Crônicas

A Leoa e o menino

O menino sonha os seus sonhos de menino. Voar, cantar, adestrar leões!

A leoa faz o que uma leoa sabe fazer, observar atentamente e esperar o momento certo para atacar, afinal, o que um leão faz de melhor a não ser atacar com precisão a sua presa?

O menino foi esquecido pelo tempo, pelo relógio e pelos olhares. O menino esqueceu-se de si mesmo…

Solto nas ruas, fechou-se em si mesmo nos seus sonhos e nos seus devaneios.

A leoa treina e treina cada pulo, cada salto mais alto, observando e aprimorando.

Afinal, é da natureza dos leões pular e saltar e aprimorar…

O menino, ignorado pelos homens, refugiou-se em suas fantasias e pôs-se a acreditar que seria um treinador de leões! E treinadores de leões precisam treinar… leões!

Quis os descaminhos da vida que o menino e a leoa se encontrassem em um zoológico.

Quis os descaminhos da vida que a leoa e o menino ficassem frente a frente.

O menino, como que no delírio do artista, se jogou na jaula num voo acrobático e a leoa, por sua vez, já experiente no seu senso de observação e paciência, só esperou o tempo certo e necessário para derrubar o menino.

O menino, derrubado pela leoa, já não era mais menino… era pó, vento, pensamento distante.

No entanto, para a grande perplexidade dos que vivem na cidade, o menino já havia sido derrubado bem antes.

Pelo descaso, pelo abandono, pelas tristes e constantes adversidades da vida.

O menino foi lançado aos leões, mas não aos leões de fato…

Leões da covardia, da omissão, da sistemática corrupção, do preconceito, da solidão…

A leoa, que não tem culpa de nada, presa também pelo insensato homo sapiens, segue sua curta vida enjaulada, como se criminosa fosse!

Outros meninos entram também em jaulas todos os dias, mas simplesmente não olhamos…

Campista Cabral

Campista Cabral, leitor assíduo dos portugueses Camões e Pessoa, do poetinha Vinícius, herdou deles o gosto pelo soneto. A condensação dos temas do cotidiano, assim como a reflexão sobre o fazer poético, parece procurar a sua existência empírica ou, nas palavras do poeta, um rosto perfeito, na estrutura do soneto. Admirador e também leitor obsessivo de Umberto Eco, Ítalo Calvino, José Cardoso Pires, Lobo Antunes, do mestre Machado de Assis e do moçambicano Mia Couto, retira dessas leituras o gosto pela metalinguagem, o prazer em trabalhar um espaço de discussão da criação literária em sua prosa. A palavra, a todo instante, é objeto base dos contos e das crônicas. A memória, o dia-a-dia, o amor, as sensações do mundo e os sentidos e significados da vida estão presos nos mistérios e assombros da palavra.

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