Crônicas

Uma crônica fora da lata

A polêmica no carnaval (entre tantas e recorrentes polêmicas de carnavais e redes sociais) tem a ver com uma lata. Mas não uma lata qualquer, uma lata física e, ao mesmo tempo, metafórica. Coisas de nossos tempos tão absurdos! Não vou explicar o desfile e tampouco descrever a escola de samba, personagem ímpar de um ano que se inicia. Há muita agressividade nas redes e o assunto foi dito e redito centenas de vezes… Não sou eu que vou repetir mais uma vez! O que eu quero aqui é uma boa provocação literária!

Liberto as palavras de qualquer lata para escrever esta crônica. E, pra começo de conversa, as três primeiras palavras são justamente conservantes, enlatado e conservador…

CONSERVANTES, de acordo com o dicionário, diz respeito a substâncias adicionadas a produtos alimentícios para prevenir a oxidação.

ENLATADO, por sua vez, significa “que se enlatou” ou “guardado ou conservado em lata”

CONSERVADOR significa “que ou o que, em princípio, é contrário a mudanças ou adaptações de caráter moral, social, político, religioso, etc…

Postas as palavras, vamos para a crônica!

Tem gente que vive enlatada e não tem ideia e não respira…

Tem gente que enlata os outros e não abre mão de impor suas latas e não abrir lata nenhuma!

Tem gente que conserva o rancor, o desamor, a mágoa e a tristeza!

Tem também sonhos enlatados, pensamentos enlatados, sentimentos enlatados…

Assim como são enlatadas muitas canções…

E assim, essa gente que não gosta muito da vida, vai conservando ódio e preconceito, violência e desprezo…

Essa mesma gente que não curte dissonâncias, vai enlatando tudo o que vê pela frente e, quando se vê, não há mais cores e sabores e odores, ao contrário, há apenas uma única verdade, absoluta, imponente, intransigente…

Sabemos que muitos conservantes mantém os alimentos dentro da validade a custa de nossa saúde!

Sabemos também que muitos enlatados possuem alto teor de sódio e que latas amassadas, enferrujadas ou estufadas devem ser evitadas!

Por esta razão, é importante pensar: ser conservador é necessariamente conservar apenas o que é bom?

Sabemos que não!

Os que gritam pelo conservadorismo querem conservar preconceitos enraizados, conservar privilégios indecentes e conservar o clima de guerra constante…

Quero, pela minha parte, conservar o riso e a alegria, não o cinismo. Quero conservar a malemolência da língua portuguesa, não a desigualdade. Quero conservar o abraço e a amizade, não a hipocrisia! Quero conservar a poesia e não a cara carracunda de quem não gosta de arte! Quero conservar a imaginação, o voo do balão, as bolhas de sabão, não a frieza e a falta de compaixão!

Quero conservar a essência de humanidade e não a barbaridade!

Quero conservar a crônica solta, livre, fora da lata… para que ela, a incrível crônica, possa, pelo poder das palavras, abrir outras latas!

Campista Cabral

Campista Cabral, leitor assíduo dos portugueses Camões e Pessoa, do poetinha Vinícius, herdou deles o gosto pelo soneto. A condensação dos temas do cotidiano, assim como a reflexão sobre o fazer poético, parece procurar a sua existência empírica ou, nas palavras do poeta, um rosto perfeito, na estrutura do soneto. Admirador e também leitor obsessivo de Umberto Eco, Ítalo Calvino, José Cardoso Pires, Lobo Antunes, do mestre Machado de Assis e do moçambicano Mia Couto, retira dessas leituras o gosto pela metalinguagem, o prazer em trabalhar um espaço de discussão da criação literária em sua prosa. A palavra, a todo instante, é objeto base dos contos e das crônicas. A memória, o dia-a-dia, o amor, as sensações do mundo e os sentidos e significados da vida estão presos nos mistérios e assombros da palavra.

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