Menino São

  • Menino São

    Ricardinho viajou para a China e vai ficar, pelo menos, uns seis meses lá. Foi a estudo. Ele é um menino que gosta de se atualizar, para atender melhor os seus pacientes, com técnicas modernas. É médico, e faz cirurgia de mão, sua especialidade. Disse a mim e à sua mãe que vai trabalhar/estudar no melhor centro de pesquisa do mundo, no que diz respeito à tecnologia e à medicina. Ele sempre teve uma inclinação para cuidar de gente. Quando menino, fazia “massagens curativas” em mim e na sua mãe. Não só, também tinha (tem) o poder de tranquilizar os ânimos. Quando Maria, que trabalhava com a gente, se estressava e botava tudo para os ares (ela era arretada!), ali estava Ricardinho para, tão pequeno, falar com sabedoria e doçura. Maria se acalmava e dizia que tinha feito isso ou aquilo porque estava com problemas em casa, com o filho usuário de drogas (isso já sabíamos); depois, beijava a cabeça do pequeno sábio e, como um mantra, dizia: “Deus que te dê muita saúde, meu filho!”… Sempre foi um menino exemplar. Nunca nos deu trabalho. Veja só, Maria teve um câncer de pele, que não tratou (escondeu da família e de nós), e, quando foi descoberto, já havia se alastrado para o corpo todo. Nessa época, Ricardinho ainda fazia faculdade e organizou todo o aparato de cuidados paliativos para que Maria não sofresse mais. Ela morreu como um passarinho, disse ele, reforçando que não sentira dor alguma, porque estava constantemente medicada. A equipe que lhe assistia foi extraordinária, e penso que cuidaram melhor de Maria porque gostavam muito de meu filho, que estudava com eles, colegas e professores. Bem sabiam do potencial de Ricardinho, ou mesmo de sua bondade infinita, quase um santo, um São Ricardinho (que Deus me perdoe da blasfêmia). Um fato interessante é que, de tanto se envolver com a igreja, quis por um tempo ser padre. Nós o apoiamos, mas logo, como disse, por inclinação, percebeu que precisava botar a mão na massa para cuidar de gente. Menino solto, como um pássaro, inventou a tal da liberdade depois que se formou. Não para quieto, nem mesmo para arranjar uma namorada – diz que não tem tempo. Ele ama mesmo é a medicina. Essa é a sua grande namorada, companheira, faz gosto de ver o zelo que tem com as pessoas, seus pacientes. E ele faz questão de trabalhar no SUS, porque diz que tem de devolver o seu conhecimento para a ajuda das pessoas carentes. Eu não posso mentir: morro de saudades de quando ele era pequeno e ficava com a gente em casa, brincando, curtindo a nossa vidinha a três. Para driblar a tal da saudade, vamos, eu e a minha esposa, para a China, conhecer aquele belo país e ficar uns dias com nosso menino. Ele ainda não sabe. Provavelmente ficará surpreendido. Sou capaz de qualquer loucura para ficar perto do meu filho. Isso é o que se chama amor.

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar