Poesias de 1 a 99

  • Poema #39: House Of Dying

    Febre
    Sudorese
    Incontinências
    Vômitos
    Sitofobia
    Excesso de saliva
    Falta de ar
    Palidez
    Convulsões
    Feridas
    Gritos
    Roncos
    Fedor
    Espumas na boca
    Excesso de gás
    catinguento
    Dor no calcanhar
    e cansaço no mesmo.

    Uma pequena lista
    do que somos e
    ainda tem gente
    que se jacta.

    O Jardim Simultâneo

  • Poema: #12: UM LAÇO E UM NÓ

    Um laço e um nó
    e o engasgo e o silêncio
    a palavra muda amordaçada e nada
    do que fizera antes apaga
    o fluxo do poema e da prosa
    e as mãos frágeis do poeta-cronista
    tentam a todo custo segurar o texto
    o desejo
    a insensatez e a loucura e o rio de letras
    sílabas palavras-peixe e amores brutos
    um laço e um nó e o engasgo e o silêncio
    a palavra mata
    e cala e se cala
    afrouxa e aperta
    afrouxa e aperta
    e joga e rola
    e deita e cola
    afrouxa e aperta e água
    e mais água inundam o ser e o papel
    e o espaço e o universo
    e a tela fala
    aquela fala aquele riso
    aquele pranto
    afrouxa e aperta
    e aperta e afrouxa
    um laço e um nó.

  • O que há por trás do movimento antivacina em cães?

    Um burburinho crescente nas redes sociais revela que muitos donos têm evitado vacinar seus cães. Como jornalista, pesquisei e apurei relatos de especialistas, estudos e depoimentos de famílias, e concluí que o preço também está embutido nessa crítica. À primeira vista, porém, a explicação mais repetida remete a ecos de movimentos políticos que já conhecemos. Foi assim na pandemia, quando a incerteza sobre a eficácia das vacinas abriu espaço para a desconfiança. Essa sombra ainda paira sobre parte da população.

    Na internet, o termo “antivax” ganhou força. Designa os que rejeitam vacinas ou diminuem sua importância. Uma pesquisa do portal IG mostrou um dado alarmante: cerca de 40% dos responsáveis temem que a vacinação cause autismo em cães. É uma crença sem base científica, mas que se espalha com rapidez, como rumor em feira livre. No Instagram,também circulam frases de efeito como “pet que não sai não precisa vacinar”, “vacina é só para gripe”. Mensagens curtas, fáceis de compartilhar, que acabam banalizando uma medida vital para a saúde animal e, por consequência, também para a nossa.

    Para conter essa onda de desinformação, a Associação Britânica de Veterinária (BVA, na sigla em inglês), antecipou-se e divulgou uma nota posicionando-se contra os movimentos antivacina. O tom foi direto: não há qualquer evidência científica que relacione vacinas a casos de autismo em cães. Portanto, podem levar seus animais ao veterinário sem medo.

    Entretanto, atribuir a resistência às vacinas apenas à ideologia é uma visão simplista. Acompanhei, ao longo dos anos, a relação entre cães e pessoas e percebi fatores mais concretos nesse movimento. O custo das vacinas, por exemplo, é um dos grandes obstáculos. Ainda que alguns veterinários se esforcem para oferecer preços acessíveis, para muitas famílias a imunização tornou-se inviável.

    Há também a questão da exigência de várias doses antes de liberar o filhote para passear. Em certos casos, entre cinco e sete. Isso compromete severamente o desenvolvimento social dos cães, sobretudo na fase inicial da vida. Quando barreiras financeiras e práticas se acumulam, muitos donos ignoram as recomendações e acabam levando seus cães às ruas antes do fim do ciclo vacinal completo. E, uma vez quebrada a regra, a lógica se impõe: se o filhote já pode ter contato com o ambiente externo, por que continuar arcando com tantas vacinas caras? O resultado é um efeito dominó que mina a confiança.

    Não se trata de condenar a prática veterinária, mas é impossível ignorar a engrenagem maior que sustenta esse cenário. Quanto mais vacinas, maior o lucro da indústria farmacêutica. Reconhecer esse fato não é aderir a teorias conspiratórias, nem enfraquecer o valor da imunização. Pelo contrário: vacinar continua sendo indispensável para a saúde e a longevidade dos cães. O desafio real está em outro ponto: tornar o processo viável, transparente e acessível, para que ninguém precise escolher entre proteger o animal ou pagar as próprias contas.

    Politizar o debate é perigoso. Cães fazem parte de todas as camadas sociais, e muitos responsáveis simplesmente não conseguem arcar com o custo de certos imunizantes. Em um país onde famílias esperam meses por atendimento médico, não surpreende que os animais também sofram os efeitos do sucateamento da saúde pública.

    Mesmo assim, não faltam histórias de donos que se sacrificam, abrindo mão do próprio cuidado para garantir a proteção de seus cães. Esse gesto, ao mesmo tempo nobre e doloroso, revela o tamanho do vínculo que une pessoas e animais, mas também expõe, com clareza, as falhas de um sistema que deixa ambos desassistidos.

    No fim, a matemática é implacável: quando o dinheiro falta, meus caros leitores, não há retórica que resolva. Não é descuido, tampouco crença, mas realidade que nenhum afeto consegue ultrapassar. A conta não fecha. Entre pagar um boleto, comprar o gás ou investir em vacinas, muitos acabam escolhendo o imediato. É duro reconhecer, mas a verdade se impõe com a frieza dos números: amor não basta quando a sobrevivência está em jogo.

    Como dizia meu pai, com a sabedoria de quem viveu de tudo: “Se não tem remédio para a situação, remediado está.”

  • Poema #05: Não É Aqui, Mas Perto

    Estou debruçado
    sob a fagulha do instante.
    Me distorço enquanto crio
    a ilusão de um esboço para algo
    que sequer sei o quê.

    Ouso um salto, um pêndulo.
    Giro de cá e de lá.
    Laço-me à vertente de um vértice,
    dobro os olhares e os reviro, o sintoma.
    Tu, que me devoraste.

    A vertigem do hoje faz hora
    Há tempo…

    Apressa-te, que o passo é passado.
    Vagueia a tormenta, é futuro.
    Perdoa o vivido, é achado.
    Lamenta, já se fora perdido
    feito pássaro garrido,
    debatendo-se,
    sangrando,
    só,

    estilhaçado.

    Tomba-me a silhueta assombrosa.
    Insinuo que assim continuo.
    Pesa-me o pestanejo, pelos
    entulhos do mundo, filhos
    da moral errante,
    do tocante instrumento de voz,
    secularizado pelo silêncio
    nas penumbras
    corriqueiras, talhados em
    estantes.

    O momento que pulsa tenaz
    é fruto bastardo, pauso.
    Um entrave, acordo
    em um lapso constante.
    O retenho aguçado, assim apazigua-me a
    centelha, o bastante.

    Entrelaço
    um acorde dentre as
    frestas da forma.
    Cravo o risco em páginas

    onde clamo, se por forçosa a teima,
    que ouça o riso da peste
    que sofre, que sonha.

    Estão cansados os poetas.
    Aos retirados à pruma
    surte o rumo da crença.
    E quanto à verdade, meu pai..
    É certo que dela me esqueça
    perene, enquanto perdure
    o delíquio de vossas cabeças
    renques, trépidas de um senso
    cabal,
    diz-se amargo
    o careta.

    A estibordo este vórtice
    que me devora, que me devora..
    Sinuosa esta vida
    que me despoja o agora
    e que sopra, sopra…
    Mas se por dizer
    que escrever possa ser
    velejo,

    e se a vida for mar…
    Viver seja tornar o sopro forte
    E amar, amar bem depressa,
    pois querer vê-la, já
    é tocar
    o amor
    de toda a sorte.

  • Poema #38: Em Brancas Nuvens

    Alguns dos meus
    poemas são como
    letras de música
    sem música.

    Alguns dos meus
    gestos são como
    atos de uma peça
    sem atores.

    Alguns dos meus
    sonhos são como
    um comício público
    sem plateia.

    Alguns dos meus
    atos são como
    um filme mudo
    sem cenário.

    Alguns dos meus
    delírios são como
    uma transgressão
    da vida no sonho.

    Muitas das minhas
    loucuras são como
    a minha própria
    vida & literatura,
    inéditas no final
    das contas.

    Inventário de Sombras
  • Poema #04: Sujeito Itinerário

    Sentar-se à varanda e deliciar-se com as
    passadas, dos sons da cidade,
    com a corrente inóspita do tempo…

    Ao silêncio de um lago turvo
    que se desdobra,
    sobre as luzes que escapam, e a vida que
    existe…

    como que o
    mundo as retirasse de si.

    E notar as ondas eternas das horas
    que mergulham sob a vastidão
    de um verso transitório,
    entre aquilo que se é
    e o que se fora.

    Estou farto de uma existência
    relapsa e
    repentina; deste lampejo
    imediato que submerge
    e estilhaça
    o vislumbre do agora,

    que faz do movimento
    um ressentido,
    detrito sintático,
    repleto de esquecimento.

    Quero é olhar o nada e sentir preencher-me,
    poder tocar em volta
    e correr por sobre o vento,

    e sem a permissão do dito tempo
    arriscar-me a
    pensar em tudo;
    a habitar o espaço
    de um momento.

    É… é preciso de pouco nessa vida.
    Ah, como preciso de tão pouco!
    Mas, do que realmente preciso?

    Não sei.
    O jeito mesmo
    é ir vivendo.

  • Poema #37: Um Vazio Suficientemente Cheio

    Subtraímos da vida
    a sua menor parcela
    para o preenchimento
    de nossas carências.

    Mas ao assumirmos o
    controle desta mínima
    propriedade, sentimos

    que ela não nos basta
    posto que a enxergamos
    apartada de sua totalidade.

    Acrescentamos então à vida
    a parte restante que falta
    para completar a visão que
    nós temos do seu conjunto.

    Mas ao nos atribuirmos a
    capacidade de dispor dos
    elementos de acordo com nossa
    momentânea vontade, a vida

    perde a complacência concedida
    e resgata a sua fração que já
    tínhamos e que era a única que
    podíamos aspirar em nosso desconforto.

    Inventário de Sombras

  • Poema: #12: Exercício Pessoano

    A chuva veio tomar
    os meus pensamentos
    e me puxou pelo braço… assim inteiro
    e já não me sou…deixei de ser…
    somos e não somos.
    Várias vozes… absorção.
    Um senão!

    E fica a impressão
    de que a vida se abandona
    na brevidade acelerada das coisas…
    e não somos! Fingimos ser…
    Inventamos, copiamos, fazemos um rascunho…
    E nos deparamos com o sentido inoportuno
    de não querer entender
    e somos!

    Vencido o humano,
    bandeiras ao vento, mastros,
    coração tremulando aos farrapos…

    Quando se escreve, há o momento da perda…
    e, no perder-se, encontramos
    o que no cotidiano…
    damos o nome de poesia.

  • Poema #36: Nu

    O teu corpo,
    pássaro esculpido
    no assento do
    sofá da sala
    de visitas,
    é uma ampla sala
    onde te visito
    (abolida a noção
    de sonho
    sob o teu vestido),
    sempre que o desejo
    do corpo desenha
    a moldura de um
    pássaro
    em teu assento

    Inventário de Sombras

  • Poema #07: Ressaca

    onda mortiça,
    que oculta em seu manto de espuma?
    pérola ou lixo?
    fragmento de concha ou ponta de vidro?
    cobertor de areia
    espelho de estrela
    poça onde a sereia afônica afunda os pés sem dedos

    O corpo inteiro afogado no poço sem fundo.
    A memória em desordem de molho no sal.
    O olhar que vacila

    (à procura de terra firme?)
    vê diluir-se um segredo na força da água.

    no avanço
    no refluxo
    o vaivém ritmado
    pinta no chão
    uma sombra ondulada
    que apaga

    São suas ondas, maré postiça,
    que trazem não mais que pistas
    embaralhadas pelo mar,
    que tragam o passo na amarra dura
    da areia úmida de outro lugar.

  • Poema: #11: REMANSO

    Sem querer descanso
    Um espanto
    Voluptuosa corrente
    Sente que é noite
    Dentro da gente.

    Sem querer remanso
    Manso
    Mato verde molhado
    Sente que é sereno
    Enluarado.

    Sem qualquer pranto
    Pronto:
    Torre de vento e estrela
    Sabe que é madrugada
    Nada.

    Vem molhada de canto
    Quer tanto
    Boca de lua jogada
    Sol quente na estrada

  • Poema #06: Eco

    talvez uma nota só
    surge avulso na meia luz
    monótono feito o canto
    que se destina a embalar
    o teto o chão as paredes

    a coreografia do pó
    projeta no espaço em branco
    o sonho de não morrer
    o ritmo é a bolha que estoura
    no silêncio da distância

    rebate elástico o nó
    duelo que prende a resposta
    ao mesmo som da pergunta
    na teia da repetição
    a voz desafia o infinito

  • Poema #35: BREVE E LONGÍNQUO

    “… você marcou a minha vida, viveu, morreu na minha história, chego a ter medo do futuro e da
    solidão que em minha porta bate… eu corro e fujo destas sombras, em sonhos vejo este passado, e
    na parede do meu quarto, ainda está o seu retrato, não quero ver pra não lembrar, pensei até em
    me mudar… lugar qualquer que não exista o pensamento em você”.

    Edson Trindade/Tim Maia

    Breve, como breve é a luz da lua cheia
    Durante o eclipse solar da vida humana.

    Breve, como breve é a sombra da noite
    Durante o sono da vida como um lençol.

    Breve, como breve é o sonho do amor
    Durante o intervalo das ilusões perdidas.

    Breve, como breve é a existência do corpo
    Durante o trajeto sobre o planeta terra.

    Breve, como breve é a presença do espírito
    Durante o convívio quando se pensa em anjos.

    Longínquo, como longínqua é a essência dos seres
    Durante o percurso no trafegar das ruas atribuladas.

    Longínquo, como longínquo é tudo o que se vê
    Durante o passeio da câmara em panorâmica no alto.

    Longínquo, como longínqua é a felicidade íntima
    Durante a procura pelo convívio ideal a mais de um.

    Longínquo, como longínqua é a música do Yes
    Durante o embalo da paixão não correspondida.

    Longínquo, como longínqua é a ideia de um Deus
    Durante o desespero batendo nas grades da prisão.

    O Jardim Simultâneo

  • Poema #03: PRESSÁGIO

    Vê onde há dor,
    vá onde se avista,
    doa o que não se pede,
    perca o que não se dói.

    Foi o que não se via,
    viu o que não se achava,
    trouxe o que não devia,
    deveu o que não se tinha.

    “Terei onde ser um outro,
    verei o que há de novo”,
    tentou ser tudo que tinha
    viveu feito vivo-morto.

    “Saudade é da liberdade”,
    cantava o finado rouco;
    mas tudo o que era livre
    fizera de caso pouco.

    Saudade é da boa turma,
    teimosa que só a rima:
    largava, sentia, ouvia;
    era a vida do bicho solto.

    Onde fora tal maledicência
    que só o tombo levava o rito?
    O tinha o decurso, o todo
    fez da fome o que tinha dito.

    Repetiu o que se lembrava,
    calejava o suor da testa,

    uma vida já percorrida
    se de si esquecida,
    de que resta?

    A turma já como desfeita
    anunciava o discurso às pressas;
    foi o que não era
    e não se via.

    Eis a sutileza:
    Viver é afetar a vida com a espera.

  • Poema #33: Sea Of Monsters

    inspirado em versos de Lennon/McCartney

    Estamos num barco
    no meio do oceano.
    Toda compreensão de mundo
    que temos não ultrapassa
    o nosso raio de visão.

    E como nossa visão é curta
    (e não nos conformamos com isso),
    às vezes utilizamos algum instrumento
    que nos dê a sensação de transcendência.

    Mas por mais largos que sejam ou
    possam ser nossos horizontes visuais,
    o que vemos é apenas um limitado tapete
    de água que escoa e se perde no vazio.

    Assim nossa visão de mundo
    (ainda que não queiramos admitir),
    acaba se restringindo ao espaço
    interno do barco em que estamos.

    Do lado de fora do barco
    (e a água bate forte no casco
    tentando afundá-lo) se situa o imponderável
    com suas “nuvens negras, negros pássaros;
    asas partidas, lagartos, destruição”
    .

    Inventário de Sombras

  • Poema #02: Trinta e sete tonais de tinta

    Foram precisos tantos
    e tais quais tonais
    de tons entonados
    de tamanho eterno
    e com ternura tal..

    Teria tido eu
    um tempo ao qual
    tenro, turvo, talho,
    traços de tinta em rabiscos

    e tirando tudo de trás…
    teria eu tentado?

    Se tentei foi por tentar.
    Tirava tudo o que me trazia,
    talvez até mais…
    onde coubesse tanto.

    Traste! – terminei traçando,
    “É o que se diz”, entoei
    “quando muito se tem,
    pouco se tenta”
    .

    Pois quero tentar ter nada.
    Ou mesmo tais tonais quais
    que não tires de mim tanto
    que sou tinta entornada,

    tecido traçado no túnel
    de um tempo tirano;

    em torno de tudo,
    envolto de tanto,
    esboço de lata

  • Poema #01: A Viagem

    A gente corre e esquece
    O tempo aquece, escorre
    Se a vida dança, eu rio
    Se a vida flui, eu sambo

    De lá eu vejo, sinto
    De longe eu peço, e fico
    Da rua, a terra, o transe
    A moita, espreita, um tanto

    Eu tive sede e sonho
    Vivi a luz, a sombra
    Timbrei um brado, um tinto
    Um feixe aceso, o sangue
    Da lua negra, um grito
    Afresco a palo seco
    Memória, o vulto, o vício
    Esqueço, vejo;
    Me desencontro

    Tolice a velha sina
    O ter não quer ser tido
    O lado oposto, o tempo

    Se rompe o véu, um rastro

    Um astro, um sal, um vento
    A pena diz assim levanto
    A vida que se espreita
    Espreme, exprime, espanto

    Domingo eu ligo o rádio
    Disfarço um beijo, encaro
    A rima, um desperdício
    A vida, um ter sem rumo
    O ter, um tempo em branco

    Eu finjo um fato, um feito
    Um tapa, o tom do sério
    Eis a vergonha boba
    Viver é só mistério.

  • Poema #32: Versos Lastimosos

    a gente
    sempre se ressente
    contra quem
    supostamente
    se diz muito
    feliz

    Da Essencialidade da Água

  • Poema #31: CACTOS

    No meio da tarde
    No meio do mundo
    No meio da sala
    estamos plantados
    como uns cactos.

    No meio da vida
    No meio do sonho
    No meio do amor
    estamos atados
    como uns escravos.

    No meio do caminho
    No meio da raiva
    No meio do medo
    estamos presos
    como uns condenados.

    No meio de tudo
    No meio de nada
    No meio sem meios
    estamos perdidos
    como uns abortados.

    No meio da rua
    No meio da noite
    No meio da merda
    estamos sozinhos
    como uns deserdados.

    No meio de nós
    estamos morrendo
    como os antepassados
    No meio ele mesmo
    estamos vivendo
    como num trabalho forçado.

    Somos uns cactos
    num deserto de homens.

  • Poema #30: Porém, Nada Dizia

    Gosto do silêncio.
    Prefiro ficar em silêncio.
    Vejo as pessoas conversando
    e a imagem que me fica é a
    do cuspe trocado entre elas.

  • Poema #05: Procura dos sentidos

    Terminantemente cego pelo brilho da sua voz,
    custei a compreender que o farol era oco.
    Lançam-se às ondas os que não veem.
    Os olhos,
    mal acostumados à claridade nua,
    não distinguem o contorno do timbre que os feriu.
    Perfil de muitos rostos
    ou nenhum.

    Vem de lá o jogral que arranha os ouvidos.
    As letras,
    maiúsculas e resolutas,
    marcham e cantam
    cantam e marcham
    em fileiras que se entrelaçam e colidem

    até se emaranhar em mil espinhos
    aptos a ensurdecer o toque.
    O ruído das opiniões encarece o silêncio.

    Mas não há trégua.
    A pele sem pausa se arrepia
    ao cheiro que escorre das redes.
    Pouco se aproveita da pescaria.
    Aqui uma lesma
    ali uma pedra
    o resto é areia
    que os dedos espalham até perder as digitais.

    Melhor seria se recendesse a sal.
    Na disputa amarga das fragrâncias,
    ao nariz resta a fratura.
    E antes que alguma possibilidade de cura se apresente,
    impregna o ambiente o perfume insípido dos infalíveis.

    A língua não quer assepsia.
    Tampouco a visão da terra firme.
    Temperos novos
    híbridos
    em vão buscam os lábios que os perseguem.
    O encontro jamais consumado
    afinal se junta ao rol das coisas que,
    embora não devoradas,
    consomem.
    Qual apetite desaparecido.

    Despojado enfim de todos os sentidos
    o corpo perde a conexão com algo além do sensível.
    Sonâmbulo entre sonâmbulos
    pisoteia bússolas e dicionários

    enquanto flana
    em meio à multidão da praia deserta.

  • Poema #4: Rondó randômico

    A tosse que se ouviu pulsar,
    entranhada nas dobras do ar,

    ouvi que nunca houve outra igual,
    engasgo ou sintoma de um mal
    que se ouvisse sem se escutar.

    Como prever em qual lugar,
    incontrolável como o mar,
    recairia o surto canibal
    que se ouviu pulsar?

    Nesse jogo de sorte e azar,
    tecido com ardil no tear
    da imprecisão proposital,
    cada lance adia o final
    do giro sem fim do pesar
    que se ouviu pulsar.

  • Poema #30: A Voz do Silêncio

    Estou acordado
    e não sonho,
    mas a realidade
    antecipada
    me envolve.

    A barba se me
    desprende do rosto
    fio a fio num frio
    maior onde estou
    me enregelando.

    Tudo se dissolve
    na aparência de ossos
    de que fui formado,
    e que é minha forma
    mais resistente no mundo.

    Mas a terra
    (com seus vermes)
    decompõe ao seu contato
    todo o meu aprendizado
    doloroso da vida.

    E uma cova me absorvendo
    transforma tudo o que fui
    num triste resumo de pó
    que um dia se chamou homem.

    E que lhe deram um nome
    (que tive), mas que a terra
    aterra no tempo o traço
    nominal dessa efemeridade.

  • Poema #03: Oferenda

    Da onda ao pé da praia,
    recolho as relíquias do mar:
    sigilo
    deslumbrante encanto
    pronúncia sincera de uma fé sem dogmas.

    Preservo meus amuletos.
    Quisera crer somente na força
    das águas que os trouxeram,
    banhados em luz e sal,
    sutil religação do corpo ao mistério.

    Algo estranho, porém, corta
    minhas mãos, meus pés.
    Fio afiado de faca
    cravado nas costas da mansidão.
    Em vão vasculho a areia:
    misericórdia amor tolerância
    estão enterrados tão fundo
    que sequer a mais teimosa esperança
    pode trazê-los à tona.

    Os detritos e os dejetos
    de uma deturpada devoção
    soterram sem piedade
    o que um dia foi oferenda.

  • Poema #29: Novas Lendas Urbanas Inventadas do Nada

    Eu estava de tocaia na praça em frente à sua casa
    aí ela chegou de bicicleta e quando foi abrir a porta
    eu ataquei, agarrando-a por trás e já sentindo o delírio
    daquelas carnes macias que me foram negadas em vida.

    Havia crianças por perto e então eu achei melhor
    interromper o procedimento e levá-la para um lugar
    escuro e deserto e então fomos a um velho cemitério
    com ela protestando que preferia estar com uma amiga.

    Mas eu havia morrido por causa dela e não era justo
    eu não levar nada daquele amor que atravessou décadas
    de sofrimento e dor causadas pela sua frieza e indiferença
    como quem prende um coração numa jaula suja e planejada.

    Nunca era tarde e agora eu a tinha entre os meus braços
    dilacerados pelos cortes de navalha que ela havia operado
    enquanto exercia as funções de enfermeira-chefe do posto
    médico mais próximo e que era uma espelunca dos diabos.

    Consegui fugir das trevas do inferno e antes de executar
    o intento planejado eu levei as suas filhas para a casa da avó
    que morava numa aldeia vizinha de onde tudo havia começado
    a cerca de 5 km de distância e já eram trinta e um anos passados.

    Depois retirei o seu vestido jeans de zíper nas costas e com cuidado
    fui explorando todos os espaços onde a vida fora afinal consumida
    entre equívocos e intervalos enquanto que ela não dizia nada como
    quem já esperava pelo pior e estava resignada com a morte próxima.

    Mas eu estava cansado de conviver com o sangue e só queria o desfrute
    daquele momento com ela viúva e única, como se eu fora um lobisomem
    apaixonado pela manhã seguinte e então ficamos a noite inteira naquela
    e acho que foram umas seis vezes até eu ficar satisfeito e engravidá-la.

  • Poema #02: Último andar

    Inunda o céu a invasão
    desse voo vadio sem asas
    de volteios fora do tempo
    a trapacear a vertigem.

    Fora de ordem e selvagens
    são as aves que sequer
    as mais hábeis artimanhas
    mantiveram na gaiola.

    Em silêncio, em liberdade
    furam a fila das nuvens
    e enganam sombras e luzes
    no movimento sem freios.

    Ao redor do último andar
    vê o caminhar derradeiro
    que prescinde de convite
    pra lançar-se ao recomeço.

    Faminto de novos ares
    voa pra abocanhar o céu
    pássaro infenso à censura
    tecido de pensamento.

  • Poema #28: ANÍMICA

    quando eu tinha todos os movimentos
    eu era sol entre nuvens
    aves de arribação
    qualquer coisa de menos sólida
    por haver.
    eu via cachoeiras em meus sonhos
    remanso de rios
    pedra grande de sentar menino
    florestas a esculpir.

    Da Essencialidade da Água

  • Poema #10: OUÇO RUMORES

    Ouço os passos do vento
    Ouço e estremeço…

    Tempo

    Entretempo

    Ouço rumores de vento

    E penso que sou eu
    o vento
    e o rumor

    Momento…

    E o meu corpo
    descolado das palavras
    é brisa marinha

    As ondas me invadem

    uma a uma
    e a sensação da vida e do amor

    preenchem os espaços outrora vazios

    preenchem cada canto
    o olhar de sal

    e as mãos que se quebram de tanto escrever

    As ondas e o vento
    e o meu corpo ainda intacto

    Depois?

    Não ouço mais nada…

  • Poema #01: Entrelinhas

    Repara a frente do verso.
    Gêmeas, capa e contracapa
    dispensam qualquer remendo.
    Abrem-se livres, pois são
    asas de uma ave vadia
    a desnortear perspectivas
    (no alto, embaixo, início, fim).

    Enumerar as palavras
    no caderno é exercício
    árduo de caligrafia.
    Um sem-número de imagens
    colore o branco entre as linhas,
    promove encontros na rígida
    geometria das paralelas.

    Remexe o varal das letras.
    O movimento preciso

    revela o que antes estava
    camuflado sem disfarce:
    conselhos, consolos, sonhos,
    denúncias…diálogo aberto
    que se guarda a sete chaves.

  • Poema #27: Uma Poesia a Marteladas

    eu faço versos
    como quem martela
    as sílabas do vocabulário:
    trôpego quase sempre.

    eu faço poemas
    como quem sofre
    as pancadas do destino:
    difíceis como sempre.

    eu sobrevivo
    como quem hiberna
    na escuridão da noite:
    dilacerado sempre e sempre.

    com a música do Led Zeppelin
    “since i’ve loving you”
    para acompanhar
    o meu enterro.

    Da Essencialidade da Água

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