hoje eu mordi um chumaço de papel higiênico para estancar (ou tentar conter) o sangramento da língua dilacerada: como um cadáver antecipado que devora o seu próprio sudário.
O primeiro verso é um pouco como o ar Palavras soltas, palavras para cá e para lá Mas mãos cuidadosas vão caçando no brincar E o céu poético se ordena e tudo lá está.
O quinto verso, já encorpado, é como a terra Palavras fortes e consistentes que criam raiz E mãos habilidosas escolhem no tempo de espera E o chão poético é desejoso e tudo diz.
O nono verso movimenta-se ágil como a água Veloz como as corredeiras e quieto como lago Percorre a vida a noite inteira e depois deságua
E quando tudo parece a morte – derradeira cena As cinzas das brasas voltam ao natural estado O último verso dissolve-se e é o fim do poema.
#05 – EXERCÍCIO POÉTICO
E vai e vem e vem e vai e agora cai Um verso e mais outro e outro mais E de novo, mais um e mais um e mais um E a rima certeira se aconchega em “algum”
E vem e vai e vem e vai e de novo cai Mais um verso e mais outro e outro mais A rima, no momento, se aproxima do “cais” E então, a estrofe, mais uma, vai…
E assim segue o poema um pouco escorregadio Inteiro, em pedaço, movediço e quebrável Todo, completo e depois o vazio e o nada!
E assim segue o poema um pouco vadio O primeiro ou o último, inteiriço, mas mutável Item por item, som a som, palavra por palavra
#04 – TEMPO
Horas… as horas… é o tempo que passa e passa o tempo todo o dia inteiro independente do que faça ou não faça devagar e impreciso ou certo e ligeiro.
Curioso é que tudo muda nessa trama: o sentimento que se sentia já não sente o amor com que se amava já não ama todas as coisas passam, assim, de repente.
No fim de tudo, até os sentidos somem e transitamos entre o que há e o que não há: o improvável, o contraditório, um senão…
Tempo, palavra antiga, antes do homem… Marca do que foi, do que é e do que será máscara de sonhos, momentos, desilusão.
#03 – LÍNGUA
Língua breve, toda clara, toda escura, Aos poucos caminha, para, continua. E entre o areal, a bruma, a leve chuva. A face se mostra, inquieta e muda.
Língua instante – objeto nada – rara, pouca. Para, continua, para, tonta e louca. Ensaia um grito, uma palavra, outra, A voz se insinua, miúda e rouca.
No entanto, nas contradições do descaminho, Faz-se a língua na própria língua Faz-se o verso em todo o canto.
O poeta, imagem irreal, o instinto, Busca a palavra, suga-lhe o sentido. Regurgita o poema sob aplausos e espanto
#02 – SOMBRAS, PEDRAS E RIOS
Sombras, rios, sussurros ou delírios? Delírios, sombras, rios ou sussurros? Pedras, muitas pedras correm com os rios. Com os rios correm os murmúrios.
Rios, sussurros, delírios e sombras. Pedras, muitas pedras correm com os rios. O resto são assombros e tu contas Que escrevo um poema? Delírios!
No primeiro terceto faço questão: Pedras, muitas pedras correm com os rios. Sombras, sussurros, mas o que são delírios?
Imaginar que faço o poema e não Importa-me o verso que segue… São fios E tu a acreditares nas pedras e rios?
#01 – É A ROSA
Nas rodas antigas o freio e a vida É a rosa, desgosto, gosto do mundo Frágil, sublime, aos poucos ferida Viva num instante, morta num segundo.
A entreter o poeta num beijo longo Ao desfalecer é pedra, mar e cio, Conchas de luz no céu onde ponho Um poema um tanto escorregadio.
E foge de mim assim como o mar, E foge de mim sem sequer pensar, E foge de mim sem mesmo olhar.
É a rosa, tanto doce quanto amarga, É a rosa metade da madrugada, É a rosa, poeira e mais nada.
“sob a luz de neon, o silêncio cresce como um câncer. as pessoas se curvaram e rezaram para o deus de neon que elas criaram. as palavras dos profetas estão escritas nas paredes do metrô e nos corredores do cortiço” Simon & Garfunkel
era a noite fria e chuvosa então eu saí como um zumbi para criaturas que, como eu, vivem nas sombras.
sob a luz de neon o câncer se espalha e as pessoas se curvam ao som de Simon & Garfunkel.
rezas, aspersões de água benta e nada resolve: o deus de barro que criaram se esfarela como um pó seco.
as palavras dos profetas estão rabiscadas nas portas dos banheiros sujos das rodoviárias promíscuas.
cortiços, neons resplandecentes, silêncios e o escuro breu da noite sem almas a sufocar nos corredores do metrô 147.
palafitas, águas podres, restos de comida, latas, lixo reciclável, “estercoraria argila preta”. O Déjà Vu.
“entre os anos de 1764 e 1767 os habitantes da pequena província francesa de Gevaudan, atualmente parte de Lazere, próximo das montanhas Margueride foram aterrorizados por uma criatura lupina que passou a ser conhecida como La Bête Du Gevaudan ou “A Besta de Gevaudan”
eu já fui quase do tamanho de um touro ou de um urso, meu braço e dedos direitos, em função de sequelas, pareciam garras afiadas e o conjunto todo era de uma aparência medonha.
a primeira mulher atacada conseguiu escapar e chegar até ao seu vilarejo, de onde passou a adotar um comportamento estranho e agressivo. Após esse episódio, seguiu-se um tempo de calmaria, mas próximo ao natal o cântaro de água derramou e mais uma pessoa desapareceu e localizaram os seus restos terrivelmente mutilados em uma ravina. Suspeitaram então que um nobre renegado estava por detrás daquelas mortes, transformando-se em um lobo demoníaco em noites de lua cheia. as pessoas do vilarejo foram ficando incomodadas com essa presença lupina comendo a sua comida, remexendo os campos e invadindo as suas propriedades. Montaram então uma expedição de militares com um arsenal de 50 mosquetes, lanças com mais de dois metros de comprimento, armas que disparavam setas de ferro, bombas explosivas de pólvora negra, armadilhas e correntes para capturar o intruso animal. Os homens da expedição usavam armaduras negras de couro batido e metal cheio de espinhos, cabelos moicanos e pinturas de guerra. As suas peles eram besuntadas com os despojos de uma loba no cio para atrair a fera sanguinária. Esses trajes exalavam um fedor nauseabundo. Tudo preparado para fazer o abate, mas a besta atacou antes e matou várias pessoas da tropa. Então os aldeões revoltados se armaram com ferramentas, paus e pedras e um desespero de iconoclastas, e nada. Tudo fracassou e contrataram então um taxidermista de Paris. A nova expedição ou empreitada contava com 40 caçadores e uma dúzia de cães farejadores. Os homens concentraram-se em uma área rochosa, repleta de ravinas e onde se dispunha de água potável ao que tudo indicava ser o covil da fera. Esta última tentativa se enveredou pela floresta tendo como líder um taxidermista especialista em folclore e superstições e que, armado com projeteis e balas de prata que foram abençoadas pelo pároco local. Chegaram num bosque próximo de Gevaudan onde recitaram uma série de orações e cantigas místicas. E logo a fera, na forma de um lobo, apareceu e então todos dispararam com suas pistolas e os projeteis de pura prata que vararam o corpo da besta que caiu fulminada. Para alguns aquela era de fato a besta carniceira e quando tiraram a máscara de pelos e sangue era um homem com trajes de um maluco monge e assim foi queimado e as suas cinzas espalhadas ao vento. Foi preciso o decurso de algumas semanas até que dessem falta do homem tosquiador e descobriram então que a besta não passava do camponês que tosquiava as ovelhas e se chamava “O Monstro” e a sua descrição batia ipsis litteris com aquilo que eu era na aldeia.
eu já fui quase do tamanho de um touro ou de um urso, meu braço e dedos direitos, em função de sequelas, pareciam garras afiadas e o conjunto todo era de uma aparência medonha, ectoplasmática.
Da Essencialidade da Água
(*) transcrição livre e poética do famoso caso ocorrido na França do século XVIII
Noite fria, sombria, quieta. Ele, calado, encolhido, matutando. Eu, na espreita, alerta, sentinela. Nós, famintos, sedentos, enjeitados. Olhos remelentos, húmidos, arregalados. Corpos esquálidos, caquéticos, patéticos. Dentes que bambeiam, rareiam, vadios. Garrafa vazia, gamela vazada. Burburinho no beco, grupinho do boteco. Garotada excitada, bebida exagerada. Sanduba na mão, churrasco no pão. Passo apressado, casaco amarrado. Rota traçada, calçada apertada. Molecada bloqueada, assustada Carroça encostada, coberta rasgada. Ele apagado, encolhido, deitado. Eu agitado, pescoço esticado. Abano o rabo, procuro um afago. Vira-lata esfaimado, tá necessitado. Não tem culpa, merece um sanduba. Comida de gente, pro cão indigente. Acordo o parceiro, meeiro, hospedeiro. Cão de mendigo, pão repartido. Aninho, carinho, comunhão. Vida de rua, verdade nua e crua. Entre um cão mendigo e um mendigo no chão. O que abana o rabo é que garante o pão.
Acendi uma vela, e me veio De outro plano que não eu, mas era eu, também Acender 8 o 8, deitado, é o infinito 8, em pé, conforme as coloquei tornou-se fogueira
O fogo ardeu, ardeu e enquanto eu vivia o momento presente As duas coisas ligaram-se Dançado ardentemente Pavios como mãos dadas Fogo fátuo, feito, farto
De repente minha atenção recor- tou-se em du-as duas e eu estava um olho em algo, outro na labareda, e quando as parafinas finas de cada vela comprida – enfim fundiram-se em uma só coisa ardente pude ver-me eu como mãe de mim mesma e minha filha – que ainda não veio e mais um ser, nós duas em 1 Três Três Três chamas que dançavam como que se conversassem por horas Anos Gerações E então o ar tornou-se perfume o perfume das mil velas que queimam dentro das catedrais E meu ventre tal qual um oráculo divino Escureceu Não era peso ou dor, Mas silêncio um peso nuvem Um descanso
Hibernação Libertação dentro de uma jornada que se finda
Aos poucos Infinitamente Para Três Três almas Três sabores a vida lançou-se para o infinito para cima potência de início – a chama única dentro do pote de vidro enegrecido abraço de fim. E Adormeci Nova para um novo amanhã