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jan- 2025 -21 janeiro
Deus e o Diabo na Terra do Sol
Uma antiga lenda indígena relata como se deu o surgimento da vida. No início, havia apenas trevas e do interior do nada, Tupã fez germinar a luz. No negro céu, em meio a um infindável vazio, o poderoso senhor dos trovões criou o sol, fonte incandescente de luminosidade, a lua e as estrelas com seu brilho ameno. Durante o dia, sob a égide do deus Guaraci, a vida pulsaria fulgurante, multicolorida. À noite, envoltos no manto da escuridão e da quietude, os seres viventes se recolheriam, repousariam e recuperariam suas forças, acolhidos pela terna proteção da deusa Jacy. Curupira e Caipora foram designados guardiões das matas e dos animais. À divina Yara, coube a missão de reger os mares, lagos, rios, pororocas, piracemas, igapós e igarapés, através dos quais a sabedoria perene das águas espalharia o sêmen da vida ao longo do Solimões para além das terras de Marajó. Rupave e Sypave, respectivamente o pai e a mãe de todos os humanos foram moldados no barro. Um sopro divino conferiu-lhes o dom da anima. E puderam assim gerar homens e mulheres que se multiplicariam pelos vales e colinas. Advertiu-lhes com severidade o sábio criador: “Deixo-vos este Eldorado para ser vossa morada, …
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20 janeiro
#07 – ANDARILHO DEITADO
. cheguei cansado para deitarsobre a cama de papelão no chãoe debaixo da marquise gotejante. uma poça de água da pingadeirasobre o passeio do mercado desativadoonde dormiam indigentes à espera do fim. dormir é dócil como o bebê embriagadodesapercebido dos planos de Deus. Um Andarilho Dentro de Casa
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19 janeiro
Cento e vinte e duas folhas
122 folhas caíram sem aviso prévio, de um dia para outro, do Manacá que resiste às intempéries da vida, aos seus altos e baixos, junto a outras tantas plantas, que já somam mais de 4 dezenas espalhadas pelas varandas e cômodos de um apartamento situado em rua tranquila, que nem parece centro de cidade média. Cercado por árvores urbanas, cujas copas privatizam a vizinhança, garantem a qualidade de vida e o cantar dos pássaros a um sem número de pessoas e situações, o número de folhas parece um número pequenino: cento e vinte e duas — não cento e vinte, nem cento e vinte e cinco: exatamente cento e vinte e duas. Seria tal montante uma mensagem do acaso ou um capricho da própria planta, que, desconfiada da mão humana que a cuida – aquela que escolheu tê-la em sua rotina, pelo prazer de cuidar e ver seus frutos como recompensa – decidiu ensaiar uma pequena rebelião? O verde da paisagem predomina. Mas são as folhas pontiagudas, firmes – de maioria idosa, outras que sequer chegaram ao seu tamanho final – que, mesmo jazendo no piso frio, transformados os seus verdes, vistosos e habituais, em amarelentas folhas, enrugadas folhas, são …
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19 janeiro
Chá de revelação
Recentemente li uma matéria sobre o nascimento de um filhote de pinguin que teve um chá de revelação, com direito a festa, bolo, post em rede social e tudo o mais. A princípio fiquei meio confusa, pois não captei o que seria esse tal chá para um pinguin. Lendo o restante da matéria, me encantei com a jogada de marketing do Zoo, pois a revelação realmente merecia uma festividade e eles aproveitaram muito bem a ideia, como fiquei sabendo em seguida, perguntando aos universitários. A ideia do Zoo de fazer um chá de revelação para o pinguin surgiu de uma moda comum hoje em dia, principalmente entre os “ricos e famosos”, de fazer uma festa para contar ao mundo se o infante será menino ou menina. Digamos que nada pode ser mais infeliz do que essa ideia, considerando o quanto a questão de gênero está em pauta hoje, envolvendo aspectos sensíveis como a liberdade de escolha decada pessoa ao longo da vida. Sem entrar nessa seara que divide opiniões e posturas politico-sociais, no caso do pinguin a revelação tem um caráter muito pitoresco: por uma questão biológica da espécie, a identificação do gênero só é possível quando o filhote completa …
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19 janeiro
Redução de dano
Estamos a passos curtos de poder apagar as memórias ruins que nos atormentam, é o que aponta um estudo realizado por cientistas da Universidade de Hong Kong e publicado no Jornal O Globo. Por sorte, a técnica desenvolvida com sucesso no Japão se diferencia do procedimento oferecido no inesquecível “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”. Na película, o protagonista se submete a um tratamento experimental para apagar as memórias com sua ex. Porém, ao descobrir que, para isso, também serão deletadas as boas lembranças, se arrepende e tenta reverter o processo. No caso da pesquisa, o sumiço das recordações desagradáveis foi menos custoso. O resultado foi alcançado com a ativação de boas lembranças durante o sono. Esse feito promete reabrir as portas do Paraíso. Já imaginou acessar somente memórias felizes? Poder calar a voz ruminante das mágoas? Para completar a alegria de um futuro sorridente, em seguida me deparei com uma reportagem sobre os “malefícios do hábito crônico de reclamar” para a saúde física e mental. A pesquisa que deu origem à matéria foi realizada pela Faculdade de Stanford, e os achados impressionam: “meia hora de negatividade por dia pode danificar o cérebro de uma pessoa – esteja ela …
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19 janeiro
Sabores de Budapeste
Andam me perguntando porque mencionei a comida húngara como uma boa surpresa de viagem. Não foi por um prato específico, mas pelo conjunto da obra. Quando resolvemos ir a Budapeste morava no Rio um senhor húngaro que se gabava de sua culinária. Eu colocava esses elogios na conta do exagero patriótico ou da saudade afetiva, duas coisas que embotam o julgamento e a memória. Ele nos deu algumas dicas de restaurantes, mas não levei muito a sério porque, salvo algumas exceções, em viagem acho mais prático fazer as refeições perto de onde estivermos. Foi assim, comendo ao acaso, que percebemos que a comida húngara era realmente saborosa e resolvemos experimentar um dos locais indicados. Pegamos um taxi e mostramos o endereço ao motorista. Ainda não existia a internet para nos dizer que era longe e a que horas funcionava. Chegamos lá por volta das 14 horas e o taxi já tinha ido embora quando percebemos que o lugar abria apenas para jantar. O restaurante ficava numa casa bucólica, numa rua idem, deserta, onde só havia residências. No entanto tínhamos visto no trajeto uma rua mais movimentada e fomos nessa direção procurar outro restaurante ou um taxi para retornar ao centro. …
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19 janeiro
6 poemas de Campista Cabral
#06 – FAZER POÉTICO O primeiro verso é um pouco como o arPalavras soltas, palavras para cá e para láMas mãos cuidadosas vão caçando no brincarE o céu poético se ordena e tudo lá está. O quinto verso, já encorpado, é como a terraPalavras fortes e consistentes que criam raizE mãos habilidosas escolhem no tempo de esperaE o chão poético é desejoso e tudo diz.O nono verso movimenta-se ágil como a águaVeloz como as corredeiras e quieto como lagoPercorre a vida a noite inteira e depois deságua E quando tudo parece a morte – derradeira cenaAs cinzas das brasas voltam ao natural estadoO último verso dissolve-se e é o fim do poema. #05 – EXERCÍCIO POÉTICO E vai e vem e vem e vai e agora caiUm verso e mais outro e outro maisE de novo, mais um e mais um e mais umE a rima certeira se aconchega em “algum” E vem e vai e vem e vai e de novo caiMais um verso e mais outro e outro maisA rima, no momento, se aproxima do “cais”E então, a estrofe, mais uma, vai… E assim segue o poema um pouco escorregadioInteiro, em pedaço, movediço e quebrávelTodo, completo e depois …
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17 janeiro
Paraíso também fica nublado
Não foi difícil achar essa cadeira de frente para o mar. O sol, que estava poderoso desde as primeiras horas da manhã, cansou da função e foi se esconder atrás das nuvens. Os turistas, ou melhor, os outros turistas porque também não sou daqui, bateram em retirada e se espalharam pelos bares e lojinhas. De onde estou, na ponta da praia, ouço distante o murmúrio da música. Nada que me agrade e por decoro estético e consideração com as pessoas que gentilmente me atendem na pousada não vou mencionar o gênero. Mas fica combinado que nem no meu enterro é para ser tocada. Um vento suave passa pelo meu rosto, braços e pernas. A saída de praia me cobre quase por completo. Sobre o mar, gaivotas aproveitam e descansam no ar quase imóveis, me lembrando Tom Jobim e seu Jereba. Suspiro. Início de ano. Sozinha. Ou melhor, sem ninguém para trocar uns sorrisos e fechar os olhos a dois. Mas nada que me faça ter palpitação. Depois de dois maridos, vários namorados e casos que não fico contando porque não é elegante posso dizer sem exagero que meu coração segue forte. Confesso que eventualmente sinto falta daquela arritmia que uns …
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17 janeiro
Entrevista de Itararé (com o Barão Idem)
Apparício Torelly, conhecido como o Barão de Itararé, foi um famoso jornalista que atuou na imprensa brasileira nas primeiras décadas do século passado. Notabilizou-se pelo espírito crítico e o humor ácido, expressos em tiradas como as que constam na entrevista abaixo. Fi-la (ele deploraria essa ênclise!) extraindo passagens da sua obra, que tem servido de estímulo e inspiração a muitos humoristas brasileiros. Vamos então às perguntas: P – O senhor promete dizer tudo neste bate-papo? Não vai esconder a verdade? R – Sou um homem sem segredos, que vive às claras, aproveitando as gemas e sem desprezar as cascas. P – Falemos primeiro de política. O Brasil discute agora o seu regime de governo. Muitos querem o presidencialismo – pelo futuro não do País, mas do presidente de plantão. Que pensa o senhor sobre isso? R – A moral dos políticos é como elevador; sobe e desce. Mas, em geral, enguiça por falta de energia … P – Por falar em política, o senhor tem alguma sugestão para o pagamento da nossa dívida? R – Tempo é dinheiro. Vamos então fazer a experiência de pagar as nossas dívidas com o tempo. P – E como ficam os credores internacionais? R …
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16 janeiro
Abrir uma janela para a alma!
Quando falamos na busca para a cura de problemas emocionais, um dos diferenciais para pensar melhor nossas vidas é utilizar uma teoria aberta que inclua diversas ideias diferentes, e permita uma discussão de opiniões distintas nessa árdua existência. Uma dessas teorias é a logoterapia que utiliza uma abordagem psicoterapêutica reconhecida internacionalmente, e se baseia na premissa de que a principal força motivacional de um indivíduo é encontrar um sentido para sua vida. Segundo Nietzsche, “quem tem por que viver aguenta quase todo como”. Nessa área não podemos esperar uma resposta pronta porque não existe, e não cabe a nenhum psicólogo dizer ao indivíduo qual o sentido da sua vida. Seria sem desventura nenhuma nossos dias de perseguição e luta pelo prazer, e o encontro com a felicidade, se não dependessem muito de nosso interesse. O Dr. Viktor E. Frankl, um neuropsiquiatra austríaco, foi o fundador da Logoterapia e Análise Existencial. Ele ficou mundialmente conhecido após descrever sua experiência dramática em quatro campos de concentração nazistas, em seu best-seller internacional: “Em Busca de Sentido”. Ele foi libertado somente ao fim da guerra quando tomou conhecimento de que sua mulher faleceu de esgotamento, e seus pais e o irmão, haviam morrido no Holocausto nazista. Uma das pérolas …
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16 janeiro
Tatiana está sangrando
Era perto do meio-dia quando Tatiana saiu correndo da escola. Ela tinha ainda que almoçar antes de se encontrar com a Ju. Estava atrasada, e isso a fazia suar mais. Passou no meio dos meninos a tempo de escutar “A gorda tá com pressa?” Olhou para a frente e correu mais. Não dava tempo de chorar. “Corre mesmo, gorda, pra ver se perde meia tonelada”, ela ouviu antes de cruzar o portão e ganhar a calçada. Subiu no ônibus e procurou um assento no fundo da condução, onde ninguém a visse. Olhou pela janela e aí, sim, chorou um pouquinho. Decidiu não ir na Ju, depois ligaria para a amiga. Faria sozinha hoje. Entrou em casa, gritou “Cheguei!” e foi direto para o banheiro. Trancou-se, pegou o estilete na mochila e começou. Doeu tanto, tanto, no corpo e no coração, mas vai cicatrizar. Tatiana sabe que todas as feridas cicatrizam mais cedo ou mais tarde. Fica a marca por um tempo, depois some — um fio de sangue que corre pelo joelho, uma trilha que nasce no ponto do corte e busca, pela gravidade, alcançar o chão. Uma gota maior e mais robusta dilata o fio vermelho e morre no meio da …
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13 janeiro
#06 – O SOM DO SILÊNCIO
. “sob a luz de neon, o silêncio cresce como um câncer.as pessoas se curvaram e rezarampara o deus de neon que elas criaram.as palavras dos profetas estão escritas nas paredes do metrôe nos corredores do cortiço”Simon & Garfunkel era a noite fria e chuvosaentão eu saí como um zumbipara criaturas que, como eu,vivem nas sombras. sob a luz de neono câncer se espalhae as pessoas se curvamao som de Simon & Garfunkel. rezas, aspersões de águabenta e nada resolve:o deus de barro que criaramse esfarela como um pó seco. as palavras dos profetasestão rabiscadas nas portasdos banheiros sujos dasrodoviárias promíscuas. cortiços, neons resplandecentes,silêncios e o escuro breu danoite sem almas a sufocarnos corredores do metrô 147. palafitas, águas podres,restos de comida, latas,lixo reciclável, “estercorariaargila preta”. O Déjà Vu. Da Essencialidade da Água
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12 janeiro
Rotina há 8 – os meses que passam, mas não se vão
. ( )… e no silêncio da inexistência, também nutrimos sentimentos vivos: — a presença que não está mais, mas persiste; — lembranças em fotografias, — objetos humanizados: as roupas – que podemos vestir, a qualquer hora, em busca de abraços —, o perfume, alegoria perfeita, as coleções pausadas e e empoeiradas; — a poeira, que coça, nos coça, permanece; — o barulho das chaves; — o som dos passos pisados pela sola dos chinelos de dedo; — vozes; — o amor, tal tatuagem indelével na alma dos que ficam; — o amor próprio, que de nada parece valer; — o vazio, sensação inquieta de imobilidade, desagradável, além da conta; — as dores emocionais que afetam o corpo; — a baixa imunológica; — as flores que perdem suas cores; — todas as plantas que amarelam suas folhas; — as contas que não cessam, em nome dos que já não existem; — a cama, o sofá, a netflix; — o celular, de lado – é inútil; — o relógio, controverso em seus negócios com o tempo; as cartas, na caixa de correiosao lado das cinzas. no silêncio da inexistência, a vida é um breve e eterno hiato branco, no qual vestimos …
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12 janeiro
A vida presta, muito
A frase antológica de Guimarães Rosa, citada por Fernanda Torres em seu discurso na premiação do Globo de Ouro, me fez pensar nos múltiplos significados nela contidos. Na minha leitura do filme Ainda Estou Aqui, dois deles me tocaram sobremaneira: — O amor incomensurável de Eunice por seus filhos, a ponto de tentar, depois do trágico desaparecimento de Rubens Paiva, proporcionar a eles uma vida que “prestasse muito”. A cena emblemática da fotografia em família sem o pai consegue transmitir sua recusa em vitimizar osfilhos que, agora, precisavam seguir em frente, sorrindo. — O desprezo pela vida que caracteriza as ditaduras persecutórias, como foi o caso do Brasil, entre 1964–1985. O interrogatório de Eunice, mostrado de uma maneira extremamente cuidadosa por Walter Salles, foi suficiente para escancarar o lado sanguinário do ser humano, quando cooptado por um regime que não dá nenhum valor à vida. Esses dois significados associados à fase “A vida presta muito” me fizeram relembrar outra frase, “A vida é bela”, título do filme de Roberto Benigni (1997). Só para avivar a memória, A Vida é Bela se passa durante a Segunda Guerra Mundial, na Itália. O judeu Guido e seu filho, Giosué, são levados para um …
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11 janeiro
Do outro mundo
Vc conhece o outro mundo? Já foi lá? Sabe pelo menos onde fica? Sou capaz de apostar: quase ninguém foi lá ou sequer pensa em sua existência. Afinal, para quê, vocês poderiam se perguntar. Não sei responder. Na verdade, nem é preciso. Mas hoje eu os vi chegando… às vezes aos pares, uns apressando os passos, outros olhando o chão onde pisavam. Rapazes e moças com andares leves, rápidos e sorrisos fáceis e também aqueles, cujos fardos invisíveis lhes amarravam as pernas, tornando o seu caminhar mais lento. Senhoras sem vaidades, de cabelos contidos em toucas e jovens de cabelos (comprados ou não) esvoaçantes. Vi quando adentraram ao mundo para onde vinham. Ficariam por algumas horas. Juntos, mas sem misturar. No máximo, desculpem o trocadilho, terão entre si pequenos e diminutos pontos de contatos. Mas de uma enorme importância, pois podem definir a vida presente e futura nos dois mundos. Comunhões? Diálogos? Talvez Familiaridade? Intimidade? Não! São ordens e avisos, às vezes sutis, outras explicitas, sempre com o intuito de “orientar” ou facilitar a vida dos habitantes de cada um dos mundos. Karen acorda cedo, madrugada ainda. Tem muita coisa a fazer e a agilidade de quem não tem tempo …
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11 janeiro
Sobre ontem
Contrariada, acordei às 6h da manhã. Hoje é dia de Pilates e caminhada. Pensei em esbravejar, dizer o quanto eu odeio esse compromisso com o bem viver, mas melhor não. Faz tempo que aceitei que atividade física é remédio. Não importa se o gosto é ruim, se a drágea é muito grande, engole! Também cansei da cobrança de encontrar um exercício que me desse prazer, já fiz muito esforço para achar um amor, a empreitada é inglória. Então, me troquei e fui. Na volta da caminhada, num calor de furar o saco da paciência, decidi passar na padaria para comprar um picolé Magnum. Adentrei no recinto e me lembrei da dieta que prometi começar hoje. Adio o projeto por mais um dia? Talvez não seja tão complicado, tenho adiado há 50 anos… não, melhor não. Perderia muito da minha admiração por mim. Preciso ter palavra. Me prometi ser mais honesta comigo. Quem sabe um picolé de fruta? Com certeza, é menos calórico que o Magnum. Não, melhor ficar sem nada do que aceitar remendas no desejo. Superado! Hoje tem o meu programa favorito na tevê. É por ele que aguardo e me motivo a seguir em frente. O tempo dança com os ponteiros do …
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10 janeiro
Moça de azul no metrô
A moça estava de azul na plataforma da estação do metrô. Um vestido leve e elegante. Os sapatos bem cuidados, brilhavam até. Uma bolsa completava com elegância o quadro que tinha diante de mim. Próximo a ela, lá estava eu. Não tão próximo a ponto de aspirar seu perfume mas o suficiente para ver seu rosto em detalhes. A discrição séria em mim lutava freneticamente com a curiosidade romântica pelo direito de olhar a moça com intensidade para capturar suas expressões. Mas não era noite de romance, não para mim, e por isso a discrição venceu e me pus a espia-la ocasionalmente. Sua expressão mostrava alguma tensão. O que aconteceria naquela noite? Seria o primeiro encontro? Ou o mais importante? Capturei um suspiro leve. Ansiosa. Com o quê? Ou com quem? Ou com quem e com o quê? A incerteza do encontro, do que estava por acontecer. Mais um suspiro. Seria com um rapaz? Ou com uma moça? Pouco importava, a moça de azul no metrô estava concentrada em imaginar o que estava por vir. Decepção? Confirmação? Ousadia? Dela ou da outra pessoa? Ou seria um balde de água fria e ganharia nada além de um beijinho casto no rosto? …
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10 janeiro
Mirtes, a traça
Fazia tempo que eu vinha notando, mas o prudente era fingir ignorância. Durante a época de aulas, tudo bem, foi possível manter-me indiferente. Mas não agora, que longos ócios me obrigam a horas no gabinete. Agora tenho de enfrentar Mirtes e a sua ronha, sua reima de tisanuro roaz. De noite sinto que me espreita por detrás de uma lombada. Às vezes, sutil, entre linhas ou nalgum subtítulo. Fora isso polvilha infólios e avaria vade-mécuns, Quando não, renitente, rói erra tas. E não gosta do passado, Mirtes. Também não quer o futuro. Com a mesma fome devora alfarrábios e ceifa a science fiction. Despreza tanto o nouveau roman, que nenhum bem lhe fez à garganta, quanto as irrupções de neo-realismo latino-americano, que devora a partir das epígrafes. Com uma espécie de deleite reacionário. Na estante ela prefere o primeiro andar – a família se distribui pelo resto; pois Mirtes é a família, todos com a mesma fome no focinho atávico. Mirtes se posta entre os livros de iniciação. Por algum motivo que não alcanço, detesta propedêutica; já fez em pedacinhos uma Introdução à Filosofia escrita por um grupo de estruturalistas. Também dilacerou, embora com menor sanha, um guia para o …
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9 janeiro
Desaprendizagem!
O filósofo Sócrates nos disse para ter cuidado com o vazio de uma vida ocupada. E para isso recomendou que você não deva se preocupar com os outros, porque o mundo está cheio de outros. Na Internet podemos comprovar facilmente isso, através do gigantesco volume de gente navegando por lá, ao menos é o que dizem ser uma verdade. Porém, até 2026, o tráfego de robôs irá ultrapassar o de humanos, e a luta contra o envenenamento de resultados em mecanismos de busca e a manipulação da IA, será sem limites para alterar dados ou obter informações confidenciais alimentadas nos modelos de linguagem que estão entre as principais cautelas tecnológicas. Não sei se é necessário nos preocuparmos com isso se nossa composição básica é o contato com outro humano e não com outra máquina. Somos fruto de um laço entre pessoas, nossas peculiaridades promovem e dificultam novas vidas, objetivadas pela opressão da introversão. Pense, ou sofra pelos dias que lhe restam ao lado dos que ama, ou daquele que amou por muitos dias, que lhe fizeram o que és, e que talvez não sejas mais nada sem eles. Meus criadores, que tanto se esforçaram para me deixar nesse ponto, me …
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9 janeiro
A casa de Cortázar, tomada
. em homenagem ao conto “Casa Tomada”, de Julio Cortázar (1914-1984), escritor argentino Gostamos da casa porque, além de espaçosa e antiga (mesmo que hoje as casas antigas sejam pouco valorizadas), guarda as recordações de avós e bisavós, pais e toda a nossa infância. As paredes sabem de nós, quem fomos, quem somos. O eco das vozes do passado ainda nos enchem de encantamento. Houve felicidade aqui — ainda há. Minha irmã Irene e eu nos acostumamos a viver sozinhos. Não há mais ninguém da família entre nós, só a lembrança deles. Temos nossa quieta solidão e isso nos basta. Chegamos à meia-idade com leveza e despreocupação. Em nenhum momento pensamos em sair daqui e viver em outro lugar. Isso nunca nos passou pela cabeça, já que nosso corpo e nossa alma não saberiam viver longe destas paredes. Esta casa é um celeiro de lembranças e somos dependentes delas. Também somos agradecidos pelo que elas nos proporcionam. Há recordações que, com o passar do tempo, se diluem na memória e não sabemos distinguir muito bem se foram reais ou se estiveram a ponto de sê-lo ou se foram fruto de nossa imaginação. Há outras, entretanto, que são tão nítidas que …
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8 janeiro
Tudo novo de novo
O início de ano, quando há troca de gestão municipal, não surpreende ninguém. E quando há troca de gestão estadual e federal, não é diferente. São comuns os discursos tarimbados, com argumentos fantasiosos e copiados dos governos anteriores (nunca cumpridos, de fato). São mais comuns ainda as votações de projetos polêmicos em ampla aceitação justamente nos dias em que ninguém está com paciência para a política. Então, ano sim ano não, a gente acaba passando pelo mesmo tipo de raiva. Não indico remédios, embora os conheça (alguns, inclusive, um nocaute), não indico nenhuma atividade além do saco de pancadas e do ódio, por mais infantil que pareça. Eu diria, inclusive, que sentir ódio da política brasileira é como a gripe: todos teremos um dia. Umas fortes, outras fracas, umas retornam depois de um tempo, outras são curadas rapidamente, mas basta um nariz entupido para o incômodo reaparecer e as lembranças poluírem a nossa memória. Com a política é também assim. E, de fato, a mudança de gestão é uma festa. A ala vencedora promete honestidade e transparência. A ala perdedora se cala, tenta um estreitamento de laços e, talvez, uma vaguinha como cargo comissionado, afinal, eles sempre podem precisar de …
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7 janeiro
VALDIR E FONSECA
Valdir e Fonseca trabalhavam na mesma empresa. Estavam na casa dos 50 anos bem vividos, um talvez mais do que o outro. Eram também vizinhos, o que não significava que eram amigos. Todos os dias saíam no memos horário, mas Valdir nem sempre voltava para casa antes do Jornal Nacional. Tinham algumas outras tantas diferenças. Valdir era quase mau humorado. Quase. Alto, magro, parecia estar sempre com fome. Mas preservava a cabeleira intacta, motivo de inveja de Fonseca. Quem o conhecia bem, dizia que era uma dama. Mas tinha cara de poucos amigos, talvez para se defender de puxas saco ou de gente chata mesmo. O que dá no mesmo. Ninguém sabia muito da sua vida particular. Muito não, quase nada. Nem mesmo Fonseca. Fonseca era quase o oposto. Estatura mediana, um pouco mais gordinho, quase careca. Era casado e achava que não precisava se cuidar muito mais do que um banho de manhã e outro antes de dormir e fazer a barba todos os dias. Não entendia como o vizinho estava sempre bonito e arrumado. E solteiro. Mas o que mais intrigava Fonseca era porque Valdir nunca lhe oferecera carona. Saíam religiosamente no mesmo horário, trabalhavam no mesmo local …
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6 janeiro
#05 – A Besta de Gevaudan (*)
. “entre os anos de 1764 e 1767 os habitantes da pequena província francesa de Gevaudan, atualmente parte de Lazere, próximo das montanhas Margueride foram aterrorizados por uma criatura lupina que passou a ser conhecida como La Bête Du Gevaudan ou “A Besta de Gevaudan” eu já fui quase do tamanho de um touro ou de um urso, meu braço e dedos direitos, em função de sequelas, pareciam garras afiadas e o conjunto todo era de uma aparência medonha. a primeira mulher atacada conseguiu escapar e chegar até ao seu vilarejo, de onde passou a adotar um comportamento estranho e agressivo. Após esse episódio, seguiu-se um tempo de calmaria, mas próximo ao natal o cântaro de água derramou e mais uma pessoa desapareceu e localizaram os seus restos terrivelmente mutilados em uma ravina. Suspeitaram então que um nobre renegado estava por detrás daquelas mortes, transformando-se em um lobo demoníaco em noites de lua cheia. as pessoas do vilarejo foram ficando incomodadas com essa presença lupina comendo a sua comida, remexendo os campos e invadindo as suas propriedades. Montaram então uma expedição de militares com um arsenal de 50 mosquetes, lanças com mais de dois metros de comprimento, armas que disparavam …
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5 janeiro
Elástico infinito – a natureza e a sua sabedoria
Um alce, no alto de uma floresta densa, olha para cima, por um momento fugaz. No mesmo instante, ouve-se o murmurar do léxico perceptível – numa onda para nós, humanos, intangível -: e o alce o distingue pelo encontrar das superfícies de uma folha na outra, obrigadas a ter tal conexão corporal por um simples capricho do vento, senhor de todos os movimentos. Lentamente, do alto da mesma floresta densa, formigas passam destemidas por detrás das patas dianteiras do alce. Carregam as mesmas folhas que balançam lá no alto, há átimos escassos, e pousam, vencidas, em solo fértil. Tomam um movimento menos intenso, porém direcionado, ao transformarem-se, de copa, em cobiçadas mercadoria de transporte. Lesmas alimentam-se das mesmas folhas, logo adiante. O alce pisca. O vento continua o sopro travesso de sua fúria adocicada. O sol brilha e, através de feixes de luz, pousa no rosto do quadrúpede, no alto daquela floresta. Por entre as frestas de folhas que acobertam toda a vida nas sombras, a luz irradia o parar e o perceber. No topo da floresta ainda intocada pela indecência humana, o tempo não é contado pelo movimento automático dos ponteiros. Tampouco pela trajetória do sol ao redor da …
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5 janeiro
Arrimo de família
Noite fria, sombria, quieta.Ele, calado, encolhido, matutando.Eu, na espreita, alerta, sentinela.Nós, famintos, sedentos, enjeitados.Olhos remelentos, húmidos, arregalados.Corpos esquálidos, caquéticos, patéticos.Dentes que bambeiam, rareiam, vadios.Garrafa vazia, gamela vazada.Burburinho no beco, grupinho do boteco.Garotada excitada, bebida exagerada.Sanduba na mão, churrasco no pão.Passo apressado, casaco amarrado.Rota traçada, calçada apertada.Molecada bloqueada, assustadaCarroça encostada, coberta rasgada.Ele apagado, encolhido, deitado.Eu agitado, pescoço esticado.Abano o rabo, procuro um afago.Vira-lata esfaimado, tá necessitado.Não tem culpa, merece um sanduba.Comida de gente, pro cão indigente.Acordo o parceiro, meeiro, hospedeiro.Cão de mendigo, pão repartido.Aninho, carinho, comunhão.Vida de rua, verdade nua e crua.Entre um cão mendigo e um mendigo no chão.O que abana o rabo é que garante o pão.
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5 janeiro
A primeira crônica do ano
Esta é a primeira crônica do ano. Um ano novinho cheio de sonhos e projetos para o futuro! Esta é uma crônica de início. Uma crônica que cheira o novo, como presente recém-aberto, esperando ser tocado, usado, experimentado pela primeira vez… O que imaginamos de um ano que se inicia? Que sejamos felizes e tenhamos paz? Que conquistemos tudo aquilo que desejamos? Que nossos esforços sejam recompensados? Na virada do ano, quando os fogos de artifício colorem o céu das cidades, olhamos para cima, extasiados com a profusão de cores e luzes. Nesse momento, fechamos os nossos olhos e desejamos um ano incrível, diferente do anterior (sempre o ano que virá tem a promessa de ser melhor do que o que passou). A verdade é que desejamos um ano inteiro todo novo e melhor, mas não mudamos por dentro. Desejamos o novo, mas não somos o novo! Esta é a primeira crônica do ano e, por isso mesmo, cumpre seu papel de registrar o que fazemos nesse período: desejar coisas boas e querer o melhor! Entretanto, esta mesma crônica fica como uma reflexão: cuidemos de nós por dentro para que tenhamos um ano melhor. Sejamos melhores e o ano, de …
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4 janeiro
Boa pergunta
As galinhas (raízes, autênticas) botavam o ovo e cacarejavam. Umas mais que as outras. Saíam pelo quintal em alto e bom som espalhando o feito. Passavam em meio às colegas solteiras, aos galos jovens e imponentes e ao preferido — aquele com quem, há poucos dias, haviam ciscado lado a lado, enquanto ele a cortejava disfarçadamente. Quanto à galinha choca e seus pintinhos, ela era evitada ou ignorada. Enfim. Cacarejava e desfilava, indo de um lado a outro. Comunicar era o objetivo. Essas eram as que tinham casa, comida, vida mansa. Alguém sabe porquê? Eu não! E lembro-me também das galinhas que escondiam-se em pequenas moitas de plantas, matos, folhas secas de canaviais ou qualquer canto que pudesse servir de esconderijo, para fazer os ninhos e botar seus ovos. Ahhh! E a alegria do menino ou menina ao achar esse ninho e correr para contar a todos? Por uns momentos eles se tornavam importantes, iam à frente mostrar o achado, aí o pai, a mãe ou o adulto se abaixava e “solenemente” analisava os ovos. Que poderiam ser comidos ou deixados para chocar e dali a alguns dias aumentar o numero de galináceos em nosso quintal. A poedeira oculta, que …
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4 janeiro
Ensinamento de vó
Eu não tenho dúvida de que o pensamento positivo é um recurso indispensável ao bem viver. Não sei se ele remove montanhas como faz a fé, mas, certamente, alivia a dor das topadas que damos na montanha. Pelo menos, foi assim que aconteceu comigo: passei o dia 31 fazendo minhas orações, mandingas e simpatias para a virada. Vibrei positivo, recarreguei a mente de energia limpa, joguei para o universo meus maiores anseios e desejos, certa de ser escutada e atendida. Abri os braços para 2025 e declamei em voz alta estar pronta para receber tudo de bom que os astros pudessem me oferecer. Usei roupa clara, alfazema, arruda e rosa branca. 1 de janeiro chegou suave, dengoso e cheio de promessas de uma parceria feliz. Mal me entreguei à certeza dessa relação fervorosa e já me desapontei. Bastou uma volta de carro apreciando esse primeiro céu azul do novo ano para a relação desandar: passei num buraco e recebi de presente um orçamento de mil reais da oficina mecânica. A lição foi clara: cuidado com a paixão que muito promete. Quem disse que alguma coisa muda por conta de uma simples troca numérica? Não importa, continuo defendendo a magia transformadora …
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3 janeiro
Pede que Iemanjá atende
Ela saiu de São Paulo decidida a dar um rumo na própria vida. Não era definitivo, só viagem de fim de ano. Mas precisava arrumar a casa. Fazia tempo que sua vida estava uma bagunça. Nem tudo, para ser honesto. O trabalho até que estava ficando no jeito certo mas tinha o divórcio que estava um nó só. O ex não se posicionava, não fazia nada nem saía de cima. Um atraso! Uma amiga disse: “olha, busca no candomblé que você tem resposta para suas aflições. Foi no terreio raiz, terra batida, coisa boa”. Lá o Pai de Santo orientou: “pede que Iemanjá atende”. A mãe quando soube disse para aproveitar o final do ano e irem para Praia Grande. Lá tem uma festa bonita e muita gente leva oferenda para Iemanjá. E a gente aproveita e confere se a reforma que eu fiz lá no apartamento ficou boa. Mas ela, em face da vida travada que estava vivendo, decidiu que tinha que ir ao encontro da raiz de Iemanjá. Era preciso radicalizar no pedido. Não, nada de África que é longe. O mais perto que a gente tem aqui no Brasil é a Bahia. Arrumou as malas, os filhos, …
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2 janeiro
Acerto de contas!
Bem aventurados os corajosos de plantão que seguem incontidos na emoção de uma nova experiência lúdica ou fugaz, para suas vidas, lhes restando apenas enfileirar uma delas, na vez, oportunizada pela insistência. Não devemos desistir de carregar a dor da reconstrução, ela é apenas a forma que se apresentou para dizer que a conta da vida ainda está aberta, em compasso de espera de suas novas decisões, mesmo que parcas e tímidas, porém, destemidas e insistentes, plantadas nesse fulgor de esperança, às margens do rio que ainda corre em nossas veias abertas. Não deixemos o passado nos afortunar com acomodação e brevidade nos passos. Esse rumo desajeitado e torto espera uma atitude para consertá-lo e trazer sentido à isso tudo que passa, porque tudo passa, e nós que ficamos agora, somos os operários desse caminho que vai iluminar a muitos, depois que aprontarmos tudo para utilizarem. Não esqueçam que a vida não nos deve absolutamente nada, mas sim espera a sua escolha, seja ela a próxima tentativa ou a primeira, de tantas, ou que talvez lhe pareça a última na lousa, que aguarda sua assinatura como titular dessa obra. Façamos um acerto de contas com a vida, um sub total, …
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