Autores
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set- 2025 -10 setembro
Desumanização
Acompanho a minha esposa na fisioterapia. Como vocês sabem, ela fraturou o braço há um mês e está entrando numa fase longa de recuperação. Estou cagado de cansado, de um dia todo de trabalho; peguei um trânsito maldito e estou agora, 18h30min, num tal Ginásio 2 – Pós-operatório, no prédio do plano de saúde. Foi uma correria até chegar aqui. Antes, pegamos uma fila razoável para a marcação inicial. Ela foi chamada minutos depois – não demorou muito. F
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9 setembro
O Edgar tem cada uma
Para Luis Fernando Verissimo, com saudade* O Edgar está longe de ser bonito, mas anda empenhado em virar um grande sedutor. Acha que é só questão de lábia, de saber xavecar do jeito certo: o papo, o feeling, o timing. Nos sebos, vai direto à estante dos livros de autoajuda, escritos por coachs que ensinam o menino cheio de espinhas a chamar a menina mais bonita da escola para o cinema. Ao comprar um desses livros, Edgar tem uma exigência: não aceita consel
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9 setembro
A Velha e o Mosquitão
Dona Maria costumava se gabar por ser a maior espectadora de televisão do planeta. Havia alguém responsável por lhe conceder esse nobre título? Sim, no caso, ela mesma. Moradora de uma vila de pescadores, tinha uma vida bastante simples. Acordava de manhã, sentava-se em sua poltrona e ligava sua televisão. De lá só saia quando alguém batia em seu portão querendo comprar os sacolés que vendia para as pessoas daquela região. Toda essa calmaria ficou abalada
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8 setembro
FERIADO
Estou sentado, sozinho, na mesa de um bar, numa dessas noites perdidas. Lá fora a chuva impede-me de sair e eu fico observando este meu impedimento que na verdade é fuga a uma determinação que não tenho tido. Olho para a chuva e vejo a sua cortina de indiferença. A chuva escorre e a água correndo parece trazer-me uma espécie de nostalgia semelhante à náusea. A chuva forma com suas goteiras algo parecido com uma delimitação de espaços, de vivências, de ansi
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7 setembro
Poema: #12: Exercício Pessoano
A chuva veio tomaros meus pensamentose me puxou pelo braço… assim inteiroe já não me sou…deixei de ser…somos e não somos.Várias vozes… absorção.Um senão! E fica a impressãode que a vida se abandonana brevidade acelerada das coisas…e não somos! Fingimos ser…Inventamos, copiamos, fazemos um rascunho…E nos deparamos com o sentido inoportunode não querer entendere somos! Vencido o humano,bandeiras ao vento, mastros,cor
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7 setembro
Oscilações
Um corpo que envelhece, expressões sem fôlego. Vera move-se em vaievéns curtos, sem, contudo, se entregar à queda. No espelho, vendo o que não queria – ou tentando não o fazer; momentos antes, a caixa… dezenas de momentos em papel fotográfico, seu os tantos sorrisos congelados em uma linha torta e encantadora de tempo. Via-se em cada instante eterno, ainda feita de sonhos. Como se o vento do mar Tirreno jamais tivesse parado de soprar em seus cabelos
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7 setembro
O diário secreto de Miss Marple
O ritual da noite era sempre o mesmo: minha irmã fechava as portas do armário, apagava a luz e decretava silêncio. Só então eu podia, sorrateiramente, pegar o meu livro, lápis, um caderninho e me esgueirar para o meu refúgio de leitura noturna – o banheiro– nada confortável, convenhamos, mas privativo, o que considerava um privilégio. O livro escolhido era adequado a essa leitura furtiva – algum título da coleção de Agatha Christie que minha mãe guardava n
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6 setembro
Não se faz omelete sem quebrar os ovos
Para muitas pessoas, a aproximação do aniversário inaugura o inferno astral, tempo no qual tudo que poderia dar errado, dará. Não sei se acredito nisso, mas fato é que, semanas antes do glorioso dia, tem início, dentro de mim, um misto de desassossego e agonia para decidir: como, onde e quando vou comemorar? Quem vou convidar? Penso na roupa que vou vestir, na playlist que vai tocar. Faço, mentalmente, a lista de convidados, mas antes mesmo de resolve
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6 setembro
Ou nada, ou tudo
Costumo rezar sozinha. Não por falta de fé coletiva, mas por necessidade de compreender o sentido da prece: se é pedido, agradecimento ou louvor. Nas igrejas e templos , percebo a oração como um ato comunitário. Já em casa, no silêncio, ela se transforma em diálogo íntimo, sem medo nem pressa. Essa percepção nasceu dos meus intervalos de “nada a fazer”. Paradoxalmente, nesses vazios sempre encontrei invenção e força. A vida me exigiu muito cedo: de menina
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6 setembro
Rua do Bispo
Quando criança, costumava jogar futebol a 50m de casa, em um terreno baldio, no bairro do Paraíso. Ficava numa rua simpática e pouco movimentada que começava onde os bondes faziam um balão no início da Av. Paulista e terminava 5 quadras depois, próximo a um campo de futebol de várzea. Chamava-se Rua do Bispo. Não sei de onde surgiu esse pitoresco nome nem me importava saber, voltado que estava para questões mais importantes, como brincar e ser feliz. Moleq
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4 setembro
Pessoa
E porque viver não é necessário — necessário é criar —, ele dizia para si mesmo nas horas longas em que, de sua janela, à noite, olhava o mar: Ah, Pessoa, tu tens uma espécie de dever de sonhar sempre, pois, não sendo mais, nem querendo ser mais que um espectador de ti mesmo, tens que assistir ao melhor espetáculo que puderes. Acaso não tens em ti todos os sonhos do mundo? Então sonha, homem, sonha… Quando se sentia só, nas noites em que apenas os pa
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4 setembro
Laranjas azedas com sal
É pegar uma laranja azeda, cortar exatamente ao meio, e ir colocando sal, aos poucos, em micro-pitadas, à medida em que se vai chupando. Umas três pequenas adições de sal dão conta. O que se sente? Bem. Um pouco do azedume da laranja, um pouco do salgado, obviamente, e, surpreendentemente, um leve sabor adocicado que não deveria estar ali — pois a laranja não é do tipo doce — mas está. Ele transava, desde sempre, experimentações gastronômicas. Contudo, a l
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3 setembro
Doce Maria
Nada vem por acaso. Acredito no destino, fé e sorte. O que tem de ser será. Marcelo saiu com a mãe para passear. Foram ao restaurante do avô, para visitá-lo e brincar com os primos e amiguinhos que moram nas redondezas, no bairro Antônio Bezerra. Lá, entre brincadeiras, meu filho viu uma gatinha abandonada, que ronronava com ardor, pedindo carinho. Marcelo pegou a pequena e não queria mais soltar. Levou-a à mãe, para mostrar a novidade. A mãe de cara se ap
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2 setembro
O que a última Virada Cultural diz sobre nós
Fui ver uns shows na Virada Cultural de BH, onde moro, no sábado e no domingo, dias 23 e 24. No sábado, assisti ao show das meninas do Fat Family, homenageando Tim Maia. No domingo, voltei para ver o Olodum e, logo em seguida, Carlinhos Brown, numa apresentação afinadíssima com a Orquestra de Ouro Preto. Os shows foram uma delícia: todos fazendo a gente sacudir o esqueleto, tirar o pé do chão, dançar. Desta vez, não quis virar a noite. Fui para casa dormir
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1 setembro
Poema #08: Contrato
A palavra dada tem valorinsuscetível de medir.Pode-se apenas estimar o pesona palma da mão estendida. O corpo intui o preçoque o verbo não soube exprimir.Em troca, a renúncia ao trocoabrevia o lapso do som ao silêncio. No mercado das promessas,a confiança é soberana.Mas às vezes, submissa,flerta com o charme do blefe.
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ago- 2025 -31 agosto
Pi-ta-da
Pitada – palavrinha gostosa de pronunciar e quase sempre de provar. No gosto, desgosto, e até no desacerto. Tudo começou, pelo que sei, com a pitada de rapé (râper, do francês), tabaco em pó usado para cheirar e, segundo uma citação encontrada na obra clássica de João Manuel de Macedo — A Moreninha, avivar o cérebro. Do rapé para o uso na culinária foi uma pitada. Seu uso mais comum passou a ser uma medida do sal, recomendada nas receitas, para o desespero
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31 agosto
Malta
Malta é um arquipélago no Mediterrâneo habitado desde cerca de 5200 AC e que foi invadido pelos mais variados povos. Os últimos a passarem por lá foram os britânicos cuja influência vai desde a língua inglesa, que divide espaço com o maltês, até a mão de trânsito pela esquerda. Tornou-se um país independente em 1964 e agora faz parte da União Europeia. As principais ilhas são Malta e Gozo, a primeira muito mais turística do que a segunda, mas ambas com sít
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31 agosto
O crítico perfeito
Não havia estática no ambiente coabitado por seis espaços, sexta-feira inaugural de um coquetel em meio a formas geométricas suspensas; horas que se observavam tentando segurar a respiração e manter o mesmo compasso entre os minutos. Perder-se não é uma brecha no tempo, pelo contrário. São chaves que não abrem porta alguma, mas pendulam na possibilidade. Está introduzido o conceito curatorial de luz, memória e tempo. São todos os fusos horários em um coro
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31 agosto
Uma crônica para o Luis
Eu não sei exatamente com quantos anos li pela primeira vez um texto de Luis Fernando Veríssimo. O que sei é que era ainda bem jovem. Um estudante de muitos e muitos anos atrás… Sei também que quando li, não parava de rir e de achar que o texto era simplesmente incrível! Leve, divertido e com uma linguagem muito acessível. Pra variar, o texto em questão, era uma crônica! E, desde então, estava com algum texto do Veríssimo pronto pra ler. Construí meu
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30 agosto
Estou pobre de heroínas…
Neste site, onde publicamos crônicas, poemas, contos e reflexões, existe uma aba chamada Autores. Lá está a nossa descrição: quem somos, o que nos qualifica como escritores, nossa formação. Enfim, um retrato resumido de cada um. Tenho filhos, netos, família e amigos. Estudo. Publiquei livros de contos e crônicas, além da minha autobiografia. Tenho três graduações, fiz pós-graduação e posso afirmar: estudar foi e, ainda é parte importante de quem sou. No en
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30 agosto
A eternidade possível
Morreu o meu primeiro beijo. Junto com ele foi enterrada uma fração da minha eternidade. Memórias dos medos compartilhados, dos sonhos impregnados na pele, do riso frouxo de nossa meninice. Foram sepultadas as emoções que eu causei, as palavras e gestos que de mim fugiram para morar em sua recordação. Diante da notícia crua, áspera, concretada na impossibilidade de um adeus, surge como um rito acessível, a crônica, corpo real da palavra sobrevivente do f
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29 agosto
Duas dedicatórias, duas supostas histórias
Toda obra literária contém mais do que aquilo que o autor quis entregar nas linhas por ele redigidas. Mas os livros enquanto objetos (embora de caráter quase metafísico) também nos contam mais do que o que há impresso nas suas páginas. O processo de editoração, a capa, os paratextos, tudo isso diz algo. E há a própria história do exemplar que temos, assim como as que ocorreram em torno dele, ambas deixando os seus vestígios. Nesse aspecto, os antigos são i
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29 agosto
Conversas aos pedaços
Nada mais moderno e urbano do que escutar parte de uma conversa. Na rua, no elevador, em uma loja, no metrô, no cinema, enfim em qualquer lugar onde seres humanos circulem falando. Você passa e capta um pedaço da frase. Algo como “leva o cachorro para passear antes” e não conseguia escutar mais nada. Tinha que imaginar o restante do que seria dito. Na maior parte dos casos não valia à pena o exercício mental porque era sempre algum papo trivial demais. Ao
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28 agosto
Na casa do pasto
Perto do pasto só há uma casa. Em pé na soleira, um homem e uma mulher discutem. Em questão de horas sairá dela outro filho, a parteira já deve estar chegando. As outras crianças, cinco ou seis, já crescidas, brincam na terra com o cachorro. Da barriga da mulher escorregou uma menina. Pequena, chorona, magricela, sem muita roupa para vestir, ainda bem que estava fazendo calor. A comida que há na casa do pasto não é suficiente para a fome de todos. A mãe pr
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28 agosto
Febre de sentir!
Algumas pessoas têm habilidade em se doar, sentir que em sua condição humana há mais espaço para atender aos interesses dos outros ao invés de suas próprias dores cotidianas. São indivíduos que emocionam em manter uma relação mais frequente com o outro trocando ideias, pensamentos, conversas, sem pedras nos bolsos, que são raras e caras para muitos. Já, as pessoas pesadas, pessimistas e invejosas, tornam as relações diárias um prato azedo e temperado com s
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27 agosto
Uma grande amizade
Estava prestes a entrar na casa do Ricardo. O calafrio bateu, com a força do vento gélido, de um dia de chuva, que dava do décimo primeiro andar, de um prédio no nascente. Fiquei minutos paralisado, sem saber como proceder, o que dizer, para o meu tão grande amigo. Nós nos conhecemos no colégio, quando tínhamos cinco para seis anos. Estudávamos na mesma sala, fomos alfabetizados e seguimos para o primeiro, segundo e terceiro anos do ensino fundamental, à é
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26 agosto
BORNOUT
Nasci um nada. Fui criado para ser um nada. Desde pequeno, nunca soube que o dinheiro pode ser usado para o lazer. Aliás, qual o significado disso? Meus pais só trabalhavam e tudo era minimamente economizado para podermos pagar as parcelas de nossa casa em um condomínio classe média e do carro do ano, a grande paixão do meu genitor. Objetos nos quais ele empregava seu tempo livre e sua matéria. Enfim, fui criado para ser insignificante e decidi vencer esse
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26 agosto
Que graça tem um livro?
A graça de um livro? Ele te dá prazer. Se você não está lendo por obrigação, está envolvido na viagem mais deliciosa que poderia fazer — não apenas por países, sem precisar de passaporte, mas também por épocas. Um livro faz voltar no tempo. E a razão é única: prazer. Você escolhe uma história, se delicia lendo sinopses, acolhe a dica de um amigo e vai. Um livro não precisa te dar lições de vida, nem te deixar rico, nem transformar a sua existência. Eu era
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25 agosto
Poema #36: Nu
O teu corpo,pássaro esculpidono assento dosofá da salade visitas,é uma ampla salaonde te visito(abolida a noçãode sonhosob o teu vestido),sempre que o desejodo corpo desenhaa moldura de umpássaroem teu assentoInventário de Sombras
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25 agosto
Poema #07: Ressaca
onda mortiça,que oculta em seu manto de espuma?pérola ou lixo?fragmento de concha ou ponta de vidro?cobertor de areiaespelho de estrelapoça onde a sereia afônica afunda os pés sem dedos O corpo inteiro afogado no poço sem fundo.A memória em desordem de molho no sal.O olhar que vacila (à procura de terra firme?)vê diluir-se um segredo na força da água. no avançono refluxoo vaivém ritmadopinta no chãouma sombra onduladaque apaga São suas ondas, maré postiça,
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