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dez- 2025 -29 dezembro
A fome do rico
O garotinho olhava do lado de fora do restaurante os pratos fartos serem ignorados pelos frequentadores, que falavam ao celular e aparentemente não tinham fome de verdade. Então enfiava o dedo no nariz e fazia qualquer ruído para ser notado. Em estatísticas dele mesmo, o sucesso parcial da operação era de cinquenta por cento. As pessoas largavam de vez o prato e iam embora. O sucesso completo da operação exigia que o garçom concordasse em embrulhar o que s
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28 dezembro
Ema, ema, ema cada um com seus problemas
Emília entra no elevador enorme da repartição pública, desses feitos para transportar pelo menos vinte pessoas, mas que, naquele horário, estava quase vazio. Quase. No fundo, uma pessoinha encolhida chorava baixinho. Emília desvia o olhar. Final de um dia estressante — só me faltava agora ter que consolar alguém que nem conheço. Vira-se de frente para a porta, torce a boca e entoa seu meme preferido: ema, ema, ema, cada um com seus problemas. Milena se jog
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27 dezembro
Contabilidade emocional
Todo fim de ano aproveito para fazer minha contabilidade anual. O balancete tem como objetivo listar os saldos das minhas contas emocionais (ativo, passivo, receita, despesa). Esse fechamento contábil possibilita uma leitura mais detalhada dos investimentos afetivos realizados. É, também, nessa hora, que projetos importantes, esquecidos na gaveta do tempo, vêm cobrar seu lugar. Quando isso acontece, não resta outra alternativa, senão realinhar o cap
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27 dezembro
Sandálias divisionistas
As notícias estão ficando cada vez mais surreais. A última é que estão acusando as outrora inocentes sandálias havaianas de estar a serviço do comunismo internacional. Nem me dei ao trabalho de entender a origem dessa estapafúrdia ideia, fruto de um ambiente social doentio. Esclareço que embora não seja usuário dessas sandálias, reconheço nelas a virtude da perfeita adaptabilidade às necessidades das extremidades dos membros inferiores da perna, também cha
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26 dezembro
O menininho e a menininha
O menininho e a menininha estavam sentados na beirada da calçada. Ela olhou bem nos olhos dele, examinou-o desde o cabelo até os pés, disse: – Você é parecido comigo. – Você não é preta – ele disse. – Você é clarinho, é quase branco – ela disse. – A sua roupa é mais nova do que a minha. É bonita – ele disse. Ela sorriu, depois perguntou o nome dele, do pai dele, onde morava, essas coisas. De repente ficou tristinha, disse: – O seu pai matou o meu pai. O me
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25 dezembro
Seu próprio molde!
A lagosta se esconde embaixo das pedras quando sua concha está apertada. Essa condição a provoca providenciar uma nova proteção, porque seu corpo cresceu. Nossas vidas apresentam situações de muito estresse e desconforto, e rapidamente buscamos um remédio ou conforto. Mas, na verdade, esse momento tenso é uma transição para o crescimento pessoal, após uma análise e profundo entendimento do que se passa em nossas mentes, porque naquele instante não po
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25 dezembro
Um conto de Natal
Não faltam tipos iguais a ele no mundo: cabelo longo e embranquecido como o de um hippie fora de época, o rosto com uma sombra de tristeza, o olhar atônito. Não tem família. Faltam-lhe dentes. Roupas também não tem muitas, só as que veste e uma blusa de lã para o inverno, que, nos dias quentes, fica amarrada à cintura. Perambula, desocupado. Pede algo para comer a quem passa ao lado dele na rua e na porta dos restaurantes. Às vezes dão, às vezes não dão, e
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24 dezembro
Eternidade
Quanta solidão. A todo tempo me vejo irremediavelmente só. O meu quarto é o meu abrigo, de onde vejo o céu escasso, tetos e paredes rachadas. Ainda me pergunto, qual foi o grande mal que fiz? Não sei. Mariazinha, minha irmã, muito preocupada, se derretia em atendimentos a mim, seu único irmão, doente. Vinha pelo menos umas três vezes na semana para me visitar. Ficou doente, de uma hora para outra, e eu que ia lhe visitar aos sábados ou domingos, pois na se
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23 dezembro
Feliz Natal
Sempre achei que, embora viver com gente dê trabalho, viver sozinho simplesmente não funciona. Somos seres de comunicação. Precisamos de gente por perto — pais, mães, amigos, irmãos, colegas de trabalho, professores, clientes, fregueses, marido, mulher, namorado, crush — Todos nós. Precisamos. De gente. Mesmo quando temos dinheiro, mesmo quando achamos que já resolvemos tudo. Viver sozinho? Não dá. Talvez por isso a vida nos obrigue a nos renovar o tempo t
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22 dezembro
Poema #49: Identificação
Identifico-me com a noitee com o que ela trazde específico a si mesma,e assim fazendo, aceitoo convívio de seres opacose da nova ordem e estado de coisasque o escuro inaugura.Identifico-me com o avessosou aliás o próprio avesso de mim,e assim sendo, conheçoas esquinas sombriasnas quais se disfarçaa inexorável nulidade.Volto de manhã para casa,e num balanço isento da noitenenhum acréscimo se me acrescentoude forma permanente.Voltei eu mesmo sozinho e íntegr
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22 dezembro
Errância
Os parceiros musicais Mila Cox e Zími haviam conversado sobre adotarem ou não temas mais políticos em suas músicas. Para ela, as músicas tinham abordagem política, mesmo com letras minimalistas e sem serem panfletárias, mas sempre enfatizando, entre outras coisas, uma posição antifascista. Ela falou: “Não precisamos ser chatos como o Bono”. Mas para Zími, era preciso amplificar essa abordagem, pois estavam passando por um período perigoso e ame
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21 dezembro
Onde mora o seu olhar
Nunca havia pensado na morada dos olhos, e sua relação com a inspiração necessária para um bom escritor, até que me caiu no colo o texto magnífico de Rubem Alves – A arte de ver. Me encantou esse termo, morada dos olhos, pois ele dá uma outra dimensão à diferença entre o ver e o olhar, que está relacionada à morada onde guardamos aquilo que nossos olhos captam. Se captamos as imagens somente com a visão, elas são armazenadas em uma caixa de retratos. Colec
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21 dezembro
A última crônica do ano – amanhã há de ser outro dia
E terminamos mais um ano. Mais um ano que corre e corremos juntos para não perder a viagem! Empacotamos novos e velhos sonhos para o ano que virá… O mês de dezembro é assim: o último mês do ano é tão apressado, mas tão apressado que parece querer o novo calendário! E correm as pessoas com as festas de Natal e as festas da virada. Roupas, nomes, mensagens, sorrisos, promessas, presentes, viagens… E terminamos mais um ano. As velhas e repetidas canções de na
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21 dezembro
Entre
A arte salva momentos.A frase foi construída por Matilde Campilho, num vídeo brevíssimo — desses que carregam a tônica do fulgaz que uma gravação de Instagram faz reverberar por nossas pupilas. Prendeu-me num eco posterior ao instante do encontro com a postagem, enquanto eu dedilhava a tela com a ansiedade tão comum — e tão normalizada — no comportamento contemporâneo. A arte salva.E, às vezes, sem que sequer nos demos conta de que precisávamos ser salvos.
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20 dezembro
Reflexões em tempos de espanto
Nas últimas semanas, tenho pensado a respeito de uma dúvida que sempre me ocorreu: as palavras têm, por si só, o poder de iludir ou é a paixão quem confere a elas esse dote? Quem não conhece a facilidade do sujeito apaixonado para confundir alô com amor? Não adianta defender que dessa leseira não sofreremos. Basta uma breve reflexão sobre antigas decepções amorosas e logo se apresenta a pergunta: Como não percebemos isso? Estava na cara que não valia nada…
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19 dezembro
Morrer de amor
Uma noite dessas tive a boa ideia de assistir a apresentação de um coral onde uma amiga querida canta. O programa foi todo dedicado à Rita Lee e, de repente, durante a apresentação algo me tocou e foi a letra de “Saúde”. A parte que acendeu uma lâmpada, ou chama se preferir, é a seguinte: Se por acaso morrer do coração/É sinal que amei demais. Confesso que sorri. Por que sorriu? Lembrou dos amores passados? Sabe que não. Eu sorri porque ali naquele teatro
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19 dezembro
Maria Quitéria
Boca aberta, torta para um lado, os olhos para o outro, parados na morte. “Não faça isso comigo. Volte, Paizinho.” Olha para a esquerda, vesgo na eternidade. “Paizinho, eu prometo ser boazinha. Eu faço tudo.” A ponta da língua no canto da boca, quer sair. O safado. “Eu prometo, Paizinho. Nem na igreja, nunca mais.” – Na igreja, eu sei. Dava para o padre. – Olha, parece que vai rir. Morto mais sacana. – Perseguia a filha em tudo quanto era canto. – É. No ba
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18 dezembro
Pelos olhos de um cavalo
Subi até o Morro do Gavião e de lá olhei a cidade. Não era uma cidade grande, mas era bela, e mais bela ainda vista de cima em toda a sua extensão. Abraçar uma cidade inteira com o olhar não é simples, exige senso de contemplação e silêncio. Vi o rio marrom que a corta pelo meio, observei o lado norte, a parte sul, as casas iguais, esquadrinhei seus telhados. Era mesmo bela aquela cidade. A poucos passos de mim estava um cavalo olhando quieto a paisagem es
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18 dezembro
Nossa frágil condição humana!
Histórias e piadas contadas por nossa família e amigos, invariavelmente nos fazem rir, mas se forem das boas. Observando no detalhe, elas contam histórias sobre o mal, ou de uma desgraça alheia. A bondade não tem graça nenhuma, somente se ao final a história virar um desastre. O filósofo francês Henri Bergson disse que o cômico exigia algo como uma momentânea anestesia do coração. “O riso não tem maior inimigo que o coração”, por is
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17 dezembro
Peregrinação
Nikita mandou o recado por Leozinho. Disse que queria me ver morto. Leozinho pediu para eu tomar cuidado, porque o velho Nikita é brabo e vive ameaçando o povo. Mas não sei o porquê dessa desavença toda. Nikita mal me conhece, exceto pelas andanças no bairro. E olhe que mal ando no bairro, a não ser para ir ao trabalho e comprar alguma coisa na bodega do senhor Assis. Evito passear com os meus filhos, porque a pracinha, à tarde ou à noite, é ambiente escur
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16 dezembro
Está tão difícil ser eu
Uma das coisas mais surreais que me ocorreram foi, sem dúvida, ser confundido com outra pessoa. Gente mais nova não sabe bem o que é isso, mas, na época do telefone fixo, quando sequer existia WhatsApp, quando redes sociais eram ficção científica, a pessoa te ligava insistindo que você não era você. — Você sabe quem está falando?— Não faço a menor ideia.— Ah, sabe sim.— Sei não. A voz era de mulher, eu não fazia a menor ideia de quem fosse, mas ela não se
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15 dezembro
Sacripantas
Zími acompanhou Silvano num sábado pela manhã, para que fizessem um serviço de carreto na Vila Mariana. Às oito horas saíram da garagem do prédio onde moravam, no centro de São Paulo. Era um trabalho rápido, e já estariam livres na hora do almoço. Zími, com uma camiseta dos Circles Jerks feita em casa, receberia um pagamento modesto, talvez simbólico, mas seria suficiente para as suas necessidades imediatas, até que recebesse mais algum dinheiro trabalhand
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14 dezembro
Nota de abertura
(nota de abertura – curta, decisiva) Esta crônica acontece no intervalo.Quinze minutos entre um ato e outro.DIIIM. As cortinas estão abertas, mas ninguém está olhando para o palco. DIIIIIIM. Ando por esse tempo suspenso como quem flana: não chego, não parto — observo. DIIIIIIIIIIIIM. (Silêncio) Sura Berditchevsky parou por diversas vezes um ensaio do musical mais emblemático da minha carreira de atriz, sobre os anos 60 (60, O MUSICAL, texto da amada Bibian
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14 dezembro
Só a bailarina que não tem
Um dia desses, lendo uma crônica do Vinicius de Moraes — O estranho ofício de escrever — senti um alívio maior do que aquele que experimentava, na infância em colégio de freiras, ao sair do confessionário. Minha consciência, até então abalada pelos pecados veniais e mortais que vinha cometendo na escrita, se encheu de uma morna complacência. Afinal, se até Vinicius escorregava, por que não eu? Escrever, para mim, envolve uma dor de parto aguda e profunda.
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14 dezembro
Uma crônica quase poesia
Uma crônica leve bem leve. Uma crônica como se fosse um beijo. Isso. Como se fosse um beijo. Uma crônica limpa. Sem manchas de maldade ou de egoísmo. Ambição de conto? Nem pensar! Uma crônica suave e mansa. Dessas que o vento leva de tão leve e descontraída. Uma crônica bem medida de sol e mar e sal. Uma crônica desenhada e bem cuidada. Música ao fundo. Olhos de ressaca. Ressaca de mar que é pro Bruxo do Cosme Velho não ficar zangado. Uma crônica tão curti
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13 dezembro
Por que as pessoas gritam?
Tenho pavor, trauma e medo de quem grita. O grito, para mim, é quase sempre a antecâmara da violência, do caos anunciado. “A violência seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota“, já disse o filósofo A opressão, a intimidação e o medo, via de regra, começam pela voz antes de chegarem ao gesto, ao domínio ou à implantação de qualquer mecanismo de dominação. Mas não falo aqui de política, de poderes instituídos ou de disp
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13 dezembro
A ordem é amar?
O parlamento da Dinamarca aprovou, recentemente, uma lei que proíbe o acesso de menores de quinze anos às redes sociais. Com essa atitude, o governo determina que a relação dos seus cidadãos com as plataformas digitais transcende o escopo da educação familiar e se torna um problema de saúde pública. A Austrália também adotou medidas semelhantes. Contudo, por lá, a idade mínima para acesso será dezesseis anos. Outros países da Europa estudam seguir nessa me
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12 dezembro
A Manquinha
Pulava numa perna só – bicando um grão aqui, um grão ali, enchendo o papo. Arrulhava, cabeça no ar, o peito cheio – com um orgulho triste. Os moleques espantavam as outras pombas – “Suas cagonas!” Ela, não; era respeitada – ou a gente tinha dó. Que pena a Manquinha, com o seu coto de perna! Fosse gente, teria uma muleta. Uma filhinha, que lhe traria um prato de comida. Ou nem teria essa filhinha – e ficaria, pobrezinha, num canto pedindo esmola. Já imagina
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11 dezembro
O peregrino
Levanta-te e anda!, disse aquele visionário de barba crespa e suja e olhos que anunciavam divindade. Lázaro, farto de mentiras sobre a vida e a morte, levantou-se e começou a caminhar. No meio da tarde estava já longe de tudo, do povoado coalhado de casebres, das hortas envelhecidas, de suas duas irmãs confusas e atônitas. Estava longe de si mesmo, e isso lhe deu algum alívio. No meio do caminho, parou e olhou para trás. De boa vontade teria dado graç
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11 dezembro
Um tom diferente na tinta da retina
No Renascimento foi inventada a sopa fortificante e restauradora, feita de carne de boi, carneiro e legumes, servida como refeição no século XVIII aos viajantes ou indivíduos extenuados, após um longo dia de trabalho. Era servida nas estalagens, tabernas e hospedarias, e devido aos seus efeitos benéficos, ganhou o nome de restaurant. Esses lugares não entregavam refeições para quem batesse em suas portas, e não seguiam o conceito de apresentar um car
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