Crônicas

Todo mundo conhece uma Odete

Na última aula de Pilates, o assunto que movimentou os ânimos foi: quem matou Odete Roitman?

Quando Beth trouxe a questão à baila, imediatamente, Tatiana revirou os olhos, fechou o sorriso e lançou:

— Acho essa novela um lixo. Nem de longe se parece com a original. Não assisto. Me recuso.

O clima pesou mais do que os halteres. Deu para perceber o mal-estar de Beth ao se dar conta de que puxou uma conversa que não despertou interesse, ou pior, causou nítido desagrado.

Sabe aquele gosto amargoso da rejeição? Pela carinha dela, ela sentiu.

Nilce, mais simpática e mais compreensiva com os pecados do cotidiano, amenizou o clima:

— Também prefiro a novela original, mas tô gostando de Vale Tudo. Pra mim, quem matou foi a Celina. Ela sempre invejou a Odete.

Beth, aliviada por encontrar eco para o seu interesse, mas ainda receosa de tomar outro golpe, disse quase sussurrando:

— Eu desconfio da Maria de Fátima. Aquela é má de verdade.

Tatiana, decidida a inundar o ambiente com seu mau humor ou apenas se aproveitando do disfarce da sinceridade para trucidar a colega do Pilates, soltou:

— Essa novela é tão ruim que eu acho que a Odete se suicidou. — Um risinho debochado acompanhou a afirmativa.

Eu, que até ali estava calada, resolvi me meter. Aquela gosma de superioridade já estava me incomodando. Mandei na lata:

— Com um marido maravilhoso daquele, acho difícil ser suicídio.

— Nunca achei o Cauã bonito.

— Ah, Tatiana, aí já é um problema de mau gosto seu.

A gargalhada da amiguinha oprimida rasgou a atmosfera da sala.

Continuei:

— Concordo com você, Tatiana, que a novela é fraca mesmo, mas adoro. Não perco um capítulo. A vida é assim, tem coisas que não prestam, mas a gente gosta.

— O corpo dele é bonito, mas a cara é feia — confessou Tatiana, de forma menos árida.

— Então, deixa ele para mim.

Rimos todas juntas.

Moral da história:

1. A amargura tem poder de contágio, mas o humor é um antídoto potente.

2. Algumas pessoas saem de casa dispostas a nublar o tempo de quem encontrar. Sejamos solares!

3. Gente que gosta de se gabar do que é, ou tem, ou se acha dona da verdade, é desagradável, desinteressante e solitária. Se tiver que conviver, emane energia positiva, humor e criatividade. O bem precisa vencer.

4. Convivência é lugar de troca, não de exibição. Podemos discordar, não se identificar, se opor, mas com responsabilidade emocional e respeito. Para palavras-espinhos, revide com palavras-pétalas.

Só há treva se não houver luz.

Soraya Jordão

Soraya Jordão é psicóloga e escritora. Nasceu no Rio de Janeiro em 1968, sob o signo de Virgem. Durante a pandemia, descobriu seu interesse pela escrita. É autora do e-book de contos Histórias que contei pra Lua, publicado pela Amazon, em 2022. No mesmo ano, publicou o livro infantil O plano do tomate Tomé, pela editora Itapuca. Foi finalista do concurso Poeta Saia da Gaveta do Verso Falado (2021) e do concurso de crônicas do Instituto Fome Zero (2022). Recebeu menção honrosa no Concurso Literário Relâmpago Virtual, da FALARJ, em 2023. Seu primeiro romance Ciranda de mamutes foi selecionado e publicado pela Editora Patuá em 2023. Escreve para os sites Crônicas Cariocas e Crônica do Dia.

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