querido Paulo (saudosos abraços, espero que conheça meu pai aí no céu), que me encontrou
    através dos meus textos neste nosso portal Crônicas Cariocas e me enviou mensagens perguntando se
    éramos parentes próximos.
    3 “Nascida para você”, versão do título da película em português.
    4 O meu canto livre


  • A casa do ontem

    Se existe algo que podemos considerar indestrutível é a infância. Não importa quanto o tempo ou a maturidade bombardeie esse território, quando menos se espera, dos escombros do passado, desterra-se uma recordação, um medo, um trauma, uma saudade ou um fantasma.

    As lembranças infantis têm poder de reencarnação no agora. Prova disso é o peso cortante, na vida adulta, dos apelidos pejorativos de outrora, do escárnio ou da exclusão vivida num tempo distante. Ninguém esquece o gosto amargoso de uma humilhação. Mesmo que as coisas mudem, as condições se transformem, as pessoas sejam absolutamente diferentes dos primórdios de sua evolução, a infância insiste dentro de nós. Se agarra nas vísceras, forma limo, provoca erosões. Ora traz sorrisos fortuitos, ora rasga os pontos da cicatriz.

    O curioso é perceber que ela reencarna não só nas memórias e dores, mas também nas atitudes cotidianas. Um bom exemplo disso são as redes sociais. Quem nunca se descobriu excluído do grupo secreto de amigos do whatsapp ou constatou, pelo Instagram, que foi o único a não ser convidado para uma festa de aniversário?

     A bem da verdade, a infância também se presentifica em nossas imperceptíveis tolices, seja quando fingimos não ver alguém na rua, para não ter que cumprimentar, seja comentando defeitos alheios ou fazendo pequenas fofocas.

    Para ser justa, saliento que a infância é bem maior do que suas rusgas, basta lembrarmos do quanto os afagos, colos e incentivos nos encorajaram a chegar até aqui. Então não se trata de promover uma caça à infância, até porque ela é o jardim eterno de cada um de nós. Sugiro uma boa faxina. Se a todo tempo visitamos a casa das memórias, que possamos lavar as mágoas com desinfetante, esfregar, até sair, o lodo do sentimento de menos valia, jogar no lixo as culpas e autoacusações. E, depois, vir com um pano úmido e essência de lavanda ou alfazema perfumando o ambiente.

    Feito isso, é hora de abrir as janelas, colocar uma música, contemplar o céu e orgulhar-se de si. 

    Tenho me empenhado nisso. Me recuso a criar um altar de lembranças dolorosas e culto a pessoas infelizes, invejosas e cruéis.

    A missão é habitar-me com harmonia, cercar de afeto o perímetro da existência e apostar nas minhas escolhas.

    Ainda que o amor do outro me anime, não me valida ou constitui.  

    Amigos, venham visitar a minha casa. Limpa, florida e perfumada!


  • A ambiguidade é inimiga da clareza

    Ambiguidade é a duplicidade de sentido. Ela pode se constituir num bom recurso expressivo, mas deve ser evitada quando compromete a clareza do texto. São ambíguos enunciados do tipo:

    — “Vivemos numa sociedade cuja aparência é mais importante do que a essência.” (o uso de “cujo” no lugar de “em que” dá a entender que a aparência da sociedade é mais importante do que sua essência, e não que na sociedade atual a aparência importa mais do que a essência);  

    — “A maioria das redes e blogs dá apenas uma visão parcial do indivíduo que publica.” (não está claro se quem publica é o indivíduo ou a maioria das redes);

    — “Um grupo de assaltantes rendeu elevou o carro de uma família.” (parece que o grupo rendeu o carro antes de levá-lo!!).

    Um dos fatores que levam à ambiguidade é a má ordenação das palavras. Quando o período não está na ordem direta, pode haver margem para mais de uma interpretação. Por exemplo: “Encontrou o diretor o secretário na sala de reuniões”. Não se sabe quem encontrou quem.  Na ordem direta, em que o sujeito aparece antes do complemento, desfaz-se o equívoco: “O diretor encontrou o secretário na reunião.” Outra forma de distinguir sujeito e objeto é antepor uma preposição a este último: “Encontrou o diretor ao secretário na sala de reuniões”. 

    Deslocar o atributo oracional para longe do termo que ele modifica pode tornar ambígua a frase: “Refiro-me a um conflito no meu namoro, que ocorreu há oito anos”. O que aconteceu há oito anos – o conflito ou o namoro? Como a referência temporal diz respeito ao conflito, o melhor para a clareza é deslocar a oração adjetiva: “Refiro-me a um conflito que ocorreu há oito anos no meu namoro”.

    A separação entre componentes de uma mesma função sintática também pode gerar ambiguidade. Exemplo: “As pessoas que gostam de saber das novidades procuram a internete até mesmo as grandes empresas, para vender seus produtos.” O aluno dá a entender que apenas “pessoas” é sujeito do verbo procurar, e que “internet” e “grandes empresas” são objetos diretos. A frase fica sem sentido, pois o propósito do autor era afirmar que tanto as pessoas quanto as empresas procuram a rede. Ele traduziria claramente essa ideia se tivesse mantido coordenados os sujeitos: “As pessoas que gostam de saber das novidades e até mesmo as grandes empresas procuram a internet para vender seus produtos.”

    No plano semântico, é comum haver ambiguidade devido à polissemia. A diversidade de sentidos de uma mesma palavra pode levar a que se diga o que não se queria dizer. Em redação sobre a atual crise da Igreja, outro aluno escreveu: “Hoje, por força das circunstâncias, a Igreja admite a pedofilia em alguns de seus membros”.

    Entre os significados de “admitir”, está o de “reconhecer” (“Ele admite seu erro”); o redator quis dizer que a Igreja, forçada pelas circunstâncias, reconhece que há pedófilos entre seus membros. Não lhe ocorreu que esse verbo tem também o sentido de “aceitar”, “permitir”, o que poderia levar a um julgamento negativo da instituição religiosa.

    www.chicoviana.com


  • Cães e o Poder de Curar a Depressão

    Quantas pessoas acordam todas as manhãs sem grande propósito? Permanecem deitadas, sem forças para romper a gravidade invisível que as prende ao abismo da depressão. Pare essas pessoas, a cama se torna uma prisão, como se a vida estivesse suspensa e elas impedidas de viver.

    Nesse cenário devastador, onde a dependência de medicamentos é uma realidade frequente, a chegada de um cão pode ser transformadora. Diferente dos humanos, os cães não compreendem o que é depressão, mas percebem quando algo não vai bem. Eles possuem uma sensibilidade extraordinária, capaz de refletir o que muitas vezes escondemos até de nós mesmos.

    O simples toque de uma pata, um olhar atento que convida a sair ou o abanar de um rabo podem quebrar o ciclo de apatia. Eles nos lembram, sem palavras, que há um mundo lá fora, repleto de brilho e possibilidades. É um convite sutil, mas poderoso, para explorar, respirar, viver.

    Muitas pessoas encontram em seus cães a motivação para se levantar. Uma pequena caminhada pela rua deixa de ser um fardo e se torna um momento de prazer. É nesse ato quase mágico que os cães se entreguem por inteiros. Com sua companhia serena e amor incondicional, se oferecem para nos animar a seguir em frente, a redescobrir o milagre que é estar vivo.

    Cuidar de um cão nos faz olhar mais para o presente, e nos conectarmos ao aqui e agora. Eles nos mostram que, mesmo nos dias mais sombrios, há sempre uma chance de escapar da tristeza profunda. Talvez a maior cura que os cães oferecem seja a de nos ensinar a reencontrar a simplicidade da vida.

    No final, não são apenas os cães que nos salvam, mas também o amor que cultivamos ao lado deles. Eles não precisam de palavras para transformar vidas. Enquanto farejam, correm ou se deitam calmamente ao lado de quem precisa, passam uma lição simples: felicidade não é algo distante, mas algo que pode ser encontrado em pequenos instantes.

    O vínculo entre cães e pessoas vai além da companhia; é uma troca silenciosa de cuidado e afeto. Para quem enfrenta a depressão, um cão pode ser um guia que o conduz de volta à luz, mesmo quando tudo lhe parece cinza e sem propósito.


  • A presença do óbvio

    Ao escrever, deve-se em princípio fugir do óbvio. Nada irrita mais o leitor do que se deparar com informações que ele já conhece ou pode facilmente deduzir. Elas parece que estão no texto para “encher linguiça” e completar o número de linhas.

    O óbvio está para o conteúdo assim como o clichê está para a forma. É um lugar-comum mental. Indica pobreza de ideias mais do que de estilo e concorre para baixar a informatividade. Dizendo o que todos já sabem, o redator dá a entender que não tem um pensamento próprio. É uma espécie de “maria vai com as outras” (escrito agora sem hífen, em razão dessa esdrúxula reforma ortográfica).

    São óbvias afirmações como as de que “o Estado deve promover o bem-estar dos cidadãos”, “o capitalismo aumenta a desigualdade social”, “o homem precisa continuamente rever os seus conceitos” etc. etc. Informações desse tipo, de tão batidas, nada acrescentam ao que o leitor já sabe.

    Mas nem tudo no óbvio é inútil. A evidência que ele representa pode ter valor argumentativo, ou seja, servir de reforço a um ponto de vista. Existe um nome para esse recurso: argumento de presença. Por meio dele se realça uma verdade indiscutível, um conceito ou ideia que as pessoas devem ou deveriam ter em mente.  

    Esse tipo de argumento aparece, por exemplo, nesta passagem da redação de um aluno: “A adolescência é uma idade de conflitos e insegurança, por isso o adolescente deve ser orientado em suas escolhas”. O que ele afirma na primeira oração não é novidade. Psicólogos, pedagogos, terapeutas (e os pais, pelo que experimentam em casa!) sabem que os conflitos e a insegurança em boa medida caracterizam o universo mental dos adolescentes.  

    Geralmente quem formula o argumento de presença não o faz apenas para “dizer de novo” o que já se sabe. Procura associá-lo a outros recursos argumentativos. No exemplo que acabamos de mostrar, a verdade enfatizada pelo estudante serve de reforço ao apelo que ele faz na segunda oração (no sentido de que se devem orientar os indivíduos nessa faixa de idade).

    Por que precisamos trazer à tona o óbvio? Porque o ser humano comumente se alheia de princípios que não poderia nem deveria esquecer. Isso o leva a negligenciar deveres, distorcer valores, praticar injustiças contra si ou contra os outros. Repetir antigas verdades é sempre uma forma de chamá-lo à razão.


  • As cartas

    Ela estranhou quando o carro parou em frente à sua casa tão cedo. Não costumava receber clientes naquela hora do dia. O homem que desceu do veículo tinha o semblante assustado e, ao vê-la no alpendre, lhe fez um aceno. Ela foi até o portão; antes de abrir, notou as olheiras de quem parecia não ter dormido. 

    – Entre, moço – falou, sem perguntar de que se tratava. Não era preciso. A fama que acumulara fazia com que a procurassem sobretudo por uma razão: desfazer algum temor ligado ao futuro. 

    Ela o fez atravessar o pequeno alpendre rumo a uma saleta onde havia uma mesa forrada com um pano verde sobre o qual estava um baralho já gasto. Sentou-se e fitou o rapaz com um ar doce e compreensivo. Aprendera, com o tempo, que essa expressão acalmava os que a vinham procurar. 

    – O que o atormenta, meu jovem?

    Ele baixou a vista e, com algum esforço, falou as primeiras palavras: 

    – Daqui a pouco vou encontrar alguém. Quero saber se corro algum risco.

    Disse e ficou mudo. Ela esperou que continuasse. Depois ponderou que, se lhe desse uma ideia de que adivinhava o motivo da sua inquietação, despertaria nele mais confiança. 

    – O que é que no comportamento dele lhe provocou tanto medo?

    “Dele”. Então ela sabia que se tratava de um homem! E, de fato, era o marido da colega de trabalho com quem vinha saindo há alguns meses.

    – Como sabe que é “ele” e não “ela”?

    – “Ela” ocupa sua mente, mas de outro modo – respondeu com um olhar malicioso, dando à expressão um ar conivente que o confortou.  

    A senhora é perspicaz – ele disse, com um suspiro que fez os olhos dela brilharem ainda mais. 

    Explicou-lhe então que vinha se encontrando com uma mulher casada. Os encontros ocorriam com a máxima discrição, claro. Chegara a ponderar que o que fazia não estava certo, mas se sentia incapaz de resistir. Desejava-a, tinha paixão por ela, e sabia que era correspondido.

    Fez uma pausa, levemente emocionado com o que acabara de dizer. Em seguida explicou que mal conhecia o marido, por isso estranhou o telefonema pedindo-lhe um encontro para falar “da situação profissional da esposa”. Ficou com a mosca na orelha. E se ele soubesse de tudo e pretendesse lhe fazer algum mal?

    Depois de ouvi-lo, a mulher pegou o baralho e começou a misturar as cartas. 

    – Vamos ver o que elas dizem. As cartas não mentem jamais.

    Esse lugar-comum lhe soou como uma verdade profunda. As cartas pareceram infalíveis e certamente o orientariam sobre o que deveria fazer. A mulher pediu que tirasse uma delas, depois outra, juntou as duas e olhou por cerca de meio minuto a combinação. Depois levantou a vista e o fitou com um sorriso entre cúmplice e triunfante.

    – Tranquilize-se, meu filho. Ele não sabe de nada.

    – Tem certeza de que ignora o que há entre nós?

    – Absoluta. Siga em paz e viva com intensidade essa paixão, pois a vida é curta. 

    Sorriu, aliviado, e lhe perguntou quanto devia.

    – Dê o que o seu coração mandar.

    Abriu a carteira e lhe passou uma quantia generosa. O alívio que as palavras dela lhe trouxeram não tinha preço. Ao se despedir, apertou a mão da mulher e agradeceu com uma humildade que a surpreendeu. Ela é que devia se mostrar humilde diante daquele homem elegante e de uma classe social bem superior à sua. Mas o que dá a cada um a medida da sua importância é a situação que está vivendo, e ele se sentia frágil em razão da dúvida que o afligia.   

    Depois que saiu, ela contou as notas. Era um montante considerável, que lhe permitiria consertar o ar-condicionado e comprar uns objetos com que vinha sonhando.

    Depois do jantar, sentou-se diante da TV para assistir ao noticiário local. Ficou curiosa ao se deparar com a primeira manchete: um marido que se soubera enganado matou com três tiros o amante da esposa. Em seguida vinham detalhes do crime e a foto da vítima. Tomou um susto ao ver que era o homem que tinha vindo consultá-la pela manhã. A mesma roupa, o mesmo cabelo, e nos olhos vidrados um ar de perplexidade.

    Por um instante sentiu remorso, mas logo tratou de banir do espírito esse sentimento. Qual fora a sua culpa? Não tinha concorrido para o crime. Deixara o rapaz confortado como podia ter feito o oposto. Se confirmasse as suspeitas dele e estivesse errada, poderia pôr fim à vivência de uma grande paixão. 

    Pensando bem, foi melhor que ele ignorasse o que estava por acontecer e marchasse tranquilo para o fatídico encontro. A sentença já fora providenciada pelo destino, e quem era ela para interferir nos seus desígnios? O que fez, no final das contas, foi dar um pouco de ilusão a quem já se condenara pelos seus próprios atos.

    Com esse pensamento recontou o que o morto tinha lhe dado, antecipando os pequenos luxos que iria comprar.


  • O Luto na Visão dos Cães

    O luto, no olhar humano, é o vazio que se instala após uma perda. Uma ausência que ecoa e se faz presente em cada instante de saudade. Mas, se o luto é tão humano, como explicar que o cão também sofra quando seu dono se vai?

    Talvez isso se deva ao mistério do vínculo que une nossas almas às deles. Diferente de nós, os cães não filosofam sobre o que foi ou sobre o que virá, nem se perdem em pensamentos sobre a ausência. E, ainda assim, quando seu dono parte, algo neles se transforma para sempre. Como Hachiko, o cão que esperou incansável pelo dono que nunca retornaria, os cães têm seu próprio e singular jeito de viver a perda.

    Eles refletem nossas emoções, espelham nossos sentimentos, sentem a nossa dor e também vibram com nossas alegrias. Na ausência, os cães absorvem o vazio, percebem a mudança no ar, o silêncio dos passos que não se repetem mais, e o cheiro que gradualmente desaparece. Mesmo sem palavras ou cerimônias, são tocados pela presença que se foi.

    Um cão enlutado pode ficar apático, quieto, perder o interesse pelo que antes o alegrava. Sua conexão com o dono é uma cumplicidade que ultrapassa o toque e a presença física, algo que, de certa forma, transcende. Como uma alma pura, ele sente a perda sem as complexidades culturais ou emocionais que nós temos. É como se o cão soubesse, em sua simplicidade, que algo essencial se perdeu..

    No entanto, assim como nós, os cães possuem uma força de renovação surpreendente. O segredo está em manter a rotina, respeitar seu tempo, e, acima de tudo, não projetar sobre eles as nossas próprias tristezas. Eles não se apegam à dor; para eles, apenas o presente é real, e talvez por isso, gradualmente, eles sigam em frente. Eles não entendem a nossa pena, não precisam de lamentações.

    Diz-se que, para o cão, só existe o momento presente. E talvez isso explique porque, aos poucos, eles reencontram o caminho para a alegria. O luto dos cães não é uma prisão; é uma travessia silenciosa que nos lembra que a dor pode ser abraçada, mas não deve ser eterna.

    Talvez, de vez em quando, ao sentir um cheiro familiar ou uma brisa que traz algo do passado, ele erga o focinho e, em seu íntimo, sorria, sentindo que, de algum modo, ainda estamos presentes. Porque o amor de um cão não se apaga com o tempo ou a ausência; ele persiste, eterno e fiel, como uma chama que nunca se extingue.

    E assim, quando a noite cai e o silêncio domina, ele dorme em paz, com o coração ainda aquecido por aqueles que um dia amou. E nós, de algum lugar, talvez sintamos o mesmo: uma saudade doce, acompanhada da certeza de que um vínculo assim, entre cão e humano, nunca se rompe de verdade. Nessa complexidade de se fazer evoluir, para os cães, cada instante importa, o passado se dissolve na simplicidade do presente. Eles nos ensinam, assim, que amar também é saber soltar. Um novo lar, uma nova rotina, um novo amor… tudo no cão é levado a ser simples.


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