Não sei se isso faz sentido

  • Não sei se isso faz sentido

    Cheguei ao fim da linha. Não basta seguir por seguir, sem propósito. A vida me impôs barreiras e superei quase todas. Agora, depois dos sessenta, estou endividado, falido e exausto. Tudo por causa da minha consciência franca, para acreditar nas pessoas. “Celso, tu tem condições de comprar isso! Tu pode viajar, espairecer”. E fui entrando numa bola de neve, apesar de ganhar bem. Trabalhando na iniciativa privada, é hoje, não é amanhã. Tudo pode mudar num piscar de olhos. Mudou, para pior. Descartável – como suponho –, fui posto para fora do trabalho. Soube que ocupa o meu lugar hoje um rapazinho de seus dezoito anos. Tem mais gás – é verdade –, mas não tem a minha experiência em analisar planilhas, escrever os relatórios etc. e tal. Por isso a minha falta de ânimo e de crença no amanhã. Não fosse uma reserva que guardei, passaria fome. Digo que só sou eu no mundo. Meus pais morreram, e apenas sobrou uma tia-avó endinheirada, mas mão-de-vaca. Não posso, nunca, contar com ela. A fortuna dela provavelmente ficará comigo, caso não tenha feito um testamento para doar ao clube de terceira idade, onde participa, ativamente, das atividades, como o bingo. A única alegria que tenho é o Biloro, o meu cachorrinho. Não me cobra nada, a não ser carinho. É um bichinho inteligente pacas. Sabe quando estou mal e passa o dia deitado perto da minha cama, para me fazer companhia. Ligo para titia, para trocar umas palavras, e ela logo desliga, dizendo que não tem tempo. É durona, aos noventa e três anos. E é intragável (esqueçamos dela)… Tenho algo como mais seis meses para gastar as minhas reservas. Algo de bom tem de acontecer. Entrego meus currículos em várias empresas – sem aquela loucura de ser manual; é tudo virtual –, inclusive internacionais. Posso trabalhar como jornalista e redator, já que tenho curso superior em ambas as áreas. Paula diz que conseguirei dar a volta por cima. Ela é minha amiga e ignora o estado em que me encontro. Na verdade, é um pouco infantil e fantasiosa. Quer que eu faça algum exercício para não entrar em depressão. Mas a maldita já me ataca há anos. Falei a ela e a coitada disse que não se lembrava: “Perdão pelo lapso!”. Como vou conseguir superá-la? É algo sério que venho tentando há anos lutar contra, e fracassando arrasadoramente. Os médicos também me cobram alguma atividade física. Terei de fazer, a contragosto. É isso. Não tenho muito mais a dizer. Recomecei a psicanálise, e o analista pediu para eu escrever este relato, para que pudesse “elaborar” os meus problemas. Fábio, o tal psicanalista, é um tanto romântico, imagino, porque tem muitas ideias felizes. “Faça um passeio no parque e leve o cachorro. Vocês terão um dia muito agradável!”. Gosto do Fábio, ele realmente sabe me convencer, com jeito e cuidado. Tenho pouco a quem recorrer. E às vezes sou convencido de que há saída. Mas as minhas emoções são voláteis; tenho dias bons e ruins. Hoje, acho que devo continuar, lutar pelos meus sonhos. Um deles é escrever o meu primeiro livro. Será uma realização. Nunca tive tempo para coisas assim, agora aproveito para escrever. Escrevendo viverei. Oxalá esteja certo desta vez.

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