
Um pássaro
Duvidou. Não era mais momento para dúvidas, estava já com uma perna sobre a mureta da ponte, mas duvidou mesmo assim. Viu o pássaro que, não fazia um minuto, pousara perto dele e o observava com os olhinhos apertados de ave. Pelo menos foi isso que imaginou: aquele pássaro adivinhou o que ele estava prestes a fazer e veio para dissuadi-lo.
Foi aí que duvidou. Num repente, a vida não pareceu tão bruta. Sentiu um pouco de alegria, a primeira vez em anos. Havia agora um pássaro em sua vida. Tinha que repensar. Ato contínuo, tirou a perna da mureta da ponte. Iria recomeçar, percebeu-se pronto. Virou-se decidido a ir para casa e celebrar a vida nova que teria dali em diante. Não viu o caminhão que vinha veloz pelo outro lado e o pegou em cheio. Deu três piruetas no ar antes de se transformar numa pasta de ossos, sangue e vísceras em cima do asfalto. Assustado com o barulho, o passarinho voou para longe.
A hora fatal nem sempre se apresenta como a literatura conta ou como os filmes mostram. Às vezes ela tem a aparência inocente de um pássaro, tem olhos e jeito de pássaro. Com alguma sorte, pode-se até ouvir um trinado como se fosse uma canção de despedida.













