Poesias de 1 a 99

  • Poema #17 – CORPO

    foi preciso
    que eu fosse
    envelhecendo
    para entender
    (em parte) o
    erotismo tardio
    nos poemas de
    Drummond.

    é que precisamos
    ir perdendo para
    poder reconquistar.
    é preciso ir morrendo
    pra aprender a gostar
    da vida e tentar
    (quando não é mais possível)
    usufruir da beleza da água

    que acabou de passar.

    Da Essencialidade da Água

  • Poema #16 – Convidados

    Da janela da casa onde moro
    aguardo a chegada de alguns
    amigos para a festa de
    aniversário.

    Nada se move, exceto a minha
    sombra na varanda, vazada de
    angústia, silêncio e noite.

    Fecho as janelas da casa
    onde moro e ainda dou
    uma última olhada através
    das frestas da veneziana.

    Nada se move, exceto a noite
    com a sua noção de simultaneidade
    do tempo, das pessoas e das coisas.

    Nada se move, exceto o silêncio
    que domina o ambiente e repousa
    na visão do telefone emudecido
    e inútil sobre o criado-mudo.

    Fecho a porta do meu quarto
    e a casa onde moro fica escura,
    imersa na solidão dos cômodos.

    Inventário de Sombras

  • Poema #15 – EUTANÁSIA

    .

    Sob uma chuva de outubro
    o germe penetrou
    no solo árido de mim,
    onde as emoções se resguardavam.

    Mas o sol e o raciocínio
    dos meses subsequentes
    atrofiaram o germe ávido
    que havia trazido o amor.

    E foram tantos os desencontros
    do clima naquele ano
    que a meteorologia afetiva
    justifica-se culpando a ambos.

    Agora, numa sala de espera
    contígua à do esquecimento,
    resta-nos como única saída
    a eutanásia cúmplice
    do que restou do sonho.

    O Acaso das Manhãs

  • POEMA #01 – QUARENTENA – QUARESMA – QUARESMEIRA

    Cinco anos depois da pandemia ser anunciada, revisito este texto que nasceu em meio ao isolamento — ecos de um tempo que ainda ressoa.

    O horizonte anunciou um desafio
    Na época que traria
    Tanta luz e liberdade
    Chegaram tempos de trevas
    Fomos convidados ao exílio
    Um inimigo invisível
    Uma tal gripezinha
    Que surgia na China
    E, de repente, fez vítima,
    Seu José da esquina
    E com o perigo iminente

    Me isolei
    Nos tempos das quaresmeiras
    Roxas como um suplício
    Pré-milagre de Cristo

    Me isolei
    Ou melhor, nos isolamos
    Em um paraíso distante
    Em um refúgio externo
    Ou no silêncio que guardo

    Me isolei
    Perdi a vaidade
    Tentei assumir os brancos
    Quase raspei os cabelos
    Mas recobrei a sanidade

    Me isolei
    Adotei duas gatas
    Meu amor surtou
    Elas ronronaram
    Ele se apaixonou

    Me isolei
    Quis morrer
    Quis sumir
    Quis viver
    Ressurgi

    Me isolei
    Perdi um tio
    Perdi uma prima
    Chorei
    Como você também chorou

    Me isolei
    Conversei com amigos
    Voltei a falar com meus primos
    Me senti parte de algo
    Dentro do meu vazio

    Me isolei
    Fiz máscaras de beleza
    Pintei as unhas
    Emagreci
    Engordei

    Me isolei
    Vi ministros humilhados
    Nossos poderes desnudos
    Ouvi o que não queria
    Falaram o que não devia

    Me isolei
    Acordei de maneiras várias
    TPM´s, alegrias
    Senti saudades
    Do que não tinha

    Me isolei
    Li tantos livros
    Escrevi quase diários
    Poemas curtos
    Contos que criei

    Me isolei
    Descobri mais de mim
    De você
    Ou até do outro
    Já nem sei

    Me isolei
    Fui amiga do sol
    Companheira na chuva
    Me perdi
    Me encontrei

  • #14 – A LUA ESCURA

    .

    sabe,
    há um momento
    em que a lua
    fica escura.

    é quando,
    a escuridão maior
    vinda dos montes
    cobre a Rua Fácil.

    e tudo,
    vira um só quadro
    negro, uma lousa
    fria que antecede
    a morte.

    Da Essencialidade da Água

  • #08 – Ofício

    E todo verso que faço
    Um pedaço de mim está e fica e se vê
    Um outro ninguém sabe, um laço
    que não se sabe onde fica e nenhuma vista lê

    E toda estrofe que nasce
    Meus sonhos e verdades lá estão
    Num outro canto, outras verdades
    No esquecimento ficarão

    Quando o poema, inteiro, surge diante de mim
    É meu o rosto e é meu o nome
    Mas é um outro que não sou eu
    Não sei se isso é o começo ou o fim…

    E então me refaço e me reescrevo
    Junto ou em pedaços o tempo inteiro
    Sou e não sou, tenho ou não tenho
    É este o poeta e o seu ofício primeiro

  • #13 – PROGRAMA NOTURNO

    No silêncio sepulcral desta noite
    abro a janela
    e recebo a visita do demônio.
    Juntos travamos um pequeno diálogo
    acerca da destruição do mundo.

    Depois percorremos os cemitérios
    e os ninhos dos pássaros agourentos,
    respiramos o hálito da morte
    e compactuamos da miséria dos homens.

    A noite era fria e indiferente
    aos nossos propósitos de celebração.
    Com dedos trêmulos cavamos o altar
    de nosso macabro ritual.

    Antes, porém do sacrifício final
    fomos resgatar a memória dos corpos
    e garantir a permanência dos zumbis
    sobre a face andrajosa do planeta.

    Abrimos um caixão e uma brisa vaporosa,
    que era ao mesmo tempo fúnebre e sensual,
    despertou nossos instintos de espécie
    e pouco depois e para sempre estava
    consumado o ato lascivo e sagrado.

    Chegamos depois ao altar fatídico,
    e sob asquerosos protestos de ódio
    à vida social e fútil dos vivos,
    pegamos os punhais do sacrifício
    e nos entregamos ao suplício eterno.

    O Acaso das Manhãs

  • #012 – ATÔMICO

    .

    Nossos filhos nascem cegos
    pela poeira do nosso tempo.
    Nós ainda enxergamos
    porque já entendemos o mundo
    a partir da poeira que há nele,
    e que não nos incomoda muito.

    Areia (À Fragmentação da Pedra)

  • #011 – Quando acordei do coma parece que entrei num pesadelo

    Quando acordei do coma
    eu já não tinha mais
    a mobilidade de antes.
    Olhei para as paredes
    de vidro do isolamento
    e já não tinha a mesma visão
    de antes
    a mesma audição
    de antes.

    O mundo parecia ser outro.

    Perna e braço direitos
    estavam paralisados,
    dormentes e um sono
    de letargia na noite
    fria com pedras de gelo
    no peito, do lado
    esquerdo, assim penso.

    O mundo já não era o mesmo.

    Dois dedos do pé esquerdo
    haviam sido afetados
    e minhas afeições e
    percepções já não eram
    as mesmas. Fúria de
    não ter sido antes.

    Minha intimidade
    e meus defeitos haviam
    sido expostos como
    escaras do tempo.

    Nunca mais quis tirar fotografias.

    Havia um corpo estranho
    no meu corpo fragilizado
    e uma tela no estômago
    de baixo para cima eu havia
    sido atingido por um golpe
    do destino e várias cirurgias.

    Não tinha mais condições
    suficientes para poder
    trabalhar, sobreviver
    e tive que depender
    de apoio, de cestas básicas
    da vida como um doente
    a quem falta alguma coragem.

    Remédios para a goela grande das farmácias.

    Acordei como quem entra no pesadelo
    e já não podia sonhar acordado ou dentro
    de uma noite normal e previsível.
    O eixo de tudo continuava gasto
    como o eixo do mundo, ANTES.

    Da Essencialidade da Água

  • #10 – TECNO-POEMA

    .

    – Fala o poeta de vanguarda:
    A estrutura do verso
    está invertida
    em meu caleidoscópio.
    Preciso de uma máquina
    rápida e perfeita para
    fazer uma circuncisão mental:
    “Quero que a estrofe
    gravada ao jeito
    do vídeo cassete
    saia nítida,
    sem um defeito”.

    – Fala a crítica especializada:
    A infraestrutura do verso
    está evoluída
    em meu laboratório.
    Preciso de um computador
    rarefeito e sem defeito
    para efeito de análise poética:
    “O crítico é um digitador,
    digita tão completamente
    que chega a digitar a dor,
    a dor que sua mãe sente”.

    – Fala o homem pensante:
    A superestrutura dos acima
    está equivocada
    em minha concepção histórica.
    Preciso de uma filosofia
    autêntica e própria agora
    para escrever um poema-amostra:
    “A sombra projetada de um homem
    exclui o mecanismo da repetição alheia,
    pois a condição intrínseca dele mesmo
    exige que seu poema se faça de ideias
    e despreze a vida enquanto justificativa
    para o erro de se caminhar junto ao tempo”.

    – Fala um observador imparcial:
    Poesia significa
    abrir caminho para o abismo
    e pedir que nos devolvam
    o nosso sonho antiatômico.

    O Acaso das Manhãs

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