
Uma pitada de sal, não basta
É notório o saber de que o sal, numa casa, nunca acaba. O “nunca”, aqui, refere-se a um tempo deveras alongado. Em uso mais direto da nossa língua coloquial, eis o papo reto:
quando o sal acaba, meu amigo… tu tá com um pepinão para descascar.
Ninguém pede sal ao vizinho — pede-se açúcar. Sal é usado aos poucos; “pitadas” são suas medidas em praticamente todas as receitas. Já o açúcar costuma ser contabilizado em quantidades de xícaras. Saquinhos ou caixas de sal duram meses, anoS, até, dependendo do número de moradores em uma casa; os açúcares, por sua vez, persistem semanas — ou um amontoado delas, o que não se compara aos
meses salíneos.
Em restaurantes geralmente temos acesso a um sachê com 0,8 a 1 g de sal, medida individual que, não raro, dividimos com quem senta à mesa. O sachê do cafézinho pós-almoço — aquele gole fumegante e escuro que sela a refeição — vem com 5 g.
Para muitos, um só não basta.
Eu, desde que moro nesta casa, há quase cinco anos, comprei três sacos de sal — sendo o terceiro nesta semana. Um deles, coitado, tinha apenas 250g. O primeiro durou mais do que o meu primeiro casamento. Achei significativo. E bastante explicativo.
Nemini fidas, nisi cum quo prius modium salis absumpseris.
Não confies em alguém antes de terem comido juntos um alqueire de sal.
Não sei quem disse isso primeiro, nem quem me soprou o mesmo conselho em versão coloquial — talvez alguém, talvez ninguém, talvez os livros, talvez a vida. A versão romana do adágio, compilada por Erasmo de Rotterdam em 1500 (o mesmo ano em que o Brasil foi avistado pelas caravelas de Pedro Álvares Cabral), traz uma receita com a medida exata para conhecer, de fato, alguém: um alqueire.
À época, o alqueire romano (modius) era uma medida de volume — cerca de 9 litros. 9L equivale a algo próximo de 10 kg. O suficiente, convenhamos, para temperar uma vida inteira a dois… não acha? Já no Brasil, o alqueire virou território, variando de acordo com sua localização, que ainda não era estadual:
Alqueire mineiro: ~48.400 m²
Alqueire paulista: ~24.200 m²
Alqueire baiano: ~96.800 m²
Não se pode transformar metros quadrados em quilos. Mas a máxima permanece: é a verdade travestida de conselho muito, muito sábio. Sal pode ser sinônimo de tempo.
Tomemos o dito refinado e coloquemo-lo dentro de um suporte aparentemente sem emendas: duas estruturas translúcidas nas extremidades, em forma de bulbo, ou meia esfera, unidas por uma cintura alongada. Não há quinas; trata-se de curvas contínuas, uma unidade em si mesma. Se inserirmos 1 modius de sal nesse corpo de vidro e calibrarmos o ritmo de sua queda até o equivalente em pitadas, eis aí os 10 kg que nos acompanharão por toda uma vida.
Que bonito seria recebermos, ao conhecer alguém pela primeira vez — ou como presente de casamento — não flores ou alianças, mas uma ampulheta de 10 kg de sal.
E víssemos, no cair sutil do tempo, quanto duraria aquilo que julgamos conhecer do outro… É na delicadeza desse escorrer que os novos conhecimentos se sedimentam.
Há poucos dias, me explicaram que “sabedoria” vem de “sabor”. Sabendo que sabedoria e conhecimento são quase sinônimos, não é difícil presumir:














Adoreiiii,Bia Mies. 👏👏👏👏
Obrigada, Zilei! A inspiração e o esboço de início desta crônica começaram no seu carro na sexta-feira; você e mamãe falando sobre as peripécias das compras dos sais de cada uma! 🙂