Crônicas

ARREBATADO

Quase morto de sede, o homem implorou ao céu por chuva, mas não caiu uma gota. Olhou pra cima e não viu uma só nuvem, só luz e azul. Rogou uma praga. Perambulou pela estrada poeirenta, o sol na cabeça. Viu algo no meio do caminho: uma escultura de madeira que alguém jogou fora. Era um rosto, uma cabeça. Uma cabeça completa. O homem a pegou nas mãos e a acariciou. Limpou a poeira e viu surgirem uns olhos, um nariz, uma boca. Um rosto. O rosto de um santo? Ele não sabia. Beijou aqueles lábios, quis saber que gosto havia ali. Colocou a escultura de pé, encostada numa pedra, e tomou distância para avaliá-la por inteiro. Aproximou-se novamente. “Escute aqui, meu chapa”, começou a conversar, como se estivesse na frente de uma pessoa de carne e osso (é assim que um solitário faz com aqueles que não o ouvem, para que o ouçam: “Escute aqui, meu chapa”).

Pediu que mandasse chover. Não choveu. Pediu que saciasse sua sede. Não saciou. Por último, implorou que o livrasse da miséria. Continuou tão miserável quanto antes. Desolado, contemplou a imagem, os traços rudes, grosseiros, talhados a canivete. Ia atirar a escultura longe, por inútil, quando percebeu um brilho rápido naquele olhar: o rosto também pedia por alguma coisa. Nos limites de sua madeira estropiada e do seu silêncio, implorava que alguém o encontrasse jogado por ali e o limpasse e lhe dirigisse orações. Suplicava que o adorassem como se adora um deus ante seu altar. Então o homem compreendeu tudo. Perdeu a sede, esqueceu-se de si e da chuva e dançou diante daquela carranca de madeira velha e carcomida. Dançou, dançou como arrebatado.

Mário Baggio

Mário Baggio é jornalista e escritor. Nasceu em Ribeirão Claro-PR. Mora em São Paulo-SP desde os anos 70. Tem 7 livros de contos publicados: “A (extra)ordinária vida real” (2016), “A mãe e o filho da mãe (2017), “Espantos para uso diário” (2019), “Verás que tudo é mentira” (2020), “Antes de cair o pano” (2022), “A vida é uma palavra muito curta” (2024) e “Vozes para tímpanos mortos” (2025). Publicou contos em várias revistas eletrônicas (Germina, Gueto, Ruído Manifesto, Subversa, entre outras). Escreve semanalmente na revista Crônicas Cariocas. Participou da “Antologia Ruínas” (2020), “Tanto mar entre nós: diásporas” (2021), “Brevemente Infinito” (2024) e Antologia de Contos da UBE-União Brasileira de Escritores (2021 e 2023).

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