Poesias de 1 a 99

  • Poema #58: Passagem das horas

    Fica de nós este resíduo
    do que ainda não fomos.
    Este abismo a se superar
    e uma certa disponibilidade.
    Fica esta in/compreensão mútua
    e a dificuldade em se comunicar.

    Fica de nós este fragmento
    do que ainda podemos ser.
    Este relacionamento a se elaborar
    e uma parcela de interesse recíproco.
    Fica esta identificação de caráter simultâneo
    e o desejo de que tudo não se perca.

    Fica de nós este sentimento reticente
    ainda não de todo vivido/compartilhado.
    este completo des/conhecimento do outro
    e uma necessidade de maior diálogo.
    Fica esta in/definição de objetivos comuns
    e o sentido da procura.

    Fica de nós este silêncio inédito
    devido ao medo em acreditar.
    Esta complexa/frágil vontade
    de querer sobrepor-nos negando a intuição.
    Fica este receio de se expor e viver o espontâneo
    e o que isto nos tem custado.

    Fica de nós esta intransigência
    e a falta de coragem para admitir.
    Este impulso em dizer coisas secretas
    e a sensação de ferir dizendo.
    Fica esta recusa em se confessar
    em defesa de uma estúpida integridade.

    Fica de nós esta passividade
    e o distanciamento decorrente dela.
    Este eterno ficar na espera sonhando
    e o recolhimento implícito que nega.
    Fica este gostar que desconhece convenções
    e o raciocínio estragando tudo.

    O Acaso das Manhãs

  • Poema #03: Em branco

  • Poema #57: História Concisa

    Quando em meu peito rebentar-se a
    Que o espírito enlaça à dor vivente”.
      Álvares de Azevedo(1831-1852)

    O poeta dobra a esquina
    com uma sacola de plástico:
    pão, bife de hambúrguer e solidão.
    Não vale a pena chorar por ele:
    se fez as opções erradas,
    se tombou pelo caminho,
    nada fica além do fato
    de um dia ter existido
    e comido aquele sanduíche
    barato.

    Uma Escada que Deságua no Silêncio

  • Poema #56: Isolamento

    A lua na casa de saturno
    saturno na casa da lua
    todo mundo em casa.
    A casa de todos no mundo
    todo mundo na casa de
    todo mundo e eu que não
    encontro o meu lugar
    em lugar nenhum,
    no escuro.

    O Jardim Simultâneo

  • Poema #03: Habitar o intervalo

    “A tapeçaria é uma articulação singular entre linhas e vazios, flexibilidade e resistência, o que faz do tear a metáfora por excelência da criação narrativa: porque o ar circula entre os fios como o silêncio entre as palavras.” *

    Os emaranhados da vida
    tapeçaria mal tecida
    De palavras sufocadas por amarras
    por nós
    Arremates enrijecidos do tempo
    entre as costuras

    Vida vivida
    em monobloco

    Esgarçar a tessitura
    do tempo mal vivido

    Esburacar a trama
    de pontos suturados

    Criar um circulador
    de silêncios no espaço

    Arear lembranças
    do que resta calado

    (*) Lara Manesco, em Entre Tecer e Narrar

  • Poema #55: Linguagem do escuro

    Agora que a luz se apagou
    e a solidão restabeleceu seu domínio,
    ouço com receio a linguagem do escuro
    que me des-norteia a vida.

    Nasci sob o signo da morte
    mas prefiro-a assim,
    conquistada aos poucos.
    Porção diária de veneno
    que injeto na raiz da vida
    até que ela, afinal, desapareça.

    E a linguagem do escuro prevalece
    (ainda que se acendam todas as luzes)
    como sendo a linguagem universal de tudo
    a tecer as teias da incompreensão fraterna.

    Areia (À Fragmentação da Pedra)

  • Poema #02: Sem alarde

    Não era o primeiro a chegar
    também não era o último
    ficava no meio.

    Lugar pouco disputado,
    onde ninguém posa
    e quase ninguém repara.

    Enquanto alguns se apressavam em brilhar
    e outros reclamavam da falta de luz
    ele aguardava.

    Não parecia esperar nada específico
    talvez só o tempo exato em que algo se revela
    sem fazer alarde.

    Foi assim que aprendi:
    nem toda claridade quer vencer a noite
    algumas só querem caber dentro dela
    por um instante e depois seguir

    vagalumeando

  • Poema #15: Um Soneto da Lua

    Ainda que sejam versos pequenos…
    Uns simples versos que sejam ao menos,
    os ventos os empurrarão no tempo
    onde serão o eterno consentimento.

    Toda a lua brilha alta e resplandece
    porque deseja muito o amor do mar.
    Acaricia um instante e depois reflete:
    é a busca de nunca encontrar.

    Como um solitário que ri na estrada
    é toda ela amor…uma imagem vaga,
    tempero de emoções, fogo que estala.

    Sendo certo o errado e não sendo
    a peleja da busca, o contratempo,
    ainda que seja um verso pequeno.

  • Poema #54: Intervalo

    “Eu quero os meus brinquedos novamente!
    Sou um pobre menino
    Que envelheceu, um dia, de repente!”
    Mário Quintana (1906-1994)

    Tenho quarenta e cinco anos
    e já neste meu último aniversário
    foi levantada a hipótese irreversível
    do envelhecimento antes da morte,
    mas nunca sabemos o que virá primeiro.

    Seja como for o assunto é desagradável.

    Imaginei-me de carteirinha sexagenária,
    entrando pela porta da frente dos ônibus
    e viajando de graça pelo país dos meus netos.

    Logo adiante eu precisaria sacar um dinheiro
    no banco e haveria um guichê específico
    esperando a minha dificuldade de caminhar.

    Soube também que eu poderei requerer
    um acréscimo no valor da aposentadoria,
    para gastar com hospitais, médicos e remédios.

    Seja como for o assunto é desagradável.

    A minha vontade é rasgar
    o estatuto do idoso
    e voltar a ser criança.

    Uma Escada que Deságua no Silêncio

  • Poema #53: Ciclo II

    Quando a chuva neutralizar
    a esperança das flores, no chão
    uma semente irá se desenvolver
    à imagem e perspectiva de tornar-se,
    sintetizando em si todo o anseio dos homens
    para que de seus ossos não se faça apenas
    um cemitério, mas também um canteiro.

    Areia (À Fragmentação da Pedra)

  • Poema #52: Ciclo I

    A vida,
    em todas as suas formas,
    revela a sutileza de um mágico
    que hipnotiza a todos
    para que não vejam seus truques falhos.

    Os homens,
    em todas as suas crenças,
    revelam a idiotice de um asno
    que acredita em tudo
    por não ser capaz de discernir o óbvio.

    Os homens,
    com todos os seus mágicos,
    revelam a estupidez da espécie
    que acredita na vida
    como sendo o caminho para a salvação.

    A vida,
    com todas as suas armadilhas,
    revela a esperteza de um camaleão
    que dissimula aos homens
    a sua completa inutilidade como veículo.

    O Acaso das Manhãs.

  • Poema #11: Prato Frio

    amar-te até os dentes
    embora passado o instante da mordida
    fico de presente com a marca da ferida
    leva pro futuro tatuado meu gosto

  • Poema #51: Andarilho no Quintal

    sou nascido e criado
    na roça
    acostumado com as durezas
    da vida

    racho lenha para o sustento
    com um machado cego
    de cabo de pau-mulato
    herança do meu avô

    após almoçar no quintal
    uma empurra a outra na moita
    e eu saio aliviado para o round
    da luta suja e feroz do homem.

    Um Andarilho Dentro de Casa

  • Poema #50: Andarilho Descalço

    estou sem almoço
    e sem janta
    e com duas costelas
    quebradas

    meu caminhar é pele
    sobre o bronze
    do asfalto, atrito
    suave de quem sonha

    estou sofrendo
    com as calças e tudo
    e isso é nada para
    quem vive na rua.

    Um Andarilho Dentro de Casa

  • Poema #10: O voo do morcego

    Solto em São Paulo, aonde iria?
    Rompia a noite, não decidia.
    Abria as asas: para onde ia?

    Se fosse Batman, já saberia
    qual o combate de cada esquina.
    Mas nem pra Coringa prestaria.

    Vampiro? Não, desmaiaria
    à vista de sangue.
    Dos predadores recusava
    até a fantasia.

    Ao encontro da rua,
    sumiria.
    De encontro ao muro,
    desaparecer: será, seria?

    Solto em São Paulo, sobrevoaria
    avenidas edifícios várzeas varandas tabacarias
    mercados de luxo
    de porcarias
    sobejas ninharias.

    Aberto ao acaso,
    negociaria com o tempo?
    render-se: ia?

    Embalado pelo eco incômodo,
    cantaria, não cantaria
    dançaria, não dançaria
    as sirenes, dedilharia
    o silêncio, ouviria.

    Do presente, o futuro.
    Do futuro, o passado.
    Os tempos imperfeitos
    impecavelmente alinhados.

    Com ou sem condições,
    fazer o que faria
    em qualquer São Paulo.

  • Poema #49: Identificação

    Identifico-me com a noite
    e com o que ela traz
    de específico a si mesma,
    e assim fazendo, aceito
    o convívio de seres opacos
    e da nova ordem e estado de coisas
    que o escuro inaugura.
    Identifico-me com o avesso
    sou aliás o próprio avesso de mim,
    e assim sendo, conheço
    as esquinas sombrias
    nas quais se disfarça
    a inexorável nulidade.
    Volto de manhã para casa,
    e num balanço isento da noite
    nenhum acréscimo se me acrescentou
    de forma permanente.
    Voltei eu mesmo sozinho e íntegro,
    apesar das concessões necessárias
    ao convívio comum entre os homens.
    Nada ganhei e também nada de mim
    se perdeu, exceto esta vida
    que amanhece mais velha.

    O Acaso das Manhãs

  • Poema #48: Instante de delírio

    Olho para o vazio
    de meus olhos.
    O espelho
    não reflete mais o amor,
    outrora visível.

    Imagens tão nítidas
    se me afloram perdidas
    na incongruência do vidro,
    uma vez descascada sua tinta
    prateada de reflexão.

    E agora as manhãs
    trazem o hálito da perda,
    do que fui e que no meu delírio
    se esgotou em fome.

    Não a fome dos homens
    do nordeste, biológica.
    Tampouco a fome dos homens
    civilizados, que inventaram a fome
    para dois terços do mundo.

    Mas fome ela mesma,
    que não se come e me digere.
    Não se alimenta e me fez assim
    um antropófago de mim.

    Fome que se reverte em morte
    e não me assusta, pois construí
    a vida a partir dela.

    Sou um desses seres que acreditam
    que na sombra se esconde a morte,
    e se perde a vida e se ganha a vida.

    A vida ganha com a morte
    não é metafísica.
    Por isso eu me mato a cada dia,
    consciente de que um vazio com outro
    não se compatibiliza.

    O Acaso das Manhãs

  • Poema #09: Dominó

    Não escanda a minha fala.
    Escancarar uma tara
    nem sempre é um bom negócio.

    Esconda, miúdo, as manias que lhe movem.
    Um dia, quando nada sobrar,
    elas ainda farão o seu coração bater.

    É como diziam os romanos:
    tudo em latim.
    Ninguém entende, todo mundo concorda.

  • Poema #47: Andarilho deitado

    O vento sopra um frio doido e esquisito
    na curva da esquina de um terreno baldio.
    Estou entre sapos e grilos e entulhos de lixo,
    atrás de um muro quebrado e com muitos cacos
    de vidro onde me escondo dos meus inimigos.
    Apaguei todas as luzes da esperança
    e estou sendo mordido por cachorros de rua.
    “Atualmente eu vivo rodeado por minhas
    paixões defuntas”. Todas inclusive,
    menos uma delas: a paixão do absoluto.
    Ando sozinho pelas ruas de bairros e ouço:
    (você quer pegar os balões? Coitado, mas
    eles são feitos de sonhos que estão muito
    acima da sua compleição). Talvez nunca,
    quem sabe, mas eu acabei de comer agora
    uma casca de pão e um pedaço de linguiça
    como tira-gosto da pinga. Houve uma época
    distante em que eu comia arroz e tomate
    nos degraus da escada de uma igreja no alto.
    A vida estava lá embaixo, mas havia pessoas comigo.
    Hoje eu quero morrer sem contar pra ninguém que eu fiz isso.

    Uma Escada que Deságua no Silêncio

  • Poema #46: Um Cão

    Um cão latindo na noite
    é sempre um cão.
    Sem cor, sem nome e sem
    significado
    para quem o está ouvindo.

    No entanto este cão
    traz em seu latido,
    sombras de milhões de outros cães
    sintetizados
    em uníssono noite adentro.

    A chuva não consegue abafar
    este inquietante latir,
    profanando o sono dos homens
    e o sectarismo estático
    das coisas e dos seres.

    Alguém para se ver livre
    do incômodo latido
    desfechou tiros na escuridão,
    e a noite se arrastou em insônia.

    Da boca sangrenta daquele cão morto
    brotaram ruídos confusos
    que invadiram as ruas e as casas,
    mostrando a todos a inutilidade do ato.

    O Acaso das Manhãs

  • Poema #45: Saldo

    De cotidianos resíduos
    arrancados na solidão de prisioneiro
    em que todo o meu ser se devora,
    tento compor uma imagem humana
    que me faça aceitável a mim mesmo.

    No silêncio da morte aparente
    na qual me recolho ao túmulo previsto
    não sei com que ânsia mórbida de calma,
    procuro juntar os cacos de culpa diária
    que reunidos formam um apelo ao suicídio.

    E não é só o remorso das manhãs doentias
    pelo que na noite se desfez em delírios
    de humana fraqueza cansada de si mesma,
    é todo um saldo de perdas que tenho que fazer
    e lançar no cômputo geral das misérias minhas.

    De cotidianos resíduos
    recolhidos no isolamento mental de indivíduo
    em que todo o meu ser se liberta,
    tento compor uma imagem poética
    que se faça de ideias e despreze a vida.

    O Acaso das Manhãs

  • Poema #44: Numa Janela do Mundo

    As nuvens tecem
    uma história diária
    e sem antecedentes.
    Não sei se pode
    chamar de trabalho
    (o trabalho das nuvens)
    o que parece ser mais
    um deslizar contínuo
    de um sonho que não
    se sabe a si mesmo
    e apenas escorre
    para um vazio profundo.

    Eu, que estou na janela,
    vejo as nuvens
    e não enxergo a razão
    de se estar a vê-las
    sem que se possa
    interferir ou sustar
    a sua indiferença.
    A vida humana é mesmo esse
    estar-sempre-dependurado
    a uma janela da inércia
    fechada para o infinito.

    Inventário de Sombras

  • Poema #43: Carnaval, Bandeira e Eu

    Quero banhar-me nas águas sujas
    Quero banhar-me nas águas sórdidas
    Sou a mais solitária das criaturas
    Me sinto só.

    Confiei às mulheres os meus amores
    Caí de quatro pelas sarjetas
    Cobri minha alma de decepções
    Valei-me Manuel Bandeira.

    Vozes da morte contai a história
    Da pessoa boa que sempre fui
    E eu dormia ouvindo o ruído calmo
    Do bambuzal

    A Sentinela em Fuga e Outras Ausências

  • Poema #14: Fluxo

    E vem
    é frio é pouco
    e quente e certo
    incerto

    é leve é tarde
    e breve e louco
    solto

    é muito é medo
    e mesmo e igual
    real

    parte e vem
    vem e parte
    uma parte
    e vai…

  • Poema #42: Chuva Noturna

    A chuva no asfalto
    leva papéis/cigarros
    e o vômito de ontem.
    Amanhã novos resíduos
    virão para preencher
    o vazio do meio-fio.

    Areia (À Fragmentação da Pedra)

  • Poema #41: Disritmia

    acredito que haja
    dentro em mim
    uma separação entre
    corpo e espírito,
    espírito e mente.
    a cabeça pensa de uma forma
    e o corpo age de maneira diversa,
    nunca se coadunam em alma de ser.
    sou o intervalo exato, inexpressivo,
    entre o talvez e o se e o quando será
    sendo que sou este ser, de si ausente,
    defeituoso e desengonçado.

    Da Essencialidade da Água

  • Poema #06: De tudo o que não sei dizer

    Se te olhasse de novo, te perceberia
    Se eu soubesse enxergar, ah, se soubesse…
    Quão terrivelmente felizes
    Seriam meus dias

    Temo não saber o depois.
    Pois quem nunca se perguntou…
    “E agora, o que vem”?

    Deixo vir.
    Mas temo…
    Não saber receber.

    Temo a teima de não saber
    Ser para saber.
    Temo ter de temer, e temer…
    E não viver outra coisa,
    Não ver a beleza,
    Fazer do outro jeito,
    Viver ao contrário,

    Não acertar nunca,
    Estar sempre ocupado
    De erros e não saber fazer
    Outra coisa senão ser.

    Mas se eu soubesse te ver
    Bastaria um olhar.

    Atravessado por um longo suspiro
    Ver-te-ia.
    Como se fosse a mais bela
    Maneira de errar.

    E desejaria que em todos os meus confusos desejos
    Não sobrassem acertos.
    Te teria em meus segredos
    E através de tais erros
    Não haveria mais medo, nem dúvida
    Coisa alguma que não fosse
    Sem jeito,
    sem tropeço

    Sem ter onde cair e me levantar.
    Desejaria esta vida
    E não outra.

    E por desejar esta,
    E não aquela,
    Não teria de ver assim, pelos olhos
    De quem sabe tudo
    A miséria,
    A quem errar lhe pareça tamanho absurdo
    Que se atam os olhos
    Para nunca ver transbordar a vida
    No olhar.

    Pois é assim que vivo:
    Ao meu ver,
    Sem saber e sem querer.
    Quando queres, aprisiona-te.
    Pois precisas ver.
    Quando enxergas, então sabes como amar.

    E por viver assim,
    Quiçá fosse o fim
    E tu, serias o começo.
    E pelos meus primeiros erros
    Saberia, enfim, a quem olhar.

    E por te olhar assim não sobraria a pressa.
    A vista seria o preço.
    E a ti, infinda razão de meus erros,
    Achegar-me-ia
    Para onde te pudesse enxergar.

    E por tua chegada
    Contar-te-ia tudo o que, por acaso,
    Me fizeste ver.
    Não restaria outra coisa.
    Quando chegaste, me fizeste aprender a amar.

    E por ver o amor, voaria
    E passaria os meus dias
    A amar tudo o que, pela falta de ti,
    Não via;

    E na evidência de tamanhos erros
    Não restaria outra coisa a se ver.

    Se por amar-te estivesse, assim, errando,
    Escolheria errar todos os dias,
    E em todos eles,
    Errar te amando,
    E te amar.

    Quando amo, entregam-me os olhos.
    Já não detém-me o discurso e
    Não prefiro mais a palavra.
    Basta-se a ponta do sorriso,
    Basta-se a força da risada.

    E desse modo, percebendo-te, vi
    Que tudo o que mais temia
    Era ver o que não sabia como.
    Mas tu, só tu
    Sempre me alcançavas.

    Não importa se demoras…
    Cada hora sempre atinge seu lugar.

    Quanto a mim,
    Agora que a vejo, já não mais me enganam os
    lábios:
    Só aprendendo a ver, com você,
    Tive onde o amor
    Encontrar.

  • Poema #13: As Naus e o Sonho

    Entre as naus e os sonhos de antes
    Anterior à memória, objeto estranho…
    o mar era só… sem os seus navegantes.
    Calmo, vário e tamanho,

    As águas, um mistério, um senão
    porém, quando teima a criatura humana
    o desejo insistente instiga a mão
    a alcançar tudo, com toda a gana…

    brota na alma um querer
    mais que tudo e muito mais!
    Indo sem ir e vendo sem ver
    do precipício à beira do cais.

    Da imagem fez-se o nobre canto
    do canto nobre fez-se a triste sina
    da sina triste revelou-se, no entanto,
    o mundo de todos, de todos a cisma

    de içar ao alto a mais alta vela,
    cortar as ondas e caminhos abrir
    aos gritos triunfantes da sentinela,
    vendo sem ver, indo sem ir…

    Vendo sem ver, indo sem ir
    A história do tempo mostrou
    Lágrimas, morte, um pesado porvir
    O que figura humana jamais imaginou…

  • Poema #01: Chiclete com Banana

    Eu só boto bip-bop

    no meu samba quando o tio Sam pegar o tamborim

    Somos povo
    Somos pluralidade
    Somos originais
    Somos natureza
    Somos beleza
    Somos muito
    Colônia, de novo?
    Nunca!
    Sobre tudo
    Somos… tudo
    Somos … CUL-TU-RA!
    Por isso
    Eu só boto o bip-bop
    No meu samba
    Quando o tio Sam
    Pegar no tamborim!

  • Poema #40: Interstícios da Vida

    Deixar de ser cúmplice da vida
    de outros que em mim personificam
    a parcela da culpa que subtraio
    do erro coletivo e meu, individualizado.

    Obscurecer o reflexo do sofrimento
    de homens que não vejo em presença,
    mas que em espécie me julgam digno
    de vê-los (como testemunha da morte
    sem remissão de si) em que se abrigam.

    A desvisão do homem como forma de se
    desviar do mundo, numa covardia anônima
    de se cegar para o que há de recíproco
    no duplo ato de existir e ser responsável
    por esta morte latente, usada como escudo.

    Mantendo a essência que não explico
    mas sei que existe onde deixo
    de existir para ser parceiro da vida,
    criação simbólica do gesto de um deus
    não conclusivo, que se deu por satisfeito
    em seu cansaço.

    Areia (À Fragmentação da Pedra)

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