Crônicas

A procura da poesia

Ah! Carlitos! Se você soubesse da correria desse mundo!

Corremos ainda mais! E não prestamos atenção em quase nada! Acelerados em quase tudo! Sentimos com pressa! Amamos com pressa! Brigamos com pressa! Desviamos com pressa! Olhamos com pressa! Chegamos ao despudor de morrermos com pressa!

Os tempos pós-modernos são intensos e corrosivos! Tempos controversos e destrutivos!

Ah! Carlitos! Se você soubesse…

O seu humano máquina se transformou ainda mais em produto! Ele não aperta mais os parafusos, mas continua sendo vigiado, monitorado, controlado, etiquetado… incansavelmente!

E não dormimos direito! E não descansamos direito! E não comemos direito! E não vivemos direito!

Ah! Carlitos! Se pudéssemos mudar isso tudo!

O mundo precisa com urgência da poesia do seu andar.

O mundo precisa com urgência da poesia dos seus gestos.

Como temos pressa para tudo, não temos mais tempo para a poesia! Ela, coitada, está em algum lugar que não é possível ver na confusão das coisas.

Mas ainda há esperança…

Existem criaturas teimosas que leem e que procuram a poesia nas ruas, nas casas, nos muros, nos becos, nos rostos…

Estas criaturas, resistência destes tempos apressados, não têm pressa e, por isso, procuram a poesia de cada dia em tudo que encontram.

Ah! Carlitos! Saudade do vagabundo, do garoto, das risadas e brincadeiras ingênuas.

O mundo já estava se transformando e não tínhamos a menor noção de tudo o que viria, entretanto, no seu tempo, a poesia era mais visível e palpável…

Em meio aos chips e à fumaça poluidora, a poesia se esconde…

Em meio ao tremor da luz azul das telas, a poesia se fragmenta…

Em meio aos gritos e delírios das redes sociais, a poesia se encolhe…

Mas, de todo o jeito, esse ofício de escrever é de uma teimosia sem igual…

E enquanto houver olhos que leem e entendem palavras, a poesia será a porção de sensibilidade de que precisamos durante a caminhada…

Campista Cabral

Campista Cabral, leitor assíduo dos portugueses Camões e Pessoa, do poetinha Vinícius, herdou deles o gosto pelo soneto. A condensação dos temas do cotidiano, assim como a reflexão sobre o fazer poético, parece procurar a sua existência empírica ou, nas palavras do poeta, um rosto perfeito, na estrutura do soneto. Admirador e também leitor obsessivo de Umberto Eco, Ítalo Calvino, José Cardoso Pires, Lobo Antunes, do mestre Machado de Assis e do moçambicano Mia Couto, retira dessas leituras o gosto pela metalinguagem, o prazer em trabalhar um espaço de discussão da criação literária em sua prosa. A palavra, a todo instante, é objeto base dos contos e das crônicas. A memória, o dia-a-dia, o amor, as sensações do mundo e os sentidos e significados da vida estão presos nos mistérios e assombros da palavra.

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